Perturbações da personalidade e comportamento do adulto
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema
As perturbações da personalidade são padrões duradouros, pervasivos e inflexíveis de pensar, sentir, relacionar-se e controlar os impulsos, que se afastam do que a cultura da pessoa espera, começam na adolescência ou no início da idade adulta e causam sofrimento ou compromisso do funcionamento. Não são episódios: são a forma habitual de a pessoa estar no mundo, e por isso nunca se diagnosticam a partir de um estado agudo como uma depressão, uma intoxicação ou uma crise.
Atingem cerca de 4 a 16% da população geral e uma proporção muito maior de quem está em contacto com os serviços de saúde mental. O DSM-5-TR descreve dez tipos em três agrupamentos (A, estranhos e excêntricos; B, dramáticos e erráticos; C, ansiosos e temerosos), enquanto a CID-11 abandonou os tipos e faz um diagnóstico único graduado pela gravidade, com domínios de traços e um padrão borderline.
As duas que mais pesam na prática são do agrupamento B. A borderline define-se pela instabilidade das relações, da identidade e do afeto, com impulsividade e autolesão recorrente; o diferencial que mais engana é a perturbação bipolar, e separa-os o humor reativo que muda em horas contra o episódio autónomo de dias a semanas. A antissocial é o desrespeito persistente pelos direitos dos outros, só se diagnostica a partir dos 18 anos e exige perturbação do comportamento antes dos 15.
O tratamento é psicológico e estruturado: na borderline, terapia comportamental dialética, terapia baseada na mentalização ou um modelo generalista bem organizado; os fármacos não tratam a perturbação e ficam para a comorbilidade e para a crise curta. O que não se pode falhar é o risco de suicídio, que é real e não manipulação, e a iatrogenia evitável: benzodiazepinas, polimedicação e internamentos prolongados.
Sob o mesmo título da classificação ficam outras perturbações do comportamento do adulto: as do controlo dos impulsos (piromania, cleptomania, explosiva intermitente), o jogo patológico, que a CID-11 passou para as dependências comportamentais, e as perturbações parafílicas, em que o interesse sexual atípico só é doença quando causa sofrimento ou envolve quem não consente.
Definição
- Padrão duradouro, pervasivo e inflexível de experiência interna e de comportamento, que se desvia do que a cultura da pessoa espera.
- Manifesta-se em pelo menos dois de quatro domínios: cognição, afetividade, funcionamento interpessoal e controlo dos impulsos (DSM-5-TR).
- Começa na adolescência ou no início da idade adulta, é estável no tempo e causa sofrimento ou compromisso social, ocupacional ou de outra área.
- Não se explica por outra perturbação mental, por substâncias nem por doença ou lesão cerebral.
- Na CID-11 exige-se perturbação do funcionamento do self e interpessoal que persiste por um período prolongado, por exemplo 2 anos ou mais.
- É habitualmente egossintónica: a pessoa vive o padrão como o seu modo de ser e sofre sobretudo com as consequências.
Os três agrupamentos do DSM-5-TR
| Agrupamento | Traço comum | Perturbações |
|---|---|---|
| A | estranhos e excêntricos | paranoide, esquizoide, esquizotípica |
| B | dramáticos e erráticos | antissocial, borderline, histriónica, narcísica |
| C | ansiosos e temerosos | evitante, dependente, obsessivo-compulsiva |
Os dez tipos
| Perturbação | O que a define |
|---|---|
| Paranoide | desconfiança pervasiva, lê intenção hostil em atos neutros, guarda rancor, litigante |
| Esquizoide | desapego das relações, frieza afetiva, prefere estar só e está bem assim |
| Esquizotípica | desconforto social, ideias de referência, pensamento mágico, excentricidade, sem delírios |
| Antissocial | desrespeito pelos direitos dos outros, engano, impulsividade, ausência de remorso |
| Borderline | instabilidade das relações, da identidade e do afeto, impulsividade, autolesão |
| Histriónica | emocionalidade excessiva e superficial, procura constante de atenção |
| Narcísica | grandiosidade, necessidade de admiração, falta de empatia |
| Evitante | inibição social por medo da crítica e da rejeição, com desejo de proximidade |
| Dependente | necessidade excessiva de ser cuidado, submissão, medo da separação |
| Obsessivo-compulsiva | ordem, perfeccionismo e controlo à custa da flexibilidade |
Epidemiologia
- Prevalência de qualquer perturbação da personalidade na população geral entre 4 e 16% nos estudos norte-americanos e europeus; num inquérito internacional da Organização Mundial da Saúde, 6,1%.
- Muito mais frequente em quem procura cuidados: cerca de 40% nas equipas comunitárias de saúde mental e 50% nos doentes de consulta externa psiquiátrica; ainda mais na população prisional.
- Na população geral é pelo menos tão frequente nos homens como nas mulheres; a antissocial é 2 a 7 vezes mais frequente no homem.
Genes e ambiente
- A personalidade resulta da interação entre temperamento herdado e experiência. A heritabilidade de traços como a extroversão e o neuroticismo ronda os 35 a 50% nos estudos de gémeos.
- A base genética é poligénica: muitos genes de efeito muito pequeno, em parte partilhados com outras perturbações psiquiátricas. Não há um gene de nenhuma perturbação da personalidade.
- Há também correlação entre genes e ambiente: o temperamento da criança molda as respostas que recebe, e essas respostas moldam-na de volta.
Experiência precoce
- Negligência física grave e abuso físico ou sexual na infância, documentados de forma independente, associam-se às perturbações do agrupamento B.
- A associação não é determinismo: há quem desenvolva a perturbação sem adversidade e quem a sofra sem a desenvolver.
Ligação às perturbações que se parecem com elas
- Esquizotípica: mais frequente nos familiares biológicos de doentes com esquizofrenia, com alterações cerebrais semelhantes às da esquizofrenia. É por isso que a CID a classifica no espectro da esquizofrenia.
- Paranoide e esquizoide: a ligação genética à esquizofrenia é inconsistente ou ausente.
- Obsessivo-compulsiva: componente genético substancial, de natureza desconhecida.
Mudança de personalidade adquirida
Uma mudança marcada e persistente da personalidade na idade adulta não é uma perturbação da personalidade: pode resultar de doença ou lesão cerebral (traumatismo craniano, encefalite, lesão frontal), de doença mental grave ou de uma experiência traumática extrema. O DSM-5-TR chama-lhe alteração da personalidade devida a outra condição médica.
Como se faz
- Avaliação longitudinal, com história desde a adolescência, e informação colateral de familiares ou de quem conhece bem a pessoa.
- Nunca a partir de um estado agudo: depressão, mania, intoxicação ou crise mudam o modo como a pessoa se descreve e é vista. Reavalia-se em estabilidade.
- Avaliar também as qualidades da pessoa: o plano de tratamento apoia-se nelas.
- Os instrumentos estruturados servem sobretudo a investigação e tendem a dar mais positivos do que a avaliação clínica. O diagnóstico é clínico.
- Excluir substâncias e causa orgânica: uma mudança de personalidade de início tardio investiga-se como problema neurológico, com atenção ao lobo frontal.
DSM-5-TR e CID-11
| Elemento | DSM-5-TR | CID-11 |
|---|---|---|
| Modelo | categorial, dez tipos em três agrupamentos | dimensional, sem tipos |
| Diagnóstico | o tipo que melhor descreve o padrão | perturbação da personalidade, graduada em ligeira, moderada ou grave |
| Traços | modelo dimensional alternativo na secção III: afetividade negativa, desapego, antagonismo, desinibição, psicoticismo | domínios de traços: afetividade negativa, desapego, dissocialidade, desinibição, anancastia, e padrão borderline |
| Esquizotípica | perturbação da personalidade | perturbação esquizotípica, no espectro da esquizofrenia |
| Nomes | antissocial, obsessivo-compulsiva, evitante | na CID-10: dissocial, anancástica, ansiosa |
Diagnóstico diferencial
| Pode parecer perturbação da personalidade | O que distingue |
|---|---|
| Perturbação do humor ou de ansiedade | curso episódico, com mudança em relação ao modo habitual de ser |
| Perturbação obsessivo-compulsiva | obsessões e compulsões vividas como estranhas (egodistónicas); na personalidade obsessivo-compulsiva há perfeccionismo e rigidez, sem obsessões nem compulsões, vividos como o modo correto de ser |
| Esquizofrenia e perturbação delirante | psicose franca, com delírios persistentes e deterioração; na paranoide e na esquizotípica não há delírios |
| Fobia social | medo circunscrito a situações sociais, de início identificável; a evitante é pervasiva e desde a adolescência |
| Uso de substâncias | o comportamento surge com o consumo e muda com a abstinência |
| Alteração de personalidade orgânica | início na idade adulta, causa neurológica ou médica |
Princípios
- Os objetivos são modestos e levam tempo: ajudar a pessoa a encontrar um modo de vida que entre menos em conflito com o seu carácter, reduzir o que causa sofrimento e apoiar-se nas qualidades que tem.
- A base é uma relação terapêutica estável e de confiança, com um profissional de referência. Mudanças frequentes de equipa reativam perdas e rejeições e prejudicam mais do que ajudam.
- Evitar a dependência excessiva do serviço; a terapia de grupo pode ajudar a reduzi-la.
- Ajudar a evitar álcool e drogas, que agravam todos os problemas.
- Tratar a comorbilidade, sobretudo a depressão, que é uma causa frequente de agravamento.
Comunicar o diagnóstico
Partilhar o diagnóstico com honestidade e tato, explicando-o com o que a própria pessoa descreve, é uma das intervenções mais úteis. Escondê-lo por receio do estigma deixa-a sem explicação para o que lhe acontece e sem acesso aos tratamentos que existem.
Psicoterapia
- Psicodinâmica ou cognitiva quando a pessoa está motivada e estável o suficiente para se focar no tratamento.
- A evidência concentra-se na borderline e na antissocial.
Fármacos
- Papel pequeno: nunca primeira escolha, e sempre dentro de um plano psicológico e social.
- Ansiolíticos com especial cautela, pelo risco de dependência.
- Antidepressivos sobretudo para a perturbação do humor associada.
Por agrupamento
| Perturbação | O que ajuda |
|---|---|
| Paranoide, esquizoide | aderem mal; objetivos limitados, ajudar a pessoa a perceber os seus problemas e a responder-lhes de forma menos prejudicial; psicoterapia exploratória e fármacos pouco úteis |
| Obsessivo-compulsiva | evitar situações que agravam, melhorar o coping; tratar a depressão associada |
| Evitante | relação terapêutica em que se sinta valorizada; considerar depressão comórbida |
| Dependente | aconselhamento de resolução de problemas, com responsabilidade progressiva; fármacos só se houver depressão |
Suicídio e autolesão
- Há perturbação da personalidade em 40 a 50% das pessoas que morrem por suicídio, segundo alguns estudos, e em quase 50% das que se autolesionam.
- A depressão e o uso de substâncias aumentam o risco de suicídio e a letalidade das crises.
Comorbilidade
A regra é a comorbilidade: depressão, ansiedade, uso de álcool e drogas, perturbações do comportamento alimentar e stress pós-traumático.
Iatrogenia evitável
- Polimedicação acumulada ao longo de anos sem ninguém a rever.
- Dependência de benzodiazepinas.
- Internamentos prolongados.
- Rótulo estigmatizante que bloqueia o acesso a cuidados.
Curso
- As perturbações da personalidade são menos estáveis do que se pensava: nos estudos de seguimento, mais de 50% deixam de cumprir critérios com o tempo.
- Num estudo multicêntrico, em 2 anos remitiram 38% das obsessivo-compulsivas e 23% das esquizotípicas.
- O agrupamento C parece ter melhor prognóstico do que os outros.
- O que persiste mais é o compromisso funcional nas relações e no trabalho.
Adolescente
- O DSM-5-TR permite o diagnóstico antes dos 18 anos quando os traços estão presentes há pelo menos 1 ano; a exceção é a antissocial, que exige 18 anos.
- A CID-11 não diagnostica perturbação da personalidade em crianças pré-adolescentes e, no adolescente, pede limiares mais altos, tendo em conta o que é próprio da idade.
Idoso
Uma mudança de personalidade de novo no idoso obriga a excluir causa orgânica, sobretudo demência e lesão frontal.
Equipa
As reações emocionais de quem trata, e a divisão da equipa entre quem defende e quem se irrita, prejudicam o cuidado. A resposta é organizacional: formação, supervisão, apoio à equipa e um plano partilhado.
Linguagem
Pessoa com perturbação da personalidade, e nunca «uma borderline» ou «um manipulador». O diagnóstico carrega um juízo moral histórico, e o estigma afasta a pessoa dos serviços.
- Padrão pervasivo de instabilidade das relações, da autoimagem e do afeto, com impulsividade marcada, que começa no início da idade adulta.
- Na CID-10 chama-se perturbação da personalidade emocionalmente instável, com um tipo borderline e um tipo impulsivo; na CID-11 é um padrão borderline que se acrescenta ao diagnóstico de perturbação da personalidade.
- Prevalência de pouco menos de 1% da população, mais frequente no adulto jovem.
- As mulheres chegam mais aos serviços, mas nos estudos populacionais a diferença entre sexos é menor.
- É a perturbação da personalidade que mais pesa na prática psiquiátrica e a que tem mais investigação sobre tratamento.
Genética
- Estudos de gémeos estimam uma heritabilidade de 0,65 a 0,76; os familiares em primeiro grau têm cerca de 10 vezes mais probabilidade de ser tratados por perturbação semelhante.
- Mais do que a perturbação, herdam-se traços como a desregulação do afeto e o fraco controlo dos impulsos.
Ambiente
Abuso físico e sexual na infância são relatados com mais frequência, mas não são necessários nem suficientes.
Neurobiologia
Alterações subtis da substância cinzenta pré-frontal e límbica, com desregulação funcional do circuito córtico-límbico que regula as emoções: a amígdala reage mais e o controlo pré-frontal é menor.
Dois modelos e as terapias que deles nascem
- Modelo biossocial: uma vulnerabilidade emocional constitucional encontra um ambiente que invalida a experiência da pessoa, e daí resulta a desregulação emocional. Dele nasce a terapia comportamental dialética.
- Modelo da mentalização: sob ativação do sistema de vinculação, colapsa a capacidade de ler os estados mentais, próprios e alheios, e a pessoa age em vez de refletir. Dele nasce a terapia baseada na mentalização.
Os dois explicam o que se vê: a reatividade dentro das relações, a alternância entre idealizar e desvalorizar, e a dissociação sob stress.
- A vida é dominada por emoções intensas e flutuantes que a pessoa não consegue conter: passa da confiança ao desespero ou à ira em pouco tempo.
- Procura afeto e intimidade, desilude-se com regularidade e esgota os outros com a intensidade das exigências; alterna entre idealizar e desvalorizar.
- Medo do abandono, real ou imaginado, com esforços desesperados para o evitar.
- Identidade insegura e vazio crónico.
- Autolesão frequente, com intenção suicida ou para aliviar a tensão (cortes), e uso de álcool e drogas para embotar as emoções.
- Sob stress, ideação paranoide transitória ou dissociação; podem surgir sintomas psicóticos breves.
- Compromisso importante do funcionamento social, psicológico e ocupacional.
Critérios do DSM-5-TR: cinco de nove
- Esforços desesperados para evitar o abandono, real ou imaginado.
- Relações intensas e instáveis, com alternância entre idealizar e desvalorizar.
- Perturbação da identidade, com autoimagem instável.
- Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente lesivas (gastos, sexo, substâncias, condução, compulsão alimentar).
- Comportamento, gestos ou ameaças suicidas, ou autolesão, recorrentes.
- Instabilidade afetiva por reatividade marcada do humor, com episódios que duram habitualmente horas e raramente mais de alguns dias.
- Sentimento crónico de vazio.
- Ira intensa e desproporcionada, ou dificuldade em controlá-la.
- Ideação paranoide transitória ou sintomas dissociativos graves, relacionados com o stress.
Borderline e bipolar
| Elemento | Borderline | Bipolar |
|---|---|---|
| Humor | reativo a acontecimentos, muda em horas | autónomo, o episódio dura dias a semanas |
| Sono | insónia por angústia | necessidade de sono diminuída, sem cansaço |
| Identidade | instável também fora das crises | preservada entre episódios |
| Gatilho | interpessoal, quase sempre | pode não haver nenhum |
| Curso | padrão persistente desde a adolescência | episódico, com recuperação entre episódios |
As duas podem coexistir. A perturbação bipolar trata-se segundo a sua própria orientação, dentro do plano de tratamento da borderline.
Outros diferenciais
- Depressão: episódica, com humor persistentemente baixo e não reativo às relações hora a hora.
- Stress pós-traumático: revivência e evitamento ligados a um trauma; coexiste com frequência.
- Histriónica, narcísica e antissocial: sobreposição frequente de critérios; na antissocial predomina a exploração dos outros sem remorso, na borderline o sofrimento e o medo do abandono.
- Uso de substâncias: a impulsividade e a instabilidade surgem com o consumo.
Psicoterapia, que é o tratamento
- Terapia comportamental dialética: sessões individuais e de grupo, treino de regulação emocional, mindfulness e confronto direto com os comportamentos lesivos. A NICE (instituto nacional de saúde e excelência clínica do Reino Unido) manda considerar um programa completo nas mulheres em quem reduzir a autolesão recorrente é a prioridade.
- Terapia baseada na mentalização: ajudar a pessoa a perceber os próprios pensamentos e sentimentos antes de agir sobre eles; muitas vezes em hospital de dia, com trabalho individual e de grupo.
- Outras com evidência: terapia focada na transferência e terapia dos esquemas.
- Modelo generalista, para quem não tem acesso a estes programas ou não os aceita: consulta semanal com sessões extra quando necessário, foco na gestão da vida real, terapeuta ativo e validante, fármacos integrados no plano e profissionais com experiência na perturbação.
- O que os tratamentos com evidência têm em comum: estrutura e manual, teoria explícita partilhada com o doente, terapeuta ativo e validante, e supervisão de quem trata.
- Não usar intervenções psicológicas breves, de menos de 3 meses, especificamente para a borderline fora de um serviço com essa estrutura.
Fármacos (NICE CG78)
- Não se usam fármacos especificamente para a borderline nem para os sintomas isolados: autolesão repetida, instabilidade emocional marcada, comportamentos de risco ou sintomas psicóticos transitórios.
- Antipsicóticos não se usam no tratamento a médio e longo prazo.
- As meta-análises mostram efeitos modestos de alguns fármacos na instabilidade afetiva, na impulsividade e nos sintomas cognitivo-percetivos, mas nenhum muda o núcleo da perturbação: o medo do abandono, o vazio e a perturbação da identidade.
- Tratar a comorbilidade (depressão, stress pós-traumático, ansiedade) dentro de um programa estruturado para a borderline.
- Rever quem toma fármacos sem comorbilidade diagnosticada, para reduzir e suspender o que não é necessário.
Crise
- Consultar o plano de crise, feito antes com o doente: gatilhos, estratégias de autogestão e como chegar aos serviços fora de horas.
- Manter uma atitude calma, compreender a crise do ponto de vista da pessoa, validar sem minimizar, estimular a reflexão sobre soluções antes de as oferecer.
- Explorar alternativas antes de internar.
- Sedação de curta duração pode ser considerada com cautela: um único fármaco, com poucos efeitos adversos, pouco aditivo e relativamente seguro em sobredosagem, como um anti-histamínico sedativo, por não mais de 1 semana, na dose mínima eficaz e em pequenas quantidades se houver risco de sobredosagem.
Internamento
- Só para uma crise com risco significativo para o próprio ou para outros que não se consiga gerir de outra forma, ou quando há internamento compulsivo.
- Duração e objetivo combinados antes; voltar ao regime voluntário logo que possível.
Suicídio
- O risco é real: num estudo de seguimento a mortalidade por suicídio foi de 8,5%. Chamar-lhe manipulação é o erro clínico mais caro.
- A autolesão sem intenção suicida regula a emoção e é, ela própria, fator de risco de suicídio futuro.
- A avaliação do risco é contínua e distingue a crise crónica de sempre de um agravamento agudo sobreposto, que muda a conduta.
Prognóstico, que contraria o estigma
- Num seguimento de 10 anos, 88% atingiram remissão: 39% aos 2 anos e mais 22% aos 4 anos.
- Remite menos quem tem uso de substâncias comórbido ou abuso sexual na infância.
- A impulsividade e a autolesão atenuam-se com o tempo; o compromisso funcional nas relações e no trabalho persiste mais.
Adolescente
- Os traços podem identificar-se antes dos 18 anos e o adolescente deve ter acesso aos mesmos tratamentos, nos serviços de saúde mental da infância e da adolescência.
- A transição para os serviços de adultos combina-se com cuidado, para não haver rutura do seguimento.
Parentalidade
Avaliar as necessidades dos filhos dependentes e apoiar a parentalidade, sem estigma e com atenção à segurança da criança.
- Padrão pervasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros: indiferença insensível aos sentimentos alheios, engano, impulsividade, irritabilidade e agressividade, irresponsabilidade, desrespeito pela segurança própria e alheia, e ausência de culpa e de remorso.
- Na CID-10 chama-se perturbação dissocial da personalidade.
- Não é sinónimo de delinquência: nem todos os que a têm entram em conflito com a lei, e nem todos os criminosos a têm.
- 2 a 7 vezes mais frequente no homem.
- A psicopatia não é um diagnóstico do DSM nem da CID: é um constructo da psicologia forense, avaliado por instrumento próprio, que se sobrepõe apenas em parte à antissocial.
- Genes: estudos de gémeos e de adoção mostram heritabilidade do comportamento antissocial no adulto; os genes pesam mais no adulto do que na criança e no adolescente, em que domina o ambiente partilhado.
- Interação entre genes e ambiente: uma variante de baixa atividade da monoamina oxidase A predispõe ao comportamento antissocial no homem, sobretudo quando houve adversidade precoce.
- Cérebro: menos substância cinzenta pré-frontal e amígdala mais pequena, ligada à falta de empatia; menor reatividade a sinais de sofrimento alheio.
- Serotonina: níveis baixos de ácido 5-hidroxi-indolacético no líquido cefalorraquidiano em quem cometeu violência não premeditada.
- Ambiente: abuso físico, parentalidade violenta sem regras consistentes, família antissocial.
- Perturbação do comportamento na infância: só uma minoria das crianças com comportamento antissocial grave o mantém no adulto, mas quase todos os adultos com a perturbação tiveram problemas de comportamento na infância. O risco é maior quando havia mais de um tipo de comportamento antissocial e quando se repetia.
Critérios do DSM-5-TR
- Desrespeito pelos direitos dos outros desde os 15 anos, com pelo menos três de: incumprimento das normas legais, falsidade, impulsividade, irritabilidade e agressividade, desrespeito pela segurança, irresponsabilidade persistente e ausência de remorso.
- Idade de pelo menos 18 anos.
- Evidência de perturbação do comportamento com início antes dos 15 anos.
- Não ocorre apenas durante uma esquizofrenia ou uma perturbação bipolar.
Diferencial
- Comportamento antissocial isolado: um crime não é uma perturbação da personalidade; falta a pervasividade e a história desde a infância.
- Uso de substâncias: o comportamento pode surgir só para obter a substância; as duas coexistem com frequência.
- Mania e esquizofrenia: o comportamento aparece com o episódio.
- Borderline: a impulsividade e a ira existem nas duas, mas a borderline sofre e teme o abandono.
- Identificar as crianças em risco de perturbação do comportamento, a começar pelos pais vulneráveis, se possível ainda na gravidez: pais com doença mental ou problemas graves de álcool ou drogas, mães com menos de 18 anos, pais que estiveram em instituições, pais com contacto relevante com o sistema de justiça.
- Programas de treino parental para as famílias de crianças com problemas de comportamento.
- Encaminhar para os serviços de adultos os jovens com história de perturbação do comportamento ou de contacto com a justiça juvenil.
- Cuidado para não estigmatizar a criança nem a família com o rótulo de antissocial.
- Intervenções cognitivo-comportamentais em grupo, também em quem tem uso de substâncias, dirigidas à impulsividade, às dificuldades interpessoais e ao comportamento antissocial. Nos jovens infratores em instituições, programas de grupo focados em reduzir a reincidência.
- Fármacos não se usam por rotina para a perturbação nem para a agressividade, a ira e a impulsividade associadas.
- Tratar a comorbilidade, sobretudo o uso de álcool e drogas, a depressão e a ansiedade.
- Nos casos de risco elevado, plano de gestão do risco partilhado com os serviços sociais e a justiça.
- Uso de álcool e drogas, violência, detenções, relações instáveis e emprego irregular.
- Parte melhora com a idade, sobretudo na agressividade: cerca de um terço das pessoas com comportamento antissocial persistente no início da idade adulta melhorou mais tarde. Mantém-se, no entanto, a dificuldade nas relações e o risco aumentado de suicídio.
- Não se sabe se a melhoria é maturação ou apenas menos procura de ajuda.
- Falha repetida em resistir a um impulso para um ato que prejudica a pessoa ou os outros, com tensão crescente antes e alívio ou prazer durante ou depois.
- Na CID-10 eram as perturbações dos hábitos e dos impulsos: jogo patológico, piromania, cleptomania e tricotilomania.
| Perturbação | CID-11 |
|---|---|
| Piromania | perturbações do controlo dos impulsos |
| Cleptomania | perturbações do controlo dos impulsos |
| Perturbação explosiva intermitente | perturbações do controlo dos impulsos |
| Comportamento sexual compulsivo | perturbações do controlo dos impulsos |
| Jogo patológico | perturbações por comportamentos aditivos, ao lado da perturbação do jogo eletrónico |
| Tricotilomania | perturbações relacionadas com a obsessivo-compulsiva, entre os comportamentos repetitivos centrados no corpo (também no DSM-5-TR) |
- Tricotilomania: arrancar o cabelo de forma recorrente, com perda de cabelo; cerca de 1 a 2% dos estudantes universitários referem arrancamento problemático.
- O mecanismo comum é o reforço negativo: o ato alivia a tensão e esse alívio torna a repetição mais provável.
- No jogo patológico o mecanismo aproxima-se das dependências de substâncias, com procura de recompensa, tolerância e perda de controlo, e é por isso que a CID-11 o agrupou com elas.
- Comportamentos impulsivos novos no adulto podem ser secundários: os agonistas dopaminérgicos em dose alta usados na doença de Parkinson associam-se a jogo patológico e a comportamentos sexuais anómalos.
- Na tricotilomania há agregação familiar com a obsessivo-compulsiva e com outros comportamentos repetitivos centrados no corpo, como roer as unhas e arrancar a pele.
Os quadros
- Jogo patológico: jogo persistente e recorrente com compromisso significativo; o DSM-5-TR exige pelo menos 4 critérios em 12 meses, como necessidade de apostar cada vez mais, irritabilidade ao tentar parar, voltar para recuperar o perdido, mentir e depender de outros para resolver a situação financeira.
- Cleptomania: roubar objetos de que não se precisa para uso pessoal nem pelo valor, pelo alívio da tensão.
- Piromania: atear fogos de forma repetida, sem motivo de ganho, vingança ou ideologia, com fascínio pelo fogo.
- Perturbação explosiva intermitente: explosões de agressividade verbal ou física desproporcionadas ao que as provoca, seguidas de arrependimento.
Diferencial
| Pode parecer | O que distingue |
|---|---|
| Roubo ou fogo posto com motivo | há ganho, vingança ou intenção; não há o ciclo de tensão e alívio |
| Perturbação da personalidade antissocial | padrão pervasivo, sem culpa; os atos não se limitam a um tipo |
| Mania | o comportamento surge só durante o episódio |
| Demência frontal, lesão cerebral, fármacos dopaminérgicos | início tardio ou ligado a causa orgânica |
| Uso de substâncias | o comportamento aparece com a intoxicação |
- A base é psicológica: terapia cognitivo-comportamental dirigida ao ciclo de tensão e alívio, aos gatilhos e às consequências.
- Tricotilomania: as terapias psicológicas são o tratamento mais validado, sobretudo a reversão de hábitos.
- Tratar a comorbilidade: depressão, ansiedade e uso de substâncias acompanham com frequência.
- Quando o comportamento é secundário a um agonista dopaminérgico, rever a medicação com a neurologia.
- Parafilia é um interesse sexual atípico, intenso e persistente; perturbação parafílica é a parafilia que causa sofrimento ou compromisso à pessoa, ou que envolve dano ou risco de dano a outros.
- Ter uma parafilia não é, por si só, ter uma doença.
- Dividem-se pelo objeto (pedofilia, fetichismo) e pelo ato preferido (exibicionismo, voyeurismo, frotteurismo, masoquismo e sadismo sexual).
- São muito mais frequentes no homem.
- A CID-11 reserva o diagnóstico para os padrões que envolvem quem não consente (exibicionista, voyeurista, pedofílica, sadismo sexual coercivo, frotteurista) ou que causam sofrimento marcado ou risco direto de lesão ou morte. O fetichismo, o travestismo fetichista e o sadomasoquismo consentido deixaram de ser perturbações.
- A causa é desconhecida e nenhuma teoria tem boa evidência.
- Modelos comportamentais: a preferência forma-se por associações e reforços durante o desenvolvimento.
- Há contributo genético para a agressão sexual, com taxas que aumentam com o grau de parentesco.
- Parafilia que começa na meia-idade ou mais tarde pode ser secundária a demência, a outra doença orgânica ou a fármacos, como os agonistas dopaminérgicos em dose alta.
Critérios
- No DSM-5-TR o padrão de excitação tem de durar pelo menos 6 meses.
- Perturbação pedofílica: excitação sexual com crianças pré-púberes, com sofrimento, dificuldade interpessoal ou passagem ao ato; a pessoa tem pelo menos 16 anos e é pelo menos 5 anos mais velha do que a criança. Distingue-se de relações com jovens que já passaram a puberdade mas ainda não têm a idade legal de consentimento.
Avaliação
- Muitas vezes em contexto legal: explicar a relação da entrevista com o processo e os limites da confidencialidade, e obter consentimento.
- Excluir outra perturbação psiquiátrica, sobretudo quando o quadro começa na meia-idade ou mais tarde: demência, alcoolismo ou mania.
- Documentar o comportamento, o seu efeito e a motivação para mudar; um desejo de mudança expresso durante uma depressão pode desaparecer com a melhoria do humor.
- Avaliar o risco imediato: para os outros, a necessidade de comunicar às autoridades, e o risco para o próprio.
- Psicoterapia individual, de casal ou de grupo, de base comportamental ou psicodinâmica.
- Fármacos: inibidores seletivos da recaptação da serotonina; antiandrogénios esteroides sintéticos e análogos da hormona libertadora de gonadotrofinas, escolhidos consoante a gravidade e o risco de dano.
- Reabilitação: aconselhamento, educação e treino de competências sociais.
- A evidência de qualidade é escassa; as formas mais graves são sobretudo da psiquiatria forense.
Referências
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- National Institute for Health and Care Excellence. Borderline personality disorder: recognition and management. Clinical guideline CG78. London: NICE; 2009.
- National Institute for Health and Care Excellence. Antisocial personality disorder: prevention and management. Clinical guideline CG77. London: NICE; 2009 (atualizada em 2013).
- Bach B, First MB. Application of the ICD-11 classification of personality disorders. BMC Psychiatry. 2018;18:351.
- Bateman AW, Gunderson J, Mulder R. Treatment of personality disorder. Lancet. 2015;385(9969):735-743.
11 perguntas sobre Perturbações da personalidade e comportamento do adulto
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
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