Evento breve resolvido sem explicação
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 5 perguntas neste tema
O evento breve resolvido sem explicação (BRUE) é uma entidade definida pela American Academy of Pediatrics (AAP) em 2016, que substituiu o antigo conceito de ALTE (apparent life-threatening event). Trata-se de um diagnóstico de exclusão aplicável apenas a lactentes com menos de 1 ano, em que um episódio breve e completamente resolvido permanece sem explicação após história clínica e exame objetivo cuidadosos. O ponto examinável central é a estratificação de risco: no lactente de baixo risco, a conduta correta é vigilância curta e educação dos cuidadores, e não uma bateria de exames ou internamento de rotina.
A avaliação assenta em duas tarefas sequenciais: confirmar que se trata de BRUE e, se sim, estratificar o risco.
1. História clínica dirigida. Reconstruir o episódio com o cuidador que o presenciou: o que estava o lactente a fazer (alimentação, sono, decúbito), duração real (frequentemente sobrestimada), cor, esforço respiratório, tónus, movimentos anómalos, olhar fixo ou desvio ocular, resposta a estimulação e quem a aplicou. Documentar antecedentes perinatais (idade gestacional, complicações), alimentação e curva ponderal, refluxo, episódios prévios, história familiar de morte súbita, arritmia ou morte súbita cardíaca em jovens, surdez congénita (síndrome de Jervell e Lange-Nielsen), doença metabólica ou consanguinidade. Rever ambiente de sono, exposição a tabaco, fármacos e produtos no domicílio, e a coerência entre a narrativa e a idade de desenvolvimento da criança.
2. Exame objetivo completo. Sinais vitais com saturação periférica de oxigénio, perímetro cefálico, avaliação da fontanela, exame neurológico e do tónus, pele integral em busca de equimoses, petéquias ou lesões do freio labial, exame do fundo ocular quando há suspeita, auscultação cardíaca e palpação de pulsos femorais.
3. Estratificação da AAP 2016. É considerado baixo risco o lactente que cumpre todos os seguintes:
- Idade superior a 60 dias.
- Idade gestacional ≥32 semanas e idade pós-concecional ≥45 semanas.
- Primeiro evento (sem BRUE prévio, isolado ou em cluster).
- Duração inferior a 1 minuto.
- Sem necessidade de manobras de reanimação por profissional de saúde treinado.
- Sem elementos preocupantes na história ou no exame objetivo.
Qualquer critério em falta classifica o lactente como alto risco.
4. Exames. No baixo risco, a AAP recomenda não realizar hemograma, culturas, punção lombar, ionograma, glicémia, lactato, radiografia do tórax, ecocardiograma, eletroencefalograma nem estudos de refluxo. Podem ser ponderados, de forma seletiva, um ECG de 12 derivações (rastreio de QT longo, pré-excitação, bloqueios) e um teste para tosse convulsa, sobretudo se houver contacto ou vacinação incompleta. No alto risco, o quadro de referência da AAP de 2019 propõe uma investigação hipótese-dirigida e não uma bateria universal, priorizando as causas tempo-dependentes: maus-tratos (imagiologia esquelética e neuroimagem quando indicadas), arritmia, infeção (incluindo tosse convulsa e VSR), problemas alimentares e anomalias congénitas.
Diagnóstico diferencial a manter sempre em mente: maus-tratos (incluindo traumatismo craniano abusivo e sufocação intencional), arritmia ou canalopatia (QT longo), convulsão, infeção (tosse convulsa, VSR, sépsis, infeção urinária), refluxo gastroesofágico com laringospasmo, obstrução da via aérea, erro inato do metabolismo e intoxicação.
A abordagem é determinada pela estratificação e o erro mais penalizado em exame é tratar o lactente de baixo risco como se fosse de alto risco.
Lactente de baixo risco. A recomendação da AAP 2016 é explicitamente conservadora:
- Vigilância curta no serviço de urgência, com monitorização contínua da saturação periférica de oxigénio e observações seriadas durante cerca de 1 a 4 horas, permitindo assistir a pelo menos uma alimentação.
- Não internar apenas para monitorização cardiorrespiratória e não prescrever monitorização cardiorrespiratória domiciliária, que não demonstrou reduzir mortalidade nem prevenir morte súbita do lactente.
- Não iniciar antissecretores (inibidores da bomba de protões, antagonistas H2) nem antiepiléticos empiricamente.
- Educar os cuidadores sobre a natureza benigna da maioria dos episódios, sobre o sono seguro (decúbito dorsal, superfície firme, sem objetos moles, partilha do quarto dos pais durante pelo menos os primeiros 6 meses, sem partilha de cama, evitar exposição a tabaco) e oferecer formação em suporte básico de vida pediátrico.
- Decisão partilhada com a família, documentada, e seguimento garantido em 24 horas pelo médico assistente ou pelos cuidados de saúde primários.
Lactente de alto risco. A AAP 2019 propõe uma avaliação escalonada e orientada pela hipótese clínica mais provável, cuja primeira linha é frequentemente exequível sem internamento; a observação hospitalar com monitorização cardiorrespiratória contínua reserva-se aos casos com hipótese diagnóstica tempo-dependente, eventos recorrentes ou instabilidade. Deve tratar-se a causa identificada assim que reconhecida: antibioterapia se infeção bacteriana ou sépsis suspeita, macrólido se tosse convulsa provável, suporte respiratório e hidratação se bronquiolite, correção de hipoglicémia ou de distúrbio hidroeletrolítico, e referenciação a cardiologia pediátrica se o ECG mostrar QT corrigido prolongado ou pré-excitação. Perante suspeita de maus-tratos, ativar o circuito de proteção sem demora.
Erros frequentes a evitar: rotular como BRUE um lactente febril ou com sinais de dificuldade respiratória; pedir punção lombar e culturas de forma reflexa num lactente de baixo risco; internar por ansiedade parental sem plano de vigilância; e, no extremo oposto, dar alta a um lactente com eventos recorrentes, que por definição já não é de baixo risco e obriga a investigação, com particular atenção a arritmia e a maus-tratos.
O prognóstico e a informação transmitida à família devem ser honestos: a maioria dos BRUE de baixo risco não volta a repetir-se e não se associa a doença grave subsequente, mas a alta é sempre acompanhada de instruções claras de regresso.
Referências
- Tieder JS, Bonkowsky JL, Etzel RA, et al. Brief Resolved Unexplained Events (Formerly Apparent Life-Threatening Events) and Evaluation of Lower-Risk Infants: Clinical Practice Guideline. Pediatrics. 2016;137(5):e20160590.
- Tieder JS, Bonkowsky JL, Etzel RA, et al. Brief Resolved Unexplained Events (Formerly Apparent Life-Threatening Events) and Evaluation of Lower-Risk Infants: Executive Summary. Pediatrics. 2016;137(5):e20160591.
- Merritt JL 2nd, Quinonez RA, Bonkowsky JL, et al. A Framework for Evaluation of the Higher-Risk Infant After a Brief Resolved Unexplained Event. Pediatrics. 2019;144(2):e20184101.
- Van Sambeeck SJ, Tieder JS. Brief Resolved Unexplained Event. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024.
- Djakow J, Turner NM, Skellett S, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Paediatric Life Support. Resuscitation. 2025;215(Suppl 1):110767.
- Moon RY, Carlin RF, Hand I; AAP Task Force on Sudden Infant Death Syndrome. Sleep-Related Infant Deaths: Updated 2022 Recommendations for Reducing Infant Deaths in the Sleep Environment. Pediatrics. 2022;150(1):e2022057990.
- Kliegman RM, St Geme JW, Blum NJ, et al., editores. Nelson Textbook of Pediatrics. 22.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2024.
- Assembleia da República. Lei n.º 147/99, de 1 de setembro (Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo), na sua redação atual (alterada pelas Leis n.º 31/2003, n.º 142/2015, n.º 23/2017 e n.º 26/2018). Diário da República.
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