Demência frontotemporal, demência com corpos de Lewy, demência não especificada
Atualizado em 21 de julho de 2026 · 11 perguntas neste tema
As "outras demências" valem sobretudo por uma competência: reconhecê-las quando não parecem Alzheimer. A demência frontotemporal (DFT) é a grande imitadora psiquiátrica de início precoce (memória poupada, personalidade destruída); a demência com corpos de Lewy (DCL) traz flutuação, alucinações visuais, parkinsonismo e sono REM perturbado. Embora a relevância na matriz seja C, escondem a regra de segurança mais letal do bloco: a sensibilidade grave aos antipsicóticos na DCL, que pode matar. Domina três coisas: o perfil clínico que distingue cada uma do Alzheimer, a regra de evitar antipsicóticos na DCL (e o que fazer se forem mesmo inevitáveis) e a regra do 1 ano que separa DCL da demência da doença de Parkinson.
Proteinopatias — o fio condutor
Estas demências são, na sua base, doenças de agregação proteica (proteinopatias). O tipo de proteína que se acumula e a topografia dessa acumulação explicam porque a apresentação clínica difere tanto do Alzheimer.
DFT — tau e TDP-43
A DFT é neuropatologicamente heterogénea, mas dominada por duas grandes proteinopatias:
- Taupatias — acumulação anormal de proteína tau (incluindo formas associadas às mutações MAPT). A tau é a mesma família de proteína implicada no Alzheimer, mas aqui a distribuição é frontal e temporal anterior, não hipocampal.
- TDP-43 — acumulação de TDP-43 (TAR DNA-binding protein 43), que é também a proteinopatia da maioria dos casos de esclerose lateral amiotrófica, o que explica biologicamente o espetro DFT-ELA.
O ponto psicopatológico chave: a degeneração começa nos lobos frontais (córtex pré-frontal, cingulado anterior, ínsula) e temporais anteriores, regiões da cognição social, do controlo executivo, da empatia e da regulação do comportamento. Por isso a memória episódica (hipocampo) fica poupada no início e o que colapsa primeiro é quem a pessoa é — a conduta, o juízo social, a inibição. A variante semântica reflete a degeneração do polo temporal anterior (armazém de conhecimento conceptual); a não-fluente, das regiões frontais inferiores/insulares da produção da linguagem.
Genética
A DFT tem a carga genética mais forte entre as demências degenerativas comuns. Três genes dominam:
| Gene | Nota clínica |
|---|---|
| C9orf72 (expansão de hexanucleótido) | Causa genética mais frequente; elo forte com a ELA; história familiar de demência e/ou doença do neurónio motor |
| MAPT (tau) | Taupatia familiar |
| GRN (progranulina) | Patologia TDP-43 |
A transmissão é frequentemente autossómica dominante, o que tem implicações diretas para aconselhamento genético dos familiares (ver Situações especiais).
DCL — alfa-sinucleína
A DCL é uma sinucleinopatia: a proteína que se agrega é a alfa-sinucleína, formando os corpos de Lewy e neurites de Lewy no córtex e no tronco cerebral. É o mesmo substrato da doença de Parkinson — daí partilharem parkinsonismo, disautonomia e perturbação do sono REM, e daí a regra do 1 ano ser uma convenção temporal sobre um continuum biológico, não duas doenças distintas.
Dois circuitos explicam a clínica e, sobretudo, a regra de segurança do capítulo:
- Défice colinérgico marcado — a DCL cursa com perda de neurónios colinérgicos ainda mais acentuada do que no Alzheimer. Isto fundamenta dois factos: as alucinações visuais e a flutuação respondem, e os inibidores da colinesterase têm benefício (ver Gestão).
- Vulnerabilidade dopaminérgica e hipersensibilidade dos recetores — a degeneração nigroestriatal dá o parkinsonismo; e a sensibilidade patológica ao bloqueio dopaminérgico D2 explica a reação grave aos antipsicóticos. Bloquear os recetores D2 num cérebro já depletado e hipersensível pode precipitar um agravamento abrupto do parkinsonismo, rigidez, deterioração da consciência e uma reação semelhante à síndrome neuroléptica maligna, potencialmente fatal — por isso a regra, desenvolvida na Gestão e nas Complicações, é evitar antipsicóticos, sobretudo os típicos.
A acumulação de alfa-sinucleína no tronco cerebral (núcleos do sono, autonómicos) explica a PCSR precoce e a disautonomia (hipotensão ortostática, obstipação, disfunção urinária) que contribui para quedas e síncope.
Princípio geral
O diagnóstico destas demências é clínico, apoiado por critérios de consenso, neuroimagem e a exclusão de causas reversíveis (hipotiroidismo, défice de B12, hidrocefalia de pressão normal, causas metabólicas, fármacos, depressão) — este último passo é comum a todas as demências e remete para o capítulo publicado de Alzheimer. O que muda de entidade para entidade é o padrão que se procura.
DFT — critérios de Rascovsky e neuroimagem
Para a variante comportamental, o consenso de Rascovsky (2011) exige declínio progressivo do comportamento e/ou da cognição, com pelo menos três de seis características comportamentais precoces:
- Desinibição comportamental;
- Apatia ou inércia;
- Perda de empatia/interesse pelos outros;
- Comportamentos perseverativos, estereotipados ou compulsivos/ritualísticos;
- Hiperoralidade e mudanças alimentares;
- Perfil neuropsicológico disexecutivo com relativa preservação da memória e das capacidades visuoespaciais.
A gradação vai de possível (clínica) a provável (clínica + declínio funcional + imagem compatível) a definitiva (confirmação histopatológica ou mutação conhecida). A neuroimagem estrutural (RM) mostra atrofia frontal e/ou temporal anterior, muitas vezes assimétrica; a imagem funcional (FDG-PET/SPECT) mostra hipometabolismo/hipoperfusão frontotemporal. Para a afasia progressiva primária, aplicam-se os critérios de Gorno-Tempini (2011) que definem as variantes semântica, não-fluente e logopénica.
Armadilha de exame nº1: a DFTvc de início na meia-idade é tratada anos como depressão, perturbação bipolar ou perturbação obsessivo-compulsiva. A chave que orienta para demência é a progressão inexorável, o declínio executivo objetivo, a perda de insight e a neuroimagem — não o sintoma transversal isolado.
DCL — critérios de McKeith 2017
O quarto consenso de McKeith (2017) organiza o diagnóstico assim:
| Elemento | Conteúdo |
|---|---|
| Essencial | Demência (declínio cognitivo que interfere com a função; défices de atenção, função executiva e visuoespacial são proeminentes e precoces) |
| Características nucleares | Flutuação cognitiva; alucinações visuais recorrentes; parkinsonismo espontâneo; perturbação comportamental do sono REM |
| Biomarcadores indicativos | DaT-scan com baixa captação; cintigrafia MIBG miocárdica reduzida; polissonografia com sono REM sem atonia |
- DCL provável: ≥2 características nucleares, ou 1 nuclear + ≥1 biomarcador indicativo.
- DCL possível: 1 nuclear sem biomarcador, ou ≥1 biomarcador sem características nucleares.
Existem ainda critérios de DCL prodrómica (McKeith 2020) — em que a PCSR isolada tem valor como sinal precoce.
Os diferenciais que a prova adora
| Contraste | Chave que decide |
|---|---|
| DCL vs Alzheimer | Alucinações visuais e flutuação precoces + parkinsonismo apontam DCL; no Alzheimer a amnésia domina desde o início e as alucinações são tardias |
| DCL vs delirium | A flutuação da DCL imita o delirium, mas é crónica e progressiva e acompanha-se das outras características nucleares; o delirium é agudo, com fator precipitante identificável e curso de horas a dias — remeter para o capítulo publicado de delirium. Cuidado: um doente com DCL faz delirium sobreposto com muita facilidade |
| DFTvc vs perturbação psiquiátrica primária de início tardio | A demência progride, dá declínio executivo/comportamental objetivo e atrofia frontotemporal na imagem; a perturbação psiquiátrica primária responde ao tratamento e não atrofia o lobo frontal |
| DCL vs demência da doença de Parkinson | Regra do 1 ano (ver Definição): demência ≤1 ano do parkinsonismo → DCL; parkinsonismo >1 ano antes da demência → demência da doença de Parkinson |
Nota de nomenclatura (DSM-5-TR vs CID-11): o DSM-5-TR classifica-as como perturbações neurocognitivas major com especificador etiológico. A CID-11 também as codifica como perturbações neurocognitivas mas atribui frequentemente a etiologia ao capítulo das doenças do sistema nervoso (código dual), pelo que a mesma entidade pode surgir com códigos diferentes consoante o eixo. Não misturar critérios dos dois sistemas dentro do mesmo raciocínio sem os nomear.
Princípios transversais
Não existe tratamento modificador da doença para nenhuma destas demências — o objetivo é sintomático, funcional e de suporte, com apoio intensivo ao cuidador e planeamento antecipado (capacidade, condução, diretivas antecipadas, fim de vida — comuns a todas as demências e remetidos para o capítulo publicado de Alzheimer). A regra de ouro comportamental é medidas não farmacológicas primeiro: identificar e corrigir desencadeantes (dor, obstipação, infeção, ambiente), rotina e estrutura, orientação, e só depois considerar fármaco, sempre na dose mínima e por tempo limitado.
DCL — a gestão com a maior regra de segurança do capítulo
Regra de segurança major: EVITAR antipsicóticos
Os antipsicóticos podem provocar, na DCL, reações graves e potencialmente fatais — agravamento abrupto do parkinsonismo, rigidez, deterioração da consciência e uma reação semelhante à síndrome neuroléptica maligna. A regra é evitá-los. Isto aplica-se muito especialmente aos típicos (haloperidol e outros), que estão contraindicados, mas também à risperidona e à olanzapina, que não devem ser usadas de rotina.
Se, e só se, uma psicose for verdadeiramente incapacitante ou perigosa e as medidas não farmacológicas e o inibidor da colinesterase falharem, pode considerar-se — com extrema cautela, na dose mínima possível, por tempo curto e sob vigilância apertada da rigidez e do estado de consciência — a quetiapina ou a clozapina (esta com a monitorização hematológica obrigatória que a clozapina sempre exige). Nunca um típico, nunca risperidona ou olanzapina como escolha de rotina. Antes de sequer chegar aqui, otimizar o inibidor da colinesterase, que muitas vezes atenua as próprias alucinações.
O que ajuda na DCL
- Inibidores da colinesterase (a rivastigmina é a mais estabelecida; o donepezilo também é usado) — têm benefício na cognição, na flutuação e nas alucinações visuais, refletindo o défice colinérgico marcado da DCL. São, na prática, a primeira linha farmacológica para os sintomas psicóticos, precisamente porque evitam o recurso ao antipsicótico. Antes de iniciar, contudo, avaliar frequência cardíaca e história de síncope/bradiarritmia: pelo efeito vagotónico, os inibidores da colinesterase podem provocar bradicardia, bloqueio auriculoventricular e síncope, pelo que se usam com cautela — idealmente evitam-se — na bradicardia significativa, doença do nó sinusal ou perturbações da condução, e obrigam a vigiar bradicardia e síncope, sobretudo neste doente já propenso a disautonomia, hipotensão ortostática e quedas.
- Parkinsonismo: a levodopa pode melhorar a rigidez e a bradicinesia, mas usar com cautela e titular devagar, porque pode agravar as alucinações e a confusão — procura-se a dose mais baixa que dê benefício motor aceitável, e evitam-se os agonistas dopaminérgicos, mais alucinogénios.
- Perturbação comportamental do sono REM: trata-se quando causa lesões ou perturba o sono — melatonina como opção de primeira linha (melhor perfil de segurança); o clonazepam é eficaz mas usar com cautela (sedação, quedas, confusão diurna, sensibilidade acrescida aos sedativos nesta população). Medidas de segurança no quarto.
DFT — o que NÃO fazer e o que fazer
Armadilha farmacológica major: ao contrário do Alzheimer e da DCL, na DFT os inibidores da colinesterase não ajudam e podem agravar os sintomas comportamentais (agitação) — não são indicados. A memantina também não tem benefício demonstrado.
O que se faz na DFT é sobretudo não farmacológico e comportamental:
- ISRS (ex.: sertralina, citalopram/escitalopram, trazodona) — podem atenuar alguns comportamentos da variante comportamental: desinibição, impulsividade, comportamentos compulsivos/repetitivos, hiperoralidade e mudanças alimentares. Não revertem a doença; reduzem a perigosidade de sintomas-alvo específicos.
- Estratégias comportamentais e ambientais, terapia da fala na afasia progressiva primária, gestão dos comportamentos de risco (financeiro, sexual, alimentar, legal — ver Complicações), e proteção do doente e da família.
- Apoio intensivo ao cuidador — a variante comportamental da DFT é das mais desgastantes de todas as demências, pela combinação de idade jovem, perda de insight e comportamento socialmente disruptivo.
Se houver agitação grave sem resposta, os antipsicóticos na DFT usam-se com a mesma prudência geral que em qualquer demência (dose mínima, curto prazo, risco cardiovascular e de mortalidade acrescido), mas sem a contraindicação absoluta da DCL — a hipersensibilidade fatal aos antipsicóticos é da DCL, não da DFT.
Demência não especificada
A orientação é de suporte e reavaliação: garantir que as causas reversíveis foram excluídas, tratar sintomas-alvo com o mesmo princípio de dose mínima, apoiar cuidador e planear, e reavaliar periodicamente — o padrão etiológico esclarece-se frequentemente com o tempo, permitindo migrar para uma abordagem específica.
Quadro-síntese de tratamento
| Inibidor colinesterase | Antipsicóticos | Nota específica | |
|---|---|---|---|
| DFT | Não (podem agravar) | Prudência geral de demência | ISRS para comportamentos-alvo; sobretudo não farmacológico |
| DCL | Sim (rivastigmina; ajuda cognição e alucinações) | Evitar; típicos contraindicados — se inevitável, quetiapina/clozapina em dose mínima | Levodopa com cautela (piora alucinações); melatonina para REM |
| Alzheimer | Sim (remeter) | Prudência geral | Ver capítulo publicado |
Referências
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed, Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA; 2022.
- World Health Organization. International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11). Genebra: WHO; 2019/2022. Capítulo 06 (perturbações mentais) e 6D8 (perturbações neurocognitivas).
- McKeith IG, Boeve BF, Dickson DW, et al. Diagnosis and management of dementia with Lewy bodies: Fourth consensus report of the DLB Consortium. Neurology. 2017;89(1):88-100.
- Rascovsky K, Hodges JR, Knopman D, et al. Sensitivity of revised diagnostic criteria for the behavioural variant of frontotemporal dementia. Brain. 2011;134(9):2456-2477.
- Gorno-Tempini ML, Hillis AE, Weintraub S, et al. Classification of primary progressive aphasia and its variants. Neurology. 2011;76(11):1006-1014.
- Bang J, Spina S, Miller BL. Frontotemporal dementia. Lancet. 2015;386(10004):1672-1682.
- McKeith IG, Ferman TJ, Thomas AJ, et al. Research criteria for the diagnosis of prodromal dementia with Lewy bodies. Neurology. 2020;94(17):743-755.
- National Institute for Health and Care Excellence. Dementia: assessment, management and support for people living with dementia and their carers. NICE guideline NG97; 2018 (revisto por vigilância em 2023 e 2025, sem atualização das recomendações).
- Taylor JP, McKeith IG, Burn DJ, et al. New evidence on the management of Lewy body dementia. Lancet Neurology. 2020;19(2):157-169.
- Taylor D, Barnes TRE, Young AH. The Maudsley Prescribing Guidelines in Psychiatry, 15th ed. Oxford: Wiley Blackwell; 2025.
11 perguntas sobre Demência frontotemporal, demência com corpos de Lewy, demência não especificada
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar