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Intoxicações e acidentes

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema

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Em resumo

As intoxicações pediátricas seguem uma distribuição bimodal: exposições acidentais, exploratórias e habitualmente a um único tóxico entre o 1.º e o 5.º ano de vida, e ingestões intencionais, frequentemente com múltiplos fármacos, no adolescente. A abordagem é sempre sindrómica antes de ser etiológica: ABCDE primeiro, identificação do tóxico, dose e tempo decorrido depois, com apoio do Centro de Informação Antivenenos (CIAV) do INEM através da linha gratuita 800 250 250. Este capítulo cobre também os acidentes não intencionais, que permanecem a principal causa de morte evitável na criança em idade escolar.

A criança pequena é particularmente vulnerável por razões toxicocinéticas e toxicodinâmicas: maior relação superfície corporal/peso (absorção cutânea e inalatória relativamente maiores), maior ventilação-minuto por quilograma, imaturidade de sistemas enzimáticos hepáticos e menores reservas de glutationa em contexto de jejum. Daí a máxima de que um só comprimido de adulto pode ser letal num lactente.

Mecanismos por tóxico com maior rendimento examinável:

  • Paracetamol: em sobredosagem esgota-se a conjugação com sulfato e glucuronido; a via do citocromo CYP2E1 gera NAPQI, metabolito eletrofílico normalmente detoxificado pela glutationa. Depletada esta, o NAPQI liga-se covalentemente a proteínas hepatocitárias e causa necrose centrolobular (zona III).
  • Opioides: agonismo dos recetores mu no tronco cerebral, com depressão do drive respiratório, miose e depressão do estado de consciência.
  • Organofosforados e carbamatos: inibição da acetilcolinesterase, com acumulação de acetilcolina e síndrome colinérgica muscarínica e nicotínica. Nos organofosforados ocorre envelhecimento (aging) da enzima, que a torna irreversivelmente inibida, o que justifica a pralidoxima precoce; nos carbamatos a inibição é reversível.
  • Monóxido de carbono: afinidade pela hemoglobina cerca de 200 a 250 vezes superior à do oxigénio, desvio da curva de dissociação para a esquerda e inibição da citocromo c oxidase, com hipóxia tecidular apesar de PaO2 normal.
  • Metanol e etilenoglicol: são pró-toxinas. A álcool desidrogenase converte metanol em formaldeído e ácido fórmico (toxicidade retiniana e do nervo óptico) e etilenoglicol em ácido glicólico e oxalato (lesão tubular renal e hipocalcémia). Daí a lógica do bloqueio enzimático com fomepizol ou etanol.
  • Ferro: efeito corrosivo direto na mucosa gastrintestinal e, sistemicamente, desacoplamento da fosforilação oxidativa com acidose metabólica e choque distributivo.
  • Antidepressivos tricíclicos: bloqueio dos canais rápidos de sódio (alargamento do QRS, arritmias), bloqueio alfa-1 (hipotensão), antimuscarínico e anti-histamínico.
  • Sulfonilureias: estimulação sustentada da secreção de insulina, com hipoglicémia prolongada e recorrente.
  • Cáusticos: os alcalinos produzem necrose de liquefação, com penetração profunda e predomínio esofágico; os ácidos produzem necrose de coagulação, com escara limitante e lesão gástrica preferencial.
  • Hidrocarbonetos: baixa viscosidade e tensão superficial favorecem a aspiração e a pneumonite química, muito mais relevante do que a toxicidade sistémica.

A avaliação começa pela estabilização segundo o ABCDE, com atenção específica à proteção da via aérea na depressão do estado de consciência e à glicémia capilar em qualquer criança com alteração neurológica. Só depois se investe na identificação do tóxico.

História dirigida (frequentemente o exame mais rentável): que substância, que dose máxima possível (assumir sempre o pior cenário, por exemplo a embalagem inteira), a que horas, por que via, o que foi feito até à observação e que fármacos existem em casa, incluindo os de visitantes. Discordância entre a história e o quadro clínico, intoxicação em lactente com menos de 1 ano ou episódios repetidos devem levantar a hipótese de maus tratos ou negligência.

Reconhecimento de toxidromes, através de pupilas, pele, temperatura, peristaltismo e estado de consciência:

  • Colinérgico: miose, sialorreia, broncorreia, bradicardia, fasciculações.
  • Anticolinérgico: midríase, pele seca e ruborizada, hipertermia, retenção urinária, delírio.
  • Simpaticomimético: midríase, taquicardia, hipertensão, diaforese (que o distingue do anticolinérgico).
  • Opioide: miose puntiforme, bradipneia, coma.
  • Sedativo-hipnótico: depressão do estado de consciência com sinais vitais relativamente preservados.

Estudo complementar orientado: gasimetria com lactato, ionograma com cálculo do hiato aniónico, glicémia, função renal e hepática, coagulação. A acidose metabólica com hiato aniónico elevado aponta para metanol, etilenoglicol, salicilatos, ferro, metformina ou cianeto. O hiato osmolar elevado sugere álcoois tóxicos em fase precoce, antes da conversão nos ácidos correspondentes.

Exames específicos com valor de decisão:

  • Paracetamolémia às 4 horas pós-ingestão (ou o mais cedo possível depois disso), interpretada no nomograma de Rumack-Matthew. A linha de tratamento clássica parte de 150 mg/L às 4 horas; em vários países europeus adota-se um limiar mais conservador, de 100 mg/L às 4 horas. Não é interpretável em ingestões escalonadas ou de tempo desconhecido, situações em que se trata empiricamente.
  • ECG de 12 derivações: procurar QRS superior a 100 ms (bloqueio de canais de sódio) e prolongamento do QT.
  • Carboxi-hemoglobina por co-oximetria: a oximetria de pulso convencional não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina.
  • Radiografia simples: útil para comprimidos radiopacos (ferro, sais de metais pesados), pilhas de botão e ímanes.

Os rastreios toxicológicos urinários têm baixo rendimento e raramente alteram a conduta: detetam classes, não doses, dão falsos positivos e negativos e não cobrem muitos dos agentes clinicamente relevantes.

A prevenção é a intervenção com maior impacto neste tema e é matéria recorrente de exame, sobretudo sob a forma de aconselhamento antecipatório na consulta de saúde infantil.

Intoxicações

  • Embalagens com fecho resistente a crianças (child-resistant) para medicamentos e produtos de limpeza. Resistente não significa à prova de criança: o dispositivo atrasa, não impede.
  • Armazenamento em altura, em armário fechado, fora do alcance e da vista. Os produtos de limpeza no armário debaixo do lava-loiça são um cenário clássico.
  • Nunca transferir produtos químicos para garrafas de bebidas ou recipientes alimentares, prática associada a ingestões graves de cáusticos e de hidrocarbonetos.
  • Manter os fármacos na embalagem original com blister, o que limita a dose acessível.
  • Rever a medicação em casa de avós e cuidadores e desaconselhar bolsas e mesas de cabeceira acessíveis.
  • Restringir o acesso a fármacos potencialmente letais em famílias com adolescente com perturbação do humor; limitar a quantidade de paracetamol disponível em casa.
  • Detetores de monóxido de carbono e manutenção anual de esquentadores, lareiras e aparelhos de combustão; nunca usar geradores ou grelhadores em espaços fechados.

Acidentes

  • Afogamento: supervisão ativa e ininterrupta, barreira física com vedação isolante da piscina nos quatro lados com portão de fecho automático, coletes homologados e aulas de natação. É rápido e silencioso; o banho no lactente exige presença permanente do adulto.
  • Cadeiras auto: sistema de retenção adequado ao peso e estatura, voltado para trás o maior tempo possível e sempre no banco traseiro; nunca no banco da frente com airbag ativo.
  • Quedas: barreiras nas escadas, proteções e limitadores de abertura nas janelas (as redes mosquiteiras não retêm uma criança), evitar andarilhos de rodas.
  • Queimaduras: limitar a temperatura do termoacumulador a cerca de 50 ºC, cabos de tachos virados para dentro, evitar toalhas de mesa pendentes, guardar isqueiros; detetores de fumo e plano de evacuação.
  • Sufocação e corpos estranhos: evitar alimentos de alto risco (frutos secos inteiros, uvas inteiras, rebuçados) antes dos 4 anos e manter pilhas de botão e ímanes inacessíveis.

Quando há suspeita de negligência ou de exposição intencional, aplica-se a via de sinalização prevista na Lei n.º 147/99, de 1 de setembro (Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo), que obedece ao princípio da subsidiariedade: primeiro as entidades com competência em matéria de infância e juventude, incluindo o núcleo hospitalar de apoio a crianças e jovens em risco; depois a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ); e só em último lugar os tribunais. Havendo perigo atual e iminente para a vida ou a integridade física, ou oposição dos detentores das responsabilidades parentais, a comunicação faz-se diretamente ao Ministério Público ou às autoridades policiais. Os maus tratos a menor são crime público (artigo 152.º-A do Código Penal).

1. Estabilização. ABCDE, oxigénio, acesso vascular, monitorização, glicémia capilar e correção de hipoglicémia. Convulsões: benzodiazepina em primeira linha (a fenitoína é evitada na intoxicação por tricíclicos). Hipotensão: fluidos isotónicos e, se refratária, vasopressor. Em paragem cardiorrespiratória por tóxico, seguir o algoritmo pediátrico do ERC 2025, com reanimação prolongada, uma vez que o prognóstico pode ser favorável apesar de tempos longos.

2. Contactar o CIAV (800 250 250) para avaliação de risco por produto e dose.

3. Descontaminação.

  • Carvão ativado (1 g/kg, máximo 50 g) é a opção habitual quando indicado, com benefício maior na primeira hora e apenas com via aérea protegida ou estado de consciência preservado. Não adsorve: ferro, lítio, álcoois, hidrocarbonetos, cáusticos e a maioria dos metais.
  • A emese induzida com xarope de ipecacuanha está abandonada e a lavagem gástrica não é procedimento de rotina, reservando-se para situações excecionais de ingestão maciça, muito recente e potencialmente letal.
  • Irrigação intestinal total com polietilenoglicol: pondera-se em ferro, lítio, formulações de libertação prolongada e transportadores de pacotes de droga.
  • Descontaminação cutânea e ocular com remoção de roupa e irrigação abundante e prolongada (organofosforados, cáusticos), com proteção do profissional.

4. Antídotos.

  • Paracetamol: N-acetilcisteína, guiada pelo nomograma de Rumack-Matthew ou empírica se tempo desconhecido, ingestão escalonada ou apresentação tardia. Máxima eficácia se iniciada nas primeiras 8 horas, mas mantém benefício mesmo em insuficiência hepática instalada.
  • Opioides: naloxona titulada, com atenção à semivida curta face à do opioide e à possibilidade de necessidade de perfusão.
  • Benzodiazepinas: flumazenil, a usar com cautela e raramente em pediatria; contraindicado na co-ingestão de tricíclicos ou na dependência crónica pelo risco de convulsões refratárias.
  • Organofosforados: atropina titulada ao objetivo de secura das secreções brônquicas, associada a pralidoxima.
  • Ferro: desferroxamina em perfusão, na intoxicação grave.
  • Monóxido de carbono: oxigénio a 100% com máscara com reservatório; ponderar oxigenoterapia hiperbárica em perda de consciência, défice neurológico, isquemia miocárdica ou gravidez.
  • Metanol e etilenoglicol: fomepizol (ou etanol na sua ausência), associado a hemodiálise nos casos graves.
  • Cianeto (inalação de fumo em espaço fechado, com coma e acidose láctica marcada apesar de PaO2 normal): hidroxocobalamina endovenosa precoce e empírica, sem esperar confirmação laboratorial; evitar nitritos na criança com co-intoxicação por monóxido de carbono, pela metemoglobinémia adicional.
  • Outros: glucagon e insulina em dose elevada com euglicémia nos betabloqueantes e bloqueadores dos canais de cálcio; bicarbonato de sódio nos tricíclicos com QRS alargado; octreotido na hipoglicémia por sulfonilureias.

5. Cáusticos. Não induzir vómito, não neutralizar, não diluir com grandes volumes, não administrar carvão e não entubar às cegas. Jejum, analgesia, avaliação da via aérea e endoscopia digestiva alta precoce (habitualmente entre as 12 e as 24 horas) para estadiamento e prognóstico.

6. Eliminação aumentada. Alcalinização urinária nos salicilatos; hemodiálise em metanol, etilenoglicol, salicilatos, lítio, metformina e valproato.

Intoxicação pediátrica: abordagem na urgência Abordagem sindrómica antes de etiológica: estabilizar, depois identificar o tóxico. 1. ABCDE primeiro Via aérea, oxigénio, acesso vascular, monitorização. Glicémia capilar sempre. 2. Tóxico, dose e tempo Substância, dose máxima possível, hora e via. Assumir o pior cenário. 3. CIAV — 800 250 250 Gratuito e 24 horas. Avaliação de risco por produto e por dose. DESCONTAMINAÇÃO Carvão ativado 1 g/kg (máximo 50 g) — benefício maior na 1.ª hora. Só com via aérea protegida ou estado de consciência preservado. ! Não adsorve: ferro, lítio, álcoois, hidrocarbonetos e cáusticos. Emese induzida (ipecacuanha): abandonada. Lavagem gástrica não é rotina. ANTÍDOTOS Tóxico Antídoto Nota prática Paracetamol N-acetilcisteína Nomograma de Rumack-Matthew Opioides Naloxona titulada Semivida curta: pode exigir perfusão Benzodiazepinas Flumazenil (cautela) Não se tricíclicos ou dependência Organofosforados Atropina + pralidoxima Atropina até secar as secreções Ferro Desferroxamina Perfusão, na intoxicação grave Monóxido de carbono Oxigénio a 100% Hiperbárica se perda de consciência Metanol / etilenoglicol Fomepizol ou etanol Hemodiálise nos casos graves Tricíclicos, QRS > 100 ms Bicarbonato de sódio Evitar fenitoína nas convulsões ! CÁUSTICOS Não induzir vómito. Não neutralizar. Não administrar carvão. Não entubar às cegas. Jejum, analgesia e avaliação da via aérea. Endoscopia digestiva alta precoce, habitualmente entre as 12 e as 24 horas. ! Um comprimido pode matar um lactente Tricíclicos; antiarrítmicos e bloqueadores dos canais de cálcio (verapamil, diltiazem); sulfonilureias; opioides de longa ação (metadona, buprenorfina). Mesmo assintomática: vigilância hospitalar com monitorização eletrocardiográfica. Sulfonilureias e opioides de longa ação: pelo menos 24 h, com glicémias seriadas.

Referências

  1. Instituto Nacional de Emergência Médica. Centro de Informação Antivenenos (CIAV): linha gratuita 800 250 250. Lisboa: INEM. Disponível em: https://www.inem.pt/category/servicos/centro-de-informacao-antivenenos/
  2. Djakow J, Turner NM, Skellett S, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Paediatric Life Support. Resuscitation. 2025;215(Supl. 1):110767.
  3. Lott C, Karageorgos V, Abelairas-Gomez C, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Special Circumstances in Resuscitation. Resuscitation. 2025;215(Supl. 1):110753. Secção Afogamento.
  4. Nelson Textbook of Pediatrics. 22.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2024. Secção Poisoning and Environmental Injuries.
  5. Goldfrank's Toxicologic Emergencies. 11.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2019.
  6. American College of Surgeons Committee on Trauma. Advanced Trauma Life Support (ATLS) Student Course Manual. 11.ª ed. Chicago: ACS; 2025. Capítulo Thermal Injuries.
  7. Chiew AL, Gluud C, Brok J, Buckley NA. Interventions for paracetamol (acetaminophen) overdose. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2018;(2):CD003328.
  8. American Academy of Clinical Toxicology and European Association of Poisons Centres and Clinical Toxicologists. Position paper update: gastric lavage for gastrointestinal decontamination. Clinical Toxicology. 2013;51(3):140-146.
  9. American Academy of Clinical Toxicology and European Association of Poisons Centres and Clinical Toxicologists. Position paper: ipecac syrup. Journal of Toxicology: Clinical Toxicology. 2004;42(2):133-143.
  10. Mubarak A, Benninga MA, Broekaert I, et al. Diagnosis, management, and prevention of button battery ingestion in childhood: an ESPGHAN position paper. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 2021;73(1):129-136.
  11. Durbin DR, Hoffman BD; American Academy of Pediatrics Council on Injury, Violence, and Poison Prevention. Child passenger safety (policy statement). Pediatrics. 2018;142(5):e20182460.
  12. Shenoi RP, McCallin T, Farrell C, et al.; American Academy of Pediatrics Council on Injury, Violence, and Poison Prevention. Prevention of drowning (policy statement). Pediatrics. 2026;158(1):e2026077410.
  13. Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo. Diário da República, 1.ª série. Lisboa; 1999 (com alterações posteriores).

10 perguntas sobre Intoxicações e acidentes

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

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