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Demência vascular

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema

Em resumo

A demência vascular é a demência causada por doença cerebrovascular: enfartes, hemorragias e sobretudo a doença crónica das pequenas artérias perfurantes, que vai lesando a substância branca e os núcleos profundos. É habitualmente apontada como a segunda causa de demência, depois da doença de Alzheimer, mas a forma pura é rara; no idoso muito velho o que se encontra quase sempre é a demência mista, com as duas patologias somadas.

O perfil típico é subcortical: lentificação, défice de atenção e das funções executivas, apatia e alterações do humor, com a memória relativamente poupada no início, e alteração da marcha e incontinência precoces, ao contrário da doença de Alzheimer. O curso em degraus, com um agravamento a cada AVC, é o do multi-enfarte; a doença de pequenos vasos, que é o subtipo mais frequente, progride de forma gradual.

O diagnóstico junta três coisas: um défice cognitivo objetivado, doença cerebrovascular demonstrada pela clínica ou pela ressonância, e uma relação plausível entre as duas. Lesões vasculares na imagem, sozinhas, não chegam, porque cerca de 70% das pessoas as têm aos 70 anos.

Não há fármaco que reverta a doença. O tratamento é vascular: controlar a hipertensão, a diabetes e os lípidos, anticoagular a fibrilhação auricular quando indicado, deixar de fumar e prevenir o próximo AVC. Os inibidores da colinesterase e a memantina só entram quando há doença de Alzheimer associada.

O que não se pode falhar é a depressão tratável escondida atrás da apatia, o delirium tomado por agravamento da demência, as micro-hemorragias e a angiopatia amiloide antes de anticoagular, e o antipsicótico dado por rotina a uma população que já tem risco vascular alto.

Fatores de risco

  • A idade é o fator de risco mais forte: o risco de demência vascular duplica a cada 5 anos.
  • Os fatores de risco são os da doença cerebrovascular: hipertensão crónica, diabetes, dislipidemia, tabagismo, obesidade, fibrilhação auricular e insuficiência cardíaca, doença carotídea, e ainda baixa escolaridade, hipotensão ortostática, homocisteína elevada e depressão tardia.
  • O risco depois de um AVC depende do número, do local e do tamanho das lesões.
  • A sobreposição com os fatores de risco da doença de Alzheimer explica que as duas patologias coexistam tanto.

Como a doença vascular lesa a cognição

  • Pequenos vasos: a hipertensão crónica produz lipo-hialinose das pequenas artérias perfurantes. Daí resultam lacunas, microenfartes, micro-hemorragias e lesão progressiva e confluente da substância branca, com quebra da barreira hematoencefálica e hipoperfusão crónica.
  • A lesão atinge os gânglios da base, o tálamo e os feixes da substância branca que ligam o córtex pré-frontal às estruturas profundas. É essa desconexão fronto-subcortical que dá o quadro disexecutivo, a lentificação e a apatia, com a memória relativamente poupada.
  • As vias da marcha e do controlo vesical atravessam a substância branca periventricular: é por isso que a marcha e a continência se perdem cedo.
  • Enfarte estratégico: uma lesão pequena num nó da rede basta. A oclusão da artéria de Percheron, um ramo paramediano único que irriga os dois tálamos anteromediais, enfarta os dois núcleos dorsomediais e os feixes mamilotalâmicos, com alteração do estado mental, paresia do olhar vertical e défice de memória. Um enfarte no joelho inferior da cápsula interna interrompe as fibras talamocorticais.
  • Multi-enfarte: os enfartes corticais somam-se, e com eles os défices focais (afasia, apraxia, agnosia, síndromes de negligência).
  • Angiopatia amiloide: a beta-amiloide deposita-se na parede dos vasos corticais e leptomeníngeos, que ficam frágeis; daí as hemorragias lobares e as micro-hemorragias corticais. É frequente na doença de Alzheimer, mas também existe sem ela.
  • A doença cerebrovascular baixa o limiar a partir do qual a patologia de Alzheimer ou de corpos de Lewy se torna demência.

Genética: CADASIL

  • Arteriopatia cerebral autossómica dominante com enfartes subcorticais e leucoencefalopatia, a forma hereditária mais frequente, por mutação do gene NOTCH3, no cromossoma 19.
  • Começa habitualmente na quarta ou quinta década, com enfartes de pequenos vasos, demência progressiva e lesão extensa e simétrica da substância branca, que atinge com frequência os lobos temporais anteriores.
  • Cerca de 40% têm enxaqueca com aura, muitas vezes com défices motores ou sensitivos transitórios.
  • Confirma-se pelo teste genético ou pela biópsia de pele, que mostra grânulos osmiofílicos nas arteríolas.

Os três elementos

  1. Défice cognitivo objetivado, com perda de autonomia na forma major.
  2. Doença cerebrovascular demonstrada pela história, pelo exame ou pela imagem, suficiente para explicar o défice.
  3. Relação plausível entre os dois: início ligado no tempo a um ou mais AVC, ou défice predominante na atenção complexa, na velocidade e nas funções executivas.

Critérios do DSM-5-TR

grauo que exige
Critérios geraisperturbação neurocognitiva major ou ligeira; clínica compatível com causa vascular (início relacionado no tempo com eventos cerebrovasculares, ou declínio predominante na atenção complexa e nas funções executivas); doença cerebrovascular pela história, pelo exame ou pela imagem que explique o défice; não mais bem explicada por outra doença
Provávellesão parenquimatosa significativa atribuída a doença cerebrovascular na imagem; ou síndrome relacionada no tempo com um ou mais eventos cerebrovasculares documentados; ou evidência clínica e genética de doença cerebrovascular, como no CADASIL
Possívelcritérios gerais cumpridos, sem imagem disponível e sem relação temporal estabelecida

Os critérios clássicos de investigação, os do NINDS-AIREN, exigem que a demência comece nos 3 meses seguintes a um AVC reconhecido: são específicos, mas deixam de fora a doença de pequenos vasos, de curso gradual. Os critérios VASCOG (2014) seguem a lógica do DSM-5-TR: perturbação cognitiva vascular ligeira ou major, atribuída a doença cerebrovascular pela clínica e pela imagem, com as categorias provável e possível.

Avaliação cognitiva

  • Usar um teste que avalie a atenção, a velocidade e as funções executivas. O Montreal Cognitive Assessment (MoCA) identifica melhor estes défices do que o Mini-Mental State Examination (MMSE), que pode não os detetar.
  • História com um familiar ou cuidador, e avaliação das atividades de vida diária.

Avaliação que todos fazem

A investigação mínima de qualquer demência, segundo a norma da Direção-Geral da Saúde, aplica-se aqui por inteiro: análises (hemograma, glicemia, calcémia, ionograma, função hepática, renal e tiroideia, vitamina B12 e ácido fólico, serologias da sífilis e do vírus da imunodeficiência humana, urina tipo II), revisão da medicação com efeito anticolinérgico e imagem crânio-encefálica. As causas tratáveis e o que fazer com cada uma estão em demência não especificada.

A isto junta-se, na suspeita vascular, a avaliação do risco vascular: pressão arterial (incluindo ortostática), perfil lipídico, eletrocardiograma à procura de fibrilhação auricular e, se houver sintomas de território carotídeo, eco-Doppler dos vasos do pescoço.

Imagem

  • A ressonância magnética é o exame de eleição quando se suspeita de demência vascular; a tomografia computorizada fica para quando a ressonância não está disponível ou está contraindicada, e mostra os enfartes estabelecidos e as lesões extensas da substância branca.
  • A ressonância mostra os marcadores de doença de pequenos vasos: hiperintensidades da substância branca de presumível origem vascular, lacunas, enfartes subcorticais recentes, microenfartes corticais, espaços perivasculares alargados, micro-hemorragias e atrofia.
  • As sequências sensíveis aos produtos de degradação da hemoglobina (T2* e imagem ponderada em suscetibilidade) mostram as micro-hemorragias. A distribuição orienta: profundas (gânglios da base, tálamo, tronco) na doença hipertensiva, lobares e corticais na angiopatia amiloide.
  • A difusão exclui lesões vasculares agudas e causas de demência rapidamente progressiva.
  • Na doença de Binswanger vê-se lesão confluente, progressiva, da substância branca subcortical e periventricular, com as fibras em U subcorticais poupadas.

Diagnóstico diferencial

entidadeo que a distingue
Doença de Alzheimeramnésia inaugural que não melhora com pistas, atrofia mesial temporal, sem sinais focais nem marcha precoce
Demência mistacoexistência das duas; amnésia de tipo hipocampal numa pessoa com doença vascular extensa
Demência com corpos de Lewyflutuação, alucinações visuais, parkinsonismo, perturbação do sono REM
Hidrocefalia de pressão normalmarcha, cognição executiva e urgência urinária, com ventrículos aumentados e pouca atrofia cortical
Depressãoinício mais abrupto, sintomas vegetativos, melhora com o tratamento; mas coexiste muitas vezes com a demência vascular
Deliriuminício agudo, flutuação da atenção e do alerta, causa orgânica
Hematoma subdural crónicoqueda prévia, anticoagulação, agravamento subagudo; a imagem
CADASIL e outras formas genéticasadulto jovem, história familiar, enxaqueca com aura, sem fatores de risco que expliquem as lesões

O princípio

O que é bom para o coração é bom para o cérebro. Controlar os fatores de risco vascular previne novas lesões e pode travar a progressão do défice; é essa a razão de ser da prevenção nesta doença. A evidência de que previne o aparecimento da demência vascular vem sobretudo de estudos observacionais, e não de ensaios que o tenham demonstrado diretamente.

Os 14 fatores de risco modificáveis ao longo da vida

Segundo a comissão da revista Lancet de 2024, cerca de 45% das demências, de todas as causas, seriam potencialmente evitáveis se estes fatores fossem eliminados:

fasefatorfração atribuível
Início da vidamenor escolaridade5%
Meia-idade (18 a 65 anos)perda auditiva7%
colesterol LDL elevado7%
depressão3%
traumatismo crânio-encefálico3%
inatividade física2%
diabetes2%
tabagismo2%
hipertensão arterial2%
obesidade1%
consumo excessivo de álcool1%
Idade avançada (depois dos 65)isolamento social5%
poluição do ar3%
perda visual não tratada2%

O colesterol LDL da meia-idade e a perda visual não tratada foram acrescentados em 2024. O AVC e a fibrilhação auricular não estão na lista porque são causas de demência, e não fatores de risco.

O que fazer

  • Hipertensão: prevenir e tratar, mantendo a pressão sistólica em 130 mm Hg ou menos a partir dos 40 anos. O controlo que conta é o da meia-idade, não apenas o da velhice.
  • Colesterol LDL: detetar e tratar a partir da meia-idade.
  • Diabetes, obesidade e peso: controlar cedo, o que também previne a diabetes.
  • Deixar de fumar, reduzir o álcool, fazer exercício físico e manter atividade cognitiva e social.
  • Aparelhos auditivos para quem tem perda auditiva, e rastreio e tratamento da perda visual.
  • Tratar a depressão.
  • Fibrilhação auricular: anticoagular quando indicado, porque previne o AVC cardioembólico.
  • Doença carotídea sintomática: avaliar e tratar como na prevenção do AVC.

A norma da Direção-Geral da Saúde recomenda as mesmas medidas gerais e diz que nenhum medicamento se prescreve com o objetivo específico de prevenir a demência.

Prevenção secundária depois do AVC

Cada novo AVC é um degrau a mais de défice. A prevenção secundária completa (antiagregação ou anticoagulação conforme a causa, estatina, controlo tensional, cessação tabágica) é, nesta doença, prevenção da progressão.

Demência vascular: a demência que se previne A segunda causa de demência, e a que mais depende do controlo vascular. O que é bom para o coração é bom para o cérebro Fatores de risco vascular modificáveis Hipertensão arterial a principal causa da doença de pequenos vasos Diabetes mellitus Colesterol LDL elevado · estatina Tabagismo · cessação Fibrilhação auricular · anticoagulação, se indicada Doença carotídea Sedentarismo (inatividade física) Obesidade Subtipos: nem sempre em degraus Multi-enfarte curso em degraus, sinais focais Enfarte estratégico único início súbito, uma só lesão crítica Pequenos vasos, subcortical o mais frequente, gradual e insidioso executivo e marcha atingidos cedo Demência mista, vascular e Alzheimer o cenário mais comum no idoso Prevenção primária e secundária do AVC Cada AVC evitado é um degrau de défice a menos. Antes de anticoagular, procurar micro-hemorragias. Tratamento: travar a progressão, não reverter Nenhum fármaco reverte a demência vascular. Inibidores da colinesterase e memantina: na forma mista, não na vascular pura. Núcleo: otimizar o controlo vascular para travar a progressão. ! Antipsicóticos aumentam a mortalidade e o risco cerebrovascular (AVC) na demência. Só com risco ou sofrimento graves, na dose mais baixa e pelo tempo mais curto.

O princípio

Nenhum fármaco reverte a demência vascular. A norma da Direção-Geral da Saúde manda tratar as condições subjacentes (hipertensão, diabetes, doença cardíaca) para reduzir o risco de novas lesões e de mais deterioração. O resto do tratamento é sintomático, de reabilitação e de apoio ao cuidador.

Controlo vascular

  • Pressão arterial, glicemia e lípidos controlados, com alvos individualizados no idoso frágil.
  • Antiagregação depois de AVC isquémico ou acidente isquémico transitório não cardioembólico; anticoagulação na fibrilhação auricular, pesando o risco hemorrágico.
  • Cessação tabágica, exercício adaptado, dieta equilibrada, redução do sal e do álcool.

Fármacos para a cognição

situaçãoconduta
Demência vascular purainibidores da colinesterase e memantina com benefício pequeno; não se recomendam
Suspeita de doença de Alzheimer, de corpos de Lewy ou da doença de Parkinson associadaconsiderar inibidor da colinesterase ou memantina, pela componente não vascular
Qualquer demêncianão prescrever anti-inflamatórios, vasodilatadores, nootrópicos, selegilina, terapêutica hormonal, estatinas, vitaminas ou extratos de plantas para tratar o défice cognitivo

Corrigem-se as carências específicas (vitamina B12, folato, tiroide) quando existem, mas isso trata a carência, não a demência.

Depressão

  • Frequente, e tratável. Na ligeira a moderada, primeiro as intervenções psicoterapêuticas e psicossociais.
  • Nas mais graves, ou quando já houve resposta a fármacos, um inibidor seletivo da recaptação da serotonina, como a sertralina ou o escitalopram. Evitar os antidepressivos tricíclicos, que pioram a cognição, a hipotensão ortostática e as quedas.
  • No doente com mais de 65 anos, o escitalopram não passa dos 10 mg por dia, pelo prolongamento dose-dependente do intervalo QT.
  • Vigiar a hiponatremia no idoso, e o risco hemorrágico quando se associam a antiagregantes ou anticoagulantes.

Sintomas psicológicos e comportamentais

  • Primeiro caracterizá-los e procurar a causa: dor, obstipação, retenção urinária, infeção, delirium, fármacos, mudança de ambiente, necessidades por satisfazer.
  • Primeiro as abordagens não farmacológicas.
  • Antipsicóticos: só para alterações moderadas a graves que não respondam, com risco para o próprio ou para terceiros, ou sofrimento intenso por agitação, alucinações ou delírios. Preferir os de segunda geração, começar em dose baixa (por exemplo, risperidona 0,5 mg por dia), discutir riscos e benefícios com a família e reavaliar pelo menos a cada 6 semanas, suspendendo se não houver benefício claro.
  • Os antipsicóticos associam-se a aumento do risco de AVC e da mortalidade nos idosos com demência, e esta população já parte de um risco vascular alto.
  • Benzodiazepinas: uso limitado e prudente, pelas quedas, pela sedação e pelo delirium.

Reabilitação e cuidados

  • Fisioterapia da marcha e prevenção de quedas; terapia ocupacional; estimulação cognitiva.
  • Tratar a incontinência e avaliar a deglutição.
  • Rever a medicação e desprescrever o que tem efeito anticolinérgico ou sedativo.
  • Avaliar e apoiar o cuidador, e planear cedo capacidade, representação legal e diretivas antecipadas de vontade.

Referências

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