Perturbação afetiva bipolar
Atualizado em 19 de julho de 2026 · 14 perguntas neste tema
A perturbação afetiva bipolar define-se pelo polo elevado — basta um episódio de mania para o diagnóstico, mesmo que a depressão nunca tenha ocorrido. É um tema de relevância A na matriz PNA porque concentra três armadilhas clássicas: distinguir mania de hipomania (duração, gravidade, psicose), reconhecer bipolaridade num doente que se apresenta deprimido — a forma de apresentação mais comum e a fonte de anos de atraso diagnóstico — e não tratar a depressão bipolar com antidepressivo isolado. A isto junta-se o bloco de segurança do lítio: janela terapêutica estreita, interações que precipitam intoxicação e monitorização renal e tiroideia. Domina estes quatro eixos e resolves a maioria das perguntas sobre o tema.
Uma doença de vulnerabilidade genética e de instabilidade de regulação
A perturbação afetiva bipolar é, na sua essência, uma perturbação da regulação do humor e da energia: o sistema que devia manter o estado afetivo dentro de uma banda estreita perde amortecimento e oscila. Nenhuma lesão única explica a doença. O modelo aceite é o de uma vulnerabilidade genética poligénica sobre a qual atuam desencadeantes ambientais e cronobiológicos, com progressiva perda de estabilidade ao longo do tempo.
Genética: a componente mais forte da psiquiatria
A bipolaridade tem uma das herdabilidades mais elevadas de toda a medicina mental — estimativas em estudos de gémeos situam-na habitualmente acima dos 60%, com valores frequentemente citados na faixa dos 60-85%. Ter um familiar de primeiro grau com perturbação bipolar multiplica várias vezes o risco, e é por isso que a história familiar é uma das pistas mais úteis perante um doente deprimido (ver secção do diagnóstico).
A arquitetura é poligénica: centenas de variantes comuns de pequeno efeito, e não um gene único. Os sinais mais replicados nos estudos de associação de genoma completo apontam para genes de canais iónicos e de organização sináptica, com destaque para o CACNA1C (subunidade de canal de cálcio tipo L), ANK3 (anquirina-G, essencial ao segmento inicial do axónio e ao agrupamento de canais de sódio) e TENM4/ODZ4. A convergência sobre canais de cálcio e de sódio é conceptualmente elegante: sugere que o defeito primário é de excitabilidade neuronal, o que ajuda a explicar por que razão fármacos anticonvulsivantes e bloqueadores de canais são estabilizadores eficazes.
Existe ainda sobreposição genética substancial com a esquizofrenia e com a depressão major — o que sustenta o modelo dimensional e explica as fronteiras clínicas por vezes ténues (nomeadamente a perturbação esquizoafetiva).
Monoaminas, glutamato e segundos mensageiros
A hipótese monoaminérgica clássica — excesso funcional de dopamina e noradrenalina na mania, defeito na depressão — continua a ter valor explicativo, sobretudo pela evidência farmacológica: os agonistas dopaminérgicos indiretos (cocaína, anfetaminas, levodopa) precipitam quadros maníacos, e todos os fármacos eficazes na mania aguda têm ação antidopaminérgica (antipsicóticos, bloqueio D2) ou reduzem a transmissão excitatória. Formulou-se um modelo em que o aumento da libertação de dopamina com regulação descendente compensatória dos transportadores conduz à transição mania → depressão, o que ajudaria a explicar a natureza cíclica.
Sobre esta camada, sobrepõe-se o desequilíbrio glutamato/GABA: excesso de sinalização glutamatérgica e défice de inibição gabaérgica na mania. É a lógica do valproato (aumento da disponibilidade de GABA, bloqueio de canais de sódio dependentes de voltagem, inibição de histona-desacetilases) e da lamotrigina (bloqueio de canais de sódio com redução da libertação pré-sináptica de glutamato — motivo pelo qual atua sobretudo no polo depressivo).
O ponto mecanístico mais importante é, porém, intracelular. O lítio, o fármaco mais específico da doença, não tem recetor próprio: atua a jusante, sobre vias de segundos mensageiros. Duas ações são consistentemente demonstradas:
- Inibição da inositol-monofosfatase, com depleção de inositol e atenuação da cascata do fosfatidilinositol — a chamada hipótese da depleção de inositol, que amortece a resposta a múltiplos recetores acoplados a proteína G simultaneamente. É o modelo de "redução do ganho do sistema" e não de bloqueio de uma via única.
- Inibição da glicogénio-sintase-cinase-3β (GSK-3β), com efeitos a jusante sobre a via Wnt/β-catenina, sobre a apoptose e sobre os ritmos circadianos.
O lítio aumenta ainda marcadores de neuroproteção (BDNF, Bcl-2) — o que se articula com a observação de que doentes cronicamente tratados com lítio tendem a apresentar volumes de substância cinzenta mais preservados.
Cronobiologia: o sono como motor, não como sintoma
Este é o mecanismo com maior rendimento clínico. A perturbação bipolar é, em larga medida, uma perturbação dos ritmos circadianos. A redução da necessidade de sono não é apenas um sintoma da mania — é frequentemente o seu motor: a privação de sono é um desencadeante de viragem maníaca bem estabelecido, capaz de precipitar mania em pessoas vulneráveis. Daí decorrem consequências práticas diretas:
- Uma noite mal dormida, uma viagem transmeridiana, um turno noturno ou o parto podem iniciar um episódio.
- Restaurar o sono é intervenção terapêutica de primeira linha na mania, e não meramente sintomática — é a razão farmacológica para a benzodiazepina e para os antipsicóticos sedativos.
- A regularidade dos ritmos sociais (horários de deitar/levantar, refeições, atividade) é a base de intervenções psicossociais estruturadas com evidência na prevenção de recaída.
Genes do relógio molecular (família CLOCK, ARNTL) estão implicados, e o lítio, por inibição da GSK-3β, prolonga o período circadiano — outra ponte entre a farmacologia e a cronobiologia.
Circuitos: emoção sem travão
A neuroimagem funcional converge num modelo simples e memorizável de desacoplamento entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico:
- Hiperreatividade da amígdala e das estruturas límbicas ventrais — geração emocional aumentada.
- Hipoatividade do córtex pré-frontal ventrolateral e do cingulado anterior — falência do controlo inibitório top-down.
O resultado é emoção intensa sem regulação: euforia ou irritabilidade que não são travadas, impulsividade e incapacidade de antecipar consequências (o critério B7 — envolvimento em atividades com potencial de consequências dolorosas — é a tradução clínica desta falência). Descrevem-se também alterações da integridade da substância branca (fascículo uncinado, corpo caloso), coerentes com um problema de conectividade mais do que de lesão focal.
Na mania, há ainda evidência de hiperativação de circuitos de recompensa estriatais perante sinais de ganho — a base neural do comportamento de risco financeiro e sexual.
Progressão, kindling e estados alostáticos
O modelo de sensibilização ("kindling", proposto por Post) descreve a evolução natural da doença não tratada: os primeiros episódios são tipicamente precipitados por acontecimentos de vida identificáveis; com a recorrência, os episódios tornam-se mais frequentes, mais curtos os intervalos e progressivamente autónomos, surgindo sem desencadeante. É o argumento mecanístico mais forte para tratar precocemente e manter o tratamento: cada episódio aumenta a probabilidade do seguinte.
A este modelo associa-se o conceito de carga alostática — a acumulação de disfunção mitocondrial (alterações do metabolismo energético e do lactato cerebral têm sido descritas), stress oxidativo e ativação imunoinflamatória de baixo grau, com marcadores pró-inflamatórios elevados sobretudo durante os episódios agudos. Esta carga biológica ajuda a explicar dois factos clínicos: o compromisso cognitivo residual entre episódios e o excesso de comorbilidade cardiometabólica (que precede e ultrapassa o efeito dos fármacos).
Ambiente e desencadeantes que se perguntam
A genética define a vulnerabilidade; o ambiente define o quando. Fatores consistentemente associados a episódios:
- Privação de sono e desregulação de horários (o mais potente).
- Consumo de substâncias, sobretudo estimulantes e álcool.
- Fármacos: antidepressivos (viragem), corticoides, agonistas dopaminérgicos, hormonas tiroideias em excesso.
- Acontecimentos de vida, com destaque para o periparto — o pós-parto é o período de maior risco de recaída de toda a vida da mulher com bipolaridade.
- Adversidade precoce, associada a início mais precoce e a curso mais grave.
- Não adesão terapêutica — a causa mais comum, e a mais evitável, de recaída.
O diagnóstico é clínico, longitudinal e retrospetivo
Não há exame, imagem ou biomarcador que diagnostique perturbação afetiva bipolar. O diagnóstico faz-se pela história de vida, não pelo estado mental do dia da consulta. Isto tem uma implicação prática decisiva: um doente com um episódio depressivo típico pode ter perturbação bipolar, e a única forma de o descobrir é procurar retrospetivamente episódios de elevação do humor.
Os exames complementares servem para excluir causas secundárias e para preparar o tratamento — nunca para confirmar o diagnóstico.
O problema clínico central: a bipolaridade apresenta-se como depressão
Este é o ponto mais testado do capítulo inteiro.
A maioria das pessoas com perturbação bipolar apresenta-se ao médico com um episódio depressivo, muitas vezes anos antes de a mania ou a hipomania serem reconhecidas. O intervalo entre o primeiro episódio e o diagnóstico correto conta-se habitualmente em anos. As razões são três, e todas se combatem com a mesma intervenção:
- A hipomania não é vivida como doença — é vivida como bem-estar, produtividade, criatividade. Ninguém pede ajuda por se sentir bem.
- A pessoa não estabelece ligação entre aquele período de energia e a depressão atual, pelo que não o menciona.
- O médico não pergunta.
A regra de segurança é, portanto: perguntar sempre por episódios de hipomania antes de prescrever um antidepressivo. Não com a pergunta genérica "já se sentiu muito bem?" (a resposta será sempre sim), mas com perguntas operacionais: "Já teve períodos de vários dias seguidos em que dormia muito menos e mesmo assim não se sentia cansado?", "Já teve alturas em que falava mais depressa, em que as ideias corriam, em que gastou dinheiro ou tomou decisões que depois lhe pareceram estranhas?", "As pessoas próximas já lhe disseram que estava diferente, acelerado ou irritável durante uns dias?" — e, sempre que possível, confirmar com informação colateral de um familiar.
Pistas de bipolaridade num doente que se apresenta deprimido
| Pista | Porquê importa |
|---|---|
| Início precoce (adolescência ou início da 3.ª década) | Depressão unipolar tende a iniciar-se mais tarde |
| Episódios depressivos múltiplos e curtos, de início e fim abruptos | O curso recorrente e breve é característico do espetro bipolar |
| História familiar de perturbação bipolar | Herdabilidade elevada — a pista isolada mais forte |
| Sintomas atípicos: hipersonia, hiperfagia, lentificação marcada | Perfil sobrerrepresentado na depressão bipolar |
| Sintomas psicóticos numa depressão | Aumenta significativamente a probabilidade de bipolaridade |
| Depressão de início no periparto / pós-parto | Forte associação com bipolaridade |
| Viragem, agitação, irritabilidade ou insónia com antidepressivo prévio | A pista mais específica de todas |
| Má resposta a múltiplos antidepressivos | A "depressão resistente" é, com frequência, bipolaridade não reconhecida |
| Características mistas na depressão (≥3 sintomas do polo elevado: humor elevado, grandiosidade, loquacidade, pensamento acelerado, ↑energia/atividade dirigida a objetivos, atividades de risco, ↓necessidade de sono — agitação e irritabilidade não contam) | Forte preditor de conversão para bipolaridade e contraindicação de facto ao antidepressivo isolado |
Existem instrumentos de rastreio — o Mood Disorder Questionnaire (MDQ) e a Hypomania Checklist (HCL-32) são os mais usados. Retêm-se duas ideias: rastreio não é diagnóstico (a especificidade é limitada e há falsos positivos frequentes, sobretudo em perturbações da personalidade e em uso de substâncias) e um rastreio negativo não exclui bipolaridade se a clínica for sugestiva.
Excluir causas secundárias de mania — obrigatório
Um primeiro episódio maníaco, sobretudo fora da faixa etária típica (antes da adolescência ou após os 50 anos), obriga a excluir causa orgânica antes de assumir bipolaridade primária.
Substâncias e fármacos
- Cocaína, anfetaminas e metanfetamina — a mania induzida por estimulantes é clinicamente quase indistinguível; a chave é a temporalidade e a resolução com a abstinência.
- Corticoides e esteroides anabolizantes — causa iatrogénica clássica, dose-dependente.
- Agonistas dopaminérgicos (levodopa), interferão, isoniazida, hormona tiroideia em excesso.
- Antidepressivos — viragem farmacológica.
- Abstinência de álcool ou de benzodiazepinas pode mimetizar agitação maníaca.
Causas médicas e neurológicas
- Hipertiroidismo — imperativo doseá-lo; a agitação, a insónia e a irritabilidade sobrepõem-se à mania.
- Lesões frontais e temporais, sobretudo do hemisfério direito ("mania secundária"); tumores, traumatismo cranioencefálico, acidente vascular cerebral.
- Esclerose múltipla, epilepsia (sobretudo do lobo temporal).
- Demência frontotemporal — desinibição, gastos, comportamento social inadequado num doente de meia-idade sem antecedentes psiquiátricos: pensa em DFT, não em mania de novo.
- Infeções do sistema nervoso central, incluindo neurossífilis e VIH; encefalite autoimune.
- Lúpus eritematoso sistémico, deficiência de vitamina B12.
Delirium é o diferencial que não se pode falhar: a presença de flutuação do estado de consciência, desorientação e défice atencional global aponta para delirium, não para mania. A mania cursa com distratibilidade mas sem alteração do nível de consciência nem desorientação.
Avaliação complementar razoável num primeiro episódio
Hemograma, bioquímica com função renal e ionograma, função hepática, TSH, glicémia e perfil lipídico, cálcio, rastreio toxicológico urinário, serologias quando indicado, teste de gravidez em mulher em idade fértil (decisivo para a escolha do fármaco), ECG (antes de antipsicóticos, pelo intervalo QT) e neuroimagem perante primeiro episódio atípico, sinais neurológicos focais ou início tardio.
Diagnóstico diferencial psiquiátrico
| Entidade | O que a distingue da bipolaridade |
|---|---|
| Depressão unipolar | Nunca houve mania nem hipomania (ver capítulo próprio) |
| Perturbação da personalidade borderline | Instabilidade afetiva reativa a contexto interpessoal, dura horas, com sensação crónica de vazio e medo do abandono. Na bipolaridade, o episódio é autónomo, dura dias a semanas e altera o sono e a energia |
| PHDA | Crónica, contínua e desde a infância; sem episodicidade. Discriminantes a favor de mania: humor elevado, grandiosidade, redução da necessidade de sono e sintomas psicóticos |
| Esquizofrenia | Sintomas psicóticos fora dos episódios de humor, com predomínio de sintomas negativos e declínio funcional progressivo |
| Perturbação esquizoafetiva | Psicose ≥ 2 semanas na ausência de sintomas de humor proeminentes, num quadro em que os episódios de humor estão presentes a maior parte do tempo (ver capítulo de esquizofrenia) |
| Perturbação do uso de substâncias | Sintomas limitados a períodos de consumo/abstinência; resolvem com abstinência sustentada |
| Perturbação de desregulação disruptiva do humor | Criança/adolescente com irritabilidade persistente e não episódica — criada precisamente para evitar o sobrediagnóstico de bipolaridade pediátrica |
Erros de exame a evitar
- Assumir unipolaridade sem perguntar por hipomania. É o erro mais penalizado.
- Chamar hipomania a um quadro com psicose ou com internamento — é mania.
- Diagnosticar bipolar tipo II na presença de história de mania — a mania converte automaticamente para tipo I, e essa conversão é definitiva.
- Exigir depressão para diagnosticar tipo I — não é exigida.
- Esquecer o teste de gravidez e o TSH perante um primeiro episódio.
- Confundir insónia com redução da necessidade de sono — na segunda não há cansaço nem queixa.
Pensar por fases: aguda maníaca, aguda depressiva, manutenção
O tratamento da perturbação afetiva bipolar organiza-se em três fases com lógicas diferentes e por vezes opostas. Confundi-las é a origem da maioria dos erros. A regra transversal, presente em todas as guidelines (NICE CG185, CANMAT/ISBD 2018, Maudsley), é que todo o tratamento agudo tem de ser pensado já em função da manutenção: escolhe-se preferencialmente um fármaco que sirva as duas fases.
Mania aguda
Objetivo imediato: controlar a agitação, restaurar o sono e garantir a segurança da pessoa e de terceiros.
Primeiro passo, sempre: suspender o antidepressivo, se estiver a ser tomado. E suspender também estimulantes, corticoides evitáveis e outros precipitantes.
Opções farmacológicas de primeira linha (isoladas ou em combinação):
- Antipsicótico atípico — risperidona, olanzapina, quetiapina, aripiprazol, asenapina, cariprazina, ziprasidona. São geralmente a escolha inicial pela rapidez de ação (dias) e pela eficácia independentemente da presença de psicose. O haloperidol é muito eficaz na mania, mas é preterido pelo risco extrapiramidal.
- Lítio — eficaz, mas com latência de vários dias a duas semanas e necessidade de titulação e doseamento; excelente escolha quando se antecipa manutenção com lítio e quando a mania é eufórica clássica, com bom perfil de resposta.
- Valproato — início relativamente rápido, útil na mania disfórica/mista e nos ciclos rápidos. Atenção regulatória: não deve ser iniciado de novo em pessoas com menos de 55 anos, de qualquer sexo, salvo se dois especialistas documentarem de forma independente que não existe alternativa eficaz ou tolerada (NICE CG185, dezembro de 2023 e setembro de 2025, na sequência do alerta da MHRA). Na mulher com capacidade de engravidar exige-se além disso programa formal de prevenção da gravidez; no homem, iniciação supervisionada por especialista e aconselhamento contracetivo (EMA/CMDh, janeiro de 2024) — ver Complicações e Situações especiais.
Na mania grave, a prática habitual é a combinação de antipsicótico atípico com lítio ou valproato, que é mais eficaz do que qualquer um em monoterapia.
Coadjuvantes
- Benzodiazepina (ex.: lorazepam, diazepam) para sedação e restauração do sono — não é estabilizador do humor, é medida sintomática, mas de elevado valor prático porque o sono é motor da mania. Usar pelo tempo estritamente necessário ao controlo da agitação e à reposição do sono (habitualmente dias a poucas semanas), com redução progressiva à medida que o antipsicótico ou o estabilizador faz efeito e plano explícito de descontinuação registado na alta: a manutenção inadvertida é uma causa frequente de uso crónico, e a suspensão abrupta pode mimetizar agitação maníaca.
- Suspender cafeína e estimulantes; ambiente com baixa estimulação.
- Acatisia — inquietação motora subjetiva e intolerável (incapacidade de estar parado, marcha contínua, balanceio), que surge dias após iniciar ou aumentar o antipsicótico. É o erro clássico confundi-la com agitação maníaca e subir a dose, o que a agrava. Perante agravamento da inquietação depois de um aumento de dose, suspeitar de acatisia: reduzir a dose ou mudar de antipsicótico e considerar propranolol ou uma benzodiazepina. A acatisia associa-se a aumento do risco suicidário, o que a torna particularmente relevante nesta doença.
Eletroconvulsivoterapia (ECT) — indicada na mania refratária ao tratamento farmacológico, na mania com catatonia, quando há risco vital (exaustão, recusa alimentar, desidratação) e na grávida, em que oferece um perfil de segurança favorável face aos fármacos. É altamente eficaz e não deve ser vista como último recurso simbólico.
A carbamazepina é opção de segunda linha; recorda que é indutor enzimático potente (reduz níveis de contracetivos orais, de outros psicofármacos e de anticoagulantes). Antes de iniciar: hemograma, função hepática e sódio e, em pessoas de ascendência asiática, rastreio de HLA-B*1502 (risco acrescido de síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica). Durante o tratamento, vigiar discrasia sanguínea (febre, odinofagia ou equimoses obrigam a hemograma urgente — agranulocitose e aplasia medular), hiponatrémia por secreção inapropriada de hormona antidiurética (frequente e sintomática no idoso) e hepatotoxicidade. Ponto crítico neste capítulo: associada ao lítio pode causar neurotoxicidade mesmo com litémia dentro do intervalo terapêutico.
Depressão bipolar — onde mais se erra
A regra que tens de saber de cor: não tratar a depressão bipolar com antidepressivo isolado (em monoterapia).
Motivos: risco de viragem maníaca ou hipomaníaca, risco de indução de ciclos rápidos, risco de agravar estados mistos (e, com eles, o risco suicidário), e eficácia modesta na depressão bipolar. O erro típico de exame é a pergunta em que um doente com história de hipomania se apresenta deprimido e uma das alíneas oferece "iniciar sertralina".
Opções com evidência:
| Fármaco | Notas |
|---|---|
| Quetiapina | A opção com evidência mais robusta na depressão bipolar (tipos I e II); serve também para a manutenção. Sedação, ganho ponderal e risco metabólico |
| Lurasidona | Eficaz na depressão bipolar I, com perfil metabólico favorável; requer toma com alimento para absorção adequada |
| Lamotrigina | Sobretudo útil na prevenção da recaída depressiva; escalada de dose lenta e obrigatória pelo risco de exantema grave. Latência longa — não é fármaco para uma depressão urgente |
| Lítio | Eficácia modesta na fase aguda mas benefício global, e o fármaco com a evidência mais consistente de redução do risco de suicídio na perturbação bipolar |
| Olanzapina-fluoxetina (combinação) | Eficaz; o antidepressivo vai "protegido" pelo antipsicótico. Peso e risco metabólico relevantes |
| Cariprazina | Opção adicional com evidência na depressão bipolar I |
Nota regulatória — Europa. Na União Europeia, a lurasidona (Latuda) e a cariprazina (Reagila) estão autorizadas apenas para o tratamento da esquizofrenia, pelo que o seu uso na depressão bipolar corresponde a utilização fora da indicação aprovada; a combinação fixa olanzapina-fluoxetina não tem autorização de introdução no mercado na UE e, em Portugal, traduz-se na associação dos dois fármacos prescritos em separado. Com indicação europeia formal na depressão bipolar mantém-se sobretudo a quetiapina. A evidência de eficácia destes fármacos é real e é matéria de exame — o que muda é a disponibilidade e o enquadramento da prescrição em Portugal.
Se, ainda assim, for necessário um antidepressivo (depressão grave, sem resposta às opções acima), as regras são: nunca em monoterapia — sempre associado a um estabilizador ou antipsicótico; preferir ISRS ou bupropiom a tricíclicos e venlafaxina (estes têm maior risco de viragem); usar pelo menos tempo possível; e suspender imediatamente ao primeiro sinal de aceleração, irritabilidade, redução da necessidade de sono ou características mistas. Em doente com história de ciclos rápidos ou de viragem prévia, evitar antidepressivos.
A ECT é também opção na depressão bipolar grave, com risco suicidário elevado, com catatonia ou com recusa alimentar.
Manutenção — a fase que determina o prognóstico
Após um episódio maníaco, o tratamento de manutenção é a regra e não deve ser suspenso após a remissão. Interromper o tratamento é a causa mais comum de recaída, e a suspensão abrupta do lítio associa-se a risco particularmente elevado de recaída precoce — se for necessário suspender, faz-se de forma gradual.
O lítio é o fármaco de referência da manutenção. É o mais estudado, o mais eficaz na prevenção global de recaídas (com maior proteção contra o polo maníaco) e — o dado que define a sua posição — o fármaco com a evidência mais consistente de redução do risco de suicídio na perturbação bipolar (meta-análise de Cipriani, BMJ 2013; um ensaio aleatorizado pragmático posterior em veteranos, publicado em 2022, foi interrompido por futilidade, pelo que o sinal é robusto mas não universal). Fora da bipolaridade, a clozapina tem evidência análoga na esquizofrenia e na perturbação esquizoafetiva — ver o capítulo do suicídio. Em contexto de exame, quando se pergunta que fármaco reduz o risco de suicídio na perturbação bipolar, a resposta esperada continua a ser o lítio.
Alternativas e complementos:
- Quetiapina — cobre ambos os polos.
- Valproato — eficaz, mas limitado pela questão da teratogenicidade.
- Lamotrigina — proteção sobretudo contra o polo depressivo; pouca eficácia antimaníaca.
- Aripiprazol, olanzapina, risperidona de ação prolongada — proteção sobretudo contra o polo maníaco; a formulação injetável de ação prolongada é útil quando a adesão é o problema principal.
Raciocínio prático: escolhe o fármaco pelo polo predominante da doença daquela pessoa (predomínio depressivo → lamotrigina/quetiapina/lurasidona; predomínio maníaco → lítio/aripiprazol/olanzapina) e pelo perfil de segurança (idade fértil, função renal, tiroide, peso).
Lítio: o bloco de segurança
Antes de iniciar: função renal (creatinina e taxa de filtração glomerular estimada), TSH, cálcio, ionograma, ECG (se fatores de risco cardiovascular ou idade avançada) e teste de gravidez.
Concentrações séricas (litémia), sempre com colheita 12 horas após a última toma:
| Contexto | Alvo aproximado |
|---|---|
| Manutenção | 0,6-1,0 mEq/L (mmol/L) |
| Mania aguda / resposta insuficiente | até 0,8-1,2 mEq/L |
| Idoso | alvo na metade inferior do intervalo |
| Toxicidade | sinais habitualmente acima de 1,5 mEq/L; grave acima de 2,5 |
O ponto conceptual: a janela terapêutica é estreita — a dose eficaz e a dose tóxica quase se tocam. Por isso o lítio é o psicofármaco que mais exige monitorização.
Monitorização de rotina: litémia 5 a 7 dias após o início e após cada alteração de dose (e depois até estabilizar), seguindo-se doseamentos periódicos; função renal e TSH pelo menos de 6 em 6 meses, com cálcio (hiperparatiroidismo) e peso.
Interações e situações que precipitam intoxicação — bloco de altíssimo rendimento. O lítio é excretado exclusivamente pelo rim e é manuseado como o sódio: tudo o que reduz a perfusão renal ou promove reabsorção de sódio aumenta a litémia.
- AINE (incluindo os de venda livre — pergunta explicitamente).
- Inibidores da ECA e ARA.
- Diuréticos tiazídicos (os de ansa têm menor risco, mas não são inócuos).
- Desidratação: vómitos, diarreia, febre, calor, exercício intenso, jejum.
- Dieta hipossalina — a restrição de sal aumenta a reabsorção de lítio.
- Metronidazol, alguns antibióticos; lesão renal aguda de qualquer causa.
Educar a pessoa: manter hidratação e ingestão de sal estáveis, não iniciar AINE por conta própria, e contactar o médico perante vómitos, diarreia, febre ou tremor grosseiro de novo.
Intervenções psicossociais e organização de cuidados
A farmacologia é necessária mas insuficiente. As intervenções com melhor evidência na prevenção de recaída são:
- Psicoeducação (individual ou em grupo), estruturada — a intervenção com maior impacto no prognóstico. Ensina a reconhecer pródromos (a redução do sono é o sinal precoce mais fiável), a manter a adesão e a construir um plano de ação escrito com a pessoa e a família. Para ser acionável, o plano tem de nomear os recursos concretos: contacto direto com a equipa comunitária de saúde mental ou com a consulta de psiquiatria que segue a pessoa, médico de família para reforço e articulação, SNS 24 fora de horas e urgência psiquiátrica do hospital de referência perante agitação ou risco. Nas situações de incapacidade psicossocial prolongada, a resposta de reabilitação é a rede de cuidados continuados integrados de saúde mental.
- Regularização dos ritmos sociais e do sono — horários fixos, evitar turnos noturnos, cautela com viagens transmeridianas.
- Terapia cognitivo-comportamental e intervenção familiar, sobretudo em contextos de elevada emoção expressa.
- Abstinência de álcool e substâncias — comorbilidade frequente que piora o curso.
- Vigilância cardiometabólica sistemática (peso, perímetro abdominal, tensão arterial, glicémia, lípidos) — a mortalidade em excesso nesta população é sobretudo cardiovascular.
Nos casos de anomalia psíquica grave com recusa dos cuidados necessários e perigo para bens jurídicos próprios ou alheios de relevante valor, a Lei n.º 35/2023, de 21 de julho (Lei da Saúde Mental, que revogou a Lei n.º 36/98) prevê o tratamento involuntário — figura que substituiu a do «internamento compulsivo». Pontos operacionais:
- Regime: o tratamento involuntário decorre preferencialmente em ambulatório, assegurado pelas equipas comunitárias de saúde mental; só é determinado em internamento quando o ambulatório não é possível, e cessa logo que possa ser retomado em ambulatório — é a tradução legal do princípio do tratamento menos restritivo.
- Quem pode requerer: Ministério Público, autoridade de saúde, direção clínica do serviço, representante legal, familiares ou quem tenha a pessoa a seu cuidado.
- Decisão: é sempre judicial, precedida de avaliação clínico-psiquiátrica, com defensor nomeado e intervenção do Ministério Público.
- Prazos: no internamento de urgência, o juiz decide sobre a manutenção da privação da liberdade nas 48 horas seguintes; recebida a comunicação, é ordenada nova avaliação clínico-psiquiátrica no prazo de 5 dias; a medida é revista de 2 em 2 meses e pode ser reapreciada a pedido da própria pessoa a qualquer momento.
A avaliação da urgência e do perigo é sempre clínica e individual.
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- National Institute for Health and Care Excellence. Antenatal and postnatal mental health: clinical management and service guidance. Clinical guideline CG192. London: NICE; 2014 (atualizada em 2020).
14 perguntas sobre Perturbação afetiva bipolar
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
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