Suporte básico de vida pediátrico
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema
A paragem cardiorrespiratória na criança é, na esmagadora maioria dos casos, o desfecho final de uma deterioração respiratória ou circulatória progressiva, e não um evento arrítmico súbito como no adulto. Esta diferença fisiopatológica explica por que razão o algoritmo pediátrico privilegia a oxigenação e começa com cinco insuflações de resgate antes de qualquer compressão. Dominar a sequência do suporte básico de vida pediátrico (SBVP) e a abordagem da obstrução da via aérea por corpo estranho é matéria recorrente no PNA e de aplicação imediata em qualquer contexto assistencial.
A criança tem reserva fisiológica limitada e mecanismos compensatórios que mascaram a gravidade até um ponto de rutura abrupto. Compreender esta fisiopatologia explica cada passo do algoritmo.
Determinantes respiratórios. O consumo de oxigénio por quilograma é cerca do dobro do adulto e a capacidade residual funcional é proporcionalmente menor, pelo que a reserva de oxigénio alveolar se esgota em segundos após a apneia. A via aérea é intrinsecamente vulnerável: occipital proeminente (que flete o pescoço em decúbito dorsal), língua relativamente grande, laringe alta e anterior, epiglote longa e em U, traqueia curta e estreita. Como a resistência ao fluxo é inversamente proporcional à quarta potência do raio (lei de Poiseuille), um edema de 1 mm reduz drasticamente o lúmen numa traqueia infantil. Acresce a complacência torácica elevada com caixa cartilaginosa e diafragma pouco resistente à fadiga, o que torna a insuficiência respiratória rapidamente descompensada.
Determinantes circulatórios. O débito cardíaco do lactente é sobretudo dependente da frequência, porque o miocárdio imaturo tem menos elementos contráteis e limitada capacidade de aumentar o volume sistólico. Por isso a bradicardia é, na criança, um marcador pré-paragem e não apenas um achado de ritmo. A vasoconstrição periférica mantém a pressão arterial praticamente normal até fases tardias do choque, pelo que a hipotensão é sinal terminal.
A cascata comum. Hipoxémia e hipercapnia levam a acidose mista, que deprime a contratilidade, reduz a resposta às catecolaminas e agrava a vasoconstrição pulmonar. Instala-se bradicardia hipóxica mediada por resposta vagal e por depressão direta do nódulo sinusal, com queda do débito, isquemia miocárdica e progressão para assistolia. A PCR é, portanto, o fim de uma espiral hipóxico-isquémica, e não um evento instantâneo.
Consequências práticas. Como o sangue ainda circulante já está dessaturado, restabelecer oxigénio é tão determinante como gerar fluxo: daí as cinco insuflações iniciais (que aumentam a probabilidade de pelo menos duas serem eficazes, dado que as primeiras insuflações vencem forças de tensão superficial e podem ser subótimas) e a relação 15:2. As compressões geram fluxo por combinação de compressão cardíaca direta e de variação da pressão intratorácica; a recuperação completa do tórax entre compressões é o que permite o retorno venoso e a pressão de perfusão coronária, motivo pelo qual o apoio residual sobre o esterno degrada a hemodinâmica tanto quanto a profundidade insuficiente.
A avaliação segue uma sequência fixa, cronometrada e sem passos supérfluos.
1. Segurança. Garantir a segurança do reanimador, da criança e dos circunstantes antes de qualquer abordagem.
2. Avaliar a resposta. Estimulação verbal e tátil (chamar, estimular suavemente os ombros ou a planta do pé no lactente). O ERC desaconselha estímulos dolorosos. Se houver suspeita de traumatismo cervical, evitar mobilizar o pescoço.
3. Pedir ajuda. Gritar por ajuda e ativar o 112, preferencialmente em alta-voz para permitir orientação telefónica sem interromper as manobras. Se estiver só e sem telefone, executar 1 minuto de reanimação antes de se ausentar para pedir ajuda.
4. Permeabilizar a via aérea. Extensão da cabeça e elevação do queixo: posição neutra no lactente e ligeira extensão (posição de cheirar) na criança. Em trauma, subluxação da mandíbula; se não obtiver via aérea permeável, a oxigenação prevalece sobre a proteção cervical.
5. VER, OUVIR e SENTIR, até 10 segundos. Ver movimentos torácicos, ouvir sons respiratórios, sentir o fluxo de ar na face. A respiração agónica (gasping) não é respiração eficaz e deve ser tratada como paragem. Em caso de dúvida, assumir ausência de ventilação.
6. Cinco insuflações de resgate. Ver secção de abordagem.
7. Avaliar sinais de vida, até 10 segundos. Procurar movimento, tosse ou respiração normal. O profissional treinado pode, em paralelo, palpar o pulso: braquial ou femoral no lactente, carotídeo ou femoral na criança. O ERC sublinha que a palpação do pulso é pouco fiável e não deve atrasar as compressões, pelo que a decisão assenta primariamente nos sinais de vida.
Critérios para iniciar compressões: ausência de sinais de vida, ou pulso claramente ausente, ou, segundo as guidelines AHA/AAP 2025 (critério mantido face a 2020), frequência cardíaca inferior a 60/min acompanhada de sinais de má perfusão (palidez, cianose, marmoreado, tempo de repreenchimento capilar prolongado, alteração do estado de consciência) no lactente e na criança pequena.
Diagnóstico diferencial rápido durante a reanimação: hipóxia, hipovolémia, hipotermia, hipo/hipercaliémia e distúrbios metabólicos, e as causas obstrutivas e tóxicas (pneumotórax hipertensivo, tamponamento, tóxicos, tromboembolismo). Na criança, hipóxia e hipovolémia são de longe as mais prováveis.
Cinco insuflações de resgate iniciais. Com a via aérea permeabilizada, aplicar boca-a-boca-e-nariz no lactente e boca-a-boca com oclusão do nariz na criança. Cada insuflação deve durar cerca de 1 segundo e ter volume suficiente para produzir elevação visível do tórax. Se o tórax não elevar, reposicionar a cabeça, verificar a selagem e inspecionar a cavidade oral, removendo apenas obstruções visíveis; nunca fazer varrimento digital às cegas. Com material disponível, insuflador manual com máscara e oxigénio suplementar.
Compressões torácicas. Iniciar se ausência de sinais de vida ou bradicardia com má perfusão.
- Local: metade inferior do esterno, evitando o apêndice xifoide.
- Técnica no lactente: dois polegares a abraçar o tórax, independentemente do número de reanimadores; se o reanimador não conseguir abraçar o tórax, usar o talão de uma mão. A técnica de dois dedos deixou de ser recomendada (AHA/AAP 2025 e RCUK 2025) por não atingir consistentemente a profundidade adequada.
- Técnica na criança: talão de uma ou duas mãos, conforme o tamanho da criança e a força do reanimador.
- Profundidade: pelo menos um terço do diâmetro anteroposterior do tórax, o que corresponde a cerca de 4 cm no lactente e 5 cm na criança, sem exceder 6 cm.
- Frequência: 100 a 120/min.
- Permitir recuo completo do tórax e minimizar interrupções (idealmente abaixo de 5 segundos).
Relação compressões/ventilações.
- 15:2 para qualquer reanimador treinado em SBVP, isolado ou não (ERC/RCUK).
- 30:2 para quem não tem treino pediátrico (leigo ou treinado apenas em SBV de adulto), por ser a sequência que domina; o ERC admite ainda 30:2 no reanimador isolado com dificuldade nas transições.
- Nota: a AHA/AAP 2025 mantém 30:2 no reanimador isolado e 15:2 com dois ou mais reanimadores em doentes pré-pubertários.
- Quem não consegue ou não quer ventilar deve fazer compressões contínuas, o que é claramente melhor do que não fazer nada, embora seja subótimo na paragem hipóxica.
Desfibrilhador automático externo (DAE). Aplicar assim que disponível, com interrupção mínima das compressões. Nas crianças com menos de cerca de 25 kg (aproximadamente 8 anos) usar modo ou elétrodos pediátricos com atenuador de energia se existirem; na sua ausência, usar o DAE de adulto, que é preferível a não desfibrilhar. Posicionamento anteroposterior nas crianças mais pequenas (um elétrodo à esquerda do esterno, outro entre as omoplatas) e anterolateral nas maiores. Seguir as instruções do aparelho e retomar compressões imediatamente após o choque.
Alternância e continuidade. Trocar o reanimador que comprime a cada 2 minutos para evitar degradação da qualidade. Manter a reanimação até sinais de vida evidentes, chegada de equipa diferenciada ou exaustão.
Referências
- Greif R, Lauridsen KG, Djärv T, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Executive summary. Resuscitation. 2025;215(Suppl 1):110770.
- Djakow J, Turner NM, Skellett S, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Paediatric Life Support. Resuscitation. 2025;215(Suppl 1):110767. doi:10.1016/j.resuscitation.2025.110767
- Van de Voorde P, Turner NM, Djakow J, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2021: Paediatric Life Support. Resuscitation. 2021;161:327-387. [edição superada pelo ERC 2025; mantida como referência histórica]
- Resuscitation Council UK. Paediatric Basic Life Support Guidelines. Londres: Resuscitation Council UK; 2025. Disponível em: https://www.resus.org.uk
- Part 6: Pediatric Basic Life Support: 2025 American Heart Association and American Academy of Pediatrics Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Pediatrics. 2026;157(1):e2025074350. doi:10.1542/peds.2025-074350. Publicação simultânea em Circulation, doi:10.1161/CIR.0000000000001370
- Kliegman RM, St Geme JW, Blum NJ, et al. Nelson Textbook of Pediatrics. 22.a ed. Filadélfia: Elsevier; 2024.
- Instituto Nacional de Emergência Médica. Manual de Suporte Básico de Vida Pediátrico. Lisboa: INEM; edição em vigor. Disponível em: https://www.inem.pt
9 perguntas sobre Suporte básico de vida pediátrico
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