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Convulsões febris

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 16 perguntas neste tema

Em resumo

A convulsão febril é a crise convulsiva mais frequente da infância: uma crise com febre de 38 °C ou mais, numa criança dos 6 meses aos 5 anos, sem infeção do sistema nervoso central, sem alteração metabólica e sem crises afebris prévias. Atinge 2 a 5% das crianças, com pico entre os 18 e os 24 meses, e nasce do encontro entre um cérebro imaturo, mais excitável, uma predisposição genética e uma febre que sobe depressa.

A maioria é simples: generalizada, com menos de 15 minutos e sem repetição em 24 horas. Basta ser focal, durar 15 minutos ou mais ou repetir no mesmo dia para ser complexa, e é nesta que a investigação se alarga.

O diagnóstico é clínico, e o trabalho do médico não é tratar a crise, que quase sempre já passou, mas encontrar o foco da febre e não deixar passar uma meningite, uma encefalite ou uma causa metabólica. Na criança recuperada com crise simples não se pedem eletroencefalograma, imagem nem análises por rotina, e a punção lombar faz-se quando há sinais de infeção intracraniana.

A crise que dura mais de 5 minutos trata-se com benzodiazepina, no máximo duas doses. O prognóstico é excelente: cerca de um terço volta a ter uma convulsão febril, o risco de epilepsia depois de uma crise simples é praticamente o da população geral, e nem os antipiréticos nem os antiepiléticos contínuos mudam o futuro destas crianças. O que as protege é uma família que sabe o que fazer na próxima crise.

Porque é que só acontece nesta idade

  • No cérebro imaturo o equilíbrio entre excitação e inibição pende para a excitação.
  • Predomina o transportador que faz entrar cloreto no neurónio (cotransportador de sódio, potássio e cloreto do tipo 1) sobre o que o retira (cotransportador de potássio e cloreto do tipo 2). Com mais cloreto dentro da célula, o ácido gama-aminobutírico, que no adulto inibe, pode despolarizar em algumas populações de neurónios.
  • A maturação inverte esta relação, o que explica o fim espontâneo das crises por volta dos 5 anos.

O que a febre acrescenta

  • Alcalose respiratória: a febre acelera a respiração, baixa o dióxido de carbono e sobe o pH cerebral, e o pH alcalino aumenta a excitabilidade neuronal. Em modelos animais, impedir a alcalose impede a crise.
  • Citocinas: a interleucina 1 beta, que faz parte da própria resposta febril, aumenta a transmissão pelo glutamato e reduz a inibição.
  • Por isso conta mais a rapidez com que a temperatura sobe e o perfil inflamatório da infeção do que o pico térmico. O herpesvírus humano 6 e o vírus influenza estão sobre-representados.

Genética

  • Há agregação familiar marcada, habitualmente poligénica: a história de convulsões febris nos pais ou irmãos é frequente.
  • Nalgumas famílias a herança é autossómica dominante, com variantes em genes de canais iónicos: sobretudo o SCN1A, que codifica a subunidade alfa de um canal de sódio dependente de voltagem, e o gene da subunidade gama 2 do recetor do ácido gama-aminobutírico do tipo A. Definem o espetro da epilepsia genética com convulsões febris plus, em que as crises febris continuam depois dos 6 anos ou se juntam crises sem febre, com fenótipos diferentes na mesma família.
  • A perda completa de função do SCN1A dá a síndrome de Dravet; a perda parcial, o espetro anterior.

Hipocampo e esclerose mesial temporal

  • Parte dos adultos com epilepsia do lobo temporal teve convulsões febris na infância, sobretudo prolongadas.
  • Não está estabelecido se o estado de mal febril lesa o hipocampo ou se um hipocampo já anómalo predispõe à crise prolongada. A crise febril simples não causa lesão estrutural.

O diagnóstico é clínico. A avaliação tem dois objetivos: encontrar o foco da febre e excluir infeção do sistema nervoso central ou causa metabólica.

Anamnese e exame objetivo

  • Semiologia e duração da crise, número de crises, tempo e qualidade da recuperação.
  • Desenvolvimento psicomotor, crises prévias, história familiar de convulsões febris ou de epilepsia.
  • Vacinação contra o Haemophilus influenzae tipo b e o pneumococo, e antibiótico nos dias anteriores, que pode atenuar os sinais de meningite.
  • Traumatismo, tóxicos, vómitos e diarreia.
  • Exame completo: estado de consciência e escala de Glasgow, sinais meníngeos (pouco fiáveis abaixo dos 12 a 18 meses), fontanela, petéquias, hidratação, otoscopia, orofaringe e auscultação.

Punção lombar

indicaçãoatitude
Sinais meníngeos (rigidez da nuca, Kernig, Brudzinski), petéquias, fontanela abaulada, sonolência prévia ou Glasgow abaixo de 15 uma hora depois da crisefazer
Idade inferior a 6 mesesfazer, dentro da avaliação sética completa
6 a 12 meses com vacinação incompleta ou desconhecida contra o Haemophilus b ou o pneumococoponderar
Antibiótico sistémico nos dias anterioresponderar
Crise complexa com irritabilidade, letargia, recusa alimentar, doença com mais de 48 horas ou défice focal que persisteponderar, com vigilância apertada
  • Não é rotina na criança vacinada, com bom aspeto e crise simples.
  • Quando se faz, colhem-se ao mesmo tempo hemocultura e glicemia, para comparar com a glicorraquia.
  • Com instabilidade hemodinâmica, coagulopatia ou sinais de hipertensão intracraniana difere-se a punção e não se atrasa o antibiótico. Mais detalhe em meningite e meningoencefalite.

Outros exames

Crise simples, criança recuperada: só o que for preciso para o foco da febre.

  • Sem eletroencefalograma: não prediz recorrência nem epilepsia.
  • Sem análises por rotina (ionograma, cálcio, glicemia, hemograma).
  • Sem tomografia nem ressonância.

Crise complexa: avaliação individual.

  • Hemograma, glicose, ionograma, cálcio, função renal e hepática e gasometria; tóxicos se houver suspeita.
  • Tomografia urgente se não recupera a consciência, se há défice focal que persiste, sinais de hipertensão intracraniana ou traumatismo. A ressonância fica para a caracterização programada.
  • Eletroencefalograma diferido, não urgente, salvo suspeita de encefalite.
  • Glicemia capilar logo na crise que dura e na criança que não recupera.

Diagnóstico diferencial

entidadeo que a distingue
Meningite bacterianasonolência mantida, sinais meníngeos, petéquias, crise focal ou repetida
Encefalite, sobretudo herpéticacrise focal, alteração do comportamento ou da consciência que não recupera
Hipoglicemia, hiponatremia, hipocalcemiavómitos, diarreia, reidratação com líquidos hipotónicos, lactente pequeno
Epilepsia que se revela com a febrecrises também sem febre, crises depois dos 6 anos, alterações do desenvolvimento
Síndrome de Dravetcrises febris prolongadas e hemicorporais no primeiro ano
Calafrios, síncope febril, delírio febrilsem perda de consciência ou sem clonias
Convulsões febris: definir, classificar e investigar Crise sintomática aguda do cérebro imaturo: o objetivo é excluir infeção do sistema nervoso central Definição (exige todos os critérios) • Idade entre os 6 meses e os 5 anos • Sem infeção do sistema nervoso central • Crise com febre de 38 °C ou mais • Sem alteração metabólica aguda • Sem crises afebris prévias • Diagnóstico clínico de exclusão Simples ou complexa Simples (cerca de 80% dos casos) Complexa (basta um critério) Generalizada (tónico-clónica) Início focal (desvio ocular, clonias) Duração inferior a 15 minutos Duração de 15 minutos ou mais Não recorre nas 24 horas Recorre nas 24 h ou no mesmo episódio Sem défice focal pós-crítico Défice focal pós-crítico Estado de mal febril: crise superior a 30 min; tratar, porém, qualquer crise com mais de 5 minutos. Punção lombar: nunca por rotina Fazer se sinais ou sintomas de meningite ou suspeita de infeção intracraniana. Ponderar: • 6 a 12 meses, vacinas contra Haemophilus b e pneumococo incompletas ou desconhecidas • Antibiótico prévio (meningite decapitada) • Crise complexa ou Glasgow abaixo de 15 uma hora depois da crise Não fazer por rotina (crise simples) • Eletroencefalograma (não prediz recorrência nem epilepsia) • Tomografia ou ressonância • Análises de sangue e ionograma • Profilaxia antiepilética contínua Exceção: tomografia urgente se défice focal persistente, traumatismo, hipertensão intracraniana ou alteração mantida da consciência. ! Os antipiréticos não previnem a recorrência Paracetamol e ibuprofeno sistemáticos não reduzem o risco de nova crise febril. Usar só para conforto; a informação estruturada aos pais é o verdadeiro pilar da abordagem. Prognóstico: excelente • Recorrência em cerca de um terço • Epilepsia após crise simples: cerca de 1% (cerca de metade abaixo dos 12 meses) (quase igual à população geral)

Antipiréticos

  • Não previnem a convulsão febril nem a recorrência, e não encurtam a febre nem a doença. Dar paracetamol de 4 em 4 horas ou só acima de um limiar dá o mesmo resultado, e o ibuprofeno também não previne.
  • A norma portuguesa da febre é explícita: o antipirético não se dá de forma automática em cada pico, pondera-se pelo desconforto da criança. Alternar dois antipiréticos por rotina não traz benefício.
  • Dão-se para conforto, nas doses habituais: ver abordagem à criança com febre.

Antiepiléticos contínuos

  • O fenobarbital e o valproato reduzem a recorrência (com fenobarbital diário, de 25 para 5 crises por 100 crianças por ano; com valproato, 4% contra 35%), mas não diminuem o risco de epilepsia, e os efeitos adversos pesam mais do que o benefício: alterações do comportamento, irritabilidade e perturbação do sono com o fenobarbital, em 20 a 40% das crianças; hepatotoxicidade grave, rara mas sobretudo abaixo dos 2 anos, trombocitopenia e pancreatite com o valproato.
  • A carbamazepina e a fenitoína não previnem.
  • Não se recomendam, depois de uma ou de várias crises simples.

Benzodiazepina intermitente

  • Diazepam oral durante os episódios febris reduz a recorrência (11% contra 30% num estudo), mas dá sonolência, letargia e ataxia, pode mascarar uma infeção do sistema nervoso central em evolução e falha quando a crise surge antes de se notar a febre.
  • Não se recomenda por rotina. Pondera-se, com o neuropediatra, em casos escolhidos: crises muito frequentes (mais de três em 6 meses), crises prolongadas que precisam sempre de tratamento, angústia familiar grande ou dificuldade em tratar a crise em casa.

Informação aos pais

É o verdadeiro tratamento preventivo, idealmente por escrito:

  • a crise é benigna, não lesa o cérebro e não é epilepsia;
  • deitar a criança de lado, afastar objetos, não conter os movimentos, não pôr nada na boca;
  • cronometrar a crise;
  • ligar 112 se a crise passar dos 5 minutos, se houver dificuldade respiratória ou cianose, ou se a criança não recuperar.

O midazolam bucal para uso pelos pais em casa está aprovado só para crianças com epilepsia diagnosticada; na convulsão febril simples não se prescreve por rotina.

Vacinação

  • A febre das vacinas pode desencadear convulsões febris. Com a vacina contra o sarampo, a parotidite e a rubéola, cerca de uma por cada 3000 doses, entre o 5.º e o 12.º dia.
  • A vacina tetravalente, que junta a varicela, dá aos 12 a 23 meses uma convulsão febril adicional por cada 2300 a 2600 crianças, face às duas vacinas dadas em separado. O Programa Nacional de Vacinação usa a vacina trivalente, e a vacina da varicela, fora do programa, pode dar-se em separado.
  • A convulsão febril pós-vacinal não contraindica as doses seguintes. A vacinação completa contra o Haemophilus b e o pneumococo torna a meningite muito menos provável e é o que permite dispensar a punção lombar.

Crise em curso

  • Via aérea, posição lateral de segurança, oxigénio de alto débito e monitorização.
  • Glicemia capilar: tratar se abaixo de 3 mmol/L (cerca de 54 mg/dL), com 0,5 g/kg de glicose (5 mL/kg de glicose a 10% endovenosa).
  • Nada na boca, não conter os movimentos. A maioria das crises para sozinha.
  • Se a crise já parou à chegada, não é preciso tratar.

Crise que dura mais de 5 minutos

A partir dos 5 minutos é pouco provável que pare sozinha, e trata-se como estado de mal.

fármacodose
Midazolam bucal0,3 a 0,5 mg/kg; por idade: 2,5 mg dos 3 meses a menos de 1 ano (dos 3 aos 6 meses só em meio hospitalar), 5 mg de 1 a menos de 5 anos, 7,5 mg dos 5 a menos de 10 anos, 10 mg a partir dos 10 anos
Midazolam intranasal ou intramuscular0,2 mg/kg, máximo 10 mg
Diazepam retal0,5 mg/kg dos 2 aos 5 anos
Lorazepam endovenoso ou intraósseo0,1 mg/kg, máximo 4 mg por dose
  • Sem acesso venoso, que é o habitual fora do hospital: midazolam bucal ou diazepam retal.
  • Com acesso venoso: lorazepam endovenoso.
  • Se a crise continuar, uma segunda dose de benzodiazepina 5 a 10 minutos depois da primeira.
  • Nunca mais de duas doses no total, contando as que os pais ou a emergência médica já deram: mais doses aumentam a depressão respiratória sem aumentar a eficácia.

Se continua depois de duas doses

É estado de mal estabelecido. Fármaco de segunda linha, com eficácia semelhante entre si:

  • levetiracetam 30 a 60 mg/kg em 5 minutos, máximo 3 g, hoje o mais usado por ser rápido de preparar e bem tolerado;
  • fenitoína 20 mg/kg em perfusão de 20 minutos, com monitorização eletrocardiográfica (dada depressa causa bradicardia e assistolia);
  • valproato endovenoso, ou fenobarbital 20 mg/kg.

Chama-se a anestesia e os cuidados intensivos: se não cede, indução anestésica e ventilação. Mede-se o sódio (trata-se abaixo de 125 mmol/L) e o cálcio.

Depois da crise

  • Trata-se a causa da febre. Antibiótico só com foco bacteriano ou suspeita de infeção invasiva.
  • Vigilância até à recuperação completa. Na crise simples, observação de pelo menos 2 horas nas crianças abaixo dos 18 meses, nas que fizeram antibiótico e nas que não têm foco evidente.

Alta ou internamento

  • Alta: crise simples, recuperação completa, exame neurológico normal, foco benigno identificado, pais capazes de vigiar, com informação escrita e critérios de regresso.
  • Internamento ou vigilância prolongada: crise complexa, estado de mal febril, recuperação incompleta, suspeita de infeção do sistema nervoso central, aspeto tóxico, idade inferior a 6 meses, dificuldade de acesso aos cuidados.
  • Neuropediatria: crise complexa, estado de mal febril, alteração prévia do desenvolvimento ou do exame neurológico, crises repetidas.

Referências

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