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Perturbação afetiva bipolar

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 21 perguntas neste tema

Em resumo

A perturbação afetiva bipolar é uma doença recorrente do humor que se define pelo polo elevado. Basta um episódio maníaco, alguma vez na vida, para o diagnóstico de tipo I; o tipo II exige pelo menos um episódio hipomaníaco e um depressivo major, sem nunca ter havido mania; a ciclotimia é a forma crónica e subliminar. O tipo I atinge cerca de 1% da população, homens e mulheres por igual, começa entre o fim da adolescência e o adulto jovem, e tem uma das heritabilidades mais altas da psiquiatria.

A mania é um período de humor elevado, expansivo ou irritável, com aumento da energia e da atividade, necessidade de sono diminuída, grandiosidade, discurso acelerado e comportamentos de risco, que dura pelo menos uma semana e compromete o funcionamento. A hipomania é mais curta e mais ligeira, sem psicose e sem internamento. A doença, porém, começa na maioria das vezes por uma depressão, e o doente não traz a hipomania à consulta: o atraso diagnóstico conta-se em anos, e o erro que mais custa é tratar uma depressão bipolar com um antidepressivo isolado.

O diagnóstico é clínico e longitudinal, apoiado no relato de quem convive com o doente, e os exames servem para excluir uma mania secundária a substâncias, fármacos ou doença orgânica. Na mania aguda suspende-se o antidepressivo e usa-se um antipsicótico atípico, o lítio ou o valproato, muitas vezes em associação; na depressão bipolar usam-se a quetiapina, o lítio, a lamotrigina ou a cariprazina. Na manutenção, o lítio é o fármaco de referência e o que se associa a menos suicídio.

O que não se pode falhar: perguntar por hipomania antes de qualquer antidepressivo; reconhecer a intoxicação por lítio, que é quase sempre redução da excreção e não sobredosagem; lembrar que o valproato tem restrições na mulher e, desde 2024, também no homem; e vigiar o pós-parto, período de risco elevado de recaída e de psicose puerperal.

Genética

  • A concordância em gémeos monozigóticos é de cerca de 60%, contra cerca de 20% nos dizigóticos; a heritabilidade estima-se em cerca de 85%.
  • A herança é poligénica, com centenas ou milhares de genes de pequeno efeito. Entre os loci replicados está o CACNA1C, que codifica uma subunidade do canal de cálcio do tipo L, e vários genes de risco convergem nos canais de cálcio dependentes da voltagem.
  • Os alelos de risco sobrepõem-se mais aos da esquizofrenia do que aos da depressão unipolar.
  • A concordância incompleta dos monozigóticos mostra que o ambiente também conta: acontecimentos de vida, abuso na infância, emoção expressa elevada na família.

Neurobiologia

  • Dopamina: as substâncias que aumentam a dopamina reproduzem a mania, e os antagonistas dopaminérgicos tratam-na. A evidência direta de hiperatividade dopaminérgica é escassa; o que parece haver é uma resposta exagerada às variações da neurotransmissão dopaminérgica.
  • Glutamato e ácido gama-aminobutírico (GABA): a espectroscopia sugere glutamato aumentado, e há défice de interneurónios GABAérgicos. Vários estabilizadores são anticonvulsivantes; a lamotrigina bloqueia canais de sódio dependentes da voltagem e inibe a libertação de glutamato.
  • Eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal: hipersecreção de cortisol, e os corticoides exógenos podem desencadear mania.
  • Circuitos: resposta aumentada da amígdala com menor atividade das regiões pré-frontais que a regulam, e resposta exagerada do estriado ventral e do córtex orbitofrontal à recompensa, que se relaciona com a procura de prazer e o comportamento de risco. Há alterações da substância branca frontal e temporal.

Lítio

  • Atua nos segundos mensageiros: inibe a formação de monofosfato de adenosina cíclico e atenua a dos mediadores derivados do fosfatidilinositol.
  • É reabsorvido no túbulo renal quando o sódio cai. Desidratação, dieta sem sal e tiazidas aumentam a reabsorção e sobem a litemia.

Ritmos e desencadeantes

  • A privação de sono desencadeia mania, e a perturbação do ritmo sono-vigília é uma das vias pelas quais os acontecimentos de vida levam a episódios.
  • Os primeiros episódios têm mais vezes um desencadeante identificável, que perde peso com a evolução, e o intervalo entre episódios encurta com a idade e o número de episódios. É o argumento para tratar cedo e manter.
  • Desencadeantes a perguntar: privação de sono, trabalho por turnos, viagens transmeridianas, estimulantes e outras drogas, antidepressivos, corticoides, periparto e abandono da medicação.

O diagnóstico é clínico e longitudinal. Não há biomarcador: os exames excluem uma causa secundária, não confirmam a doença.

Critérios do DSM-5-TR

Critério A, comum aos dois episódios: período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável, e de aumento anormal e persistente da atividade ou da energia, na maior parte do dia, quase todos os dias.

Critério B: pelo menos três dos seguintes, ou quatro se o humor for apenas irritável:

  • autoestima aumentada ou grandiosidade;
  • necessidade de sono diminuída;
  • mais falador do que o habitual ou pressão do discurso;
  • fuga de ideias ou pensamentos acelerados;
  • distratibilidade;
  • aumento da atividade dirigida a objetivos ou agitação psicomotora;
  • envolvimento excessivo em atividades com consequências potencialmente graves.
ManiaHipomania
Duraçãopelo menos 7 dias, ou qualquer duração se houver internamentopelo menos 4 dias consecutivos
Funcionamentocompromisso marcadomudança inequívoca, observável pelos outros, sem compromisso marcado
Internamentopode ser necessárionunca
Psicosepode existirnunca

Pistas de bipolaridade num doente deprimido

  • Início precoce e episódios depressivos muito recorrentes.
  • História familiar de doença bipolar.
  • Hipersonia, hiperfagia, sensação de peso nos membros; sintomas psicóticos; depressão no pós-parto.
  • Sintomas maníacos ou ciclos rápidos induzidos por antidepressivos.
  • Características mistas.

Perguntar sempre por períodos de atividade aumentada ou de desinibição; se duraram 4 dias ou mais, referenciar para avaliação especializada. Os questionários de rastreio têm baixa sensibilidade e especificidade, sinalizam também traços de personalidade borderline e não servem para diagnosticar nem para decidir o tratamento.

Excluir causa secundária

  • Substâncias e fármacos: estimulantes (cocaína, anfetaminas), corticoides, levodopa, antidepressivos; na intoxicação ou na abstinência.
  • Doença médica: hipertiroidismo, síndrome de Cushing, traumatismo craniano, tumor cerebral (por exemplo, meningioma frontal), esclerose múltipla, acidente vascular cerebral.
  • Delirium: flutuação da consciência, desorientação e défice de atenção apontam para causa orgânica e não para mania.

Estudo inicial

  • Peso ou índice de massa corporal, tensão arterial e pulso.
  • Hemograma, ionograma com cálcio, creatinina com taxa de filtração glomerular estimada, função hepática, tirotropina, glicemia em jejum ou hemoglobina glicada, perfil lipídico, sumária de urina, pesquisa de drogas na urina e teste de gravidez quando aplicável.
  • Eletrocardiograma acima dos 40 anos ou se houver indicação (doença ou fatores de risco cardiovasculares, fármaco que o exija).
  • Neuroimagem se houver sinais focais, quadro atípico ou primeira mania depois dos 50 anos.

Diagnóstico diferencial

EntidadeO que distingue
Depressão major unipolarepisódios maníacos ou hipomaníacos procurados ativamente e ausentes
Perturbação borderline da personalidadeinstabilidade das relações, da imagem de si e do humor, reativa e de horas; medo intenso do abandono; euforia verdadeira e intervalos longos de bom funcionamento muito raros
Perturbação de hiperatividade e défice de atençãocontínua desde a infância e não episódica; a necessidade de sono não diminui
Esquizofrenia e perturbação esquizoafetivapsicose fora dos episódios de humor
Induzida por substâncias ou por doença médicainício ligado à substância ou à doença
Ciclotimiasintomas que nunca chegam a critérios de episódio
  • A perturbação esquizoafetiva exige pelo menos 2 semanas de psicose na ausência de sintomas de humor proeminentes. Psicose só durante os episódios de humor é doença bipolar com características psicóticas.
  • Perturbação borderline, uso de substâncias e hiperatividade também coexistem com a doença bipolar.
Mania e hipomania: três diferenças que decidem o tipo Critérios do DSM-5-TR. As três linhas a azul são o que separa os dois episódios. O que os separa Mania Hipomania Duração o relógio decide 7 dias ou mais, quase todo o dia ou qualquer duração, se exigir internamento 4 dias consecutivos ou mais quase todo o dia, quase todos os dias Gravidade o funcionamento Compromisso marcado do funcionamento social ou laboral Alteração inequívoca e observável por terceiros, sem compromisso marcado Psicose critério de corte Pode existir (delírios, alucinações). Se há psicose, é mania por definição Ausente, por definição nunca há hipomania psicótica Tudo o resto é comum aos dois episódios Critério A: humor elevado, expansivo ou irritável, com aumento persistente da energia ou da atividade dirigida a objetivos. O aumento de energia é obrigatório, não acessório. Critério B: 3 ou mais sintomas da lista (4 se o humor for apenas irritável). Bipolar tipo I Basta um episódio maníaco na vida Depressão não é exigida Bipolar tipo II Pelo menos um hipomaníaco e um depressivo major Nunca um maníaco Ciclotimia Sintomas subliminares flutuantes, 2 anos ou mais 1 ano abaixo dos 18 anos ! A doença bipolar começa muitas vezes por um episódio depressivo Perguntar sempre por hipomania antes de prescrever antidepressivo: a pessoa não a traz espontaneamente, porque se sentiu bem. Procurar informação colateral da família.

O tratamento faz-se por fases, mas a escolha na fase aguda pensa já na manutenção: o que resultou no episódio é, habitualmente, o que se mantém.

Mania aguda

  1. Ambiente calmo e com poucos estímulos; adiar decisões importantes. Internar se houver risco para o próprio ou para terceiros.
  2. Suspender o antidepressivo e rever estimulantes e corticoides.
  3. Sem estabilizador nem antipsicótico em curso: um antipsicótico (haloperidol, olanzapina, quetiapina ou risperidona, segundo o NICE, o instituto britânico de excelência clínica) ou lítio, que a rede canadiana para o tratamento do humor e da ansiedade e a sociedade internacional para as perturbações bipolares põem à frente quando não há características mistas, consumo de substâncias nem falência prévia. O valproato é alternativa, com as restrições descritas abaixo.
  4. Já sob lítio: verificar e otimizar a litemia, e associar um antipsicótico.
  5. A associação de lítio ou valproato com um antipsicótico atípico responde em cerca de mais 20% dos doentes do que o estabilizador isolado, e prefere-se na mania grave.
  • O lítio é tão eficaz como os antipsicóticos mas mais lento; na agitação intensa o antipsicótico é preferível. O valproato atua mais depressa e pode ser melhor na mania disfórica e nos ciclos rápidos.
  • As benzodiazepinas (lorazepam, clonazepam) acalmam e restauram o sono, como adjuvantes e pelo menor tempo possível.
  • A eletroconvulsivoterapia é opção na mania grave, prolongada, refratária ou com risco de vida, com resposta em cerca de 80%.
  • A lamotrigina não trata a mania.
  • Depois da remissão, discutir o tratamento de longo prazo nas 4 semanas seguintes; se se mantiver só o tratamento da mania, continuar 3 a 6 meses e reavaliar.

Depressão bipolar

  • Primeira linha no tipo I: quetiapina, lítio, lamotrigina e lurasidona, esta também associada ao lítio ou ao valproato; a atualização de 2023 das recomendações canadianas e internacionais passou a cariprazina para primeira linha. O NICE propõe também a olanzapina com fluoxetina.
  • No tipo II a quetiapina é a única de primeira linha; lítio, sertralina e venlafaxina são de segunda.
  • Se o doente já faz lítio, verificar a litemia antes de acrescentar outro fármaco; na depressão bipolar pretende-se 0,8 a 1,2 mmol/L.
  • Eletroconvulsivoterapia na depressão grave com risco suicida iminente, na catatonia, na depressão psicótica ou quando é preciso resposta rápida.
  • Intervenção psicológica estruturada para a doença bipolar, a par dos fármacos.

Se um antidepressivo for mesmo necessário, associa-se a um estabilizador ou a um antipsicótico, evita-se em quem já teve viragem induzida por antidepressivo, características mistas ou ciclos rápidos recentes, e suspende-se ao primeiro sinal de aceleração. O risco de viragem é maior com os tricíclicos e com a venlafaxina do que com os inibidores seletivos da recaptação da serotonina e a bupropiona.

Manutenção

  • O lítio é o tratamento de longo prazo mais eficaz e o de primeira linha, e associa-se a menos comportamento suicida, efeito que os outros estabilizadores não partilham necessariamente.
  • Outras opções de primeira linha: quetiapina, valproato, lamotrigina (quando predomina a depressão), asenapina, aripiprazol (previne a mania, não a depressão) e as associações de quetiapina ou aripiprazol com lítio ou valproato.
  • Se o problema for a adesão: psicoeducação e, se não chegar, antipsicótico injetável de ação prolongada (aripiprazol mensal ou risperidona).
  • Nos ciclos rápidos o tratamento é o mesmo, depois de corrigir o hipotiroidismo e de suspender antidepressivos e estimulantes.
  • Estabilizadores e antipsicóticos suspendem-se de forma gradual, em pelo menos 4 semanas; o lítio, de preferência, até 3 meses, com vigilância apertada durante a redução e nos 3 meses seguintes.

Lítio na prática

O que fazer
Antes de iniciarpeso, ureia e eletrólitos com cálcio, taxa de filtração glomerular estimada, função tiroideia, hemograma; eletrocardiograma se houver doença ou fatores de risco cardiovasculares; teste de gravidez
Colheita12 horas depois da última toma, antes da seguinte
Titulaçãolitemia 1 semana depois de iniciar e de cada mudança de dose, e semanalmente até estabilizar
Alvo na mania aguda0,8 a 1,2 mmol/L
Alvo na manutenção0,6 a 0,8 mmol/L; 0,8 a 1,0 mmol/L durante pelo menos 6 meses se houve recaída sob lítio ou há sintomas subliminares; 0,4 a 0,6 mmol/L se boa resposta com má tolerância
Litemia na manutençãocada 3 meses no primeiro ano, depois cada 6 meses; cada 3 meses no idoso, com fármacos que interagem, risco renal ou tiroideu, má adesão ou última litemia de 0,8 mmol/L ou mais
Peso, eletrólitos com cálcio, função renal e tiroideiacada 6 meses, mais vezes se alterados
  • Sobem a litemia: anti-inflamatórios não esteroides, incluindo os inibidores da ciclo-oxigenase 2; inibidores da enzima de conversão da angiotensina; antagonistas do recetor da angiotensina; tiazidas; metronidazol; desidratação por vómitos, diarreia, febre, calor ou exercício; dieta pobre em sal. Os diuréticos da ansa parecem subi-la menos do que as tiazidas.
  • O doente sabe que perante vómitos, diarreia ou doença aguda procura o médico, e que mantém a hidratação.
  • Contraindicações do resumo das características do medicamento: doença e insuficiência cardíaca, insuficiência renal grave, hipotiroidismo não tratado, doença de Addison, síndrome de Brugada, depleção de sódio ou desidratação.

Valproato

  • Antes de iniciar: peso, hemograma e função hepática; repetir aos 6 meses e depois anualmente. Não se doseia por rotina.
  • Suspender de imediato perante alteração da função hepática ou discrasia sanguínea.
  • Mulher: não se usa em mulheres com potencial para engravidar a não ser que as alternativas sejam ineficazes ou não toleradas, e então com programa de prevenção da gravidez.
  • Homem (circular do INFARMED de janeiro de 2024): o tratamento é iniciado e supervisionado por especialista; informa-se do possível risco de perturbações do neurodesenvolvimento nos filhos concebidos nos 3 meses seguintes à toma (cerca de 5 em cada 100 crianças, contra cerca de 3 em cada 100 com lamotrigina ou levetiracetam); discute-se a contraceção eficaz, do próprio e da parceira, durante o tratamento e pelo menos 3 meses depois; e o doente não doa esperma nesse período.

Lamotrigina

  • Titulação lenta obrigatória, pelo risco de exantema grave: 25 mg por dia nas semanas 1 e 2, 50 mg nas semanas 3 e 4, 100 mg na semana 5 e 200 mg a partir da semana 6.
  • Com valproato, que inibe a glucuronidação da lamotrigina, a dose é metade; com indutores como a carbamazepina, é maior.
  • Os contracetivos com estrogénio aumentam a depuração da lamotrigina para cerca do dobro.
  • Se a interrupção ultrapassar cinco semividas, recomeça-se a titulação.

Intervenção psicossocial

  • Psicoeducação do doente e da família (primeira linha na manutenção): natureza da doença, sinais precoces de recaída, plano de crise, adesão.
  • Rotinas regulares de sono e de atividade, evicção de drogas e identificação dos desencadeantes.
  • Terapia cognitivo-comportamental e terapia focada na família, como adjuvantes.
  • Avaliação física pelo menos anual: peso, dieta, atividade física, tensão arterial, glicemia ou hemoglobina glicada, lípidos, função hepática e, em quem toma lítio, função renal e tiroideia e cálcio.

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