Perturbação de stress pós-traumático
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema
A perturbação de stress pós-traumático (PSPT) é uma resposta intensa e prolongada a um acontecimento extremamente ameaçador ou horrível: combate, violação ou agressão, acidente grave, catástrofe, tortura, ou a morte súbita e violenta de alguém próximo. A maioria das pessoas expostas a um trauma não a desenvolve, e por isso a doença não é o efeito direto do acontecimento: é a falência da recuperação que normalmente se segue, sobre uma vulnerabilidade individual. A violência interpessoal intencional, sobretudo o combate e a violência sexual, pesa mais do que os acidentes e as catástrofes, e as mulheres adoecem mais.
O núcleo do quadro é a revivência: o acontecimento não é recordado, é vivido outra vez no presente, em memórias intrusivas, revivências e pesadelos. Juntam-se o evitamento dos lembretes, a sensação de ameaça permanente, com hipervigilância e sobressalto, e, no DSM-5-TR, as alterações negativas da cognição e do humor. O DSM-5-TR exige quatro agrupamentos e mais de um mês de sintomas; antes disso o diagnóstico é perturbação de stress agudo. A CID-11 exige três elementos e descreve uma forma complexa, que surge sobretudo depois de trauma prolongado ou repetido e que o DSM-5-TR não reconhece.
O diagnóstico é clínico. A depressão, o consumo de álcool e de outras substâncias e o risco de suicídio acompanham-na com frequência e procuram-se sempre; no acidente e na agressão, pensa-se também no traumatismo craniano.
O tratamento de primeira linha é a psicoterapia focada no trauma, acima de qualquer fármaco. Os antidepressivos (sertralina, paroxetina, venlafaxina) ficam para quem os prefere ou não tem acesso à psicoterapia, e nas crianças não se usam. O que não se pode falhar: não se dão benzodiazepinas, que não previnem nem tratam, e não se faz debriefing psicológico de sessão única depois do trauma, que não previne a doença e pode ser prejudicial.
O acontecimento
- É a causa necessária: um acontecimento excecional, que pode não ter ferido nem ameaçado a própria pessoa (o maquinista do comboio contra o qual alguém se atira, quem assiste a um acidente grave).
- Quanto maior a exposição, maior o risco; mesmo assim, nem todos os mais expostos adoecem.
- A violência interpessoal intencional, em particular o combate e a violência sexual, leva mais vezes à perturbação do que os acidentes e as catástrofes.
Vulnerabilidade
| Aumentam o risco | Protegem |
|---|---|
| perturbação do humor ou de ansiedade prévia | apoio social |
| trauma prévio | autoestima positiva e confiança |
| sexo feminino | vinculação segura |
| neuroticismo | |
| menor capacidade intelectual | |
| falta de apoio social |
- Nos estudos de gémeos, a variação genética explica cerca de um terço da suscetibilidade, depois de se ter em conta a exposição ao combate. Parte desse efeito passa pela personalidade, que torna mais provável a exposição a situações de risco.
Mecanismos psicológicos
- Condicionamento do medo e falência da extinção: estímulos do momento do trauma (um cheiro, um som) passam a desencadear a memória e a resposta de medo, e essa resposta não se extingue. É a base da terapia de exposição.
- Memória não processada: a carga emocional sobrecarrega o processamento normal, e a memória fica guardada em fragmentos, desorganizada e sem lugar no tempo. Por isso intrude no presente e é revivida em vez de recordada.
- Fatores de manutenção: a interpretação negativa dos primeiros sintomas («estou a enlouquecer»), o evitamento dos lembretes, que impede o descondicionamento e a reavaliação, a supressão das memórias intrusivas, que as torna mais frequentes, e a ruminação.
Neurobiologia
- Amígdala hiperativa, com controlo insuficiente pelo córtex pré-frontal ventromedial e pelo cíngulo anterior.
- Hipocampo de menor volume e disfuncional, o que impede o processamento adequado da memória; o menor volume pode ser um fator de vulnerabilidade prévio.
- Noradrenalina: tónus simpático aumentado, sobressalto exagerado e mais metabolito da noradrenalina no líquido cefalorraquidiano. A inervação noradrenérgica da amígdala aumenta a ativação e facilita a codificação automática da memória traumática. É o racional da prazosina, antagonista alfa-1, nos pesadelos.
- Eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal: ao contrário do que se esperaria, há evidência, algo contraditória, de cortisol plasmático baixo e de maior sensibilidade à supressão pela dexametasona, com hormona libertadora de corticotrofina aumentada no líquido cefalorraquidiano.
Critérios do DSM-5-TR
Critério A, a exposição: morte ou ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual, reais ou ameaçadas, por uma de quatro vias:
- vivência direta;
- testemunho presencial do que aconteceu a outros;
- saber que aconteceu a um familiar ou amigo próximo (morte ou ameaça de morte violenta ou acidental);
- exposição repetida ou extrema a pormenores aversivos, como os socorristas que recolhem restos humanos ou os polícias expostos a pormenores de abuso de crianças. A exposição pelos meios de comunicação, pela televisão ou por imagens não conta, exceto quando faz parte do trabalho.
| Agrupamento | Sintomas descritos | Mínimo exigido |
|---|---|---|
| Intrusão | memórias intrusivas, pesadelos, revivências, sofrimento com os lembretes, reação física aos lembretes | 1 de 5 |
| Evitamento | de pensamentos e sentimentos, de lembretes externos | 1 de 2 |
| Cognição e humor negativos | amnésia de partes do acontecimento, crenças negativas, culpabilização distorcida, estado emocional negativo, perda de interesse, desligamento dos outros, incapacidade de sentir emoções positivas | 2 de 7 |
| Ativação e reatividade | irritabilidade ou agressividade, comportamento de risco ou autodestrutivo, hipervigilância, sobressalto, má concentração, insónia | 2 de 6 |
- Duração superior a 1 mês, com sofrimento ou compromisso funcional, e sem se dever a substâncias, medicação ou outra doença.
- Especificadores: com sintomas dissociativos (despersonalização ou desrealização) e com expressão retardada, quando o quadro completo só se reúne pelo menos 6 meses depois do acontecimento.
- Pode diagnosticar-se em quem já tinha doença psiquiátrica antes do trauma.
Critérios da CID-11
- Exposição a um acontecimento, breve ou prolongado, extremamente ameaçador ou horrível.
- Síndrome que dura pelo menos várias semanas, com os três elementos: revivência no presente, evitamento deliberado dos lembretes e sensação persistente de ameaça atual.
- Refletir ou ruminar sobre o acontecimento não chega: a revivência tem de ser vivida como se estivesse a acontecer outra vez.
- PSPT complexa: todos os requisitos da PSPT, mais três perturbações da organização do self, graves e persistentes: desregulação do afeto, autoconceito negativo (sentir-se diminuído, derrotado ou sem valor, com vergonha e culpa) e dificuldade em manter relações. Surge sobretudo depois de trauma prolongado ou repetido de que é difícil ou impossível fugir: tortura, escravatura, genocídio, violência doméstica prolongada, abuso sexual ou físico repetido na infância.
| DSM-5-TR | CID-11 | |
|---|---|---|
| Agrupamentos | quatro | três |
| Cognição e humor negativos | agrupamento próprio | não é requisito |
| Duração | mais de 1 mês | pelo menos várias semanas |
| Forma complexa | não existe | existe |
Avaliação
- Perguntar diretamente pela revivência, pelo evitamento, pela hiperativação, pela dissociação e pelo humor, e pelo acontecimento, que pode ter sido há meses ou anos, sem obrigar a contar os pormenores.
- Avaliar sempre o risco de suicídio e de violência contra outros, o consumo de substâncias e a depressão.
- Quando o acontecimento incluiu traumatismo craniano (agressão, acidente de viação), fazer exame neurológico.
- Instrumentos: o padrão de referência é uma entrevista estruturada aplicada pelo clínico (CAPS-5, escala da PSPT administrada pelo clínico); para rastreio e monitorização usa-se um questionário de autorresposta de 20 itens, um por sintoma do DSM-5-TR (PCL-5).
Diagnóstico diferencial
| Entidade | O que distingue |
|---|---|
| Perturbação de stress agudo | o tempo: de 3 dias a 1 mês depois do trauma |
| Perturbação de adaptação | o fator de stress pode ser de qualquer gravidade, ou o quadro não reúne os critérios de PSPT |
| Episódio depressivo | as memórias pertencem ao passado e acompanham-se de ruminação; coexiste muitas vezes |
| Perturbação de pânico | na PSPT os ataques são desencadeados pelos lembretes; ataques espontâneos justificam o segundo diagnóstico |
| Fobia específica depois de um trauma | há medo e evitamento, sem revivência no presente |
| Luto prolongado | preocupação com as circunstâncias da morte, sem a reviver no presente |
| Psicose | as pseudoalucinações da PSPT são reconhecidas como pensamentos próprios |
| Traumatismo craniano | coexiste e partilha sintomas (concentração, irritabilidade, sono); avaliar os dois |
| Agravamento de perturbação prévia | os sintomas já existiam antes do acontecimento |
Logo a seguir ao acontecimento
- Primeiros socorros psicológicos: ajuda humana e prática, sem forçar o relato. Garantir a segurança, atender às necessidades básicas, escutar, ligar a pessoa aos seus e aos serviços.
- Não se faz debriefing psicológico, isto é, pedir à pessoa que reconte numa sessão única o que aconteceu, o que pensou e o que sentiu, individualmente ou em grupo. Não reduz o sofrimento posterior, não previne a perturbação e pode ser prejudicial.
- Não se dão fármacos para prevenir, incluindo as benzodiazepinas. Tratamentos que aumentam os níveis de corticosteroides estão em investigação.
No primeiro mês
- Vigilância ativa em quem tem sintomas abaixo do limiar: acompanhar sem intervir, com novo contacto no prazo de 1 mês. A maioria recupera sem tratamento.
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC) focada no trauma, individual, no adulto com perturbação de stress agudo ou com sintomas de PSPT clinicamente importantes no primeiro mês. Só nos sintomáticos, e nunca a toda a gente exposta.
- Na criança e no adolescente com os mesmos critérios, vigilância ativa ou TCC focada no trauma individual; depois de um trauma coletivo de grande escala no último mês, pode considerar-se TCC focada no trauma em grupo dos 7 aos 17 anos.
Rastreio dirigido
- Depois de uma catástrofe, em quem tem alto risco, um instrumento de rastreio breve e validado 1 mês depois do acontecimento, previsto no plano de resposta.
- Nos refugiados e requerentes de asilo com alto risco, integrado na avaliação global de saúde física e mental.
- No serviço de urgência, explicar aos pais de uma criança envolvida num acontecimento traumático as reações normais e os sintomas a vigiar, e pedir que procurem o médico de família se persistirem para lá de 1 mês.
Prevenção primária
- Reforçar o apoio social, que protege e é modificável.
- Prevenir a revitimização: cessar a exposição na violência doméstica, proteger as crianças maltratadas e os refugiados.
- Os planos de resposta a catástrofes preveem ajuda prática imediata, apoio às comunidades e acesso a avaliação e tratamento especializados.
Psicoterapia focada no trauma: primeira linha
As psicoterapias estruturadas têm efeitos maiores do que os fármacos, e por isso são a primeira linha. No fim da terapia, cerca de metade dos doentes já não cumpre os critérios, embora muitos mantenham algum grau de sintomas.
- TCC focada no trauma, no adulto com PSPT ou sintomas importantes mais de 1 mês depois do acontecimento, em regra em 8 a 12 sessões (mais quando os traumas são múltiplos). Inclui a terapia de processamento cognitivo, a terapia cognitiva para a PSPT, a exposição prolongada e a terapia de exposição narrativa. Os componentes: informação sobre a resposta normal ao stress, automonitorização, exposição em imaginação e depois ao vivo ao que se evita, recuperação das imagens do trauma para as integrar na restante experiência, reestruturação cognitiva das interpretações, e gestão da raiva.
- EMDR (dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares): o doente recorda as memórias-alvo enquanto recebe estimulação bilateral repetida, em regra movimentos oculares, até que deixem de causar sofrimento. Oferece-se ao adulto com PSPT mais de 3 meses depois de um trauma não relacionado com combate, e considera-se entre 1 e 3 meses se o doente o preferir; em regra 8 a 12 sessões. Tem efeitos semelhantes aos da TCC, e discute-se se os movimentos oculares acrescentam algo à exposição.
- Terapia de exposição narrativa: integra o trauma numa narrativa cronológica da vida, construída com o terapeuta. Nasceu para quem viveu traumas múltiplos, nos campos de refugiados, e pode ser aplicada por terapeutas leigos.
- A TCC informatizada com apoio é uma alternativa depois dos 3 meses em quem a prefere, desde que não tenha sintomas graves, dissociação marcada nem risco para si ou para outros.
- As intervenções menos específicas (gestão do stress, terapia de apoio, hipnoterapia) são menos eficazes.
Fármacos: segunda linha
Não se usam por rotina em vez da psicoterapia focada no trauma. Consideram-se quando o doente prefere tratamento farmacológico, quando a psicoterapia não está disponível ou não resultou, e quando há depressão importante.
| Fármaco | Papel | Notas |
|---|---|---|
| Sertralina, paroxetina (inibidores seletivos da recaptação da serotonina, ISRS) | primeira escolha farmacológica | reavaliar com regularidade |
| Venlafaxina (inibidor da recaptação da serotonina e da noradrenalina, IRSN) | alternativa com a mesma posição | reavaliar com regularidade |
| Antipsicóticos (ex.: risperidona) | adjuvante da psicoterapia, iniciado por especialista | só com sintomas incapacitantes (hiperativação grave, sintomas psicóticos) que não responderam a outros tratamentos |
| Prazosina (antagonista alfa-1) | pesadelos | recomendação fraca a favor nos pesadelos e contra para o conjunto dos sintomas; os estudos pequenos foram positivos e o maior ensaio foi negativo; a NICE NG116 não a inclui nas suas recomendações (publicada em 2018, antes do maior ensaio que a contrariou); hipotensão ortostática |
Benzodiazepinas: não
Não são recomendadas nem para prevenir nem para tratar. Não melhoram a perturbação, associam-se a pior evolução, podem interferir com a extinção do medo que a exposição procura, e trazem risco de dependência numa população em que o consumo de substâncias já é frequente.
Comorbilidade e risco
- Depressão: trata-se primeiro a PSPT, porque a depressão melhora muitas vezes com ela; trata-se primeiro a depressão quando é grave ao ponto de impedir a psicoterapia, ou quando há risco para o próprio ou para outros.
- Álcool e drogas: o consumo não exclui, por si, o tratamento da PSPT; trata-se também a dependência.
- Risco de suicídio: avaliar em todas as consultas e, quando existe, fazer um plano de segurança com o doente (e com a família, se adequado) antes de começar o tratamento. Em Portugal, a Linha SNS 24 (808 24 24 24) tem aconselhamento psicológico, e a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico atende pelo 1411, 24 horas por dia.
- PSPT complexa e outras necessidades acrescidas: mais tempo e mais sessões para construir confiança, atenção à estabilidade da vida do doente (habitação, segurança), e trabalhar primeiro o que impede a terapia focada no trauma: consumo de substâncias, dissociação, desregulação emocional, dificuldades relacionais e autoconceito negativo.
Referências
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- Serviço Nacional de Saúde. SNS 24: Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico 1411 [Internet]. Lisboa: SPMS; 2025 [citado 2026 set 28]. Disponível em: https://www.sns24.gov.pt/servico/linha-nacional-de-prevencao-do-suicidio
11 perguntas sobre Perturbação de stress pós-traumático
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
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