Fobias
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 18 perguntas neste tema
As fobias são medos marcados e desproporcionados ao perigo real, desencadeados por um objeto ou uma situação concretos, que a pessoa evita ou suporta com sofrimento intenso. O DSM-5-TR separa três perturbações: a fobia específica, em que se teme o próprio estímulo (um animal, as alturas, as agulhas, o avião); a perturbação de ansiedade social, em que se teme a avaliação negativa dos outros; e a agorafobia, em que se teme ficar num sítio de onde seria difícil sair ou obter ajuda se surgissem sintomas incapacitantes. Nas três, o medo dura tipicamente 6 meses ou mais, em qualquer idade.
Estão entre as perturbações mentais mais frequentes e de início mais precoce. A fobia específica começa na infância e é cerca de duas vezes mais frequente na mulher; a ansiedade social começa no início da adolescência e atinge cerca de 12% da população ao longo da vida nos Estados Unidos; a agorafobia começa mais tarde, entre o início e o meio dos 20 anos, em regra depois de ataques de pânico, e é hoje um diagnóstico separado da perturbação de pânico. O mecanismo que as mantém é o mesmo: o evitamento alivia de imediato, reforça-se por isso e impede a pessoa de aprender que a catástrofe não acontece.
O diagnóstico é clínico e resolve-se quase sempre com uma pergunta: do que é que a pessoa tem medo, exatamente? A mesma recusa de andar de avião pode ser fobia situacional, agorafobia ou perturbação de pânico, conforme o que se teme. Rastreiam-se sempre a depressão e o consumo de álcool, que é a automedicação mais comum, sobretudo na ansiedade social.
O tratamento central é a exposição gradual, com prevenção do evitamento e retirada dos comportamentos de segurança. Na fobia específica a exposição basta quase sempre e o fármaco não tem lugar; na fobia de sangue, injeção e ferimento, em que a resposta vasovagal bifásica leva ao desmaio, acrescenta-se a tensão aplicada. Na ansiedade social a primeira linha é a terapia cognitivo-comportamental individual e, quando a pessoa prefere medicação, um inibidor seletivo da recaptação da serotonina (ISRS), escitalopram ou sertralina; o propranolol serve apenas a ansiedade de desempenho circunscrita. Na agorafobia junta-se a exposição ao tratamento do pânico. As benzodiazepinas não são tratamento de fundo em nenhuma delas.
O que é uma fobia
Fobia é o medo ou a ansiedade marcados e desproporcionados ao perigo real, provocados de forma quase constante e imediata por um objeto ou uma situação. Três traços a distinguem da ansiedade generalizada:
- a ansiedade é intermitente e confinada às circunstâncias temidas, e fora delas a pessoa pode estar bem;
- essas circunstâncias são evitadas, ou suportadas com sofrimento intenso;
- a simples perspetiva de as encontrar produz ansiedade antecipatória.
O medo tem de causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo do funcionamento. Um medo intenso de cobras em quem vive numa cidade e nunca as encontra não é doença.
As três perturbações fóbicas
| Perturbação | O que se teme | Início típico |
|---|---|---|
| Fobia específica | o próprio objeto ou situação | infância; a situacional no início dos 20 anos |
| Ansiedade social | a avaliação negativa dos outros | início da adolescência |
| Agorafobia | não conseguir escapar nem obter ajuda | início ou meio dos 20 anos, com segundo pico a meio dos 30 |
Classificação
No DSM-5-TR as três são perturbações de ansiedade separadas, e todas pedem que o medo persista tipicamente 6 meses ou mais, em adultos e em crianças. A CID-11 agrupa-as nas perturbações de ansiedade ou relacionadas com o medo (6B02 agorafobia, 6B03 fobia específica, 6B04 ansiedade social) e pede que os sintomas persistam pelo menos vários meses. O antigo nome «fobia social» deu lugar a «perturbação de ansiedade social».
A agorafobia deixou de estar subordinada ao pânico: na CID-10 era «com» ou «sem perturbação de pânico», e hoje quem cumpre os critérios das duas recebe os dois diagnósticos.
Epidemiologia
Na União Europeia, a prevalência em 12 meses ronda os 5% na fobia específica e os 2% na ansiedade social (medianas dos estudos populacionais). As fobias são muito comórbidas entre si, com a depressão e com o uso nocivo de álcool.
O modelo dos dois fatores
Explica ao mesmo tempo como a fobia nasce e porque não desaparece sozinha.
- Aquisição por condicionamento clássico: um estímulo neutro associa-se a uma experiência aversiva e passa a evocar medo.
- Manutenção por condicionamento operante: evitar produz alívio imediato, e esse alívio reforça negativamente o evitamento.
O ponto decisivo é o segundo. Ao evitar, a pessoa nunca vive a experiência que desmentiria o medo, e a extinção fica bloqueada. A exposição não é um exercício de coragem: é a forma de permitir a aprendizagem que o evitamento impede.
Três vias de aquisição
- condicionamento direto, por uma experiência aversiva própria (a fobia de cavalos depois de um cavalo desembestado);
- aprendizagem por observação, quando a criança vê o medo de outra pessoa e aprende a temer o mesmo;
- transmissão de informação, por aviso ou por notícia.
As duas últimas explicam a fobia sem trauma nenhum, que é o caso da maioria. Não vale a pena procurar na história um acontecimento que muitas vezes não existiu.
Preparação biológica
Os medos concentram-se num conjunto pequeno de estímulos (cobras, aranhas, alturas, sangue, espaços fechados) e não recaem sobre objetos modernos objetivamente mais perigosos, como tomadas ou automóveis. A explicação proposta é uma predisposição inata para associar medo ao que foi ameaça ao longo da evolução: essas associações formam-se com poucos ensaios e resistem mais à extinção.
Comportamentos de segurança e cognição
Agarrar-se ao corrimão, levar sempre alguém, ensaiar cada frase, evitar o olhar, trazer o comprimido na carteira sem o tomar: estes comportamentos fazem a pessoa atribuir ao truque o facto de nada ter acontecido, em vez de aprender que nada ia acontecer. A antecipação ansiosa e a atenção seletiva ao estímulo temido mantêm o medo.
Genética e temperamento
As três perturbações fóbicas agregam-se nas famílias e são muito comórbidas; num estudo com gémeas a hereditabilidade variou entre 40 e 60%, com dois fatores genéticos principais, um para a fobia específica e outro para a ansiedade social e a agorafobia. A inibição comportamental na infância, a criança que se retrai sistematicamente perante o que é novo, anuncia o aparecimento de perturbações de ansiedade, em especial a ansiedade social.
Neurobiologia
- A amígdala está hiperativa perante o estímulo temido, e essa hiperatividade diminui com o tratamento eficaz.
- A antecipação do estímulo ativa o cingulado anterior e a ínsula, que representa as sensações do corpo.
- O córtex pré-frontal ventromedial, que regula o sistema límbico e sustenta a extinção, é pouco recrutado.
A extinção não apaga a memória de medo: cria uma aprendizagem nova, inibitória, que compete com ela. Por isso o medo pode reaparecer sob stress, num contexto novo ou com o tempo, e a exposição faz-se em vários contextos e não só no consultório.
Regras gerais
- O diagnóstico é clínico e não há exame que o confirme.
- Pergunta-se pelo conteúdo do medo, pelas situações evitadas, pelos comportamentos de segurança e pela ordem em que os sintomas apareceram.
- Rastreiam-se sempre a depressão, que pode ser a razão por que a pessoa procura ajuda para uma fobia antiga, e o consumo de álcool.
- Ansiedade de novo numa pessoa idosa, sintomas autonómicos atípicos ou consumo de estimulantes obrigam a procurar causa orgânica ou tóxica antes de chamar fobia ao quadro.
O discriminador é o objeto do medo
| Perturbação | Do que se tem medo |
|---|---|
| Fobia específica | do próprio estímulo |
| Ansiedade social | da avaliação negativa dos outros |
| Agorafobia | de não conseguir escapar nem obter ajuda se surgirem sintomas incapacitantes ou embaraçosos |
| Perturbação de pânico | do próximo ataque, que surge sem aviso |
| Ansiedade generalizada | preocupação difusa com vários domínios da vida |
| Stress pós-traumático | do que lembra o trauma, com reexperiência |
| Obsessivo-compulsiva | de uma consequência temida, com ritual que a previne |
| Ansiedade de doença | de ter uma doença grave, sem ligação a situações |
| Psicose | de uma ameaça delirante (perseguição, referência) |
A armadilha do avião
Três pessoas recusam voar por três razões diferentes, e o diagnóstico é diferente nas três:
- quem teme que o avião caia tem fobia específica situacional;
- quem teme ter uma crise dentro do avião e ficar sem poder sair nem ser socorrido tem agorafobia;
- quem teme que o próximo ataque surja sem aviso, no avião ou noutro sítio qualquer, tem perturbação de pânico.
O comportamento evitado é o mesmo nos três. É o conteúdo do medo que decide.
Quando a fobia não é a doença principal
- Na depressão, o isolamento vem da anedonia e da falta de energia, e não do medo.
- Nos sintomas negativos da esquizofrenia falta a iniciativa; nos delírios persecutórios, a pessoa evita os outros porque acredita que a perseguem, e fora da situação mantém a convicção.
- Na obsessivo-compulsiva, o evitamento de facas esconde o pensamento intrusivo de fazer mal a alguém.
Exposição: os princípios comuns
- Hierarquia construída com a pessoa, das situações menos temidas às mais temidas.
- Exposição ao vivo, gradual, repetida e prolongada, com prática diária entre as sessões.
- Prevenção do evitamento: ficar na situação até a ansiedade descer, em vez de sair quando ela sobe.
- Retirada dos comportamentos de segurança, que anulam o efeito da exposição enquanto parecem ajudar.
- Exposição em vários contextos, porque a extinção aprendida num só sítio generaliza mal.
O resultado depende da exposição repetida e prolongada, e até um quarto das pessoas recusa as terapias baseadas em exposição. Explicar o modelo do evitamento antes de começar é o que as mantém no tratamento.
Benzodiazepinas
Não são tratamento de fundo de nenhuma fobia. Criam tolerância e dependência, e o alívio rápido interfere com a exposição: a pessoa atribui a melhoria ao comprimido e não aprende que a situação é segura. O lugar que lhes resta é pontual, para um compromisso inadiável enquanto o tratamento eficaz ainda não atua. A Norma 055/2011 da Direção-Geral da Saúde (DGS) limita o tratamento com benzodiazepinas a 8 a 12 semanas no máximo, incluindo a descontinuação.
Quando não responde
Antes de assumir falência e mudar de fármaco, confirmar como está a ser feita a exposição: se a pessoa sai da situação quando a ansiedade sobe, se mantém comportamentos de segurança, se toma um ansiolítico antes de cada exercício. O erro mais comum não é o fármaco errado, é a exposição mal conduzida. Procurar também depressão e consumo de álcool, que tiram a energia e a motivação para a exposição.
Definição
Medo ou ansiedade marcados perante um objeto ou uma situação concretos, quase sempre imediatos, desproporcionados ao perigo real, com evitamento ou sofrimento intenso, que persistem tipicamente 6 meses ou mais e causam sofrimento ou prejuízo. Nomeia-se pelo estímulo («fobia de aranhas»); os nomes gregos, como aracnofobia ou acrofobia, não acrescentam nada.
Os cinco tipos do DSM-5-TR
| Tipo | Exemplos |
|---|---|
| Animal | cães, aranhas, cobras, insetos |
| Ambiente natural | alturas, trovoada, água |
| Sangue, injeção e ferimento | ver sangue ou uma ferida, agulhas, transfusões, outros cuidados médicos |
| Situacional | aviões, elevadores, espaços fechados, túneis, conduzir |
| Outro | engasgamento, vómito, sons altos ou personagens mascaradas na criança |
É frequente ter mais do que uma fobia específica.
Epidemiologia
- Prevalência ao longo da vida de cerca de 7% nos homens e 17% nas mulheres; na União Europeia, cerca de 5% em 12 meses.
- Entre os 13 e os 18 anos a prevalência ao longo da vida ronda os 20%.
- Início na infância: as fobias de animais começam em média aos 7 anos e a de sangue por volta dos 8; a maioria das situacionais surge no início dos 20 anos.
- A maioria das fobias específicas do adulto é a continuação de uma fobia da infância. Os medos da infância são frequentes e quase todos desaparecem no início da adolescência; os mais graves são os que persistem.
- O medo do tratamento dentário atinge cerca de 5% dos adultos, e nos casos graves a pessoa deixa de ir ao dentista e desenvolve cárie grave.
Genética
Cerca de 31% dos familiares em primeiro grau de uma pessoa com fobia específica têm a mesma perturbação. O que parece herdar-se é a força do condicionamento do medo, cuja hereditabilidade ronda os 40%.
Aprendizagem
Uma minoria de fobias começa no adulto, depois de uma experiência muito stressante com o estímulo. As restantes nascem na infância, por observação ou por informação, e persistem porque o evitamento impede a extinção. A antecipação ansiosa e a atenção seletiva ao estímulo mantêm o medo.
A fisiologia da fobia de sangue, injeção e ferimento
É a exceção fisiológica. Todas as outras fobias produzem ativação simpática sustentada, com taquicardia, subida da tensão arterial e sudorese. Aqui a resposta é vasovagal bifásica: uma taquicardia inicial breve seguida de bradicardia, hipotensão, palidez, tonturas, náuseas e, por vezes, síncope. Estas pessoas têm também maior tendência para a síncope reflexa mesmo sem o estímulo. É por a tensão arterial cair que o tratamento inclui uma manobra que a faz subir.
Fobias com particularidades
- Fobia de engasgamento: medo intenso de engasgar ao engolir, com reflexo do vómito exagerado; começa na infância ou depois de um engasgamento no adulto, e algumas pessoas deixam de comer em público.
- Fobia de voar: pode surgir depois de um incidente em voo, também em pilotos.
- Fobia de doença: pensamentos receosos repetidos de ter cancro ou outra doença grave, que a pessoa reconhece como irracionais e não combate; se estiver convencida de que tem a doença, o quadro é outro (ansiedade de doença).
Perante o estímulo, a pessoa tem os sintomas habituais da ansiedade (palpitações, tremor, sudorese, falta de ar, sensação de irrealidade) e procura fugir; na antecipação, tem ansiedade antecipatória e organiza a vida para não o encontrar. Pode ter ataques de pânico, mas são esperados, sempre ligados ao estímulo. Fora do contacto com ele, está bem.
Na criança, o medo exprime-se por choro, birras, imobilidade ou agarrar-se ao cuidador, e não pelo relato de medo; também não se exige que reconheça o medo como excessivo.
Na fobia de sangue, injeção e ferimento, cerca de 75% das pessoas têm história de desmaio perante o estímulo. A apresentação típica não é uma queixa de medo: é alguém que nunca fez análises, tem vacinas em atraso, desmaiou numa colheita ou evita o dentista há anos.
Critérios do DSM-5-TR
- Medo ou ansiedade marcados perante um objeto ou uma situação específicos.
- O estímulo provoca quase sempre medo imediato.
- É evitado, ou suportado com medo intenso.
- O medo é desproporcionado ao perigo real e ao contexto sociocultural.
- Persiste tipicamente 6 meses ou mais.
- Causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo do funcionamento.
- Não se explica melhor por outra perturbação mental.
Especifica-se o tipo (animal, ambiente natural, sangue, injeção e ferimento, situacional, outro). O diagnóstico raramente é difícil.
Diferencial
| Entidade | O que distingue |
|---|---|
| Agorafobia | medo de duas ou mais situações, pela dificuldade em escapar; uma única situação temida pelo próprio perigo é fobia específica |
| Perturbação de pânico | ataques inesperados, não só perante o estímulo |
| Ansiedade social | o que se teme é o juízo dos outros, e não o objeto |
| Obsessivo-compulsiva | evitamento de objetos (facas) por pensamentos intrusivos de fazer mal, com rituais |
| Stress pós-traumático | o medo liga-se a um trauma, com intrusões e hiperativação |
| Ansiedade de doença | convicção ou preocupação persistente de ter uma doença, sem estímulo concreto |
| Ansiedade de separação | a criança teme afastar-se das figuras de vinculação, e não o objeto |
| Depressão | às vezes é ela que traz a pessoa à consulta por uma fobia antiga que deixou de tolerar |
Exposição
A exposição é o tratamento principal, e a fobia específica é das perturbações mais tratáveis da psiquiatria. Faz-se em várias sessões de cerca de uma hora ou numa sessão única intensiva e prolongada, de cerca de 3 horas, conduzida por terapeuta, que resolve muitos casos. Os tratamentos baseados em exposição são superiores aos outros tipos de terapia, como o relaxamento, e a exposição ao vivo é a mais eficaz a curto prazo. A realidade virtual é alternativa quando a exposição ao vivo é impraticável, sobretudo no medo de voar e das alturas. Com o tratamento a fobia reduz-se muito de intensidade, mas é raro desaparecer por completo.
Fobia de sangue, injeção e ferimento: tensão aplicada
Aqui a exposição sozinha não chega, porque o problema é também hemodinâmico. Acrescenta-se a tensão aplicada:
- contrair com força os músculos dos braços, das pernas e do tronco durante 10 a 15 segundos, até sentir calor na face;
- largar sem relaxar por completo, e fazer uma pausa de 20 a 30 segundos;
- repetir cerca de 5 vezes.
A contração sobe a tensão arterial e contraria a queda vasovagal. Ensina-se e treina-se antes, e aplica-se durante a exposição e nos procedimentos reais. A exposição começa com a pessoa deitada, e só depois progride para sentada. Como sobe a tensão arterial, usa-se com cautela em quem tem hipertensão.
Fármacos
O tratamento farmacológico de fundo não tem lugar na fobia específica. Uma benzodiazepina tomada antes da exposição atrapalha a extinção e reduz o efeito da sessão; o uso aceitável é pontual, para um compromisso inadiável enquanto não começa o tratamento. A D-cicloserina, agonista parcial do recetor NMDA do glutamato que facilita a extinção nos animais, foi estudada para potenciar a exposição e continua a ser investigação.
Complicações
- O evitamento generaliza-se: quem evita elevadores passa a evitar prédios altos, quem evita aviões recusa trabalhos que obrigam a viajar.
- Fobia de sangue, injeção e ferimento: a síncope traz risco de traumatismo craniano e de fratura, e o evitamento recai sobre os cuidados de saúde, com análises adiadas, vacinas em atraso, dádiva de sangue impossível e má adesão a tratamentos que exigem colheitas.
- Fobia dentária: cárie grave e perda de dentes por anos sem tratamento.
- Depressão e uso de álcool ou de benzodiazepinas para aguentar o estímulo.
Prognóstico
As fobias que começam na infância tendem a durar muitos anos; as que começam no adulto depois de um acontecimento stressante têm melhor prognóstico. Com exposição, a maioria melhora muito. No tratamento da fobia dentária, cerca de 77% das pessoas tratadas continuavam a ir ao dentista quatro anos depois.
Criança
Os medos são comuns na infância e quase todos passam sozinhos; trata-se o que persiste, é desproporcionado para a idade e prejudica a vida da criança. A terapia cognitivo-comportamental com exposição graduada é o tratamento recomendado dos 6 aos 18 anos, com envolvimento dos pais, e pode usar a dessensibilização ao vivo, histórias com imagens, a modelação (o adulto mostra-se sem medo) e o reforço positivo. A acomodação dos pais, que dispensam a criança das situações temidas, mantém o problema e é também alvo do tratamento. A academia americana de psiquiatria da criança e do adolescente não inclui a fobia específica nas indicações de ISRS, por falta de estudos.
Procedimentos médicos e gravidez
Perante alguém que falha análises, adia vacinas ou recusa procedimentos, pergunta-se diretamente por medo de agulhas e por desmaios em colheitas antes de concluir que há má adesão. Na grávida, a vigilância pré-natal obriga a colheitas repetidas: a tensão aplicada e as colheitas com a pessoa deitada tornam-nas possíveis.
Definição
Medo ou ansiedade marcados em uma ou mais situações sociais em que a pessoa fica exposta ao escrutínio dos outros: conversar, conhecer pessoas desconhecidas, comer ou beber à frente dos outros, falar ou atuar em público. O que se teme é agir de forma embaraçosa ou humilhante, ou mostrar sintomas de ansiedade (corar, tremer, suar, a voz a falhar) que sejam avaliados negativamente. As situações são evitadas ou suportadas com sofrimento intenso, e o medo persiste tipicamente 6 meses ou mais.
Especifica-se «só de desempenho» quando o medo se limita a falar ou atuar em público. A forma generalizada, com medo de muitas situações sociais, é a mais frequente e a mais incapacitante.
Epidemiologia
- Prevalência ao longo da vida de cerca de 12% nos Estados Unidos, pouco abaixo da fobia específica; na União Europeia, cerca de 2% em 12 meses.
- Entre os 13 e os 18 anos a prevalência ao longo da vida ronda os 9%.
- Nos inquéritos à comunidade é algo mais frequente na mulher; entre quem procura tratamento, os dois sexos surgem com frequência semelhante.
- Começa geralmente no início da adolescência, e é das perturbações psiquiátricas de início mais precoce.
- Só cerca de metade das pessoas afetadas procura tratamento, habitualmente depois de muitos anos de sintomas.
Genética e temperamento
O risco é cerca de quatro vezes maior nos familiares em primeiro grau e baixa com o grau de parentesco. A concordância é de cerca de 24% nos gémeos monozigóticos contra 15% nos dizigóticos, e a hereditabilidade estima-se em cerca de 55%, com pouco peso do ambiente familiar partilhado. A perturbação da personalidade evitante é também mais frequente nestas famílias, o que sugere uma base genética comum. A inibição comportamental da infância é o principal marcador temperamental de risco.
Condicionamento
Muitas vezes a perturbação começa com um episódio súbito de ansiedade numa situação social, e as situações parecidas passam a desencadeá-la, em parte por condicionamento.
O modelo cognitivo
O fator central é o medo da avaliação negativa, acompanhado de:
- padrões excessivamente altos para o próprio desempenho social;
- crenças negativas sobre si próprio («sou aborrecido»);
- atenção focada em si próprio, a vigiar o próprio desempenho e os sinais de ansiedade;
- imagens intrusivas negativas de si próprio visto pelos outros;
- revisão da situação nos dias seguintes à procura do que correu mal.
Os comportamentos de segurança (evitar o olhar, ensaiar frases, segurar o copo com as duas mãos, sentar-se no lugar menos visível) tornam a interação menos natural, confirmam a ideia de que se está a ser observado e impedem a pessoa de verificar que não é julgada como teme.
Neurobiologia
A amígdala responde mais a rostos com expressão negativa, e a antecipação de falar em público ativa a amígdala, o hipocampo e a ínsula, com menos ativação do córtex pré-frontal regulador. A hiperatividade da ínsula, que representa as sensações corporais, pode explicar a preocupação com o corar e o suar.
As situações típicas são restaurantes e cantinas, jantares, reuniões, seminários, apresentações, escrever ou comer à frente dos outros, atender o telefone perante colegas, iniciar uma conversa. A pessoa evita-as ou, não podendo, participa o mínimo: não conversa, senta-se onde menos se nota. A ansiedade antecipatória começa horas ou dias antes, e é muitas vezes confundida com timidez.
Qualquer sintoma de ansiedade pode surgir, mas o corar e o tremor são particularmente frequentes, e a pessoa preocupa-se com que se notem. Sabe que a ideia de estar a ser observada criticamente não tem fundamento, mas não a consegue afastar na situação.
Na criança, a ansiedade tem de surgir com os pares e não apenas com adultos, e pode manifestar-se por choro, birras, imobilidade, agarrar-se ao cuidador, encolher-se ou não conseguir falar.
O uso nocivo de álcool é mais frequente do que nas outras fobias: bebe-se para enfrentar as situações, e a ansiedade social prediz o problema com o álcool. A depressão e as outras perturbações de ansiedade são comórbidas frequentes.
Critérios do DSM-5-TR
- Medo ou ansiedade marcados perante situações sociais com possível escrutínio pelos outros.
- Medo de agir, ou de mostrar sintomas de ansiedade, de forma avaliada negativamente.
- As situações sociais provocam quase sempre medo, e são evitadas ou suportadas com sofrimento.
- O medo é desproporcionado à ameaça real e ao contexto sociocultural.
- Persiste tipicamente 6 meses ou mais, com sofrimento ou prejuízo.
- Não se deve a substância nem a doença médica, e não se explica melhor por outra perturbação; se houver uma doença que chame a atenção (tremor de Parkinson, obesidade, desfiguração por queimadura), o medo é claramente desproporcionado ou não relacionado com ela.
Generalizada ou só de desempenho
A distinção decide o tratamento, e faz-se com uma pergunta: fora de falar ou atuar em público, há outras situações sociais que a pessoa evite? Almoçar com colegas, atender o telefone à frente de outros, ir ao balcão pedir alguma coisa, começar uma conversa. Se há, não é só de desempenho.
Diferencial
| Entidade | O que distingue |
|---|---|
| Timidez normal | é um traço comum, sem sofrimento marcado nem prejuízo social e profissional |
| Personalidade evitante | timidez e falta de autoconfiança pervasivas, desde sempre; muitas pessoas cumprem os critérios das duas |
| Agorafobia e pânico | medo de não escapar ou do próximo ataque; na agorafobia, a multidão incomoda por ser difícil sair, e não pelo julgamento |
| Ansiedade generalizada | preocupações com vários temas, não centradas na avaliação social |
| Depressão | afastamento por anedonia e falta de energia; a pessoa não quer estar com os outros |
| Esquizofrenia | evitamento por delírios persecutórios, mantidos fora da situação; sintomas negativos sem medo |
| Dismorfia corporal | preocupação com um defeito físico percebido |
| Perturbação do espetro do autismo | défice de reciprocidade social em todos os contextos, sem medo da avaliação |
| Défice de competências sociais | falta primária de competência, com ansiedade secundária |
Na ordem pela qual os sintomas surgiram está muitas vezes a resposta, sobretudo entre a ansiedade social e a agorafobia.
O que rastrear sempre
- Depressão e ideação suicida.
- Consumo de álcool e de outras substâncias.
Terapia cognitivo-comportamental
É a primeira linha, segundo a norma do instituto britânico de excelência clínica (NICE, CG159): terapia cognitivo-comportamental individual desenvolvida especificamente para a ansiedade social, com até 14 sessões de 90 minutos ao longo de cerca de 4 meses. Inclui:
- exercícios que mostram o efeito negativo da atenção focada em si próprio e dos comportamentos de segurança;
- gravação em vídeo para corrigir a imagem negativa que a pessoa tem de si;
- treino da atenção dirigida para fora;
- experiências comportamentais na sessão para testar as crenças negativas, com tarefas para casa;
- trabalho sobre as memórias de humilhação social.
A terapia em grupo não se oferece por rotina em vez da individual, porque parece menos eficaz. Se a pessoa recusar a terapia cognitivo-comportamental, oferece-se autoajuda apoiada baseada nos mesmos princípios, e a psicoterapia psicodinâmica breve fica como terceira opção psicológica.
Fármacos
Reservam-se para quem recusa a psicoterapia ou não responde a ela.
- Primeira escolha: um ISRS, escitalopram ou sertralina. O efeito pode demorar até 6 semanas; avisar de que as primeiras semanas podem trazer mais nervosismo e insónia.
- Às 10 a 12 semanas, com resposta parcial: acrescentar a terapia cognitivo-comportamental individual.
- Sem resposta ou com efeitos adversos: outro ISRS (fluvoxamina ou paroxetina) ou a venlafaxina, inibidor da recaptação da serotonina e da noradrenalina (IRSN).
- Depois: um inibidor da monoamina oxidase, como a moclobemida.
- Duração: com resposta nos primeiros 3 meses, manter pelo menos mais 6 meses, porque a recaída é frequente se o fármaco se suspende cedo; reduzir devagar.
O NICE não recomenda por rotina, na ansiedade social do adulto, anticonvulsivantes, tricíclicos, benzodiazepinas nem antipsicóticos.
O propranolol, e o erro clássico
Os bloqueadores beta, como o propranolol, controlam a curto prazo o tremor e as palpitações, que podem ser os sintomas mais incapacitantes na ansiedade de desempenho de músicos, oradores ou atletas. Tomam-se pontualmente antes do evento. Não atuam sobre o medo da avaliação e não há prova de que sirvam na ansiedade social generalizada: prescrevê-los para isso é o erro clássico do tema. Antes de os usar, excluir asma, bradicardia ou bloqueio auriculoventricular e insuficiência cardíaca descompensada.
Benzodiazepinas
Aliviam depressa, mas não se usam por muito tempo, pelo risco de dependência. O único uso razoável é ajudar a cumprir um compromisso social inadiável enquanto o tratamento eficaz não atua.
Complicações
Por começar na adolescência e durar anos sem tratamento, o custo mede-se em trajetória de vida:
- escolaridade abaixo da capacidade, por evitar orais, apresentações e turmas grandes;
- empregos abaixo da qualificação e recusa de promoções que obriguem a falar em público ou a chefiar;
- menos relações estáveis e isolamento que se autoalimenta, porque cada situação evitada torna a seguinte mais difícil;
- depressão, que muitas vezes surge depois de anos de ansiedade social, e uso nocivo de álcool;
- risco de suicídio acrescido quando há depressão ou abuso de substâncias.
Tratar só a depressão deixa a causa em pé.
Prognóstico
Sem tratamento o curso tende à cronicidade e pode prolongar-se até à velhice. Ainda assim, cerca de 30% das pessoas entram em remissão ao fim de um ano e cerca de metade ao fim de alguns anos. O tratamento eficaz existe, e o que mais pesa no prognóstico é o atraso de anos até o procurar.
Criança e adolescente
- O tratamento é a terapia cognitivo-comportamental individual ou em grupo, centrada na ansiedade social; a partir dos 15 anos, com maturidade suficiente, pode usar-se a terapia desenhada para o adulto.
- O NICE não recomenda fármacos por rotina na ansiedade social da criança e do adolescente. A academia americana de psiquiatria da criança e do adolescente recomenda os ISRS dos 6 aos 18 anos quando o prejuízo o justifica, e a associação com a terapia pode ser preferível.
- Os antidepressivos têm aviso de ideação suicida até aos 24 anos (cerca de 1% com antidepressivo contra 0,2% com placebo nos ensaios de ansiedade): vigia-se nos primeiros meses e a cada subida de dose.
- O mutismo seletivo (a criança fala em casa e cala-se na escola) coexiste muitas vezes com a ansiedade social e prediz-na na adolescência e na idade adulta.
- A ansiedade de separação também leva à recusa escolar, mas o medo é de deixar os pais, e não de ser avaliado.
Adulto com ansiedade de desempenho
Músicos, oradores e atletas com medo circunscrito à atuação beneficiam da terapia cognitivo-comportamental, e o propranolol pontual antes do evento é opção legítima para o tremor e as palpitações.
Gravidez
A psicoterapia é a primeira opção. Na mulher que engravida sob ISRS, decide-se com ela entre manter, trocar ou suspender de forma gradual, pesando o risco de recaída.
Definição
Medo ou ansiedade marcados em pelo menos 2 de 5 situações:
- transportes públicos;
- espaços abertos (parques de estacionamento, mercados, pontes);
- espaços fechados (lojas, cinemas, teatros);
- filas ou multidões;
- estar fora de casa sozinho.
A pessoa teme ou evita estas situações por pensar que seria difícil escapar, ou que não teria ajuda, se tivesse sintomas semelhantes aos do pânico ou outros sintomas incapacitantes ou embaraçosos, como o medo de cair na pessoa idosa ou o medo de incontinência. As situações são evitadas, exigem companhia ou são suportadas com medo intenso, e o quadro persiste tipicamente 6 meses ou mais.
A agorafobia é um diagnóstico independente da perturbação de pânico. Pode existir sem ataques de pânico, e quem cumpre os critérios das duas recebe os dois diagnósticos.
Epidemiologia
- Nos Estados Unidos, risco ao longo da vida de cerca de 2,6% (5,2% na perturbação de pânico, com ou sem agorafobia).
- Na Europa, com critérios estritos, a agorafobia sem pânico tem prevalência ao longo da vida de 0,6%; com pequenas variações dos critérios, sobe para 3,4%.
- É duas a três vezes mais frequente na mulher.
- Começa no início ou meio dos 20 anos, com um segundo período de maior incidência a meio dos 30, mais tarde do que as outras fobias.
- Cerca de metade das pessoas com perturbação de pânico na comunidade tem também agorafobia; nas amostras clínicas a agorafobia sem pânico é rara.
O início
A agorafobia começa quase sempre com ansiedade num lugar público, em regra um ataque de pânico: a pessoa está à espera do autocarro ou numa loja cheia, sente-se de repente muito ansiosa sem saber porquê, com palpitações e sensação de desmaio, e foge para casa ou para o hospital, onde melhora depressa. Raramente se encontra um acontecimento que o explique, embora às vezes surja num período de preocupações, depois de uma doença física ou de um parto.
- Hipótese cognitiva: a pessoa teme algum aspeto da situação ou as sensações corporais que ali sente, que interpreta como sinal de catástrofe.
- Hipótese biológica: estímulos casuais atuam sobre alguém constitucionalmente predisposto a reagir em excesso com ansiedade.
Genética
Os filhos de pessoas com perturbação de pânico têm mais risco de pânico, com ou sem agorafobia, mas não de agorafobia isolada; e a agorafobia sem pânico nos pais não aumenta o risco de pânico nos filhos. Isto sugere que a agorafobia pode surgir como consequência do pânico e que a forma sem pânico se transmite como condição à parte.
Alastramento e manutenção
- O condicionamento explica que a ansiedade se ligue a um número crescente de situações, e a aprendizagem por evitamento explica que estas passem a ser evitadas.
- A dependência e o hábito de evitar os problemas são frequentes, embora não se saiba se existiam antes.
- A família pode manter o quadro, quando assume as tarefas que o doente evita e o protege em excesso.
As situações temidas parecem à primeira vista não ter nada em comum, mas partilham três temas: a distância de casa, a multidão e o confinamento. Autocarros e comboios, lojas e supermercados, e lugares de onde não se sai de repente sem chamar a atenção, como a cadeira do cabeleireiro ou um lugar a meio da fila no cinema.
Na situação, a ansiedade traz sobretudo ataques de pânico, esperados ou espontâneos, e pensamentos de desmaiar ou perder o controlo. A ansiedade antecipatória pode surgir horas antes e fazer pensar em ansiedade generalizada. São frequentes os sintomas depressivos e a despersonalização.
A ansiedade baixa na companhia de alguém de confiança, e às vezes de uma criança ou de um cão; esta variação pode fazer pensar, erradamente, que os sintomas são exagerados. Com o tempo o evitamento alarga-se, e nos casos graves a pessoa fica praticamente confinada a casa, cada vez mais dependente do companheiro e da família para as compras e as saídas, com tensão na relação.
Critérios
| DSM-5-TR | CID-11 (6B02) | |
|---|---|---|
| Situações | pelo menos 2 de 5 | várias situações de que seria difícil escapar ou em que não haveria ajuda |
| Porquê | medo de não escapar ou de não ter ajuda perante sintomas de pânico ou outros incapacitantes ou embaraçosos | medo de consequências negativas específicas (ataque de pânico, sintomas incapacitantes ou embaraçosos) |
| Duração | tipicamente 6 meses ou mais | pelo menos vários meses |
| Relação com o pânico | diagnóstico separado; se coexistem, fazem-se os dois | diagnóstico separado |
Diferencial
| Entidade | O que distingue |
|---|---|
| Fobia específica situacional | uma só situação, temida pelo próprio perigo (o avião cair) |
| Ansiedade social | a multidão incomoda pelo julgamento dos outros; perguntar a ordem em que os sintomas surgiram |
| Perturbação de pânico | ataques inesperados em qualquer lugar; se há evitamento de 2 ou mais situações, fazem-se os dois diagnósticos |
| Depressão | não sai por falta de interesse e de energia; às vezes instala-se sobre uma agorafobia antiga e tem de ser tratada |
| Perturbação delirante ou esquizofrenia | evita sair por delírios de perseguição ou de referência, revelados no exame do estado mental |
| Ansiedade generalizada | preocupação difusa; a agorafobia grave pode parecer generalizada por abranger muitas situações |
| Stress pós-traumático | evita o que lembra o trauma |
| Ansiedade de separação | o medo é de se afastar das figuras de vinculação |
Na pessoa idosa, o medo de cair pode ser adequado a uma doença real (marcha instável, quedas prévias); só conta para agorafobia quando é claramente desproporcionado. E uma primeira crise depois dos 45 anos obriga a procurar causa orgânica antes de chamar pânico ou agorafobia ao quadro.
Explicar primeiro
O doente e a família tendem a ver a agorafobia como falta de força de vontade. Ajuda uma explicação em dois tempos: os ataques de pânico são falsos alarmes de um sistema de alarme demasiado sensível, e o evitamento aprende-se por condicionamento. O resultado depende do esforço persistente do doente para vencer o evitamento, e a família deve aprender a não o substituir nas tarefas que ele evita.
Terapia cognitivo-comportamental
É o tratamento de escolha nos casos estabelecidos: exposição gradual ao vivo às situações evitadas, com prática diária, junta à terapia cognitiva dos ataques de pânico e ao abandono dos comportamentos de segurança. Nos casos recentes, encoraja-se com firmeza o regresso às situações evitadas. A curto prazo a terapia cognitiva é tão eficaz como a medicação, e a longo prazo provavelmente mais. Em lista de espera, a exposição pode ser supervisionada pelo médico que referencia, com manuais de autoajuda.
Fármacos
Seguem o tratamento do pânico, mas acompanhados sempre de exposição repetida às situações temidas.
- ISRS como primeira escolha, pela segurança e tolerância; a venlafaxina é alternativa, e a imipramina e a clomipramina são eficazes mas menos bem toleradas.
- Começar em dose baixa, porque as primeiras semanas trazem mais ansiedade.
- Manter vários meses depois da resposta, o que reduz as recaídas; suspender devagar.
- As benzodiazepinas não são recomendadas pelo NICE no pânico com ou sem agorafobia, porque pioram a evolução a longo prazo e podem prejudicar a resposta à terapia; se usadas, é por pouco tempo, dentro do limite de 8 a 12 semanas da DGS.
A maioria melhora com tratamento, mas poucos perdem os sintomas por completo. A recaída é frequente, e o doente deve pedir ajuda cedo se voltar a evitar.
Complicações
- Confinamento a casa e perda do emprego nos casos graves.
- Dependência do companheiro e da família, com dificuldades na relação; o companheiro que se envolve em excesso pode ter dificuldade em largar esse papel, o que complica o tratamento.
- Depressão, frequente no curso da agorafobia crónica; é muitas vezes nesses episódios que a pessoa procura ajuda.
- Uso de álcool e dependência de benzodiazepinas como automedicação.
Prognóstico
Os casos breves vistos nos cuidados de saúde primários podem passar, mas a agorafobia que dura um ano mantém-se geralmente nos cinco seguintes, e o curso habitual é crónico. Sem tratamento, a remissão completa é rara, na ordem dos 10%.
Referências
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- World Health Organization. ICD-11 for mortality and morbidity statistics: 6B02 Agoraphobia; 6B03 Specific phobia; 6B04 Social anxiety disorder. Geneva: World Health Organization; 2024.
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- Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, Keable H, Ramtekkar U, Ripperger-Suhler J, et al. Clinical practice guideline for the assessment and treatment of children and adolescents with anxiety disorders. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2020;59(10):1107-24.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 055/2011, de 27/10/2011, atualizada a 21/01/2015. Tratamento sintomático da ansiedade e insónia com benzodiazepinas e fármacos análogos. Lisboa: DGS; 2015.
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- National Institute for Health and Care Excellence. Antenatal and postnatal mental health: clinical management and service guidance. Clinical guideline CG192. London: NICE; 2014 (atualizada em 2020).
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