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Reação aguda ao stress

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema

Em resumo

A reação aguda ao stress é o conjunto de sintomas emocionais, somáticos, cognitivos e comportamentais, transitórios, que surge depois de um acontecimento extremamente ameaçador ou horrível: uma catástrofe natural ou provocada, um acidente grave, uma agressão, violência sexual, o combate. Na CID-11 (código QE84) é tida como uma resposta normal à gravidade do que aconteceu e está classificada no capítulo dos fatores que influenciam o estado de saúde, fora das perturbações mentais. O DSM-5-TR descreve outra coisa, a perturbação de stress agudo: uma perturbação mental, com 9 ou mais de 14 sintomas e duração de 3 dias a 1 mês depois da exposição.

O quadro instala-se nas horas a dias que se seguem ao acontecimento: ansiedade com taquicardia, sudorese e rubor, tristeza, raiva, desespero, agitação ou inatividade, isolamento, e também atordoamento, confusão ou estupor. Começa a ceder em poucos dias, ou logo que a pessoa sai da situação ameaçadora, e a maioria recupera sem tratamento.

O diagnóstico é clínico e temporal. A confusão e o estupor fazem parte da reação, mas são também os sinais da hipoglicemia, da hipoxia, do traumatismo craniano, da intoxicação e do delirium, e por isso só se atribuem ao stress depois de excluída a causa orgânica.

O tratamento é o apoio: primeiros socorros psicológicos, segurança, necessidades básicas e ligação à família e aos serviços, sem forçar o relato. Não se faz debriefing psicológico de sessão única nem se dão benzodiazepinas no primeiro mês, porque não previnem a perturbação de stress pós-traumático e as benzodiazepinas se associam a pior evolução. Referencia-se quem tem lesões graves, quem não consegue cuidar de si ou dos filhos, quem pode fazer mal a si ou a outros e quem mantém sintomas; a perturbação de stress agudo trata-se com terapia cognitivo-comportamental focada no trauma, e sintomas para lá de um mês obrigam a avaliar a perturbação de stress pós-traumático.

O acontecimento

  • A causa necessária é um acontecimento excecional: um acidente ou um incêndio, uma agressão física ou sexual, a descoberta súbita de uma doença grave, o ferimento grave de alguém próximo no mesmo acidente.
  • A violência interpessoal intencional, sobretudo o combate e a violência sexual, pesa mais na evolução para o stress pós-traumático do que os acidentes e as catástrofes.

Vulnerabilidade

  • Pessoas expostas ao mesmo acontecimento reagem de forma diferente, o que aponta para a constituição, a experiência prévia e o estilo de coping.
  • A doença psiquiátrica prévia, e em particular a depressão e a dissociação antes do trauma, predispõem à perturbação de stress agudo.
  • Para o stress pós-traumático somam-se o trauma prévio, o sexo feminino, o neuroticismo e a falta de apoio social.

Resposta biológica

  • Eixo simpático-adrenomedular, em segundos: a noradrenalina e a adrenalina dão taquicardia, palpitações, sudorese e tremor, que são a face somática da reação.
  • Eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, em minutos a horas: o cortisol mobiliza energia e, por retroação negativa, contém a resposta; no stress pós-traumático descrevem-se cortisol plasmático baixo e maior sensibilidade à supressão pela dexametasona.
  • Amígdala e hipocampo: a inervação noradrenérgica da amígdala aumenta a ativação e facilita a codificação automática da memória traumática, enquanto a disfunção do hipocampo impede que essa memória seja processada.
  • Córtex pré-frontal ventromedial: no stress pós-traumático regula menos a amígdala, que fica hiperativa.

Mecanismos psicológicos

  • O evitamento é a estratégia de coping mais frequente, e a negação o mecanismo de defesa mais frequente. Na evolução normal recuam à medida que a ansiedade baixa, e a pessoa passa a conseguir pensar e falar no que aconteceu.
  • Quando este processamento falha, as memórias persistem por processar e intrudem sob a forma de imagens, flashbacks e pesadelos; o condicionamento do medo a pistas sensoriais (cheiros, sons) e a falha da extinção explicam as reações às lembranças.
  • Mantêm os sintomas o evitamento persistente, que impede a extinção, a supressão das memórias, a ruminação e a leitura negativa dos primeiros sintomas.
  • A dissociação peritraumática (despersonalização, desrealização, amnésia de parte do acontecimento) pode surgir na fase aguda.

O diagnóstico

  • É clínico e temporal: o que aconteceu, quando, e há quanto tempo duram os sintomas. Não há exame que o faça.
  • Perguntar pela saúde mental antes do acontecimento: se os sintomas já existiam, trata-se do agravamento de uma perturbação prévia.
  • Avaliar sempre o risco de suicídio e de violência contra outros, e se a pessoa consegue cuidar de si e de quem depende dela.

Excluir primeiro a causa orgânica

A confusão, o atordoamento e o estupor são compatíveis com a reação aguda, mas só se lhe atribuem depois de excluídas as causas médicas, que no mesmo cenário são frequentes.

  • Sinais vitais, oximetria de pulso, glicemia capilar e exame neurológico em todos.
  • Traumatismo craniano no mesmo acontecimento (acidente, agressão): exame neurológico obrigatório, e imagem quando indicada.
  • Álcool e outras substâncias, na intoxicação e na privação.
  • Dor, perda de sangue, sépsis e delirium.
Aponta para a reação ao stressAponta para causa orgânica
relação temporal clara com o acontecimentoinício sem relação com o acontecimento, ou agravamento depois de a pessoa estar a salvo
melhora ao ficar em segurança e acompanhadaatenção e vigilância que flutuam ao longo das horas
exame neurológico normalsinais focais, anisocoria, alteração da marcha
sinais vitais e glicemia que não explicam o quadrohipoxemia, hipoglicemia, febre, hipotensão

Diagnóstico diferencial

EntidadeAcontecimentoTempoO que distingue
Reação aguda ao stress (CID-11)extremamente ameaçador ou horrívelhoras a dias, cede em poucos diasresposta normal
Perturbação de stress agudo (DSM-5-TR)critério A3 dias a 1 mês9 de 14 sintomas, sofrimento ou disfunção
Perturbação de stress pós-traumáticoextremamente ameaçador; critério A no DSM-5-TRmais de 1 mês (DSM-5-TR); pelo menos várias semanas (CID-11)reexperiência, evitamento e sensação persistente de ameaça atual
Perturbação de adaptaçãoqualquer mudança ou stressor, mesmo não traumáticocomeça no primeiro mês (CID-11) ou até 3 meses (DSM-5-TR); resolve em cerca de 6 mesessintomas ligados ao stressor, sem o padrão traumático
Lutomorte de pessoa próximanormal; perturbação de luto prolongado só a partir de 6 meses (CID-11)foco na pessoa que morreu
Agravamento de perturbação préviaqualquervariávelsintomas presentes antes do acontecimento
Delirium, intoxicação, traumatismo cranianoqualquervariávelatenção que flutua, sinais focais, alterações nos sinais vitais ou na glicemia

Primeiros socorros psicológicos

É a intervenção que a Organização Mundial da Saúde recomenda para quem está em sofrimento intenso logo depois de um acontecimento traumático, em vez do debriefing psicológico. É ajuda humana e prática, que não tem de ser dada por profissionais de saúde mental, e organiza-se em três ações:

  • Observar: a segurança do local, quem precisa de cuidados médicos urgentes, quem está em sofrimento grave, quem precisa de atenção especial (crianças, pessoas com doença ou deficiência).
  • Escutar: perguntar pelas necessidades e preocupações, ficar perto, ajudar a acalmar, e escutar sem pressionar a pessoa a falar.
  • Ligar: às necessidades básicas (água, comida, abrigo), à informação fiável, às pessoas queridas e aos serviços.

Não é aconselhamento profissional, não obriga a discutir em pormenor o que aconteceu e não pede à pessoa que analise ou ordene os acontecimentos. Uma pessoa em sofrimento grave não se deixa sozinha até a reação passar ou até chegar ajuda.

O que não se faz

  • Debriefing psicológico, isto é, pedir à pessoa que reconte de forma breve e sistemática o que viu, pensou e sentiu, numa sessão única. Não reduz o sofrimento posterior e pode ser prejudicial. A Organização Mundial da Saúde recomenda com força que não se use, e o NICE (Instituto Nacional para a Excelência em Saúde e Cuidados, do Reino Unido) também o desaconselha.
  • Benzodiazepinas, para os sintomas agudos ou para a insónia no primeiro mês. Não trazem benefício, e nos estudos que o avaliaram o risco de vir a ter stress pós-traumático foi 2 a 5 vezes maior em quem as recebeu. A prática de dar um ansiolítico ou um hipnótico por uma ou duas noites, ainda descrita em alguns manuais, não é a das recomendações atuais.
  • Antidepressivos para prevenir o stress pós-traumático: não se mostraram úteis, e o NICE desaconselha qualquer fármaco para esse fim no adulto.

Vigiar e intervir cedo

  • A maioria recupera, e a atitude é a espera vigilante, com uma consulta de seguimento cerca de duas semanas depois do acontecimento para identificar quem não está a melhorar.
  • Quem tem sintomas abaixo do limiar no primeiro mês fica em vigilância ativa, com novo contacto dentro de 1 mês.
  • A perturbação de stress agudo, ou sintomas clinicamente importantes de stress pós-traumático no primeiro mês, tratam-se com terapia cognitivo-comportamental individual focada no trauma (terapia de processamento cognitivo, terapia cognitiva, terapia de exposição narrativa ou exposição prolongada), que é superior ao aconselhamento de apoio.

Referenciação

  • Urgente: lesões que ameaçam a vida; suspeita de causa orgânica; pessoa que não consegue cuidar de si ou dos filhos; risco de fazer mal a si própria ou a outros.
  • Psiquiatria ou psicologia: perturbação de stress agudo; sintomas que não cedem no seguimento; sintomas para lá de um mês; descompensação de uma doença psiquiátrica prévia; consumo de álcool ou drogas para lidar com o que aconteceu.

Referências

  1. Harrison P, Cowen P, Burns T, Fazel M. Reactions to stressful experiences. In: Shorter Oxford textbook of psychiatry. 7th ed. Oxford: Oxford University Press; 2018. p. 135-45.
  2. American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 5th ed, text revision (DSM-5-TR). Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing; 2022.
  3. World Health Organization. ICD-11 for mortality and morbidity statistics (version 2024-01): QE84 Acute stress reaction; 6B40 Post traumatic stress disorder. Geneva: WHO; 2024.
  4. Maercker A, Brewin CR, Bryant RA, Cloitre M, Reed GM, van Ommeren M, et al. Diagnosis and classification of disorders specifically associated with stress: proposals for ICD-11. World Psychiatry. 2013;12(3):198-206.
  5. Maercker A, Eberle DJ. What is post-traumatic stress disorder? Disorders specifically associated with stress in ICD-11. Clin Psychol Eur. 2022;4(Spec Issue):e9711.
  6. National Institute for Health and Care Excellence. Post-traumatic stress disorder. NICE guideline NG116. London: NICE; 2018.
  7. World Health Organization. Guidelines for the management of conditions specifically related to stress. Geneva: WHO; 2013.
  8. World Health Organization, War Trauma Foundation, World Vision International. Psychological first aid: guide for field workers. Geneva: WHO; 2011.
  9. Guina J, Rossetter SR, DeRhodes BJ, Nahhas RW, Welton RS. Benzodiazepines for PTSD: a systematic review and meta-analysis. J Psychiatr Pract. 2015;21(4):281-303.

11 perguntas sobre Reação aguda ao stress

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