Pneumologia e Alergologia›Alergia e intolerância alimentarPublicado (Premium)

Alergia e intolerância alimentar na criança

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema

Em resumo

A reação adversa a um alimento pode ser imunológica ou não. Quando é imunológica e reprodutível é alergia alimentar, e reage a quantidades pequenas do alimento; quando não é, é intolerância, como a da lactose, que depende da dose e nunca dá anafilaxia. Estar sensibilizado, com teste cutâneo ou IgE específica positivos, não é o mesmo que ser alérgico: muitas crianças sensibilizadas comem o alimento sem sintomas.

A alergia mediada por IgE é a forma que mata. Começa nos primeiros anos de vida, muitas vezes por sensibilização através de uma pele com eczema, e reage em minutos a 2 horas com urticária, angioedema, vómitos, broncospasmo ou choque. O leite e o ovo dominam no lactente e costumam resolver até à idade escolar; o amendoim, os frutos de casca rija, o peixe e o marisco aparecem mais tarde e tendem a persistir. Os alimentos são a causa mais frequente de anafilaxia na criança.

As formas não mediadas por IgE são digestivas e tardias: a proctocolite, com sangue nas fezes num lactente saudável; a enteropatia, com diarreia arrastada e má progressão ponderal; e a síndrome de enterocolite induzida por proteínas alimentares, com vómitos repetidos 1 a 4 horas depois do alimento, palidez e letargia, que pode chegar ao choque. Os testes de IgE não servem para elas: o diagnóstico é clínico, pela melhoria com a evicção e pela recorrência na reintrodução.

O diagnóstico parte da história. Nas formas mediadas por IgE confirma-se a sensibilização com teste cutâneo ou IgE específica, se preciso por componentes moleculares, e resolve-se a dúvida com a prova de provocação oral, que é o padrão de referência. O tratamento assenta na evicção apenas do que está confirmado, na leitura dos rótulos, num plano escrito e em dois autoinjetores de adrenalina para quem tem risco de anafilaxia; a imunoterapia oral é hoje uma opção na alergia ao amendoim e, a partir dos 4 anos, na do leite e na do ovo. No lactente com alergia às proteínas do leite de vaca, a primeira escolha é a fórmula extensamente hidrolisada.

O que não se pode falhar: a anafilaxia trata-se com adrenalina intramuscular na coxa, logo, e os anti-histamínicos não a substituem; o ovo bem cozinhado e o amendoim entram na diversificação alimentar, sem atraso; uma dieta de evicção sem diagnóstico confirmado ou sem reavaliação prejudica o crescimento; e uma fórmula sem lactose não trata a alergia às proteínas do leite.

Referências

  1. Guerrero-Fernández J, Cartón Sánchez AJ, Barreda Bonis AC, Menéndez Suso JJ, Ruiz Domínguez JA, editores. Manual de diagnóstico y terapéutica en pediatría. 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. Cap. 3, Shock; cap. 8, Alergias; cap. 99 e 103, Diarrea crónica. Malabsorción; cap. 110.5, Reacciones adversas a las proteínas de la leche de vaca.
  2. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 014/2012, de 16/12/2012, atualizada a 18/12/2014. Anafilaxia: abordagem clínica. Lisboa: DGS; 2014.
  3. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 003/2024, de 26/06/2024. Abordagem diagnóstica e de tratamento à pessoa com alergia ao leite de vaca. Lisboa: DGS; 2024.
  4. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Vacinação 2020. Lisboa: DGS; 2020.
  5. Regulamento (UE) n.º 1169/2011 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 25 de outubro de 2011, relativo à prestação de informação aos consumidores sobre os géneros alimentícios. Jornal Oficial da União Europeia. 2011;L 304:18-63.
  6. Santos AF, Riggioni C, Agache I, Akdis CA, Akdis M, Alvarez-Perea A, et al. EAACI guidelines on the diagnosis of IgE-mediated food allergy. Allergy. 2023;78(12):3057-76.
  7. Santos AF, Riggioni C, Agache I, Akdis CA, Akdis M, Alvarez-Perea A, et al. EAACI guidelines on the management of IgE-mediated food allergy. Allergy. 2025;80(1):14-36.
  8. Halken S, Muraro A, de Silva D, Khaleva E, Angier E, Arasi S, et al. EAACI guideline: preventing the development of food allergy in infants and young children (2020 update). Pediatr Allergy Immunol. 2021;32(5):843-58.
  9. Muraro A, Worm M, Alviani C, Cardona V, DunnGalvin A, Garvey LH, et al. EAACI guidelines: anaphylaxis (2021 update). Allergy. 2022;77(2):357-77.
  10. Vandenplas Y, Broekaert I, Domellöf M, Indrio F, Lapillonne A, Pienar C, et al. An ESPGHAN position paper on the diagnosis, management, and prevention of cow's milk allergy. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2024;78(2):386-413.
  11. Nowak-Węgrzyn A, Chehade M, Groetch ME, Spergel JM, Wood RA, Allen K, et al. International consensus guidelines for the diagnosis and management of food protein-induced enterocolitis syndrome. J Allergy Clin Immunol. 2017;139(4):1111-26.e4.
  12. Cook VE, Connors LA, Vander Leek TK, Watson W. Non-immunoglobulin E-mediated food allergy. Allergy Asthma Clin Immunol. 2024;20(Suppl 3):70.
  13. Bégin P, Waserman S, Protudjer JLP, Jeimy S, Watson W. Immunoglobulin E (IgE)-mediated food allergy. Allergy Asthma Clin Immunol. 2024;20(Suppl 3):75.
  14. Chan ES, Abrams EM, Mack DP, Protudjer JLP, Watson W. Primary prevention of food allergy: beyond early introduction. Allergy Asthma Clin Immunol. 2024;20(Suppl 3):71.
  15. Erdle SC, Carr S, Chan ES, Robertson K, Watson W. Eosinophilic esophagitis. Allergy Asthma Clin Immunol. 2024;20(Suppl 3):72.
  16. Lee ECK, Trogen B, Brady K, Ford LS, Wang J. The natural history and risk factors for the development of food allergies in children and adults. Curr Allergy Asthma Rep. 2024;24(3):121-31.
  17. Barni S, Liccioli G, Sarti L, Giovannini M, Novembre E, Mori F. Immunoglobulin E (IgE)-mediated food allergy in children: epidemiology, pathogenesis, diagnosis, prevention, and management. Medicina (Kaunas). 2020;56(3):111.
  18. Tham EH, Leung DY. Mechanisms by which atopic dermatitis predisposes to food allergy and the atopic march. Allergy Asthma Immunol Res. 2019;11(1):4-15.
  19. Hauser M, Roulias A, Ferreira F, Egger M. Panallergens and their impact on the allergic patient. Allergy Asthma Clin Immunol. 2010;6(1):1.

14 perguntas sobre Alergia e intolerância alimentar

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar