Outras perturbações de ansiedade
Atualizado em 25 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema
Este é o capítulo que quase ninguém estuda e que a PNA adora, porque é aqui que mora o erro clinicamente grave: chamar "ansiedade" a um feocromocitoma, a uma embolia pulmonar ou a uma tirotoxicose. Definimo-lo por subtração, com o que sobra depois da ansiedade generalizada, do pânico, das fobias, da obsessivo-compulsiva, do stress pós-traumático e das perturbações de adaptação. Rende por três razões. Primeira, porque concentra as bandeiras que obrigam a procurar causa médica, e essas bandeiras aparecem em vinhetas de Medicina, não só de Psiquiatria. Segunda, porque contém as duas divergências DSM-5-TR/CID-11 mais testáveis de toda a área: a ansiedade mista com depressão, que só a CID-11 reconhece, e a preocupação persistente com ter uma doença grave, que a CID-11 classifica como hipocondria junto do obsessivo-compulsivo e o DSM-5-TR como perturbação de ansiedade de doença junto das perturbações de sintomas somáticos. Terceira, porque tem duas entidades que mudaram de sítio na última revisão e continuam a ser ensinadas à antiga: a ansiedade de separação, que já não é pediátrica, e o mutismo seletivo, que passou a ser uma perturbação de ansiedade. Domina isto e ganhas pontos em vinhetas que os teus colegas vão ler como "ataque de pânico".
Medo e ansiedade antecipatória não são a mesma coisa no cérebro
A distinção que organiza este capítulo é a que separa a resposta fásica da resposta sustentada.
- O medo é uma resposta rápida, de curta duração, desencadeada por um estímulo identificável e imediato. O nó central é o núcleo central da amígdala, que recebe informação sensorial pela via tálamo-amígdala (rápida, grosseira) e pela via tálamo-córtex-amígdala (lenta, discriminativa), e projeta para o hipotálamo (resposta simpática e eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal), para o locus coeruleus (descarga noradrenérgica), para o núcleo parabraquial (taquipneia) e para a substância cinzenta periaquedutal (congelamento, fuga).
- A ansiedade antecipatória é sustentada, dirigida a uma ameaça potencial, distante ou imprevisível. O substrato preferencial é o núcleo do leito da estria terminal (BNST), muito sensível ao fator de libertação de corticotropina (CRF), com curso temporal de minutos a horas em vez de segundos.
Esta dissociação explica um facto clínico transversal: os fármacos e as intervenções que atenuam a resposta fásica não são necessariamente os mesmos que atenuam a ansiedade sustentada, e a ansiedade secundária tende a produzir a componente somática sem a componente antecipatória, porque a ativação vem de baixo para cima.
O circuito amígdala-córtex pré-frontal
O córtex pré-frontal ventromedial e o córtex pré-frontal dorsolateral exercem controlo inibitório sobre a amígdala. O ventromedial é o substrato da extinção: aprende que o sinal deixou de prever perigo e suprime a expressão da resposta condicionada, sem apagar a memória original (daí a renovação, a reinstalação e a recuperação espontânea do medo). O córtex cingulado anterior dorsal e a ínsula aumentam a expressão da resposta. O hipocampo dá o contexto: é ele que determina se a resposta extinta reaparece num ambiente diferente daquele onde a extinção ocorreu.
A leitura funcional é simples: nas perturbações de ansiedade encontra-se, de forma geral, hiper-reatividade amigdalina com hipoativação do controlo pré-frontal ventromedial. É este desequilíbrio que a terapia de exposição procura corrigir, reforçando a aprendizagem inibitória.
Os três neurotransmissores que a prova pede
| Sistema | Papel | Tradução clínica |
|---|---|---|
| Noradrenalina (locus coeruleus) | Alerta, vigilância, ativação simpática | Explica taquicardia, tremor, sudorese; explica também porque a privação de opioides e a hiperfunção tiroideia mimetizam ansiedade |
| GABA (recetor GABA-A) | Principal inibitório; modulação por benzodiazepinas, álcool, barbitúricos, neuroesteroides | A tolerância e a regulação para baixo dos recetores explicam a ansiedade de privação |
| Serotonina (rafe → amígdala e pré-frontal) | Modulação bidirecional do medo e da aprendizagem de extinção | Base da eficácia dos ISRS e da latência de semanas; explica a jitteriness inicial |
Acrescenta o glutamato: a plasticidade que sustenta o condicionamento e a extinção depende do recetor NMDA, e a hiperexcitabilidade glutamatérgica é o motor das síndromes de privação.
Porque é que uma substância produz ansiedade
O denominador comum é ativação adrenérgica ou desinibição glutamatérgica, por duas vias opostas.
Por excesso de agonismo ou de estímulo:
- Cafeína: antagonista dos recetores da adenosina A1 e A2A. A adenosina é inibitória e acumula-se com a vigília; bloqueá-la aumenta a libertação de noradrenalina, dopamina e glutamato. O polimorfismo do gene ADORA2A explica porque uma mesma dose deixa uma pessoa desperta e outra em pânico franco.
- Estimulantes (cocaína, anfetaminas, metilfenidato, MDMA): aumento sináptico de dopamina e noradrenalina, com vasoconstrição e taquicardia associadas.
- Corticoides: ação em recetores de glucocorticoides no hipocampo e na amígdala, com alteração do tónus do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal; efeito dose-dependente, mais marcado acima do equivalente a cerca de 40 mg de prednisolona por dia.
- Broncodilatadores beta-2 agonistas e teofilina: o tremor, a taquicardia e a inquietação são efeito farmacológico periférico direto, não uma reação psicológica à doença.
- Hormonas tiroideias em excesso, endógenas ou exógenas: aumentam a densidade e a sensibilidade dos recetores beta-adrenérgicos, potenciando a ação das catecolaminas circulantes mesmo com níveis normais destas.
- Canabinoides em dose alta e canabinoides sintéticos: ansiedade aguda e ideação paranoide, por ação em CB1.
Por privação, isto é, por retirada de um agonista inibitório:
- Álcool e sedativos-hipnóticos: a exposição crónica reduz a função GABA-A e aumenta a expressão de recetores NMDA. Ao cessar o consumo, fica um cérebro desinibido e hiperglutamatérgico, com ansiedade, tremor, taquicardia e risco de convulsão e de delirium. Detalhe nos capítulos do álcool e dos sedativos e hipnóticos.
- Opioides: a retirada desinibe o locus coeruleus, com descarga noradrenérgica maciça. Ver o capítulo dos opioides.
- Cafeína: a privação dá cefaleia, fadiga, humor deprimido e irritabilidade, com início habitual em 12 a 24 horas.
Porque é que uma doença médica produz ansiedade
Três mecanismos, que na prática se sobrepõem:
- Estímulo autonómico direto. O feocromocitoma liberta catecolaminas; a hipoglicémia desencadeia resposta contrarreguladora com adrenalina; a taquidisritmia produz perceção de palpitação. A cascata periférica é indistinguível, ao nível do sintoma, da que a amígdala produziria.
- Sinal interocetivo mal interpretado. A ínsula integra a informação aferente do corpo e compara-a com a previsão. Hipóxia, hipercapnia, acidose, broncoconstrição, isquemia miocárdica e anemia geram um erro de previsão que o cérebro codifica como ameaça. O dióxido de carbono é o exemplo canónico de estímulo interocetivo com efeito ansiogénico direto, por quimiorrecetores centrais e periféricos.
- Lesão ou disfunção do próprio circuito. Na epilepsia do lobo temporal, a descarga origina-se na amígdala e no córtex temporal medial: o medo ictal é o sintoma, não a reação. O défice de vitamina B12 compromete a metilação e a mielinização e produz sintomas neuropsiquiátricos que podem preceder as alterações hematológicas.
⚠️ A consequência prática é o coração deste capítulo: quando a ansiedade nasce de baixo para cima, falta-lhe a cognição. O doente descreve o corpo em alarme, mas não tem tema de preocupação, não tem evitamento estruturado e muitas vezes estranha o próprio sintoma. Esse desencontro entre a intensidade somática e a pobreza do conteúdo cognitivo é o melhor sinal clínico isolado de que a causa está fora da psiquiatria.
Ansiedade de separação e mutismo seletivo: substratos próprios
Na ansiedade de separação, o eixo é a neurobiologia da vinculação: sistemas opioide e oxitocinérgico que sinalizam segurança na proximidade e sofrimento na separação. Existe sobreposição de sensibilidade ao dióxido de carbono com a perturbação de pânico, o que sustenta a hipótese do "falso alarme de sufocação" e explica a comorbilidade elevada entre as duas.
No mutismo seletivo, o substrato de base é o temperamento de inibição comportamental (elevada reatividade a novidade, timidez extrema, tónus vagal baixo), frequentemente com uma vulnerabilidade subtil da linguagem por cima. O silêncio funciona por reforço negativo: reduz a ansiedade imediata, e cada episódio de silêncio bem sucedido torna o seguinte mais provável. O papel dos adultos que falam pela criança e a poupam de responder é, sem intenção, o principal mantenedor do quadro. É por isso que o tratamento é comportamental e é feito no contexto onde o silêncio ocorre, e não numa sala de consulta onde a criança já fala.
A sequência que resolve qualquer vinheta deste tema
Perante um doente com ansiedade, percorre sempre três perguntas por esta ordem:
- Há uma substância ou fármaco a explicar isto? (é a causa mais frequente e a mais barata de excluir: bastam a história e a lista de medicação)
- Há uma doença médica a explicar isto?
- Só então: que categoria primária é?
Inverter a ordem é o erro que a prova pune.
Bandeiras que obrigam a procurar causa médica
| Bandeira | Porquê |
|---|---|
| Primeiro episódio depois dos 40 anos, sem história ansiosa prévia | As perturbações primárias de ansiedade têm pico de início na adolescência e no adulto jovem; o início tardio de novo torna improvável a etiologia primária |
| Ausência de fatores psicossociais e de conteúdo cognitivo | Ansiedade sem tema de preocupação, sem antecipação e sem evitamento estruturado sugere origem periférica |
| Sintomas atípicos | Paroxismos de segundos, sintomas estereotipados idênticos entre si, amnésia do episódio, confusão pós-crítica, incontinência, aura epigástrica ascendente, cefaleia intensa durante a crise |
| Achados no exame objetivo | Bócio, tremor fino, hiper-reflexia, olhar fixo com retração palpebral, taquicardia em repouso e durante o sono, hipertensão paroxística, sopro, sibilos, palidez durante a crise, febre, perda ponderal, sinais neurológicos focais, hipotensão ortostática |
| Relação com estados fisiológicos | Sintomas só em jejum ou 3 a 5 horas após as refeições (hipoglicémia), só ao esforço (isquemia), só no decúbito (insuficiência cardíaca) |
| Ausência de resposta ao tratamento correto | Ansiedade que não cede a psicoterapia bem conduzida e a doses adequadas de ISRS obriga a rever o diagnóstico |
| Idades extremas | Início após os 65 anos é medicamentoso, médico, depressivo ou prodrómico de demência até prova em contrário |
Perturbação de ansiedade devida a outra condição médica (DSM-5-TR)
Critérios, na formulação do DSM-5-TR: (A) predominam ataques de pânico ou ansiedade; (B) há evidência, pela história, exame objetivo ou exames complementares, de que a perturbação é consequência fisiopatológica direta de outra condição médica; (C) não é melhor explicada por outra perturbação mental; (D) não ocorre exclusivamente durante um delirium; (E) causa sofrimento clinicamente significativo ou compromisso funcional. Na CID-11, o mesmo quadro é a síndrome de ansiedade secundária (6E63).
Nota importante: o critério B exige relação fisiopatológica, não apenas coexistência. Um doente com neoplasia que está ansioso porque tem cancro não preenche este diagnóstico; um doente com feocromocitoma que tem crises adrenérgicas preenche.
Tabela de mimetizadores
| Causa médica | O que a denuncia | Primeiro exame |
|---|---|---|
| Hipertiroidismo | Intolerância ao calor, perda de peso com apetite conservado, tremor fino, pele quente e húmida, hiper-reflexia, taquicardia que persiste no sono, bócio, orbitopatia | TSH (com T4 livre) |
| Feocromocitoma / paraganglioma | Paroxismos com a tríade cefaleia + palpitações + sudorese, palidez e não rubor, hipertensão paroxística ou refratária, hipotensão ortostática, incidentaloma suprarrenal | Metanefrinas livres no plasma (colheita em decúbito, cateter colocado 30 minutos antes) ou metanefrinas fracionadas na urina de 24 horas |
| Hipoglicémia | Tremor, sudorese, fome, palpitações e confusão que cedem com hidratos de carbono; tríade de Whipple; relação com jejum, exercício, insulina ou sulfonilureias | Glicémia durante o episódio; se espontânea, insulina, péptido C, pró-insulina e rastreio de sulfonilureias na mesma colheita |
| Arritmias (taquicardia supraventricular, fibrilhação auricular paroxística) | Início e fim abruptos ("interruptor"), frequência regular e muito elevada, poliúria após o episódio, síncope, pré-excitação no ECG basal | ECG de 12 derivações durante a crise; se ausente, Holter, monitor de eventos ou registador implantável |
| Síndrome coronária aguda | Dor com o esforço, irradiação, náusea, sudorese profusa, sensação de morte iminente com fatores de risco vasculares | ECG + troponina de alta sensibilidade |
| Embolia pulmonar | Dispneia súbita, taquicardia, dor pleurítica, hipoxemia, fatores de risco (imobilização, cirurgia, neoplasia, estrogénios, gravidez e puerpério) | Probabilidade clínica (Wells ou Genebra) + D-dímeros ajustados à idade, angio-TC se indicado |
| Asma e DPOC | Dispneia com sibilância, agravamento noturno, gatilhos ambientais, resposta a broncodilatador | Espirometria com prova de broncodilatação; oximetria |
| Epilepsia do lobo temporal | Medo ictal estereotipado e curto (segundos a menos de 2 minutos), aura epigástrica ascendente, déjà-vu, automatismos oro-alimentares, amnésia do episódio, confusão pós-crítica | EEG (com privação de sono e derivações temporais) e RM com protocolo de epilepsia |
| Défice de vitamina B12 | Parestesias, ataxia sensitiva, sinal de Romberg, glossite, queixas cognitivas; risco com metformina, inibidores da bomba de protões, dieta vegetariana estrita, gastrectomia, anemia perniciosa | Vitamina B12; se valor limítrofe, ácido metilmalónico e homocisteína |
⚠️ Duas armadilhas sobre esta tabela. Primeira: a gasimetria não distingue embolia pulmonar de ataque de pânico, porque a hiperventilação ansiosa também produz alcalose respiratória com hipocapnia; o que distingue é a hipoxemia, o gradiente alvéolo-arterial e sobretudo a probabilidade pré-teste. Segunda: não peças metanefrinas por rotina. Numa população de doentes ansiosos, a prevalência de feocromocitoma é ínfima e o valor preditivo positivo é mau; além disso, os inibidores da recaptação da noradrenalina (venlafaxina, duloxetina, antidepressivos tricíclicos), o paracetamol e o labetalol elevam falsamente as normetanefrinas. Elevações acima de quatro vezes o limite superior do normal é que são fortemente sugestivas.
Estudo mínimo razoável
Hemograma, glicémia, ionograma com cálcio, função renal e hepática, TSH, vitamina B12 e ECG de 12 derivações. Tudo o resto é dirigido pela clínica.
⚠️ Regra de escalada, e é a que costuma faltar: ansiedade ou agitação de novo acompanhada de febre, convulsões, movimentos anormais (discinesias orofaciais), disautonomia, alteração ou flutuação da consciência, défice neurológico focal, cefaleia em trovoada ou sintomas psicóticos não é caso para estudo ambulatório. Investiga no próprio dia, com imagem cerebral e, quando indicado, punção lombar e pesquisa de anticorpos anti-recetor NMDA. A encefalite autoimune anti-NMDA começa tipicamente por ansiedade, insónia e alteração do comportamento numa pessoa jovem, e a infeção do sistema nervoso central e a lesão estrutural entram no mesmo raciocínio. Rotular como ansiedade nesta fase é potencialmente fatal e o atraso é irrecuperável.
Perturbação de ansiedade induzida por substância ou medicamento (DSM-5-TR)
O critério que decide é temporal e farmacológico: os sintomas desenvolveram-se durante ou pouco depois de intoxicação, privação ou exposição a um medicamento capaz de os produzir; e não são melhor explicados por uma perturbação de ansiedade independente. A favor de perturbação independente: os sintomas precederam a exposição, ou persistiram por período substancial (na ordem de cerca de um mês) após o fim da intoxicação aguda ou da privação.
Quantifica sempre a cafeína. Um café expresso ronda 60 a 80 mg; uma chávena de café de filtro pode ultrapassar 100 mg; uma lata de 250 mL de bebida energética ronda 80 mg e as apresentações de 500 mL chegam a cerca de 160 mg, e suplementos de pré-treino chegam facilmente a 200 a 300 mg por dose. O DSM-5-TR situa a intoxicação por cafeína habitualmente acima de 250 mg com pelo menos cinco de doze sinais (inquietação, nervosismo, excitação, insónia, rubor facial, diurese, perturbação gastrointestinal, contrações musculares, discurso e pensamento acelerados, taquicardia ou arritmia, períodos de inesgotabilidade, agitação psicomotora). A privação de cafeína é diagnóstico formal no DSM-5-TR; a perturbação do uso de cafeína continua nas condições para estudo futuro.
Interrogatório dirigido, por categorias:
- Estimulantes e afins: cafeína, nicotina, cocaína, anfetaminas, metilfenidato, MDMA, descongestionantes com pseudoefedrina (⚠️ desde 2024 a pseudoefedrina tem contraindicação europeia formal na hipertensão grave ou não controlada e na doença renal grave ou aguda, por casos de síndrome de encefalopatia posterior reversível e de vasoconstrição cerebral reversível; perante cefaleia intensa e de início súbito num doente ansioso que toma descongestionante, pensa nisto e não em ansiedade).
- Medicamentos: corticoides sistémicos, beta-2 agonistas, teofilina, hormonas tiroideias em dose excessiva (levotiroxina), interferão, ISRS na primeira ou segunda semana (jitteriness).
- Privação: álcool (a ansiedade matinal que alivia com o primeiro copo é privação, não perturbação primária), benzodiazepinas (a ansiedade inter-dose, típica das de semivida curta como o alprazolam, é privação em miniatura), opioides, nicotina.
- ⚠️ Acatisia: inquietação motora subjetiva e objetiva induzida por antipsicóticos e por antieméticos antidopaminérgicos (metoclopramida, proclorperazina). É confundida com ansiedade e "tratada" com aumento do antipsicótico, o que a agrava. O que a distingue é o componente motor (incapacidade de permanecer sentado, marcha no lugar, balanceio) e a relação temporal com a introdução ou o aumento do fármaco. ⚠️ A acatisia intensa é um estado de sofrimento associado a ideação suicida e a heteroagressividade: pergunta ativamente por ideação suicida e corrige o fármaco de imediato, em vez de a vigiar como se fosse ansiedade.
Ansiedade de separação no adulto: como se apresenta e porque escapa
Continua a ser subdiagnosticada por inércia histórica: durante décadas foi ensinada como perturbação da infância, e os clínicos não a procuram no adulto. No entanto, cerca de 43% dos casos ao longo da vida têm início depois dos 18 anos, e as estimativas de prevalência ao longo da vida na população adulta rondam os 6%.
No adulto, a "figura de vinculação" é o cônjuge, um progenitor idoso ou um filho. Procura estes marcadores:
- Preocupação persistente e desproporcionada com a possibilidade de perder essa pessoa ou de lhe acontecer algo (acidente, doença).
- Necessidade de saber onde ela está, telefonemas repetidos, dificuldade em dormir sozinho ou fora de casa.
- Recusa de viagens, de turnos noturnos, de deslocações profissionais, de internamento, sempre atribuída a outra razão.
- Sintomas físicos (cefaleia, náusea, dor abdominal) antecipando a separação.
- Pesadelos com tema de separação.
- Duração tipicamente 6 meses ou mais (DSM-5-TR).
Uma pergunta de rastreio útil: "Fica muito angustiado quando tem de estar longe da sua mulher, do seu marido, do seu filho ou dos seus pais, mesmo sabendo que estão bem?". A comorbilidade com pânico e agorafobia é elevada, e a presença de ansiedade de separação prediz pior resposta ao tratamento do pânico, o que a torna clinicamente relevante e não uma curiosidade nosológica.
Mutismo seletivo: o diferencial que a prova pede
| Mutismo seletivo | Perturbação da linguagem | Perturbação do espetro do autismo | Timidez / inibição comportamental | |
|---|---|---|---|---|
| Fala em casa | Normal e fluente | Alterada em todos os contextos | Alterada ou atípica em todos os contextos | Normal |
| Fala na escola | Ausente de forma consistente | Alterada, mas presente | Alterada ou ausente, com padrão qualitativo próprio | Reduzida, mas presente |
| Reciprocidade social e interesse no outro | Preservados (comunica por gesto, sorri, brinca) | Preservados | Comprometidos; interesses restritos, estereotipias | Preservados |
| Contacto visual | Evitante por ansiedade, mas modulado | Normal | Atípico de forma pervasiva | Reduzido, modulado |
| Compromisso funcional | Sim, escolar e social | Sim | Sim | Não, por definição |
Regras de avaliação:
- Exige pelo menos 1 mês, não contando o primeiro mês de escolaridade (DSM-5-TR).
- O critério exclui explicitamente o não falar por desconhecimento ou desconforto com a língua exigida. ⚠️ Numa criança migrante ou bilingue, um período silencioso de meses ao aprender uma segunda língua é normal, e diagnosticar mutismo seletivo nessa fase é erro.
- Não se diagnostica se ocorrer exclusivamente no decurso de uma perturbação do espetro do autismo, de esquizofrenia ou de outra perturbação psicótica; mas pode coexistir com uma perturbação da linguagem, e há que avaliar as duas.
- Avaliação sempre multi-informador (família, escola) e com avaliação auditiva e da linguagem. Uma criança que também não fala em casa não tem mutismo seletivo.
Como codificar a ansiedade com depressão
Se ambos atingem limiar: dois diagnósticos, em qualquer dos sistemas. Se nenhum atinge limiar e o quadro é misto e persistente: CID-11, perturbação depressiva e ansiosa mista (6A73); no DSM-5-TR, que não tem esta categoria, usa-se outra perturbação depressiva ou de ansiedade, especificada ou não especificada. E se houver preocupação persistente com ter uma doença grave, o diagnóstico é perturbação de ansiedade de doença (DSM-5-TR, capítulo das perturbações de sintomas somáticos e relacionadas) ou hipocondria (CID-11, agrupamento obsessivo-compulsivo): ver o capítulo de perturbações somatoformes.
O princípio único: tratar a causa
Numa perturbação de ansiedade secundária, o tratamento é o da doença de base, e o ansiolítico é, quando muito, uma ponte com data marcada. A ansiedade do hipertiroidismo trata-se tratando a tiroide, não com benzodiazepina crónica; a ansiedade do doente com asma mal controlada trata-se otimizando o controlador; a ansiedade das flutuações da doença de Parkinson trata-se ajustando a terapêutica dopaminérgica. Prescrever ansiolítico crónico a estes doentes não é só ineficaz: atrasa o diagnóstico correto e cria um segundo problema.
Causas médicas: o que fazer em cada uma
| Causa | Tratamento dirigido | Alívio sintomático enquanto se aguarda |
|---|---|---|
| Hipertiroidismo | Antitiroideus de síntese, iodo radioativo ou cirurgia, conforme etiologia. ⚠️ O iodo radioativo está contraindicado na gravidez e na amamentação: nessas situações usa-se antitiroideu de síntese (propiltiouracilo no 1.º trimestre, tiamazol depois) e, raramente, cirurgia no 2.º trimestre | Beta-bloqueante (propranolol) para tremor, taquicardia e ansiedade adrenérgica. ⚠️ Se o mesmo doente tiver asma ou DPOC com componente reversível, o propranolol é desaconselhado: usa um cardiosseletivo (bisoprolol, atenolol) na menor dose eficaz, com vigilância, ou prescinde do beta-bloqueante |
| Feocromocitoma | Excisão cirúrgica após preparação | ⚠️ Bloqueio alfa primeiro (fenoxibenzamina ou doxazosina), e só depois beta se necessário para a taquicardia. Um beta-bloqueante isolado provoca vasoconstrição alfa sem oposição e pode desencadear crise hipertensiva. Evitar metoclopramida e antidepressivos tricíclicos |
| Hipoglicémia | ⚠️ Primeiro corrigir o episódio: hidratos de carbono de absorção rápida se o doente colabora, glicose endovenosa se houver acesso, e glucagon intramuscular apenas quando não há via endovenosa. ⚠️ O glucagon depende das reservas hepáticas de glicogénio e é pouco fiável no doente alcoólico, desnutrido, com doença hepática ou em jejum prolongado; na hipoglicémia por sulfonilureia pode ainda desencadear nova libertação de insulina e prolongar o quadro. Se houver suspeita de consumo de álcool ou de desnutrição, dá tiamina parentérica antes da carga de glicose. Só depois rever insulina e sulfonilureias e investigar causa se espontânea. ⚠️ A hipoglicémia por sulfonilureia obriga a vigilância hospitalar prolongada, porque recorre 12 a 24 horas depois de aparentemente resolvida; quando recorre apesar de glicose endovenosa, o antídoto é o octreótido subcutâneo (análogo da somatostatina), que trava a libertação de insulina estimulada pela sulfonilureia e reduz o número de episódios e de bólus de glicose necessários | Educação, ajuste de horários e de dose |
| Arritmia | Tratamento antiarrítmico, ablação quando indicada | Beta-bloqueante conforme a arritmia. ⚠️ Exceto se houver pré-excitação: na fibrilhação auricular pré-excitada (WPW), os bloqueadores do nó auriculoventricular (beta-bloqueantes, verapamilo, diltiazem, digoxina, adenosina) estão contraindicados, porque favorecem a condução pela via acessória e podem precipitar fibrilhação ventricular. Aí a opção farmacológica é a procainamida ou a ibutilida, fármacos de disponibilidade limitada nos hospitais portugueses, pelo que o limiar para cardioversão elétrica sincronizada deve ser baixo, sendo ela a conduta imediata se houver instabilidade |
| Asma / DPOC | Otimizar o controlador. ⚠️ Ansiedade com uso frequente de beta-2 agonista de curta ação é marcador de doença mal controlada: a resposta é subir o controlador com corticoide inalado (esquemas com corticoide inalado e formoterol), não suprimir o broncodilatador nem sedar o doente | Reabilitação respiratória, técnicas de respiração |
| Epilepsia do lobo temporal | Antiepilético adequado ao foco | Não usar ansiolítico crónico como substituto do antiepilético |
| Défice de B12 | Reposição parentérica sempre que há sintomas neurológicos ou má absorção, com cianocobalamina intramuscular, que é a apresentação injetável disponível em Portugal (a hidroxocobalamina é a forma habitual noutros países), reservando a via oral em dose alta para os défices dietéticos ligeiros; tratar a causa. ⚠️ Doseia também o folato e não reponhas folato isolado num défice de B12 ainda não corrigido, sob risco de agravamento neurológico; vigia a hipocaliémia nos primeiros dias de reposição | Rever metformina e inibidores da bomba de protões |
Substâncias e medicamentos
- Cafeína: quantifica e reduz gradualmente (a suspensão abrupta dá cefaleia, fadiga e irritabilidade em 12 a 24 horas, que o doente atribui à ansiedade). Alvo razoável no adulto: manter-se abaixo de cerca de 400 mg por dia, e bem abaixo disso em quem tem sintomas. ⚠️ Na gravidez o limiar é mais baixo, com recomendação habitual de não ultrapassar cerca de 200 mg por dia.
- Corticoides: dose mínima eficaz, toma matinal única, e revisão da indicação. ⚠️ Nunca suspender abruptamente após uso prolongado, pelo risco de insuficiência suprarrenal: desmame programado.
- Beta-2 agonistas e teofilina: rever técnica inalatória e adesão ao controlador antes de atribuir os sintomas a ansiedade primária.
- Levotiroxina: ajustar por TSH; a "ansiedade" pode ser iatrogenia por sobredosagem.
- Estimulantes prescritos: rever dose, formulação e horário.
- Intoxicação por estimulantes ilícitos (cocaína, anfetaminas, MDMA): ambiente calmo, arrefecimento e hidratação, e benzodiazepina como primeira linha para a ansiedade, a agitação, a taquicardia e a hipertensão. É outra exceção legítima à regra de evitar benzodiazepinas. ⚠️ Não usar beta-bloqueante isolado na intoxicação aguda por cocaína, pelo mesmo raciocínio de estimulação alfa sem oposição descrito no feocromocitoma: se for preciso controlar a tensão, preferir nitrato ou fentolamina. Excluir sempre hipertermia, isquemia miocárdica e rabdomiólise.
- Acatisia: reduzir ou trocar o antipsicótico, e usar propranolol como primeira opção sintomática; benzodiazepina de curta duração é alternativa aceitável e transitória. ⚠️ Não aumentar o antipsicótico. ⚠️ O propranolol não serve em toda a gente: evita-o na asma e na DPOC com componente reversível, na bradicardia e na hipotensão, e tem cuidado no diabético sob insulina ou sulfonilureia, porque mascara os sintomas adrenérgicos de aviso da hipoglicémia. Nesses doentes, mirtazapina em dose baixa é a alternativa com melhor evidência.
Privação: a exceção que anula a regra
⚠️ Aqui está o erro mais perigoso deste capítulo. É verdade que as benzodiazepinas devem ser evitadas na ansiedade primária. Mas é falso, e potencialmente letal, aplicar essa regra à privação de álcool ou de sedativos-hipnóticos, onde as benzodiazepinas são o tratamento de eleição e a sua recusa expõe o doente a convulsões e a delirium tremens.
- Privação alcoólica: benzodiazepina em regime guiado por sintomas (com escala do tipo CIWA-Ar), diazepam ou lorazepam conforme a função hepática, com tiamina parentérica administrada antes de qualquer carga de glicose para prevenir encefalopatia de Wernicke. Ver o capítulo do álcool.
- Privação de benzodiazepinas: desmame lento e programado, tipicamente com conversão para uma molécula de semivida longa e reduções percentuais pequenas. Não suspender abruptamente. Ver o capítulo dos sedativos e hipnóticos.
- Privação de opioides: agonistas opioides de substituição ou agonistas alfa-2 para o componente noradrenérgico, sendo a clonidina a molécula desta classe com medicamento comercializado em Portugal (a lofexidina é usada noutros países). Ver o capítulo dos opioides.
Benzodiazepinas: como usar sem criar um problema
Fora das indicações acima, a regra é restritiva: dose mínima, duração curta (da ordem de 2 a 4 semanas, incluindo o desmame), com plano de saída escrito desde a primeira receita. Riscos: tolerância, dependência, ansiedade de rebound, compromisso cognitivo e psicomotor, quedas e fraturas, acidentes de viação, e depressão respiratória quando associadas a opioides ou a álcool. Portugal está entre os países com maior consumo de ansiolíticos e hipnóticos, e a maior parte das prescrições prolongadas começou como prescrição curta.
⚠️ Outras exceções em que a benzodiazepina é apropriada e não deve ser negada por reflexo: catatonia (lorazepam), estado de mal epilético, agitação grave aguda de causa não delirante, sedação periprocedimento e, com critério, o fim de vida. ⚠️ Contrapeso obrigatório: no delirium a benzodiazepina não é primeira linha e tende a agravar a confusão, exceto quando o delirium é de privação de álcool ou de sedativos-hipnóticos, onde continua a ser o tratamento indicado. Perante agitação aguda com flutuação da atenção, trata-se a causa e corrigem-se os fatores precipitantes antes de sedar.
Ansiedade de separação
Adulto:
- Primeira linha psicológica: terapia cognitivo-comportamental com exposição graduada à separação (ficar sozinho em casa, dormir fora, viajar sem contacto contínuo), com redução deliberada dos comportamentos de segurança (telefonemas de verificação, localização por aplicação). Envolver o cônjuge ou o familiar, que frequentemente é parte do circuito de reasseguramento.
- Farmacológica: ISRS (sertralina, escitalopram) quando há compromisso funcional relevante ou insucesso da abordagem psicológica; iniciar em dose baixa pela jitteriness inicial, e manter pelo menos 12 meses após a remissão antes de considerar desmame lento.
- ⚠️ Não recorrer a benzodiazepina de forma continuada: além da dependência, o alívio imediato ao ficar acompanhado ou medicado reforça o próprio circuito de evitamento que a exposição pretende quebrar.
Criança e adolescente:
- Terapia cognitivo-comportamental com envolvimento parental é a primeira linha. Componentes: exposição graduada, reestruturação, treino dos pais para não acomodar (a acomodação familiar é o principal mantenedor).
- Regresso precoce e faseado à escola na recusa escolar por ansiedade de separação: cada dia adicional em casa consolida o evitamento. Articular com a escola.
- ISRS (sertralina, fluoxetina) nos casos moderados a graves ou refratários, preferencialmente combinados com terapia. Vigilância clínica próxima nas primeiras semanas por potencial aumento de ideação suicida em menores de 25 anos.
Mutismo seletivo
- Primeira linha comportamental, aplicada onde o silêncio acontece, tipicamente na escola: stimulus fading (introduzir gradualmente a pessoa nova numa situação em que a criança já fala), shaping (reforçar sucessivamente aproximações: apontar, sussurrar, palavra isolada, frase), gestão de contingências e exposição graduada.
- O que não fazer: pressionar para falar em público, prometer recompensas por falar em situações que a criança ainda não consegue enfrentar, permitir que um adulto ou um irmão responda sempre por ela, ou retirar a exigência de comunicação por completo. Ambos os extremos mantêm o quadro.
- Escola: plano escrito com o professor, aceitação inicial de respostas não verbais como passo intermédio e não como destino, e avaliação alternativa quando necessário.
- Terapia da fala quando coexiste perturbação da linguagem, sem substituir a intervenção comportamental.
- ISRS (fluoxetina, sertralina) nos casos moderados a graves, de maior duração ou sem resposta à intervenção comportamental, como adjuvante e não como alternativa.
Ansiedade mista com depressão
Se ambos os polos atingem limiar, trata-se a depressão (o tratamento antidepressivo cobre os dois) e associa-se psicoterapia. Se se trata de um quadro subliminar persistente (a categoria 6A73 da CID-11, que o DSM-5-TR não reconhece): vigilância ativa, intervenção psicológica de baixa intensidade e revisão em semanas; antidepressivo se houver persistência, agravamento ou compromisso funcional relevante. ⚠️ Em qualquer destes doentes, avalia risco suicidário antes de escolher o fármaco: se houver risco, evita antidepressivos tricíclicos e evita dispensar grandes quantidades de hipnóticos ou de benzodiazepinas, dispensa fracionada, envolve a família e assegura reavaliação próxima.
Duas armadilhas de prescrição
- Prescrever antidepressivo antes de excluir causa médica não é só um atraso diagnóstico: os inibidores da recaptação da noradrenalina (venlafaxina, duloxetina, tricíclicos) elevam falsamente as metanefrinas e podem tornar a investigação subsequente ininterpretável.
- Confundir alívio com tratamento. O beta-bloqueante controla o tremor e a taquicardia do hipertiroidismo, mas não trata a tiroide; a benzodiazepina acalma o doente com embolia pulmonar, e é exatamente por isso que é perigosa antes de o diagnóstico estar feito.
Referências
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7 perguntas sobre Outras perturbações de ansiedade
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