Evento breve resolvido sem explicação
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 9 perguntas neste tema
O evento breve resolvido sem explicação (BRUE, do inglês brief resolved unexplained event) é um episódio súbito num lactente com menos de 1 ano, que dura menos de 1 minuto e em que quem assiste descreve cianose ou palidez, respiração ausente, diminuída ou irregular, alteração marcada do tónus ou alteração do nível de resposta. Quando o lactente chega, já está bem, e a história e o exame não encontram causa. O termo substituiu em 2016 o antigo evento aparentemente ameaçador de vida (ALTE, do inglês apparent life-threatening event), que era vago e levava a internamentos e exames desnecessários.
É um diagnóstico de exclusão. Febre, sintomas respiratórios, vómito, engasgamento com a mamada ou sinais de lesão explicam o episódio, e o lactente passa a ter essa doença. Na maioria dos que ficam sem explicação não há doença grave: o episódio é uma variante da fisiologia normal ou um problema autolimitado da alimentação ou da via aérea.
O que decide a conduta é a estratificação de risco. É de baixo risco o lactente com mais de 60 dias, nascido com 32 semanas ou mais e com idade pós-concecional de 45 semanas ou mais, no primeiro episódio, com duração inferior a 1 minuto, sem reanimação por um profissional de saúde e sem nada que preocupe na história ou no exame. Neste grupo não se pedem análises nem imagem: vigia-se na urgência 1 a 4 horas, pode fazer-se um eletrocardiograma e um teste para tosse convulsa, explica-se o episódio aos pais, oferece-se formação em reanimação e reavalia-se em 24 horas.
Qualquer critério em falta torna o lactente de alto risco, e aí a investigação é dirigida pela hipótese, a começar pelas causas que não podem esperar: maus-tratos, problemas da alimentação, arritmia, infeção e anomalias congénitas. O que não se pode falhar é o lactente maltratado, a canalopatia e a tosse convulsa num lactente por vacinar. O episódio e a morte súbita do lactente são entidades distintas, e a prevenção desta faz-se com as regras do sono seguro, não com monitores em casa.
O raciocínio tem dois passos: confirmar que se trata deste diagnóstico e, se sim, estratificar o risco.
Estratificação de risco
É de baixo risco o lactente que cumpre todos os critérios:
| Critério | Baixo risco |
|---|---|
| Idade | mais de 60 dias |
| Prematuridade | idade gestacional de 32 semanas ou mais e idade pós-concecional de 45 semanas ou mais |
| Episódios | o primeiro, sem episódios prévios nem em salvas |
| Duração | menos de 1 minuto |
| Reanimação | não precisou de reanimação por profissional de saúde treinado |
| História | sem elementos preocupantes |
| Exame objetivo | sem alterações |
Falhar um só critério torna o lactente de alto risco.
Exames no baixo risco
| Recomendação | Exames |
|---|---|
| Pode fazer-se | eletrocardiograma de 12 derivações; teste para tosse convulsa (PCR em exsudado nasofaríngeo) |
| Não é necessário | análise de urina, pesquisa de vírus respiratórios, glicemia, lactato, bicarbonato, neuroimagem para excluir maus-tratos |
| Não se deve fazer | hemograma, hemocultura, punção lombar, ionograma, ureia, creatinina, cálcio, amónia, gasimetria, estudo metabólico, radiografia do tórax, ecocardiograma, polissonografia, neuroimagem ou eletroencefalograma para doença neurológica, estudos de refluxo, estudo de anemia |
- O eletrocardiograma procura QT longo ou curto, padrão de Brugada, pré-excitação e sinais de miocardiopatia.
- O teste para tosse convulsa pesa mais com contacto com tosse paroxística, vacinação incompleta do lactente ou ausência de vacinação da mãe na gravidez, e em surto na comunidade.
- A avaliação dos fatores de risco social para maus-tratos faz-se sempre.
Alto risco
A investigação é por etapas e guiada pela hipótese, sem bateria universal. Primeiro as causas em que o atraso muda o desfecho: maus-tratos, problemas da alimentação, arritmias, infeções e anomalias congénitas. Depois, as que toleram espera: disfagia, obstrução intermitente da via aérea e epilepsia. Pode fazer-se em internamento ou em ambulatório coordenado.
Diagnóstico diferencial
| Grupo | Causas |
|---|---|
| Digestivas | refluxo gastroesofágico, disfagia e má coordenação alimentar, gastroenterite |
| Respiratórias e via aérea | tosse convulsa, vírus sincicial respiratório, aspiração, corpo estranho, laringomalácia, estenose subglótica |
| Neurológicas | convulsão, espasmos infantis, hemorragia intracraniana, meningite, hidrocefalia, doença neuromuscular |
| Cardíacas | QT longo, outra arritmia, pré-excitação, cardiopatia congénita, miocardiopatia, miocardite |
| Metabólicas | erro inato do metabolismo, hipoglicemia, alteração eletrolítica |
| Infeciosas sistémicas | sépsis, infeção urinária |
| Maus-tratos | traumatismo craniano abusivo, sufocação intencional, doença fabricada pelo cuidador, envenenamento |
| Outras | respiração periódica, espasmo do choro, reação a medicamentos ou tóxicos |
Sinais de alarme de maus-tratos
- História que muda ao ser repetida ou que não é compatível com o desenvolvimento do lactente.
- Equimoses sem explicação, sobretudo num lactente que ainda não se desloca.
- Rotura do freio labial ou lingual, sangue no nariz ou na boca, hemorragia subconjuntival, fontanela abaulada.
- Expectativas dos cuidadores desajustadas ao desenvolvimento, atributos negativos dados ao bebé, sinalizações anteriores ou violência doméstica.
Baixo risco
- Vigilância curta na urgência, com oximetria de pulso contínua e observações seriadas, durante 1 a 4 horas, para confirmar que os sinais vitais e o exame se mantêm normais.
- Não internar só para monitorização cardiorrespiratória.
- Não iniciar monitorização cardiorrespiratória domiciliária.
- Não prescrever antissecretores gástricos nem antiepiléticos.
- Explicar aos cuidadores o que foi o episódio e o que significa o baixo risco.
- Oferecer formação em reanimação: não aumenta a ansiedade dos pais e dá-lhes confiança.
- Decisão partilhada com a família sobre o que fazer, registada no processo.
- Reavaliação clínica, com nova história e novo exame, nas 24 horas seguintes.
Alto risco
Não há recomendações com evidência. Faz-se a avaliação por etapas descrita no diagnóstico, e muitos protocolos internam com oximetria contínua, sobretudo quando se suspeita de causa que não pode esperar, há episódios repetidos ou o contexto social preocupa. Trata-se a causa quando aparece:
- Tosse convulsa provável: com suspeita forte, prolonga-se a observação e inicia-se antibiótico antes do resultado. A azitromicina é o macrólido de escolha no lactente pequeno, mesmo abaixo de 1 mês, apesar da associação com estenose hipertrófica do piloro, porque a doença grave pesa mais.
- Eletrocardiograma alterado (QT longo, pré-excitação): referenciação a cardiologia pediátrica.
- Convulsão: neurologia pediátrica; o eletroencefalograma pede-se perante episódios repetidos sugestivos.
- Maus-tratos: proteção imediata da criança e sinalização.
Se o episódio se repetir à frente da equipa
Suporte básico de vida pediátrico:
- Permeabilizar a via aérea e dar oxigénio.
- Sem respiração normal: 5 insuflações iniciais e, a seguir, compressões torácicas.
- Relação 15:2 para quem tem treino pediátrico; 30:2 para quem não tem.
- Compressões a 100 a 120 por minuto, deprimindo pelo menos um terço do diâmetro anteroposterior do tórax; no lactente, com os dois polegares e as mãos a envolver o tórax.
Referências
- Tieder JS, Bonkowsky JL, Etzel RA, Franklin WH, Gremse DA, Herman B, et al. Brief resolved unexplained events (formerly apparent life-threatening events) and evaluation of lower-risk infants. Pediatrics. 2016;137(5):e20160590.
- Merritt JL 2nd, Quinonez RA, Bonkowsky JL, Franklin WH, Gremse DA, Herman BE, et al. A framework for evaluation of the higher-risk infant after a brief resolved unexplained event. Pediatrics. 2019;144(2):e20184101.
- Tieder JS, Sullivan E, Stephans A, Hall M, DeLaroche AM, Wilkins V, et al. Risk factors and outcomes after a brief resolved unexplained event: a multicenter study. Pediatrics. 2021;148(1):e2020036095.
- Bochner R, Tieder JS, Sullivan E, Hall M, Stephans A, Mittal MK, et al. Explanatory diagnoses following hospitalization for a brief resolved unexplained event. Pediatrics. 2021;148(5):e2021052673.
- Nama N, Hall M, Neuman M, Sullivan E, Bochner R, De Laroche A, et al. Risk prediction after a brief resolved unexplained event. Hosp Pediatr. 2022;12(9):772-85.
- Brand DA, Fazzari MJ. Risk of death in infants who have experienced a brief resolved unexplained event: a meta-analysis. J Pediatr. 2018;197:63-7.
- Fu LY, Moon RY. Apparent life-threatening events: an update. Pediatr Rev. 2012;33(8):361-9.
- Reyero Ferreras A, García Fernández de Villalta M. Episodio aparentemente letal. Síndrome de muerte súbita del lactante. In: Guerrero-Fernández J, Cartón Sánchez AJ, Barreda Bonis AC, Menéndez Suso JJ, Ruiz Domínguez JA, editores. Manual de diagnóstico y terapéutica en pediatría. 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. p. 239-45.
- Moon RY, Carlin RF, Hand I; Task Force on Sudden Infant Death Syndrome, Committee on Fetus and Newborn. Sleep-related infant deaths: updated 2022 recommendations for reducing infant deaths in the sleep environment. Pediatrics. 2022;150(1):e2022057990.
- Djakow J, Turner NM, Skellett S, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: paediatric life support. Resuscitation. 2025;215(Suppl 1):110767.
- Centers for Disease Control and Prevention. Clinical care of pertussis. Atlanta: CDC; 2024.
- Assembleia da República. Lei n.º 147/99, de 1 de setembro: Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo, na redação atual.
- Despacho n.º 31292/2008, de 5 de dezembro: Ação de Saúde para Crianças e Jovens em Risco. Diário da República, 2.ª série. 2008.
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