Défice cognitivo ligeiro
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 12 perguntas neste tema
O défice cognitivo ligeiro é a zona entre o envelhecimento cognitivo normal e a demência: há declínio em relação ao nível anterior, confirmado nos testes, mas a pessoa continua a gerir sozinha a sua vida, ainda que com mais esforço. O DSM-5-TR chama-lhe perturbação neurocognitiva ligeira. A prevalência sobe com a idade, de cerca de 7% entre os 60 e os 64 anos para um quarto das pessoas entre os 80 e os 84, e os cuidados de saúde primários são o sítio onde a maioria é reconhecida e seguida.
É uma síndrome, e não uma doença. O perfil amnésico, em que a memória episódica falha e as pistas não ajudam, é muitas vezes a fase prodrómica da doença de Alzheimer; o perfil disexecutivo aponta para doença cerebrovascular ou frontotemporal; a flutuação com alucinações visuais, parkinsonismo e perturbação do comportamento do sono REM aponta para corpos de Lewy. Uma parte dos casos tem um contribuinte tratável: depressão, apneia do sono, fármacos anticolinérgicos ou sedativos, défice de vitamina B12, hipotiroidismo ou álcool.
O que separa o défice ligeiro da demência é a autonomia nas atividades instrumentais, e não o resultado do teste, e só um informante a avalia bem. O Mini-Mental State Examination está em regra normal nesta fase; o Montreal Cognitive Assessment (MoCA) apanha melhor o défice inicial e o executivo. A investigação é a de qualquer declínio cognitivo: análises com vitamina B12, função tiroideia e serologias, revisão da medicação e imagem crânio-encefálica.
A evolução é heterogénea: nas séries clínicas cerca de 12% por ano convertem para demência, outros ficam estáveis durante anos e uma parte reverte. Nenhum fármaco trata o défice ligeiro nem previne a conversão, pelo que não se prescrevem inibidores da colinesterase nem memantina. O tratamento é corrigir o reversível, rever a medicação, exercício físico regular, controlo do risco vascular, correção da audição e da visão, reavaliação seriada e planeamento enquanto a capacidade está preservada. Os anticorpos anti-amiloide, aprovados na União Europeia em 2025, destinam-se apenas ao défice ligeiro ou à demência ligeira por doença de Alzheimer com amiloide confirmada, em doentes selecionados.
O que não se pode falhar é a perda de autonomia que já é demência, a depressão tomada por neurodegeneração, o fármaco que está a causar o défice e o antipsicótico dado a quem tem um perfil de corpos de Lewy.
O que se faz a todos
Segundo a norma da DGS, em qualquer suspeita de declínio cognitivo:
- História com informador (acompanhante, familiar ou cuidador), exame físico geral e exame neurológico.
- Avaliação cognitiva com um teste validado para Portugal.
- Avaliação das atividades de vida diária, que é o que decide entre défice ligeiro e demência. A escala de Lawton serve na demência; para o défice ligeiro há escalas mais pormenorizadas das atividades instrumentais.
- Avaliação das alterações psicológicas e comportamentais, procurando ativamente a depressão.
- Revisão da medicação, com atenção aos fármacos com efeito anticolinérgico.
- Análises: hemograma, glicemia, calcemia, ionograma, provas hepáticas, função renal e tiroideia, vitamina B12 e ácido fólico, serologias da sífilis e do vírus da imunodeficiência humana, urina tipo II.
- Imagem crânio-encefálica, para excluir causas tratáveis (hematoma subdural, hidrocefalia de pressão normal, tumor) e apoiar o diagnóstico etiológico. A ressonância magnética mostra melhor a atrofia mesial temporal, as lesões vasculares e as micro-hemorragias.
Acresce procurar a apneia obstrutiva do sono (roncopatia, pausas testemunhadas, sonolência diurna) e quantificar o consumo de álcool.
Testes cognitivos
| teste | valor no défice ligeiro | ponto de corte |
|---|---|---|
| Mini-Mental State Examination (versão portuguesa) | bom para detetar demência, mas em regra normal nas fases iniciais | cortes clássicos: défice se 15 ou menos em analfabetos, 22 ou menos com 1 a 11 anos de escolaridade, 27 ou menos com mais de 11 anos; há dados normativos portugueses revistos |
| Montreal Cognitive Assessment (MoCA) | recomendado para as fases iniciais; avalia também executivo, atenção e evocação diferida; 30 pontos | na versão original, 26 ou mais é normal; na validação portuguesa, abaixo de 22 sugere défice ligeiro (sensibilidade 81%, especificidade 77%) e abaixo de 17 doença de Alzheimer (sensibilidade 88%, especificidade 98%) |
| Teste do desenho do relógio | executivo e visuoespacial em poucos minutos | várias versões de cotação, com normas portuguesas |
| Avaliação neuropsicológica formal | caracteriza os domínios; indicada no défice ligeiro, quando o diagnóstico não é claro e quando há questões médico-legais | a memória episódica é imprescindível; os testes de memória com pistas, como o de Buschke, ajudam a prever quem evolui para demência |
Os resultados dependem muito da idade e da escolaridade: interpretam-se com as normas portuguesas e, sobretudo, pela mudança em relação ao próprio.
Biomarcadores
- Os biomarcadores da doença de Alzheimer respondem a uma pergunta estreita: se o défice se deve a essa doença. São a tomografia por emissão de positrões (PET) com fluorodesoxiglicose, com radiofármacos para a amiloide ou para a tau, e o doseamento no líquido cefalorraquidiano da beta-amiloide 1-42 (ou da razão 42/40), da tau total e da tau fosforilada.
- No plasma, a razão beta-amiloide 42/40, a tau fosforilada 181 e 217, a proteína ácida fibrilhar glial e os neurofilamentos de cadeia leve mostram boa correspondência com o líquido cefalorraquidiano; a norma da DGS ainda os trata como estando em investigação para uso clínico.
- Os critérios revistos da Associação de Alzheimer dos Estados Unidos (2024) definem a doença de Alzheimer pela biologia: um biomarcador nuclear anormal chega. Continuam a não ser um teste de rastreio.
- Pedem-se em contextos selecionados: início antes dos 65 anos, apresentação atípica, dúvida diagnóstica que muda a conduta e avaliação para anticorpos anti-amiloide, que exigem amiloide confirmada.
- A genotipagem da apolipoproteína E não se recomenda na prática clínica, exceto antes de um anticorpo anti-amiloide, cuja indicação na União Europeia depende dela.
- Antes de pedir, discute-se com a pessoa o que fará com o resultado: diz uma probabilidade, e não uma certeza, e tem consequências no emprego, nos seguros e na condução.
Diagnóstico diferencial
| entidade | o que a distingue |
|---|---|
| Envelhecimento normal | queixa sem défice objetivo, ou lentidão que melhora com mais tempo e com pistas; sem progressão |
| Demência | perda de autonomia nas atividades instrumentais |
| Delirium | instalação aguda, flutuação da atenção e do nível de consciência, causa orgânica |
| Depressão | queixa subjetiva marcada, «não sei», esforço variável, início datável com o humor; as pistas ajudam |
| Apneia obstrutiva do sono | sonolência diurna, roncopatia, défice de atenção e executivo; melhora com o tratamento |
| Toxicidade medicamentosa | relação temporal com o fármaco; melhora com a suspensão |
| Défice de vitamina B12, hipotiroidismo | análises; sinais neurológicos ou sistémicos associados |
| Hematoma subdural crónico, hidrocefalia de pressão normal | queda ou anticoagulação; marcha e incontinência; imagem |
O princípio
Nenhum fármaco tem benefício sintomático demonstrado no défice cognitivo ligeiro, e os inibidores da colinesterase não previnem a conversão para doença de Alzheimer. Por isso não se prescrevem inibidores da colinesterase (donepezilo, rivastigmina, galantamina) nem memantina. A norma da DGS indica-os na doença de Alzheimer já em fase de demência, a memantina só na fase moderada a grave, e têm efeitos adversos reais: anorexia, náuseas, vómitos, diarreia, perda de peso, bradirritmia e síncope.
Também não se prescrevem, para tratar o défice cognitivo, anti-inflamatórios, vasodilatadores, nootrópicos, selegilina, terapêutica hormonal, estatinas, vitaminas nem extratos cerebrais ou de plantas.
Tratar o que é reversível
- Medicação: retirar sempre que possível os fármacos que pioram a cognição. Os anticolinérgicos substituem-se por alternativas sem esse efeito. Uma benzodiazepina crónica retira-se de forma gradual: a privação abrupta pode dar delirium e crises epiléticas, e piora a cognição em vez de a melhorar.
- Depressão: primeiro intervenções psicoterapêuticas (as de base cognitivo-comportamental têm efeito grande nos sintomas depressivos de quem tem défice ligeiro ou demência); na depressão mais grave ou com resposta prévia a fármacos, um inibidor seletivo da recaptação da serotonina. Os tricíclicos evitam-se.
- Apneia obstrutiva do sono: estudo do sono e tratamento.
- Défice de vitamina B12, hipotiroidismo e consumo de álcool: corrigem-se. Tratar a carência é tratar a carência; o défice só reverte se era ela a causa.
- Audição e visão: aparelho auditivo e correção visual.
Estilo de vida e risco vascular
- Exercício físico regular, pelo menos duas vezes por semana, é a intervenção com melhor evidência, com benefício em estudos de seis meses.
- Intervenções cognitivas (treino e estimulação) podem recomendar-se, com evidência mais fraca.
- Atividade social e cognitiva, dieta equilibrada.
- Hipertensão, diabetes, dislipidemia e tabagismo tratam-se com a mesma exigência da prevenção vascular.
Anticorpos anti-amiloide
| lecanemab | donanemab | |
|---|---|---|
| Autorização na União Europeia | abril de 2025 | setembro de 2025 |
| Indicação | défice cognitivo ligeiro ou demência ligeira por doença de Alzheimer, com patologia amiloide confirmada, em não portadores ou heterozigotos do alelo ε4 da apolipoproteína E | a mesma |
| Administração | perfusão endovenosa de 2 em 2 semanas | perfusão endovenosa mensal |
- Removem a amiloide e abrandam modestamente o declínio; não se sabe se o benefício é clinicamente relevante nem quanto dura.
- O efeito adverso principal são as alterações imagiológicas relacionadas com a amiloide (ARIA, do inglês), edema e hemorragia cerebral, mais frequentes nos portadores do alelo ε4, e por isso os homozigotos ficam de fora na União Europeia.
- No lecanemab, a ressonância faz-se antes de começar e antes da 5.ª, da 7.ª e da 14.ª perfusões; não se usa em doentes anticoagulados nem com mais de 4 micro-hemorragias na ressonância inicial.
- Os ensaios só incluíram doentes com Mini-Mental de pelo menos 22 (lecanemab) e 20 (donanemab).
- São dados em centros especializados, dentro de um programa de acesso controlado.
Seguimento
- Avaliações seriadas, periódicas e sempre que houver agravamento ou intercorrência.
- Repetir o mesmo instrumento: a versão portuguesa do MoCA tem duas formas alternativas para avaliações repetidas, o que reduz o efeito de aprendizagem.
- Perguntar de novo ao informante pelas atividades instrumentais, uma a uma. O que a pessoa deixou de fazer desde a última consulta é o dado que marca a passagem a demência.
- Sair da consulta com a reavaliação marcada.
Comunicar e planear
- Dizer o que se sabe e o que não se sabe: há declínio objetivo, a autonomia está mantida, e uma parte converte, uma parte fica estável e uma parte reverte, sem que se possa dizer de antemão qual.
- Discutir cedo a condução, a gestão do dinheiro e da medicação e os outros aspetos médico-legais.
- Planear enquanto a capacidade está preservada: testamento vital e nomeação de procurador de cuidados de saúde.
- A capacidade avalia-se decisão a decisão, e não em bloco; neste estádio está em regra preservada.
- Informar sobre o apoio disponível, como a Alzheimer Portugal.
Referências
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- World Health Organization. International classification of diseases, 11th revision (ICD-11). 6D71 Mild neurocognitive disorder. Geneva: WHO; 2019.
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- Direção-Geral da Saúde. Abordagem diagnóstica e terapêutica do doente com défice cognitivo ou demência. Norma n.º 053/2011, atualizada a 21 de abril de 2023. Lisboa: DGS; 2023.
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- Olanow CW, Klein C, Schapira AHV. Parkinson's disease. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 20th ed. New York: McGraw Hill; 2018. cap. 427.
- Marshall FJ. Dementia and memory disturbances. In: Wing EJ, Schiffman FJ, editors. Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. cap. 110.
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- European Medicines Agency. Leqembi (lecanemab): EPAR, medicine overview. Amsterdam: EMA; 2025.
- European Medicines Agency. Kisunla (donanemab): EPAR, medicine overview. Amsterdam: EMA; 2025.
12 perguntas sobre Défice cognitivo ligeiro
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