Perturbação de pânico
Atualizado em 19 de julho de 2026 · 11 perguntas neste tema
A perturbação de pânico é o exemplo mais puro de como uma doença psiquiátrica se apresenta primeiro ao médico não psiquiatra: o doente chega ao serviço de urgência convencido de que está a morrer de um enfarte, e sai com um eletrocardiograma normal e nenhum diagnóstico. É um tema de relevância A na matriz PNA e um favorito das provas, porque testa em simultâneo raciocínio psicopatológico e diagnóstico diferencial orgânico. Há quatro pontos a dominar: a distinção entre ataque de pânico (um sintoma, transversal a muitas perturbações) e perturbação de pânico (uma doença definida pela ansiedade antecipatória e pelo evitamento); a agorafobia como diagnóstico independente no DSM-5-TR; o diferencial orgânico e o ponto em que se deve parar de pedir exames; e o tratamento — terapia cognitivo-comportamental em primeira linha, ISRS/ISRSN a meia dose inicial, e benzodiazepinas a evitar — a NICE CG113 recomenda expressamente que não sejam prescritas na perturbação de pânico. Este capítulo cobre também a agorafobia; a ansiedade generalizada, a depressão e o suicídio têm capítulos próprios; as fobias específica e social não são tema deste lote e surgem aqui apenas no diagnóstico diferencial.
O círculo vicioso da interpretação catastrófica
O modelo cognitivo do pânico é a peça central e é o que explica por que razão a terapia funciona. A premissa é simples: o ataque de pânico não é causado pelas sensações corporais, mas pela leitura que delas se faz.
A sequência é circular:
- Sensação corporal inicial — uma extrassístole, um aperto torácico após esforço, tonturas ao levantar, calor, uma sensação de "ar a faltar". Pode ser puramente fisiológica e benigna.
- Perceção como ameaça — a sensação é detetada e atribuída um significado catastrófico: "isto é o meu coração", "vou desmaiar", "vou enlouquecer".
- Ansiedade/apreensão — ativa-se a resposta de alarme.
- Ativação simpática — libertação de catecolaminas, taquicardia, sudorese, tremor, hiperventilação.
- Intensificação das sensações corporais — que confirmam a interpretação inicial.
- Regresso ao ponto 2, com amplificação. Em minutos, o sistema satura: é o pico do ataque.
Este modelo explica três observações clínicas que de outro modo pareceriam arbitrárias:
- Por que os ataques atingem o pico tão depressa: é um circuito de retroação positiva, e os circuitos de retroação positiva saturam rápido.
- Por que terminam sozinhos: as catecolaminas são metabolizadas, os barorreflexos e os mecanismos de contra-regulação entram em jogo, e a resposta de alarme é fisiologicamente autolimitada. Nenhum ataque de pânico dura horas — o que dura horas é a ansiedade residual, não o ataque.
- Por que a reafirmação médica repetida não cura: o doente não precisa de mais uma prova de que o coração está bom; precisa de aprender que a sensação, mesmo quando ocorre, não significa o que ele acha que significa.
Sensibilidade à ansiedade: o traço que precede a doença
A sensibilidade à ansiedade é a tendência estável para interpretar as sensações de ativação autonómica como perigosas. É distinta do traço de ansiedade — não é "ficar ansioso com frequência", é ter medo do próprio medo. Mede-se com escalas dedicadas e tem valor prospetivo: níveis elevados antecedem o aparecimento de ataques de pânico e predizem a evolução para perturbação. É, portanto, um fator de vulnerabilidade e não apenas uma consequência.
Sobrepõe-se, em parte, ao neuroticismo/afetividade negativa, o traço temperamental que é fator de risco comum a praticamente todas as perturbações de ansiedade e do humor. A hereditariedade da perturbação de pânico é moderada e poligénica: os familiares em primeiro grau têm risco várias vezes superior ao da população geral, mas não existe nenhum gene único com utilidade clínica. Fatores ambientais precoces — separações, doença ou morte de figura parental, abuso, tabagismo na adolescência, doença respiratória na infância — contribuem de forma inespecífica.
Hiperventilação e alcalose respiratória: a fisiologia por trás dos sintomas mais assustadores
Este é o bloco que mais rende em exame, porque liga psiquiatria a fisiologia de forma direta.
Quando a ansiedade aumenta, a ventilação-minuto aumenta. O resultado é hipocapnia (↓PaCO₂) e alcalose respiratória aguda (↑pH). Daí derivam, em cadeia:
| Consequência da hipocapnia | Sintoma correspondente |
|---|---|
| Vasoconstrição cerebral (o CO₂ é potente vasodilatador cerebral) → ↓fluxo sanguíneo cerebral | Tonturas, atordoamento, sensação de desmaio, visão turva, desrealização |
| ↓cálcio ionizado (a alcalose aumenta a ligação do cálcio à albumina) → ↑excitabilidade neuromuscular | Parestesias peribucais e das extremidades, tremor, espasmo carpopedal, sinais de Chvostek e de Trousseau |
| Desvio da curva de dissociação da hemoglobina para a esquerda (efeito Bohr) → ↑afinidade da Hb pelo O₂ | Menor cedência tecidular de O₂, reforçando a sensação paradoxal de falta de ar apesar de saturação normal |
| Sensação de esforço respiratório e retenção de ar | Aperto torácico, dor torácica não coronária, por vezes agravada por espasmo dos músculos intercostais |
A armadilha clínica: o doente sente que não consegue meter ar suficiente e, por isso, ventila mais — agravando exatamente a hipocapnia que gera os sintomas. É outro círculo vicioso, agora fisiológico. Explicar esta cadeia ao doente, e demonstrá-la (ver exposição interoceptiva, na secção da gestão), é uma das intervenções mais persuasivas que existem em psiquiatria.
Nota de segurança: a antiga prática de fazer o doente respirar para um saco de papel está abandonada — mascara hipoxémia real e já causou mortes em doentes cujo quadro era, afinal, de causa orgânica. A resposta correta é reduzir a frequência respiratória com respiração lenta e controlada, não reinalar CO₂.
O circuito neurobiológico do medo
A neurobiologia do pânico é habitualmente descrita como uma rede do medo com a amígdala no centro, e é útil pensá-la em termos de aferências, eferências e modulação.
- Amígdala — integra a informação sensorial (via tálamo, por uma rota rápida e grosseira, e via córtex, por uma rota lenta e detalhada, incluindo aferências do córtex insular, que representa o estado interoceptivo). É o comutador da resposta de alarme.
- Eferências da amígdala, cada uma com um sintoma associado:
- para o locus coeruleus (noradrenérgico) → taquicardia, hipertensão, tremor, hipervigilância;
- para o núcleo parabraquial → ↑frequência respiratória e dispneia;
- para a substância cinzenta periaqueductal → comportamento defensivo, congelamento, fuga;
- para o hipotálamo paraventricular → ativação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal e libertação de cortisol;
- para o núcleo motor dorsal do vago → náuseas, desconforto abdominal, e por vezes bradicardia paradoxal.
- Modulação inibitória — o córtex pré-frontal ventromedial e o hipocampo exercem controlo descendente sobre a amígdala e são o substrato da aprendizagem de extinção. Uma hipofunção deste travão pré-frontal é o modelo neurobiológico mais aceite para a persistência do medo.
- Neurotransmissão — hipofunção GABAérgica (com sensibilidade alterada do recetor GABA-A), hiperatividade noradrenérgica, modulação serotoninérgica dos núcleos da rafe sobre o locus coeruleus e a substância cinzenta periaqueductal. É esta última que explica, de forma coerente, por que razão os ISRS são eficazes apesar de o pânico não ser uma "depressão disfarçada": a serotonina regula descendentemente o circuito do medo, e essa regulação leva semanas a instalar-se.
Os agentes panicogénicos experimentais — lactato de sódio endovenoso, inalação de CO₂ a 35%, colecistocinina-4, ioimbina — provocam ataques em doentes com perturbação de pânico com muito maior facilidade do que em controlos. São ferramentas de investigação, não testes diagnósticos, e não têm lugar na prática clínica.
A teoria do alarme de sufoco
A hipótese do falso alarme de sufoco (Klein, 1993) propõe que existe um monitor fisiológico da asfixia, sensível sobretudo ao CO₂ e ao lactato cerebral, e que na perturbação de pânico esse monitor tem o limiar patologicamente baixo: dispara sem que exista risco real de asfixia, produzindo dispneia súbita, sensação de sufoco e o impulso de fuga.
O seu poder explicativo está no facto de arrumar observações dispersas: a hipersensibilidade ao CO₂ dos doentes, a proeminência da dispneia e da sensação de sufoco entre os sintomas, o alívio que o doente procura ao abrir uma janela ou sair para a rua, os ataques noturnos (sem gatilho cognitivo possível), e a associação epidemiológica descrita com doença respiratória, tabagismo e apneia do sono. Explica também por que a hiperventilação, que baixa o CO₂, é ao mesmo tempo consequência e tentativa de defesa.
É uma teoria, não um facto estabelecido, e não é mutuamente exclusiva do modelo cognitivo: uma leitura integradora vê o falso alarme biológico como o gerador da sensação inicial e a interpretação catastrófica como o amplificador que transforma um evento isolado em doença crónica. É essa articulação — vulnerabilidade biológica × aprendizagem cognitiva — que o tratamento combinado espelha.
O diagnóstico é clínico, positivo e não de exclusão
É tentador dizer que a perturbação de pânico é um diagnóstico de exclusão. Não é — e essa formulação, repetida ao doente, é uma das causas de cronificação. O diagnóstico faz-se por critérios positivos: crises paroxísticas com pico em minutos, ≥4 sintomas da lista, pelo menos algumas inesperadas, e um mês ou mais de ansiedade antecipatória ou alteração desadaptativa do comportamento, sem que o quadro seja melhor explicado por outra perturbação mental, por uma substância ou por outra condição médica.
O que sim é obrigatório é fazer, uma vez e bem feita, a triagem das causas orgânicas e tóxicas. Depois disso, repetir a investigação torna-se parte da doença.
A colheita da história: as perguntas que discriminam
| Pergunta | O que discrimina |
|---|---|
| "Quanto tempo demorou a chegar ao máximo?" | Minutos → pânico. Crescendo ao longo de uma hora, sem pico abrupto, torna o ataque de pânico improvável e aponta para hipoglicémia, intoxicação ou exacerbação de ansiedade de base num quadro já continuamente ansioso |
| "O que estava a fazer quando começou?" | Em repouso, no sofá, a dormir → inesperado, sugere pânico. A esforço → suspeita cardíaca |
| "Já lhe aconteceu a dormir, a acordá-lo?" | Ataque noturno → muito sugestivo de pânico |
| "O que pensou que estava a acontecer?" | "Que ia morrer / ter um enfarte / enlouquecer" → cognição catastrófica típica |
| "E entre as crises, como está?" | Presença de ansiedade antecipatória — é isto que distingue sintoma de doença |
| "O que deixou de fazer por causa disto?" | Evitamento e agorafobia — muitos doentes não o relatam espontaneamente |
| "Anda com alguma coisa consigo para o caso de acontecer?" | Comportamentos de segurança (garrafa de água, benzodiazepina no bolso, telemóvel, acompanhante) — mantêm a doença |
| "Quantos cafés/bebidas energéticas por dia? E álcool?" | Cafeína e álcool (consumo e privação) |
| "Que medicamentos, suplementos ou produtos toma?" | Broncodilatadores, descongestionantes, corticoterapia, levotiroxina, estimulantes, produtos de emagrecimento |
| "Quando é que isto começou na sua vida?" | Início pré-púbere ou após os 65 anos = atípico, procurar causa secundária |
| "Alguma vez teve vários dias seguidos com muito menos necessidade de dormir, acelerado, a gastar ou a fazer coisas a mais? E na família?" | História de mania/hipomania — obrigatória antes de prescrever antidepressivo; a monoterapia antidepressiva está contraindicada na bipolaridade |
Explorar sempre, e de forma direta e não alarmista, a comorbilidade depressiva e a ideação suicida — remete-se para os capítulos próprios. Interrogar também consumo de substâncias e história de trauma, porque a perturbação de stress pós-traumático (PSPT) cursa frequentemente com ataques de pânico.
Diagnóstico diferencial psiquiátrico
| Entidade | Como distinguir |
|---|---|
| Ansiedade generalizada | Ansiedade contínua e difusa sobre múltiplos domínios, sem paroxismo; a preocupação é sobre a vida, não sobre o próprio corpo. Capítulo próprio |
| Fobia específica e fobia social | Ataques esperados, sempre ligados ao estímulo ou ao escrutínio social; entre exposições, o doente está bem. Não são tema deste lote — surgem aqui só no diferencial |
| Agorafobia | Diagnóstico independente; pode existir sem perturbação de pânico e frequentemente coexiste (codificam-se ambos) |
| Perturbação de stress pós-traumático (PSPT) | Os "ataques" são desencadeados por recordações/estímulos do trauma; há revivência, hipervigilância e evitamento do trauma, não das sensações corporais |
| Perturbação obsessivo-compulsiva | O pico ansioso é ligado a obsessões e aliviado por compulsões |
| Perturbação de ansiedade de doença / sintomas somáticos | Preocupação persistente com ter uma doença, com procura de exames — mas sem a crise paroxística com pico em minutos |
| Depressão major | Ataques podem ocorrer, mas o quadro dominante é humor deprimido/anedonia com duração ≥2 semanas. Capítulo próprio |
| Perturbação induzida por substância | Ver adiante — cronologia é tudo |
Diagnóstico diferencial orgânico — o bloco de maior rendimento
O doente com perturbação de pânico chega quase sempre à urgência convencido de que está a ter um enfarte. Vale a pena ter esta lista arrumada e saber o que a torna suspeita.
Cardiovascular
- Síndrome coronária aguda — a mimetização é máxima. Suspeitar quando a dor é desencadeada por esforço e aliviada pelo repouso, irradia para o membro superior esquerdo ou mandíbula, dura mais do que os minutos habituais do pânico, e sobretudo quando existem fatores de risco cardiovascular, idade avançada ou alterações no ECG. Nunca dispensar ECG na primeira apresentação.
- Arritmia — taquicardia supraventricular paroxística é a grande imitadora: início e fim verdadeiramente súbitos ("como um interruptor"), frequência muito elevada e regular, por vezes terminada por manobras vagais. A ansiedade aqui é consequência e não causa. Fibrilhação auricular paroxística: palpitações irregulares. Se as palpitações precedem claramente o medo, pensar em arritmia.
- Prolapso da válvula mitral — associação historicamente descrita, hoje de valor clínico limitado (ver Situações especiais).
Respiratório
- Embolia pulmonar — dispneia súbita, dor pleurítica, taquicardia, hipoxémia, fatores de risco (imobilização, cirurgia recente, neoplasia, gravidez/puerpério, contracetivo). A hipoxémia obriga sempre a procurar causa orgânica, mas o inverso não é verdadeiro: a SpO₂ normal não exclui tromboembolismo pulmonar. Em doentes jovens sem doença cardiopulmonar prévia — exatamente os deste capítulo — o TEP cursa frequentemente com saturação em ar ambiente ≥95%, gasimetria e radiografia normais e apenas taquicardia; e a hiperventilação do próprio TEP gera hipocapnia, com tonturas, parestesias e desrealização indistinguíveis das do pânico. A exclusão faz-se por probabilidade pré-teste (Wells ou Genebra) associada a D-dímeros, ou por regra PERC nos doentes de muito baixo risco.
- Asma — a dispneia é acompanhada de sibilância e responde a broncodilatador; note-se que asma e pânico coexistem com frequência e que os agonistas β₂ provocam tremor e palpitações.
Endócrino e metabólico
- Hipertiroidismo — o grande mimetizador crónico: intolerância ao calor, perda ponderal com apetite conservado, taquicardia sustentada em repouso, tremor fino, bócio, alterações oculares. A TSH deve ser pedida.
- Hipoglicémia — sobretudo em pessoa com diabetes sob insulina ou secretagogo; sintomas adrenérgicos com relação temporal às refeições e resolução com ingestão de hidratos de carbono.
- Feocromocitoma — a estrela dos exames e, na prática, uma raridade. A tríade clássica é cefaleia + sudorese + palpitações em contexto de hipertensão paroxística. A mensagem importante para a prova e para a clínica: não se rastreia feocromocitoma a todos os doentes com pânico — a prevalência é baixíssima e os falsos positivos das metanefrinas geram cascatas de exames que agravam a doença. Pedir metanefrinas plasmáticas livres ou urinárias fracionadas apenas perante hipertensão paroxística documentada, palidez durante as crises, hipertensão refratária, história familiar ou síndrome genética conhecida.
Neurológico
- Epilepsia do lobo temporal — as crises focais, sobretudo as que cursam com compromisso da perceção (as antigas "parciais complexas"), podem apresentar medo intenso, aura epigástrica ascendente, desrealização/despersonalização, automatismos oro-alimentares, alteração do estado de consciência e amnésia do episódio. Estas três últimas características não pertencem ao ataque de pânico e devem levar a EEG.
- Vertigem periférica — a queixa dominante é rotatória e há nistagmo; a ansiedade é reativa.
- Enxaqueca com aura, síndromes de disautonomia e síncope vasovagal entram no diferencial das tonturas.
Substâncias — intoxicação e privação
- Intoxicação: cocaína, anfetaminas e derivados, cafeína (incluindo bebidas energéticas e suplementos), cannabis (em particular em consumidores inexperientes), simpaticomiméticos e descongestionantes nasais, broncodilatadores, corticoides, levotiroxina em excesso.
- Privação: álcool e benzodiazepinas — e este é o ponto mais subtil de todo o capítulo, porque a privação de benzodiazepinas reproduz fielmente a perturbação de pânico, incluindo ataques inesperados. Um doente que "piorou" depois de reduzir o clonazepam pode não estar a recair: pode estar em privação. Mas a privação de benzodiazepinas e de álcool não é apenas um diagnóstico diferencial — é uma emergência potencial. Estratificar sempre a gravidade (tremor, sudorese, taquicardia, hipertensão, febre, alucinações, desorientação, história prévia de convulsão ou de delirium) e valorizar a janela temporal: as convulsões surgem tipicamente às 24–72 horas nas benzodiazepinas de semivida curta e no álcool, podendo ocorrer para lá de uma semana nas de semivida longa; o delirium tremens tem mortalidade significativa quando não tratado. Perante privação estabelecida, reinstituir a benzodiazepina em dose adequada e reduzir depois de forma planeada, em vez de manter a suspensão; na privação alcoólica, tratar com benzodiazepina e administrar tiamina parentérica. Não dar alta sem período de observação e sem plano de redução escrito. Também: privação de opióides, de nicotina.
Que exames pedir — e quando parar
Na primeira apresentação, uma investigação mínima e dirigida é justificada e tranquilizadora:
- ECG de 12 derivações (obrigatório na dor torácica ou palpitações);
- hemograma, TSH, glicémia;
- ionograma com cálcio se houver parestesias ou espasmo carpopedal marcados;
- oximetria de pulso;
- rastreio toxicológico se a história o sugerir;
- troponina e D-dímeros apenas segundo os algoritmos e escalas de probabilidade pré-teste próprios (nunca "por rotina" no doente jovem sem fatores de risco — um D-dímero pedido sem indicação em doente de baixa probabilidade gera angio-TC desnecessária, com radiação, contraste e achados incidentais);
- Holter apenas se as palpitações forem descritas como paroxismos de início/fim súbitos, irregulares, ou se houver síncope.
O que não se pede: metanefrinas por rotina, prova de esforço em doente jovem assintomático entre crises, TC-CE por tonturas sem sinais focais, EEG sem elementos sugestivos de crise epiléptica, endoscopia por náuseas isoladas.
Regra do "quando parar": feita uma vez a investigação dirigida e sendo ela normal, a repetição de exames deixa de ser diagnóstica e passa a ser terapêutica — na direção errada. Cada exame normal funciona como comportamento de procura de segurança: alivia por horas ou dias e reforça a crença de que o corpo está em perigo e precisa de ser vigiado. É assim que se cronifica um doente. O ponto de viragem no acompanhamento é substituir "vamos pedir mais um exame" por "o que já fizemos é suficiente; agora vamos tratar o problema que está realmente a causar isto".
Armadilha final: ter perturbação de pânico não protege de doença orgânica. Um doente conhecido que apresenta um episódio qualitativamente diferente dos anteriores, ou que desenvolve novos sinais objetivos (hipoxémia, febre, alterações do ECG, défice neurológico, síncope verdadeira), merece avaliação completa, e não a etiqueta prévia.
Princípios gerais
O tratamento da perturbação de pânico é dos mais eficazes de toda a psiquiatria — a maioria dos doentes melhora substancialmente. As duas primeiras linhas são a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e os antidepressivos ISRS/ISRSN, com eficácia globalmente comparável a curto prazo e vantagem da TCC na manutenção do ganho após a suspensão. As guidelines convergem no essencial — discutir as opções com a pessoa, oferecer psicoterapia estruturada, reservar a combinação para os casos graves ou refratários — mas divergem quanto às benzodiazepinas, e é aí que a prova costuma incidir. A NICE CG113 é a mais restritiva: recomenda expressamente que não se prescrevam benzodiazepinas na perturbação de pânico (rec. 1.3.20), estendendo a mesma posição aos antipsicóticos e aos anti-histamínicos sedativos (rec. 1.3.21); e organiza o tratamento por degraus — auto-ajuda guiada de baixa intensidade no quadro ligeiro a moderado (rec. 1.3.9), TCC ou antidepressivo no moderado a grave (rec. 1.3.12). As WFSBP 2023 e o Maudsley admitem uso adjuvante breve, tipicamente como ponte nas primeiras semanas de um ISRS. Para a prova, reter a posição da NICE como a mais defensável.
A escolha inicial depende da preferência do doente, da gravidade, da comorbilidade (uma depressão major concomitante inclina para o fármaco) e da disponibilidade real de TCC.
Terapia cognitivo-comportamental — primeira linha
A TCC para o pânico é um protocolo específico, tipicamente de 8 a 16 sessões, e não "apoio psicológico". Tem quatro componentes que devem ser sabidos de cor.
1. Psicoeducação. Explicar o círculo vicioso, a fisiologia da resposta de alarme e a hiperventilação. O objetivo não é tranquilizar — é reatribuir significado: as sensações são reais, são fisiológicas e não são perigosas. Fazer o desenho do círculo com o doente é frequentemente o momento em que ele percebe pela primeira vez o que lhe está a acontecer.
2. Reestruturação cognitiva. Identificar e testar as interpretações catastróficas ("se o coração acelera assim, vou ter um enfarte"; "vou desmaiar"; "vou perder a cabeça em público"), com registo de pensamentos, exame de evidência e cálculo de probabilidades realistas. Uma pergunta terapêutica útil: "quantas vezes já teve esta sensação e quantas vezes aconteceu o que temia?"
3. Exposição interoceptiva — o componente mais específico e o mais testado em exame. Consiste em provocar deliberadamente as sensações corporais temidas, em ambiente controlado e repetido, até que deixem de gerar alarme.
Antes de a iniciar: são manobras de provocação fisiológica genuína e só se realizam depois de concluída a triagem orgânica dirigida, por profissional treinado — nunca na urgência antes de a avaliação estar encerrada. Contraindicações e cautelas: doença coronária ou arritmia conhecida ou ainda não excluída, insuficiência cardíaca, asma ou DPOC não controladas (evitar palhinha e hiperventilação), epilepsia ou antecedentes de convulsão (a hiperventilação é um método reconhecido de ativação de crises em EEG), gravidez avançada, doença cerebrovascular, drepanocitose, glaucoma e patologia vestibular ativa (evitar rotação). Regras de paragem: interromper perante dor torácica de características isquémicas, síncope ou pré-síncope verdadeira, dessaturação, sibilância, alteração do estado de consciência, défice neurológico ou qualquer sintoma qualitativamente diferente do habitual do doente — e reavaliar organicamente em vez de prosseguir. Havendo comorbilidade cardiorrespiratória estável, reduzir a intensidade e preferir alternativas de menor risco (por exemplo, hiperventilação de 30 segundos em vez de exercício).
Os exercícios habituais:
- hiperventilação voluntária (~1 minuto) → tonturas, parestesias, desrealização;
- respirar através de uma palhinha estreita → sensação de falta de ar;
- rodar numa cadeira → tonturas e instabilidade;
- correr no lugar / subir escadas → taquicardia, sudorese, dispneia;
- fixar um ponto ou um espelho → desrealização.
O mecanismo é a aprendizagem inibitória de extinção: o doente aprende, por experiência direta e não por argumento, que a sensação ocorre e a catástrofe não. É por isso que "convencer" nunca funciona tão bem como demonstrar.
4. Exposição in vivo — indispensável quando há agorafobia. Constrói-se uma hierarquia de situações evitadas, da menos à mais ansiogénica, e progride-se de forma gradual e repetida, com prevenção dos comportamentos de segurança (levar acompanhante, sentar-se sempre à saída, agarrar a garrafa de água, tomar a benzodiazepina antes de entrar no metro). Manter os comportamentos de segurança durante a exposição anula o efeito terapêutico, porque o doente atribui a ausência de catástrofe ao amuleto e não à realidade.
A respiração controlada e o relaxamento podem ser ensinados, mas com uma advertência: se forem usados para fazer parar o ataque, transformam-se em mais um comportamento de segurança. Devem ser enquadrados como forma de reduzir a hiperventilação de base, não como técnica de resgate.
A TCC pode ser entregue individualmente, em grupo, ou em formatos guiados de auto-ajuda e digitais com apoio de profissional — o que é relevante em Portugal, onde o acesso a terapeutas treinados é limitado. O exercício físico aeróbio regular tem evidência de benefício adjuvante.
Farmacoterapia de primeira linha: ISRS e ISRSN
São os fármacos de escolha. Não existe superioridade robusta de um ISRS sobre os outros no pânico; a escolha faz-se pelo perfil de efeitos adversos, interações e comorbilidade.
Antes de instituir qualquer antidepressivo, rastrear ativamente história pessoal ou familiar de mania ou hipomania — períodos de vários dias com menor necessidade de sono, aceleração, gastos ou atividade desmedidos —, episódios de viragem com antidepressivos prévios e depressão de início precoce e recorrente. A comorbilidade entre perturbação de pânico e perturbação bipolar é elevada, e o pânico é um dos marcadores clínicos mais associados a bipolaridade oculta numa apresentação ansiosa ou depressiva. Perante suspeita de perturbação bipolar, o antidepressivo em monoterapia está contraindicado (risco de viragem maníaca, estado misto — o de maior risco suicidário — e ciclagem rápida) e o doente deve ser referenciado; a TCC é a opção segura enquanto se aguarda avaliação.
| Classe | Exemplos | Notas práticas |
|---|---|---|
| ISRS | sertralina, escitalopram, paroxetina, fluoxetina, citalopram, fluvoxamina | Primeira linha. Paroxetina: eficaz, mas mais anticolinérgica, mais ganho ponderal e síndrome de descontinuação mais marcada (semivida curta) — evitar como primeira escolha em quem provavelmente vai querer parar. Citalopram/escitalopram: atenção ao prolongamento do QT e a limites de dose no idoso. Fluoxetina: semivida longa, descontinuação mais suave, mas mais ativante no início |
| ISRSN | venlafaxina de libertação prolongada, duloxetina | Alternativa de primeira linha; vigiar a tensão arterial com venlafaxina em doses mais altas |
| Tricíclicos | clomipramina, imipramina | Eficácia estabelecida, mas segunda ou terceira linha por efeitos anticolinérgicos, hipotensão ortostática, risco cardíaco de condução e toxicidade em sobredosagem |
| IMAO | moclobemida (é o único IMAO comercializado em Portugal; os irreversíveis, como a fenelzina, não têm AIM nacional) | Reservada a refratariedade, em contexto especializado. Sendo reversível e seletiva da MAO-A, as restrições dietéticas com tiramina são ligeiras (ao contrário dos irreversíveis), mas mantêm-se integralmente as interações serotoninérgicas: nunca associar a ISRS/ISRSN, tricíclicos serotoninérgicos, tramadol, triptanos, linezolida ou azul-de-metileno — risco de síndrome serotoninérgica fatal. Exige intervalo de lavagem de 2 semanas ao suspender um ISRS (5 semanas no caso da fluoxetina, pela semivida da norfluoxetina) antes de iniciar o IMAO; no sentido inverso, 2 semanas após um IMAO irreversível e 24–48 horas após a moclobemida |
A regra prática que mais rende em exame
Começar com cerca de metade da dose inicial habitual e subir devagar.
O porquê é fisiopatológico e não arbitrário: nas primeiras uma a duas semanas, os ISRS produzem um aumento transitório da ativação e da ansiedade ("jitteriness"). Num doente com sensibilidade à ansiedade elevada, que já interpreta qualquer palpitação como catástrofe, esse aumento é lido como "o comprimido está a fazer-me mal" ou "estou a piorar" — e o doente abandona o tratamento na primeira semana. Metade da dose, subida gradual e, sobretudo, avisar antecipadamente que isto pode acontecer e que é transitório, é o que garante a adesão.
Outros pontos:
- Latência: alívio dos ataques em 2–4 semanas, resposta plena habitualmente às 6–12 semanas. A ansiedade antecipatória e o evitamento melhoram depois dos ataques.
- Dose alvo: frequentemente é preciso chegar à metade superior do intervalo terapêutico — a não resposta é muitas vezes subdosagem.
- Duração: manter o tratamento pelo menos 6 a 12 meses após a resposta antes de considerar a suspensão (NICE CG113, rec. 1.3.27: ≥6 meses após atingir a dose ótima; WFSBP 2023: 6-12 meses após a remissão), e mais tempo se houve múltiplos episódios, agorafobia grave ou comorbilidade. A descontinuação deve ser lenta (semanas a meses); a síndrome de descontinuação — tonturas, parestesias em "choque elétrico", náuseas, irritabilidade, insónia — imita ataques de pânico e é frequentemente confundida com recaída.
- Segurança: risco hemorrágico com anti-inflamatórios/anticoagulantes, hiponatrémia no idoso, disfunção sexual (causa principal de abandono, deve ser perguntada ativamente), risco de síndrome serotoninérgica em associações. Reconhecê-la é obrigação de quem prescreve: clonus (espontâneo, indutível ou ocular), hiperreflexia com predomínio nos membros inferiores, tremor, agitação, midríase, diaforese, diarreia e hipertermia, com instalação em horas após a introdução ou o aumento de dose — ao contrário da síndrome neuroléptica maligna, que se instala em dias e cursa com rigidez em cano de chumbo e hiporreflexia. Perante estes sinais, suspender o fármaco serotoninérgico e referenciar de imediato.
Benzodiazepinas: alívio rápido, custo elevado
As benzodiazepinas (alprazolam, clonazepam, diazepam, lorazepam) funcionam — reduzem ataques em dias e não em semanas. O problema não é a eficácia; é tudo o resto.
Quatro objeções, por ordem de importância para o exame:
- Comprometem a aprendizagem de extinção. É o argumento mais específico e o mais esquecido. A extinção do medo depende de o doente experimentar a ativação fisiológica e verificar que nada acontece. Uma benzodiazepina a bordo atenua a ativação e converte a exposição num exercício vazio: o doente atribui a ausência de catástrofe ao fármaco, e o ganho não generaliza nem persiste. Podem, por esta via, tornar a TCC menos eficaz.
- Tolerância e dependência. Instalam-se em semanas a poucos meses de uso regular; a dependência iatrogénica é uma complicação real e evitável.
- A privação mimetiza a doença. Ansiedade de rebound, insónia, tremor, palpitações, parestesias e ataques inesperados — indistinguíveis de recaída. Doentes e médicos concluem erradamente que "não pode parar porque a doença volta", perpetuando o ciclo. Com fármacos de semivida curta (alprazolam) surge ansiedade entre doses, que reforça a toma.
- Outros riscos: sedação, compromisso cognitivo e psicomotor, quedas e fraturas no idoso, condução, potenciação com álcool e opióides (depressão respiratória).
Como usar, se de todo:
- Em Portugal, o enquadramento normativo é a Norma DGS n.º 055/2011 (atualizada em 21/01/2015): as benzodiazepinas não devem ser usadas por rotina na ansiedade ligeira a moderada; quando usadas na ansiedade patológica, a duração máxima é de 8 a 12 semanas, incluindo o período de descontinuação (4 semanas na insónia), e não deve ser prescrita mais do que uma benzodiazepina ansiolítica em simultâneo. A NICE CG113 é ainda mais restritiva no caso específico da perturbação de pânico, onde recomenda não prescrever de todo;
- apenas por períodos curtos e definidos à partida (dias a poucas semanas), com data de fim combinada no momento da prescrição;
- tipicamente como "ponte" nas primeiras semanas de um ISRS num doente muito sintomático, ou no episódio agudo em urgência;
- preferir dose fixa e regular a "em SOS" quando se usa;
- desaconselhar explicitamente a benzodiazepina em SOS permanente: mesmo o comprimido que fica no bolso e nunca é tomado funciona como comportamento de segurança — o doente atribui-lhe a sua sobrevivência às crises e o evitamento mantém-se intacto.
Alternativas de segunda linha quando ISRS/ISRSN falham ou não são tolerados: pregabalina (evidência mais consistente noutras perturbações de ansiedade; potencial de uso indevido a considerar), mirtazapina em casos selecionados, tricíclicos. Os β-bloqueantes não são eficazes na perturbação de pânico — atenuam tremor e palpitações mas não previnem os ataques nem tratam a ansiedade antecipatória; não são recomendados como tratamento. Os antipsicóticos não têm indicação em monoterapia.
Na urgência e no seguimento
Na crise aguda, o essencial é ambiente calmo, contacto tranquilizador, orientação da respiração para um ritmo lento e a expectativa explícita de que o episódio é autolimitado. A maioria dos ataques cede em minutos sem qualquer fármaco. Se, apesar das medidas não farmacológicas, for necessário sedar, admite-se uma dose única e baixa de benzodiazepina por via oral (por exemplo, lorazepam 1 mg; metade da dose no idoso), preferindo sempre a via oral à parentérica. Antes de a administrar: confirmar que a triagem orgânica está feita e a SpO₂ é normal — sedar mascara a taquipneia e a agitação que são o sinal precoce de hipoxémia num TEP ou de acidose metabólica — e excluir coingestão de álcool, opióides ou outros depressores do SNC (depressão respiratória sinérgica), doença respiratória com retenção de CO₂, apneia do sono e fragilidade. Manter o doente em observação até à recuperação plena do estado de alerta, sem alta imediata após a administração. E não deve sair da urgência com uma receita renovável.
O passo terapêutico mais importante na urgência não é farmacológico: é nomear o diagnóstico e encaminhar. Um doente que sai com "os exames estão todos bem, não tem nada" volta na semana seguinte. Um doente que sai com "o que teve chama-se ataque de pânico, é uma reação real do corpo, tem tratamento eficaz, e é isto que vamos fazer a seguir" tem hipótese de melhorar.
No seguimento, monitorizar: frequência e intensidade dos ataques, grau de evitamento (o melhor indicador funcional), adesão, efeitos adversos, humor e ideação suicida, consumo de álcool e de benzodiazepinas. Refratariedade verdadeira exige rever, por esta ordem: o diagnóstico, a adesão, a dose e o tempo de exposição ao fármaco, a persistência de comportamentos de segurança, o consumo de cafeína e substâncias, e a comorbilidade não tratada.
Referências
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- National Institute for Health and Care Excellence. Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management. Clinical guideline CG113. London: NICE; 2011 (atualizada em 2020; alterações em maio de 2024).
- Craske MG, Stein MB. Anxiety. Lancet. 2016;388(10063):3048-59.
- Roy-Byrne PP, Craske MG, Stein MB. Panic disorder. Lancet. 2006;368(9540):1023-32.
- Bandelow B, Allgulander C, Baldwin DS, et al. World Federation of Societies of Biological Psychiatry (WFSBP) guidelines for treatment of anxiety, obsessive-compulsive and posttraumatic stress disorders - Version 3. Part I: Anxiety disorders. World J Biol Psychiatry. 2023;24(2):79-117.
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- Klein DF. False suffocation alarms, spontaneous panics, and related conditions: an integrative hypothesis. Arch Gen Psychiatry. 1993;50(4):306-17.
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- Craske MG, Treanor M, Conway CC, Zbozinek T, Vervliet B. Maximizing exposure therapy: an inhibitory learning approach. Behav Res Ther. 2014;58:10-23.
11 perguntas sobre Perturbação de pânico
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