Alergia e intolerância alimentar na criança
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema
A reação adversa a um alimento pode ser imunológica ou não. Quando é imunológica e reprodutível é alergia alimentar, e reage a quantidades pequenas do alimento; quando não é, é intolerância, como a da lactose, que depende da dose e nunca dá anafilaxia. Estar sensibilizado, com teste cutâneo ou IgE específica positivos, não é o mesmo que ser alérgico: muitas crianças sensibilizadas comem o alimento sem sintomas.
A alergia mediada por IgE é a forma que mata. Começa nos primeiros anos de vida, muitas vezes por sensibilização através de uma pele com eczema, e reage em minutos a 2 horas com urticária, angioedema, vómitos, broncospasmo ou choque. O leite e o ovo dominam no lactente e costumam resolver até à idade escolar; o amendoim, os frutos de casca rija, o peixe e o marisco aparecem mais tarde e tendem a persistir. Os alimentos são a causa mais frequente de anafilaxia na criança.
As formas não mediadas por IgE são digestivas e tardias: a proctocolite, com sangue nas fezes num lactente saudável; a enteropatia, com diarreia arrastada e má progressão ponderal; e a síndrome de enterocolite induzida por proteínas alimentares, com vómitos repetidos 1 a 4 horas depois do alimento, palidez e letargia, que pode chegar ao choque. Os testes de IgE não servem para elas: o diagnóstico é clínico, pela melhoria com a evicção e pela recorrência na reintrodução.
O diagnóstico parte da história. Nas formas mediadas por IgE confirma-se a sensibilização com teste cutâneo ou IgE específica, se preciso por componentes moleculares, e resolve-se a dúvida com a prova de provocação oral, que é o padrão de referência. O tratamento assenta na evicção apenas do que está confirmado, na leitura dos rótulos, num plano escrito e em dois autoinjetores de adrenalina para quem tem risco de anafilaxia; a imunoterapia oral é hoje uma opção na alergia ao amendoim e, a partir dos 4 anos, na do leite e na do ovo. No lactente com alergia às proteínas do leite de vaca, a primeira escolha é a fórmula extensamente hidrolisada.
O que não se pode falhar: a anafilaxia trata-se com adrenalina intramuscular na coxa, logo, e os anti-histamínicos não a substituem; o ovo bem cozinhado e o amendoim entram na diversificação alimentar, sem atraso; uma dieta de evicção sem diagnóstico confirmado ou sem reavaliação prejudica o crescimento; e uma fórmula sem lactose não trata a alergia às proteínas do leite.
Conceitos
| termo | o que é |
|---|---|
| Reação adversa a alimento | qualquer resposta clínica anómala à ingestão de um alimento, seja qual for o mecanismo |
| Alergia alimentar | reação adversa imunológica e reprodutível; mediada por IgE, não mediada por IgE (celular) ou mista |
| Intolerância | reação não imunológica: metabólica (défice de lactase), farmacológica (cafeína, tiramina de queijos curados) ou tóxica (histamina do peixe mal conservado) |
| Sensibilização | IgE específica detetável, por teste cutâneo ou no soro, com ou sem sintomas |
- Na alergia mediada por IgE, a proteína do alimento é o alergénio; a única exceção relevante é um glícido, a galactose-alfa-1,3-galactose (alfa-gal), da carne de mamífero.
- Mais de 20% dos adultos e das crianças mudam a dieta por uma alergia que julgam ter, e muitas dessas alergias não se confirmam.
Epidemiologia
- A alergia alimentar mediada por IgE atinge até 10% da população, sobretudo nas idades mais novas.
- Numa coorte australiana de crianças de 1 ano estudadas com prova de provocação, 11% tinham alergia confirmada (ovo cru 8,9%, amendoim 3%, sésamo 0,8%); aos 4 anos, 3,8%.
- A alergia ao leite de vaca ronda os 2,3% e é mais frequente quanto mais nova é a criança.
- Os alimentos são a causa mais frequente de anafilaxia em ambulatório, sobretudo em crianças, adolescentes e adultos jovens, e a causa mais frequente de anafilaxia na criança.
Alergénios por idade
| idade | alimentos mais implicados |
|---|---|
| Primeiro ano | leite, ovo; também soja e trigo |
| Pré-escolar e escolar | peixe (início por volta de 1 ano e meio), marisco (início por volta dos 5 anos), amendoim, frutos de casca rija, frutos frescos |
| Adolescência | amendoim e frutos de casca rija passam a ser os mais frequentes |
- Na Península Ibérica, as séries pediátricas põem o ovo à frente, seguido do leite, do peixe, do marisco, dos frutos secos e dos frutos frescos.
- Na Europa, os alimentos mais implicados na anafilaxia são o leite, o ovo, o amendoim, os frutos secos, o peixe, o marisco, a soja, o pêssego e o sésamo.
Sensibilização e tolerância oral
- Em condições normais há tolerância oral: as células apresentadoras do intestino induzem linfócitos T reguladores, através da interleucina 10 e do fator de crescimento transformador beta.
- A tolerância perde-se quando o epitélio é lesado: as alarminas (interleucina 25, interleucina 33 e linfopoietina do estroma tímico) desviam a resposta para linfócitos Th2, que pela interleucina 4 levam os linfócitos B a produzir IgE específica. As células linfoides inatas do grupo 2 produzem interleucina 4 e 13 e travam os reguladores.
- A IgE fixa-se aos recetores de alta afinidade de mastócitos e basófilos. Na reexposição, o alergénio liga duas moléculas de IgE vizinhas e o mastócito desgranula: liberta mediadores pré-formados (histamina, triptase, quimase, heparina) e, em seguida, mediadores lipídicos (prostaglandinas, leucotrienos, fator ativador das plaquetas).
Barreira cutânea e hipótese da dupla exposição
- Via cutânea sensibiliza, via oral tolera: a primeira exposição ao alergénio por via não oral, sobretudo através da pele inflamada de um lactente com dermatite atópica, leva à sensibilização; a ingestão precoce e regular leva à tolerância.
- As mutações de perda de função da filagrina, proteína essencial à barreira da epiderme, associam-se a dermatite atópica mais precoce e mais persistente, e a barreira lesada deixa passar os alergénios alimentares presentes no ambiente.
- É esta a base da prevenção atual: introduzir cedo por via oral em vez de adiar.
- Outros fatores associados: história familiar de atopia, disbiose intestinal (cesariana, antibióticos, fórmula) e défice de vitamina D, embora a suplementação não previna.
Estabilidade das proteínas e reatividade cruzada
Os alergénios alimentares são glicoproteínas pequenas e hidrossolúveis, com resistência variável ao calor, ao ácido e à digestão. Essa resistência decide a gravidade.
| família de proteínas | estabilidade | o que causa |
|---|---|---|
| PR-10 (homóloga do alergénio da bétula) e profilinas | lábeis ao calor e à digestão | síndrome pólen-alimento: prurido e edema da boca e da faringe com fruta e vegetais crus; o cozinhado é tolerado; reação sistémica em 1 a 2% |
| Proteína de transferência lipídica (LTP) | estável ao calor e às proteases; concentrada na casca | reações sistémicas e anafilaxia dependente de cofatores; é o alergénio major das rosáceas (pêssego) na área mediterrânica |
| Proteínas de reserva das sementes (Ara h 2 e Ara h 6 do amendoim, Cor a 9 e Cor a 14 da avelã) | estáveis | reações sistémicas graves |
- Leite: a caseína resiste a altas temperaturas e tem homologia acima de 85% com a do leite de cabra e de ovelha; as proteínas do soro (alfa-lactalbumina e beta-lactoglobulina) desnaturam com o calor, pelo que quem só reage a elas tolera muitas vezes o leite cozinhado em bolos. A albumina sérica bovina explica reações à carne de vaca crua.
- Ovo: o ovomucoide resiste ao calor e dá reação a todas as formas de ovo; a ovalbumina é lábil, e quem só reage a ela tolera o ovo bem cozinhado.
- Amendoim: é uma leguminosa, e parte dos alérgicos reage à ervilha e ao tremoço; a coexistência com alergia a frutos de casca rija vai de 10 a 40%.
- Marisco: a tropomiosina tem reatividade cruzada com os ácaros do pó doméstico. Peixe: o alergénio major é a parvalbumina.
- Trigo: a ómega-5-gliadina é o alergénio major da anafilaxia induzida pelo exercício dependente do trigo.
Cofatores
- Exercício, infeção, álcool, anti-inflamatórios não esteroides, stress, período pré-menstrual e privação de sono baixam o limiar de reação.
- Alguns doentes só reagem quando o cofator está presente, e a reação pode surgir até 4 horas depois da ingestão se o cofator vier depois.
Reação imediata
- Surge habitualmente nos primeiros 30 a 60 minutos e, por definição, até cerca de 2 horas depois da ingestão ou do contacto. As exceções são a síndrome alfa-gal e as reações dependentes de cofatores.
- Quanto mais cedo começa a reação, mais grave tende a ser.
- O prurido oral costuma ser o primeiro sintoma, com pápulas periorais e edema dos lábios por contacto.
- A urticária é a manifestação mais frequente, por vezes com angioedema, que no lactente pode atingir mãos e pés.
- Vómitos e dor abdominal nas primeiras 2 horas; a diarreia é menos frequente e mais tardia.
- Rinite e conjuntivite podem ser precoces; as reações graves juntam broncospasmo, edema laríngeo, taquicardia, hipotensão e choque.
- O cheiro do alimento, só por si, não provoca reação; os vapores da cozedura de peixe ou de marisco, ou o leite aerossolizado, podem provocar sintomas respiratórios em doentes muito sensibilizados.
Anafilaxia
Reação sistémica grave, de início súbito. É muito provável quando se cumpre um de três critérios:
| critério | quadro |
|---|---|
| 1 | início súbito, em minutos a horas, com pele ou mucosas (urticária, prurido generalizado, edema dos lábios, da língua ou da úvula) e compromisso respiratório ou hipotensão |
| 2 | depois da exposição a um alergénio provável, dois ou mais de: pele ou mucosas, compromisso respiratório, hipotensão, sintomas gastrintestinais persistentes |
| 3 | depois da exposição a um alergénio conhecido, hipotensão |
- Hipotensão na criança: pressão sistólica abaixo de 70 mm Hg antes de 1 ano, abaixo de 70 mm Hg mais o dobro da idade dos 1 aos 10 anos, abaixo de 90 mm Hg dos 11 aos 17 anos, ou descida superior a 30%.
- A pele está atingida em 80 a 90% dos casos, mas 10 a 20% não têm manifestações cutâneas.
- Prurido súbito das palmas e das plantas e sabor metálico são muito sugestivos de anafilaxia a começar.
- Fatores de risco de reação grave: asma, sobretudo mal controlada; sensibilização intensa; anafilaxia prévia; beta-bloqueantes; adolescência.
- A morte ocorre sobretudo por falência respiratória, em regra em doentes com asma.
Nenhum teste isolado faz o diagnóstico: os testes confirmam uma história compatível.
História
- Alimento suspeito e a forma em que foi comido (cru, cozinhado, assado, processado), quantidade, via de exposição, intervalo até aos sintomas, sintomas e duração, reprodutibilidade, alimentos ingeridos em conjunto e cofatores.
- Sintomas que começam mais de 2 horas depois não são, em regra, mediados por IgE, fora da síndrome alfa-gal e das reações com cofatores.
- Um alimento comido depois da reação, na mesma quantidade e sem sintomas, fica em regra excluído.
- Testa-se só o que a história implica. Os painéis de muitos alimentos, sobretudo na dermatite atópica, criam rótulos falsos e evicções desnecessárias, que por sua vez aumentam o risco de alergia verdadeira.
Testes de sensibilização
| teste | o que dá | limites |
|---|---|---|
| Teste cutâneo por picada | positivo com pápula de 3 mm ou mais acima do controlo negativo; sensibilidade de cerca de 90%, especificidade de cerca de 50% | especificidade sobe com o diâmetro da pápula; negativo exclui, na prática, a alergia mediada por IgE; suspender anti-histamínicos antes |
| Picada-picada com o alimento fresco | útil nos vegetais e quando o extrato comercial falha | é o teste indicado na síndrome pólen-alimento, em que os extratos dão falsos negativos |
| IgE específica no soro | valor mais alto, maior valor preditivo positivo; serve para seguir a evolução | menos sensível com IgE total baixa, menos específica com IgE total muito alta |
| Componentes moleculares | separam proteína lábil de estável | Ara h 2 no amendoim, Cor a 14 na avelã, Ana o 3 no caju; úteis sobretudo em quem é sensibilizado a pólenes |
| Teste de ativação dos basófilos | complementar no amendoim e no sésamo | disponibilidade limitada |
- Componentes com leitura clínica: Ara h 2 aponta para alergia sistémica ao amendoim e Ara h 8 (PR-10) para síndrome pólen-alimento; ovomucoide para reação ao ovo em todas as formas; caseína para reação ao leite em todas as formas.
Prova de provocação oral
- É o padrão de referência. Indica-se quando a história e os testes não chegam, para confirmar tolerância, para avaliar a aquisição de tolerância com o tempo e para definir o limiar de reação.
- O alimento é dado em doses crescentes até uma porção, sob vigilância, em meio hospitalar com capacidade para tratar anafilaxia. A prova aberta serve na maioria dos casos; a dupla ocultação com placebo é a referência em investigação.
- Não se faz se a história já é inequívoca, nem em doente com asma não controlada ou doença aguda.
- Depois de uma prova negativa, o alimento entra na dieta na forma e na dose toleradas.
Triptase
- Colhe-se entre 30 minutos e 2 horas depois do início da reação, sem atrasar o tratamento, e compara-se com um valor basal colhido pelo menos 24 horas depois da resolução. Uma subida de 1,2 vezes o basal mais 2 µg/L apoia anafilaxia.
- É muitas vezes normal na anafilaxia alimentar e na criança: triptase normal não exclui.
Testes sem validade
- IgG ou IgG4 específicas para alimentos, testes intradérmicos, testes epicutâneos e testes de transformação linfocitária não têm lugar no diagnóstico. A IgG alimentar é um marcador de exposição, não de doença.
Diagnóstico diferencial
- Síndrome pólen-alimento, só com sintomas orais.
- Intoxicação histamínica por peixe mal conservado; libertação direta de mediadores por alimentos ácidos ou com enzimas (tomate, morango, ananás), sem anafilaxia.
- Alergia ao Anisakis, parasita do peixe, que se confunde com alergia ao peixe.
- Intolerância à lactose e formas não mediadas por IgE, pela latência e pela ausência de sintomas cutâneos.
- Urticária aguda por infeção viral, crise de asma isolada, síncope vasovagal, aspiração de corpo estranho.
Reavaliação
- A alergia ao leite, ao ovo, à soja e ao trigo resolve muitas vezes: reavaliar com testes e, se indicado, com prova de provocação, cerca de cada 6 meses no lactente e na criança pequena e uma vez por ano na criança mais velha e no adolescente.
Introdução dos alimentos alergénicos
- Não se atrasa nenhum alimento alergénico. O ovo bem cozinhado (nunca cru nem mal cozinhado) e o amendoim entram como parte da diversificação alimentar, e a idade mais eficaz nos estudos foi entre os 4 e os 6 meses.
- Num ensaio em lactentes de alto risco (eczema grave ou alergia ao ovo), a ingestão regular de amendoim a partir dos 4 a 11 meses reduziu a alergia ao amendoim em 86% nos lactentes com teste cutâneo negativo ao amendoim à entrada e em 70% nos que já estavam sensibilizados.
- O amendoim dá-se em formas sem risco de engasgamento, como pasta diluída ou alimentos que o contenham; nunca amendoim ou frutos secos inteiros na criança pequena, pelo risco de aspiração.
- Os restantes alimentos alergénicos (leite, soja, trigo, frutos de casca rija, sésamo, peixe, marisco) também entram na diversificação, sem atraso.
- Depois de introduzido, o alimento tem de se manter na dieta de forma regular, várias vezes por mês e idealmente todas as semanas: a exposição ocasional não mantém a tolerância.
Leite de vaca nos primeiros dias
- No lactente amamentado evita-se o suplemento com fórmula de leite de vaca na primeira semana de vida: reduz o risco de alergia ao leite na primeira infância e protege o aleitamento materno.
- Se a fórmula de leite de vaca for introduzida, mantém-se todos os dias, porque a exposição intermitente aumenta o risco.
O que não previne
- Evicção de alimentos alergénicos pela mãe na gravidez ou na amamentação.
- Fórmulas parcialmente ou extensamente hidrolisadas como substituto ou complemento do leite materno: não estão indicadas para prevenir alergia.
- Fórmula de soja nos primeiros 6 meses.
- Emolientes precoces, probióticos, prebióticos, óleo de peixe e vitaminas: não há evidência que os recomende.
Prevenir a reação em quem já é alérgico
- Rotulagem: o regulamento europeu de informação ao consumidor obriga a declarar 14 alergénios (cereais com glúten, crustáceos, ovo, peixe, amendoim, soja, leite, frutos de casca rija, aipo, mostarda, sésamo, sulfitos acima de 10 mg/kg, tremoço e moluscos), destacados tipograficamente na lista de ingredientes. Nos alimentos não pré-embalados, incluindo restaurantes e cantinas, a informação sobre estes alergénios também é obrigatória.
- A menção «pode conter» é informação voluntária e não diz nada sobre a quantidade: interpreta-se com o imunoalergologista.
- Plano escrito entregue à família, à creche e à escola, com o alergénio, os sintomas e o que fazer.
Anafilaxia
A adrenalina intramuscular é a primeira linha e não tem contraindicações absolutas numa anafilaxia.
- Retirar o alergénio e pedir ajuda.
- Adrenalina a 1 mg/mL, 0,01 mg/kg (0,01 mL/kg), até ao máximo de 0,5 mg, na face anterolateral do terço médio da coxa. Repete-se ao fim de 5 minutos se não houver melhoria, até três administrações.
- Posição: deitado com os membros inferiores elevados; sentado com as pernas elevadas se a dificuldade respiratória predominar; decúbito lateral se estiver inconsciente ou a vomitar. Nunca pôr de pé nem sentar de repente.
- Oxigénio; acesso venoso; soro fisiológico em bólus de 10 a 20 mL/kg se houver compromisso circulatório, a repetir conforme a resposta.
- Broncospasmo que persiste: salbutamol inalado. Estridor: adrenalina nebulizada.
- Anti-histamínicos e corticoides são de segunda linha: tratam a pele, mas não a obstrução da via aérea nem o choque, e os corticoides não previnem reações bifásicas.
- Refratária: perfusão de adrenalina endovenosa em cuidados intensivos; glucagon se estiver sob beta-bloqueante.
| idade (se o peso for desconhecido) | adrenalina 1 mg/mL intramuscular |
|---|---|
| Menos de 6 meses | 0,01 mL/kg |
| 6 meses a 5 anos | 0,15 mL |
| 6 a 11 anos | 0,3 mL |
| 12 anos ou mais | 0,5 mL (0,3 mL numa reação moderada) |
- Observação hospitalar pelo risco de reação bifásica. A norma da DGS pede no mínimo 8 a 24 horas depois de estabilizar, e o anexo da mesma norma pede internamento de pelo menos 24 a 72 horas depois de choque anafilático. A EAACI 2021 sugere pelo menos 6 a 8 horas se houve compromisso respiratório e pelo menos 12 a 24 horas se houve hipotensão.
- Todo o episódio de anafilaxia é de registo obrigatório no Catálogo Português de Alergias e outras Reações Adversas (CPARA), e o doente é obrigatoriamente referenciado a imunoalergologia.
- Reação só cutânea, sem outros sistemas: anti-histamínico oral e vigilância.
Autoinjetores de adrenalina
| peso | autoinjetor |
|---|---|
| 7,5 kg até 25 a 30 kg | 0,15 mg |
| A partir de 25 a 30 kg | 0,3 mg |
| Adolescente | pelo menos 0,3 mg |
- Prescrevem-se dois, que a criança traz sempre consigo: cerca de 10% dos doentes precisam de segunda dose, e o dispositivo pode falhar.
- Indicações absolutas: anafilaxia prévia a alimento; anafilaxia induzida pelo exercício; anafilaxia idiopática; asma instável ou moderada a grave com alergia alimentar; mastocitose.
- Considerar se houver: reação ligeira a moderada a amendoim, frutos de casca rija, leite ou marisco; reação a vestígios do alimento; adolescente; longe de cuidados médicos; imunoterapia oral em curso.
- O treino com o dispositivo repete-se em cada consulta.
Evicção e dieta
- Evita-se o alimento, ou a forma do alimento, a que a criança é alérgica, e só esse. Os alimentos tolerados, incluindo formas cozinhadas toleradas (leite ou ovo em bolos), mantêm-se na dieta com regularidade.
- Um alimento aparentado não se retira por sistema: a criança alérgica à avelã que come outros frutos secos sem problemas continua a comê-los.
- Nutricionista nos casos com várias exclusões; vigiar peso, comprimento e ingestão de cálcio, vitamina D e proteína.
- Apoio psicológico quando a ansiedade limita a vida da família.
Imunoterapia oral e biológicos
- Consiste em dar doses crescentes do alimento, diariamente, para subir o limiar de reação. Distingue-se a dessensibilização (tolera enquanto faz o tratamento) da remissão (tolera depois de o parar).
- Amendoim: recomendada em crianças e adolescentes, para obter dessensibilização. Leite e ovo: sugerida, em regra a partir dos 4 anos, porque antes disso muitas destas alergias resolvem sozinhas.
- A eficácia é maior quanto mais nova é a criança.
- Iniciação e aumentos de dose em meio hospitalar, por equipa com experiência; autoinjetor sempre prescrito; evitar cofatores (exercício, banho quente, anti-inflamatórios) à volta da toma.
- Efeitos adversos: reações alérgicas, incluindo anafilaxia, sintomas gastrintestinais frequentes e esofagite eosinofílica.
- O omalizumab (anti-IgE) é sugerido a partir de 1 ano de idade para subir o limiar de reação, isolado ou associado à imunoterapia.
Evolução natural
| alimento | resolução |
|---|---|
| Leite | 70 a 80% toleram aos 3 anos |
| Ovo | 50 a 60% resolvem até à idade escolar |
| Amendoim | persiste em 70 a 80%; cerca de 22% dos diagnosticados a 1 ano resolvem até aos 4 anos |
| Frutos de casca rija | 9 a 14% resolvem até aos 4 anos |
| Sésamo | cerca de 30% até aos 4 a 5 anos |
| Peixe e leguminosas | persistem em mais de metade aos 12 anos |
| Marisco | raramente resolve |
- A resolução é mais lenta em séries de centros especializados: numa delas, só 79% dos alérgicos ao leite e 68% dos alérgicos ao ovo toleravam aos 16 anos.
- Predizem persistência a pápula maior, a IgE específica mais alta (no leite, sobretudo com picos de 20 kU/L ou mais) e, no leite, a asma e a rinite associadas.
- Tolerar leite ou ovo cozinhados em bolos marca um fenótipo mais ligeiro e mais transitório.
Complicações
- Anafilaxia fatal: o amendoim e os frutos de casca rija causam as reações mais graves e grande parte das mortes; a asma e o atraso da adrenalina são os fatores que pesam mais.
- Nutricionais: défices de energia, proteína, cálcio, vitamina D, iodo e vitaminas do complexo B com dietas de evicção sem acompanhamento, sobretudo com vários alimentos excluídos.
- Psicossociais: ansiedade da criança e dos pais, isolamento social, perturbação restritiva da ingestão alimentar.
- Esofagite eosinofílica como complicação da imunoterapia oral.
- Lactente e pré-escolar: não descrevem os sintomas, o diagnóstico é mais difícil e a evolução para choque mais rápida. A anafilaxia através do leite materno é descrita, mas é muito rara.
- Adolescente: grupo de maior risco de anafilaxia grave, por comportamentos de risco, como o consumo de álcool e de drogas. A transição para a autogestão treina-se de forma ativa.
- Asma: aumenta o risco de reação grave e de morte; é indicação absoluta de autoinjetor quando coexiste com alergia alimentar.
- Anafilaxia induzida pelo exercício dependente de alimento: o alimento só provoca reação se for seguido de exercício, em regra nos primeiros 30 minutos de atividade. O trigo é o mais frequente (ómega-5-gliadina); também frutos secos, marisco, vegetais e frutos frescos. A prova combinada de alimento e exercício tem sensibilidade de cerca de 70%, e uma prova negativa não exclui.
- Síndrome alfa-gal: urticária ou anafilaxia 3 a 6 horas depois de comer carne de mamífero, em pessoas sensibilizadas por picadas de carraça. É muitas vezes transitória (3 a 5 anos), mas pesa em quem precise de válvulas cardíacas de origem animal ou de cetuximab. Raramente causa alergia ao leite.
- Síndrome da LTP: frequente no Sul da Europa, com reações sistémicas a frutos e vegetais, muitas vezes só com cofatores; o fruto descascado é por vezes tolerado.
- Vacinas: a alergia ao ovo não contraindica a vacina contra sarampo, parotidite e rubéola, que se dá como habitualmente. Quem teve anafilaxia a uma dose anterior ou a um componente em quantidade vestigial (proteína do ovo, gelatina, neomicina) é referenciado a imunoalergologia antes de vacinar.
- Reação imunológica e reprodutível às proteínas do leite de vaca, mediada por IgE, não mediada por IgE ou mista. Não se confunde com a intolerância à lactose, que é o açúcar e não a proteína.
- Prevalência de cerca de 2,3%, maior nas idades mais novas; o sobrediagnóstico é muito mais frequente do que o subdiagnóstico, e os dois fazem mal.
- Com os frutos secos, é a causa mais frequente de anafilaxia alimentar na criança.
- Aparece nos primeiros meses de vida, muitas vezes ao introduzir a fórmula, e mais raramente em lactentes com aleitamento materno exclusivo, pelas proteínas da dieta da mãe.
- O leite de vaca tem cerca de 3 g de proteína por 100 mL. As que mais causam alergia mediada por IgE são a caseína (Bos d 8), a beta-lactoglobulina (Bos d 5), que não existe no leite humano, e a alfa-lactalbumina (Bos d 4).
- Três mecanismos, que na prática se sobrepõem:
| mecanismo | quadros |
|---|---|
| Mediado por IgE | urticária, angioedema, vómitos imediatos, sibilância, anafilaxia |
| Misto | dermatite atópica, esofagite eosinofílica, gastroenterite eosinofílica |
| Não mediado por IgE (linfócitos T) | proctocolite, enteropatia, síndrome de enterocolite induzida por proteínas alimentares |
- Uma criança com IgE específica negativa pode positivá-la mais tarde.
- A caseína resiste ao calor; as proteínas do soro desnaturam, o que explica que muitas crianças toleram o leite cozinhado em bolos antes de tolerarem o leite fresco.
- Os leites de cabra e de ovelha têm caseínas com homologia acima de 85% e não servem de substituto.
| tipo | latência | sintomas |
|---|---|---|
| Imediato (mediado por IgE) | até cerca de 2 horas | eritema, prurido, urticária, angioedema; rinorreia, espirros, pieira, tosse, dispneia; vómitos e diarreia; hipotensão, síncope, choque |
| Não imediato | 2 a 48 horas | eczema atópico, exantema; refluxo, vómitos, diarreia, sangue ou muco nas fezes, cólica, recusa alimentar, obstipação, esforço defecatório excessivo, eritema perianal |
- Manifestações só gastrintestinais tornam pouco provável o mecanismo mediado por IgE.
- A sintomatologia é muitas vezes inespecífica. Alterações das fezes, recusa alimentar ou laivos ocasionais de sangue são frequentes em lactentes saudáveis e, sozinhos, não fazem o diagnóstico.
- Sinais de gravidade: anafilaxia, má progressão ponderal, anemia ferropénica, hipoalbuminemia, vómitos com letargia.
Suspeita
- A história alergológica é o primeiro passo e orienta o mecanismo: alimento e processamento (leite cru, fervido, em bolos), via de exposição, intervalo, quantidade, cofatores.
- O índice CoMiSS (pontuação de sintomas relacionados com o leite de vaca) soma cinco domínios: choro, regurgitação, consistência das fezes pela escala de Bristol, pele (eczema e urticária) e sintomas respiratórios. Com 10 pontos ou mais o diagnóstico torna-se mais provável, mas o índice não é teste diagnóstico e não dispensa a prova de eliminação e reintrodução.
Forma não mediada por IgE, ligeira a moderada
- Dieta de eliminação diagnóstica curta e reintrodução: o diagnóstico estabelece-se se os sintomas desaparecem com a evicção estrita e voltam quando o leite é reintroduzido. A norma portuguesa aceita 2 a 6 semanas e usa habitualmente 4; a posição europeia de gastrenterologia pediátrica pede 2 a 4 semanas. No eczema grave podem ser 6 a 8 semanas.
- Sem melhoria nesse prazo, o diagnóstico é improvável.
- A reintrodução pode fazer-se no domicílio, com aumento progressivo diário da fórmula de leite de vaca durante uma semana.
- Testes cutâneos e IgE específica não estão indicados quando só há sintomas digestivos.
Forma mediada por IgE
- Testes cutâneos (com extrato comercial e picada-picada com leite) e, ou, IgE específica para leite e para componentes (caseína, beta-lactoglobulina, alfa-lactalbumina), feitos em serviço hospitalar com experiência.
- A prova de provocação oral confirma ou exclui e define o limiar; é hospitalar e nunca se faz no domicílio, porque a reexposição pode ser mais grave do que a reação inicial.
- Com IgE alta ou reação inicial grave, a prova faz-se com leite fervido ou em bolos e em doses crescentes, repetida ao longo do tempo.
- Acima dos 3 anos, a prova usa leite sem lactose, para a diarreia de uma intolerância à lactose não confundir o resultado.
Outros exames
- Endoscopia só com sintomas persistentes sem explicação, má progressão ponderal ou anemia ferropénica; os achados (atrofia, infiltrado eosinofílico) não são específicos.
- Não se pedem IgG ou IgG4 específicas, testes epicutâneos, intradérmicos, IgE total nem testes de transformação linfocitária.
Diagnóstico diferencial
- Cólica do lactente, refluxo gastroesofágico fisiológico, gastroenterite e síndrome pós-enterite, intolerância secundária à lactose, fissura anal, infeções, doença celíaca depois da introdução do glúten.
- No lactente amamentado, evitar suplementos de fórmula de leite de vaca na primeira semana de vida; a maioria dos recém-nascidos de termo saudáveis não precisa de suplemento.
- Se a fórmula de leite de vaca for introduzida, mantê-la diariamente: a exposição intermitente (alguns biberões na maternidade seguidos de aleitamento exclusivo) aumenta o risco.
- Não prevenir com fórmulas hidrolisadas, fórmula de soja nos primeiros 6 meses, evicção materna, probióticos ou prebióticos.
Evicção
- Evicção de leite de vaca e derivados, com leitura de rótulos (soro, caseína, caseinato, lactoalbumina, lactoglobulina, lactose, aroma de manteiga). Também o leite de cabra e de ovelha.
- A diversificação alimentar faz-se como em qualquer criança, só sem leite e derivados até à reavaliação.
Fórmulas no lactente que não está em aleitamento materno exclusivo
| fórmula | quando |
|---|---|
| Extensamente hidrolisada (péptidos pequenos de caseína ou de soro) | primeira escolha; reações ligeiras a moderadas e a maioria dos sintomas digestivos |
| Hidrolisado de proteína de arroz | alternativa |
| De aminoácidos (elementar) | reações graves, anafilaxia, enteropatia grave com hipoproteinemia, atraso de crescimento, sintomas multissistémicos, alergias múltiplas, ou falha da extensamente hidrolisada (cerca de 10% não a toleram) |
| Soja | nunca antes dos 6 meses; reagem 10 a 14% dos alérgicos ao leite |
- Não servem: fórmulas parcialmente hidrolisadas, leite de outros mamíferos (reatividade cruzada e composição inadequada) e bebidas vegetais (arroz, amêndoa, coco, soja), que não cobrem as necessidades do lactente.
- A prescrição inicial da fórmula de aminoácidos é hospitalar, e a necessidade revê-se todos os anos.
- Uma fórmula sem lactose não trata a alergia: continua a ter as proteínas do leite.
Lactente em aleitamento materno
- Manter a amamentação. Na forma não mediada por IgE, a mãe faz uma prova terapêutica de 4 semanas sem leite de vaca.
- A mãe em dieta prolongada sem leite deve ter ingestão diária de 15 µg de vitamina D, 950 a 1000 mg de cálcio e 200 µg de iodo, com suplemento se a alimentação não chegar.
- Em aleitamento misto, a mãe continua a amamentar e não exclui o leite da sua dieta sem necessidade.
Duração e reavaliação
- Não mediada por IgE, ligeira a moderada: a tolerância surge habitualmente ao fim de 3 a 6 meses de exclusão.
- Síndrome de enterocolite: tolerância em regra só depois de 12 meses de exclusão; se a reintrodução falhar, nova tentativa 6 meses depois.
- Formas graves mediadas por IgE: exclusão até 12 a 18 meses, com reavaliação individual.
- Não prolongar a dieta sem necessidade: a prova de provocação faz-se quando está indicada.
Reação aguda
- Sintomas de um só sistema: suspender o leite e dar anti-histamínico H1, com ou sem corticoide.
- Dois ou mais sistemas, ou só cardiovascular: anafilaxia, com adrenalina intramuscular e observação no serviço de urgência.
Imunoterapia oral
- Considerada nas formas mediadas por IgE persistentes, sobretudo graves, e em regra a partir dos 4 anos, só em meio hospitalar com experiência. Associa-se a reações graves no domicílio e a esofagite eosinofílica: perguntar sempre por disfagia, dor torácica, vómitos e impactação.
- Tolerância em cerca de metade ao ano de idade, 75% aos 3 anos e mais de 90% aos 6 anos.
- Persistência mais provável com IgE específica alta (picos de 20 kU/L ou mais), pápula grande, eczema mais grave, asma e rinite.
- Riscos da evicção prolongada: défices de energia, proteína, cálcio, fósforo, iodo, vitamina A, vitamina D e vitaminas B2 e B12, com impacto no crescimento. Pedem avaliação nutricional regular.
Reações alimentares imunológicas mediadas por linfócitos T, com sintomas digestivos que aparecem horas a semanas depois do alimento. Formam provavelmente um espetro, e o segmento do tubo digestivo atingido decide o quadro.
| proctocolite | enteropatia | síndrome de enterocolite (FPIES) | |
|---|---|---|---|
| Segmento | cólon distal | intestino delgado | todo o tubo digestivo |
| Início | primeiros dias até aos 6 meses (mediana de 2 meses) | primeiros 9 meses, em regra aos 1 a 2 meses | primeiras semanas a meses; também no adulto |
| Frequência | causa comum de sangue nas fezes no lactente | a menos frequente, e em diminuição | incidência pediátrica acumulada de 0,14 a 0,7% |
- A síndrome de enterocolite induzida por proteínas alimentares designa-se pela sigla inglesa FPIES (food protein-induced enterocolitis syndrome). A forma crónica é 10 a 15% dos casos no lactente.
- A proctocolite tem risco maior no lactente só com fórmula e no amamentado em exclusivo do que no aleitamento misto; associa-se a atopia familiar e ao uso de supressores de ácido.
- Mecanismo imunológico sem IgE específica relevante, com linfócitos T específicos, imunidade inata e, na proctocolite e na enteropatia, infiltrado eosinofílico e linfocitário da mucosa.
- Na FPIES há ativação sistémica: monócitos com fator de necrose tumoral alfa, eosinófilos no sangue e nas fezes, e libertação de serotonina pelas células enterocromafins, que ativa o vómito pelas aferências vagais (é por isso que o ondansetrom funciona).
- Na enteropatia, a biópsia mostra atrofia das vilosidades, hiperplasia das criptas e infiltrado linfocitário.
Alimentos implicados
| quadro | alimentos |
|---|---|
| Proctocolite no amamentado | leite, soja, ovo, milho e trigo na dieta da mãe; mais raramente carne, peixe, maçã, cenoura, frutos secos, sésamo |
| Proctocolite com fórmula | leite e soja |
| Enteropatia | sobretudo leite; também soja, trigo e ovo |
| FPIES | leite, soja, arroz, aveia e outros cereais, ovo, peixe; nos últimos anos também amendoim e frutos de casca rija |
- Cerca de 40% das proctocolites têm mais de um alimento desencadeante; a FPIES tem em regra um só.
- Na FPIES, reações durante o aleitamento materno exclusivo são raras (cerca de 5%).
Proctocolite
- Sangue e muco nas fezes, com ou sem diarreia, num lactente saudável que cresce bem.
Enteropatia
- Diarreia arrastada sem sangue, má absorção, hipoproteinemia com edema e distensão abdominal, vómitos e má progressão ponderal, semanas depois de introduzir a fórmula de leite.
FPIES aguda
- Vómitos repetidos e em jato 1 a 4 horas (entre 30 minutos e 6 horas) depois do alimento, com palidez e letargia; diarreia em 5 a 10 horas.
- Nos casos graves: hipotensão, hipotermia, acidose, metemoglobinemia e choque hipovolémico.
- Sem urticária nem sintomas respiratórios. Pode surgir na primeira exposição ou depois de um período de tolerância.
FPIES crónica
- Com ingestão regular do alimento: vómitos intermitentes e progressivos, diarreia (por vezes com sangue), desidratação, acidose e má progressão ponderal. Resolve em dias com a evicção, mas a reintrodução provoca uma reação aguda.
O diagnóstico é clínico: melhoria com a evicção e recorrência na reintrodução. Testes cutâneos, IgE específica e testes epicutâneos não estão indicados.
Critérios da FPIES aguda
Critério major: vómitos 1 a 4 horas depois do alimento suspeito e ausência de sintomas cutâneos ou respiratórios típicos de IgE. Mais 3 ou mais critérios minor:
-
dois ou mais episódios de vómitos repetidos com o mesmo alimento;
-
episódio de vómitos repetidos com outro alimento;
-
letargia extrema;
-
palidez acentuada;
-
ida ao serviço de urgência;
-
necessidade de fluidos endovenosos;
-
diarreia nas 24 horas seguintes (em regra às 5 a 10 horas);
-
hipotensão;
-
hipotermia.
-
Análises, se colhidas na crise: leucocitose, neutrofilia, trombocitose, acidose metabólica e metemoglobinemia.
-
A FPIES crónica exige resolução em 3 a 10 dias após a evicção e reação aguda na reintrodução; sem prova, o diagnóstico é presuntivo.
-
Antes de reintroduzir, o imunoalergologista pode pedir IgE, porque a evicção prolongada aumenta o risco de sensibilização mediada por IgE.
Proctocolite
- Os sintomas desaparecem em 1 a 2 semanas depois da evicção (o sangue em mediana em 3 dias; o muco pode durar cerca de um mês), e voltam com a reintrodução, que confirma o diagnóstico. Sem reintrodução, cerca de 11% seriam rotulados sem razão.
- Em regra não se pedem exames nem endoscopia. A calprotectina fecal não serve.
Enteropatia
- Suspeita pela clínica e pela resposta à evicção em 1 a 4 semanas; a confirmação é por biópsia do intestino delgado. A alfa-1-antitripsina fecal documenta a perda proteica.
Esofagite eosinofílica
- Doença mista, sobretudo não mediada por IgE, com sintomas de disfunção esofágica e 15 ou mais eosinófilos por campo de grande ampliação em pelo menos uma biópsia do esófago, excluídas outras causas.
- No lactente e na criança pequena: vómitos, recusa alimentar, engasgamento e má progressão ponderal; na criança mais velha e no adolescente: disfagia e impactação alimentar, com hábitos de compensação (comer devagar, beber muito às refeições).
- O leite é o alimento mais implicado (74%), seguido do trigo (26%) e do ovo (17%); os testes de IgE não identificam os alimentos responsáveis.
- Tratamento com inibidor da bomba de protões, corticoide tópico deglutido ou dieta de evicção empírica (começando pelo leite).
Diagnóstico diferencial
- FPIES aguda: gastroenterite, sépsis, invaginação, volvo, enterocolite necrosante, erros inatos do metabolismo, anafilaxia.
- Proctocolite: fissura anal, sangue materno deglutido, infeção, invaginação, divertículo de Meckel, doença inflamatória de início muito precoce, alterações da coagulação.
- Enteropatia: doença celíaca, fibrose quística, imunodeficiências, enteropatia autoimune.
Crise de FPIES
- Ligeira, sem letargia nem hipotensão: ondansetrom oral e reidratação oral, que pode ser em casa.
- Ondansetrom 0,15 mg/kg endovenoso ou intramuscular, dose única.
- Desidratação ou hipotensão: soro fisiológico em bólus de 10 a 20 mL/kg e metilprednisolona 1 mg/kg (máximo 60 a 80 mg), embora sem estudos que provem benefício do corticoide.
- A adrenalina não está indicada: não trata os vómitos. Só se prescreve autoinjetor se houver dúvida com alergia mediada por IgE.
- Entregar à família uma carta para o serviço de urgência a explicar a doença e o tratamento.
Depois da crise
- Evicção do alimento desencadeante. Não se evitam outros alimentos alergénicos por precaução: a diversificação faz-se sem atraso.
- Não é preciso evitar produtos com «pode conter», e em regra a mãe que amamenta não precisa de retirar o alimento da dieta.
- Se o leite ou o ovo forem tolerados muito cozinhados, mantêm-se nessa forma.
- Na FPIES ao leite, a fórmula de aminoácidos é quase sempre tolerada; cerca de 21% reagem à extensamente hidrolisada, 47% à soja e 70% à parcialmente hidrolisada.
- A reintrodução faz-se por prova de provocação vigiada pelo imunoalergologista; no leite, habitualmente depois de 12 meses de exclusão.
Proctocolite
- Amamentado: evicção do alimento na dieta da mãe, com suplemento de cálcio se retirar o leite. Com fórmula: extensamente hidrolisada, e de aminoácidos se não resultar.
- Nos casos ligeiros pode esperar-se 1 mês antes da evicção: até 20% dos amamentados resolvem sem mudar a dieta materna.
- Reintroduzir entre os 6 e os 12 meses; se os sintomas voltarem, mais 1 a 2 meses de evicção e nova tentativa.
Enteropatia
- Seguimento por gastrenterologia pediátrica; internamento e nutrição parentérica nos casos graves.
- Fórmula extensamente hidrolisada em primeira linha e de aminoácidos se falhar; a soja só depois dos 6 meses e sem má progressão ponderal. Reintroduzir aos 9 a 12 meses.
| quadro | resolução |
|---|---|
| Proctocolite | a maioria tolera ao ano de idade; mais tarde (cerca de 30 meses) quando havia diarreia |
| Enteropatia | a maioria aos 2 a 3 anos |
| FPIES com início no lactente | 35% aos 2 anos, 70% aos 3 anos, 85% aos 5 anos |
- Na FPIES, a do leite resolve mais cedo e a do peixe mais tarde; o ovo cozinhado é tolerado antes do cru.
- Complicações: choque hipovolémico na FPIES aguda, má progressão ponderal na enteropatia e na FPIES crónica, anemia ligeira na proctocolite, e défices nutricionais com dietas de evicção prolongadas.
- A FPIES associa-se a refluxo gastroesofágico, proctocolite e esofagite eosinofílica.
- Reações adversas não imunológicas: dependem da dose e não causam anafilaxia.
- Tipos: metabólicas (défice de lactase, défice de sacarase-isomaltase), farmacológicas (cafeína, tiramina), tóxicas (histamina do peixe mal conservado) e funcionais (síndrome do intestino irritável).
- A intolerância à lactose é a mais importante: primária (défice racial de lactase, com início a partir da idade escolar), secundária a lesão da mucosa (gastroenterite, doença celíaca) e congénita, muito rara.
- É rara antes dos 3 anos, fora da forma transitória depois de uma gastroenterite.
- Sem lactase suficiente na bordadura em escova, a lactose fica por digerir no lúmen: é uma carga osmótica que puxa água e eletrólitos, e no cólon é fermentada pelas bactérias, que libertam hidrogénio, metano e ácidos, baixando o pH das fezes.
- Daí a diarreia ácida e explosiva, a distensão e a flatulência.
- Os sintomas dependem da quantidade de lactose ingerida, da atividade residual da lactase e da flora intestinal.
- Diarreia aquosa, ácida e explosiva, que irrita a pele perianal; distensão abdominal, flatulência, dor e náuseas, pouco depois de ingerir lactose.
- Nos casos graves, desidratação e desnutrição.
- Os sintomas melhoram com leite sem lactose, e há tolerância a derivados com pouca ou nenhuma lactose.
- Sem urticária, sem angioedema, sem sintomas respiratórios.
- A história basta muitas vezes: relação entre a lactose ingerida e os sintomas, que se resolvem com a sua retirada.
| exame | resultado sugestivo |
|---|---|
| pH fecal | inferior a 5 (normal de 6 a 8; no amamentado, 4,5 a 6) |
| Substâncias redutoras nas fezes | acima de 0,5% |
| Teste do hidrogénio expirado após sobrecarga de lactose | subida tardia (aos 90 a 120 minutos) de 20 ppm ou mais sobre o basal; a subida precoce sugere sobrecrescimento bacteriano; falsos negativos com antibióticos recentes |
- Nos casos primários, estudo genético ou biópsia com atividade enzimática.
- Testes de alergia não têm papel.
Diagnóstico diferencial
- Alergia às proteínas do leite de vaca: é a proteína, não o açúcar; pode dar urticária e anafilaxia e não melhora com leite sem lactose.
- Síndrome pós-enterite, sobrecrescimento bacteriano, doença celíaca, giardíase, diarreia crónica inespecífica (dos 6 meses aos 3 anos, sem afetar o crescimento).
- Galactosemia: é um erro inato do metabolismo da galactose, não uma intolerância.
- Intolerância secundária: retirar a lactose durante 4 a 6 semanas e reintroduzir de forma progressiva quando a mucosa recuperar.
- Intolerância primária: reduzir a lactose até à quantidade tolerada, que varia com a lactase residual; os derivados pobres em lactose costumam ser tolerados. Garantir o cálcio e a vitamina D.
- Défice congénito de lactase: fórmula sem lactose desde o nascimento.
- Galactosemia: fórmula de soja, porque além da lactose é preciso excluir a galactose.
- Não há risco de anafilaxia: não se prescreve adrenalina.
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