Perturbações relacionadas com o uso de substânciasCocaína, halucinogénios, solventes inalatóriosPublicado (Premium)

Cocaína, halucinogénios, solventes inalatórios

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 22 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema

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Em resumo

Este capítulo cobre três farmacologias que a matriz agrupa num só título mas que nada têm em comum no mecanismo: os alucinogénios, os solventes inalatórios e o que falta dizer sobre a cocaína. A intoxicação simpaticomimética aguda por cocaína (dor torácica, enfarte, regra do betabloqueante, disseção aórtica, hipertermia, rabdomiólise) e o MDMA já estão desenvolvidos no capítulo publicado «Opioides, canabinoides, estimulantes» — aqui remete-se e não se repete. O centro de gravidade é outro: distinguir alucinogénio clássico (insight preservado) de dissociativo (nistagmo multidirecional, analgesia, agitação violenta) e de síndrome anticolinérgica (delirium, ou seja, estado confusional agudo, e pele seca); dominar a síndrome da morte súbita por inalação, com a implicação prática de não confrontar nem perseguir o adolescente intoxicado; e reconhecer as toxicidades de órgão que caem em exame — tolueno (acidose tubular renal distal com hipocaliémia grave e leucoencefalopatia), óxido nitroso (défice funcional de B12, com B12 sérica que pode ser normal), nitritos (metemoglobinémia) e levamisol (agranulocitose). Relevância B, mas com pontos de altíssimo rendimento porque são armadilhas de diagnóstico diferencial.

Alucinogénios clássicos: o agonismo 5-HT2A e porque não geram compulsão

O denominador comum do LSD, da psilocibina (pró-fármaco desfosforilado a psilocina), da mescalina e do DMT é o agonismo do recetor 5-HT2A nos neurónios piramidais da camada V do córtex, sobretudo pré-frontal. A ativação destes recetores aumenta a libertação de glutamato e desorganiza o filtro tálamo-cortical da informação sensorial: o córtex passa a processar como "novo" aquilo que normalmente ignora. Daí as alterações percetivas (intensificação das cores, geometrização, rastos de imagens, sinestesias) e a distorção da vivência do tempo e do eu, com o nível de consciência e a orientação preservados — a base neurobiológica de o insight se manter.

Dois traços farmacológicos explicam o padrão de uso e devem ser sabidos:

  • Tolerância rapidíssima (taquifilaxia) por downregulation dos 5-HT2A: ao fim de dois a quatro dias de uso diário o efeito praticamente desaparece, e há tolerância cruzada entre LSD, psilocibina e mescalina. Isto torna o uso diário farmacologicamente inútil e limita, na prática, a escalada.
  • Não ativam diretamente a via dopaminérgica mesolímbica de reforço. Consequência: potencial aditivo baixo, ausência de compulsão típica e ausência de síndrome de privação física. O risco destas substâncias é comportamental e psiquiátrico, não de dependência física.

O DMT é inativado pela MAO intestinal, pelo que é inativo por via oral isoladamente; a ayahuasca resolve isto associando β-carbolinas inibidoras da MAO (harmina, harmalina). É esta associação — e não o DMT em si — que cria o risco farmacológico central: um inibidor da MAO ingerido por quem toma um ISRS, um IMAO ou um triptano, com risco de síndrome serotoninérgica. Os NBOMe diferem por serem agonistas totais e ativos em microgramas, com componente simpaticomimética marcada, convulsões e hipertermia — a lógica é a mesma do agonista parcial versus total em farmacologia geral.

A hipótese fisiopatológica dominante para a HPPD é a perda de inibição no córtex visual, por lesão funcional de interneurónios GABAérgicos, deixando os circuitos visuais cronicamente desinibidos — apresenta-se como hipótese, porque não está demonstrada.


Dissociativos: bloqueio do NMDA, desinibição glutamatérgica e as suas consequências

A fenciclidina e a cetamina bloqueiam o canal iónico do recetor NMDA a partir de dentro (sítio da PCP), com bloqueio dependente do uso. O alvo preferencial são os interneurónios GABAérgicos de parvalbumina, cuja inibição liberta os neurónios piramidais: o resultado paradoxal do bloqueio de um recetor excitatório é um surto de glutamato cortical com ativação de recetores AMPA. Deste mecanismo derivam três coisas aparentemente desconexas:

  1. O modelo farmacológico da psicose. Ao contrário dos alucinogénios clássicos, os antagonistas NMDA reproduzem sintomas positivos e negativos e alterações cognitivas — é o modelo glutamatérgico da esquizofrenia (ver capítulo publicado de Esquizofrenia).
  2. O efeito antidepressivo rápido da cetamina, mediado pelo surto AMPA e pela plasticidade sináptica subsequente — desenvolvido no capítulo publicado de Depressão, para onde se remete.
  3. A analgesia e a dissociação corpo-mente, que explicam o uso anestésico e, no contexto recreativo, a lesão sem dor e a subestimação do perigo.

A fenciclidina acrescenta bloqueio da recaptação de dopamina e noradrenalina e ação em recetores sigma e nicotínicos — daí a hipertensão, a agitação de tipo simpaticomimético, a rigidez e as convulsões, que a cetamina em doses recreativas raramente atinge. O nistagmo horizontal, vertical e rotatório traduz o efeito sobre circuitos vestíbulo-cerebelosos e é o sinal semiológico mais discriminativo.

No uso crónico de cetamina, os metabolitos excretados na urina são urotóxicos e provocam cistite ulcerativa com fibrose e contração vesical; a mesma via de toxicidade por metabolitos explica a colangiopatia/hepatopatia biliar com dilatação do colédoco.


Anticolinérgicos: um delirium, não uma alucinação

O bloqueio muscarínico central produz delirium (estado confusional agudo) — desorientação, discurso incoerente, alucinações habitualmente visuais e táteis vividas como reais, sem insight e com flutuação da consciência. O bloqueio periférico dá a síndrome tóxica que se vê à cabeceira: midríase pouco reativa, taquicardia, pele seca, quente e ruborizada, mucosas secas, retenção urinária, íleus com ausência de ruídos hidroaéreos e hipertermia por incapacidade de sudar — este último ponto é fisiopatologicamente decisivo, porque significa que o doente não tem a via principal de dissipação de calor.

A fisostigmina é o antídoto porque, sendo uma amina terciária, atravessa a barreira hematoencefálica (ao contrário da neostigmina, quaternária) e inverte também o componente central. Ressalva de prática portuguesa: a fisostigmina não tem medicamento comercializado em Portugal, dependendo do stock hospitalar de antídotos ou de autorização de utilização excecional do INFARMED — pelo que, no SNS, o tratamento é sobretudo de suporte (benzodiazepina, arrefecimento, hidratação) e se deve contactar precocemente o CIAV — Centro de Informação Antivenenos do INEM (800 250 250, gratuito, 24 h), que orienta a indicação e o acesso ao antídoto. Só deve ser usada perante uma síndrome anticolinérgica pura e confirmada, com monitorização contínua e atropina disponível: está contraindicada se houver alargamento do QRS (>100 ms), bradicardia ou bloqueio auriculoventricular, broncospasmo/asma, ou obstrução intestinal ou urinária, e perante suspeita de coingestão de antidepressivo tricíclico, situação em que pode precipitar convulsões e assistolia. Atenção ao caso particular deste capítulo: os anti-histamínicos de 1.ª geração (difenidramina), aqui listados entre os anticolinérgicos de abuso, bloqueiam também os canais de sódio e alargam o QRS em sobredosagem — nesses doentes a fisostigmina fica suspensa até o QRS estreitar com bicarbonato de sódio, e a agitação trata-se primeiro com benzodiazepina.


Solventes: porque agem em segundos e porque matam de forma súbita

Os solventes são pequenas moléculas muito lipofílicas, absorvidas pela enorme superfície alveolar e a chegar ao cérebro em segundos; a euforia dura minutos, o que leva a inalações repetidas em sequência ao longo de horas. O mecanismo é o dos anestésicos voláteis e do álcool: potenciação do GABA-A e do recetor da glicina e inibição do NMDA. Daí o quadro de "embriaguez sem álcool" — desinibição, ataxia, disartria, nistagmo — que progride para depressão do SNC, estupor e coma com doses sucessivas.

A regra de segurança central do capítulo é mecanística. Os hidrocarbonetos, sobretudo os halogenados, sensibilizam o miocárdio às catecolaminas, baixando o limiar arritmogénico. Enquanto o adolescente estiver calmo, o coração aguenta; se levar um susto, correr, ser perseguido ou confrontado, a descarga adrenérgica endógena pode precipitar fibrilhação ventricular — a síndrome da morte súbita por inalação. Duas consequências práticas, ambas contraintuitivas: não assustar, não perseguir e não confrontar a pessoa em intoxicação aguda por solventes; e evitar adrenalina e outras catecolaminas na reanimação destes casos sempre que exista alternativa. Neste contexto específico — e ao contrário do que se aprende para a cocaína, cuja regra está no capítulo publicado dos estimulantes — os betabloqueantes (esmolol, propranolol) são a opção antiarrítmica preferida nas disritmias por sensibilização a hidrocarbonetos halogenados. A ressalva é o policonsumo, que é a regra no contexto festivo descrito adiante: havendo suspeita de cocaína ou de outro estimulante a bordo, o betabloqueante não seletivo deixa de ser seguro (estimulação α não contrariada) — nesse doente começa-se por benzodiazepina e arrefecimento, com bicarbonato de sódio se o QRS estiver alargado, reservando-se o esmolol titulado (semivida curta, reversível) ou a amiodarona para as disritmias que persistam. Some-se a hipoxia por deslocamento do oxigénio (bagging, gases inertes, ar comprimido) como segundo mecanismo de morte.

Toxicidade específica por agente — o porquê de cada uma

AgenteMecanismoConsequência clínica
ToluenoInterfere com a acidificação distal do nefrónio; alta afinidade pela mielinaAcidose tubular renal distal: acidose metabólica hiperclorémica de hiato aniónico normal com hipocaliémia grave; leucoencefalopatia e défice cognitivo permanente
n-HexanoMetabolizado a 2,5-hexanodiona, que estabelece ligações cruzadas nos neurofilamentosPolineuropatia axonal distal, sensitivo-motora, de instalação lenta
BenzenoMetabolitos (hidroquinona, benzoquinona) tóxicos para a célula estaminal medularAplasia medular e leucemia mieloide aguda
TricloroetilenoMetabolitos hepatotóxicos; neurotoxicidade seletivaHepatotoxicidade; neuropatia do trigémeo
Óxido nitrosoOxida o cobalto da cobalamina → inativa irreversivelmente a metionina sintaseDegenerescência combinada subaguda da medula; ↑homocisteína e ↑ácido metilmalónico com B12 sérica que pode ser normal
Nitritos («poppers»)Oxidam o Fe²⁺ da hemoglobina a Fe³⁺Metemoglobinémia: cianose que não corrige com oxigénio, sangue "cor de chocolate"

No caso do óxido nitroso, o ponto de alto rendimento é o défice funcional: como a lesão é a inativação da enzima e não a falta da vitamina, doseia-se ácido metilmalónico e homocisteína, ambos elevados, e não se exclui o diagnóstico por uma B12 normal. Nos nitritos, o azul de metileno funciona como cofator da via NADPH-metemoglobina redutase, mas é ineficaz e pode causar hemólise no défice de G6PD — pelo que, nesse doente, a alternativa é o suporte com oxigénio e, se necessário, exsanguinotransfusão. Duas ressalvas que este capítulo torna obrigatórias, porque descrevem a sua própria população: (1) o azul de metileno é um inibidor potente da MAO-A e pode precipitar síndrome serotoninérgica em quem toma ISRS/IRSN, IMAO, tramadol ou hipericão, ou em quem consumiu ayahuasca — exatamente o consumidor de «poppers» em contexto de chemsex; se for indispensável (metemoglobinémia sintomática ou fração superior a 30 %), usa-se a menor dose eficaz (1 mg/kg EV) sob vigilância de clónus, hipertermia e estado mental, e não se repete cegamente a dose; (2) está contraindicado na gravidez por toxicidade fetal, pelo que na grávida se recorre a oxigénio, correção da causa e, nas formas graves, exsanguinotransfusão.


Cocaína crónica: neuroadaptação, isquemia local e adulterantes

A cocaína bloqueia o transportador da dopamina (DAT) — e também os da noradrenalina e serotonina — aumentando a dopamina sináptica no nucleus accumbens. O uso repetido produz redução da disponibilidade de recetores D2 estriatais e hipofrontalidade, com sensibilização dos circuitos de saliência de incentivo: os sinais associados ao consumo ganham poder motivacional enquanto os reforços naturais o perdem. É este desequilíbrio, e não a "falta de vontade", que explica a recaída perante um estímulo condicionado meses depois. O «crash» pós-consumo traduz a depleção transitória de monoaminas.

A cocaína é ainda um potente vasoconstritor local por ação α-adrenérgica. Na via nasal, a isquemia repetida da mucosa somada ao trauma mecânico e aos adulterantes provoca necrose progressiva do septo. Na via fumada, a lesão térmica e química direta do epitélio alveolar está na origem do «crack lung» (pneumonite aguda com infiltrados e, por vezes, hemorragia alveolar).

O levamisol, anti-helmíntico e imunomodulador, é o adulterante clinicamente mais relevante e é adicionado porque um dos seus metabolitos tem propriedades estimulantes. A prevalência caiu de forma marcada na última década: onde antes surgia em um terço a metade das amostras europeias analisadas, os serviços europeus de drug checking detetaram-no, em 2025, em cerca de 3 % das amostras de cocaína — atrás da cafeína (5 %) e da procaína e da fenacetina (4 % cada). Continua, ainda assim, a ser o adulterante que dá quadro clínico próprio, pelo que a suspeita se mantém obrigatória perante neutropenia ou necrose cutânea em quem consome cocaína. Provoca agranulocitose e uma vasculite associada a ANCA (frequentemente com positividade simultânea para MPO e PR3, padrão raro noutras vasculites), com púrpura retiforme e necrose cutânea de predomínio nos pavilhões auriculares — a associação "neutropenia + necrose das orelhas" é praticamente patognomónica de exposição a levamisol.

O diagnóstico é sindromático e faz-se à cabeceira

Na urgência, o objetivo não é identificar a molécula — é reconhecer a síndrome tóxica e agir. Quatro variáveis resolvem quase todos os casos: estado de consciência e insight, pupilas, pele (húmida ou seca) e presença de nistagmo. A anamnese colateral (acompanhantes, contexto, objetos encontrados) vale mais do que qualquer análise, sobretudo nos solventes e nos alucinogénios, que não aparecem nos rastreios toxicológicos de rotina.

Alucinogénio clássicoDissociativo (PCP/cetamina)AnticolinérgicoSolvente inalatório
ConsciênciaVígil, lúcidoFlutuante, dissociadoDelirium, flutuanteDeprimida e progressiva
InsightPreservado («é da droga»)AusenteAusenteVariável
PupilasMidríaseNormais ou mióticasMidríase pouco reativaNormais
PeleHúmida, sudoreseSudoreseSeca, quente, ruborizadaNormal; rash perioral
NeurológicoSem nistagmo, tremor finoNistagmo H + V + rotatório, ataxia, rigidez, analgesiaMioclonias, tremorNistagmo, ataxia, disartria
Cardiovascular↑ligeiro FC/TA↑↑TA, taquicardiaTaquicardiaVariável; risco de FV
Achado que fecha o casoAlucinação geométrica com críticaAgitação violenta com analgesia e nistagmo verticalAusência de ruídos intestinais + pele secaOdor químico, resíduos de tinta, embriaguez sem odor a álcool

A intoxicação simpaticomimética por cocaína entra neste diferencial mas está desenvolvida no capítulo publicado «Opioides, canabinoides, estimulantes» — retenha-se apenas a regra de contraste: sudorese e midríase com ruídos intestinais presentes apontam para simpaticomimético; pele seca e íleus apontam para anticolinérgico.


Critérios operacionais do DSM-5-TR (usar como tal, não misturar com a CID)

Intoxicação por outro alucinogénio: uso recente; alterações comportamentais ou psicológicas problemáticas (ansiedade marcada, ideias de referência, receio de "enlouquecer", ideação paranoide); alterações percetivas em estado de vigília e alerta plenos (intensificação subjetiva das perceções, despersonalização, desrealização, ilusões, alucinações, sinestesias); e ≥2 de: midríase, taquicardia, sudorese, palpitações, visão turva, tremores, incoordenação. O elemento decisivo é o terceiro: vigília plena.

Intoxicação por fenciclidina: uso recente; comportamento problemático (beligerância, agressividade, imprevisibilidade, agitação psicomotora); e, na primeira hora, ≥2 de: nistagmo vertical ou horizontal, hipertensão ou taquicardia, adormecimento ou resposta diminuída à dor, ataxia, disartria, rigidez muscular, convulsões ou coma, hiperacusia.

Intoxicação por inalantes: exposição recente, intencional ou não, a inalantes à base de hidrocarbonetos; alterações comportamentais/psicológicas problemáticas; e ≥2 de: tonturas, nistagmo, incoordenação, discurso arrastado, marcha instável, letargia, reflexos diminuídos, lentificação psicomotora, tremor, fraqueza muscular generalizada, visão turva ou diplopia, estupor ou coma, euforia.

HPPD: após cessação do uso, reexperiência de um ou mais sintomas percetivos vividos durante a intoxicação (alucinações geométricas, falsa perceção de movimento no campo visual periférico, flashes de cor, cores intensificadas, rastos de objetos em movimento, pós-imagens positivas, halos, macropsia/micropsia); com mal-estar ou compromisso funcional; e não atribuível a outra condição médica (lesão anatómica, infeção do SNC, epilepsia occipital) nem melhor explicada por outra perturbação mental (delirium, perturbação neurocognitiva, esquizofrenia) ou por alucinações hipnopômpicas.


Exame objetivo dirigido — o que não se pode deixar de procurar

  • Face e vias respiratórias: «glue sniffer's rash» — eritema, descamação e fissuras perinasais e periorais, por contacto repetido; resíduos de tinta ou cola na face, mãos e roupa; odor químico persistente no hálito e no vestuário.
  • Nariz: rinorreia crónica, crostas, ulceração e perfuração do septo na via nasal da cocaína; nos casos avançados, destruição osteocartilaginosa da linha média com alteração do timbre da voz e deformidade em sela — diferencial obrigatório com granulomatose com poliangiite e com linfoma NK/T da linha média.
  • Pele: púrpura retiforme com necrose dos pavilhões auriculares (levamisol); marcas de venopunção; queimaduras dos lábios e dedos (cachimbo aquecido).
  • Sinais vitais completos, incluindo temperatura central — a hipertermia é o determinante prognóstico partilhado por quase todas estas intoxicações.

Exames complementares: o que pedir e como interpretar

Sempre, em qualquer alteração do estado de consciência: glicémia capilar. A seguir, orientado pela síndrome:

  • ECG de 12 derivações: duração do QRS e do QTc, disritmias; obrigatório nos solventes (sensibilização miocárdica) e sempre que se pondere um antipsicótico.
  • Ionograma com potássio, gasimetria e cálculo do hiato aniónico: no adolescente com fraqueza muscular, acidose metabólica hiperclorémica de hiato aniónico normal com hipocaliémia grave é, até prova em contrário, abuso de tolueno — e a hipocaliémia pode ser suficientemente profunda para causar paralisia e arritmia, pelo que se corrige antes de qualquer outra investigação. Nota de segurança: a acidose favorece a saída de potássio da célula, pelo que corrigir a acidose sem repor potássio agrava a hipocaliémia.
  • Creatinina, CK e mioglobinúria: rabdomiólise na agitação por PCP, na contenção prolongada e na hipertermia.
  • Co-oximetria (e não apenas oximetria de pulso) se houver cianose que não responde ao oxigénio: na metemoglobinémia, a SpO₂ do oxímetro de pulso tende a "encravar" perto dos 85 % independentemente da FiO₂, com PaO₂ arterial normal — a dissociação entre SpO₂ baixa e PaO₂ normal é o achado que faz o diagnóstico.
  • Hemograma com contagem diferencial perante febre, úlceras orais ou infeção em pessoa que consome cocaína: procurar agranulocitose por levamisol; se houver lesões cutâneas necróticas, pedir ANCA (padrão MPO e PR3 simultâneos).
  • Homocisteína e ácido metilmalónico (e não apenas B12) na suspeita de abuso de óxido nitroso; RM medular com hipersinal em T2 dos cordões posteriores (aspeto "em V invertido" nos cortes axiais) e eletromiografia se houver défice.
  • TC crânio-encefálica se défice focal, traumatismo, convulsão de novo ou não recuperação esperada; punção lombar se se mantiver a hipótese de infeção do SNC.

Testagem toxicológica: o que os painéis não detetam

O rastreio urinário de rotina cobre habitualmente anfetaminas, metabolito da cocaína, opiáceos, canabinoides, benzodiazepinas e barbitúricos. Não deteta LSD, psilocibina, DMT, mescalina, NBOMe, solventes voláteis, óxido nitroso, GHB nem, na maioria dos painéis, a cetamina. Um rastreio negativo, portanto, não torna improvável nenhuma das intoxicações centrais deste capítulo — e é um erro clássico usá-lo para as excluir.

  • A fenciclidina tem imunoensaio próprio, com falsos positivos bem descritos (dextrometorfano, cetamina, venlafaxina, difenidramina, tramadol) — pelo que um positivo isolado, sem clínica compatível, deve ser confirmado.
  • A cocaína deteta-se pelo metabolito benzoilecgonina, um dos ensaios mais específicos que existem: a lidocaína e a procaína não dão falso positivo, mas a cocaína usada topicamente em cirurgia otorrinolaringológica dá verdadeiro positivo. Janela aproximada: 2 a 4 dias após uso ocasional, podendo estender-se 1 a 2 semanas no consumo intenso e prolongado.
  • Nos solventes, o doseamento sérico por cromatografia gasosa raramente está disponível na urgência; no contexto ocupacional, o ácido hipúrico urinário foi o biomarcador clássico de exposição ao tolueno, mas deixou de ser recomendado por falta de especificidade — o benzoato da dieta eleva-o e mascara a exposição laboral —, sendo hoje usados o o-cresol urinário e o doseamento do próprio tolueno na urina e no sangue. Na prática clínica de urgência, o diagnóstico é feito pela história e pelo exame objetivo.

Diagnóstico diferencial psiquiátrico e a orientação imediata que dele decorre

A questão mais frequente é distinguir experiência alucinatória com insight de psicose. A favor de intoxicação por alucinogénio clássico: predomínio de alucinações visuais geométricas, crítica preservada («sei que é da substância»), início e fim ligados ao consumo, ausência de sintomas negativos e de desorganização persistente. A favor de perturbação psicótica primária: alucinações auditivas, delírios estruturados, evolução para além da eliminação da substância (ver capítulo publicado de Esquizofrenia).

Daqui decorre a conduta, e é aqui que uma regra geral verdadeira se pode tornar perigosa. Na «bad trip» — uma reação aguda de ansiedade/pânico com o juízo alterado — a abordagem de primeira linha é ambiente calmo, baixa estimulação, presença tranquilizadora e reorientação verbal («talking down»), com benzodiazepina se a ansiedade ou a agitação não cederem. O antipsicótico não é primeira linha aqui: os de baixa potência têm efeito anticolinérgico (que agrava a hipertermia e pode descompensar uma intoxicação anticolinérgica não reconhecida, como a do estramónio ou a de um anti-histamínico de 1.ª geração — note-se que o NBOMe não é anticolinérgico, é um agonista 5-HT2A total, e nele o bloqueio dopaminérgico não trata a componente serotoninérgica e soma-se ao risco de hipertermia e de convulsões), baixam o limiar convulsivo e causam hipotensão. A exceção, na mesma frase: se a agitação for refratária a doses adequadas de benzodiazepina, pode usar-se um antipsicótico de alta potência (p. ex. haloperidol), obrigatoriamente com monitorização do QT, da temperatura central e do estado hidroeletrolítico, e nunca como substituto do arrefecimento.

Na intoxicação por fenciclidina, a abordagem é a mesma na estrutura mas mais exigente: benzodiazepina em doses tituladas como contenção química, quarto com estímulos reduzidos, e contenção física apenas transitória — a contenção mantida em quem tem agitação, rigidez e analgesia agrava a rabdomiólise e a hipertermia e já provocou mortes; se for indispensável, deve ser acompanhada de sedação eficaz, arrefecimento e hidratação, com reavaliação frequente.

Na intoxicação por solventes, a intervenção mais importante não é farmacológica: manter o ambiente calmo e não confrontar, oxigenar, monitorizar o ritmo e evitar catecolaminas, pelas razões expostas em «Mecanismos».

Alucinogénios e solventes: reconhecer e agir Figura de diferencial rápido em três blocos por mecanismo (clássicos serotoninérgicos, dissociativos NMDA e anticolinérgicos) e faixa inferior de alerta sobre morte súbita por inalação de solventes halogenados. Alucinogénios e solventes: reconhecer e agir Diferencial rápido por mecanismo e a regra de segurança que define o capítulo. 1 · CLÁSSICOS (serotoninérgicos, agonistas 5-HT2A) LSD, psilocibina, mescalina, DMT • Alterações percetivas com INSIGHT PRESERVADO: o doente sabe que o que vê vem da droga. • Midríase, taquicardia, sinestesias, tremor. • Pele suada; sem sinais anticolinérgicos periféricos. CONDUTA Ambiente calmo, luz baixa, reorientação e tranquilização. Benzodiazepina se necessário. Antipsicótico não em 1.ª linha. 2 · DISSOCIATIVOS (antagonistas NMDA) Fenciclidina (PCP), cetamina • Agitação violenta com ANALGESIA (não sente a dor). NISTAGMO horizontal, vertical e rotatório: a soma dos três é muito característica. • Ataxia, hipertensão, rigidez, pele suada. CONDUTA Benzodiazepina; baixa estimulação sensorial. Vigiar rabdomiólise (CK) e hipertermia; hidratar. 3 · ANTICOLINÉRGICOS (bloqueio muscarínico) Estramónio (figueira-do-inferno), escopolamina Delírio verdadeiro, SEM insight nem crítica. • Midríase, pele seca e quente, rubor, febre, sede. • Retenção urinária, íleus, taquicardia. CHAVE DIFERENCIAL Insight preservado: clássicos. Sem insight + pele seca e quente: anticolinérgicos. Pele suada + nistagmo: PCP. ! MORTE SÚBITA POR INALAÇÃO (solventes inalatórios) Os hidrocarbonetos halogenados sensibilizam o miocárdio às catecolaminas. Inalação de hidrocarboneto halogenado (cola, tinta) Miocárdio sensibilizado às catecolaminas Descarga adrenérgica FIBRILHAÇÃO VENTRICULAR Basta um susto, uma corrida ou um confronto para desencadear a descarga. NÃO assustar · NÃO perseguir · NÃO confrontar o adolescente em intoxicação aguda Na reanimação, evitar catecolaminas sempre que haja alternativa. Dois marcadores de órgão de alto rendimento Tolueno: acidose tubular renal (hiperclorémica) com hipocaliémia e fraqueza. Protóxido de azoto: inativa a B12; a B12 sérica pode ser NORMAL, doseia ácido metilmalónico.

Referências

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8 perguntas sobre Cocaína, halucinogénios, solventes inalatórios

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

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