Doença de Alzheimer
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 21 perguntas neste tema
A doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa em que o péptido beta-amiloide se deposita em placas fora dos neurónios e a proteína tau hiperfosforilada forma tranças neurofibrilhares dentro deles. É a causa mais frequente de demência, responsável por 60 a 70% dos casos, e a idade é o seu principal fator de risco: a frequência duplica a cada cinco anos no idoso. No muito idoso a patologia raramente vem sozinha, e o que se encontra é muitas vezes uma demência mista, com componente vascular ou de corpos de Lewy.
A doença começa décadas antes dos sintomas, no córtex entorrinal e no hipocampo, e é por isso que a forma típica se apresenta com uma amnésia anterógrada insidiosa: a pessoa repete perguntas, perde objetos e esquece conversas recentes, e as pistas não a ajudam a recuperar o que não chegou a ser armazenado. Seguem-se a dificuldade em encontrar palavras, a desorientação espacial, a apraxia e a disfunção executiva. Muitos doentes não têm consciência do défice, e é a família que os traz à consulta.
O diagnóstico é clínico e apoia-se num informante, num teste cognitivo, na avaliação das atividades de vida diária, nas análises que excluem causas tratáveis e numa imagem cerebral. Os biomarcadores do líquido cefalorraquidiano, a tomografia por emissão de positrões e, mais recentemente, a tau fosforilada no plasma permitem demonstrar a patologia em vida, e passaram a ser obrigatórios antes dos anticorpos anti-amiloide.
Os inibidores da acetilcolinesterase e a memantina dão um benefício sintomático e modesto. O lecanemab e o donanemab, autorizados na União Europeia em 2025 apenas para a fase inicial e para quem tem no máximo uma cópia do alelo APOE ε4, abrandam o declínio à custa de edema e micro-hemorragias cerebrais que obrigam a vigilância por ressonância. O apoio ao cuidador, a gestão dos sintomas comportamentais sem recorrer por rotina a antipsicóticos e o planeamento antecipado dos cuidados pesam tanto quanto os fármacos.
O que não se pode falhar: uma deterioração em horas ou dias é delirium até prova em contrário, e não progressão da doença; a depressão, o défice de vitamina B12, o hipotiroidismo, o hematoma subdural e a hidrocefalia de pressão normal tratam-se; e os fármacos anticolinérgicos e sedativos pioram a cognição e desprescrevem-se.
A via do amiloide
A proteína precursora do amiloide é uma proteína de membrana que pode ser cortada por duas vias. Na via não amiloidogénica, a alfa-secretase corta dentro da sequência do péptido e impede a sua formação. Na via amiloidogénica, a beta-secretase e depois a gama-secretase libertam o péptido beta-amiloide, de 39 a 42 aminoácidos. A forma de 42 é a que tende a agregar: primeiro em oligómeros solúveis, que são tóxicos para as sinapses, e depois em fibrilhas que formam as placas neuríticas. A presenilina é a subunidade catalítica da gama-secretase, o que explica que as mutações da presenilina e do gene da proteína precursora produzam a doença.
O amiloide deposita-se também na parede dos vasos corticais e leptomeníngeos, a angiopatia amiloide, que torna os vasos frágeis e dá micro-hemorragias e hemorragias lobares.
A tau e a progressão
A tau estabiliza os microtúbulos do axónio. Hiperfosforilada, solta-se deles, agrega em filamentos helicoidais emparelhados e forma as tranças neurofibrilhares, e o transporte axonal falha. A patologia tau propaga-se de neurónio para neurónio ao longo das projeções corticais, numa sequência previsível (os estádios de Braak): começa no córtex entorrinal, passa ao hipocampo e só depois atinge o neocórtex associativo temporal e parietal, e por fim o frontal.
Esta sequência explica a clínica. O circuito entorrinal-hipocampal é o primeiro a cair, e daí a amnésia anterógrada inaugural; a afasia, a apraxia e a agnosia aparecem quando a patologia chega ao neocórtex.
A via colinérgica
Os neurónios colinérgicos do núcleo basal de Meynert, que projetam para todo o córtex, degeneram cedo, e a acetilcolina cortical e hipocampal cai. É a base dos inibidores da acetilcolinesterase, que aumentam a acetilcolina disponível na fenda sináptica, e explica que os fármacos anticolinérgicos piorem a memória e precipitem delirium. Há também perda noradrenérgica, no locus coeruleus, e serotoninérgica, nos núcleos da rafe. A memantina atua por outra via: bloqueia os recetores NMDA (N-metil-D-aspartato) do glutamato sobre-estimulados.
Genética
| Gene | Cromossoma | Papel |
|---|---|---|
| APP (proteína precursora do amiloide) | 21 | forma autossómica dominante rara; a dose extra do gene explica a doença na trissomia 21 |
| PSEN1 (presenilina 1) | 14 | a causa mais frequente de doença familiar de início precoce; início médio aos 45 anos e curso rápido |
| PSEN2 (presenilina 2) | 1 | rara; início médio aos 53 anos |
| APOE ε4 | 19 | alelo de suscetibilidade, dependente da dose; o ε2 parece proteger |
- O alelo ε4 da apolipoproteína E é o principal fator de risco genético da doença esporádica. Um alelo aumenta o risco cerca de três vezes; dois alelos aumentam-no muito mais, entre 8 e 16 vezes consoante as séries. O efeito principal é antecipar o início, em cerca de uma década, e o mecanismo provável é a menor depuração do amiloide.
- Cerca de um quarto da população tem pelo menos um alelo ε4 e cerca de 2% são homozigotos; entre os doentes, 40 a 65% são portadores.
- O ε4 não é necessário nem suficiente: muitos portadores nunca adoecem e pelo menos um terço dos doentes não o tem. Por isso não é teste diagnóstico nem de rastreio.
Fatores de risco
Além da idade, do sexo feminino, da história familiar e do alelo ε4, contam os traumatismos cranianos, a diabetes, a hipertensão, a baixa escolaridade e a inatividade física e cognitiva. A doença vascular, e o AVC em particular, baixa o limiar a partir do qual a patologia de Alzheimer se manifesta. Da mesma forma, a escolaridade e a atividade cognitiva criam reserva cognitiva: não travam a patologia, mas atrasam o momento em que ela se torna clínica.
O diagnóstico é clínico: um declínio cognitivo progressivo, de predomínio amnésico, com repercussão funcional, sem outra causa que o explique melhor. Feito depois de uma avaliação cuidadosa, confirma-se na autópsia em cerca de 90% dos casos. Os biomarcadores confirmam a patologia quando o quadro é atípico ou precoce, e são obrigatórios antes dos anticorpos anti-amiloide.
Avaliação clínica
A norma da Direção-Geral da Saúde (DGS) pede, em todos os doentes com suspeita de declínio cognitivo:
- História clínica com um informante, porque a anosognosia é frequente, e exame físico e neurológico.
- Avaliação cognitiva.
- Avaliação das atividades de vida diária (por exemplo, a escala de Lawton).
- Avaliação dos sintomas psicológicos e comportamentais, incluindo a depressão.
- Pesquisa de comorbilidades e revisão dos fármacos com efeito anticolinérgico.
- Análises e imagem crânio-encefálica.
Testes cognitivos
- O exame breve do estado mental, a versão portuguesa do Mini-Mental State Examination (MMSE), deteta bem a demência, mas está muitas vezes normal nas fases iniciais e depende muito da escolaridade.
- A avaliação cognitiva de Montreal (MoCA, do inglês Montreal Cognitive Assessment) está validada para Portugal e é mais sensível no início: sensibilidade de 81% e especificidade de 77% para o défice cognitivo ligeiro, e de 88% e 98% para a doença de Alzheimer.
- O teste do relógio acrescenta informação visuoespacial e executiva.
- A avaliação neuropsicológica formal faz-se quando o diagnóstico não é claro, nas fases iniciais e quando há questões médico-legais.
Análises
Segundo a DGS: hemograma, glicemia, cálcio, ionograma, função hepática, renal e tiroideia, vitamina B12 e ácido fólico, serologias da sífilis e do vírus da imunodeficiência humana, e urina tipo II.
Imagem
A imagem crânio-encefálica faz-se em todos, para excluir causas tratáveis e apoiar o diagnóstico etiológico. A tomografia computorizada é aceitável pelo custo e pela disponibilidade; a ressonância magnética é superior e mostra a atrofia temporal mesial, com o hipocampo avaliado em cortes coronais. Mais tarde a atrofia torna-se difusa, de predomínio posterior. Numa fase inicial a imagem pode ser normal, e uma imagem normal não exclui a doença.
A tomografia por emissão de positrões com fluorodesoxiglicose mostra hipometabolismo temporoparietal posterior, e usa-se quando o diagnóstico continua incerto.
Biomarcadores
| Exame | Resultado na doença de Alzheimer |
|---|---|
| Líquido cefalorraquidiano | beta-amiloide 42 baixo, razão beta-amiloide 42/40 baixa; tau total e tau fosforilada altas |
| Tomografia por emissão de positrões de amiloide ou de tau | captação cortical; a de tau acompanha melhor a gravidade |
| Plasma | tau fosforilada 217 alta, razão beta-amiloide 42/40 baixa |
- Os biomarcadores usam-se em consulta especializada, perante défice cognitivo objetivo e dúvida diagnóstica: início precoce, apresentação atípica, ou candidatos a anticorpos anti-amiloide.
- Os testes no plasma são a novidade. As recomendações da Alzheimer's Association (associação norte-americana de Alzheimer) de 2025 aceitam-nos apenas em cuidados especializados, em doentes com défice cognitivo e nunca como rastreio. Um teste com sensibilidade de pelo menos 90% e especificidade de pelo menos 75% serve para excluir a patologia; com sensibilidade e especificidade de pelo menos 90%, pode substituir a punção lombar ou a tomografia por emissão de positrões. Muitos testes comerciais não atingem estes valores.
- Quanto mais velho o doente, mais frequentes são os falsos positivos: a patologia amiloide é comum em idosos que nunca vão ter demência, e pode coexistir com outra doença que é a causa real do quadro.
- O genótipo APOE e o eletroencefalograma não servem para diagnosticar a doença.
Diagnóstico diferencial
| Entidade | O que a distingue |
|---|---|
| Envelhecimento normal | esquecimentos benignos, resgatados pela pista, sem perda funcional |
| Delirium | início agudo, flutuação, défice de atenção e do nível de consciência, causa orgânica |
| Depressão | queixa trazida pelo próprio e enfatizada, respostas «não sei», início datável, sintomas vegetativos; a memória, testada com cuidado, está preservada |
| Demência vascular | início súbito ou em degraus, sinais focais, marcha precoce, défice executivo mais do que amnésico |
| Demência com corpos de Lewy | flutuação, alucinações visuais bem formadas e precoces, parkinsonismo, perturbação comportamental do sono REM, sensibilidade grave aos antipsicóticos |
| Demência frontotemporal | início antes dos 65 anos, desinibição e alteração da personalidade ou afasia progressiva, orientação espacial preservada, atrofia frontal e temporal anterior |
| Hidrocefalia de pressão normal | a marcha vem primeiro, seguida de urgência ou incontinência urinária e défice executivo; ventrículos grandes com pouca atrofia cortical |
| Doença de Creutzfeldt-Jakob | progressão em semanas a meses, mioclonias, rigidez |
| Défice de vitamina B12 | perda da sensibilidade vibratória e postural, sinal de Babinski |
| Fármacos | benzodiazepinas, hipnóticos, anticolinérgicos, opioides; a suspensão melhora a cognição |
Outras causas tratáveis a lembrar: hipotiroidismo, hematoma subdural crónico, neurossífilis, apneia do sono e défice de tiamina no consumo excessivo de álcool.
O plano
Não há cura. O tratamento tem três pilares: os fármacos sintomáticos, a gestão dos sintomas comportamentais e das comorbilidades, e o apoio ao doente e ao cuidador. O diagnóstico comunica-se com prudência, ao doente e a quem ele indicar, e o seguimento é regular e sempre que haja agravamento.
Inibidores da acetilcolinesterase
Donepezilo, rivastigmina e galantamina estão indicados na doença de Alzheimer (norma da DGS). A eficácia está demonstrada nas fases ligeira e moderada e também na grave, em testes cognitivos, em escalas globais e funcionais e nos sintomas neuropsiquiátricos, mas é modesta: em média, o doente tratado mantém a pontuação do MMSE durante cerca de um ano, enquanto o doente com placebo perde 2 a 3 pontos. Não travam a doença.
| Fármaco | Dose-alvo |
|---|---|
| Donepezilo | 10 mg por dia |
| Rivastigmina | 6 mg duas vezes por dia por via oral, ou sistema transdérmico de 9,5 mg por 24 horas |
| Galantamina | 24 mg por dia, na forma de libertação prolongada |
- A dose sobe ao longo de 4 a 6 semanas, para reduzir os efeitos adversos. A escolha entre os três faz-se pelo perfil de efeitos adversos, pelas comorbilidades, pelas interações e pela forma de administração.
- Efeitos adversos colinérgicos: anorexia, náuseas, vómitos, diarreia, perda de peso, cãibras, sonhos vívidos, insónia e agitação.
- Os mais graves são a bradicardia, a síncope e o agravamento de perturbações da condução; muitos clínicos pedem um eletrocardiograma antes de iniciar, e a associação a betabloqueantes e a outros bradicardizantes pede cautela. Podem ainda agravar a asma, favorecer a hemorragia digestiva e baixar o limiar convulsivo nos doentes predispostos.
- Prolongam o efeito da succinilcolina, o que o anestesista tem de saber.
- A associação a um anticolinérgico anula o efeito.
- Não se suspendem só porque a doença avançou.
Memantina
Antagonista dos recetores NMDA do glutamato, indicada nas fases moderada e grave, com eficácia também modesta. A dose-alvo é de 10 mg duas vezes por dia.
- Na doença moderada é alternativa quando os inibidores da acetilcolinesterase não são tolerados ou estão contraindicados, e pode juntar-se a eles; na grave, a associação é a regra.
- Efeitos adversos: sonolência, insónia, agitação, confusão e alucinações. Pode baixar o limiar convulsivo.
- Não se associa a outros antagonistas NMDA, como a amantadina e o dextrometorfano.
- Não está indicada no défice cognitivo ligeiro nem na demência ligeira.
Anticorpos anti-amiloide
O lecanemab (autorizado na União Europeia em abril de 2025) e o donanemab (setembro de 2025) são anticorpos monoclonais que removem as placas de amiloide.
- Indicação: défice cognitivo ligeiro ou demência ligeira por doença de Alzheimer, com amiloide confirmado (líquido cefalorraquidiano ou tomografia por emissão de positrões) e com no máximo uma cópia do alelo APOE ε4. A genotipagem é obrigatória, porque os homozigotos têm o maior risco de complicações e foram excluídos da autorização.
- Benefício: abrandamento do declínio, pequeno em valor absoluto. Aos 18 meses, na população autorizada, a escala clínica de gravidade da demência (de 0 a 18 pontos) subiu 1,22 pontos com lecanemab e 1,76 com placebo.
- Risco: anomalias imagiológicas relacionadas com o amiloide, sob a forma de edema ou de micro-hemorragias e siderose. Com lecanemab, na população autorizada, houve edema em 8,9% e micro-hemorragias em 12,9%. A maioria é assintomática, mas há casos graves; cefaleia, confusão, alterações visuais e desequilíbrio obrigam a ressonância.
- Administração e vigilância: o lecanemab dá-se por via endovenosa a cada duas semanas, dentro de um programa de acesso controlado, com ressonância antes de começar e antes da 3.ª, da 5.ª, da 7.ª e da 14.ª perfusão.
- Não se inicia com anticoagulação em curso, nem com hemorragia intracerebral prévia, mais de 4 micro-hemorragias, siderose superficial ou edema vasogénico na ressonância inicial.
Medidas não farmacológicas
- Apoio e formação do cuidador, com avaliação regular da sobrecarga, do sofrimento psicológico e das necessidades próprias. A exaustão do cuidador leva muitas vezes à institucionalização.
- Estimulação cognitiva em grupo, na demência ligeira a moderada, e terapia de reminiscência; terapia ocupacional para manter a função.
- Exercício físico, rotinas estáveis, auxiliares de memória (agenda, lembretes afixados), segurança da casa (cozinha, casa de banho, escadas).
- Correção da audição e da visão.
- Associações de doentes e centros de dia, que dão descanso ao cuidador.
O que não se prescreve
A norma da DGS proíbe, no tratamento do declínio cognitivo, os anti-inflamatórios, os vasodilatadores, os nootrópicos, a selegilina, a terapêutica hormonal, as estatinas, as vitaminas e os extratos cerebrais ou de plantas. As carências (vitamina B12, folato, tiroide) corrigem-se quando existem, mas isso trata a carência e não a demência.
Comorbilidades e fármacos
- Rever periodicamente a medicação e desprescrever o que tem efeito anticolinérgico (oxibutinina, difenidramina e outros anti-histamínicos de primeira geração, antidepressivos tricíclicos) ou sedativo.
- Depressão ligeira a moderada: primeiro intervenções psicológicas e psicossociais. Na moderada a grave, um inibidor seletivo da recaptação da serotonina, por exemplo escitalopram 5 a 10 mg por dia. Nunca tricíclicos.
- Crises epiléticas: levetiracetam, salvo se o doente já estivesse controlado com outro fármaco.
- Insónia: higiene do sono, luz do dia e atividade; a trazodona em dose baixa (50 mg por dia) pode ajudar, e as benzodiazepinas usam-se pouco e com prudência.
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