Perturbação de pânico
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 15 perguntas neste tema
A perturbação de pânico é a repetição de ataques de pânico inesperados, surtos abruptos de medo intenso com sintomas físicos que atingem o pico em minutos, seguidos de pelo menos um mês de medo de novos ataques ou de mudanças de comportamento para os evitar. O ataque isolado é frequente e não é doença: o que define a perturbação é a ansiedade antecipatória e o evitamento que ficam entre as crises.
Atinge cerca de 2 a 3% dos adultos num ano, duas vezes mais as mulheres, e começa tipicamente entre o fim da adolescência e os 20 e poucos anos. Metade dos doentes na comunidade tem também agorafobia, que hoje é diagnóstico independente, e a depressão, as outras perturbações de ansiedade e o abuso de álcool acompanham-na muitas vezes. O mecanismo central é um círculo vicioso em que uma sensação corporal é lida como sinal de catástrofe, o medo aumenta a ativação simpática e os sintomas crescem, e os comportamentos de segurança impedem que a pessoa aprenda que a catástrofe não chega.
O diagnóstico é clínico e positivo, mas as mesmas queixas surgem em doenças que não se podem falhar: síndrome coronária aguda, arritmias, embolia pulmonar, hipertiroidismo, hipoglicemia, feocromocitoma e intoxicação ou privação de substâncias. A investigação faz-se uma vez, orientada pela clínica, e um início depois dos 45 anos ou sintomas atípicos obrigam a procurar melhor a causa.
O tratamento de primeira linha é a terapia cognitivo-comportamental com exposição interocetiva ou um antidepressivo, inibidor seletivo da recaptação da serotonina ou venlafaxina, começado em dose baixa porque as primeiras semanas trazem mais ansiedade. Quando resulta, o antidepressivo mantém-se pelo menos 6 meses. As benzodiazepinas não são tratamento de fundo: a norma da DGS limita-as a 8 a 12 semanas, e perpetuam o evitamento. Tratada, a maioria melhora; sem tratamento, o curso é crónico e flutuante.
Vulnerabilidade
A perturbação é familiar: os familiares em primeiro grau têm um risco cerca de cinco vezes maior, e os estudos de gémeos apontam para uma hereditabilidade de cerca de 40%, poligénica e sem gene de efeito forte. Os filhos de doentes com pânico têm mais pânico, com ou sem agorafobia, mas não mais agorafobia isolada. O temperamento de inibição comportamental e a sensibilidade à ansiedade, isto é, o medo das próprias sensações corporais, preparam o terreno. O primeiro ataque surge muitas vezes num período de stress, depois de uma doença física ou de um parto, mas raramente se encontra um acontecimento que o explique por si.
O círculo vicioso cognitivo
As pessoas com ataques de pânico temem mais as doenças físicas graves do que outros doentes ansiosos. Uma sensação corporal banal, como uma palpitação ou uma tontura, é interpretada como sinal de enfarte, de desmaio ou de perder o controlo; o medo aumenta a ativação simpática, que produz mais palpitações e tonturas, que confirmam o perigo. É esta retroação positiva que explica a subida até ao pico em minutos. Os comportamentos de segurança (sentar-se junto à saída, andar acompanhado, trazer um comprimido no bolso) fazem a pessoa atribuir o fim do ataque ao que fez, e impedem-na de verificar que a catástrofe não acontece. É neste modelo que assenta a terapia cognitiva.
Hiperventilação
Alguns doentes hiperventilam durante as crises. A hipocapnia e a alcalose respiratória que se seguem causam tonturas e sensação de desmaio, zumbidos, cefaleias, fraqueza, dormência e formigueiro nas mãos, nos pés e à volta da boca, espasmo carpopedal por descida do cálcio ionizado, desconforto precordial e, paradoxalmente, falta de ar, que leva a respirar ainda mais. A hiperventilação voluntária provoca um ataque, mas não se demonstrou que seja a causa da perturbação; é um amplificador do círculo.
Neurobiologia
O circuito do medo tem centro na amígdala e liga-se à substância cinzenta periaquedutal (fuga ou imobilidade), ao hipotálamo, ao hipocampo e ao locus coeruleus, origem da noradrenalina e da taquicardia, do tremor e da sudorese. O córtex pré-frontal ventromedial exerce o travão inibitório. Nos estudos de imagem funcional a alteração mais consistente está na ínsula, que processa as sensações vindas do corpo, o que dá base biológica à hipersensibilidade interocetiva. Há ainda sinais de menor função GABA cortical (menos GABA e menos ligação aos recetores das benzodiazepinas) e alterações serotoninérgicas e noradrenérgicas.
Provocação de ataques
O lactato de sódio, a ioimbina (antagonista dos recetores alfa-2), o flumazenil e a inalação de ar enriquecido em dióxido de carbono provocam ataques com mais facilidade nestes doentes do que em controlos. São instrumentos de investigação e não testes diagnósticos. A hipótese do falso alarme de sufoco propõe que o detetor interno de dióxido de carbono dispara cedo demais, o que explicaria a importância da falta de ar e da sensação de sufoco e a ligação às doenças respiratórias.
Critérios
| DSM-5-TR | CID-11 (6B01) | |
|---|---|---|
| Ataques | recorrentes e inesperados, com pelo menos 4 de 13 sintomas e pico em minutos | recorrentes e inesperados, não restritos a estímulos ou situações |
| O que se segue | pelo menos 1 mês de preocupação persistente com novos ataques ou as suas consequências, ou de mudança desadaptativa do comportamento | preocupação persistente com a recorrência ou o significado dos ataques, ou comportamentos para os evitar, com prejuízo significativo |
| Duração | pelo menos 1 mês | sem duração mínima fixada |
| Exclusões | não se deve a substância nem a outra doença; não se explica melhor por outra perturbação mental | não é manifestação de outra doença nem efeito de substância ou medicamento |
Na agorafobia, o DSM-5-TR exige medo ou evitamento de pelo menos 2 de 5 situações (transportes públicos, espaços abertos, espaços fechados, filas ou multidões, estar fora de casa sozinho), por recear não conseguir escapar ou obter ajuda, tipicamente durante 6 meses ou mais; a CID-11 pede pelo menos vários meses. Na CID-11, um ataque de pânico fora desta perturbação codifica-se à parte (MB23.H).
A história que decide
Pergunta-se quanto tempo leva a chegar ao pico, o que a pessoa fazia quando começou (repouso ou sono indicam ataque inesperado), o que pensou que lhe estava a acontecer, como está entre as crises, o que deixou de fazer e o que leva consigo quando sai. Revê-se a medicação, incluindo a automedicação, e o consumo de cafeína, álcool, tabaco e drogas.
Diferencial psiquiátrico
| Entidade | O que distingue |
|---|---|
| Ansiedade generalizada | preocupação contínua com vários temas, sem surtos com pico em minutos |
| Fobia específica e ansiedade social | ataques esperados, só perante o objeto ou o escrutínio dos outros |
| Stress pós-traumático | ataques desencadeados por lembranças do trauma, com intrusões e evitamento centrado no acontecimento |
| Perturbação obsessivo-compulsiva | ansiedade ligada às obsessões e aliviada pelas compulsões |
| Depressão | ataques no decurso de um episódio depressivo; perguntar pelo humor e pela ideação suicida |
| Ansiedade de doença | preocupação persistente com ter uma doença, sem surtos paroxísticos |
| Ansiedade induzida por substância | relação com o consumo, a privação ou o medicamento, e desaparece em abstinência |
Diferencial orgânico
| Entidade | O que aponta para ela |
|---|---|
| Síndrome coronária aguda | dor de esforço, fatores de risco, alterações no eletrocardiograma, troponina elevada |
| Taquicardia supraventricular | palpitações de início e fim súbitos, regulares, que começam antes do medo |
| Fibrilhação auricular | palpitações irregulares |
| Embolia pulmonar | dor pleurítica, taquicardia, fatores de risco tromboembólico |
| Hipertiroidismo | taquicardia mantida, perda de peso com apetite, intolerância ao calor, tremor fino |
| Hipoglicemia | relação com o jejum ou com insulina ou sulfonilureias; cede com açúcar |
| Feocromocitoma | crises de cefaleia, sudorese e palpitações com hipertensão |
| Epilepsia do lobo temporal | crises breves e estereotipadas, aura epigástrica, automatismos, confusão ou amnésia depois |
| Doença vestibular | vertigem rotatória e nistagmo |
| Asma e DPOC | sibilância; os agonistas beta-2 podem desencadear ansiedade |
| Substâncias | intoxicação por cafeína, cocaína, anfetaminas ou canábis; privação de álcool ou de benzodiazepinas |
Estudo
O que se pede depende da clínica. Na primeira apresentação faz-se o mínimo necessário para excluir doença física aguda: sinais vitais, oximetria, eletrocardiograma, glicemia e função tiroideia. Troponina e D-dímeros pedem-se conforme a probabilidade clínica de síndrome coronária ou de embolia, e uma oximetria normal não chega para afastar a embolia. As metanefrinas plasmáticas ou urinárias só se pedem perante crises com hipertensão, cefaleia e sudorese, porque numa pessoa ansiosa sem esse quadro dão sobretudo falsos positivos. O registo prolongado do ritmo cardíaco reserva-se para as palpitações de início e fim súbitos ou com síncope.
Princípios
A terapia cognitivo-comportamental e os antidepressivos têm eficácia semelhante sobre os sintomas; a escolha depende da preferência do doente, do acesso à terapia e da gravidade. A terapia é mais cara mas os seus efeitos parecem durar mais depois de terminada. A associação das duas pode dar melhor resposta na fase aguda, mas não se sabe se a vantagem se mantém. Nos quadros ligeiros a moderados, a NICE (instituto britânico de excelência clínica) propõe começar por autoajuda baseada nos princípios cognitivo-comportamentais, com ou sem apoio de um técnico; nos moderados a graves, terapia cognitivo-comportamental, ou antidepressivo quando a perturbação é antiga ou a terapia não resultou ou foi recusada.
Terapia cognitivo-comportamental
É a psicoterapia com melhor evidência. A NICE recomenda 7 a 14 horas no total, em sessões semanais de 1 a 2 horas, terminadas em 4 meses; a associação americana de psiquiatria descreve cerca de 12 semanas de sessões semanais. Os componentes são:
- psicoeducação: nomear os sintomas e explicar o círculo vicioso e o papel da hiperventilação;
- reestruturação cognitiva: rever a evidência para a interpretação catastrófica («a palpitação é um enfarte») e procurar alternativas;
- exposição interocetiva: provocar de propósito as sensações temidas, com hiperventilação, exercício ou rodar numa cadeira, até a pessoa verificar que não levam à catástrofe;
- exposição ao vivo às situações evitadas, de forma graduada e diária, quando há agorafobia;
- abandono dos comportamentos de segurança, que anulam o efeito da exposição, e treino de respiração lenta.
Antidepressivos
São o único tratamento farmacológico para o longo prazo. Os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) são a primeira escolha, com a venlafaxina, inibidor da recaptação da serotonina e da noradrenalina (IRSN), como alternativa. Os tricíclicos, a clomipramina e a imipramina, são eficazes mas menos bem tolerados e perigosos em sobredosagem, e ficam como segunda linha.
| Fármaco | Dose diária habitual |
|---|---|
| Escitalopram | 10 a 20 mg |
| Sertralina | 50 a 150 mg |
| Paroxetina | 20 a 50 mg |
| Venlafaxina | 75 a 225 mg |
- Começar baixo: cerca de metade da dose usada na depressão (por exemplo 5 mg de citalopram), subindo depois ao longo de dias a semanas. No início, o antidepressivo dá muitas vezes apreensão, insónia e palpitações, e o doente tem de ser avisado disso, do atraso do efeito e dos sintomas de descontinuação.
- Latência: o efeito começa em 2 a 4 semanas, em alguns doentes até 6; a resposta completa a um ISRS pode demorar 8 a 12 semanas. A NICE revê o doente às 2, 4, 6 e 12 semanas.
- Sem melhoria às 12 semanas: trocar para antidepressivo de outra classe (a imipramina ou a clomipramina, se o ISRS não servir) ou passar à terapia cognitivo-comportamental. Depois de duas intervenções sem resultado, referenciar à psiquiatria.
- Duração: com resposta, manter pelo menos 6 meses depois de atingida a dose ótima (NICE); a associação americana de psiquiatria e as revisões europeias aconselham 6 a 12 meses de manutenção, e a tentativa de suspensão, com vigilância, depois de 12 a 18 meses de tratamento.
- Suspender devagar, reduzindo a dose ao longo de semanas: a paragem brusca dá tonturas, parestesias, náuseas, cefaleias, sudorese, ansiedade e insónia, que se confundem com recaída.
- Cuidados: o citalopram prolonga o intervalo QT acima de 40 mg por dia; os tricíclicos são perigosos em quem tem risco de sobredosagem; perguntar pelo consumo de cocaína e não juntar vários fármacos serotoninérgicos.
Benzodiazepinas
Controlam os ataques depressa, mas não são tratamento de fundo. A NICE não as recomenda na perturbação de pânico, porque se associam a pior evolução a longo prazo, e também não recomenda anti-histamínicos sedativos nem antipsicóticos. O alívio rápido pode tirar a motivação para a exposição e leva o doente a atribuir a melhoria à benzodiazepina, e a suspensão dá privação e ressalto mesmo ao fim de poucas semanas. Se forem usadas, é por pouco tempo, no início, enquanto o antidepressivo não atua: a Norma 055/2011 da DGS manda procurar antes uma causa física ou o abuso de substâncias, não associar duas benzodiazepinas ansiolíticas, e limitar o tratamento a 8 a 12 semanas no máximo, incluindo a descontinuação. Quando já há uso prolongado, a redução faz-se muito devagar, em 2 a 4 meses e a não mais de 10% da dose por semana.
Na urgência
Quem chega com um ataque de pânico deve ser perguntado se já está a ser tratado, fazer só os exames necessários para excluir doença física aguda, não ser internado por rotina e sair com informação escrita sobre o que teve e referenciação ao médico de família. Explica-se o mecanismo, dá-se nome ao que aconteceu e deixa-se um plano; dizer apenas que «não tem nada» deixa o medo por explicar.
Referências
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