Perturbações psicóticas›EsquizofreniaPublicado (Premium)

Esquizofrenia

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 20 perguntas neste tema

Em resumo

A esquizofrenia é uma perturbação psicótica crónica, de origem neurodesenvolvimental, com três dimensões de sintomas: positivos (delírios, alucinações, desorganização do pensamento e do comportamento), negativos (embotamento afetivo, alogia, avolição, anedonia, retraimento social) e cognitivos. A prevalência ao longo da vida ronda 0,5%, o início é habitualmente entre o fim da adolescência e os 30 anos, mais cedo no homem, e a heritabilidade é de cerca de 80%, com a canábis, a migração, a vida urbana e as complicações obstétricas entre os fatores ambientais.

A doença instala-se muitas vezes de forma insidiosa: o retraimento e a queda do rendimento escolar ou profissional precedem, num pródromo de meses ou anos, os delírios persecutórios e as vozes que comentam ou falam entre si. A base biológica mais consistente é o aumento da síntese e da libertação de dopamina no estriado, que o bloqueio dos recetores D2 corrige nos sintomas positivos, mas não nos negativos nem nos cognitivos, que são os que mais pesam na incapacidade.

O diagnóstico é clínico e apoia-se na história colateral. O DSM-5-TR exige sintomas ativos durante pelo menos um mês e sinais contínuos durante pelo menos seis meses; a CID-11 basta-se com o mês. Num primeiro episódio, a psicose só se atribui à esquizofrenia depois de excluir substâncias, fármacos, doença orgânica e perturbação do humor.

O tratamento junta um antipsicótico em monoterapia, escolhido pelo perfil de efeitos adversos porque a eficácia é semelhante entre eles, e intervenções psicossociais: terapia cognitivo-comportamental, intervenção familiar e emprego apoiado. A manutenção evita recaídas e dura pelo menos um a dois anos depois do primeiro episódio; os injetáveis de ação prolongada ajudam quando a adesão falha. Quando dois antipsicóticos falham em dose e tempo adequados, a resposta é a clozapina, com vigilância dos neutrófilos que a Europa reviu em 2025.

O que não se pode falhar: a acatisia confundida com agitação; a síndrome maligna dos neurolépticos; a neutropenia, a miocardite e o íleo paralítico da clozapina; a vigilância metabólica, porque a esperança de vida é 15 a 20 anos mais curta, sobretudo por doença cardiovascular; e o risco de suicídio, maior no início da doença e nas semanas depois da alta.

Genética

  • Heritabilidade de cerca de 80% (81% numa meta-análise de estudos de gémeos).
  • Risco ao longo da vida: 48% no gémeo monozigótico, 17% no dizigótico, 9% no irmão e 46% no filho de dois pais doentes, contra cerca de 1% na população.
  • A arquitetura é poligénica: centenas de polimorfismos comuns de pequeno efeito, a que se juntam variações raras do número de cópias, de efeito grande.
  • A deleção 22q11.2 (síndrome velocardiofacial, 1 em cada 4000 nascimentos) associa-se a psicose em cerca de 30% dos portadores. Procura-se perante dismorfia facial, fenda palatina, cardiopatia conotruncal ou hipocalcemia.
  • Os genes de risco convergem na sinalização do recetor NMDA do glutamato, na plasticidade sináptica, na função imunitária e na sinalização do cálcio.
  • Esquizofrenia e doença bipolar não se transmitem de forma independente: juntam-se nas mesmas famílias e partilham alelos de risco.

Ambiente

  • Complicações obstétricas, infeção e desnutrição maternas, nascimento no fim do inverno.
  • Nascimento e crescimento em meio urbano, migração, pertença a minoria étnica, trauma na infância.
  • Canábis: numa coorte de conscritos suecos, o risco foi 2,5 vezes maior nos consumidores e 6 vezes maior nos grandes consumidores, e o consumo antecipa a idade de início. Deixar de consumir faz parte do tratamento.

Modelo neurodesenvolvimental

  • Uma vulnerabilidade genética e insultos precoces alteram o desenvolvimento cerebral, mas a doença só se exprime no fim da adolescência, quando a maturação cortical a põe a descoberto.
  • Já no primeiro episódio há redução do volume cerebral e alargamento dos ventrículos: não é efeito do fármaco, e a neuropatologia não é a de uma doença neurodegenerativa.
  • Os défices cognitivos e sociais precedem a psicose.

Dopamina

  • A alteração mais consistente é pré-sináptica: aumento da síntese e da libertação de dopamina no estriado, sobretudo no estriado associativo. O aumento dos recetores D2 é pequeno.
  • Esta hiperdopaminergia surge no pródromo, desaparece na remissão e a sua dimensão prediz a resposta ao antipsicótico.
  • No córtex pré-frontal há, pelo contrário, défice de dopamina, que se relaciona com os défices cognitivos.
  • A saliência aberrante liga a biologia à clínica: a dopamina em excesso atribui importância a estímulos irrelevantes, e o delírio é a explicação que a pessoa constrói para essa experiência.

O esquema clássico das vias dopaminérgicas simplifica a anatomia, mas explica o que os antipsicóticos fazem:

ViaNa doença ou sob bloqueio D2Consequência
Mesolímbica e estriado associativoexcesso de dopaminasintomas positivos, que o bloqueio D2 trata
Mesocorticaldéfice de dopaminasintomas negativos e cognitivos, que o bloqueio D2 não trata
Nigroestriadabloqueio pelo antipsicóticoefeitos extrapiramidais
Tuberoinfundibularbloqueio pelo antipsicóticohiperprolactinemia

Glutamato e ácido gama-aminobutírico (GABA)

  • Os antagonistas do recetor NMDA (fenciclidina, cetamina) induzem uma psicose semelhante à esquizofrenia.
  • A hipótese da hipofunção do recetor NMDA vê o glutamato como a alteração mais primária e duradoura, e a dopamina como a alteração a jusante, ligada ao estado agudo.
  • Há alterações dos interneurónios GABA que contêm parvalbumina, que modulam as células piramidais do córtex.
  • Uma pequena percentagem dos casos deve-se a anticorpos contra o recetor NMDA, e a encefalite anti-NMDA é o modelo humano desta hipótese.

O diagnóstico é clínico. Não há exame que o confirme: os exames excluem uma psicose secundária e estabelecem a linha de base antes de medicar. A história colateral é indispensável, porque é ela que data o pródromo e decide a duração.

Critérios do DSM-5-TR

  • A: dois ou mais dos seguintes, cada um durante uma parte significativa de pelo menos 1 mês (menos, se tratados com êxito), sendo pelo menos um dos três primeiros:
    1. delírios;
    2. alucinações;
    3. discurso desorganizado;
    4. comportamento muito desorganizado ou catatónico;
    5. sintomas negativos.
  • B: funcionamento claramente abaixo do nível anterior (trabalho, relações, cuidado pessoal).
  • C: sinais contínuos durante pelo menos 6 meses, incluindo o mês de fase ativa; o resto pode ser pródromo ou fase residual, só com sintomas negativos ou atenuados.
  • D e E: excluídas a perturbação esquizoafetiva, a perturbação do humor com sintomas psicóticos, as substâncias e as doenças médicas.
  • F: numa pessoa com perturbação do espectro do autismo, só se diagnostica esquizofrenia se houver delírios ou alucinações proeminentes durante pelo menos 1 mês.

Onde a CID-11 diverge

  • Pelo menos dois sintomas durante a maior parte do tempo, durante 1 mês ou mais, sendo pelo menos um de: delírios persistentes, alucinações persistentes, pensamento desorganizado, ou experiências de influência, passividade ou controlo.
  • Não exige os 6 meses nem o declínio funcional. Os dois sistemas aboliram os subtipos clássicos (paranoide, hebefrénica, catatónica).
Duração dos sintomasDSM-5-TRCID-11
Pelo menos 1 dia e menos de 1 mêsperturbação psicótica breveperturbação psicótica aguda e transitória (até 3 meses, com sintomas que mudam de dia para dia e sem sintomas negativos)
De 1 a 6 mesesperturbação esquizofreniformeesquizofrenia
6 meses ou maisesquizofreniaesquizofrenia

Diagnóstico diferencial

EntidadeO que a distingue
Perturbação do humor com sintomas psicóticosa psicose surge só durante os episódios de mania ou de depressão
Perturbação esquizoafetivaepisódio de humor major concomitante, e pelo menos 2 semanas de psicose sem sintomas de humor proeminentes
Perturbação delirantedelírios de pelo menos 1 mês, sem nunca preencher o critério A da esquizofrenia; o funcionamento fora do tema do delírio está preservado
Perturbação esquizotípicaexcentricidade e ideias de referência de longa data, sem psicose franca mantida
Psicose induzida por substânciascanábis, estimulantes, alucinogénios, corticoides, levodopa; ou privação de álcool e de benzodiazepinas
Alucinose alcoólicavozes, muitas vezes insultuosas, com consciência clara, num doente com dependência de álcool
Delirium, incluindo o delirium tremensflutuação da consciência e da atenção, desorientação, alucinações visuais, disautonomia
Encefalite anti-NMDApsicose de início recente com convulsões, discinesias orofaciais, disautonomia ou alteração da consciência; teratoma do ovário na mulher jovem
Outras causas orgânicasepilepsia do lobo temporal, tumor, traumatismo, infeção por vírus da imunodeficiência humana, neurossífilis, lúpus, doença de Wilson, défice de vitamina B12

Bandeiras vermelhas de psicose secundária

  • Primeiro episódio depois dos 40 anos.
  • Alucinações visuais, olfativas ou táteis proeminentes.
  • Flutuação da consciência ou da atenção, que é delirium até prova em contrário.
  • Sinais neurológicos focais, convulsões, cefaleia, febre, movimentos anormais, disautonomia.
  • Curso atípico, com instalação muito rápida ou resposta estranhamente má ao antipsicótico.

Estudo inicial

  • Exame físico e neurológico; peso, índice de massa corporal, perímetro abdominal, pulso e tensão arterial.
  • Hemograma, ionograma com cálcio, função renal e hepática, função tiroideia, glicemia em jejum e hemoglobina glicada, perfil lipídico e prolactina, que fazem também de linha de base para o antipsicótico.
  • Pesquisa de drogas na urina, serologias do vírus da imunodeficiência humana e da sífilis, teste de gravidez.
  • Eletrocardiograma antes de iniciar o antipsicótico quando o resumo das características do medicamento o exige, quando há doença ou risco cardiovascular (por exemplo, hipertensão) ou quando o doente é internado.
  • Neuroimagem e eletroencefalograma perante bandeiras vermelhas; punção lombar com pesquisa de anticorpos anti-NMDA se houver suspeita de encefalite.

O tratamento junta sempre um antipsicótico e intervenções psicossociais, e a decisão sobre o fármaco é partilhada com o doente e, quando ele o aceita, com a família.

Episódio agudo

  • Antipsicótico em monoterapia, a começar na parte baixa do intervalo de doses e a titular, sem doses de carga.
  • A escolha faz-se pelo perfil de efeitos adversos, pela resposta a tratamentos anteriores e pela preferência do doente: a eficácia é semelhante entre antipsicóticos, e entre típicos e atípicos, com uma exceção, a clozapina.
  • A melhoria começa muitas vezes nos primeiros dias e desenvolve-se ao longo de semanas. Se ao fim de 2 semanas não houver pelo menos 20% de melhoria, a probabilidade de resposta com esse fármaco e essa dose é pequena; antes de concluir que falhou, o fármaco deve ter sido dado em dose ótima durante 4 a 6 semanas.
  • A agitação e a insónia tratam-se com uma benzodiazepina adjuvante, por pouco tempo, em vez de subir a dose do antipsicótico.
  • Associar dois antipsicóticos não se faz, com uma exceção: o reforço da clozapina.
  • O internamento reserva-se ao risco para o próprio ou para terceiros, ou à impossibilidade de tratar em ambulatório.

Efeitos adversos que decidem a escolha

EfeitoMais frequente comMenos frequente com
Aumento de peso e alterações metabólicasolanzapina, clozapina, quetiapina, clorpromazinahaloperidol, lurasidona, aripiprazol
Efeitos extrapiramidaishaloperidol, clorpromazina, lurasidonaolanzapina, quetiapina, aripiprazol, clozapina
Hiperprolactinemiapaliperidona, risperidona, haloperidolaripiprazol, quetiapina
Prolongamento do QTamissulpridalurasidona, aripiprazol
Sedaçãoclorpromazina, quetiapina, olanzapina, clozapinaamissulprida, paliperidona, aripiprazol

A hiperprolactinemia dá amenorreia, galactorreia, disfunção sexual e, a prazo, perda de massa óssea. A disfunção sexual e o ganho de peso raramente são referidos espontaneamente e são causas silenciosas de abandono: pergunta-se por eles.

Efeitos extrapiramidais, pelo tempo de início

Quando apareceO que éO que fazer
Minutos a diasdistonia aguda: crise oculógira, torcicolo, trismoanticolinérgico por via parentérica (biperideno) ou benzodiazepina
Dias a semanasacatisia: inquietação subjetiva, necessidade de se mexerreduzir a dose ou trocar de fármaco; se não for possível, benzodiazepina ou bloqueador beta (propranolol)
Semanasparkinsonismo: bradicinesia, rigidez, tremor, hipomimiareduzir a dose ou trocar para um fármaco com menos efeitos extrapiramidais; anticolinérgico só se incomodar, e não por rotina
Meses a anosdiscinesia tardia, orofacialrever a necessidade do antipsicótico, preferir um atípico, retirar os anticolinérgicos; inibidor do VMAT2 (transportador vesicular de monoaminas do tipo 2) se for moderada ou grave

Monitorização física

ParâmetroAntes de iniciarDepois
Pesosimsemanal nas primeiras 6 semanas, às 12 semanas, ao fim de 1 ano e depois anual
Perímetro abdominalsimanual
Pulso e tensão arterialsimàs 12 semanas, ao fim de 1 ano e depois anual
Glicemia em jejum ou hemoglobina glicada, e perfil lipídicosimàs 12 semanas, ao fim de 1 ano e depois anual

Antes de iniciar pedem-se também a prolactina, a avaliação dos movimentos anormais e, quando indicado, o eletrocardiograma. A equipa de psiquiatria mantém a responsabilidade por esta vigilância pelo menos durante os primeiros 12 meses.

  • Perante ganho ponderal: dieta e atividade física, troca para um fármaco de menor impacto metabólico e metformina. Os agonistas do recetor do GLP-1 (péptido semelhante ao glucagon do tipo 1) produzem perda de peso importante nestes doentes, sem agravar os sintomas psicóticos nos estudos disponíveis.
  • A cessação tabágica é a intervenção de saúde física com mais impacto, mas altera os níveis de clozapina e de olanzapina.

Manutenção

  • Um ano depois de parar o antipsicótico recaem cerca de 65% dos doentes, contra 27% dos que o mantêm. Depois de um primeiro episódio a diferença é ainda maior: 77% contra 3%.
  • Manter pelo menos 1 a 2 anos depois de um primeiro episódio (o instituto britânico de excelência clínica, NICE; as recomendações australianas e neozelandesas propõem 2 a 5 anos), e mais tempo depois de um segundo episódio.
  • O tratamento contínuo é melhor do que o intermitente, na menor dose eficaz, que no primeiro episódio é mais baixa do que depois.
  • A suspensão, quando se decide, é gradual, com vigilância dos sinais precoces de recaída durante pelo menos 2 anos.
  • A má adesão é frequente, e associa-se a falta de crítica e a atitudes negativas perante a medicação. Uma toma diária ajuda.

Injetáveis de ação prolongada

  • Oferecem-se, não se impõem: quando o doente os prefere ou quando há má adesão ou adesão incerta. Reduzem a recaída em cerca de 30% em relação ao mesmo tratamento oral.
  • Opções: aripiprazol, paliperidona, risperidona, olanzapina e os típicos (haloperidol, flufenazina, zuclopentixol).
  • A concentração máxima demora semanas a ser atingida, o que obriga a subir e descer a dose devagar e a planear a redução do fármaco oral.
  • A olanzapina injetável de ação prolongada pode causar, logo após a injeção, sedação excessiva e confusão, raramente coma: o doente fica em observação durante pelo menos 3 horas depois de cada injeção.

Esquizofrenia resistente ao tratamento

  • Afeta cerca de 1 em cada 3 doentes.
  • Define-se pela falência de dois antipsicóticos diferentes, cada um em dose adequada (pelo menos o equivalente a 600 mg de clorpromazina por dia) durante pelo menos 6 semanas, com adesão confirmada. O NICE pede que pelo menos um deles seja um antipsicótico de segunda geração que não a clozapina.
  • Antes de a declarar, excluir a pseudorresistência: numa série, metade dos doentes tidos por resistentes tinha níveis do antipsicótico baixos ou indetetáveis. Rever também o diagnóstico, o consumo de substâncias, a doença física, e a leitura de parkinsonismo como sintomas negativos.
  • A resposta é a clozapina, oferecida a todos os que cumprem os critérios. Na prática é subutilizada e introduzida muitos anos tarde: o erro clássico é tentar um terceiro, um quarto e um quinto antipsicótico.

Clozapina

  • É o único antipsicótico com eficácia superior: responde cerca de um terço dos doentes resistentes. Reduz também o comportamento suicida e a agressividade, e a sociedade americana de psiquiatria recomenda-a igualmente quando o risco de suicídio se mantém apesar de outros tratamentos.
  • Começa-se com 12,5 mg uma ou duas vezes no primeiro dia e sobe-se devagar.
  • Neutrófilos (revisão da agência europeia do medicamento, EMA, de 2025, que se aplica em Portugal):
SituaçãoO que fazer
Antes de iniciarsó se neutrófilos de pelo menos 1,5 × 10⁹/L (1,0 × 10⁹/L na neutropenia étnica benigna confirmada); os leucócitos totais deixaram de ser exigidos
Primeiras 18 semanasneutrófilos semanais
Até completar o primeiro anomensais
Segundo ano, sem neutropenia no primeirocada 12 semanas
Depois de 2 anos sem neutropeniaanuais
Neutropenia ligeira (1,0 a 1,5 × 10⁹/L) que estabiliza ou resolvemensais durante todo o tratamento
Neutrófilos abaixo de 1,0 × 10⁹/L (0,5 × 10⁹/L na neutropenia étnica benigna)parar de imediato, não voltar a expor, e vigiar semanalmente durante 4 semanas
  • Febre, dor de garganta ou outro sinal de infeção obrigam a contar os neutrófilos no próprio dia, em qualquer fase do tratamento.
  • Nos Estados Unidos acabou em 2025 o registo obrigatório das análises antes de a farmácia dispensar a clozapina, mas a vigilância dos neutrófilos continua recomendada. Na Europa continua a ser obrigatória, com este esquema.
  • Tomas falhadas: se passaram mais de 2 dias desde a última toma, não se retoma a dose anterior; retitula-se desde 12,5 mg, porque a tolerância ao efeito hipotensor se perde. Uma interrupção de 4 semanas ou mais obriga a retitular e a voltar à contagem semanal.
  • Miocardite: 85% dos casos nos primeiros 2 meses. Pede-se troponina e proteína C reativa antes de iniciar e semanalmente nas primeiras 4 semanas; troponina acima do dobro do limite superior ou proteína C reativa acima de 100 mg/L obrigam a parar, e a clozapina não se reintroduz depois de uma miocardite.
  • Obstipação e íleo paralítico: podem ser fatais. Pergunta-se pelo trânsito intestinal em cada consulta e trata-se a obstipação cedo.
  • Convulsões, dependentes da dose; se for preciso um antiepilético, usa-se o valproato e evita-se a carbamazepina, que também pode causar agranulocitose.
  • Frequentes e incómodos: sedação, aumento de peso e hipersalivação.
  • O fumo do tabaco (e não a nicotina) induz o CYP1A2 e baixa os níveis de clozapina; quem deixa de fumar precisa de reduzir a dose. O doseamento sérico é útil quando há dúvida sobre a adesão ou falta de resposta.
  • Sem resposta à clozapina em dose e níveis adequados, pode associar-se um antipsicótico com grande afinidade D2 (amissulprida ou aripiprazol) ou eletroconvulsivoterapia, com evidência limitada.

Intervenções psicossociais

  • Terapia cognitivo-comportamental para a psicose (pelo menos 16 sessões planeadas, segundo o NICE) e intervenção familiar (pelo menos 10 sessões ao longo de 3 meses a 1 ano), que reduz a recaída e a sobrecarga dos cuidadores.
  • Emprego apoiado, reabilitação cognitiva, treino de competências sociais, psicoeducação e equipas de tratamento assertivo na comunidade para quem se afasta do seguimento.
  • No primeiro episódio, equipas de intervenção precoce que juntam o antipsicótico, a terapia cognitivo-comportamental, a intervenção familiar, o apoio ao estudo ou ao emprego e a vigilância da saúde física. A clozapina não é primeira linha.
  • A eletroconvulsivoterapia fica para a catatonia, os sintomas depressivos graves e o reforço da clozapina.

Tratamento involuntário (Lei n.º 35/2023)

  • Pressupostos cumulativos: doença mental; recusa do tratamento medicamente prescrito; perigo para bens jurídicos pessoais ou patrimoniais de terceiros, ou do próprio quando este não tem o discernimento necessário para avaliar o sentido e o alcance do consentimento; e a finalidade terapêutica.
  • Só se usa se for a única forma de garantir o tratamento e se for adequado e proporcional. A regra é o ambulatório, pelas equipas comunitárias de saúde mental; o internamento é a exceção e é substituído por ambulatório logo que possível.
  • A decisão é judicial, com avaliação clínico-psiquiátrica por dois psiquiatras, defensor e direito de recurso.
  • No internamento de urgência, perante perigo iminente, o juiz decide a manutenção em 48 horas a contar da privação da liberdade.
  • A revisão é obrigatória 2 meses depois do início ou da última decisão, com relatório de dois psiquiatras.
  • Um diagnóstico de esquizofrenia não é, por si, perigosidade, e a capacidade para consentir avalia-se para cada decisão concreta.
Antipsicóticos: o que os distingue é o perfil de efeitos adversos A eficácia é semelhante entre eles, com a exceção da clozapina: escolhe-se pelos efeitos adversos. Efeitos extrapiramidais mais frequentes com haloperidol e clorpromazina Início Síndrome Clínica Abordagem Minutos a dias Distonia aguda Crise oculógira, trismo, torcicolo Biperideno intramuscular Dias a semanas Acatisia Inquietação subjetiva intensa Reduzir ou trocar; propranolol Semanas Parkinsonismo Bradicinesia, rigidez, tremor Reduzir a dose ou trocar Meses a anos Discinesia tardia Orofacial; pode ser irreversível Retirar anticolinérgico; VMAT2 ! Acatisia: inquietação subjetiva, confundida com agitação psicótica. Aumentar o antipsicótico agrava-a. Associa-se a sofrimento intenso e a risco de suicídio. Efeitos não motores Efeito Mais frequente com Nota clínica Peso e metabolismo Olanzapina, clozapina Vigiar peso, glicemia e lípidos Hiperprolactinemia Paliperidona, risperidona Amenorreia, galactorreia, libido Sedação Quetiapina, olanzapina, clozapina Também hipotensão ortostática QT prolongado Amissulprida Eletrocardiograma de base O aripiprazol, agonista parcial D2, é dos que menos sobem a prolactina e o peso. Clozapina: a única com eficácia superior Indicada na esquizofrenia resistente ao tratamento: falha de 2 antipsicóticos, em dose adequada durante pelo menos 6 semanas, com adesão confirmada. Os riscos que matam ou incapacitam Neutropenia e agranulocitose: neutrófilos semanais nas primeiras 18 semanas, mensais até 1 ano, depois cada 12 semanas e, sem neutropenia em 2 anos, anuais (revisão europeia de 2025). Parar se neutrófilos abaixo de 1,0 × 10⁹/L; febre ou dor de garganta: contagem no próprio dia. Miocardite: sobretudo nos 2 primeiros meses; troponina e proteína C reativa semanais no 1.º mês. Íleo paralítico e obstipação grave: perguntar pelo trânsito intestinal e tratar cedo. Convulsões, dependentes da dose; sedação e hipersalivação. Mais de 2 dias sem tomar Não se retoma a dose anterior: perde-se a tolerância ao efeito hipotensor. Retitular desde 12,5 mg, uma ou duas vezes no primeiro dia. Tabaco e clozapina O fumo induz o CYP1A2 e baixa os níveis de clozapina e de olanzapina; deixar de fumar sobe-os, com risco de sedação, convulsões e toxicidade: antecipar a redução da dose.

Referências

  1. Harrison P, Cowen P, Burns T, Fazel M. Schizophrenia. In: Shorter Oxford textbook of psychiatry. 7th ed. Oxford: Oxford University Press; 2018.
  2. Harrison P, Cowen P, Burns T, Fazel M. Paranoid symptoms and disorders. In: Shorter Oxford textbook of psychiatry. 7th ed. Oxford: Oxford University Press; 2018.
  3. American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 5th ed., text revision (DSM-5-TR). Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing; 2022.
  4. World Health Organization. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural or neurodevelopmental disorders. Geneva: World Health Organization; 2024.
  5. National Institute for Health and Care Excellence. Psychosis and schizophrenia in adults: prevention and management. Clinical guideline CG178. London: NICE; 2014 (última atualização em 2026).
  6. Keepers GA, Fochtmann LJ, Anzia JM, Benjamin S, Lyness JM, Mojtabai R, et al. The American Psychiatric Association practice guideline for the treatment of patients with schizophrenia. Am J Psychiatry. 2020;177(9):868-72.
  7. Howes OD, McCutcheon R, Agid O, de Bartolomeis A, van Beveren NJ, Birnbaum ML, et al. Treatment-resistant schizophrenia: Treatment Response and Resistance in Psychosis (TRRIP) Working Group consensus guidelines on diagnosis and terminology. Am J Psychiatry. 2017;174(3):216-29.
  8. European Medicines Agency. Clozapine: revised recommendations for routine blood count monitoring for the risk of agranulocytosis. Direct healthcare professional communication. Amsterdam: EMA; 2025.
  9. European Medicines Agency. Summary information on a referral opinion following an arbitration pursuant to article 30 of Council Directive 2001/83/EC for Leponex and associated names (clozapine). London: EMA.
  10. Ronaldson KJ, Fitzgerald PB, Taylor AJ, Topliss DJ, McNeil JJ. A new monitoring protocol for clozapine-induced myocarditis based on an analysis of 75 cases and 94 controls. Aust N Z J Psychiatry. 2011;45(6):458-65.
  11. Medsafe. Clozapine and cardiac safety: updated advice for prescribers. Prescriber Update. Wellington: New Zealand Medicines and Medical Devices Safety Authority.
  12. Leucht S, Cipriani A, Spineli L, Mavridis D, Örey D, Richter F, et al. Comparative efficacy and tolerability of 15 antipsychotic drugs in schizophrenia: a multiple-treatments meta-analysis. Lancet. 2013;382(9896):951-62.
  13. Olfson M, Gerhard T, Huang C, Crystal S, Stroup TS. Premature mortality among adults with schizophrenia in the United States. JAMA Psychiatry. 2015;72(12):1172-81.
  14. Bak M, Campforts B, Domen P, van Amelsvoort T, Drukker M. Glucagon-like peptide agonists for weight management in antipsychotic-induced weight gain: a systematic review and meta-analysis. Acta Psychiatr Scand. 2024. doi:10.1111/acps.13734.
  15. Olanow CW, Schapira AHV, Obeso JA. Hyperkinetic movement disorders. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 20th ed. New York: McGraw-Hill; 2018.
  16. Assembleia da República. Lei n.º 35/2023, de 21 de julho: aprova a Lei da Saúde Mental. Diário da República, 1.ª série. 2023.

20 perguntas sobre Esquizofrenia

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar