Perturbações neurocognitivasDoença de AlzheimerPublicado (Premium)

Doença de Alzheimer

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 19 de julho de 2026 · 14 perguntas neste tema

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Em resumo

A doença de Alzheimer é a causa mais frequente de demência e um dos temas de maior rendimento da matriz PNA, porque cruza três competências avaliadas em simultâneo: reconhecer o mecanismo da doença, distinguir o quadro do envelhecimento normal e das outras demências, e orientar a pessoa e a família. Na prova aparece tipicamente sob a forma de uma vinheta com uma pessoa idosa trazida pelo cônjuge ou pelos filhos por esquecimentos progressivos, em que a pergunta discrimina entre défice cognitivo ligeiro, demência e delirium, ou pede a explicação fisiopatológica mais provável de um achado. Domina sobretudo quatro pontos: o critério de autonomia nas atividades instrumentais que separa o défice cognitivo ligeiro da demência; a terminologia do DSM-5-TR (perturbação neurocognitiva major e ligeira) sobreposta à nomenclatura da matriz; a sequência topográfica da patologia (córtex entorrinal e hipocampo primeiro, daí a amnésia anterógrada inaugural); e o estatuto da APOE ε4 como fator de suscetibilidade e não como teste diagnóstico. O delirium tem capítulo próprio neste lote e deve ser consultado em paralelo, porque é o diagnóstico diferencial que mais custa pontos.

A cascata amiloide: a espinha dorsal, e as suas fissuras

A hipótese da cascata amiloide é o modelo dominante e o que a PNA testa. Na sua versão linear: a proteína precursora de amiloide (APP), uma proteína transmembranar neuronal, pode ser clivada por duas vias. Na via não amiloidogénica, a α-secretase corta dentro do domínio Aβ e nunca gera o péptido patogénico. Na via amiloidogénica, a β-secretase (BACE1) corta primeiro e a γ-secretase — cujo núcleo catalítico é a presenilina — corta depois, libertando o péptido beta-amiloide. O comprimento do corte da γ-secretase determina tudo: o Aβ40 é solúvel e relativamente benigno; o Aβ42, com dois aminoácidos hidrofóbicos adicionais, é propenso à agregação.

O Aβ42 agrega-se em oligómeros solúveis — hoje considerados a espécie mais sinaptotóxica — que depois se organizam em fibrilhas e se depositam extracelularmente como placas senis (ou neuríticas). Em paralelo, o Aβ deposita-se na parede dos vasos leptomeníngeos e corticais, dando angiopatia amiloide cerebral, que explica a predisposição para hemorragias lobares e é o substrato das complicações imagiológicas dos anticorpos anti-amiloide.

A nota honesta, que distingue uma boa resposta de uma resposta decorada: a versão linear é insuficiente. A carga de placas correlaciona-se mal com a gravidade clínica; existem pessoas idosas com carga amiloide elevada e cognição normal; e décadas de ensaios que reduziram amiloide falharam em traduzir-se em benefício clínico. Só recentemente os anticorpos monoclonais anti-amiloide de segunda geração (lecanemab, donanemab), dirigidos a protofibrilhas e a amiloide depositada em doentes em fase ligeira ou prodrómica com amiloide confirmada por biomarcador, demonstraram abrandamento modesto da progressão em ensaios de fase 3 — na ordem de um quarto a um terço de redução do declínio em escalas clínicas ao longo de cerca de 18 meses, à custa de ARIA (edema e microhemorragias relacionados com amiloide), mais frequentes e mais graves em portadores de APOE ε4, sobretudo homozigóticos. A leitura correta é: a amiloide é causalmente relevante mas não suficiente, e o efeito clínico obtido ao removê-la é real mas pequeno. A disponibilidade e as condições de utilização em Portugal dependem das decisões regulamentares e de financiamento vigentes — descreve-se o princípio, não se assume o estado atual.


TAU hiperfosforilada: o que melhor acompanha a clínica

A proteína TAU é uma proteína associada aos microtúbulos que os estabiliza no axónio. Na doença de Alzheimer, a TAU é hiperfosforilada (por desequilíbrio entre cinases, como a GSK-3β e a CDK5, e fosfatases, como a PP2A), perde afinidade para os microtúbulos e agrega-se em filamentos helicoidais emparelhados, que se acumulam intraneuronalmente como tranças neurofibrilares (novelos neurofibrilares). A desestabilização do citoesqueleto compromete o transporte axonal, e a agregação culmina em disfunção sináptica e morte neuronal.

Beta-amiloideTAU
Localização do depósitoExtracelular (placas) e vascularIntracelular (tranças)
Lesão característicaPlaca senil/neuríticaTrança neurofibrilar
Correlação com a gravidade clínicaFracaForte
CronologiaDeposita-se primeiro, anos a décadas antes dos sintomasEspalha-se depois, acompanhando os sintomas
EspecificidadeRelativamente específica de AlzheimerPartilhada com outras taupatias

Esta tabela resolve várias perguntas de exame. O amiloide é o evento mais precoce e o mais específico; a TAU é o que melhor prediz a gravidade e a topografia dos défices. O modelo integrado atual é o de amiloide como gatilho e TAU como executor, com neuroinflamação (ativação da micróglia e dos astrócitos, com variantes de risco em genes microgliais como o TREM2), stress oxidativo, disfunção mitocondrial e falência da depuração glinfática a modularem a ligação entre os dois.


Perda colinérgica e o núcleo basal de Meynert

A hipótese colinérgica é mais antiga do que a amiloide e continua a ser a única com tradução terapêutica sintomática consolidada. Os neurónios colinérgicos do núcleo basal de Meynert (prosencéfalo basal) projetam-se difusamente para o córtex cerebral e para o hipocampo, e são fundamentais para a atenção, a codificação de memória nova e o processamento cortical. Na doença de Alzheimer há degenerescência precoce e desproporcionada destes neurónios, com queda da colina-acetiltransferase (ChAT) e depleção de acetilcolina cortical.

Daí decorrem duas consequências que a prova explora:

  1. Base racional dos inibidores da colinesterase (donepezilo, rivastigmina, galantamina): ao inibir a acetilcolinesterase, aumentam a disponibilidade sináptica de acetilcolina, produzindo benefício sintomático e modesto — não modificam a doença. Os efeitos adversos são previsíveis a partir do mecanismo: colinérgicos — náuseas, vómitos, diarreia, cólicas, anorexia, bradicardia e síncope, pesadelos, cãibras, incontinência.
  2. Vulnerabilidade aos fármacos anticolinérgicos. Uma pessoa com doença de Alzheimer tem reserva colinérgica reduzida; introduzir oxibutinina, hidroxizina, amitriptilina ou difenidramina pode precipitar deterioração cognitiva franca ou delirium. Rever e reduzir a carga anticolinérgica é uma intervenção de alto rendimento — e uma resposta correta frequente nas vinhetas.

A memantina, antagonista não competitivo do recetor NMDA de afinidade moderada, atua noutro eixo: atenua a excitotoxicidade glutamatérgica tónica, com benefício nas fases moderada a grave.


Progressão topográfica: porque é que a memória vai primeiro

A patologia não avança ao acaso. Os estádios neuropatológicos de Braak descrevem a propagação das tranças neurofibrilares numa sequência estereotipada:

  • Estádios I–II (transentorrinal): córtex entorrinal e região transentorrinal — pré-clínico ou queixas mínimas;
  • Estádios III–IV (límbico): hipocampo e restante sistema límbico — corresponde ao aparecimento da amnésia anterógrada clínica;
  • Estádios V–VI (neocortical): associação neocortical temporal, parietal e frontal — surgem afasia, apraxia, agnosia, desorientação topográfica e disfunção executiva.

O amiloide segue uma sequência quase inversa (fases de Thal: neocórtex primeiro, tronco cerebral e cerebelo por último), o que reforça a dissociação entre carga de placas e sintomas.

A consequência clínica direta: como o circuito entorrinal-hipocampal — a porta de entrada da consolidação de memória episódica nova — é atingido logo, o sintoma inaugural é a incapacidade de formar novas memórias (amnésia anterógrada), com preservação relativa da memória remota, da memória procedimental e, tipicamente, da motricidade e das funções sensoriais primárias até fases tardias. É também por isso que, na doença de Alzheimer, a evocação diferida não melhora com pistas nem com escolha múltipla — o problema é de armazenamento/consolidação, não de acesso. Se as pistas resgatam a informação, o padrão é mais compatível com disfunção executiva/frontossubcortical (vascular, depressão, parkinsonismo) do que com Alzheimer. Este é um dos discriminadores mais elegantes e mais cobrados.

Macroscopicamente, a RM mostra atrofia hipocampal e do córtex entorrinal, alargamento dos cornos temporais e, mais tarde, atrofia temporoparietal e alargamento ventricular difuso.


Genética: suscetibilidade versus determinismo

É obrigatório separar dois cenários que a PNA gosta de baralhar.

1. APOE ε4 — fator de suscetibilidade. O gene da apolipoproteína E (cromossoma 19) tem três alelos comuns: ε2, ε3 (o mais frequente) e ε4. A ApoE participa no transporte de lípidos e na depuração do Aβ; a isoforma ε4 é menos eficaz nessa depuração e favorece a agregação. Um alelo ε4 aumenta o risco de doença de Alzheimer de início tardio em cerca de três vezes; a homozigotia ε4/ε4 aumenta-o de forma substancialmente maior (estimativas habituais na ordem de 8 a 12 vezes) e antecipa a idade de início. O alelo ε2 é protetor.

A mensagem de exame: a APOE ε4 não é um teste diagnóstico nem um teste de rastreio. Muitos portadores nunca desenvolvem a doença; muitas pessoas com a doença não são portadoras. Não se pede genotipagem APOE para diagnosticar demência na prática clínica corrente — o seu uso é sobretudo em investigação e, mais recentemente, na estratificação do risco de ARIA antes de terapêutica anti-amiloide. Se uma opção de resposta propõe genotipar APOE para confirmar o diagnóstico, está errada.

2. Formas autossómicas dominantes — determinismo, mas raras. Representam menos de 1% de todos os casos e caracterizam-se por início precoce (frequentemente na 4.ª–6.ª décadas) e história familiar de vários afetados em gerações sucessivas:

GeneCromossomaNota
PSEN1 (presenilina 1)14A mais frequente das três; início habitualmente mais precoce
PSEN2 (presenilina 2)1Rara; penetrância mais variável, início mais tardio
APP21Mutações que aumentam a produção total de Aβ ou a proporção de Aβ42

O fio condutor é coerente com a cascata: as presenilinas são o núcleo catalítico da γ-secretase, e as mutações deslocam a clivagem no sentido do Aβ42. Numa vinheta com demência progressiva antes dos 60 anos e vários familiares afetados em linha direta, PSEN1 é a resposta mais provável — e é indicação para aconselhamento genético formal, não para pedir um teste na consulta.


Trissomia 21: a prova de conceito humana

O gene APP situa-se no cromossoma 21. Na trissomia 21 (síndrome de Down) há uma cópia extra de APP, com sobreprodução de Aβ ao longo da vida. O resultado é notável e serve de argumento forte a favor do papel causal do amiloide: praticamente todas as pessoas com síndrome de Down apresentam neuropatologia de Alzheimer (placas e tranças) a partir dos 40 anos, e a demência clínica instala-se tipicamente por volta dos 50-55 anos (idade mediana de diagnóstico próxima dos 54 anos), muito antes do que na população geral. A doença de Alzheimer é hoje a principal causa de morte nesta população.

O diagnóstico é mais difícil pela existência de défice intelectual prévio, exigindo comparação com o funcionamento basal da própria pessoa e informação de cuidadores; a apresentação inicial é frequentemente com alterações do comportamento, apatia e convulsões de novo, mais do que com queixa de memória. Casos raros de trissomia 21 parcial que não incluem o gene APP não desenvolvem este padrão — o que confirma que o mecanismo é a dose génica de APP e não a trissomia em si.


O que se pode modificar

O relatório de 2024 da Lancet standing Commission on dementia identifica um conjunto alargado de fatores de risco potencialmente modificáveis ao longo da vida — entre eles baixa escolaridade, hipoacusia não corrigida, hipertensão, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, consumo excessivo de álcool, traumatismo cranioencefálico, isolamento social, poluição atmosférica, perda visual não corrigida e dislipidemia — estimando que uma proporção substancial dos casos de demência a nível populacional seja teoricamente evitável se todos fossem eliminados. Sobrepõe-se a este eixo o conceito de reserva cognitiva: escolaridade, ocupação estimulante e riqueza da rede social não travam a patologia, mas aumentam a carga lesional tolerada antes de a clínica emergir — o que explica que duas pessoas com neuropatologia semelhante possam estar em degraus clínicos diferentes.

O diagnóstico da doença de Alzheimer continua a ser essencialmente clínico: uma síndrome demencial com um perfil neuropsicológico característico, uma evolução insidiosa e progressiva, e a exclusão razoável de outras causas. Os exames complementares servem para excluir alternativas e, cada vez mais, para apoiar positivamente o diagnóstico através de biomarcadores.

Nota de nomenclatura: o DSM-5-TR designa o quadro como perturbação neurocognitiva major (ou ligeira) devida a doença de Alzheimer, exigindo declínio significativo em pelo menos um domínio cognitivo com interferência na autonomia (major) ou sem ela (ligeira). A CID-11 mantém o termo demência devida a doença de Alzheimer — é a formulação da matriz PNA. A divergência de designação é de rótulo, mas os critérios operacionais não coincidem: o DSM-5-TR basta-se com um domínio comprometido, ao passo que a CID-11 exige compromisso marcado em dois ou mais. Os limiares usados aqui são os do DSM-5-TR, complementados, quando indicado, pelos critérios revistos do grupo de trabalho da Alzheimer's Association (2024), que definem a doença biologicamente, incorporam os biomarcadores sanguíneos e propõem um estadiamento biológico-clínico em duas dimensões, substituindo o enquadramento de investigação NIA-AA de 2018. Essa definição biológica destina-se a assistir e não a substituir a avaliação clínica.


Clínica e estadiamento: a sequência importa

A armadilha mais frequente é confundir o esquecimento benigno da idade com o declínio patológico. O envelhecimento normal cursa com lentificação e falhas de evocação que beneficiam da pista (o doente lembra-se quando lhe dão uma dica). Na doença de Alzheimer o defeito é de consolidação hipocâmpica: a informação nunca chegou a ser armazenada, pelo que a pista não ajuda e surgem intrusões e falsos reconhecimentos. Este ponto — amnésia que não corrige com pista — é o discriminador clássico e é testável.

A progressão típica segue uma ordem previsível, que reflete a difusão da patologia do córtex entorrinal e hipocampo para o neocórtex de associação:

  1. Fase inicial (amnésia anterógrada inaugural). Repetição das mesmas perguntas, perda de objetos, esquecimento de conversas e compromissos recentes. A memória autobiográfica remota e a memória procedimental estão preservadas — o doente conta com detalhe a juventude mas não sabe o que almoçou. Podem já existir anomia discreta (dificuldade em nomear objetos pouco frequentes), desorientação topográfica e perda de iniciativa. A apatia é o sintoma neuropsiquiátrico mais precoce e mais prevalente, e é frequentemente confundida com depressão.
  2. Fase intermédia. Instala-se a tétrade cortical: afasia (discurso vazio, circunlóquios, parafasias semânticas), apraxia (ideomotora e, sobretudo, do vestir), agnosia (visual, com progressão para a prosopagnosia) e disfunção executiva (incapacidade de planear, de gerir dinheiro, de lidar com o imprevisto). Perde-se a autonomia nas atividades instrumentais — medicação, finanças, condução, telefone. Surgem delírios de roubo ou de prejuízo, identificações erradas, deambulação e agravamento vespertino.
  3. Fase avançada. Dependência nas atividades básicas, mutismo ou ecolália, incontinência, rigidez, mioclonias, disfagia e perda ponderal. As complicações terminais são habitualmente infeciosas.

Sinais que devem levantar suspeita de outro diagnóstico (bandeiras vermelhas para não-Alzheimer): início antes dos 65 anos, evolução em meses, alucinações visuais precoces, quedas ou síncopes precoces, sinais focais, convulsões, incontinência precoce, alterações da personalidade a preceder a amnésia, ou ataxia da marcha logo no início.


Diagnóstico diferencial das demências

É o núcleo do que a prova testa. As demências vascular, com corpos de Lewy e frontotemporal têm temas próprios na matriz e não são aqui desenvolvidas — interessa reconhecer o padrão discriminativo de cada uma.

AlzheimerVascularCorpos de LewyFrontotemporal
Início / cursoInsidioso, declínio contínuo e gradualSúbito ou em degraus, com patamaresInsidioso, com flutuação marcadaInsidioso, tipicamente antes dos 65 anos
Défice inauguralAmnésia anterógradaDisfunção executiva e lentificaçãoVisuoespacial e atencional; memória menos afetadaPersonalidade e comportamento ou afasia progressiva; memória relativamente preservada
NeuropsiquiátricoApatia, delírios de roubo (tardios)Labilidade emocional, depressãoAlucinações visuais bem formadas e precoces, delíriosDesinibição, apatia, perda de empatia, comportamentos ritualizados, hiperoralidade
MotorNormal até fase tardiaSinais focais, marcha a pequenos passosParkinsonismo simétrico, quedas, disautonomiaPode associar-se a esclerose lateral amiotrófica
Pistas adicionaisAtrofia hipocâmpicaFatores de risco vascular, lesões na imagemPerturbação comportamental do sono REM (pode preceder anos), sensibilidade grave aos antipsicóticosHistória familiar frequente, alteração do comportamento alimentar

Três notas de exame:

  • Na demência com corpos de Lewy, a sensibilidade aos antipsicóticos é potencialmente fatal (agravamento súbito do parkinsonismo, rigidez, alteração da consciência, quadro tipo síndrome maligna). Perante alucinações visuais num doente com parkinsonismo, não prescrever antipsicóticos de primeira geração nem risperidona; a regra prática é evitar antipsicóticos e, se forem inevitáveis, usar os de menor afinidade dopaminérgica em dose mínima. A relação temporal com o parkinsonismo distingue-a da demência da doença de Parkinson — a síndrome parkinsónica é matéria do tema de doença de Parkinson, na área de neurologia.
  • A demência vascular e a doença de Alzheimer coexistem com frequência (patologia mista) — a presença de lesões vasculares na imagem não afasta Alzheimer.
  • O delirium é o grande imitador e o grande sobreponível: início agudo, curso flutuante ao longo do dia, alteração da atenção e do nível de consciência. Tem capítulo próprio neste lote — remete-se para aí. Regra prática: nunca fazer o diagnóstico de demência durante um episódio agudo.

Causas reversíveis ou tratáveis a excluir sempre

São minoria dos casos, mas é aqui que se ganha ou perde o doente.

  • Défice de vitamina B12 (e folato): macrocitose pode estar ausente; procurar parestesias e sinais cordonais posteriores.
  • Hipotiroidismo: lentificação, obstipação, intolerância ao frio.
  • Depressão (pseudodemência) — a distinção faz-se pelo padrão, não pelo score: início mais datável, queixa subjetiva de memória desproporcionada ao desempenho (o doente com Alzheimer minimiza, o deprimido amplifica), respostas "não sei" em vez de confabulação ou de tentativa, esforço flutuante conforme a motivação, humor depressivo e anedonia a precederem o défice. A resposta ao antidepressivo esclarece retrospetivamente. Atenção: a depressão em idade avançada é também um pródromo frequente de demência, pelo que a melhoria do humor não encerra o assunto.
  • Hidrocefalia de pressão normal: tríade de marcha apráxica ("magnética", pés colados ao chão), incontinência urinária e défice cognitivo de tipo subcortical — e a marcha precede e domina o quadro. Ventriculomegalia desproporcionada à atrofia; a resposta à punção lombar evacuadora ajuda a selecionar candidatos a derivação.
  • Hematoma subdural crónico: idoso, anticoagulado ou com quedas, cefaleia, flutuação e sonolência — traumatismo pode não ser recordado.
  • Neurossífilis e infeção por VIH: pedir serologias perante quadro atípico, jovem, ou com fatores de risco.
  • Fármacos com carga anticolinérgica (oxibutinina, anti-histamínicos de primeira geração, antidepressivos tricíclicos), benzodiazepinas, opioides e anticonvulsivantes — causa iatrogénica frequentíssima e reversível.
  • Apneia obstrutiva do sono e consumo de álcool (incluindo síndrome de Wernicke-Korsakoff, com défice de tiamina).

Avaliação estruturada

História com informante — indispensável. A anosognosia torna o relato do próprio pouco fiável, e o diagnóstico depende de saber o que mudou face ao funcionamento prévio. Perguntar por marcos concretos: deixou de conduzir, trocou a medicação, perdeu-se num percurso conhecido.

Instrumentos de rastreio. O MMSE é o mais difundido mas tem limites que a prova gosta de testar: forte efeito da escolaridade (obrigando a pontos de corte ajustados — na adaptação portuguesa clássica de Guerreiro e colaboradores usam-se cortes distintos para analfabetos, 1–11 anos e mais de 11 anos de escolaridade), efeito de teto (falha o défice ligeiro em pessoas muito escolarizadas) e pobre avaliação das funções executivas e visuoespaciais. O MoCA é mais sensível no défice cognitivo ligeiro e explora melhor a função executiva; o teste do relógio é rápido e capta planeamento e organização visuoespacial. Nenhum destes instrumentos faz o diagnóstico — são rastreios.

Avaliação funcional. Distinguir atividades básicas (higiene, vestir, alimentação, continência) das instrumentais (medicação, finanças, transportes, telefone, compras) — são estas últimas que falham primeiro e que definem a passagem de perturbação neurocognitiva ligeira a major.

Exame neurológico e geral, incluindo marcha, sinais focais, extrapiramidais, visão e audição (a privação sensorial simula e agrava o défice).

Analítica: hemograma, função renal e hepática, ionograma com cálcio, glicémia, TSH, vitamina B12 e folato, e, conforme o contexto, serologias para sífilis e VIH.

Neuroimagem estrutural na avaliação inicial da generalidade dos doentes (NICE NG97, recomendação 1.2.13): TC aceitável como primeira linha para excluir hematoma subdural, hidrocefalia, neoplasia e enfartes; a RM é preferível por avaliar melhor a atrofia temporal medial, a carga de doença de pequenos vasos e a microangiopatia. A própria norma abre exceção quando a demência já está bem estabelecida e o subtipo é claro — aí o exame não altera a conduta e é dispensável. A neuroimagem funcional (PET com fluorodesoxiglicose, mostrando hipometabolismo temporoparietal e do cíngulo posterior) reserva-se para casos duvidosos, sobretudo na distinção com a demência frontotemporal.


Biomarcadores: o que são e onde estão hoje

Os biomarcadores permitem demonstrar a patologia subjacente in vivo, e não apenas inferi-la da clínica. Agrupam-se por aquilo que medem:

  • Amiloide (A) — no LCR, a beta-amiloide 42 está baixa (porque fica retida nas placas, deixando de passar para o líquido) e o rácio Aβ42/Aβ40 melhora a exatidão; a PET amiloide mostra retenção cortical do traçador.
  • Tau fosforilada (T)p-tau elevada no LCR e PET tau, que se correlaciona melhor com a gravidade clínica e com a topografia dos sintomas.
  • Neurodegenerescência (N) — tau total elevada, atrofia na RM, hipometabolismo na PET com fluorodesoxiglicose. É inespecífica.

O padrão típico da doença de Alzheimer no LCR é, portanto, beta-amiloide baixa com tau (total e fosforilada) elevada.

Os biomarcadores plasmáticos — com destaque para a p-tau217, atualmente o de melhor desempenho — são a novidade mais relevante da última década, por serem pouco invasivos e escaláveis. Deixaram entretanto de estar confinados à investigação: existe já um teste plasmático autorizado como dispositivo de diagnóstico in vitro (rácio p-tau217/Aβ42) e uma clinical practice guideline dedicada (Alzheimer's Association, 2025) que recomenda o seu uso, em cuidados especializados, no estudo diagnóstico de pessoas com défice cognitivo objetivado (défice cognitivo ligeiro ou demência), sempre após avaliação clínica completa e interpretados no contexto clínico. Mantém-se o essencial para a prova: não são teste de rastreio populacional, e o rendimento é maior no início precoce, nas apresentações atípicas, na dúvida diagnóstica persistente e na seleção de candidatos a terapêuticas anti-amiloide. Em Portugal, a via de confirmação biológica efetivamente acessível na prática do SNS é o estudo do líquido cefalorraquidiano (Aβ42, rácio Aβ42/Aβ40, tau total e p-tau) em centro hospitalar com consulta dedicada: a PET amiloide e a PET tau têm acesso muito limitado e os marcadores plasmáticos ainda não estão implementados em rotina, pelo que a decisão de os usar passa por referenciação e não por pedido em consulta de primeira linha. Um biomarcador positivo em pessoa assintomática indica patologia, não indica demência — e essa dissociação é eticamente e clinicamente importante quando se pondera comunicar o resultado.

Armadilha final: perante um doente com défice cognitivo, a primeira pergunta não é "que demência é esta?" mas sim "isto é delirium? isto é depressão? isto é iatrogenia?". Só depois de responder às três é que o diagnóstico diferencial das demências degenerativas faz sentido.

Diferencial das demências: o primeiro sintoma denuncia a causaALZHEIMERVASCULARCORPOS DE LEWYFRONTOTEMPORAL1.º sintomaCursoExameImagemAlertaAmnésia anterógradaque não corrige compista (consolidação)Défice executivo emdegraus, com sinaisfocaisFlutuação cognitiva ealucinações visuaisbem formadasPersonalidade ecomportamento social,ou afasia progressivaInsidioso, declíniocontínuo e gradualSúbito ou em degraus,com patamaresInsidioso, comflutuação marcadaInsidioso, iníciogeralmente <65 anosNormal até fasetardia; apatia é o1.º neuropsiquiátricoSinais focais; marchaa pequenos passosParkinsonismosimétrico, quedas,disautonomia, sono REMDesinibição, perda deempatia e de normassociais; pode ter ELAAtrofia temporalmedial (hipocampo)Enfartes e doença depequenos vasosHipocampo poucoatrofiadoAtrofia frontal etemporal anteriorExcluir delirium edepressão antes dediagnosticarCoexiste comAlzheimer — patologiamista é frequente!Antipsicóticos:sensibilidade grave.NUNCA os típicosAmnésia inauguraltorna a demênciafrontotemporal poucoExcluir sempre as causas reversíveisDéfice de vitamina B12 e folatoHipotiroidismo (TSH)Depressão (pseudodemência)Hidrocefalia de pressão normalHematoma subdural crónicoAnticolinérgicos, benzodiazepinasApneia obstrutiva do sonoÁlcool (tiamina), neurossífilisHidrocefalia de pressão normal: a MARCHA apráxica precede e dominao quadro; seguem-se a incontinência urinária e o défice cognitivo.Analítica: hemograma, TSH, B12 e folato, cálcio, ionograma, funçãorenal e hepática. Neuroimagem estrutural em todos (RM preferível).Ligeiro ou demência?Decide-se pela AUTONOMIAnas atividadesINSTRUMENTAIS.Ligeira: instrumentaismantidas (medicação,finanças, transportes).Major: as instrumentaisfalham; básicas depois.

A doença de Alzheimer não tem, hoje, tratamento curativo. A orientação assenta em quatro pilares: tratar o que é tratável e reversível, oferecer o benefício sintomático modesto que os fármacos aprovados dão, estruturar o ambiente e a rotina, e sustentar o cuidador. A pergunta de exame raramente é "qual o fármaco?" — é mais frequentemente "qual a intervenção com maior impacto?" ou "o que é que este fármaco pode causar neste doente?".

Antes de qualquer prescrição, uma regra prática: uma deterioração súbita ou flutuante numa pessoa com demência conhecida é delirium até prova em contrário (ver capítulo próprio) e obriga a uma procura ordenada: primeiro o que se faz nos primeiros minutos à cabeceira — sinais vitais, glicémia capilar e oximetria —, depois ionograma com sódio e cálcio, função renal e despiste de evento vascular agudo (défice focal de novo, traumatismo craniano recente, anticoagulação), e só então infeção, obstipação, retenção urinária, dor não comunicada, desidratação ou fármaco novo. Prescrever um inibidor da colinesterase a um doente em delirium é um erro clássico.


Inibidores da colinesterase: o que fazem e o que não fazem

O donepezilo, a rivastigmina e a galantamina aumentam a disponibilidade sináptica de acetilcolina, compensando parcialmente a perda de neurónios colinérgicos do núcleo basal de Meynert. Estão indicados na doença de Alzheimer ligeira a moderada (NICE NG97 recomenda qualquer um dos três como opção de primeira linha nesta fase).

FármacoTitulação habitualNotas
Donepezilo5 mg/dia → 10 mg/dia após ~4 semanasToma única diária; semivida longa
RivastigminaOral 1,5 mg 2×/dia com titulação lenta; transdérmica 4,6 → 9,5 mg/24 hTambém inibe a butirilcolinesterase; o adesivo reduz os efeitos gastrintestinais
GalantaminaFormulação de libertação prolongada 8 → 16 → 24 mg/diaModula adicionalmente recetores nicotínicos

Não há evidência sólida de superioridade de um sobre os outros. A escolha faz-se pela tolerabilidade, pela via e pelo perfil de interações, não por eficácia comparada.

Sê honesto quanto à magnitude. O benefício é sintomático, de ordem de grandeza pequena — tipicamente alguns pontos numa escala cognitiva como a ADAS-Cog, correspondendo a um ganho aproximado de meses de função, com considerável heterogeneidade individual. Não modificam a neurodegenerescência subjacente nem a trajetória final da doença. Enquadrar esta expectativa com a família, por escrito e no início, evita desilusão e evita a manutenção acrítica de um fármaco que não está a ajudar.

Efeitos adversos — a parte que o exame testa

O perfil é previsivelmente colinérgico e dose-dependente:

  • Gastrintestinais: náuseas, vómitos, diarreia, anorexia e perda de peso — relevante numa população já em risco nutricional.
  • Cardiovasculares: bradicardia sinusal, bloqueio auriculoventricular, síncope e quedas. Estudos observacionais associaram o início destes fármacos a aumento de síncope, de implantação de pacemaker e de fratura da anca. Uma síncope numa pessoa com demência a tomar donepezilo deve fazer pensar no fármaco antes de se atribuir tudo à "idade".
  • Neuropsiquiátricos: pesadelos e sonhos vívidos, insónia, agitação. A troca da toma para a manhã resolve frequentemente os pesadelos.
  • Outros: cãibras musculares, incontinência urinária, aumento da secreção brônquica.

Cautela (não contraindicação absoluta, mas exige ponderação e frequentemente ECG prévio): doença do nó sinusal, bloqueio AV de grau elevado, bradicardia significativa, uso concomitante de betabloqueante ou de digoxina, história de úlcera péptica, asma ou DPOC mal controlada. Atenção também à interação com anticolinérgicos — prescrever um inibidor da colinesterase e simultaneamente oxibutinina para incontinência é anular um com o outro, um erro frequente na prática e nas vinhetas.


Memantina

A memantina é um antagonista não competitivo do recetor NMDA, de afinidade moderada, que atenua a excitotoxicidade glutamatérgica sem bloquear a neurotransmissão fisiológica. Está indicada na doença moderada a grave, isolada ou em associação a um inibidor da colinesterase; é também a alternativa quando os inibidores da colinesterase não são tolerados ou estão contraindicados por motivo cardíaco.

Titulação típica de 5 mg/dia com incrementos semanais até 20 mg/dia. Requer redução da dose na insuficiência renal moderada. É globalmente melhor tolerada do que os inibidores da colinesterase; os efeitos adversos mais referidos são tonturas, cefaleias, obstipação, sonolência e, ocasionalmente, confusão ou alucinações. Não causa bradicardia.

O benefício é igualmente modesto e sintomático, com algum sinal em domínios comportamentais e funcionais nas fases avançadas. Não altera a progressão.

Quando parar

A descontinuação é uma decisão clínica legítima e deve ser revista periodicamente: ausência de benefício percecionado pelo doente e pelo cuidador, efeitos adversos intoleráveis, deterioração para demência muito grave com perda de qualquer objetivo funcional realista, ou entrada em cuidados paliativos. A retirada deve ser gradual e com reavaliação às poucas semanas, porque uma minoria deteriora e justifica retomar.


Anticorpos monoclonais anti-amiloide

O lecanemab e o donanemab ligam-se a formas agregadas de amiloide-β e reduzem de forma marcada a carga amiloide na PET. É a primeira classe com evidência de modificação da doença — mas convém dimensionar o entusiasmo.

O que os ensaios mostraram: uma desaceleração relativa do declínio clínico ao longo de cerca de 18 meses, na ordem de um quarto a um terço em escalas compostas, o que corresponde a diferenças absolutas pequenas e de significado funcional debatido para o doente individual. São administrados por via endovenosa em regime periódico, com custo e logística substanciais.

População elegível — muito restrita: doença de Alzheimer em fase inicial (défice cognitivo ligeiro devido a doença de Alzheimer ou demência ligeira), com amiloide confirmada por PET ou biomarcadores do líquido cefalorraquidiano. Excluem-se, tipicamente, doentes anticoagulados, com hemorragia intracraniana prévia, com múltiplas microhemorragias ou siderose superficial na RM basal.

Genotipagem APOE obrigatória antes de iniciar: os homozigotos APOE ε4 têm risco substancialmente superior de complicações. Nos Estados Unidos, a FDA aprovou o lecanemab em 2023 e o donanemab em 2024; na Europa ambos estão autorizados, com a mesma restrição — apenas não portadores e heterozigotos APOE ε4, com patologia amiloide confirmada e medidas obrigatórias de minimização e vigilância de ARIA. O donanemab obteve parecer positivo do CHMP em julho de 2025, após reexame, já com um esquema de titulação modificada, adotado precisamente por reduzir a incidência de ARIA-E sem perda de remoção de amiloide.

ARIA — anomalias imagiológicas relacionadas com o amiloide: é o conceito a saber.

  • ARIA-E: edema/efusão vasogénica, por alteração da parede vascular ao remover amiloide perivascular.
  • ARIA-H: microhemorragias e siderose superficial.

A maioria é assintomática e detetada em RM de vigilância, mas pode manifestar-se por cefaleia, confusão, alterações visuais, náuseas ou convulsões, e ocorreram casos graves e fatais, sobretudo em doentes anticoagulados. Exige, por isso, RM seriada programada durante a fase de titulação e limiares definidos de suspensão. A angiopatia amiloide cerebral concomitante é o principal substrato de risco.


Não farmacológico — onde está o verdadeiro rendimento

A intervenção com maior impacto real na trajetória do doente e da família é o apoio estruturado ao cuidador. Programas multicomponente — psicoeducação, treino em resolução de problemas comportamentais, aconselhamento familiar, apoio disponível em crise e descanso do cuidador — reduzem a sobrecarga e a depressão do cuidador e associam-se a adiamento da institucionalização, um efeito de magnitude que nenhum dos fármacos disponíveis alcança. Rastreia ativamente depressão, exaustão e isolamento no cuidador: em consulta, é frequentemente o doente que não está a ser observado.

Outras medidas:

  • Estimulação cognitiva estruturada em grupo: das poucas intervenções não farmacológicas com evidência consistente de ganho cognitivo modesto na demência ligeira a moderada. Distingue-se do "treino cognitivo" repetitivo, sem benefício demonstrado.
  • Exercício físico regular: melhora a função física, o sono e o humor; o efeito sobre a cognição é inconsistente, mas o benefício global justifica-o.
  • Estruturação do ambiente: rotinas previsíveis, sinalética e relógios, boa iluminação, redução de ruído, simplificação de tarefas, higiene do sono, exposição à luz durante o dia.
  • Correção de défices sensoriais: a surdez e a baixa visão não corrigidas agravam a desorientação e a agitação e são das causas mais subvalorizadas de "deterioração" aparente.
  • Segurança: risco de queda, gestão dos fármacos por terceiro, gás e fogão, extravio e desorientação na rua, e a avaliação da aptidão para conduzir, que tem de ser abordada explicitamente e documentada.
  • Planeamento antecipado de cuidados, feito cedo, enquanto a pessoa ainda pode exprimir preferências: diretivas antecipadas de vontade, procurador de cuidados de saúde e, quando indicado, ativação do regime de acompanhamento de maior. Falar disto na fase ligeira é um ato clínico, não uma formalidade.

Nos sintomas psicológicos e comportamentais, a primeira linha é não farmacológica: identificar o desencadeante (dor, obstipação, retenção, infeção, tédio, medo, mudança de ambiente) e intervir sobre ele. Os antipsicóticos reservam-se para agitação grave, agressividade ou psicose com risco, na dose mínima e pelo menor tempo possível, com informação explícita ao cuidador do aumento de mortalidade e de eventos cerebrovasculares nesta população, e com reavaliação programada para desprescrever.


O que não fazer

  • Suplementos e "nootrópicos": não há evidência que sustente ginkgo biloba, ómega-3, vitamina E em dose alta, complexos vitamínicos, curcumina ou similares como tratamento da doença de Alzheimer. A vitamina E em dose elevada acresce preocupações de segurança. Corrige défices documentados (B12, folato, tiroideia) — isso é outra coisa.
  • Carga anticolinérgica: revê e reduz sistematicamente oxibutinina, amitriptilina, hidroxizina, prometazina, difenidramina e antipsicóticos de perfil anticolinérgico. Agravam a cognição e antagonizam o tratamento instituído.
  • Benzodiazepinas e hipnóticos-Z de forma continuada: agravam a confusão, o risco de queda e a fratura. Mas retirar nunca é abrupto em quem as toma há meses ou anos — a suspensão súbita precipita privação, com ansiedade, insónia de rebote, tremor, delirium e convulsões, num cérebro já sem reserva. Desmame programado, com reduções de cerca de 10-25% da dose a cada 2-4 semanas e passos mais pequenos no fim, sob vigilância de sintomas de privação. Exceção que salva vidas: no delirium por privação de álcool ou de benzodiazepina, a benzodiazepina é o tratamento e não o erro.
  • Polimedicação inercial: cada consulta é uma oportunidade de desprescrição e de reavaliar objetivos, sobretudo em fármacos de benefício a longo prazo num doente com esperança de vida limitada.
  • Manter indefinidamente um inibidor da colinesterase sem reavaliar benefício.
  • Atenção ao diagnóstico: perante alucinações visuais precoces, flutuações marcadas ou parkinsonismo, considera demência com corpos de Lewy antes de prescrever antipsicóticos — a sensibilidade a neurolépticos pode ser grave. O parkinsonismo é desenvolvido no capítulo de doença de Parkinson.

Referências

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