Disfunções sexuais
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 12 perguntas neste tema
As disfunções sexuais são dificuldades persistentes numa das fases da resposta sexual, o desejo, a excitação e o orgasmo, ou dor associada ao ato sexual, que causam sofrimento. O DSM-5-TR exige cerca de 6 meses e, na maioria das entidades, presença em 75 a 100% das ocasiões; sem sofrimento não há diagnóstico, e o desejo que só aparece depois da excitação é normal. A exceção é a disfunção induzida por fármacos, que se diagnostica logo que a queixa acompanha o início ou o aumento da dose.
As causas são quase sempre várias ao mesmo tempo: doença vascular, diabetes, hormonas, fármacos, depressão, ansiedade de desempenho e a relação do casal. A queixa situacional, com ereções matinais preservadas, aponta para causa psicogénica; a generalizada e progressiva aponta para causa orgânica. O médico tem de perguntar, porque o doente raramente traz o tema.
A perturbação erétil é a mais estudada. A disfunção endotelial atinge primeiro as artérias penianas, mais finas do que as coronárias, e por isso a queixa pode preceder a doença cardiovascular em alguns anos e obriga a estratificar o risco. Os inibidores da fosfodiesterase 5 são a primeira linha, só funcionam com estimulação sexual e estão contraindicados com nitratos e outros dadores de óxido nítrico. Na ejaculação precoce usam-se técnicas comportamentais, a dapoxetina ou um anestésico tópico; nas perturbações do desejo, do orgasmo e da dor génito-pélvica, a base é a terapia sexual, com dilatadores e fisioterapia do pavimento pélvico na dor.
O que não se pode falhar: o risco cardiovascular por trás da disfunção erétil de novo, o nitrato dado a quem tomou um inibidor da fosfodiesterase 5, o priapismo isquémico que passa das 4 horas e o doente que abandona o antidepressivo ou o antipsicótico por causa da função sexual sem que ninguém lhe tenha perguntado.
Disfunção sexual é a dificuldade persistente numa fase da resposta sexual (desejo, excitação, orgasmo) ou a dor associada ao ato sexual, que causa sofrimento clinicamente significativo. O que é «normal» em frequência ou duração depende em parte das expectativas de cada pessoa, e por isso o sofrimento é parte da definição.
Critérios comuns no DSM-5-TR
- Duração mínima de cerca de 6 meses.
- Na perturbação erétil, na ejaculação precoce, na ejaculação retardada, no orgasmo feminino e na perturbação do interesse e excitação feminina, o problema está presente em quase todas as ocasiões, 75 a 100%.
- Não é melhor explicada por outra perturbação mental, por sofrimento relacional grave (violência do parceiro, por exemplo), por outro fator de stress importante, por uma substância ou por doença médica.
- Especificadores: ao longo da vida ou adquirida; generalizada ou situacional; ligeira, moderada ou grave, pelo sofrimento que causa.
As entidades
| DSM-5-TR | CID-11 (condições relacionadas com a saúde sexual) |
|---|---|
| Perturbação do interesse e excitação sexual feminina | Disfunção do desejo sexual hipoativo; disfunção da excitação sexual feminina |
| Perturbação do desejo sexual hipoativo masculino | Disfunção do desejo sexual hipoativo |
| Perturbação erétil | Disfunção erétil masculina |
| Perturbação do orgasmo feminino | Disfunção orgásmica |
| Ejaculação precoce | Ejaculação precoce masculina |
| Ejaculação retardada | Ejaculação retardada masculina |
| Perturbação de dor génito-pélvica e da penetração | Perturbação de dor sexual e da penetração |
| Disfunção sexual induzida por substância ou medicamento | Qualificador etiológico |
- No DSM-5-TR o desejo e a excitação estão fundidos numa só entidade na mulher e continuam separados no homem.
- O vaginismo e a dispareunia deixaram de ser diagnósticos próprios nos dois sistemas.
- A CID-11 tirou estas condições do capítulo das perturbações mentais e passou-as para um capítulo próprio de saúde sexual. Em vez de separar orgânico de psicogénico, junta qualificadores etiológicos: doença médica, fatores psicológicos ou comportamentais, substância ou medicamento, falta de conhecimento ou experiência, fatores relacionais e fatores culturais.
Epidemiologia
- Em cuidados de saúde primários em Londres, cerca de 22% dos homens e 40% das mulheres cumpriam critérios CID-10 de um problema sexual. Os mais frequentes foram a inibição do orgasmo feminino (19%), a falta de desejo (17% das mulheres e 7% dos homens) e a disfunção erétil (9%).
- A disfunção sexual masculina atinge 10 a 25% dos homens de meia-idade e idosos, e a feminina tem frequência semelhante.
- A maioria dos problemas referidos dura menos de 6 meses: com o critério de duração, a prevalência desce.
Modelos da resposta sexual
- O modelo clássico descreve excitação, planalto, orgasmo e resolução; mais tarde acrescentou-se o desejo à cabeça.
- O modelo circular mostra que, sobretudo na mulher, o desejo é muitas vezes responsivo: surge depois da excitação e da intimidade, e não antes delas.
- Consequência prática: a falta de desejo espontâneo não é doença, e a assexualidade não é disfunção.
Três grupos de causas, quase sempre somados
| grupo | exemplos |
|---|---|
| Biológicas | diabetes (neuropatia autonómica e doença vascular), doença cardiovascular, hiperprolactinemia, hipotiroidismo, menopausa, doença neurológica, cirurgia pélvica, fármacos, álcool e drogas |
| Psicológicas | ansiedade de desempenho, depressão, imagem corporal negativa, experiências sexuais traumáticas |
| Relacionais e socioculturais | conflito ou desigualdade no casal, falta de privacidade, horários desencontrados, proibições religiosas ou papéis de género |
- A depressão tem disfunção sexual em até 50% dos doentes, antes de qualquer fármaco.
- Quase todos os doentes com causa orgânica clara desenvolvem uma componente psicogénica de reação.
O ciclo da ansiedade de desempenho
- A ansiedade leva a vigiar a própria resposta, o que ativa o simpático, contrai o músculo liso e produz a falha, que aumenta a ansiedade seguinte.
- Uma causa orgânica ligeira presa neste ciclo dá uma disfunção desproporcionada, e por isso tratam-se as duas.
Anamnese
- Muitos doentes não trazem o tema: a queixa aparece a propósito de depressão, insónia, sintomas ginecológicos ou de uma aparente má adesão. Perguntar ativamente, sem pressupor orientação, práticas nem estrutura da relação.
- Sempre que possível, ouvir os dois parceiros, em separado e em conjunto.
- Definir o problema: qual a fase atingida, desde quando, se houve um período de função normal, se é generalizado ou só com um parceiro ou numa situação.
- Rever doenças médicas, cirurgias e radioterapia pélvica, doenças mentais, fármacos, álcool, drogas e produtos comprados fora do circuito legal.
- Perguntar porque procura ajuda agora, e o que o casal sabe e receia.
Exame físico
- Sinais de diabetes, de doença da tiroide e de hipogonadismo (distribuição pilosa, ginecomastia, testículos pequenos), pressão arterial, pulsos periféricos, sensibilidade e reflexos.
- No homem, palpar os corpos cavernosos à procura de placas, e os testículos e a próstata.
- Na mulher, examinar os genitais e o pavimento pélvico (atrofia, prolapso, pontos dolorosos).
Diagnóstico diferencial
| situação | o que a distingue |
|---|---|
| Variação normal | desejo responsivo, discrepância de desejo dentro do casal, sem sofrimento |
| Estimulação inadequada | a queixa desaparece com informação e técnica |
| Depressão | anedonia e humor deprimido; a queixa sexual faz parte do episódio |
| Fármaco ou substância | relação temporal com o início ou o aumento da dose |
| Problema relacional grave | a queixa segue o conflito, e não o contrário |
| Doença orgânica | queixa generalizada e progressiva, com outros sinais da doença |
A sequência
- Informação e tranquilização: o problema costuma ter anos quando chega à consulta, e já trouxe ansiedade e desgaste à relação.
- Tratar a causa: diabetes, hipogonadismo, hiperprolactinemia, doença da tiroide, depressão, álcool e drogas.
- Rever os fármacos, sem nunca suspender de forma abrupta um antidepressivo, um antipsicótico ou um anti-hipertensor.
- Tratamento específico: psicológico, farmacológico ou físico, conforme a disfunção.
Terapia sexual
Os quatro traços clássicos:
-
Os dois parceiros são tratados em conjunto.
-
Treina-se a comunicação sobre a relação sexual.
-
Dá-se educação sobre anatomia e fisiologia da resposta sexual.
-
Faz-se uma série graduada de tarefas de foco sensorial: toque estruturado, com a relação com penetração proibida nas primeiras fases. A proibição tira a ansiedade de desempenho e funciona como dessensibilização.
-
As intervenções psicológicas têm efeito moderado, com a melhor evidência no desejo sexual hipoativo e na perturbação do orgasmo na mulher.
- Dificuldade marcada em obter a ereção, em mantê-la até ao fim da atividade sexual ou diminuição marcada da rigidez, em 75 a 100% das ocasiões, durante cerca de 6 meses, com sofrimento.
- Não é parte normal do envelhecimento, mas aumenta com a idade: entre os 40 e os 70 anos, 52% dos homens referem algum grau de disfunção, completa em 10%, e a forma moderada ou grave mais do que duplica nesse intervalo.
- Mais frequente na diabetes (35 a 75% dos diabéticos), obesidade, sintomas do trato urinário inferior por hiperplasia benigna da próstata, doença cardíaca, hipertensão, colesterol HDL baixo, doenças inflamatórias sistémicas, tabagismo, depois de cirurgia ou radioterapia da próstata e na lesão medular.
- No homem mais velho, a diabetes, a aterosclerose e os fármacos explicam mais de 80% dos casos.
Fisiologia da ereção
- A ereção é parassimpática, pelos segmentos S2 a S4. Os nervos libertam óxido nítrico, que ativa a guanilato ciclase e produz GMP cíclico: o cálcio intracelular desce e o músculo liso dos corpos cavernosos relaxa.
- O enchimento dos espaços lacunares comprime as veias emissárias contra a túnica albugínea, e é esse mecanismo veno-oclusivo que mantém a ereção.
- A fosfodiesterase 5 degrada o GMP cíclico. Os inibidores dela só prolongam o sinal: sem óxido nítrico, isto é, sem estimulação sexual, não fazem nada.
- A detumescência é simpática (segmentos T11 a L2), pela noradrenalina nos recetores alfa-1 e pela endotelina.
Três mecanismos de falha
| mecanismo | causas |
|---|---|
| Falha em iniciar | psicogénica, endócrina, neurogénica |
| Falha em encher | arterial: aterosclerose, traumatismo |
| Falha em armazenar | veno-oclusiva, por relaxamento insuficiente do músculo liso ou perda de elasticidade dos corpos |
Causas orgânicas
- Vascular, a mais frequente: disfunção endotelial com menos óxido nítrico. As artérias penianas têm cerca de 1 a 2 mm e as coronárias 3 a 4 mm; a mesma placa torna-se crítica primeiro no vaso pequeno.
- Neurogénica: lesão medular, esclerose múltipla, neuropatia periférica (diabetes, álcool), cirurgia pélvica.
- Endócrina: a testosterona pesa mais no desejo do que na ereção. A prolactina elevada suprime a hormona libertadora de gonadotropinas, baixa a testosterona e o desejo.
- Diabetes: soma doença macrovascular, microvascular e neuropatia, com menos óxido nítrico sintase no endotélio e nos nervos.
Fármacos
Os que mais se associam: diuréticos tiazídicos e betabloqueantes, espironolactona, antidepressivos (inibidores seletivos da recaptação da serotonina, tricíclicos), antipsicóticos, inibidores da 5-alfa-redutase, agonistas da hormona libertadora de gonadotropinas, antiandrogénios, estrogénios, álcool, cocaína e canábis. Os alfabloqueantes, os antagonistas do cálcio e os inibidores da enzima de conversão da angiotensina são citados menos vezes.
- A disfunção erétil induzida por fármacos atinge cerca de 25% dos homens seguidos em consulta de medicina.
- Na psicogénica, o início é súbito e datável, muitas vezes com um evento precipitante (uma relação nova, um fracasso, uma perda); a falha é situacional e o curso flutua.
- Na orgânica, a perda de rigidez é gradual e persistente, em todas as situações, incluindo nas ereções noturnas, matinais e com a masturbação.
- A falta de desejo associada aponta para causa endócrina (testosterona baixa, prolactina alta).
- Curvatura ou dor na ereção aponta para doença de Peyronie.
- Perguntar sempre pelos sintomas do trato urinário inferior, que andam muitas vezes juntos e cujo tratamento mexe com a função sexual.
Orgânica ou psicogénica
| psicogénica | orgânica | |
|---|---|---|
| Início | súbito e datável | insidioso e progressivo |
| Contexto | situacional | generalizado |
| Ereções matinais e noturnas | preservadas | reduzidas ou ausentes |
| Com a masturbação | preservada | afetada |
| Curso | flutuante | estável ou progressivo |
- As ereções noturnas surgem no sono REM e exigem vias neurológicas e circulação intactas. Preservadas apontam para causa psicogénica, mas não excluem doença vascular ligeira, e a sua ausência depende também do sono, da idade e das hormonas.
Laboratório
- Glicemia em jejum ou hemoglobina glicada, perfil lipídico, hemograma e bioquímica.
- Testosterona total colhida de manhã e em jejum. Se estiver baixa, repete-se e doseiam-se as gonadotropinas para distinguir hipogonadismo primário de secundário. Menos de 10% dos homens com disfunção erétil têm défice de testosterona.
- Prolactina, porque o desejo baixo ou a disfunção erétil podem ser a primeira manifestação de um prolactinoma.
- Antigénio específico da próstata, segundo as regras do rastreio.
Exames especiais
Raramente necessários: ecografia Doppler peniana após injeção de substância vasoativa, estudo das ereções noturnas, testes neurológicos. Ficam para dúvida diagnóstica ou para planear cirurgia.
O sinal sentinela
- A disfunção erétil e a doença coronária partilham a disfunção endotelial, e os homens com disfunção erétil têm mais enfarte, clinicamente evidente ou silencioso. A queixa pode preceder a doença cardiovascular em 2 a 5 anos.
- Num homem sem outros sintomas, a disfunção erétil obriga a estratificar o risco cardiovascular: pressão arterial, lípidos, glicemia, tabaco e peso.
- A atividade sexual habitual gasta 2 a 3 equivalentes metabólicos, o mesmo que andar 1,6 km em plano em 20 minutos ou subir dois lanços de escada em passo rápido. Quem não o consegue sem sintomas é estudado e estabilizado antes de retomar a atividade sexual.
Medidas gerais
- Educar o doente e o parceiro, e tratar os fatores de risco: perda de peso, exercício, cessação tabágica, menos álcool. Melhoram a função erétil e o prognóstico cardiovascular.
- Mudar o fármaco suspeito só quando a relação temporal é clara; caso contrário, é mais prático tratar a disfunção.
Inibidores da fosfodiesterase 5
São a primeira linha oral e funcionam em cerca de 70% dos doentes, em causas psicogénicas, vasculares, diabéticas, depois de prostatectomia com preservação de nervos e na lesão medular.
| fármaco | início | janela de efeito | notas |
|---|---|---|---|
| Sildenafil | 30 a 60 minutos | até cerca de 12 horas | a refeição rica em gordura atrasa a absorção; visão azulada transitória em cerca de 7% |
| Vardenafil | 30 minutos | 4 a 5 horas de duração | a refeição gorda atrasa; pode prolongar ligeiramente o QT |
| Tadalafil | 30 minutos | até 36 horas | não é afetado pela comida; toma diária de 2,5 ou 5 mg; lombalgia em cerca de 6% |
| Avanafil | 15 a 30 minutos | curta | o início mais rápido |
- Efeitos adversos da classe: cefaleia (19%), rubor facial (9%), dispepsia (6%) e congestão nasal (4%).
- Doses iniciais mais baixas no idoso, na insuficiência renal, sob alfabloqueante e com inibidores do CYP3A4 (eritromicina, cetoconazol).
- O tadalafil diário de 5 mg trata ao mesmo tempo a disfunção erétil e os sintomas urinários da hiperplasia benigna da próstata.
- Antes de declarar falência: pelo menos 6 dias diferentes com a dose máxima, sem refeição gorda antes, com estimulação sexual, e hipogonadismo excluído.
Contraindicações
- Nitratos, por qualquer via, e outros dadores de óxido nítrico: nicorandil e nitritos inalados de uso recreativo. A soma dá hipotensão grave, potencialmente fatal. Um nitrato só se dá 24 horas depois de sildenafil, vardenafil ou avanafil e 48 horas depois de tadalafil.
- Riociguat, que também faz subir o GMP cíclico.
- Evitar em quem já teve neuropatia ótica isquémica anterior não arterítica, e usar com cautela na doença coronária ativa, na insuficiência cardíaca, na hipotensão ou hipovolemia e nos esquemas anti-hipertensores complexos.
- Com alfabloqueante não há contraindicação, mas o doente tem de estar estável no alfabloqueante antes de começar, e começa em dose baixa.
Segunda linha
- Alprostadilo intracavernoso: eficaz em mais de 70%, mas muitos abandonam pela via de administração; priapismo em cerca de 1%. Contraindicado em quem tem risco de priapismo (drepanocitose, hipercoagulabilidade).
- Alprostadilo intrauretral: ereção em cerca de 65% no consultório e relação com sucesso em cerca de 50% em casa, com muito menos priapismo.
- Dispositivo de vácuo com anel de constrição: ereção suficiente em até 90%, e útil em quem não pode tomar inibidores da fosfodiesterase 5.
- Prótese peniana: para a disfunção refratária, com satisfação alta do doente e do parceiro.
Testosterona
- Só no hipogonadismo confirmado: sintomas e testosterona baixa em doseamentos repetidos. Com testosterona normal não melhora a ereção.
- No hipogonadismo com resposta insuficiente ao inibidor da fosfodiesterase 5, associar os dois pode ajudar.
- Não se inicia em quem quer ter filhos em breve (suprime a espermatogénese), no cancro da próstata ou da mama, com nódulo prostático ou antigénio específico da próstata elevado por estudar, hematócrito elevado, apneia do sono grave não tratada, insuficiência cardíaca descompensada, enfarte ou acidente vascular cerebral nos últimos 6 meses, ou trombofilia.
- Reavaliar aos 3 a 6 meses e depois anualmente, com hemograma e antigénio específico da próstata. Suspende-se enquanto o hematócrito estiver acima de 54%, e para-se se não houver resposta em 3 a 6 meses.
Priapismo
Ereção persistente, sem estimulação sexual, que dura mais de 4 horas.
| isquémico | não isquémico | |
|---|---|---|
| Corpos cavernosos | totalmente rígidos | túrgidos mas não rígidos |
| Glande | mole | mole |
| Dor | típica | rara |
| Sangue aspirado | escuro | vermelho vivo, arterial |
| Gasimetria cavernosa | pO2 abaixo de 30 mm Hg, pCO2 acima de 60 mm Hg, pH abaixo de 7,25 | semelhante ao sangue arterial |
- O isquémico é uma emergência, uma síndrome compartimental do pénis. Causas: injeção intracavernosa, antipsicóticos (cerca de um terço dos casos induzidos por fármacos), trazodona, alfabloqueantes, drepanocitose, leucemia, cocaína, lesão medular.
- O não isquémico é quase sempre pós-traumático e não é urgente.
- Tratamento do isquémico: aspiração dos corpos cavernosos com irrigação com soro fisiológico e fenilefrina intracavernosa de 200 µg a cada 3 a 5 minutos, até 1 mg numa hora, vigiando a pressão arterial. Se falhar ao fim de cerca de uma hora, derivação cirúrgica.
- Tratado nas primeiras 24 horas, 78 a 100% recuperam as ereções espontâneas; a partir das 36 a 48 horas, a disfunção erétil ultrapassa 90%.
Outras complicações
- Produtos para a ereção comprados fora do circuito legal vêm muitas vezes adulterados com inibidores da fosfodiesterase 5 não declarados, perigosos em quem toma nitratos.
- Testosterona sem indicação: eritrocitose, agravamento da apneia do sono e dos sintomas urinários, infertilidade e atrofia testicular.
- Evitamento da intimidade, conflito no casal e depressão secundária.
- Ejaculação precoce: em 75 a 100% das relações, ejaculação cerca de 1 minuto depois da penetração e antes de o homem o desejar, durante pelo menos 6 meses, com sofrimento. Mais frequente no homem jovem e nas primeiras relações.
- Ejaculação retardada: atraso marcado, raridade ou ausência de ejaculação em 75 a 100% das ocasiões, sem que o homem deseje esse atraso. Estimada em cerca de 1% na forma ao longo da vida e 4% na adquirida.
- Ejaculação retrógrada: o sémen segue para a bexiga porque o colo vesical não fecha. Não é disfunção sexual, mas causa infertilidade.
- Anejaculação: ausência total de ejaculação, anterógrada ou retrógrada, habitualmente por lesão do sistema nervoso.
- A ejaculação tem dois tempos. A emissão é simpática: contraem o epidídimo, os canais deferentes, as vesículas seminais e a próstata, com o colo vesical fechado. A expulsão é somática, pelas contrações rítmicas dos músculos do períneo.
- A serotonina inibe a ejaculação. Por isso os antidepressivos serotoninérgicos a atrasam, o que é efeito adverso na depressão e tratamento na ejaculação precoce.
- A ejaculação precoce associa-se a ansiedade e a comportamento aprendido; na forma adquirida, procurar disfunção erétil, prostatite ou problema psicológico.
- A ejaculação retardada é muitas vezes psicológica, mas também é causada por inibidores seletivos da recaptação da serotonina, antipsicóticos, inibidores da monoamina oxidase, lesão medular ou de nervos.
- A ejaculação retrógrada surge com alfabloqueantes, depois de ressecção transuretral da próstata, na diabetes e na lesão medular (neuropatia autonómica), e depois de simpatectomia ou linfadenectomia retroperitoneal.
- O diagnóstico é clínico: a latência estimada pelo próprio chega para decidir.
- Ejaculação precoce adquirida: perguntar sempre pela ereção. O homem com disfunção erétil apressa a ejaculação para não perder a ereção, e trata-se primeiro a ereção.
- Ejaculação retardada: rever fármacos serotoninérgicos e antipsicóticos, e procurar neuropatia.
- Ejaculação retrógrada: orgasmo com pouco ou nenhum sémen, e espermatozoides na urina colhida depois da ejaculação.
Ejaculação precoce
- Técnicas comportamentais: para e recomeça e compressão da glande pelo parceiro quando o orgasmo está próximo, com psicoeducação.
- Dapoxetina 30 ou 60 mg, 1 a 3 horas antes da relação: o único fármaco oral aprovado para esta indicação.
- Anestésico tópico em spray de lidocaína e prilocaína, aprovado na Europa, aplicado 5 minutos antes.
- Fora da indicação: inibidor seletivo da recaptação da serotonina diário ou clomipramina antes da relação. Precisam de uso continuado.
- Com disfunção erétil concomitante, trata-se primeiro a ereção; o inibidor da fosfodiesterase 5 pode associar-se à dapoxetina.
Ejaculação retardada e anejaculação
- Tratar a causa e rever fármacos; terapia sexual. Não há fármaco com boa evidência.
- Na anejaculação com desejo de fertilidade: estimulação vibratória peniana, depois eletroejaculação ou colheita cirúrgica de espermatozoides.
Ejaculação retrógrada
- Trocar o alfabloqueante quando possível. Para a fertilidade, recuperam-se os espermatozoides da urina pós-ejaculatória.
- Perturbação do interesse e excitação sexual feminina: pelo menos 3 de 6 manifestações, durante cerca de 6 meses: interesse ausente ou reduzido; pensamentos ou fantasias sexuais reduzidos; pouca iniciativa e pouca recetividade; pouco prazer ou excitação em 75 a 100% das relações; pouca resposta a estímulos sexuais; pouca sensação genital ou não genital em 75 a 100% das relações.
- Perturbação do desejo sexual hipoativo masculino: pensamentos, fantasias e desejo sexuais persistentemente deficientes ou ausentes, durante cerca de 6 meses. O juízo tem em conta a idade e o contexto sociocultural.
- Perturbação do orgasmo feminino: atraso marcado, raridade ou ausência de orgasmo, ou intensidade muito reduzida, em 75 a 100% das ocasiões.
- A queixa de desejo baixo é muito mais frequente na mulher. Os problemas de desejo e de excitação, incluindo a lubrificação, são os mais frequentes na mulher, e até 43% das mulheres referem pelo menos um problema sexual.
- Muitas mulheres não têm orgasmo com a penetração e têm-no com estimulação do clítoris. Só é perturbação se houver sofrimento.
- A testosterona comanda o desejo, no homem mais do que a ereção. A prolactina elevada baixa a hormona libertadora de gonadotropinas e a testosterona, e com elas o desejo: antipsicóticos que bloqueiam os recetores D2, prolactinoma, hipotiroidismo.
- Na mulher, a resposta sexual precisa de estrogénios. A excitação é mediada pelo parassimpático, com vasocongestão do clítoris e lubrificação vaginal, que é um transudado. O orgasmo precisa da via simpática, e por isso falha muitas vezes na lesão medular.
- A menopausa, com a atrofia vulvovaginal, dá secura e dispareunia, que por sua vez reduzem a excitação e o desejo.
- Contam muito o contexto e o parceiro: conflito, cansaço, falta de privacidade, imagem corporal, depressão, ansiedade e história de abuso.
- Fármacos: antidepressivos, antipsicóticos, antiandrogénios, antiestrogénios e agonistas da hormona libertadora de gonadotropinas, e álcool.
- Perguntas abertas, num ambiente de apoio: muitas mulheres não trazem o tema. Identificar qual o sintoma que mais incomoda.
- Distinguir desejo responsivo normal e discrepância de desejo dentro do casal, que não são doença.
- Rever a história ginecológica e obstétrica, doenças médicas, depressão e ansiedade, e os fármacos.
- Examinar os genitais e o pavimento pélvico.
- Análises conforme o contexto: no homem com desejo baixo, testosterona total matinal e prolactina; na mulher, estradiol, hormona folículo-estimulante e hormona luteinizante quando o estado menopáusico é duvidoso.
- Educação do casal sobre anatomia e resposta sexual, incluindo o papel da estimulação do clítoris.
- Terapia sexual e terapia cognitivo-comportamental, com a melhor evidência no desejo hipoativo e na perturbação do orgasmo feminino; o treino de competências sexuais é o que mais ajuda no orgasmo.
- Tratar a causa: agonista dopaminérgico na hiperprolactinemia, que repõe o desejo e a testosterona; testosterona no homem com hipogonadismo; tratar a depressão.
- Na atrofia vulvovaginal, lubrificantes e hidratantes vaginais, com eficácia comparável ao estrogénio local, ou estrogénio vaginal em dose baixa. Com antecedentes de cancro da mama, preferir a preparação com menor absorção.
- Os inibidores da fosfodiesterase 5 não mostraram benefício na mulher e não se usam.
Dificuldade persistente ou recorrente, durante cerca de 6 meses, em uma ou mais destas: penetração vaginal; dor vulvovaginal ou pélvica marcada na relação ou na tentativa de penetração; medo ou ansiedade marcados perante a dor antecipada; contração marcada dos músculos do pavimento pélvico na tentativa de penetração.
- Junta o que antes eram o vaginismo (espasmo dos músculos vaginais que torna a penetração dolorosa ou impossível, sem causa física) e a dispareunia (dor na relação).
- A dor durante o coito foi referida por 12% das mulheres num inquérito britânico, a maioria por menos de 6 meses.
- Localizar a dor: dor à entrada, depois de penetração parcial, aponta para falta de lubrificação, cicatrizes, lesões dolorosas ou espasmo; dor na penetração profunda sugere doença pélvica, como endometriose, quistos ou tumores do ovário ou infeção pélvica.
- No vaginismo, o espasmo surge logo na tentativa de penetração e, nos casos graves, mesmo quando a própria mulher tenta introduzir um dedo. É muitas vezes parte de uma resposta fóbica.
- Perguntar o que desencadeia o espasmo, pela técnica do parceiro e por experiências sexuais traumáticas.
- Exame ginecológico cuidadoso, ao ritmo da doente, para excluir atrofia, infeção, dermatose vulvar e doença pélvica.
- Tratar a causa orgânica: infeção, atrofia (lubrificantes, estrogénio vaginal), endometriose.
- Terapia sexual com proibição inicial da penetração, abordagem psicológica do medo e dessensibilização gradual: a mulher introduz primeiro o próprio dedo e depois dilatadores de tamanho crescente.
- Fisioterapia do pavimento pélvico quando há contração muscular marcada.
- Há poucos ensaios; o tratamento assenta sobretudo na experiência clínica.
- Disfunção sexual que surge durante ou pouco depois da intoxicação, da exposição ou da suspensão de uma substância ou medicamento capaz de a produzir, e que não se explica melhor por uma disfunção independente.
- É a situação mais frequente em psiquiatria: a disfunção sexual que surge com o antidepressivo atinge 37 a 62% dos doentes tratados.
- É das causas mais frequentes de abandono silencioso da medicação.
| grupo | mecanismo | efeito |
|---|---|---|
| Antidepressivos serotoninérgicos | a serotonina reduz a dopamina, sobe a prolactina e inibe a síntese de óxido nítrico | desejo baixo, orgasmo e ejaculação atrasados ou ausentes, disfunção erétil |
| Antipsicóticos que bloqueiam D2 | hiperprolactinemia | desejo baixo, disfunção erétil e do orgasmo; alguns dão priapismo |
| Estabilizadores do humor e anticonvulsivantes | baixam a testosterona biodisponível | desejo baixo |
| Tiazidas e betabloqueantes | baixam a pressão pélvica | disfunção erétil |
| Inibidores da 5-alfa-redutase, antiandrogénios, espironolactona | bloqueiam os androgénios | desejo baixo, disfunção erétil, menos volume de ejaculado |
| Opioides e álcool | hipogonadismo; o álcool também por neuropatia | desejo baixo, disfunção erétil |
- Entre os inibidores seletivos da recaptação da serotonina, a paroxetina e o escitalopram são os que mais causam. A bupropiona, a mirtazapina e a agomelatina causam pouco.
- Com a finasterida, a ideação suicida foi confirmada como reação adversa pela Agência Europeia do Medicamento em 2025, e os efeitos sexuais podem persistir depois de parar o fármaco. Com a dutasterida a ligação não foi estabelecida, mas o aviso sobre o humor foi acrescentado por precaução.
- A cronologia separa a doença do fármaco. O sintoma que já existia no episódio depressivo é da depressão; o que surge dias a semanas depois de iniciar ou subir a dose, com o humor a melhorar, é do fármaco.
- Perguntar pela função sexual antes de iniciar, para ter base de comparação, e em cada revisão.
- Perante uma aparente má adesão, perguntar pela função sexual antes de concluir que o doente não quer tratar-se.
Por ordem:
- Esperar algumas semanas, se o doente o tolerar: parte dos efeitos atenua-se.
- Reduzir a dose, se o quadro o permitir.
- Trocar por um fármaco com menos efeito sexual (bupropiona, mirtazapina, agomelatina; no antipsicótico, um que poupe a prolactina).
- Associar: inibidor da fosfodiesterase 5 quando a queixa é erétil.
- As interrupções programadas do fármaco para o fim de semana expõem à síndrome de descontinuação e à recaída, e não são estratégia de rotina.
- Nunca suspender de forma abrupta um antidepressivo, um antipsicótico ou um anti-hipertensor.
- A complicação de maior peso é a má adesão silenciosa: o doente suspende sozinho e não conta. Com o antidepressivo, recaída depressiva; com o antipsicótico, recaída psicótica; com o anti-hipertensor, risco cardiovascular.
- Com a depressão há relação nos dois sentidos: a depressão causa disfunção, a disfunção agrava a depressão, e o antidepressivo pode agravar a disfunção.
Cancro
- Depois de prostatectomia radical ou radioterapia pélvica, a recuperação da ereção leva meses; os inibidores da fosfodiesterase 5 funcionam depois da cirurgia com preservação de nervos.
- A privação androgénica retira o desejo, o que um inibidor da fosfodiesterase 5 não resolve.
- A preservação da fertilidade discute-se antes da quimioterapia, da radioterapia ou da hormonoterapia.
- Na mulher contam a menopausa induzida pelo tratamento, a estenose vaginal depois de radioterapia e a imagem corporal depois de mastectomia ou ostomia.
Lesão medular
- Cerca de 75% dos homens com lesão medular mantêm alguma capacidade erétil, mas só 25% têm ereções suficientes para a penetração. As lesões incompletas ou altas preservam mais a ereção do que as completas ou baixas, e o orgasmo feminino falha com frequência.
- A disreflexia autonómica, em lesões acima de T6, é uma subida súbita e marcada da pressão arterial, com rubor facial e cefaleia, desencadeada muitas vezes pela bexiga distendida ou pela estimulação sexual. Senta-se o doente, procura-se e retira-se o estímulo e, se preciso, dá-se um vasodilatador. Se tomou um inibidor da fosfodiesterase 5 dentro da janela, não se usa nitrato.
Diabetes e doença cardiovascular
- Na diabetes, a disfunção erétil é complicação frequente e pode ser das primeiras.
- Na doença cardiovascular, estabilizar primeiro; a atividade sexual pede o esforço de subir dois lanços de escada.
Idoso
- A sexualidade mantém-se: rever a polimedicação, rastrear infeções sexualmente transmissíveis quando há risco e, na demência, avaliar a capacidade de consentir.
Violência sexual
- Perante história de abuso, respeitar o ritmo da pessoa, evitar exames repetidos e orientar para apoio especializado.
Referências
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- Harrison PJ, Cowen P, Burns T, Fazel M. Depression. In: Shorter Oxford textbook of psychiatry. 7th ed. Oxford: Oxford University Press; 2018. p. 219.
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- European Medicines Agency. Finasteride- and dutasteride-containing medicinal products: article 31 referral. Amsterdam: European Medicines Agency; 2025.
12 perguntas sobre Disfunções sexuais
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