Esquizofrenia
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 20 perguntas neste tema
A esquizofrenia é uma perturbação psicótica crónica, de origem neurodesenvolvimental, com três dimensões de sintomas: positivos (delírios, alucinações, desorganização do pensamento e do comportamento), negativos (embotamento afetivo, alogia, avolição, anedonia, retraimento social) e cognitivos. A prevalência ao longo da vida ronda 0,5%, o início é habitualmente entre o fim da adolescência e os 30 anos, mais cedo no homem, e a heritabilidade é de cerca de 80%, com a canábis, a migração, a vida urbana e as complicações obstétricas entre os fatores ambientais.
A doença instala-se muitas vezes de forma insidiosa: o retraimento e a queda do rendimento escolar ou profissional precedem, num pródromo de meses ou anos, os delírios persecutórios e as vozes que comentam ou falam entre si. A base biológica mais consistente é o aumento da síntese e da libertação de dopamina no estriado, que o bloqueio dos recetores D2 corrige nos sintomas positivos, mas não nos negativos nem nos cognitivos, que são os que mais pesam na incapacidade.
O diagnóstico é clínico e apoia-se na história colateral. O DSM-5-TR exige sintomas ativos durante pelo menos um mês e sinais contínuos durante pelo menos seis meses; a CID-11 basta-se com o mês. Num primeiro episódio, a psicose só se atribui à esquizofrenia depois de excluir substâncias, fármacos, doença orgânica e perturbação do humor.
O tratamento junta um antipsicótico em monoterapia, escolhido pelo perfil de efeitos adversos porque a eficácia é semelhante entre eles, e intervenções psicossociais: terapia cognitivo-comportamental, intervenção familiar e emprego apoiado. A manutenção evita recaídas e dura pelo menos um a dois anos depois do primeiro episódio; os injetáveis de ação prolongada ajudam quando a adesão falha. Quando dois antipsicóticos falham em dose e tempo adequados, a resposta é a clozapina, com vigilância dos neutrófilos que a Europa reviu em 2025.
O que não se pode falhar: a acatisia confundida com agitação; a síndrome maligna dos neurolépticos; a neutropenia, a miocardite e o íleo paralítico da clozapina; a vigilância metabólica, porque a esperança de vida é 15 a 20 anos mais curta, sobretudo por doença cardiovascular; e o risco de suicídio, maior no início da doença e nas semanas depois da alta.
Genética
- Heritabilidade de cerca de 80% (81% numa meta-análise de estudos de gémeos).
- Risco ao longo da vida: 48% no gémeo monozigótico, 17% no dizigótico, 9% no irmão e 46% no filho de dois pais doentes, contra cerca de 1% na população.
- A arquitetura é poligénica: centenas de polimorfismos comuns de pequeno efeito, a que se juntam variações raras do número de cópias, de efeito grande.
- A deleção 22q11.2 (síndrome velocardiofacial, 1 em cada 4000 nascimentos) associa-se a psicose em cerca de 30% dos portadores. Procura-se perante dismorfia facial, fenda palatina, cardiopatia conotruncal ou hipocalcemia.
- Os genes de risco convergem na sinalização do recetor NMDA do glutamato, na plasticidade sináptica, na função imunitária e na sinalização do cálcio.
- Esquizofrenia e doença bipolar não se transmitem de forma independente: juntam-se nas mesmas famílias e partilham alelos de risco.
Ambiente
- Complicações obstétricas, infeção e desnutrição maternas, nascimento no fim do inverno.
- Nascimento e crescimento em meio urbano, migração, pertença a minoria étnica, trauma na infância.
- Canábis: numa coorte de conscritos suecos, o risco foi 2,5 vezes maior nos consumidores e 6 vezes maior nos grandes consumidores, e o consumo antecipa a idade de início. Deixar de consumir faz parte do tratamento.
Modelo neurodesenvolvimental
- Uma vulnerabilidade genética e insultos precoces alteram o desenvolvimento cerebral, mas a doença só se exprime no fim da adolescência, quando a maturação cortical a põe a descoberto.
- Já no primeiro episódio há redução do volume cerebral e alargamento dos ventrículos: não é efeito do fármaco, e a neuropatologia não é a de uma doença neurodegenerativa.
- Os défices cognitivos e sociais precedem a psicose.
Dopamina
- A alteração mais consistente é pré-sináptica: aumento da síntese e da libertação de dopamina no estriado, sobretudo no estriado associativo. O aumento dos recetores D2 é pequeno.
- Esta hiperdopaminergia surge no pródromo, desaparece na remissão e a sua dimensão prediz a resposta ao antipsicótico.
- No córtex pré-frontal há, pelo contrário, défice de dopamina, que se relaciona com os défices cognitivos.
- A saliência aberrante liga a biologia à clínica: a dopamina em excesso atribui importância a estímulos irrelevantes, e o delírio é a explicação que a pessoa constrói para essa experiência.
O esquema clássico das vias dopaminérgicas simplifica a anatomia, mas explica o que os antipsicóticos fazem:
| Via | Na doença ou sob bloqueio D2 | Consequência |
|---|---|---|
| Mesolímbica e estriado associativo | excesso de dopamina | sintomas positivos, que o bloqueio D2 trata |
| Mesocortical | défice de dopamina | sintomas negativos e cognitivos, que o bloqueio D2 não trata |
| Nigroestriada | bloqueio pelo antipsicótico | efeitos extrapiramidais |
| Tuberoinfundibular | bloqueio pelo antipsicótico | hiperprolactinemia |
Glutamato e ácido gama-aminobutírico (GABA)
- Os antagonistas do recetor NMDA (fenciclidina, cetamina) induzem uma psicose semelhante à esquizofrenia.
- A hipótese da hipofunção do recetor NMDA vê o glutamato como a alteração mais primária e duradoura, e a dopamina como a alteração a jusante, ligada ao estado agudo.
- Há alterações dos interneurónios GABA que contêm parvalbumina, que modulam as células piramidais do córtex.
- Uma pequena percentagem dos casos deve-se a anticorpos contra o recetor NMDA, e a encefalite anti-NMDA é o modelo humano desta hipótese.
O diagnóstico é clínico. Não há exame que o confirme: os exames excluem uma psicose secundária e estabelecem a linha de base antes de medicar. A história colateral é indispensável, porque é ela que data o pródromo e decide a duração.
Critérios do DSM-5-TR
- A: dois ou mais dos seguintes, cada um durante uma parte significativa de pelo menos 1 mês (menos, se tratados com êxito), sendo pelo menos um dos três primeiros:
- delírios;
- alucinações;
- discurso desorganizado;
- comportamento muito desorganizado ou catatónico;
- sintomas negativos.
- B: funcionamento claramente abaixo do nível anterior (trabalho, relações, cuidado pessoal).
- C: sinais contínuos durante pelo menos 6 meses, incluindo o mês de fase ativa; o resto pode ser pródromo ou fase residual, só com sintomas negativos ou atenuados.
- D e E: excluídas a perturbação esquizoafetiva, a perturbação do humor com sintomas psicóticos, as substâncias e as doenças médicas.
- F: numa pessoa com perturbação do espectro do autismo, só se diagnostica esquizofrenia se houver delírios ou alucinações proeminentes durante pelo menos 1 mês.
Onde a CID-11 diverge
- Pelo menos dois sintomas durante a maior parte do tempo, durante 1 mês ou mais, sendo pelo menos um de: delírios persistentes, alucinações persistentes, pensamento desorganizado, ou experiências de influência, passividade ou controlo.
- Não exige os 6 meses nem o declínio funcional. Os dois sistemas aboliram os subtipos clássicos (paranoide, hebefrénica, catatónica).
| Duração dos sintomas | DSM-5-TR | CID-11 |
|---|---|---|
| Pelo menos 1 dia e menos de 1 mês | perturbação psicótica breve | perturbação psicótica aguda e transitória (até 3 meses, com sintomas que mudam de dia para dia e sem sintomas negativos) |
| De 1 a 6 meses | perturbação esquizofreniforme | esquizofrenia |
| 6 meses ou mais | esquizofrenia | esquizofrenia |
Diagnóstico diferencial
| Entidade | O que a distingue |
|---|---|
| Perturbação do humor com sintomas psicóticos | a psicose surge só durante os episódios de mania ou de depressão |
| Perturbação esquizoafetiva | episódio de humor major concomitante, e pelo menos 2 semanas de psicose sem sintomas de humor proeminentes |
| Perturbação delirante | delírios de pelo menos 1 mês, sem nunca preencher o critério A da esquizofrenia; o funcionamento fora do tema do delírio está preservado |
| Perturbação esquizotípica | excentricidade e ideias de referência de longa data, sem psicose franca mantida |
| Psicose induzida por substâncias | canábis, estimulantes, alucinogénios, corticoides, levodopa; ou privação de álcool e de benzodiazepinas |
| Alucinose alcoólica | vozes, muitas vezes insultuosas, com consciência clara, num doente com dependência de álcool |
| Delirium, incluindo o delirium tremens | flutuação da consciência e da atenção, desorientação, alucinações visuais, disautonomia |
| Encefalite anti-NMDA | psicose de início recente com convulsões, discinesias orofaciais, disautonomia ou alteração da consciência; teratoma do ovário na mulher jovem |
| Outras causas orgânicas | epilepsia do lobo temporal, tumor, traumatismo, infeção por vírus da imunodeficiência humana, neurossífilis, lúpus, doença de Wilson, défice de vitamina B12 |
Bandeiras vermelhas de psicose secundária
- Primeiro episódio depois dos 40 anos.
- Alucinações visuais, olfativas ou táteis proeminentes.
- Flutuação da consciência ou da atenção, que é delirium até prova em contrário.
- Sinais neurológicos focais, convulsões, cefaleia, febre, movimentos anormais, disautonomia.
- Curso atípico, com instalação muito rápida ou resposta estranhamente má ao antipsicótico.
Estudo inicial
- Exame físico e neurológico; peso, índice de massa corporal, perímetro abdominal, pulso e tensão arterial.
- Hemograma, ionograma com cálcio, função renal e hepática, função tiroideia, glicemia em jejum e hemoglobina glicada, perfil lipídico e prolactina, que fazem também de linha de base para o antipsicótico.
- Pesquisa de drogas na urina, serologias do vírus da imunodeficiência humana e da sífilis, teste de gravidez.
- Eletrocardiograma antes de iniciar o antipsicótico quando o resumo das características do medicamento o exige, quando há doença ou risco cardiovascular (por exemplo, hipertensão) ou quando o doente é internado.
- Neuroimagem e eletroencefalograma perante bandeiras vermelhas; punção lombar com pesquisa de anticorpos anti-NMDA se houver suspeita de encefalite.
O tratamento junta sempre um antipsicótico e intervenções psicossociais, e a decisão sobre o fármaco é partilhada com o doente e, quando ele o aceita, com a família.
Episódio agudo
- Antipsicótico em monoterapia, a começar na parte baixa do intervalo de doses e a titular, sem doses de carga.
- A escolha faz-se pelo perfil de efeitos adversos, pela resposta a tratamentos anteriores e pela preferência do doente: a eficácia é semelhante entre antipsicóticos, e entre típicos e atípicos, com uma exceção, a clozapina.
- A melhoria começa muitas vezes nos primeiros dias e desenvolve-se ao longo de semanas. Se ao fim de 2 semanas não houver pelo menos 20% de melhoria, a probabilidade de resposta com esse fármaco e essa dose é pequena; antes de concluir que falhou, o fármaco deve ter sido dado em dose ótima durante 4 a 6 semanas.
- A agitação e a insónia tratam-se com uma benzodiazepina adjuvante, por pouco tempo, em vez de subir a dose do antipsicótico.
- Associar dois antipsicóticos não se faz, com uma exceção: o reforço da clozapina.
- O internamento reserva-se ao risco para o próprio ou para terceiros, ou à impossibilidade de tratar em ambulatório.
Efeitos adversos que decidem a escolha
| Efeito | Mais frequente com | Menos frequente com |
|---|---|---|
| Aumento de peso e alterações metabólicas | olanzapina, clozapina, quetiapina, clorpromazina | haloperidol, lurasidona, aripiprazol |
| Efeitos extrapiramidais | haloperidol, clorpromazina, lurasidona | olanzapina, quetiapina, aripiprazol, clozapina |
| Hiperprolactinemia | paliperidona, risperidona, haloperidol | aripiprazol, quetiapina |
| Prolongamento do QT | amissulprida | lurasidona, aripiprazol |
| Sedação | clorpromazina, quetiapina, olanzapina, clozapina | amissulprida, paliperidona, aripiprazol |
A hiperprolactinemia dá amenorreia, galactorreia, disfunção sexual e, a prazo, perda de massa óssea. A disfunção sexual e o ganho de peso raramente são referidos espontaneamente e são causas silenciosas de abandono: pergunta-se por eles.
Efeitos extrapiramidais, pelo tempo de início
| Quando aparece | O que é | O que fazer |
|---|---|---|
| Minutos a dias | distonia aguda: crise oculógira, torcicolo, trismo | anticolinérgico por via parentérica (biperideno) ou benzodiazepina |
| Dias a semanas | acatisia: inquietação subjetiva, necessidade de se mexer | reduzir a dose ou trocar de fármaco; se não for possível, benzodiazepina ou bloqueador beta (propranolol) |
| Semanas | parkinsonismo: bradicinesia, rigidez, tremor, hipomimia | reduzir a dose ou trocar para um fármaco com menos efeitos extrapiramidais; anticolinérgico só se incomodar, e não por rotina |
| Meses a anos | discinesia tardia, orofacial | rever a necessidade do antipsicótico, preferir um atípico, retirar os anticolinérgicos; inibidor do VMAT2 (transportador vesicular de monoaminas do tipo 2) se for moderada ou grave |
Monitorização física
| Parâmetro | Antes de iniciar | Depois |
|---|---|---|
| Peso | sim | semanal nas primeiras 6 semanas, às 12 semanas, ao fim de 1 ano e depois anual |
| Perímetro abdominal | sim | anual |
| Pulso e tensão arterial | sim | às 12 semanas, ao fim de 1 ano e depois anual |
| Glicemia em jejum ou hemoglobina glicada, e perfil lipídico | sim | às 12 semanas, ao fim de 1 ano e depois anual |
Antes de iniciar pedem-se também a prolactina, a avaliação dos movimentos anormais e, quando indicado, o eletrocardiograma. A equipa de psiquiatria mantém a responsabilidade por esta vigilância pelo menos durante os primeiros 12 meses.
- Perante ganho ponderal: dieta e atividade física, troca para um fármaco de menor impacto metabólico e metformina. Os agonistas do recetor do GLP-1 (péptido semelhante ao glucagon do tipo 1) produzem perda de peso importante nestes doentes, sem agravar os sintomas psicóticos nos estudos disponíveis.
- A cessação tabágica é a intervenção de saúde física com mais impacto, mas altera os níveis de clozapina e de olanzapina.
Manutenção
- Um ano depois de parar o antipsicótico recaem cerca de 65% dos doentes, contra 27% dos que o mantêm. Depois de um primeiro episódio a diferença é ainda maior: 77% contra 3%.
- Manter pelo menos 1 a 2 anos depois de um primeiro episódio (o instituto britânico de excelência clínica, NICE; as recomendações australianas e neozelandesas propõem 2 a 5 anos), e mais tempo depois de um segundo episódio.
- O tratamento contínuo é melhor do que o intermitente, na menor dose eficaz, que no primeiro episódio é mais baixa do que depois.
- A suspensão, quando se decide, é gradual, com vigilância dos sinais precoces de recaída durante pelo menos 2 anos.
- A má adesão é frequente, e associa-se a falta de crítica e a atitudes negativas perante a medicação. Uma toma diária ajuda.
Injetáveis de ação prolongada
- Oferecem-se, não se impõem: quando o doente os prefere ou quando há má adesão ou adesão incerta. Reduzem a recaída em cerca de 30% em relação ao mesmo tratamento oral.
- Opções: aripiprazol, paliperidona, risperidona, olanzapina e os típicos (haloperidol, flufenazina, zuclopentixol).
- A concentração máxima demora semanas a ser atingida, o que obriga a subir e descer a dose devagar e a planear a redução do fármaco oral.
- A olanzapina injetável de ação prolongada pode causar, logo após a injeção, sedação excessiva e confusão, raramente coma: o doente fica em observação durante pelo menos 3 horas depois de cada injeção.
Esquizofrenia resistente ao tratamento
- Afeta cerca de 1 em cada 3 doentes.
- Define-se pela falência de dois antipsicóticos diferentes, cada um em dose adequada (pelo menos o equivalente a 600 mg de clorpromazina por dia) durante pelo menos 6 semanas, com adesão confirmada. O NICE pede que pelo menos um deles seja um antipsicótico de segunda geração que não a clozapina.
- Antes de a declarar, excluir a pseudorresistência: numa série, metade dos doentes tidos por resistentes tinha níveis do antipsicótico baixos ou indetetáveis. Rever também o diagnóstico, o consumo de substâncias, a doença física, e a leitura de parkinsonismo como sintomas negativos.
- A resposta é a clozapina, oferecida a todos os que cumprem os critérios. Na prática é subutilizada e introduzida muitos anos tarde: o erro clássico é tentar um terceiro, um quarto e um quinto antipsicótico.
Clozapina
- É o único antipsicótico com eficácia superior: responde cerca de um terço dos doentes resistentes. Reduz também o comportamento suicida e a agressividade, e a sociedade americana de psiquiatria recomenda-a igualmente quando o risco de suicídio se mantém apesar de outros tratamentos.
- Começa-se com 12,5 mg uma ou duas vezes no primeiro dia e sobe-se devagar.
- Neutrófilos (revisão da agência europeia do medicamento, EMA, de 2025, que se aplica em Portugal):
| Situação | O que fazer |
|---|---|
| Antes de iniciar | só se neutrófilos de pelo menos 1,5 × 10⁹/L (1,0 × 10⁹/L na neutropenia étnica benigna confirmada); os leucócitos totais deixaram de ser exigidos |
| Primeiras 18 semanas | neutrófilos semanais |
| Até completar o primeiro ano | mensais |
| Segundo ano, sem neutropenia no primeiro | cada 12 semanas |
| Depois de 2 anos sem neutropenia | anuais |
| Neutropenia ligeira (1,0 a 1,5 × 10⁹/L) que estabiliza ou resolve | mensais durante todo o tratamento |
| Neutrófilos abaixo de 1,0 × 10⁹/L (0,5 × 10⁹/L na neutropenia étnica benigna) | parar de imediato, não voltar a expor, e vigiar semanalmente durante 4 semanas |
- Febre, dor de garganta ou outro sinal de infeção obrigam a contar os neutrófilos no próprio dia, em qualquer fase do tratamento.
- Nos Estados Unidos acabou em 2025 o registo obrigatório das análises antes de a farmácia dispensar a clozapina, mas a vigilância dos neutrófilos continua recomendada. Na Europa continua a ser obrigatória, com este esquema.
- Tomas falhadas: se passaram mais de 2 dias desde a última toma, não se retoma a dose anterior; retitula-se desde 12,5 mg, porque a tolerância ao efeito hipotensor se perde. Uma interrupção de 4 semanas ou mais obriga a retitular e a voltar à contagem semanal.
- Miocardite: 85% dos casos nos primeiros 2 meses. Pede-se troponina e proteína C reativa antes de iniciar e semanalmente nas primeiras 4 semanas; troponina acima do dobro do limite superior ou proteína C reativa acima de 100 mg/L obrigam a parar, e a clozapina não se reintroduz depois de uma miocardite.
- Obstipação e íleo paralítico: podem ser fatais. Pergunta-se pelo trânsito intestinal em cada consulta e trata-se a obstipação cedo.
- Convulsões, dependentes da dose; se for preciso um antiepilético, usa-se o valproato e evita-se a carbamazepina, que também pode causar agranulocitose.
- Frequentes e incómodos: sedação, aumento de peso e hipersalivação.
- O fumo do tabaco (e não a nicotina) induz o CYP1A2 e baixa os níveis de clozapina; quem deixa de fumar precisa de reduzir a dose. O doseamento sérico é útil quando há dúvida sobre a adesão ou falta de resposta.
- Sem resposta à clozapina em dose e níveis adequados, pode associar-se um antipsicótico com grande afinidade D2 (amissulprida ou aripiprazol) ou eletroconvulsivoterapia, com evidência limitada.
Intervenções psicossociais
- Terapia cognitivo-comportamental para a psicose (pelo menos 16 sessões planeadas, segundo o NICE) e intervenção familiar (pelo menos 10 sessões ao longo de 3 meses a 1 ano), que reduz a recaída e a sobrecarga dos cuidadores.
- Emprego apoiado, reabilitação cognitiva, treino de competências sociais, psicoeducação e equipas de tratamento assertivo na comunidade para quem se afasta do seguimento.
- No primeiro episódio, equipas de intervenção precoce que juntam o antipsicótico, a terapia cognitivo-comportamental, a intervenção familiar, o apoio ao estudo ou ao emprego e a vigilância da saúde física. A clozapina não é primeira linha.
- A eletroconvulsivoterapia fica para a catatonia, os sintomas depressivos graves e o reforço da clozapina.
Tratamento involuntário (Lei n.º 35/2023)
- Pressupostos cumulativos: doença mental; recusa do tratamento medicamente prescrito; perigo para bens jurídicos pessoais ou patrimoniais de terceiros, ou do próprio quando este não tem o discernimento necessário para avaliar o sentido e o alcance do consentimento; e a finalidade terapêutica.
- Só se usa se for a única forma de garantir o tratamento e se for adequado e proporcional. A regra é o ambulatório, pelas equipas comunitárias de saúde mental; o internamento é a exceção e é substituído por ambulatório logo que possível.
- A decisão é judicial, com avaliação clínico-psiquiátrica por dois psiquiatras, defensor e direito de recurso.
- No internamento de urgência, perante perigo iminente, o juiz decide a manutenção em 48 horas a contar da privação da liberdade.
- A revisão é obrigatória 2 meses depois do início ou da última decisão, com relatório de dois psiquiatras.
- Um diagnóstico de esquizofrenia não é, por si, perigosidade, e a capacidade para consentir avalia-se para cada decisão concreta.
Referências
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- Assembleia da República. Lei n.º 35/2023, de 21 de julho: aprova a Lei da Saúde Mental. Diário da República, 1.ª série. 2023.
20 perguntas sobre Esquizofrenia
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar