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Perturbação psicótica aguda e transitória

Matriz PNA:D · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 9 perguntas neste tema

Em resumo

A perturbação psicótica aguda e transitória é uma psicose que se instala em poucos dias, sem pródromo, num adulto que estava bem, e que resolve por completo em semanas. O quadro é polimorfo: delírios, alucinações, perplexidade e oscilações bruscas do afeto que mudam de natureza e de intensidade de um dia para o outro, ou no mesmo dia. É pouco frequente, mais comum na mulher, e muitas vezes surge depois de um acontecimento marcante.

A CID-11 e o DSM-5-TR descrevem o mesmo território com nomes e prazos diferentes. A CID-11 chama-lhe perturbação psicótica aguda e transitória, exige o polimorfismo e aceita até 3 meses; o DSM-5-TR chama-lhe perturbação psicótica breve, dura de 1 dia a menos de 1 mês e não exige polimorfismo. Para lá desses limiares, o DSM-5-TR passa à perturbação esquizofreniforme e a CID-11 passa, em regra, à esquizofrenia, a que basta 1 mês de sintomas.

No primeiro dia não há diagnóstico fechado, há um primeiro episódio psicótico a esclarecer. Antes de o atribuir a uma causa primária exclui-se o delirium, as substâncias e a sua privação, os fármacos, as causas metabólicas e neurológicas e, na mulher jovem, a encefalite anti-recetor NMDA. O tratamento é o do primeiro episódio: ambiente calmo, benzodiazepina para a agitação e antipsicótico em monoterapia e dose baixa, pelo tempo mais curto possível.

O que não se pode falhar: a causa orgânica tratada como psicose primária, a psicose puerperal, que é uma emergência, e o risco de suicídio, que não acaba com a remissão. Como perto de metade dos doentes muda de diagnóstico nos anos seguintes, sobretudo para o espectro da esquizofrenia, o seguimento mantém-se pelo menos 3 anos.

O diagnóstico é clínico e retrospetivo: só se confirma quando a remissão completa chega dentro do prazo. No primeiro dia é um primeiro episódio psicótico a esclarecer, e a sequência é sempre a mesma: é psicose? tem causa orgânica, tóxica ou farmacológica? se é primária, qual?

Critérios

ElementoCID-11 (6A23)DSM-5-TR
Nomeperturbação psicótica aguda e transitóriaperturbação psicótica breve
Sintomasdelírios, alucinações, pensamento desorganizado, perplexidade ou confusão, alterações do afeto; pode haver sinais catatónicospelo menos um de: delírios, alucinações, discurso desorganizado, comportamento muito desorganizado ou catatónico; um dos três primeiros tem de estar presente
Iníciosem pródromo, pico de gravidade em 2 semanasnão exigido
Polimorfismoexigido: sintomas que mudam de dia para dia ou no mesmo dianão exigido
Duraçãoaté 3 meses, em regra de dias a 1 mêsde 1 dia a menos de 1 mês
Resoluçãoremissãoregresso completo ao funcionamento prévio
Especificadoresprimeiro episódio ou episódios múltiplos, e estado de remissãocom fator de stress marcado; com início no periparto; com catatonia
  • Com fator de stress marcado: o acontecimento seria muito perturbador para quase qualquer pessoa nas mesmas circunstâncias e na mesma cultura; mede-se pela magnitude objetiva, não pela leitura do doente.
  • Com início no periparto: início durante a gravidez ou nas 4 semanas depois do parto.
  • Nos dois sistemas exclui-se primeiro a causa médica, a substância e o fármaco, incluindo a privação.

O mesmo doente nos dois sistemas

Duração dos sintomasDSM-5-TRCID-11
De 1 dia a menos de 1 mêsperturbação psicótica breveaguda e transitória, se polimorfa
De 1 a 3 mesesperturbação esquizofreniformeaguda e transitória, se polimorfa; esquizofrenia, se tiver os sintomas dela
De 3 a 6 mesesperturbação esquizofreniformeesquizofrenia ou outra psicose persistente
6 meses ou maisesquizofreniaesquizofrenia
  • A CID-11 não tem categoria esquizofreniforme: a esquizofrenia exige só 1 mês de sintomas.
  • Na CID-11, um quadro que parece esquizofrenia, estável e não polimorfo, com menos de 1 mês, não é perturbação aguda e transitória: cabe numa das categorias residuais de perturbação psicótica primária.
  • O DSM-5-TR não pede polimorfismo; é a duração que decide.

Diagnóstico diferencial

EntidadeO que a denuncia
Deliriumconsciência e atenção que flutuam, desorientação, alucinações visuais, agravamento noturno
Intoxicação por estimulantes ou canábisconsumo recente, midríase, taquicardia, hipertensão, hipertermia; tóxicos na urina
Privação de álcool ou de benzodiazepinastremor, sudorese, taquicardia, convulsões, alucinações visuais, depois de parar ou reduzir
Psicose induzida por fármacoscorticoides, levodopa e agonistas dopaminérgicos, anticolinérgicos, isoniazida, mefloquina, interferão
Encefalite anti-recetor NMDAmulher jovem, pródromo viral, insónia, redução do discurso, perda de memória, convulsões, discinesias orofaciais, disautonomia
Outras causas orgânicasepilepsia do lobo temporal, lesão ocupando espaço, infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH), neurossífilis, lúpus, doença de Wilson, doença da tiroide, hipoglicemia, hiponatremia, défice de vitamina B12
Perturbação do humor com sintomas psicóticoso delírio surge só durante episódios de mania ou de depressão
Esquizofreniforme e esquizofreniapródromo, sintomas negativos, duração acima do limiar, sem remissão completa
Perturbação delirantedelírio sistematizado e estável, com o resto do funcionamento preservado

Encefalite anti-recetor NMDA

  • Sobretudo na mulher jovem e na criança. Pródromo semelhante a uma virose e, dias depois, sintomas psiquiátricos graves, insónia, redução do discurso, perda de memória, convulsões, diminuição da consciência, discinesias orofaciais e dos membros, disautonomia e hipoventilação.
  • A psicose isolada, sem outros sinais, é rara: cerca de 5% dos doentes.
  • A ressonância magnética é normal em cerca de 65%. O diagnóstico faz-se pelos anticorpos no líquido cefalorraquidiano e no soro; o eletroencefalograma (EEG) e a citologia do líquido ajudam.
  • Teratoma do ovário em 46% das doentes a partir dos 12 anos.
  • Confunde-se com a síndrome maligna dos neurolépticos. Com imunoterapia, e remoção do tumor quando existe, 85 a 90% melhoram de forma substancial ou recuperam.

Sinais que obrigam a pensar em psicose autoimune: défice cognitivo marcado, alterações do movimento ou da fala, diminuição da consciência, catatonia ou quadro de síndrome maligna com o antipsicótico, convulsões, disautonomia e tumor conhecido.

Estudo inicial

  • História colateral, que data o início, o pródromo e os consumos.
  • Exame físico e neurológico completo, com sinais vitais.
  • Hemograma, ionograma com cálcio, função renal e hepática, glicemia, função tiroideia, proteína C reativa, pesquisa de drogas na urina e serologias do VIH e da sífilis.
  • Teste de gravidez na mulher em idade fértil.
  • Glicemia em jejum ou hemoglobina glicada, perfil lipídico, peso e prolactina como linha de base antes do antipsicótico.
  • Eletrocardiograma antes do antipsicótico quando o resumo das características do medicamento o exige, quando há doença ou risco cardiovascular ou quando o doente é internado.
  • Neuroimagem, EEG e punção lombar perante os sinais de alarme, e não por rotina.

Alargam o estudo: consciência alterada, febre, cefaleia, sinais focais, convulsões, discinesias, alucinações visuais, início depois dos 40 anos e resposta estranhamente má ao antipsicótico.

Psicose aguda: duração no DSM-5-TR e na CID-11, e exclusão de causa orgânica Figura em duas partes. Em cima, uma linha temporal com duas faixas: perturbação psicótica breve do DSM-5-TR, de 1 dia a menos de 1 mês, e perturbação psicótica aguda e transitória da CID-11, até 3 meses, com o que acontece se a duração ultrapassar os limiares. Em baixo, as causas a excluir perante um primeiro episódio psicótico agudo e uma caixa de alerta sobre a psicose puerperal. Psicose aguda: o tempo, e o que excluir primeiro A duração define o diagnóstico, mas o limiar muda consoante o sistema de classificação. 1. O tempo: dois limiares, de dois sistemas CID-11: sem pródromo, do início ao pico em 2 semanas. O DSM-5-TR não exige início abrupto. DSM-5-TR: perturbação psicótica breve De 1 dia a menos de 1 mês. Regresso total ao funcionamento prévio. CID-11: perturbação psicótica aguda e transitória até 3 meses, em regra dias a 1 mês Sintomas que mudam de dia para dia. início 1 mês 2 meses 3 meses 4 meses Se a duração ultrapassa o limiar, deixa de ser este o diagnóstico: DSM-5-TR: perturbação esquizofreniforme (1 a 6 meses) e, além de 6 meses, esquizofrenia. CID-11: além de 3 meses, reclassificar, em regra como esquizofrenia (que exige 1 mês de sintomas). Nota: é um diagnóstico que se confirma retrospetivamente. Perto de metade muda de diagnóstico em 4 a 5 anos, sobretudo para esquizofrenia. 2. Antes de assumir causa psiquiátrica, excluir o orgânico Primeiro episódio psicótico agudo 1 Delirium: flutuação da consciência e da atenção, alucinações visuais 2 Substâncias: intoxicação e privação (álcool, benzodiazepinas, estimulantes) 3 Neurológico: encefalite anti-recetor NMDA, epilepsia do lobo temporal, lesão estrutural 4 Metabólico e endócrino: hipoglicemia, disfunção da tiroide, hiponatremia, hipercalcemia 5 Fármacos: corticoides, dopaminérgicos, anticolinérgicos Destaque: encefalite autoimune anti-recetor NMDA Mulher jovem, psicose após pródromo viral, com convulsões, discinesias orofaciais e disautonomia. Anticorpos no líquido cefalorraquidiano e no soro, e procurar teratoma do ovário. ! Psicose puerperal: emergência médica Não é uma variante da depressão pós-parto: há risco de suicídio e de infanticídio. Avaliação psiquiátrica no próprio dia, sem deixar a mãe sozinha com o bebé.

Não há ensaios nem orientações próprias para esta perturbação, e nenhum antipsicótico tem indicação aprovada para ela. Trata-se como um primeiro episódio psicótico, com a diferença de que a remissão é rápida e mais de metade dos doentes não volta a ter psicose.

Na fase aguda

  • Ambiente calmo e pouco estimulante, equipa pequena e sempre a mesma, e desescalada verbal como primeira resposta à agitação.
  • Internamento quando há risco para o próprio ou para terceiros, ou quando não é possível tratar em ambulatório.
  • Contenção física só como último recurso, pelo menor tempo possível, vigiada e registada.
  • Tranquilização rápida, quando a desescalada falha: lorazepam por via intramuscular, ou haloperidol com prometazina por via intramuscular. Prefere-se o lorazepam isolado se o doente nunca tomou antipsicóticos, se há doença cardiovascular ou QT longo, ou se não há eletrocardiograma.

Antipsicótico

  • Monoterapia, via oral, a começar na parte baixa do intervalo de doses e a titular devagar, sem doses de carga.
  • Escolha pelo perfil de efeitos adversos e pela preferência do doente; a eficácia é semelhante entre eles.
  • Agitação e insónia tratam-se com uma benzodiazepina por pouco tempo, em vez de subir a dose do antipsicótico.

A benzodiazepina tem papel próprio

SituaçãoPapel da benzodiazepina
Agitação e insóniacurso curto, que poupa exposição ao antipsicótico
Privação de álcool ou de benzodiazepinasé o tratamento, e o antipsicótico isolado não a trata
Sinais catatónicosprimeira linha, com lorazepam; terapia eletroconvulsiva (TEC) se não responder

Na catatonia, os antipsicóticos podem agravá-la e usam-se com cautela, porque a catatonia e a síndrome maligna dos neurolépticos se sobrepõem.

Efeitos adversos a vigiar

  • Acatisia: inquietação que se confunde com agravamento da psicose. Reduz-se a dose ou troca-se de fármaco; subir a dose agrava-a.
  • Distonia aguda, de minutos a dias depois de iniciar: anticolinérgico por via parentérica (biperideno).
  • Parkinsonismo e prolongamento do QT.
  • Síndrome maligna dos neurolépticos: rigidez, hipertermia, alteração da consciência, disautonomia e creatina-cinase (CK) muito elevada. Suspende-se o antipsicótico e trata-se como emergência.

Depois da remissão

  • A duração do antipsicótico não tem consenso. Ao contrário da esquizofrenia, em que se mantém pelo menos 1 a 2 anos depois do primeiro episódio, aqui pondera-se a suspensão gradual depois de uma remissão sustentada, decidida com o doente.
  • Nunca parar de forma abrupta.
  • Se a remissão chegou sem antipsicótico, não se inicia por rotina.
  • Em qualquer dos casos, vigilância e plano de prevenção de recaída durante pelo menos 3 anos: sinais precoces escritos, contacto rápido com a equipa e abstinência de canábis.
  • Psicoeducação do doente e da família, e comunicar o diagnóstico como provisório.

Tratamento involuntário (Lei n.º 35/2023)

  • Pressupostos cumulativos: doença mental; recusa do tratamento prescrito; perigo para bens jurídicos pessoais ou patrimoniais de terceiros, ou do próprio quando este não tem o discernimento para consentir; e finalidade terapêutica.
  • A regra é o ambulatório; o internamento é a exceção.
  • A decisão é judicial. No internamento de urgência, perante perigo iminente, o juiz decide a manutenção em 48 horas; a revisão é obrigatória 2 meses depois.
  • Recusar tratamento, só por si, não chega.

Referências

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