Perturbações psicóticasPerturbação delirante induzida, perturbação esquizotípica, perturbações psicóticas não orgânicas não específicasPublicado (Premium)

Perturbação delirante induzida, perturbação esquizotípica, perturbações psicóticas não orgânicas não específicas

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 25 de julho de 2026 · 6 perguntas neste tema

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Em resumo

Estas três entidades fecham o espectro psicótico e são exatamente o tipo de matéria que a PNA gosta de testar: pouca gente as estuda a sério, mas cada uma tem um ponto de viragem clínico limpo, do tipo que se converte facilmente numa pergunta de escolha múltipla. Na perturbação delirante induzida o ponto é terapêutico e quase contraintuitivo: a intervenção que resolve não é um fármaco, é separar as duas pessoas. Na perturbação esquizotípica o ponto é nosológico e é dos mais testáveis de toda a psiquiatria: a CID-11 coloca-a nas perturbações psicóticas, o DSM-5-TR coloca-a nas perturbações da personalidade (cluster A), e a resposta correta depende de qual dos sistemas a pergunta invoca. Nas psicóticas não especificadas o ponto é de raciocínio: para que serve uma categoria de espera, e porque é que ela se torna perigosa quando deixa de ser provisória. Junta-se um par de contrastes que os examinadores adoram: a ansiedade social esquizotípica que não diminui com a familiaridade (ao contrário da fobia social) e a esquizoide que não tem distorção cognitivo-percetiva.

O que é comum às três: o modelo de continuum

A arrumação moderna destas entidades assenta na ideia de espectro psicótico contínuo, em que a esquizofrenia é o extremo e a esquizotipia uma expressão atenuada da mesma vulnerabilidade, com a população geral a distribuir-se ao longo do mesmo eixo (experiências tipo psicótico subclínicas são comuns e maioritariamente transitórias). A perturbação delirante induzida ocupa aqui uma posição especial e vale a pena ser explícito quanto a isso: no indutor o mecanismo é o do espectro psicótico; no induzido o mecanismo é essencialmente social e psicológico. Não há transmissão biológica de um delírio.

A fisiopatologia detalhada da psicose (neurodesenvolvimento, dopamina, glutamato, redes de saliência) está tratada no capítulo de esquizofrenia; aqui trata-se apenas do que estas três entidades acrescentam.

Vulnerabilidade genética partilhada

A esquizofrenia é altamente poligénica: a maior meta-análise de associação genómica publicada identificou 287 loci comuns, com convergência sobre biologia sináptica e neuronal. A esquizotipia partilha essa carga, mas de forma quantitativamente distinta e clinicamente informativa.

Dados de registo populacional sueco mostram que pessoas com perturbação esquizotípica têm risco genético familiar para esquizofrenia elevado (cerca de +0,42 desvios-padrão), mas inferior ao das pessoas com esquizofrenia, e simultaneamente elevado para perturbação do espectro do autismo, depressão major e perturbação de hiperatividade e défice de atenção. Duas leituras importantes:

  1. A esquizotipia não é apenas "esquizofrenia a menos": tem uma assinatura de risco mista, o que explica a comorbilidade observada com autismo, perturbação obsessivo-compulsiva e perturbações do humor.
  2. Sustenta a arrumação da CID-11 (proximidade ao espectro psicótico) sem invalidar a do DSM-5-TR (padrão estável e precoce, compatível com um traço de neurodesenvolvimento).

Estudos familiares clássicos suportam o mesmo: a esquizotipia agrega-se em familiares de primeiro grau de pessoas com esquizofrenia, e a esquizofrenia agrega-se em familiares de pessoas com esquizotipia.

Dopamina e saliência aberrante

A hipótese dopaminérgica na sua versão contemporânea desloca o foco do recetor pós-sináptico para a desregulação da síntese e libertação de dopamina pré-sináptica no estriado associativo, entendida como via final comum sobre a qual convergem risco genético, adversidade e substâncias.

O elo com a fenomenologia é o conceito de saliência aberrante: a hiperdopaminergia atribui relevância motivacional a estímulos e pensamentos que não a deveriam ter; o delírio é a explicação cognitiva, secundária, que a pessoa constrói para dar sentido a essa experiência de significado imposto. Aplicado a este capítulo:

  • No indutor, a saliência aberrante gera o delírio primário.
  • Na esquizotipia, a mesma desregulação existe em grau menor, o que se traduz clinicamente em ideias de referência sem convicção fixa e em experiências percetivas invulgares em vez de alucinações francas. Estudos de imagem sugerem capacidade de compensação pré-frontal relativamente preservada nestas pessoas, o que ajuda a explicar por que razão a maioria não transita para esquizofrenia.
  • No induzido, não há necessidade de invocar hiperdopaminergia: o delírio chega pronto, por via relacional.

O mecanismo específico da indução delirante

Quatro condições, que na formulação clássica costumam estar todas presentes e sobre a maioria das quais é possível intervir:

  • Isolamento: sem confronto com fontes externas de realidade, a crença não é testada. O isolamento pode ser geográfico (meio rural, insularidade), linguístico ou cultural (migração recente), sensorial (surdez, cegueira, que reduzem a correção espontânea de mal-entendidos) ou voluntário.
  • Dependência e assimetria: o induzido depende do indutor em termos económicos, afetivos ou de cuidados; a discordância tem um custo relacional alto.
  • Sugestionabilidade e plausibilidade: o delírio induzido é caracteristicamente não bizarro e internamente coerente (o vizinho envenena a comida, há insetos na casa, uma entidade persegue a família). Delírios bizarros transmitem-se mal.
  • Duração e intensidade da exposição: a convivência prolongada e exclusiva funciona como reforço contínuo.

Fatores de risco descritos no induzido: idade extrema (criança ou pessoa idosa), défice cognitivo ou sensorial, baixa literacia, personalidade dependente ou sugestionável, história de adversidade. Nada disto é um critério diagnóstico, mas explica por que razão a separação funciona: retira-se o reforço e restaura-se o contacto com fontes alternativas de informação.

Fatores ambientais do espectro

Os mesmos que valem para a esquizofrenia, com nuances relevantes aqui.

FatorNota específica para este capítulo
CanábisConsumo regular, sobretudo de produtos de alta potência, associa-se a aumento da incidência de perturbação psicótica em estudos multicêntricos europeus. Na esquizotipia é o preditor modificável mais relevante de transição para psicose não afetiva. Dado prático: perguntar sempre, e trabalhar a cessação como intervenção de primeira linha, não como conselho acessório. Ver o capítulo de opioides, canabinoides e estimulantes para o tratamento da perturbação de uso
Migração e estatuto de minoriaMeta-análises de estudos de incidência mostram risco aumentado em migrantes e nas gerações seguintes, com gradiente conforme a experiência de discriminação (hipótese da derrota social). Duplo interesse aqui: aumenta o risco de psicose e cria o isolamento linguístico e social que favorece a indução delirante
Adversidade precoceAbuso, negligência e bullying associam-se a experiências psicóticas e a traços esquizotípicos na idade adulta
UrbanicidadeAssociação replicada com incidência de psicose
Défice sensorialSobretudo hipoacusia na pessoa idosa: alimenta ideação persecutória e é um contribuinte silencioso para as díades delirantes de casais idosos

Ressalva de segurança: a canábis é fator de risco, mas num doente do espectro que já a consome de forma pesada, a suspensão abrupta não é o problema clínico relevante e não justifica benzodiazepina de manutenção; o que exige cuidado é o consumo concomitante de álcool ou de sedativos, em que a privação é potencialmente grave e tem tratamento próprio (ver os capítulos respetivos). Nunca assumir que "parar tudo" é seguro sem inventariar o que a pessoa consome.

Porque é que o "não especificado" existe, mecanicamente

Porque a psicose é uma via final comum. Encefalites autoimunes, doenças da tiroide, défices vitamínicos, infeções, epilepsia do lobo temporal, lesões estruturais, fármacos (corticosteroides, dopaminérgicos, anticolinérgicos) e substâncias podem produzir quadros indistinguíveis à cabeceira nas primeiras horas. A categoria não especificada é a expressão honesta de que a mesma apresentação clínica admite muitas causas, e a razão pela qual ela obriga a investigar em vez de dispensar a investigação.

Regra de ouro transversal

Antes de qualquer destes três diagnósticos, excluir causa médica, neurológica e tóxica. Nenhuma destas categorias tolera atalhos: "não orgânica" é uma conclusão, não uma suposição. Ver o capítulo de delirium para o diagnóstico diferencial agudo e o de demências para o subagudo.

1. Perturbação delirante induzida: como se identifica

O que faz a pergunta

A vinheta típica traz duas pessoas que vivem juntas e apresentam a mesma crença, com o detalhe adicional de que uma delas tem história psiquiátrica e a outra não, e de que o par está isolado. Quase sempre é o induzido que chega primeiro ao sistema de saúde, porque é o mais funcional: é ele quem telefona à polícia, quem apresenta queixa contra o vizinho, quem leva o outro à urgência.

Sequência de avaliação

  1. Entrevistar as duas pessoas separadamente. É o passo que mais frequentemente falta e o que mais rende: em conjunto, o induzido tende a repetir o indutor, e a assimetria fica invisível.
  2. Identificar quem é o caso primário. Procurar, num deles, sintomas que ultrapassam a crença partilhada: alucinações, desorganização, sintomas negativos, história prévia de internamento, curso mais longo.
  3. Caracterizar a crença: conteúdo, sistematização, convicção, impacto no comportamento, e sobretudo origem cronológica (quem a teve primeiro, e há quanto tempo).
  4. Mapear a relação e o isolamento: coabitação, dependência económica, quem sai de casa, quem tem contactos externos, quem gere o dinheiro e a medicação.
  5. Investigação orgânica em ambos, com atenção redobrada no induzido idoso.
  6. Avaliar risco: heteroagressividade dirigida ao alvo do delírio, autoagressividade, recusa alimentar por delírio de envenenamento, negligência de dependentes, recusa de cuidados médicos a um menor. Perguntar sempre quem é o alvo concreto e onde vive: quando o alvo é o cônjuge, um filho ou outro coabitante, e em especial quando o conteúdo é de ciúme delirante (síndrome de Otelo) ou de envenenamento atribuído ao parceiro, isto é risco de violência sobre a pessoa com quem se partilha a casa, e o ciúme delirante é o conteúdo que mais se associa a agressão grave e a homicídio do parceiro. Nesses casos avaliar explicitamente acesso a armas de fogo, armas brancas e outros meios letais, não deixar o alvo sozinho com a pessoa delirante, informar o alvo do risco e organizar a sua proteção em paralelo com o tratamento, sem esperar pela resposta terapêutica.

Diferencial

EntidadeDistingue-se por
Perturbação delirante em ambos, independenteConteúdos diferentes, cronologias independentes, sem assimetria de dominância
Psicose partilhada por substânciaAmbos com consumo ativo; timing ligado ao consumo (ver capítulos de substâncias)
Crença religiosa ou cultural partilhadaPartilhada por uma comunidade mais ampla, não apenas pelo par; sem deterioração funcional atribuível à crença. Não é delírio
Vitimação realO vizinho de facto assedia; verificar factos antes de rotular. Erro clássico e com consequências
Perturbação factícia imposta a outremA crença é sustentada com fabricação deliberada de sinais ou sintomas; motivação de assunção do papel de doente
Violência doméstica com controlo coercivoUma pessoa impõe uma narrativa por coação, não por psicose; a "crença" cede fora do controlo, mas o mecanismo é abusivo. Sinalizar em conformidade

2. Perturbação esquizotípica: como se identifica

O que faz a pergunta

Uma pessoa jovem, excêntrica na aparência e no discurso, socialmente à margem desde sempre, que descreve pressentimentos, coincidências com significado pessoal, sensação de presença, e um mal-estar interpessoal que não melhora quando as pessoas lhe são familiares. Não há delírio mantido nem alucinação franca.

Ancoragem por sistema (não misturar)

  • DSM-5-TR: padrão persistente de défices sociais e interpessoais com desconforto agudo e capacidade reduzida para relações próximas, mais distorções cognitivas ou percetivas e excentricidade, com cinco ou mais de nove critérios, início na idade adulta jovem, contexto variado. Não se diagnostica se ocorre exclusivamente no decurso de esquizofrenia, de perturbação bipolar ou depressiva com sintomas psicóticos ou de outra perturbação psicótica, nem se ocorre exclusivamente no decurso de perturbação do espectro do autismo (no DSM-5-TR o autismo integra a mesma cláusula de "não ocorre exclusivamente durante o curso de", e não uma cláusula autónoma de "melhor explicado por").
  • CID-11 (6A22): padrão duradouro (anos) de excentricidades no comportamento, aparência e discurso, com distorções cognitivas e percetivas, crenças invulgares e desconforto e capacidade reduzida para as relações interpessoais. Ideias paranoides, ideias de referência ou outros sintomas psicóticos, incluindo alucinações em qualquer modalidade, podem ocorrer mas sem intensidade ou duração suficientes para esquizofrenia, esquizoafetiva ou perturbação delirante. Sem contagem numérica de itens.

Diferencial, a tabela que mais rende

EntidadeDistorção cognitivo-percetivaDesejo de relaçãoSinal que decide
EsquizotípicaSim: pensamento mágico, ideias de referência, experiências percetivas invulgaresDesejo presente, mas bloqueado por ansiedade e desconfiançaA ansiedade social não diminui com a familiaridade e associa-se a receios paranoides
EsquizoideNãoIndiferença genuína: não deseja proximidade nem sofre com a sua ausênciaIsolamento sem angústia e sem excentricidade cognitiva
Paranoide (personalidade)Desconfiança sim, pensamento mágico nãoPresente, mas contaminado por suspeiçãoDesconfiança pervasiva e rancor, sem excentricidade percetiva
Fobia socialNãoPresente e intensoO receio é de avaliação negativa e humilhação, e a ansiedade atenua-se com pessoas familiares e com exposição repetida. Ver o capítulo de fobias
Espectro do autismoInteresses restritos, sim; pensamento mágico, tipicamente nãoVariável, com défice de reciprocidadeInício na primeira infância, alterações de comunicação social e comportamentos repetitivos, sem distorção percetiva de tipo psicótico
EsquizofreniaSim, com convicção delirante e alucinações francasFrequentemente indiferenteSintomas atingem limiar de intensidade e duração; disfunção marcada. Ver capítulo
Perturbação da personalidade borderlineMicropsicoses transitórias, sobretudo sob stressIntenso e instávelInstabilidade afetiva, medo de abandono, autolesão. Ver capítulo de personalidade

Cuidado com a idade: o padrão esquizotípico exige persistência. Em adolescentes, excentricidade, pensamento mágico e retraimento social podem ser transitórios ou fazer parte de um pródromo. Não fixar o rótulo com base numa observação única.

3. Não especificada: como se usa com honestidade

Investigação mínima antes de assumir "não orgânica"

Num primeiro episódio psicótico, a avaliação padrão inclui: história e exame físico e neurológico completos, sinais vitais e glicémia capilar à cabeceira (a hipoglicémia produz agitação, confusão e quadros indistinguíveis de psicose, corrige-se em minutos e mede-se antes de qualquer sedação), hemograma, bioquímica com ionograma, função renal e hepática, glicémia laboratorial, cálcio, função tiroideia, vitamina B12 e folato, serologias (sífilis e VIH, com consentimento), marcadores inflamatórios, rastreio toxicológico urinário, e imagem cerebral (tomografia computorizada ou, preferencialmente, ressonância magnética) na apresentação inaugural ou em caso de sinais focais, mais teste de gravidez em qualquer pessoa com capacidade de engravidar, antes de pedir imagem com radiação ionizante e antes de iniciar psicofármaco.

Sinais de alarme que obrigam a alargar (eletroencefalograma, punção lombar, anticorpos antineuronais incluindo anti-recetor NMDA):

  • início abrupto em dias, sobretudo sem antecedentes;
  • flutuação do estado de consciência ou desorientação (pensar delirium primeiro, ver capítulo);
  • convulsões, discinesias orofaciais, disautonomia, catatonia;
  • febre, cefaleia, sinais neurológicos focais;
  • idade atípica (início após os 50 anos, ou na infância);
  • alucinações visuais, olfativas ou táteis predominantes;
  • resposta anómala ou deterioração sob antipsicótico.

Quando é legítimo usar a categoria

  • Doente trazido à urgência sem colateral e sem colaboração;
  • barreira linguística ou cultural que impede caracterizar a crença;
  • quadro em evolução, em que a duração ainda não permite decidir entre as categorias definidas pelo tempo, e aqui convém não misturar sistemas: na CID-11 existe a perturbação psicótica aguda e transitória (6A23), com remissão tipicamente em semanas e até cerca de três meses; no DSM-5-TR existem a perturbação psicótica breve (menos de um mês) e a perturbação esquizofreniforme (um a seis meses), e só depois a esquizofrenia (detalhe no capítulo de perturbação psicótica aguda e transitória);
  • suspeita de contributo tóxico ainda por esclarecer.

Como não deixar cristalizar

Registar, no mesmo momento em que se escreve o diagnóstico: o que falta saber, quem vai obter essa informação e quando o diagnóstico será revisto. Um diagnóstico não especificado sem data de revisão é um diagnóstico abandonado, e o custo típico é o de manter antipsicótico indefinidamente numa pessoa que talvez nunca tenha precisado dele, ou o de nunca chegar ao diagnóstico de uma causa tratável.

1. Perturbação delirante induzida

A intervenção é a separação

O passo terapêutico decisivo é interromper o contacto entre o induzido e o indutor, e é isso que distingue esta entidade de todas as outras deste capítulo. Numa proporção substancial dos casos descritos, o delírio do induzido esbate-se em dias a semanas sem antipsicótico, à medida que a crença deixa de ser reforçada e a pessoa reencontra fontes externas de informação.

Na prática:

  1. Tratar o indutor, que é quem tem a psicose primária: avaliação, antipsicótico conforme a categoria diagnóstica, internamento se indicado. Ver o capítulo de esquizofrenia e o de perturbação delirante.
  2. Separar, com um plano: onde fica cada um, quem assegura os cuidados de quem, quem tem as chaves, quem gere a medicação e o dinheiro.
  3. Observar o induzido durante duas a quatro semanas, com contacto regular. A trajetória é o diagnóstico. A janela não é um compromisso de esperar: reavaliar de imediato e tratar sem contemplar o prazo se, durante esse período, surgir ideação suicida, ameaça ou plano dirigido ao alvo do delírio, recusa alimentar ou de líquidos, incapacidade de cuidar de si ou de alguém a seu cargo, ou qualquer sinal de delirium (flutuação da consciência, desorientação, sinais neurológicos novos). Definir à partida com quem o doente contacta e em que prazo, e não deixar a observação depender de o próprio reconhecer que piorou.
  4. Reavaliar: se o delírio persistir com convicção mantida após a separação, deixou de ser uma folie imposée; reformular o diagnóstico (o mais provável é perturbação delirante autónoma) e tratar em conformidade.

Quando não basta separar, e quando não se deve começar por aí

Esta é a parte perigosa da regra e tem de vir na mesma respiração:

  • Se há risco agudo, trata-se primeiro o risco. Delírio de envenenamento com recusa alimentar e desidratação, ideação de agressão dirigida ao alvo do delírio, ideação suicida: nestes casos inicia-se antipsicótico e considera-se internamento, sem esperar pelo efeito da separação. Na recusa alimentar prolongada a primeira prioridade é médica: corrigir desidratação e alterações eletrolíticas, reintroduzir a alimentação de forma gradual e vigiar síndrome de realimentação (fósforo, potássio e magnésio, com tiamina antes de qualquer carga de glicose).
  • Se o induzido é um menor ou uma pessoa dependente, a proteção precede o teste diagnóstico. Ver adiante.
  • Se o que existe é controlo coercivo e não psicose partilhada, a separação deixa de ser um teste diagnóstico e passa a ser a saída de uma relação abusiva: é o momento de maior risco de escalada e de homicídio, e exige avaliação de risco, plano de segurança e articulação com as estruturas de apoio à vítima, nunca uma instrução isolada para a pessoa sair de casa. Em Portugal a violência doméstica é crime público, pelo que o procedimento criminal não depende de queixa da vítima e a comunicação dos factos ao Ministério Público ou às forças de segurança não fica na disponibilidade do clínico. Encaminhar para o Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica, 800 202 148, gratuito, anónimo e disponível 24 horas por dia, e envolver a equipa para a prevenção da violência em adultos da unidade de saúde.
  • Se o induzido depende do indutor para cuidados básicos (mobilidade, alimentação, medicação, gestão financeira), a separação exige alternativa organizada; sem ela, cria-se abandono. Envolver o serviço social desde o início, não no fim.
  • Se a separação é impossível ou recusada, e a crença mantém risco, aplicam-se as vias legais de tratamento involuntário, com os pressupostos próprios (ver a secção de situações especiais).
  • Se persistir para além de duas a quatro semanas de separação efetiva, iniciar antipsicótico em dose baixa, com o mesmo cuidado de monitorização de qualquer primeiro tratamento.

O resto do plano

  • Intervenção familiar e psicoeducação, essenciais na reunificação: uma díade que se separa e volta ao mesmo padrão de isolamento tende a recidivar.
  • Quebrar o isolamento de forma estrutural: apoio domiciliário, centro de dia, associativismo local, correção de défice auditivo e visual (frequentemente esquecida e frequentemente decisiva na pessoa idosa).
  • Terapia cognitivo-comportamental para a psicose no induzido que mantém crenças residuais, com abordagem colaborativa e não confrontativa.

2. Perturbação esquizotípica

Princípio

O alvo não é a remissão de um episódio, é o funcionamento: autonomia, ocupação, rede social mínima, sofrimento tolerável. A evidência terapêutica é escassa e de certeza baixa; uma revisão sistemática com avaliação GRADE publicada em 2026 concluiu que os ensaios existentes são poucos, pequenos e metodologicamente frágeis, e que não existem guidelines clínicas consolidadas para esta perturbação. Isto tem uma consequência prática direta: tratar sintomas-alvo, não a categoria.

Intervenções psicológicas, primeira linha

  • Terapia cognitivo-comportamental estruturada, focada em ideias de referência, desconfiança e evitamento social, com testes de realidade suaves. Nota de evidência: nessa revisão sistemática, os sinais psicoterapêuticos mais consistentes vieram de abordagens de orientação metacognitiva e de terapia de sistemas evolutivos, e não da TCC clássica, pelo que a escolha entre modalidades estruturadas é sobretudo pragmática e orientada pelo sintoma-alvo.
  • Treino de competências sociais, com objetivos concretos e graduais.
  • Remediação cognitiva quando há défice atencional ou executivo com impacto ocupacional.
  • Abordagem de suporte e continuidade com o mesmo clínico ao longo do tempo, que é o fator que mais frequentemente sustenta a adesão.

Evitar psicoterapias interpretativas profundas e não estruturadas: em pessoas com fronteiras do eu frágeis, a interpretação sistemática da fantasia tende a desorganizar em vez de integrar.

Farmacoterapia, adjuvante e por sintoma

  • Antipsicóticos de segunda geração em dose baixa, quando persistem ideias de referência incapacitantes, desconfiança marcada ou experiências percetivas perturbadoras que não cedem à psicoterapia. A evidência é preliminar (a revisão de 2026 identifica sinal para tiotixeno, fármaco sem comercialização em Portugal, e, em menor grau, para risperidona, olanzapina e haloperidol). Nenhum antipsicótico tem indicação aprovada para esta perturbação: prescrever com objetivo definido, dose mínima eficaz, prazo de reavaliação e explicação clara ao doente de que se trata de uso fora de indicação.
  • Monitorização metabólica obrigatória desde o início: peso e perímetro abdominal, tensão arterial, glicémia em jejum ou hemoglobina glicada, perfil lipídico, mais eletrocardiograma quando há fatores de risco de prolongamento do intervalo QT. Estas pessoas são jovens e podem ficar medicadas durante anos; o dano iatrogénico acumula.
  • Antidepressivos (inibidores seletivos da recaptação da serotonina) quando há depressão ou ansiedade comórbidas clinicamente significativas, que são frequentes. Como esta é uma população maioritariamente jovem e com risco suicidário aumentado, vigiar de perto a emergência ou o agravamento de ideação suicida nas primeiras semanas e em cada aumento de dose, com reavaliação próxima e plano de segurança acordado. Se houver história sugestiva de bipolaridade, não usar antidepressivo em monoterapia (ver capítulo de bipolar).
  • Benzodiazepinas: evitar como estratégia continuada para a ansiedade social esquizotípica; não tratam o núcleo do problema, e o risco de dependência é real, sobretudo numa população jovem com comorbilidade de uso de substâncias. A exceção é importante e frequente nesta população: se a pessoa está em privação de álcool ou de sedativos, as benzodiazepinas são o tratamento indicado e não devem ser retiradas por causa desta regra (ver os capítulos de álcool e de sedativos). Cautela adicional na pessoa idosa (quedas, confusão) e na doença respiratória.
  • Canábis: a cessação é intervenção terapêutica, não conselho de estilo de vida, por ser o preditor modificável mais consistente de transição para psicose.

3. Psicóticas não especificadas

A gestão tem duas metades e ambas contam.

Metade clínica imediata:

  • garantir segurança da pessoa e de terceiros;
  • completar a investigação orgânica pendente;
  • tratar o que está identificado (agitação, insónia, risco) com o mínimo necessário;
  • se se iniciar antipsicótico empiricamente, escolher dose baixa, registar o alvo sintomático e a data de reavaliação da necessidade, com eletrocardiograma e parâmetros metabólicos de base sempre que possível; antes de o fazer, procurar catatonia, suspeita de encefalite autoimune e sinais de doença de corpos de Lewy, situações em que o antipsicótico pode precipitar agravamento, catatonia maligna, síndrome maligna dos neurolépticos ou reação de hipersensibilidade grave, e em que a abordagem é outra.

Metade processual, que é a que se esquece:

  • registar explicitamente que o diagnóstico é provisório;
  • listar a informação em falta (colateral familiar, cronologia, consumos, exames pendentes);
  • agendar uma consulta de reavaliação em prazo definido, tipicamente semanas, não meses;
  • comunicar ao doente e à família que é um diagnóstico de trabalho.

Ressalva de segurança: um hipnótico ou uma benzodiazepina prescritos a alguém cujo quadro ainda não está caracterizado podem mascarar a flutuação de consciência que faria o diagnóstico de delirium, e são particularmente arriscados se existir ideação suicida ou risco de sobredosagem. Se o quadro é indefinido, preferir medidas ambientais e reavaliação frequente, e nunca prescrever sedação sem ter avaliado o risco autolesivo. Duas exceções sobrepõem-se a esta regra e são frequentes exatamente nesta população: se houver privação de álcool ou de sedativos, as benzodiazepinas são o tratamento indicado e retê-las é que é perigoso (ver os capítulos respetivos); e se houver catatonia, a benzodiazepina, tipicamente o lorazepam, é a primeira linha, ao passo que o antipsicótico pode agravar o quadro. Antes de decidir não sedar, inventariar consumos e procurar ativamente sinais catatónicos.

Consentimento e tratamento involuntário

A regra transversal é a mesma nas três entidades: procura-se sempre o tratamento voluntário e o consentimento informado, envolvendo a pessoa nas decisões. Quando isso não é possível e existe perigo, a lei portuguesa prevê um regime de tratamento involuntário decidido pelo tribunal, com preferência explícita pelo regime de ambulatório e com o internamento reservado às situações em que é a única forma de garantir o tratamento (detalhe na secção de situações especiais).

Referências

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  9. Trubetskoy V, Pardiñas AF, Qi T, Panagiotaropoulou G, Awasthi S, Bigdeli TB, et al. Mapping genomic loci implicates genes and synaptic biology in schizophrenia. Nature. 2022;604(7906):502-8.
  10. Di Forti M, Quattrone D, Freeman TP, Tripoli G, Gayer-Anderson C, Quigley H, et al. The contribution of cannabis use to variation in the incidence of psychotic disorder across Europe (EU-GEI): a multicentre case-control study. Lancet Psychiatry. 2019;6(5):427-36.
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  12. Lei n.º 35/2023, de 21 de julho. Aprova a Lei de Saúde Mental, altera legislação conexa e revoga a Lei n.º 36/98, de 24 de julho. Diário da República, 1.ª série. Lisboa: Assembleia da República; 2023.

6 perguntas sobre Perturbação delirante induzida, perturbação esquizotípica, perturbações psicóticas não orgânicas não específicas

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

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