Abordagem à criança com dor abdominal aguda
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema
A dor abdominal aguda é quase um em cada dez motivos de ida à urgência pediátrica, e na grande maioria das crianças é benigna e passa sozinha: gastrenterite, obstipação, adenite mesentérica. Só cerca de 5% precisam de internamento e 2% de cirurgia. O trabalho é encontrar essa minoria numa criança que muitas vezes não consegue dizer onde lhe dói.
A idade é o filtro mais útil. No recém-nascido e no lactente pesam as malformações e as obstruções: o volvo sobre má-rotação, que se anuncia por vómito bilioso, a estenose hipertrófica do piloro e sobretudo a invaginação intestinal, que dá crises de choro com encolher das pernas e uma criança aparentemente bem entre elas. A partir da idade escolar domina a apendicite, e no adolescente juntam-se a torção testicular, a torção do ovário e a gravidez ectópica. Em todas as idades, a dor pode vir de fora do abdómen: pneumonia da base, faringite estreptocócica, cetoacidose diabética, escroto.
O diagnóstico faz-se com uma história dirigida, o exame do abdómen feito por último e o exame obrigatório da região inguinal e dos genitais, uma tira-teste urinária em todos e a ecografia como primeiro exame de imagem. Na apendicite, o índice pediátrico de apendicite estratifica o risco e decide quem precisa de imagem. A observação repetida pelo mesmo médico continua a ser a ferramenta mais sensível.
O tratamento começa pela analgesia, que não atrasa o diagnóstico, e pelo jejum e fluidos quando há hipótese cirúrgica. A apendicite trata-se por laparoscopia nas primeiras 24 horas, a invaginação por redução com enema, a torção pela cirurgia imediata.
O que não se pode falhar: o vómito bilioso no recém-nascido, o escroto por observar num rapaz com dor abdominal, a gravidez por excluir na adolescente, e a cetoacidose tomada por gastrenterite.
Porque a dor engana
- A víscera é inervada sobretudo por fibras C, de condução lenta: a dor visceral é difusa e projeta-se na linha média, segundo a origem embrionária. O intestino anterior (estômago, duodeno proximal, fígado, vias biliares, pâncreas) dá dor epigástrica; o intestino médio, até aos dois terços proximais do cólon transverso, dá dor periumbilical; o intestino posterior dá dor no hipogastro.
- Quando a inflamação chega ao peritoneu parietal, com fibras somáticas A e C, a dor fica localizada e contínua. Na apendicite, a passagem de dor periumbilical para a fossa ilíaca direita é essa mudança, porque o apêndice nasce do intestino médio.
- Quanto mais pequena a criança, menos localiza e menos verbaliza: no lactente a dor é choro, irritabilidade, pernas encolhidas e recusa alimentar.
Pela idade
| idade | não se podem falhar | frequentes e benignas |
|---|---|---|
| Recém-nascido | volvo sobre má-rotação, atresias, enterocolite necrosante, hérnia encarcerada | cólicas, erro alimentar |
| Lactente e pré-escolar (até aos 4 anos) | invaginação intestinal, hérnia inguinal encarcerada, volvo, divertículo de Meckel, estenose do piloro nas primeiras semanas | gastrenterite, infeção urinária, faringite |
| Escolar (5 a 11 anos) | apendicite, invaginação com ponto-guia, cetoacidose diabética, síndrome hemolítico-urémico, torção do ovário | gastrenterite, obstipação, adenite mesentérica, pneumonia da base, amigdalite |
| Adolescente | apendicite, torção testicular, torção do ovário, gravidez ectópica, doença inflamatória pélvica | dor funcional, dor menstrual, obstipação |
- A apendicite é a patologia cirúrgica abdominal mais frequente e aquela em que mais erros de diagnóstico se cometem.
- No recém-nascido a apendicite é rara e aponta para doença de Hirschsprung.
As que vêm pelo vómito
- Vómito bilioso num recém-nascido ou lactente é volvo sobre má-rotação até prova em contrário: a torção do mesentério estreito sobre a artéria mesentérica superior tira o sangue a todo o intestino médio em horas.
- A estenose hipertrófica do piloro dá vómito em jato, não bilioso, tipicamente por volta das 3 semanas, em rapazes e primogénitos, com alcalose metabólica hipoclorémica e hipocaliémica.
- Estas duas apresentam-se pelo vómito e não pela dor; o diagnóstico e o tratamento de ambas estão na abordagem à criança com vómitos.
Fora do abdómen, e as médicas que imitam cirurgia
| causa | o que a denuncia |
|---|---|
| Pneumonia da base | febre, taquipneia, fervores; pede radiografia do tórax (pneumonia na criança) |
| Faringoamigdalite estreptocócica | odinofagia, febre, exsudado, sem tosse |
| Infeção urinária | febre, disúria, polaquiúria; no lactente só febre (infeção urinária na criança) |
| Cetoacidose diabética | vómitos, dor abdominal, taquipneia de Kussmaul, poliúria e polidipsia prévias (diabetes na criança) |
| Adenite mesentérica | acima dos 3 anos, depois de infeção respiratória alta; dor na fossa ilíaca direita e febre, poucos vómitos; confunde-se com apendicite |
| Vasculite por IgA (antes púrpura de Henoch-Schönlein) | púrpura palpável nas nádegas e nos membros inferiores, artralgias, hematúria; a dor pode vir antes da púrpura (vasculite por IgA) |
| Síndrome hemolítico-urémico | diarreia com sangue dias antes, palidez, oligúria |
| Torção testicular | dor no hipogastro ou na virilha com o escroto por observar |
| Crise falciforme, colecistite nas anemias hemolíticas, pancreatite | doença de base; na pancreatite, trauma e fármacos (ácido valproico, corticoides) |
Divertículo de Meckel
- Resto do canal onfalomesentérico, com todas as camadas da parede: divertículo verdadeiro. A regra dos dois: cerca de 2% da população, 2 para 1 no sexo masculino, a cerca de 2 pés (60 cm) da válvula ileocecal no adulto, e metade dos sintomáticos com menos de 2 anos.
- Na criança, a apresentação mais frequente é a hemorragia, mais de metade das complicações: retorragia indolor e abundante pela úlcera da mucosa ileal ao lado da mucosa gástrica ectópica.
- Também dá oclusão (invaginação com o divertículo como ponto-guia, ou volvo sobre a banda fibrosa) e diverticulite, indistinguível de uma apendicite.
- Diagnóstico: cintigrafia com pertecnetato de tecnécio 99m, que capta a mucosa gástrica ectópica; exatidão de cerca de 90% na criança.
Análises
| exame | a quem |
|---|---|
| Tira-teste urinária | a todos: infeção urinária, glicosúria e cetonúria, hematúria |
| Glicemia capilar | vómitos com taquipneia, alteração do estado de consciência, poliúria |
| Hemograma, ionograma, pH | sempre que se colhe sangue: desidratação, suspeita cirúrgica |
| Proteína C reativa, procalcitonina | suspeita inflamatória ou infeciosa; normais não excluem apendicite |
| Coagulação | quando se prevê cirurgia |
| Amilase e lipase | suspeita de pancreatite; a lipase é mais específica |
| Função hepática | suspeita de hepatite ou de doença biliar |
| Teste de gravidez | todas as raparigas pós-púberes |
Imagem
| exame | quando |
|---|---|
| Ecografia abdominal | primeiro exame de imagem na criança com dor abdominal, salvo se a clínica apontar outro caminho; apendicite, invaginação, patologia renal, biliar e pancreática, ovário, gravidez |
| Ecografia com doppler do escroto | dúvida de torção testicular, sem atrasar a cirurgia quando a clínica é típica |
| Radiografia do abdómen | suspeita de oclusão (distensão, vómito bilioso, ruídos diminuídos), cirurgia prévia, perfuração, fecaloma; não por rotina |
| Radiografia do tórax | suspeita de pneumonia da base |
| Trânsito esofagogastroduodenal | suspeita de má-rotação no lactente estável |
| Tomografia computorizada | traumatismo grave, suspeita de lesão de víscera oca, ou dúvida que persiste depois da ecografia; poupa-se a radiação sempre que a ecografia responde |
Sequência prática
- Estado geral e sinais vitais; estabilizar se preciso.
- História e exame completos, com escroto, regiões inguinais, tórax e pele.
- Tira-teste a todos; glicemia se houver vómitos e taquipneia; teste de gravidez na adolescente.
- Suspeita de patologia cirúrgica: jejum, análises e ecografia, e cirurgião pediátrico chamado cedo.
- Sem suspeita cirúrgica e com a criança bem: tratar a causa encontrada, ou observar e reavaliar.
- Chegar cedo é a prevenção que mais rende: o tempo entre o início dos sintomas e a observação decide a perfuração na apendicite, a necrose na invaginação e no volvo e a perda do testículo ou do ovário.
- Vacina contra o rotavírus: reduz a gastrenterite grave. O antecedente de invaginação é contraindicação à vacina, e a administração respeita os limites de idade por causa do pequeno risco de invaginação associado (gastrenterite aguda).
- Obstipação funcional, causa frequente de dor e de ida à urgência: a prevenção e o tratamento estão na abordagem à criança com obstipação.
- Corpos estranhos: pilhas de botão e vários ímanes engolidos causam perfuração e fístula; guardam-se fora do alcance (intoxicações e acidentes).
- Traumatismo abdominal: sistemas de retenção no automóvel adequados ao peso e à idade.
- Infeção urinária que recorre ou tem apresentação atípica: estudo do aparelho urinário.
- Vasculite por IgA: vigilância da urina e da tensão arterial nos meses seguintes, porque a nefrite pode aparecer depois da púrpura (vasculite por IgA).
Prevenir o dano que o próprio médico faz
- Não adiar a analgesia à espera do cirurgião.
- Não pedir tomografia quando a ecografia responde.
- Não dar antibiótico sem foco a uma criança com dor por esclarecer: esconde a evolução de uma apendicite.
- Não dar alta sem dizer por escrito quando voltar.
Estabilizar
- Choque ou desidratação importante: acesso venoso e bólus de 10 a 20 mL/kg de soro fisiológico, reavaliando depois de cada um.
- Jejum enquanto houver hipótese cirúrgica, até à observação pelo cirurgião.
- Sonda nasogástrica na oclusão e no vómito incoercível.
- Corrigir hipoglicemia e alterações eletrolíticas.
Analgesia
- Dá-se logo, e não se retém à espera do cirurgião: a analgesia, incluindo opioides, não atrasa nem esconde o diagnóstico de apendicite. Deixar a criança com dor é o erro que ainda se comete.
- Dor ligeira a moderada: paracetamol; o ibuprofeno evita-se na hipovolemia, na hemorragia digestiva e na lesão renal.
- Dor intensa: morfina endovenosa 0,1 mg/kg, titulada.
Cetoacidose diabética
- Fluidos primeiro; a perfusão de insulina começa 1 hora depois de iniciados os fluidos e sem bólus de insulina. Doses e vigilância do edema cerebral em diabetes na criança.
Internar
- Suspeita de patologia cirúrgica.
- Massa abdominal por esclarecer.
- Desidratação com intolerância oral.
- Mau estado geral.
Quando se pode ir para casa
- Excluída a patologia cirúrgica e orgânica grave, a criança bem e a tolerar a via oral, com infeção urinária excluída no lactente e na criança pequena.
- A dor sem diagnóstico com criança bem aceita-se, desde que as causas tempo-dependentes tenham sido procuradas ativamente.
- Instruções por escrito para voltar: dor que persiste ou se localiza, vómito bilioso ou persistente, sangue nas fezes, febre com prostração, recusa em andar ou em ser tocada, barriga a crescer.
- Na dúvida sobre patologia cirúrgica, observação com reavaliação seriada, em sala de observação ou com consulta marcada, é melhor do que a alta.
Referências
- Guerrero-Fernández J, et al., editores. Manual de diagnóstico y terapéutica en pediatría (Hospital Universitario La Paz). 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. Capítulos 15 (Dolor abdominal), 26 (Vómitos), 40 (Traumatismo torácico), 48 (Escroto agudo) e 79 (Diabetes mellitus).
- Brunicardi FC, Andersen DK, Billiar TR, et al., editores. Schwartz's Principles of Surgery. 11.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2019. Capítulo 28 (Small intestine) e capítulo 30 (The appendix).
- Goldman L, Schafer AI, editores. Goldman-Cecil Medicine. 26.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2020.
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- American College of Obstetricians and Gynecologists. Adnexal torsion in adolescents. ACOG Committee Opinion No. 783. Obstet Gynecol. 2019;134(2):e56-e63.
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