Doença de Alzheimer
Atualizado em 19 de julho de 2026 · 14 perguntas neste tema
A doença de Alzheimer é a causa mais frequente de demência e um dos temas de maior rendimento da matriz PNA, porque cruza três competências avaliadas em simultâneo: reconhecer o mecanismo da doença, distinguir o quadro do envelhecimento normal e das outras demências, e orientar a pessoa e a família. Na prova aparece tipicamente sob a forma de uma vinheta com uma pessoa idosa trazida pelo cônjuge ou pelos filhos por esquecimentos progressivos, em que a pergunta discrimina entre défice cognitivo ligeiro, demência e delirium, ou pede a explicação fisiopatológica mais provável de um achado. Domina sobretudo quatro pontos: o critério de autonomia nas atividades instrumentais que separa o défice cognitivo ligeiro da demência; a terminologia do DSM-5-TR (perturbação neurocognitiva major e ligeira) sobreposta à nomenclatura da matriz; a sequência topográfica da patologia (córtex entorrinal e hipocampo primeiro, daí a amnésia anterógrada inaugural); e o estatuto da APOE ε4 como fator de suscetibilidade e não como teste diagnóstico. O delirium tem capítulo próprio neste lote e deve ser consultado em paralelo, porque é o diagnóstico diferencial que mais custa pontos.
A cascata amiloide: a espinha dorsal, e as suas fissuras
A hipótese da cascata amiloide é o modelo dominante e o que a PNA testa. Na sua versão linear: a proteína precursora de amiloide (APP), uma proteína transmembranar neuronal, pode ser clivada por duas vias. Na via não amiloidogénica, a α-secretase corta dentro do domínio Aβ e nunca gera o péptido patogénico. Na via amiloidogénica, a β-secretase (BACE1) corta primeiro e a γ-secretase — cujo núcleo catalítico é a presenilina — corta depois, libertando o péptido beta-amiloide. O comprimento do corte da γ-secretase determina tudo: o Aβ40 é solúvel e relativamente benigno; o Aβ42, com dois aminoácidos hidrofóbicos adicionais, é propenso à agregação.
O Aβ42 agrega-se em oligómeros solúveis — hoje considerados a espécie mais sinaptotóxica — que depois se organizam em fibrilhas e se depositam extracelularmente como placas senis (ou neuríticas). Em paralelo, o Aβ deposita-se na parede dos vasos leptomeníngeos e corticais, dando angiopatia amiloide cerebral, que explica a predisposição para hemorragias lobares e é o substrato das complicações imagiológicas dos anticorpos anti-amiloide.
A nota honesta, que distingue uma boa resposta de uma resposta decorada: a versão linear é insuficiente. A carga de placas correlaciona-se mal com a gravidade clínica; existem pessoas idosas com carga amiloide elevada e cognição normal; e décadas de ensaios que reduziram amiloide falharam em traduzir-se em benefício clínico. Só recentemente os anticorpos monoclonais anti-amiloide de segunda geração (lecanemab, donanemab), dirigidos a protofibrilhas e a amiloide depositada em doentes em fase ligeira ou prodrómica com amiloide confirmada por biomarcador, demonstraram abrandamento modesto da progressão em ensaios de fase 3 — na ordem de um quarto a um terço de redução do declínio em escalas clínicas ao longo de cerca de 18 meses, à custa de ARIA (edema e microhemorragias relacionados com amiloide), mais frequentes e mais graves em portadores de APOE ε4, sobretudo homozigóticos. A leitura correta é: a amiloide é causalmente relevante mas não suficiente, e o efeito clínico obtido ao removê-la é real mas pequeno. A disponibilidade e as condições de utilização em Portugal dependem das decisões regulamentares e de financiamento vigentes — descreve-se o princípio, não se assume o estado atual.
TAU hiperfosforilada: o que melhor acompanha a clínica
A proteína TAU é uma proteína associada aos microtúbulos que os estabiliza no axónio. Na doença de Alzheimer, a TAU é hiperfosforilada (por desequilíbrio entre cinases, como a GSK-3β e a CDK5, e fosfatases, como a PP2A), perde afinidade para os microtúbulos e agrega-se em filamentos helicoidais emparelhados, que se acumulam intraneuronalmente como tranças neurofibrilares (novelos neurofibrilares). A desestabilização do citoesqueleto compromete o transporte axonal, e a agregação culmina em disfunção sináptica e morte neuronal.
| Beta-amiloide | TAU | |
|---|---|---|
| Localização do depósito | Extracelular (placas) e vascular | Intracelular (tranças) |
| Lesão característica | Placa senil/neurítica | Trança neurofibrilar |
| Correlação com a gravidade clínica | Fraca | Forte |
| Cronologia | Deposita-se primeiro, anos a décadas antes dos sintomas | Espalha-se depois, acompanhando os sintomas |
| Especificidade | Relativamente específica de Alzheimer | Partilhada com outras taupatias |
Esta tabela resolve várias perguntas de exame. O amiloide é o evento mais precoce e o mais específico; a TAU é o que melhor prediz a gravidade e a topografia dos défices. O modelo integrado atual é o de amiloide como gatilho e TAU como executor, com neuroinflamação (ativação da micróglia e dos astrócitos, com variantes de risco em genes microgliais como o TREM2), stress oxidativo, disfunção mitocondrial e falência da depuração glinfática a modularem a ligação entre os dois.
Perda colinérgica e o núcleo basal de Meynert
A hipótese colinérgica é mais antiga do que a amiloide e continua a ser a única com tradução terapêutica sintomática consolidada. Os neurónios colinérgicos do núcleo basal de Meynert (prosencéfalo basal) projetam-se difusamente para o córtex cerebral e para o hipocampo, e são fundamentais para a atenção, a codificação de memória nova e o processamento cortical. Na doença de Alzheimer há degenerescência precoce e desproporcionada destes neurónios, com queda da colina-acetiltransferase (ChAT) e depleção de acetilcolina cortical.
Daí decorrem duas consequências que a prova explora:
- Base racional dos inibidores da colinesterase (donepezilo, rivastigmina, galantamina): ao inibir a acetilcolinesterase, aumentam a disponibilidade sináptica de acetilcolina, produzindo benefício sintomático e modesto — não modificam a doença. Os efeitos adversos são previsíveis a partir do mecanismo: colinérgicos — náuseas, vómitos, diarreia, cólicas, anorexia, bradicardia e síncope, pesadelos, cãibras, incontinência.
- Vulnerabilidade aos fármacos anticolinérgicos. Uma pessoa com doença de Alzheimer tem reserva colinérgica reduzida; introduzir oxibutinina, hidroxizina, amitriptilina ou difenidramina pode precipitar deterioração cognitiva franca ou delirium. Rever e reduzir a carga anticolinérgica é uma intervenção de alto rendimento — e uma resposta correta frequente nas vinhetas.
A memantina, antagonista não competitivo do recetor NMDA de afinidade moderada, atua noutro eixo: atenua a excitotoxicidade glutamatérgica tónica, com benefício nas fases moderada a grave.
Progressão topográfica: porque é que a memória vai primeiro
A patologia não avança ao acaso. Os estádios neuropatológicos de Braak descrevem a propagação das tranças neurofibrilares numa sequência estereotipada:
- Estádios I–II (transentorrinal): córtex entorrinal e região transentorrinal — pré-clínico ou queixas mínimas;
- Estádios III–IV (límbico): hipocampo e restante sistema límbico — corresponde ao aparecimento da amnésia anterógrada clínica;
- Estádios V–VI (neocortical): associação neocortical temporal, parietal e frontal — surgem afasia, apraxia, agnosia, desorientação topográfica e disfunção executiva.
O amiloide segue uma sequência quase inversa (fases de Thal: neocórtex primeiro, tronco cerebral e cerebelo por último), o que reforça a dissociação entre carga de placas e sintomas.
A consequência clínica direta: como o circuito entorrinal-hipocampal — a porta de entrada da consolidação de memória episódica nova — é atingido logo, o sintoma inaugural é a incapacidade de formar novas memórias (amnésia anterógrada), com preservação relativa da memória remota, da memória procedimental e, tipicamente, da motricidade e das funções sensoriais primárias até fases tardias. É também por isso que, na doença de Alzheimer, a evocação diferida não melhora com pistas nem com escolha múltipla — o problema é de armazenamento/consolidação, não de acesso. Se as pistas resgatam a informação, o padrão é mais compatível com disfunção executiva/frontossubcortical (vascular, depressão, parkinsonismo) do que com Alzheimer. Este é um dos discriminadores mais elegantes e mais cobrados.
Macroscopicamente, a RM mostra atrofia hipocampal e do córtex entorrinal, alargamento dos cornos temporais e, mais tarde, atrofia temporoparietal e alargamento ventricular difuso.
Genética: suscetibilidade versus determinismo
É obrigatório separar dois cenários que a PNA gosta de baralhar.
1. APOE ε4 — fator de suscetibilidade. O gene da apolipoproteína E (cromossoma 19) tem três alelos comuns: ε2, ε3 (o mais frequente) e ε4. A ApoE participa no transporte de lípidos e na depuração do Aβ; a isoforma ε4 é menos eficaz nessa depuração e favorece a agregação. Um alelo ε4 aumenta o risco de doença de Alzheimer de início tardio em cerca de três vezes; a homozigotia ε4/ε4 aumenta-o de forma substancialmente maior (estimativas habituais na ordem de 8 a 12 vezes) e antecipa a idade de início. O alelo ε2 é protetor.
A mensagem de exame: a APOE ε4 não é um teste diagnóstico nem um teste de rastreio. Muitos portadores nunca desenvolvem a doença; muitas pessoas com a doença não são portadoras. Não se pede genotipagem APOE para diagnosticar demência na prática clínica corrente — o seu uso é sobretudo em investigação e, mais recentemente, na estratificação do risco de ARIA antes de terapêutica anti-amiloide. Se uma opção de resposta propõe genotipar APOE para confirmar o diagnóstico, está errada.
2. Formas autossómicas dominantes — determinismo, mas raras. Representam menos de 1% de todos os casos e caracterizam-se por início precoce (frequentemente na 4.ª–6.ª décadas) e história familiar de vários afetados em gerações sucessivas:
| Gene | Cromossoma | Nota |
|---|---|---|
| PSEN1 (presenilina 1) | 14 | A mais frequente das três; início habitualmente mais precoce |
| PSEN2 (presenilina 2) | 1 | Rara; penetrância mais variável, início mais tardio |
| APP | 21 | Mutações que aumentam a produção total de Aβ ou a proporção de Aβ42 |
O fio condutor é coerente com a cascata: as presenilinas são o núcleo catalítico da γ-secretase, e as mutações deslocam a clivagem no sentido do Aβ42. Numa vinheta com demência progressiva antes dos 60 anos e vários familiares afetados em linha direta, PSEN1 é a resposta mais provável — e é indicação para aconselhamento genético formal, não para pedir um teste na consulta.
Trissomia 21: a prova de conceito humana
O gene APP situa-se no cromossoma 21. Na trissomia 21 (síndrome de Down) há uma cópia extra de APP, com sobreprodução de Aβ ao longo da vida. O resultado é notável e serve de argumento forte a favor do papel causal do amiloide: praticamente todas as pessoas com síndrome de Down apresentam neuropatologia de Alzheimer (placas e tranças) a partir dos 40 anos, e a demência clínica instala-se tipicamente por volta dos 50-55 anos (idade mediana de diagnóstico próxima dos 54 anos), muito antes do que na população geral. A doença de Alzheimer é hoje a principal causa de morte nesta população.
O diagnóstico é mais difícil pela existência de défice intelectual prévio, exigindo comparação com o funcionamento basal da própria pessoa e informação de cuidadores; a apresentação inicial é frequentemente com alterações do comportamento, apatia e convulsões de novo, mais do que com queixa de memória. Casos raros de trissomia 21 parcial que não incluem o gene APP não desenvolvem este padrão — o que confirma que o mecanismo é a dose génica de APP e não a trissomia em si.
O que se pode modificar
O relatório de 2024 da Lancet standing Commission on dementia identifica um conjunto alargado de fatores de risco potencialmente modificáveis ao longo da vida — entre eles baixa escolaridade, hipoacusia não corrigida, hipertensão, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, consumo excessivo de álcool, traumatismo cranioencefálico, isolamento social, poluição atmosférica, perda visual não corrigida e dislipidemia — estimando que uma proporção substancial dos casos de demência a nível populacional seja teoricamente evitável se todos fossem eliminados. Sobrepõe-se a este eixo o conceito de reserva cognitiva: escolaridade, ocupação estimulante e riqueza da rede social não travam a patologia, mas aumentam a carga lesional tolerada antes de a clínica emergir — o que explica que duas pessoas com neuropatologia semelhante possam estar em degraus clínicos diferentes.
O diagnóstico da doença de Alzheimer continua a ser essencialmente clínico: uma síndrome demencial com um perfil neuropsicológico característico, uma evolução insidiosa e progressiva, e a exclusão razoável de outras causas. Os exames complementares servem para excluir alternativas e, cada vez mais, para apoiar positivamente o diagnóstico através de biomarcadores.
Nota de nomenclatura: o DSM-5-TR designa o quadro como perturbação neurocognitiva major (ou ligeira) devida a doença de Alzheimer, exigindo declínio significativo em pelo menos um domínio cognitivo com interferência na autonomia (major) ou sem ela (ligeira). A CID-11 mantém o termo demência devida a doença de Alzheimer — é a formulação da matriz PNA. A divergência de designação é de rótulo, mas os critérios operacionais não coincidem: o DSM-5-TR basta-se com um domínio comprometido, ao passo que a CID-11 exige compromisso marcado em dois ou mais. Os limiares usados aqui são os do DSM-5-TR, complementados, quando indicado, pelos critérios revistos do grupo de trabalho da Alzheimer's Association (2024), que definem a doença biologicamente, incorporam os biomarcadores sanguíneos e propõem um estadiamento biológico-clínico em duas dimensões, substituindo o enquadramento de investigação NIA-AA de 2018. Essa definição biológica destina-se a assistir e não a substituir a avaliação clínica.
Clínica e estadiamento: a sequência importa
A armadilha mais frequente é confundir o esquecimento benigno da idade com o declínio patológico. O envelhecimento normal cursa com lentificação e falhas de evocação que beneficiam da pista (o doente lembra-se quando lhe dão uma dica). Na doença de Alzheimer o defeito é de consolidação hipocâmpica: a informação nunca chegou a ser armazenada, pelo que a pista não ajuda e surgem intrusões e falsos reconhecimentos. Este ponto — amnésia que não corrige com pista — é o discriminador clássico e é testável.
A progressão típica segue uma ordem previsível, que reflete a difusão da patologia do córtex entorrinal e hipocampo para o neocórtex de associação:
- Fase inicial (amnésia anterógrada inaugural). Repetição das mesmas perguntas, perda de objetos, esquecimento de conversas e compromissos recentes. A memória autobiográfica remota e a memória procedimental estão preservadas — o doente conta com detalhe a juventude mas não sabe o que almoçou. Podem já existir anomia discreta (dificuldade em nomear objetos pouco frequentes), desorientação topográfica e perda de iniciativa. A apatia é o sintoma neuropsiquiátrico mais precoce e mais prevalente, e é frequentemente confundida com depressão.
- Fase intermédia. Instala-se a tétrade cortical: afasia (discurso vazio, circunlóquios, parafasias semânticas), apraxia (ideomotora e, sobretudo, do vestir), agnosia (visual, com progressão para a prosopagnosia) e disfunção executiva (incapacidade de planear, de gerir dinheiro, de lidar com o imprevisto). Perde-se a autonomia nas atividades instrumentais — medicação, finanças, condução, telefone. Surgem delírios de roubo ou de prejuízo, identificações erradas, deambulação e agravamento vespertino.
- Fase avançada. Dependência nas atividades básicas, mutismo ou ecolália, incontinência, rigidez, mioclonias, disfagia e perda ponderal. As complicações terminais são habitualmente infeciosas.
Sinais que devem levantar suspeita de outro diagnóstico (bandeiras vermelhas para não-Alzheimer): início antes dos 65 anos, evolução em meses, alucinações visuais precoces, quedas ou síncopes precoces, sinais focais, convulsões, incontinência precoce, alterações da personalidade a preceder a amnésia, ou ataxia da marcha logo no início.
Diagnóstico diferencial das demências
É o núcleo do que a prova testa. As demências vascular, com corpos de Lewy e frontotemporal têm temas próprios na matriz e não são aqui desenvolvidas — interessa reconhecer o padrão discriminativo de cada uma.
| Alzheimer | Vascular | Corpos de Lewy | Frontotemporal | |
|---|---|---|---|---|
| Início / curso | Insidioso, declínio contínuo e gradual | Súbito ou em degraus, com patamares | Insidioso, com flutuação marcada | Insidioso, tipicamente antes dos 65 anos |
| Défice inaugural | Amnésia anterógrada | Disfunção executiva e lentificação | Visuoespacial e atencional; memória menos afetada | Personalidade e comportamento ou afasia progressiva; memória relativamente preservada |
| Neuropsiquiátrico | Apatia, delírios de roubo (tardios) | Labilidade emocional, depressão | Alucinações visuais bem formadas e precoces, delírios | Desinibição, apatia, perda de empatia, comportamentos ritualizados, hiperoralidade |
| Motor | Normal até fase tardia | Sinais focais, marcha a pequenos passos | Parkinsonismo simétrico, quedas, disautonomia | Pode associar-se a esclerose lateral amiotrófica |
| Pistas adicionais | Atrofia hipocâmpica | Fatores de risco vascular, lesões na imagem | Perturbação comportamental do sono REM (pode preceder anos), sensibilidade grave aos antipsicóticos | História familiar frequente, alteração do comportamento alimentar |
Três notas de exame:
- Na demência com corpos de Lewy, a sensibilidade aos antipsicóticos é potencialmente fatal (agravamento súbito do parkinsonismo, rigidez, alteração da consciência, quadro tipo síndrome maligna). Perante alucinações visuais num doente com parkinsonismo, não prescrever antipsicóticos de primeira geração nem risperidona; a regra prática é evitar antipsicóticos e, se forem inevitáveis, usar os de menor afinidade dopaminérgica em dose mínima. A relação temporal com o parkinsonismo distingue-a da demência da doença de Parkinson — a síndrome parkinsónica é matéria do tema de doença de Parkinson, na área de neurologia.
- A demência vascular e a doença de Alzheimer coexistem com frequência (patologia mista) — a presença de lesões vasculares na imagem não afasta Alzheimer.
- O delirium é o grande imitador e o grande sobreponível: início agudo, curso flutuante ao longo do dia, alteração da atenção e do nível de consciência. Tem capítulo próprio neste lote — remete-se para aí. Regra prática: nunca fazer o diagnóstico de demência durante um episódio agudo.
Causas reversíveis ou tratáveis a excluir sempre
São minoria dos casos, mas é aqui que se ganha ou perde o doente.
- Défice de vitamina B12 (e folato): macrocitose pode estar ausente; procurar parestesias e sinais cordonais posteriores.
- Hipotiroidismo: lentificação, obstipação, intolerância ao frio.
- Depressão (pseudodemência) — a distinção faz-se pelo padrão, não pelo score: início mais datável, queixa subjetiva de memória desproporcionada ao desempenho (o doente com Alzheimer minimiza, o deprimido amplifica), respostas "não sei" em vez de confabulação ou de tentativa, esforço flutuante conforme a motivação, humor depressivo e anedonia a precederem o défice. A resposta ao antidepressivo esclarece retrospetivamente. Atenção: a depressão em idade avançada é também um pródromo frequente de demência, pelo que a melhoria do humor não encerra o assunto.
- Hidrocefalia de pressão normal: tríade de marcha apráxica ("magnética", pés colados ao chão), incontinência urinária e défice cognitivo de tipo subcortical — e a marcha precede e domina o quadro. Ventriculomegalia desproporcionada à atrofia; a resposta à punção lombar evacuadora ajuda a selecionar candidatos a derivação.
- Hematoma subdural crónico: idoso, anticoagulado ou com quedas, cefaleia, flutuação e sonolência — traumatismo pode não ser recordado.
- Neurossífilis e infeção por VIH: pedir serologias perante quadro atípico, jovem, ou com fatores de risco.
- Fármacos com carga anticolinérgica (oxibutinina, anti-histamínicos de primeira geração, antidepressivos tricíclicos), benzodiazepinas, opioides e anticonvulsivantes — causa iatrogénica frequentíssima e reversível.
- Apneia obstrutiva do sono e consumo de álcool (incluindo síndrome de Wernicke-Korsakoff, com défice de tiamina).
Avaliação estruturada
História com informante — indispensável. A anosognosia torna o relato do próprio pouco fiável, e o diagnóstico depende de saber o que mudou face ao funcionamento prévio. Perguntar por marcos concretos: deixou de conduzir, trocou a medicação, perdeu-se num percurso conhecido.
Instrumentos de rastreio. O MMSE é o mais difundido mas tem limites que a prova gosta de testar: forte efeito da escolaridade (obrigando a pontos de corte ajustados — na adaptação portuguesa clássica de Guerreiro e colaboradores usam-se cortes distintos para analfabetos, 1–11 anos e mais de 11 anos de escolaridade), efeito de teto (falha o défice ligeiro em pessoas muito escolarizadas) e pobre avaliação das funções executivas e visuoespaciais. O MoCA é mais sensível no défice cognitivo ligeiro e explora melhor a função executiva; o teste do relógio é rápido e capta planeamento e organização visuoespacial. Nenhum destes instrumentos faz o diagnóstico — são rastreios.
Avaliação funcional. Distinguir atividades básicas (higiene, vestir, alimentação, continência) das instrumentais (medicação, finanças, transportes, telefone, compras) — são estas últimas que falham primeiro e que definem a passagem de perturbação neurocognitiva ligeira a major.
Exame neurológico e geral, incluindo marcha, sinais focais, extrapiramidais, visão e audição (a privação sensorial simula e agrava o défice).
Analítica: hemograma, função renal e hepática, ionograma com cálcio, glicémia, TSH, vitamina B12 e folato, e, conforme o contexto, serologias para sífilis e VIH.
Neuroimagem estrutural na avaliação inicial da generalidade dos doentes (NICE NG97, recomendação 1.2.13): TC aceitável como primeira linha para excluir hematoma subdural, hidrocefalia, neoplasia e enfartes; a RM é preferível por avaliar melhor a atrofia temporal medial, a carga de doença de pequenos vasos e a microangiopatia. A própria norma abre exceção quando a demência já está bem estabelecida e o subtipo é claro — aí o exame não altera a conduta e é dispensável. A neuroimagem funcional (PET com fluorodesoxiglicose, mostrando hipometabolismo temporoparietal e do cíngulo posterior) reserva-se para casos duvidosos, sobretudo na distinção com a demência frontotemporal.
Biomarcadores: o que são e onde estão hoje
Os biomarcadores permitem demonstrar a patologia subjacente in vivo, e não apenas inferi-la da clínica. Agrupam-se por aquilo que medem:
- Amiloide (A) — no LCR, a beta-amiloide 42 está baixa (porque fica retida nas placas, deixando de passar para o líquido) e o rácio Aβ42/Aβ40 melhora a exatidão; a PET amiloide mostra retenção cortical do traçador.
- Tau fosforilada (T) — p-tau elevada no LCR e PET tau, que se correlaciona melhor com a gravidade clínica e com a topografia dos sintomas.
- Neurodegenerescência (N) — tau total elevada, atrofia na RM, hipometabolismo na PET com fluorodesoxiglicose. É inespecífica.
O padrão típico da doença de Alzheimer no LCR é, portanto, beta-amiloide baixa com tau (total e fosforilada) elevada.
Os biomarcadores plasmáticos — com destaque para a p-tau217, atualmente o de melhor desempenho — são a novidade mais relevante da última década, por serem pouco invasivos e escaláveis. Deixaram entretanto de estar confinados à investigação: existe já um teste plasmático autorizado como dispositivo de diagnóstico in vitro (rácio p-tau217/Aβ42) e uma clinical practice guideline dedicada (Alzheimer's Association, 2025) que recomenda o seu uso, em cuidados especializados, no estudo diagnóstico de pessoas com défice cognitivo objetivado (défice cognitivo ligeiro ou demência), sempre após avaliação clínica completa e interpretados no contexto clínico. Mantém-se o essencial para a prova: não são teste de rastreio populacional, e o rendimento é maior no início precoce, nas apresentações atípicas, na dúvida diagnóstica persistente e na seleção de candidatos a terapêuticas anti-amiloide. Em Portugal, a via de confirmação biológica efetivamente acessível na prática do SNS é o estudo do líquido cefalorraquidiano (Aβ42, rácio Aβ42/Aβ40, tau total e p-tau) em centro hospitalar com consulta dedicada: a PET amiloide e a PET tau têm acesso muito limitado e os marcadores plasmáticos ainda não estão implementados em rotina, pelo que a decisão de os usar passa por referenciação e não por pedido em consulta de primeira linha. Um biomarcador positivo em pessoa assintomática indica patologia, não indica demência — e essa dissociação é eticamente e clinicamente importante quando se pondera comunicar o resultado.
Armadilha final: perante um doente com défice cognitivo, a primeira pergunta não é "que demência é esta?" mas sim "isto é delirium? isto é depressão? isto é iatrogenia?". Só depois de responder às três é que o diagnóstico diferencial das demências degenerativas faz sentido.
A doença de Alzheimer não tem, hoje, tratamento curativo. A orientação assenta em quatro pilares: tratar o que é tratável e reversível, oferecer o benefício sintomático modesto que os fármacos aprovados dão, estruturar o ambiente e a rotina, e sustentar o cuidador. A pergunta de exame raramente é "qual o fármaco?" — é mais frequentemente "qual a intervenção com maior impacto?" ou "o que é que este fármaco pode causar neste doente?".
Antes de qualquer prescrição, uma regra prática: uma deterioração súbita ou flutuante numa pessoa com demência conhecida é delirium até prova em contrário (ver capítulo próprio) e obriga a uma procura ordenada: primeiro o que se faz nos primeiros minutos à cabeceira — sinais vitais, glicémia capilar e oximetria —, depois ionograma com sódio e cálcio, função renal e despiste de evento vascular agudo (défice focal de novo, traumatismo craniano recente, anticoagulação), e só então infeção, obstipação, retenção urinária, dor não comunicada, desidratação ou fármaco novo. Prescrever um inibidor da colinesterase a um doente em delirium é um erro clássico.
Inibidores da colinesterase: o que fazem e o que não fazem
O donepezilo, a rivastigmina e a galantamina aumentam a disponibilidade sináptica de acetilcolina, compensando parcialmente a perda de neurónios colinérgicos do núcleo basal de Meynert. Estão indicados na doença de Alzheimer ligeira a moderada (NICE NG97 recomenda qualquer um dos três como opção de primeira linha nesta fase).
| Fármaco | Titulação habitual | Notas |
|---|---|---|
| Donepezilo | 5 mg/dia → 10 mg/dia após ~4 semanas | Toma única diária; semivida longa |
| Rivastigmina | Oral 1,5 mg 2×/dia com titulação lenta; transdérmica 4,6 → 9,5 mg/24 h | Também inibe a butirilcolinesterase; o adesivo reduz os efeitos gastrintestinais |
| Galantamina | Formulação de libertação prolongada 8 → 16 → 24 mg/dia | Modula adicionalmente recetores nicotínicos |
Não há evidência sólida de superioridade de um sobre os outros. A escolha faz-se pela tolerabilidade, pela via e pelo perfil de interações, não por eficácia comparada.
Sê honesto quanto à magnitude. O benefício é sintomático, de ordem de grandeza pequena — tipicamente alguns pontos numa escala cognitiva como a ADAS-Cog, correspondendo a um ganho aproximado de meses de função, com considerável heterogeneidade individual. Não modificam a neurodegenerescência subjacente nem a trajetória final da doença. Enquadrar esta expectativa com a família, por escrito e no início, evita desilusão e evita a manutenção acrítica de um fármaco que não está a ajudar.
Efeitos adversos — a parte que o exame testa
O perfil é previsivelmente colinérgico e dose-dependente:
- Gastrintestinais: náuseas, vómitos, diarreia, anorexia e perda de peso — relevante numa população já em risco nutricional.
- Cardiovasculares: bradicardia sinusal, bloqueio auriculoventricular, síncope e quedas. Estudos observacionais associaram o início destes fármacos a aumento de síncope, de implantação de pacemaker e de fratura da anca. Uma síncope numa pessoa com demência a tomar donepezilo deve fazer pensar no fármaco antes de se atribuir tudo à "idade".
- Neuropsiquiátricos: pesadelos e sonhos vívidos, insónia, agitação. A troca da toma para a manhã resolve frequentemente os pesadelos.
- Outros: cãibras musculares, incontinência urinária, aumento da secreção brônquica.
Cautela (não contraindicação absoluta, mas exige ponderação e frequentemente ECG prévio): doença do nó sinusal, bloqueio AV de grau elevado, bradicardia significativa, uso concomitante de betabloqueante ou de digoxina, história de úlcera péptica, asma ou DPOC mal controlada. Atenção também à interação com anticolinérgicos — prescrever um inibidor da colinesterase e simultaneamente oxibutinina para incontinência é anular um com o outro, um erro frequente na prática e nas vinhetas.
Memantina
A memantina é um antagonista não competitivo do recetor NMDA, de afinidade moderada, que atenua a excitotoxicidade glutamatérgica sem bloquear a neurotransmissão fisiológica. Está indicada na doença moderada a grave, isolada ou em associação a um inibidor da colinesterase; é também a alternativa quando os inibidores da colinesterase não são tolerados ou estão contraindicados por motivo cardíaco.
Titulação típica de 5 mg/dia com incrementos semanais até 20 mg/dia. Requer redução da dose na insuficiência renal moderada. É globalmente melhor tolerada do que os inibidores da colinesterase; os efeitos adversos mais referidos são tonturas, cefaleias, obstipação, sonolência e, ocasionalmente, confusão ou alucinações. Não causa bradicardia.
O benefício é igualmente modesto e sintomático, com algum sinal em domínios comportamentais e funcionais nas fases avançadas. Não altera a progressão.
Quando parar
A descontinuação é uma decisão clínica legítima e deve ser revista periodicamente: ausência de benefício percecionado pelo doente e pelo cuidador, efeitos adversos intoleráveis, deterioração para demência muito grave com perda de qualquer objetivo funcional realista, ou entrada em cuidados paliativos. A retirada deve ser gradual e com reavaliação às poucas semanas, porque uma minoria deteriora e justifica retomar.
Anticorpos monoclonais anti-amiloide
O lecanemab e o donanemab ligam-se a formas agregadas de amiloide-β e reduzem de forma marcada a carga amiloide na PET. É a primeira classe com evidência de modificação da doença — mas convém dimensionar o entusiasmo.
O que os ensaios mostraram: uma desaceleração relativa do declínio clínico ao longo de cerca de 18 meses, na ordem de um quarto a um terço em escalas compostas, o que corresponde a diferenças absolutas pequenas e de significado funcional debatido para o doente individual. São administrados por via endovenosa em regime periódico, com custo e logística substanciais.
População elegível — muito restrita: doença de Alzheimer em fase inicial (défice cognitivo ligeiro devido a doença de Alzheimer ou demência ligeira), com amiloide confirmada por PET ou biomarcadores do líquido cefalorraquidiano. Excluem-se, tipicamente, doentes anticoagulados, com hemorragia intracraniana prévia, com múltiplas microhemorragias ou siderose superficial na RM basal.
Genotipagem APOE obrigatória antes de iniciar: os homozigotos APOE ε4 têm risco substancialmente superior de complicações. Nos Estados Unidos, a FDA aprovou o lecanemab em 2023 e o donanemab em 2024; na Europa ambos estão autorizados, com a mesma restrição — apenas não portadores e heterozigotos APOE ε4, com patologia amiloide confirmada e medidas obrigatórias de minimização e vigilância de ARIA. O donanemab obteve parecer positivo do CHMP em julho de 2025, após reexame, já com um esquema de titulação modificada, adotado precisamente por reduzir a incidência de ARIA-E sem perda de remoção de amiloide.
ARIA — anomalias imagiológicas relacionadas com o amiloide: é o conceito a saber.
- ARIA-E: edema/efusão vasogénica, por alteração da parede vascular ao remover amiloide perivascular.
- ARIA-H: microhemorragias e siderose superficial.
A maioria é assintomática e detetada em RM de vigilância, mas pode manifestar-se por cefaleia, confusão, alterações visuais, náuseas ou convulsões, e ocorreram casos graves e fatais, sobretudo em doentes anticoagulados. Exige, por isso, RM seriada programada durante a fase de titulação e limiares definidos de suspensão. A angiopatia amiloide cerebral concomitante é o principal substrato de risco.
Não farmacológico — onde está o verdadeiro rendimento
A intervenção com maior impacto real na trajetória do doente e da família é o apoio estruturado ao cuidador. Programas multicomponente — psicoeducação, treino em resolução de problemas comportamentais, aconselhamento familiar, apoio disponível em crise e descanso do cuidador — reduzem a sobrecarga e a depressão do cuidador e associam-se a adiamento da institucionalização, um efeito de magnitude que nenhum dos fármacos disponíveis alcança. Rastreia ativamente depressão, exaustão e isolamento no cuidador: em consulta, é frequentemente o doente que não está a ser observado.
Outras medidas:
- Estimulação cognitiva estruturada em grupo: das poucas intervenções não farmacológicas com evidência consistente de ganho cognitivo modesto na demência ligeira a moderada. Distingue-se do "treino cognitivo" repetitivo, sem benefício demonstrado.
- Exercício físico regular: melhora a função física, o sono e o humor; o efeito sobre a cognição é inconsistente, mas o benefício global justifica-o.
- Estruturação do ambiente: rotinas previsíveis, sinalética e relógios, boa iluminação, redução de ruído, simplificação de tarefas, higiene do sono, exposição à luz durante o dia.
- Correção de défices sensoriais: a surdez e a baixa visão não corrigidas agravam a desorientação e a agitação e são das causas mais subvalorizadas de "deterioração" aparente.
- Segurança: risco de queda, gestão dos fármacos por terceiro, gás e fogão, extravio e desorientação na rua, e a avaliação da aptidão para conduzir, que tem de ser abordada explicitamente e documentada.
- Planeamento antecipado de cuidados, feito cedo, enquanto a pessoa ainda pode exprimir preferências: diretivas antecipadas de vontade, procurador de cuidados de saúde e, quando indicado, ativação do regime de acompanhamento de maior. Falar disto na fase ligeira é um ato clínico, não uma formalidade.
Nos sintomas psicológicos e comportamentais, a primeira linha é não farmacológica: identificar o desencadeante (dor, obstipação, retenção, infeção, tédio, medo, mudança de ambiente) e intervir sobre ele. Os antipsicóticos reservam-se para agitação grave, agressividade ou psicose com risco, na dose mínima e pelo menor tempo possível, com informação explícita ao cuidador do aumento de mortalidade e de eventos cerebrovasculares nesta população, e com reavaliação programada para desprescrever.
O que não fazer
- Suplementos e "nootrópicos": não há evidência que sustente ginkgo biloba, ómega-3, vitamina E em dose alta, complexos vitamínicos, curcumina ou similares como tratamento da doença de Alzheimer. A vitamina E em dose elevada acresce preocupações de segurança. Corrige défices documentados (B12, folato, tiroideia) — isso é outra coisa.
- Carga anticolinérgica: revê e reduz sistematicamente oxibutinina, amitriptilina, hidroxizina, prometazina, difenidramina e antipsicóticos de perfil anticolinérgico. Agravam a cognição e antagonizam o tratamento instituído.
- Benzodiazepinas e hipnóticos-Z de forma continuada: agravam a confusão, o risco de queda e a fratura. Mas retirar nunca é abrupto em quem as toma há meses ou anos — a suspensão súbita precipita privação, com ansiedade, insónia de rebote, tremor, delirium e convulsões, num cérebro já sem reserva. Desmame programado, com reduções de cerca de 10-25% da dose a cada 2-4 semanas e passos mais pequenos no fim, sob vigilância de sintomas de privação. Exceção que salva vidas: no delirium por privação de álcool ou de benzodiazepina, a benzodiazepina é o tratamento e não o erro.
- Polimedicação inercial: cada consulta é uma oportunidade de desprescrição e de reavaliar objetivos, sobretudo em fármacos de benefício a longo prazo num doente com esperança de vida limitada.
- Manter indefinidamente um inibidor da colinesterase sem reavaliar benefício.
- Atenção ao diagnóstico: perante alucinações visuais precoces, flutuações marcadas ou parkinsonismo, considera demência com corpos de Lewy antes de prescrever antipsicóticos — a sensibilidade a neurolépticos pode ser grave. O parkinsonismo é desenvolvido no capítulo de doença de Parkinson.
Referências
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- Boland R, Verduin ML, Ruiz P. Kaplan & Sadock's Synopsis of Psychiatry. 12.ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2022.
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