Perturbações do humorPerturbações depressivasPublicado (Premium)

Perturbações depressivas

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 19 de julho de 2026 · 33 perguntas neste tema

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Em resumo

As perturbações depressivas são, de longe, o capítulo mais rentável da psiquiatria na PNA: são muito prevalentes, atravessam todas as especialidades e concentram um número desproporcionado de perguntas. O examinador testa sobretudo três coisas: saber aplicar os critérios operacionais da perturbação depressiva major, reconhecer os especificadores que mudam a conduta (sobretudo as características psicóticas, que obrigam a antipsicótico associado ou a eletroconvulsivoterapia e nunca a antidepressivo isolado) e fazer os diagnósticos diferenciais de consequência — causa orgânica, bipolaridade não reconhecida, luto e perturbação de adaptação. A isto junta-se a farmacologia prática: latência de efeito, quando trocar, quanto tempo manter, e as complicações iatrogénicas que aparecem em vinheta (síndrome serotoninérgica, hiponatrémia, síndrome de descontinuação). Domina estes quatro eixos e o capítulo fica seguro.

Um modelo de vulnerabilidade e stress

Nenhuma via isolada explica a depressão. O modelo que melhor organiza a evidência é o de diátese-stress: uma vulnerabilidade de base (genética, epigenética, temperamental, adquirida na adversidade precoce) que, confrontada com stressores de vida, ultrapassa o limiar de descompensação de sistemas de regulação do humor.

A herdabilidade da perturbação depressiva major situa-se em cerca de 35% a 40% — substancialmente inferior à da perturbação bipolar ou da esquizofrenia. A arquitetura genética é poligénica: centenas de variantes comuns de pequeno efeito, sem qualquer gene de efeito major clinicamente utilizável. A consequência prática é imediata e vale para a prova: não existe teste genético para diagnosticar depressão, e a história familiar é um fator de risco, não um critério.

A adversidade na infância (maus-tratos, negligência, perda parental precoce) é dos fatores de risco ambientais mais robustos, e associa-se a formas de início mais precoce, mais recorrentes e mais resistentes. O mecanismo proposto é epigenético — modificações estáveis na expressão de genes reguladores do stress, nomeadamente na via dos glucocorticoides.


Monoaminas: o que a hipótese explica e o que não explica

A hipótese monoaminérgica nasceu da farmacologia inversa: a reserpina, que depleta monoaminas, induzia sintomas depressivos; a iproniazida e a imipramina, que as aumentavam, melhoravam-nos. Postulou-se um défice funcional de serotonina (5-HT), noradrenalina (NA) e dopamina (DA) na fenda sináptica.

Esta hipótese continua a ser a base racional de toda a farmacoterapia atual — e é por isso que tem de ser conhecida. Mas tem uma limitação que a prova gosta de testar sob a forma de "porquê":

Os antidepressivos aumentam a disponibilidade sináptica de monoaminas em horas, mas o efeito clínico só surge em 2 a 4 semanas. Se o défice de monoaminas fosse a causa proximal, o efeito seria imediato.

A explicação hoje aceite para esta latência envolve a dessensibilização progressiva dos autorrecetores. O exemplo canónico é o autorrecetor somatodendrítico 5-HT1A no núcleo dorsal da rafe: o aumento agudo de serotonina ativa-o, o que trava o disparo dos neurónios serotoninérgicos e limita o ganho terapêutico inicial. Só após semanas de exposição contínua o autorrecetor dessensibiliza, permitindo aumento sustentado da transmissão serotoninérgica nas projeções corticais e límbicas. O mesmo princípio aplica-se aos autorrecetores α2 adrenérgicos — e é exatamente aí que atua a mirtazapina, que os bloqueia diretamente.

Cada monoamina tem uma assinatura sintomática aproximada, útil na escolha do fármaco:

SistemaDomínios que modulaTradução clínica
SerotoninaHumor, ansiedade, impulsividade, saciedade, sonoRuminação, ansiedade, irritabilidade
NoradrenalinaVigília, atenção, energia, resposta ao stressFadiga, lentificação, dificuldade de concentração
DopaminaRecompensa, motivação, comportamento dirigidoAnedonia, apatia, ausência de iniciativa

Daqui decorre a lógica de escolher bupropiona (inibidor da recaptação de dopamina e noradrenalina) num quadro dominado por anedonia e fadiga, ou mirtazapina num quadro com insónia e anorexia.


Neuroplasticidade, BDNF e a via glutamatérgica

A leitura contemporânea desloca o foco das monoaminas para a plasticidade sináptica. A depressão associa-se a atrofia dendrítica e perda de espinhas sinápticas no hipocampo e no córtex pré-frontal, com redução do volume hipocampal em doentes com doença recorrente e de longa duração.

O mediador central desta hipótese é o BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro): o stress crónico e o hipercortisolismo reduzem a expressão de BDNF no hipocampo; os antidepressivos e a eletroconvulsivoterapia aumentam-na, promovendo neurogénese na zona subgranular do giro denteado e restauração sináptica. Esta cronologia — semanas — encaixa muito melhor na latência clínica do que a hipótese monoaminérgica pura.

A prova mais elegante deste modelo vem da cetamina. Antagonista do recetor NMDA, desinibe rapidamente a transmissão glutamatérgica, provoca uma descarga de glutamato que ativa recetores AMPA, com ativação subsequente da via mTOR e sinaptogénese rápida. É o que explica o seu efeito antidepressivo em horas, contornando por completo a cascata monoaminérgica lenta. Retém a ideia central: o alvo final é a plasticidade sináptica; as monoaminas são apenas uma via de acesso a ela.


Eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal e stress

A depressão, sobretudo na forma melancólica e psicótica, associa-se a hiperatividade do eixo HPA: aumento da libertação de CRH hipotalâmico, hipercortisolismo e falência do retrocontrolo negativo dos glucocorticoides (classicamente demonstrada pela não supressão no teste da dexametasona — achado com sensibilidade e especificidade insuficientes para uso diagnóstico, e por isso não recomendado na prática).

O hipercortisolismo sustentado tem consequências diretas: reduz o BDNF, favorece a atrofia hipocampal e agrava a desregulação do eixo — um ciclo de retroalimentação positiva. Este mecanismo explica, de forma coerente, três observações de exame: a depressão na síndrome de Cushing, a depressão induzida por corticoterapia e a desregulação do cortisol encontrada em doentes com depressão grave.


Inflamação e mecanismos somáticos

Um subgrupo de doentes apresenta elevação de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-α) e de proteína C reativa. Dois mecanismos plausíveis ligam a inflamação à depressão:

  1. Comportamento de doença — as citocinas atuam no sistema nervoso central induzindo anedonia, fadiga, hipersónia, anorexia e retraimento social, um padrão sobreponível aos sintomas neurovegetativos da depressão.
  2. Desvio da via do triptofano — a ativação da indoleamina-2,3-dioxigenase desvia o triptofano da síntese de serotonina para a via das quinureninas, gerando metabolitos com atividade neurotóxica e agonismo NMDA.

Este eixo dá substrato biológico à observação de que a depressão é muito mais frequente em doenças inflamatórias crónicas, oncológicas e cardiovasculares, e é o racional da depressão induzida por interferão.


Circuitos: um modelo de rede

A leitura mais útil na cabeceira do doente é a de redes desreguladas:

  • Hiperatividade da amígdala e do córtex cingulado subgenual (área 25) — viés negativo do processamento emocional, ruminação, resposta exagerada a estímulos aversivos.
  • Hipoatividade do córtex pré-frontal dorsolateral — falência do controlo cognitivo descendente sobre o sistema límbico, traduzindo-se em dificuldade de concentração, indecisão e incapacidade de "desligar" a ruminação.
  • Hipofunção do circuito de recompensa (área tegmentar ventral → núcleo accumbens) — substrato da anedonia e da perda de motivação.
  • Rede de modo predefinido hiperconectada — correlato da ruminação autorreferencial persistente.

Este modelo tem tradução terapêutica direta: a estimulação magnética transcraniana repetitiva dirige-se ao córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo precisamente por ser a região hipoativa acessível de forma não invasiva. E fornece a ponte para a psicoterapia: a terapia cognitivo-comportamental age por via descendente, reforçando o controlo pré-frontal sobre o viés límbico negativo — pelo que psicoterapia e fármaco não são vias concorrentes, mas complementares, atuando em pontos diferentes do mesmo circuito.

Armadilha de exame: não existe qualquer biomarcador validado para o diagnóstico de depressão. Nem neuroimagem, nem cortisol, nem citocinas, nem teste genético. O diagnóstico é e continua a ser clínico.

O diagnóstico é clínico — e a entrevista é o exame

Não há exame que faça o diagnóstico de depressão. O que faz o diagnóstico é a entrevista clínica estruturada pelos critérios, complementada por informação colateral (família, cuidador) sempre que houver compromisso cognitivo, minimização ou dúvida sobre o curso.

Uma sequência prática e eficiente:

  1. Rastreio de dois itens (PHQ-2) — nas últimas duas semanas, com que frequência se sentiu em baixo, deprimido ou sem esperança? E com que frequência teve pouco interesse ou prazer em fazer as coisas? Uma resposta positiva obriga a aprofundar.
  2. Percorrer os nove sintomas, um a um, ancorando na cronologia ("desde quando?") e na intensidade.
  3. Quantificar o compromisso funcional — trabalho, relações, autocuidado. Sem compromisso não há diagnóstico.
  4. Rastrear bipolaridade — obrigatório antes de qualquer prescrição (ver adiante).
  5. Avaliar o risco de suicídio — em todas as consultas, sem exceção.
  6. Rastrear causas orgânicas, fármacos e substâncias.
  7. Rastrear comorbilidades — ansiedade, perturbação do uso de álcool, perturbação da personalidade, doença física.

A entrevista deve procurar ativamente os sintomas que o doente não traz espontaneamente. A queixa de apresentação em cuidados de saúde primários é muito frequentemente somática: fadiga, cefaleias, dor difusa, queixas gastrointestinais, insónia. Perguntar diretamente pela anedonia ("há coisas de que gostava e que já não lhe dão prazer?") é o gesto de maior rendimento diagnóstico.


Rastreio de causas orgânicas — antes de rotular

Rotular como depressão primária um quadro secundário é um erro grave e recorrente nas vinhetas. A suspeita de causa orgânica sobe quando há início atípico (idade avançada sem antecedentes), ausência de precipitante e de história familiar, sinais físicos, resposta ausente ao tratamento adequado, ou predomínio de sintomas neurovegetativos e cognitivos desproporcionados face ao humor.

CausaPistas na vinhetaConfirmação
HipotiroidismoFadiga, intolerância ao frio, obstipação, pele seca, bradicardia, aumento ponderalTSH (com T4 livre se alterada)
AnemiaPalidez, dispneia de esforço, asteniaHemograma
Défice de vitamina B12 (e de folato)Glossite, parestesias, ataxia, macrocitose, idoso, vegetariano, metformina, gastrectomiaB12 sérica, ácido fólico
Síndrome de CushingObesidade central, fácies em lua cheia, estrias violáceas, miopatia proximal, HTA, hiperglicémiaRastreio de hipercortisolismo
Doença de ParkinsonBradicinesia, tremor de repouso, rigidez, hipomimia (que pode simular embotamento)Clínica
AVCDepressão de novo após evento vascular, défice focalNeuroimagem, clínica
Neoplasia ocultaPerda ponderal desproporcionada, sintomas B; o adenocarcinoma do pâncreas é o exemplo clássico de depressão como manifestação inauguralInvestigação dirigida
Apneia obstrutiva do sonoRonco, sonolência diurna, sono não reparador, obesidade, pausas presenciadasEstudo do sono
Demência em fase inicialDeclínio cognitivo objetivável, desorientação, minimização das falhasAvaliação neuropsicológica

Fármacos e substâncias a interrogar sempre:

  • Corticosteroides — associação bem estabelecida, tanto com sintomas depressivos como maníacos ou psicóticos, dose-dependente.
  • Interferão — a associação com depressão é robusta e obrigou historicamente a rastreio sistemático nos doentes tratados.
  • Isotretinoína — associação discutida e não estabelecida de forma consistente; a orientação prudente é vigiar o humor, sem afirmar causalidade.
  • Betabloqueantes — a associação clássica com depressão não é sustentada por evidência sólida; revisões mais recentes não confirmam um efeito relevante. Não retires um betabloqueante com indicação prognóstica com base nesta crença.
  • Álcool — o mais importante de todos: é depressor do sistema nervoso central e produz quadros indistinguíveis de depressão major, que frequentemente remitem com semanas de abstinência.
  • Outros a considerar: benzodiazepinas em uso crónico, opioides, canábis, estimulantes na fase de abstinência, alguns anticonvulsivantes e a mefloquina em contextos específicos. A vareniclina foi historicamente suspeita, mas o ensaio EAGLES (2016) não confirmou aumento de eventos neuropsiquiátricos e o alerta regulamentar foi retirado — não é razão para evitar prescrevê-la na cessação tabágica.

Não existe painel analítico obrigatório universal. Uma abordagem razoável e defensável na PNA: hemograma, TSH, ionograma, glicémia, função renal e hepática, vitamina B12 e folato, alargando conforme a clínica. Neuroimagem apenas perante sinais focais, início após os 50-60 anos sem antecedentes, cefaleia de novo, alteração da consciência ou declínio cognitivo rápido.


Rastrear bipolaridade antes de prescrever

Este é o diferencial com mais consequências de todo o capítulo. A depressão bipolar apresenta-se, no consultório, como depressão — porque o doente procura ajuda na fase depressiva, não na fase de hipomania, que vive como bem-estar ou produtividade.

O desenvolvimento da perturbação afetiva bipolar pertence ao capítulo próprio deste lote. Aqui interessa apenas rastrear, e as bandeiras vermelhas a procurar em cada doente antes de prescrever antidepressivo são:

  • História pessoal de período de ≥ 4 dias consecutivos com humor elevado ou irritável e aumento de energia, com redução da necessidade de sono, aceleração do pensamento, aumento da atividade dirigida a objetivos, comportamentos de risco — perguntado ao doente e a um familiar;
  • Início precoce (antes dos 25 anos) e episódios múltiplos e curtos, com recuperação completa entre eles;
  • História familiar de perturbação bipolar;
  • Características psicóticas, atípicas (hipersónia e hiperfagia) ou catatónicas;
  • Depressão pós-parto — associação particularmente forte;
  • Antecedente de viragem ou de agitação/irritabilidade com antidepressivo prévio;
  • Não resposta a múltiplos antidepressivos.

A presença de qualquer destes elementos deve fazer suspender a prescrição isolada de antidepressivo e referenciar a psiquiatria. Instrumentos de rastreio de bipolaridade existem, mas têm valor preditivo positivo limitado — não substituem a história colateral.


Luto, adaptação e depressão

A controvérsia da remoção da exclusão do luto merece ser compreendida e não decorada. O DSM-IV excluía o diagnóstico de episódio depressivo major nos primeiros dois meses após a morte de um ente querido. O DSM-5 removeu essa exclusão, com dois argumentos: o luto é apenas um entre muitos stressores graves e não havia razão para o privilegiar; e a exclusão deixava sem diagnóstico e sem tratamento pessoas com depressão genuína e risco real. Os críticos responderam que a remoção medicaliza uma emoção normal. A posição de consenso — e a que o DSM-5-TR adota em nota explicativa — é que cabe ao clínico distinguir, com base na fenomenologia:

Luto (não complicado)Episódio depressivo major
Afeto predominanteVazio e saudade, em ondas desencadeadas por lembrançasHumor deprimido persistente, anedonia global
Capacidade de prazerPreservada entre as ondas; humor reativoPerdida de forma pervasiva
AutoestimaPreservadaDesvalorização, autocrítica, culpa
CulpaFocada no falecido ("devia ter feito mais")Generalizada e desproporcionada
Pensamentos de morteDesejo de "juntar-se" ao falecidoSentimento de não merecer viver, de ser um fardo
TrajetóriaMelhoria progressiva ao longo de mesesPersistência ou agravamento

A perturbação de luto prolongado é hoje entidade formal: ≥ 12 meses no adulto segundo o DSM-5-TR e ≥ 6 meses segundo a CID-11 — divergência a reter.

A perturbação de adaptação distingue-se por stressor identificável, sintomas que não atingem o limiar de episódio major, e resolução esperada.


Instrumentos: para que servem (e para que não servem)

Regra absoluta e muito testada: as escalas são de rastreio e de monitorização, nunca de diagnóstico. Nenhuma pontuação faz o diagnóstico; ele decorre da entrevista.

InstrumentoTipoUso
PHQ-2Autoaplicado, 2 itensRastreio inicial; positivo → aplicar PHQ-9
PHQ-9Autoaplicado, 9 itens (0-27)Rastreio e monitorização da resposta; faixas de gravidade a partir de 5, 10, 15 e 20; corte habitual de rastreio ≥ 10; o item 9 sinaliza pensamentos de morte
Escala de Hamilton (HDRS)HeteroaplicadaPadrão em ensaios clínicos; mede gravidade e resposta
MADRSHeteroaplicadaAlternativa à HDRS, mais sensível à mudança
Inventário de Beck (BDI-II)AutoaplicadoGravidade, com ênfase nos sintomas cognitivos
GDS (Geriatric Depression Scale)Autoaplicada, resposta sim/nãoIdoso: omite os itens somáticos, que são confundidores nesta faixa etária; na versão de 15 itens, ≥ 5 sugere depressão
EPDS (Escala de Edimburgo)Autoaplicada, 10 itensPeriparto: exclui itens somáticos que se confundem com o puerpério; o item 10 rastreia ideação autolesiva e obriga a avaliação imediata

Operacionalmente: resposta = redução ≥ 50% na pontuação basal; remissão = pontuação no intervalo de normalidade (por exemplo, PHQ-9 < 5).

Episódio depressivo major: os critérios e o que muda a conduta Critérios operacionais do DSM-5-TR e especificadores com impacto terapêutico REGRA DE ENTRADA ≥ 5 dos 9 sintomas, no mesmo período de ≥ 2 semanas e pelo menos UM tem de ser humor deprimido OU anedonia Exige ainda compromisso do funcionamento e exclusão de substância ou doença. Os nove sintomas Verde: sintomas âncora, um deles é obrigatório 1 Humor deprimido quase todos os dias 2 Anedonia perda de interesse ou prazer 3 Peso ou apetite > 5% do peso num mês 4 Insónia ou hipersónia despertar precoce é pista 5 Agitação ou lentificação observável por outros 6 Fadiga, perda de energia inespecífico isoladamente 7 Desvalorização ou culpa excessiva ou inapropriada 8 Menor concentração pensar e decidir custa mais 9 Pensamentos de morte ideação, plano ou tentativa ! Armadilha de exame 5 sintomas SEM humor deprimido nem anedonia entre eles NÃO cumprem critérios. 10 dias de evolução também não cumprem: o limiar temporal são 2 semanas. Especificadores que mudam a conduta ESPECIFICADOR E ACHADOS O QUE MUDA NA CONDUTA Com características psicóticas Delírios de culpa, ruína, niilismo (Cotard) NUNCA antidepressivo isolado Antipsicótico associado ou eletroconvulsivoterapia Com características melancólicas Não reatividade, despertar precoce, pioria matinal Boa resposta a eletroconvulsivoterapia e a antidepressivos noradrenérgicos Com características atípicas Reatividade preservada, hiperfagia, hipersónia, paralisia de chumbo, sensibilidade à rejeição Classicamente IMAO; hoje ISRS Hipersónia e hiperfagia são também bandeira de bipolaridade Com características mistas Sintomas hipomaníacos subliminares Alerta de bipolaridade Cuidado redobrado com antidepressivo isolado Com início no periparto Na gravidez ou nas 4 semanas após o parto Avaliar segurança do lactente e excluir psicose puerperal Antes de prescrever um antidepressivo, sempre: rastrear bipolaridade (história pessoal e familiar) e rastrear causa orgânica ou farmacológica.

Rastreio da depressão nos cuidados de saúde primários

O rastreio de depressão em adultos é recomendado pela US Preventive Services Task Force (2023), com grau B, na população adulta geral, incluindo grávidas e puérperas. Num documento distinto, de 2022, a USPSTF recomendou com grau B o rastreio de perturbação depressiva major nos adolescentes dos 12 aos 18 anos, mantendo um I statement para o rastreio do risco de suicídio nesta faixa etária.

Mas a recomendação vem com uma condição que a prova adora testar:

O rastreio só se justifica quando existe capacidade instalada para assegurar diagnóstico, tratamento e seguimento adequados dos casos identificados.

A razão é lógica e ética: rastrear sem capacidade de resposta gera falsos positivos rotulados, ansiedade iatrogénica, prescrição inadequada e nenhum benefício de saúde. O rastreio isolado, desligado de um circuito de cuidados, não melhora os desfechos. O modelo com melhor evidência é o de cuidados colaborativos, em que o médico de família trabalha articulado com um gestor de caso e com apoio de psiquiatria. Em Portugal, a tradução prática deste modelo é a articulação do médico de família com o psicólogo clínico do ACES e com a equipa comunitária de saúde mental do serviço local de saúde mental da área — e não um gestor de caso dedicado, figura que o SNS não tem generalizada.

O instrumento operacional é o PHQ-2 (dois itens, sobre humor deprimido e anedonia nas últimas 2 semanas), seguido de PHQ-9 completo se positivo, e de entrevista clínica para confirmar o diagnóstico. Nenhum destes passos substitui os anteriores.

Nota importante sobre a frequência ótima do rastreio: não está estabelecida. Uma abordagem pragmática é rastrear pelo menos uma vez em adultos nunca rastreados e depois com base no juízo clínico e nos fatores de risco, com maior atenção em populações de risco elevado.

Um ponto que a USPSTF passou a explicitar: a evidência é insuficiente para recomendar o rastreio universal do risco de suicídio em adultos assintomáticos. Isto não colide com a regra de avaliar o risco em todo o doente com sintomas depressivos identificados — o desenvolvimento desta avaliação está no capítulo próprio deste lote.


Rastreio no periparto

O periparto é a situação em que o rastreio tem maior consenso e maior rendimento, por três razões convergentes: prevalência elevada, sobreposição dos sintomas depressivos com os fenómenos fisiológicos do puerpério (fadiga, alteração do sono, alteração do apetite) e consequências que se estendem à criança.

O instrumento de eleição é a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EPDS): 10 itens autoaplicados, pontuação de 0 a 30, deliberadamente desprovida de itens somáticos — o que evita o falso positivo gerado pela fisiologia do puerpério. Os pontos de corte usados variam com o contexto e a validação da versão utilizada, situando-se habitualmente entre 10 e 13; um corte mais baixo privilegia a sensibilidade (rastreio), um corte mais alto a especificidade.

Dois princípios não negociáveis:

  1. O item 10 avalia pensamentos de autolesão. Qualquer resposta positiva obriga a avaliação clínica imediata do risco, independentemente da pontuação total.
  2. A escala rastreia, não diagnostica. Um resultado positivo exige entrevista clínica, que deve incluir a distinção entre blues pós-parto, depressão pós-parto e psicose puerperal (ver Situações especiais), bem como o rastreio de bipolaridade, particularmente relevante nesta população.

O rastreio deve ser feito durante a gravidez e no pós-parto, aproveitando os contactos já programados na vigilância de saúde materna e infantil — as consultas de revisão do puerpério e as consultas de saúde infantil são oportunidades de contacto privilegiadas, em que a mãe está presente por outro motivo.


Rastreio no idoso, no doente crónico e após evento vascular

Idoso. A depressão no idoso é sub-reconhecida porque se apresenta com queixas somáticas e cognitivas e porque o clínico e a família tendem a normalizá-la ("é a idade", "perdeu o marido"). O instrumento adaptado é a GDS, que omite itens somáticos confundidores. Rastrear com particular atenção perante: viuvez recente, institucionalização, isolamento social, dor crónica, polimedicação, défice sensorial não corrigido (a hipoacusia não corrigida é um fator de risco modificável importante) e declínio funcional recente.

Doente crónico. A prevalência de depressão está aumentada em praticamente todas as doenças crónicas, e a relação é bidirecional: a doença física aumenta o risco de depressão, e a depressão piora a adesão terapêutica, o autocuidado e o prognóstico da doença física. Populações em que o rastreio é particularmente rentável: diabetes, insuficiência cardíaca, doença coronária, doença pulmonar obstrutiva crónica, doença oncológica, doença renal crónica em diálise, doenças neurológicas (Parkinson, esclerose múltipla, epilepsia) e dor crónica.

Após AVC. A depressão pós-AVC afeta aproximadamente um terço dos sobreviventes, tem impacto direto na recuperação funcional e na participação na reabilitação, e é sistematicamente sub-diagnosticada — em parte porque a afasia, a apatia e a labilidade emocional dificultam a avaliação. Deve ser procurada ativamente nos meses seguintes ao evento.

Após enfarte agudo do miocárdio. A depressão após síndrome coronária aguda é frequente e associa-se a pior prognóstico cardiovascular. Deve ser rastreada durante o internamento e na reabilitação cardíaca.


Prevenção primária e fatores de risco modificáveis

Não é possível prevenir a depressão de forma universal, mas há alvos com evidência razoável:

  • Atividade física regular — associação consistente e provavelmente causal com menor incidência de depressão; é a intervenção de estilo de vida com melhor suporte.
  • Sono — a insónia crónica é um fator de risco independente para o desenvolvimento de depressão, e não apenas um sintoma. A terapia cognitivo-comportamental para a insónia tem efeito preventivo demonstrado. Higiene do sono como medida basal.
  • Uso de álcool — reduzir o consumo é simultaneamente prevenção e tratamento; abordar com linguagem sem estigma, centrada na pessoa.
  • Isolamento social e solidão — alvo modificável, sobretudo no idoso; ligação a recursos comunitários.
  • Adversidade na infância — prevenção e deteção precoce de maus-tratos e negligência; intervenções de parentalidade positiva.
  • Dor crónica não controlada, défices sensoriais não corrigidos e desemprego/precariedade — determinantes com peso real.
  • Programas escolares e ocupacionais de promoção de competências de coping têm evidência modesta mas positiva.

Prevenção da recorrência — a prevenção que mais rende

A perturbação depressiva major é, para muitos doentes, uma doença recorrente. O risco de novo episódio aumenta com cada episódio prévio. Prevenir a recorrência é, quantitativamente, a intervenção preventiva mais impactante.

Tratamento de continuação e manutenção. Regra estruturante (alinhada com a NICE NG222 e com a APA): manter o antidepressivo, na mesma dose que induziu a remissão, durante pelo menos 6 meses — habitualmente 6 a 12 meses — após a remissão do primeiro episódio. Em doentes com múltiplos episódios prévios, sintomas residuais, episódio grave ou com risco suicidário, ou fatores de risco persistentes, ponderar manutenção prolongada — frequentemente 2 anos ou mais. O erro clássico é reduzir a dose "porque já está bem": a dose de manutenção é a dose de tratamento.

Psicoterapia de manutenção. A terapia cognitivo-comportamental tem efeito preventivo que se mantém após o fim das sessões, ao contrário do fármaco, cuja proteção cessa com a suspensão. A terapia cognitiva baseada no mindfulness foi desenvolvida especificamente para prevenção de recaída em doentes com episódios múltiplos e tem evidência favorável nessa indicação.

Sintomas residuais. Sintomas residuais após "resposta" — insónia persistente, fadiga, ansiedade subclínica, sintomas cognitivos — são o preditor mais forte de recaída. O objetivo terapêutico não é a resposta: é a remissão completa.

Plano de recaída partilhado. Ensinar o doente e a família a reconhecer os sintomas prodrómicos individuais (tipicamente a alteração do sono e o retraimento social precedem em semanas o resto do quadro) e a ter um plano de contacto definido.

Adesão. A maior causa de recaída evitável é a suspensão precoce e não comunicada do fármaco, frequentemente por disfunção sexual ou por sentir-se bem. Antecipar, perguntar diretamente e negociar.


Papel do médico de família e critérios de referenciação

A maioria das depressões ligeiras a moderadas é diagnosticada e tratada com sucesso nos cuidados de saúde primários. O médico de família mantém o seguimento, monitoriza com PHQ-9 seriado, gere a adesão e faz a articulação.

Referenciação urgente a psiquiatria (ou ao serviço de urgência):

  • Risco suicidário elevado ou iminente, ideação com plano ou intenção;
  • Características psicóticas ou catatonia;
  • Recusa alimentar ou compromisso do estado geral;
  • Psicose puerperal suspeitada — emergência psiquiátrica;
  • Situação de risco para terceiros, incluindo risco para o lactente.

Referenciação não urgente:

  • Suspeita de bipolaridade — a decisão de tratar é de psiquiatria;
  • Não resposta a dois antidepressivos em dose e duração adequadas (depressão resistente);
  • Depressão grave ou com marcado compromisso funcional;
  • Comorbilidade complexa — perturbação do uso de substâncias, perturbação da personalidade, doença física instável;
  • Gravidez, periparto ou amamentação com necessidade de decisão farmacológica;
  • Criança ou adolescente com necessidade de tratamento farmacológico;
  • Necessidade de tratamentos especializados (ECT, escetamina, EMTr).

Enquadramento nacional — tratamento involuntário e circuito do SNS

A Lei n.º 35/2023, de 21 de julho (Lei de Saúde Mental, em vigor desde 20 de agosto de 2023) revogou a Lei n.º 36/98 e substituiu a figura do internamento compulsivo pela de tratamento involuntário — a designação antiga está revogada e não deve ser usada.

  • Pressupostos cumulativos: doença mental, recusa do tratamento medicamente prescrito e perigo para bens jurídicos pessoais ou patrimoniais, próprios ou de terceiros.
  • Local: preferencialmente em ambulatório, assegurado pelas equipas comunitárias de saúde mental; o internamento é excecional, apenas quando for a única forma de garantir o tratamento.
  • Decisão judicial, com intervenção do Ministério Público. No internamento de urgência, o juiz decide no prazo de 48 horas a contar da privação da liberdade; a manutenção do tratamento involuntário é obrigatoriamente revista ao fim de 2 meses.

No circuito corrente do SNS, a referenciação não urgente dos cuidados de saúde primários para a consulta de psiquiatria da área faz-se por CTH/ALERT P1; o SNS 24 (808 24 24 24) é recurso de apoio e triagem; as situações de emergência seguem para o serviço de urgência.

Princípios e estratificação por gravidade

O tratamento organiza-se em três fases com objetivos distintos:

FaseDuração aproximadaObjetivo
Aguda6-12 semanasAlcançar a remissão (não apenas resposta)
Continuação≥ 6 meses após a remissãoPrevenir a recaída do mesmo episódio
Manutenção≥ 2 anos ou indefinidaPrevenir a recorrência de novo episódio

A escolha da modalidade depende da gravidade, da preferência do doente e da resposta a tratamentos prévios — a decisão partilhada não é cortesia, é o principal determinante de adesão.

GravidadeAbordagem de primeira linha
LigeiraIntervenções de menor intensidade: psicoeducação, ativação comportamental, exercício estruturado, TCC de baixa intensidade ou digital guiada, vigilância ativa com reavaliação. O antidepressivo tem benefício marginal face ao placebo nesta faixa e não é primeira linha, exceto se história de depressão moderada/grave prévia, sintomas persistentes apesar de intervenção, ou preferência informada do doente
ModeradaPsicoterapia estruturada (TCC ou terapia interpessoal) ou antidepressivo — ambos aceitáveis; a combinação é superior em muitos doentes
GraveAntidepressivo + psicoterapia; considerar internamento se risco
Grave com psicoseAntidepressivo + antipsicótico, ou ECTnunca antidepressivo isolado
Com catatoniaLorazepam 1-2 mg IM/IV como prova terapêutica, repetível; ECT se não houver resposta ou perante catatonia maligna (febre, disautonomia, rigidez, CK elevada). Evitar antipsicóticos — agravam a catatonia e podem precipitar síndrome neuroléptica maligna: perante depressão psicótica com sinais catatónicos, a regra da catatonia prevalece

Em todos os casos: psicoeducação (natureza da doença, latência do fármaco, duração prevista, sinais de alarme), envolvimento da família com consentimento, e atenção às medidas básicas — sono, atividade física, redução do álcool, estrutura diária.

Benzodiazepinas — o problema prescricional português. Portugal é o país da OCDE com maior consumo declarado de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos. Pode associar-se uma benzodiazepina nas primeiras 2 a 4 semanas, para ansiedade ou insónia marcadas, enquanto o antidepressivo não faz efeito — mas sempre com data de fim definida à partida (habitualmente ≤ 4 semanas) e desmame planeado. A benzodiazepina não é tratamento da depressão: não tem eficácia antidepressiva e acrescenta dependência, quedas, acidentes e défice cognitivo, sobretudo no idoso. Rever e desprescrever em cada consulta de seguimento — a pessoa que ficou com alprazolam há três anos desde que iniciou o antidepressivo é o cenário-tipo a corrigir.


Psicoterapia

Duas modalidades concentram a melhor evidência na depressão ligeira a moderada:

  • Terapia cognitivo-comportamental (TCC) — identifica e reestrutura distorções cognitivas (pensamento tudo-ou-nada, catastrofização, personalização, abstração seletiva), combinando-as com ativação comportamental (reintroduzir progressivamente atividades gratificantes, quebrando o ciclo retraimento → menos reforço → mais retraimento). Efeito comparável ao do fármaco na depressão ligeira a moderada, com a vantagem de manter proteção após o fim das sessões.
  • Terapia interpessoal (TIP) — foca-se em quatro domínios: luto, disputas de papéis, transições de papéis e défices interpessoais. Particularmente adequada quando o episódio se articula com uma perda ou transição de vida identificável, e no periparto.

Outras opções com evidência: ativação comportamental isolada, terapia de resolução de problemas, terapia cognitiva baseada no mindfulness (sobretudo na prevenção de recaída), terapia psicodinâmica breve e terapia de casal quando o conflito conjugal é central.

A combinação de psicoterapia e fármaco é superior a qualquer das modalidades isoladas na depressão moderada a grave e na depressão crónica.


Farmacoterapia: escolher a primeira linha

A meta-análise em rede de Cipriani et al. (Lancet, 2018), sobre 21 antidepressivos, sustenta a mensagem central: todos os antidepressivos são superiores ao placebo, e as diferenças de eficácia entre eles são modestas. Consequência prática decisiva:

A escolha do antidepressivo faz-se sobretudo pelo perfil de efeitos adversos, pelas comorbilidades, pelas interações, pela resposta prévia do doente ou de familiar de primeiro grau, e pelo custo — não por uma suposta superioridade de eficácia.

Os ISRS são a primeira linha para praticamente todos os doentes: eficácia equivalente às outras classes, melhor tolerabilidade e segurança em sobredosagem muito superior aos tricíclicos — um argumento crítico numa doença em que o risco de intoxicação voluntária existe.


Perfil comparado das classes

Classe / fármacoMecanismoVantagensCuidados
ISRS (sertralina, fluoxetina, escitalopram, citalopram, paroxetina, fluvoxamina)Inibição da recaptação de 5-HTPrimeira linha; tolerabilidade; segurança em sobredosagemNáuseas e ansiedade iniciais, disfunção sexual, hiponatrémia, risco hemorrágico, descontinuação (paroxetina). Sertralina com bom perfil de interações e preferida na gravidez e na doença cardíaca; fluoxetina com semivida longa (menos descontinuação, mais interações CYP2D6); paroxetina mais anticolinérgica e com pior descontinuação; citalopram e escitalopram com limite de dose por prolongamento do QT
ISRSN (venlafaxina, duloxetina)Inibição de 5-HT e NAÚtil na dor neuropática (duloxetina) e na incontinência de esforço; opção após falência de ISRS↑ tensão arterial dose-dependente (venlafaxina); síndrome de descontinuação marcada (venlafaxina); maior toxicidade em sobredosagem que os ISRS
BupropionaInibição da recaptação de DA e NAÚtil na anedonia, fadiga e apatia; sem disfunção sexual (pode reverter a induzida por ISRS); sem ganho ponderal; auxilia na cessação tabágicaBaixa o limiar convulsivo → contraindicada na epilepsia, na perturbação do comportamento alimentar (bulimia/anorexia) e na privação de álcool ou benzodiazepinas; pode agravar ansiedade e insónia
MirtazapinaAntagonismo α2, 5-HT2, 5-HT3 e H1Útil na insónia e na anorexia/perda ponderal; pouca disfunção sexual; pouca náuseaSedação e aumento do apetite/peso (mais marcados em dose baixa, por predomínio anti-H1)
AgomelatinaAgonista MT1/MT2, antagonista 5-HT2CRestaura o ritmo circadiano; sem disfunção sexual; sem ganho ponderalTransaminases antes do início e às 3, 6, 12 e 24 semanas, depois quando clinicamente indicado; repetir em 48 h perante qualquer elevação e suspender se ultrapassarem 3× o limite superior do normal. Contraindicada na doença hepática e não deve ser usada acima dos 75 anos
VortioxetinaMultimodal: inibição do transportador + modulação de vários recetores 5-HTSinal favorável no domínio cognitivo; menos disfunção sexualNáusea dose-dependente; custo
Tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina, clomipramina)Inibição de 5-HT e NA + bloqueio muscarínico, H1 e α1Eficácia robusta na depressão melancólica; utilidade na dor crónicaLetais em sobredosagem (bloqueio dos canais de sódio → alargamento do QRS, arritmias, convulsões, coma). Na sobredosagem: ECG imediato e seriadoQRS > 100 ms, onda R proeminente em aVR, hipotensão ou arritmia ventricular indicam bicarbonato de sódio hipertónico em bólus, repetível até estreitamento do QRS, com alvo de pH 7,45-7,55; convulsões tratadas com benzodiazepina; evitar antiarrítmicos das classes Ia e Ic e o flumazenil; monitorização em ambiente com capacidade de suporte avançado. Também anticolinérgicos (retenção urinária, glaucoma de ângulo fechado, obstipação, confusão no idoso); hipotensão ortostática. Linha tardia
IMAO — irreversíveis (fenelzina, tranilcipromina; não comercializados em Portugal) e RIMA: moclobemida, o único IMAO disponível no mercado nacionalInibição da monoaminoxidase; a moclobemida inibe de forma reversível e seletiva a MAO-AEficácia na depressão atípica e resistenteNos irreversíveis: crise hipertensiva com tiramina (queijos curados, carnes fumadas, vinho tinto, fermentados), interações graves e washout de 14 dias ao trocar. Com a moclobemida, a restrição de tiramina é ligeira e a passagem para outro antidepressivo não exige washout de 14 dias (o RCM permite substituição imediata; a prática prudente é aguardar 24 h). Em ambos, 5 semanas de intervalo se o fármaco anterior era a fluoxetina. Uso especializado

Latência, titulação e quando trocar

Este bloco é dos mais testados. Retém a cronologia:

  • Latência de 2 a 4 semanas para o efeito antidepressivo. Alguns sintomas melhoram antes — sono e apetite podem responder em 1 a 2 semanas — mas o humor e a anedonia são os últimos a ceder.
  • Reavaliar às 2 semanas (mais cedo, em 1 semana, se < 25 anos ou risco suicidário) para verificar tolerabilidade, adesão e emergência de agitação ou ideação.
  • Não trocar antes de 4 a 6 semanas em dose otimizada. A troca precoce é o erro mais frequente na prática e na prova: expõe o doente a novos efeitos adversos sem lhe ter dado tempo de responder.
  • Se resposta parcial às 4 semanas → otimizar a dose até ao máximo tolerado e aguardar mais 2 a 4 semanas.
  • Se resposta ausente às 4 semanas em dose adequada → mudar de fármaco.
  • Efeitos adversos iniciais (náusea, cefaleia, ansiedade, insónia) são transitórios, tipicamente resolvem em 1 a 2 semanas. Avisar antecipadamente é a medida com maior impacto na adesão. Iniciar com dose baixa e titular reduz este problema, sobretudo no doente ansioso e no idoso ("start low, go slow").

Dados do estudo STAR*D: aproximadamente um terço dos doentes atinge remissão com o primeiro antidepressivo, e uma proporção adicional remite com os passos sucessivos. A taxa cumulativa de cerca de dois terços após quatro passos, classicamente citada, foi contestada por uma reanálise dos dados individuais com fidelidade ao protocolo original, que obteve cerca de 35%. A mensagem defensável para transmitir à pessoa doente é que insistir com passos sucessivos acrescenta benefício real, mas que uma parte substancial dos doentes não atinge remissão — esperança realista, não promessa.


Duração do tratamento

  • Primeiro episódio: manter pelo menos 6 a 12 meses após a remissão, na dose que a induziu.
  • Episódios recorrentes (≥ 2 episódios com incapacidade significativa), sintomas residuais, episódio grave ou com risco suicidário: manutenção prolongada, tipicamente ≥ 2 anos, por vezes indefinida.
  • Suspensão: sempre por redução gradual ao longo de semanas a meses, nunca abrupta, e de preferência num período de estabilidade psicossocial (não em época de exames, mudança de emprego ou luto).

Depressão resistente

Definição operacional habitual: ausência de resposta a dois antidepressivos de dose e duração adequadas.

Antes de rotular como resistente, verificar sistematicamente a pseudorresistência: dose insuficiente, duração insuficiente, má adesão, diagnóstico errado (bipolaridade, causa orgânica, perturbação do uso de substâncias) e comorbilidade não tratada.

Estratégias, por ordem habitual:

  1. Otimizar — subir a dose até ao máximo tolerado.
  2. Trocar — para outro ISRS ou para outra classe (ISRSN, mirtazapina, bupropiona).
  3. Associar (potenciação) — a estratégia com melhor evidência:
    • Antipsicótico atípico em dose baixa (quetiapina, aripiprazol, olanzapina em associação com fluoxetina) — a potenciação mais usada; vigiar síndrome metabólica e sintomas extrapiramidais;
    • Lítio — potenciação clássica, com evidência sólida e efeito antissuicídio próprio; exige monitorização de litémia, função renal e tiroideia (litémia 12 h após a última toma, uma semana após o início e após cada ajuste até estabilizar, depois a cada 3 meses no primeiro ano e a cada 6 meses a partir daí — mantendo os 3 meses no idoso, em quem toma fármacos que interagem com o lítio, ou perante risco renal, tiroideu ou eletrolítico; função renal, tiroideia e cálcio a cada 6 meses). Tem margem terapêutica estreita: a litémia sobe com AINE, tiazidas, IECA/ARA, desidratação, febre, vómitos, diarreia e lesão renal aguda. Perante tremor grosseiro, ataxia, disartria, vómitos, sonolência ou confusão, suspender e dosear a litémia de imediato; instruir o doente a suspender e a contactar o médico em qualquer doença aguda com perdas de líquidos;
    • Hormona tiroideia (T3) — opção adicional;
    • Combinação de dois antidepressivos com mecanismos complementares (por exemplo, ISRS + mirtazapina ou + bupropiona).
  4. Tratamentos somáticos — ECT, escetamina, EMTr.

Sempre com psicoterapia associada e revisão do plano psicossocial.


Eletroconvulsivoterapia

A ECT é o tratamento antidepressivo com maior taxa de resposta e com início de ação mais rápido, e continua a ser o tratamento de eleição em situações de gravidade extrema. Grande parte do que o doente e a família "sabem" sobre ela vem da representação cinematográfica e é falso — a desmistificação faz parte do consentimento informado.

Indicações reais:

  • Risco suicidário iminente, em que não se pode esperar 4 semanas por um fármaco;
  • Depressão com características psicóticas;
  • Catatonia;
  • Recusa alimentar com desidratação ou compromisso do estado geral;
  • Gravidez, quando se pretende evitar exposição farmacológica ou o quadro é grave;
  • Depressão resistente após falência de várias estratégias;
  • Resposta prévia favorável a ECT ou preferência informada do doente;
  • Intolerância ou contraindicação aos fármacos (frequente no idoso).

Como é feita, na realidade: sob anestesia geral de curta duração e relaxamento muscular, com oxigenação e monitorização, em bloco. O doente não sente dor nem tem convulsão motora generalizada visível. Um curso típico envolve várias sessões, habitualmente 2 a 3 por semana.

Efeitos adversos: cefaleia, mialgias, náusea e confusão pós-ictal transitória; amnésia anterógrada que recupera em semanas e amnésia retrógrada para o período em torno do tratamento, que pode ser mais persistente. Não há contraindicações absolutas de ordem médica; são situações de risco elevado a hipertensão intracraniana, a lesão ocupante de espaço, o enfarte ou AVC muito recentes e o aneurisma instável.

Enquadramento legal em Portugal (Lei n.º 35/2023, de 21 de julho — Lei de Saúde Mental). A ECT e a estimulação magnética transcraniana exigem consentimento escrito da pessoa. Em tratamento involuntário decidido pelo tribunal, só podem ser usadas quando medicamente prescritas, quando representem a melhor alternativa terapêutica e mediante confirmação por dois psiquiatras além do médico prescritor. É este, na prática, o verdadeiro limite à aplicação da ECT — e é relevante precisamente nas indicações listadas acima (catatonia, recusa alimentar, risco suicidário iminente), em que a pessoa frequentemente não consente ou não tem capacidade para consentir.


Cetamina e escetamina

A escetamina intranasal está aprovada, em associação com um ISRS ou ISRSN, no tratamento da depressão resistente e, em alguns enquadramentos, na depressão major com urgência (ideação suicida aguda). O seu lugar é claramente de terceira linha ou posterior, em contexto especializado.

O que a distingue é a rapidez: efeito antidepressivo em horas a dias, contra semanas dos antidepressivos convencionais — coerente com o mecanismo glutamatérgico (antagonismo NMDA → ativação AMPA → mTOR → sinaptogénese).

Limitações importantes: administração em ambiente clínico supervisionado, com vigilância de pelo menos 2 horas pelo risco de dissociação, sedação e elevação transitória da tensão arterial; o doente não pode conduzir no dia da administração; o efeito é transitório, exigindo administrações repetidas e uma estratégia de manutenção; existe preocupação com potencial de uso indevido. Não é, nem se deve apresentar como, uma alternativa de primeira linha.

Referências

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  12. Boland R, Verduin ML, Ruiz P. Kaplan & Sadock's Synopsis of Psychiatry. 12th ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2022.

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