Pediatria GeralCrescimento normalPublicado (Premium)

Crescimento normal

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 26 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema

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Em resumo

O crescimento é o sinal vital da pediatria: é o único parâmetro que integra nutrição, endocrinologia, doença crónica oculta e contexto psicossocial numa só linha desenhada num gráfico. Na PNA rende por três razões. Primeira, é território de raciocínio puro: dão-te peso, comprimento e idade e esperam que percebas se aquilo é fisiológico, se é erro de medição ou se é doença. Segunda, obriga a distinguir uma fotografia (o percentil de hoje) de um filme (o canal ao longo do tempo), e essa distinção separa quem estudou de quem decorou. Terceira, tem uma camada portuguesa concreta: o Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil, as idades-chave de vigilância e as curvas da Organização Mundial da Saúde adotadas em 2013 em substituição das norte-americanas. O capítulo ensina a medir, a registar e a interpretar, que é o que a consulta de vigilância faz sempre que a criança entra na sala.

As três fases do crescimento (modelo de Karlberg)

O modelo Infancy, Childhood, Puberty descreve o crescimento pós-natal como a soma de três componentes que se sobrepõem, cada um com um controlo dominante distinto. É a moldura mais útil, porque explica em que idade cada doença se manifesta no gráfico.

FasePeríodoControlo dominanteVelocidadeFalha típica traduz-se em
LactenteDo nascimento aos 2 a 3 anosNutrição e insulina (mais IGF-1 e IGF-2 pouco dependentes de GH); tamanho ao nascer determinado pelo ambiente intrauterinoMuito alta, em desaceleração rápidaMá progressão ponderal, desnutrição, doença celíaca, fibrose quística, insuficiência de aporte
InfânciaDos 2 a 3 anos até ao início da puberdadeEixo hormona de crescimento (GH) e IGF-1, com permissividade obrigatória das hormonas tiroideiasEstável, 5 a 7 cm/ano, com nadir pré-pubertário de 4 a 5 cm/anoDéfice de GH, hipotiroidismo, doença crónica, corticoterapia, privação psicossocial
PuberdadeDo início pubertário à fusão epifisáriaEsteroides sexuais + amplificação da secreção de GHPico de 8 a 9 cm/ano nas raparigas e 9 a 10 cm/ano nos rapazesPuberdade atrasada ou precoce (ver o capítulo de perturbações da puberdade)

A transição da fase de lactente para a fase de infância acontece tipicamente entre os 6 e os 12 meses. O seu atraso é uma das assinaturas do défice de GH de início precoce.

Fase de lactente: manda a nutrição

No primeiro ano, o crescimento é essencialmente nutricionalmente dependente. A insulina é o principal anabolizante: sinaliza disponibilidade energética, promove a síntese proteica e estimula a IGF-1 hepática. Por isso o filho de mãe com diabetes mal controlada nasce macrossómico (hiperinsulinismo fetal) e por isso o défice congénito de GH quase não afeta o comprimento ao nascer, mas afeta o crescimento a partir dos 6 a 12 meses. A hipoglicémia neonatal recorrente e a micropénis num recém-nascido de comprimento normal são pistas de hipopituitarismo, não de "nutrição insuficiente".

Fase de infância: manda o eixo GH e IGF-1

A GH é secretada em pulsos, sobretudo no sono de ondas lentas, o que torna um doseamento isolado de GH inútil (daí os testes de estímulo). Atua no fígado e nos tecidos periféricos e induz IGF-1, o mediador efetivo do crescimento na placa. A IGF-1 circula ligada a IGFBP-3.

As hormonas tiroideias são permissivas a dois níveis: são necessárias para a secreção normal de GH e agem diretamente na placa de crescimento, sobre a diferenciação dos condrócitos e a maturação óssea. Daí a assinatura clássica do hipotiroidismo adquirido: paragem do crescimento com ganho ponderal relativo e idade óssea muito atrasada, num quadro por vezes pobre em sintomas. É a razão prática pela qual a função tiroideia entra na primeira linha de exames de qualquer criança que muda de canal. Detalhe no capítulo de patologia da tiroide.

Fase pubertária: esteroides sexuais e o paradoxo do estrogénio

O estirão resulta da ação conjunta dos esteroides sexuais e de um aumento da amplitude dos pulsos de GH que eles induzem. O ponto de alto rendimento é este: o estrogénio faz as duas coisas, acelera o crescimento e depois fecha a placa. Nos rapazes, o estrogénio responsável vem da aromatização da testosterona. É por isso que homens com mutações inativadoras do recetor de estrogénio ou da aromatase continuam a crescer na idade adulta com epífises abertas, apesar de testosterona normal.

Na rapariga, o pico de velocidade ocorre cedo (Tanner II a III, habitualmente no estádio 3, antes da menarca); após a menarca restam tipicamente 6 a 8 cm. No rapaz o pico é tardio (Tanner G3 a G4, tipicamente no estádio 4), o que ajuda a explicar os cerca de 13 cm de diferença na estatura adulta média entre sexos.

A placa de crescimento

O crescimento longitudinal faz-se por ossificação endocondral na fise, organizada em zonas sucessivas:

ZonaO que acontece
Repouso (germinativa)Reservatório de condrócitos estaminais
ProliferativaDivisão e empilhamento em colunas; alvo principal da IGF-1
HipertróficaCondrócitos aumentam de volume; produção de VEGF e colagénio X; é a zona mecanicamente mais fraca, onde ocorrem as fraturas de Salter-Harris
Calcificação e ossificaçãoInvasão vascular, apoptose dos condrócitos, deposição de osso

O encerramento epifisário é a exaustão progressiva do reservatório de condrócitos, acelerada pelo estrogénio. Uma vez fechada a fise, o crescimento longitudinal termina de forma irreversível: é isto que dá urgência clínica à puberdade precoce e que fixa a janela terapêutica de qualquer intervenção sobre a estatura. O osso membranoso do crânio segue outra lógica, dependente da expansão cerebral, e é por isso que o perímetro cefálico é um marcador de crescimento do cérebro, não do esqueleto.

Medir bem, que é onde se erra

A maior parte dos "falsos alarmes de crescimento" é erro de medição. Uma diferença de 1 cm num lactente de 70 cm desloca-o quase um canal inteiro; um comprimento medido com a perna fletida cria uma queda de canal que não existe e desencadeia uma cascata de exames.

Comprimento em decúbito até aos 2 anos

Até aos 24 meses mede-se comprimento em decúbito dorsal, com craveira ou infantómetro e duas pessoas: uma segura a cabeça contra o topo fixo no plano de Frankfurt (linha órbita-meato auditivo perpendicular à mesa), a outra estende os joelhos com pressão suave e aproxima o cursor às plantas dos pés em flexão dorsal. Uma pessoa sozinha não consegue medir um lactente com rigor.

Estatura em pé a partir dos 2 anos

A partir dos 2 anos mede-se estatura em pé com estadiómetro: descalço, calcanhares juntos, calcanhares, nádegas e omoplatas encostados ao plano vertical, cabeça no plano de Frankfurt, tração suave nas apófises mastoideias, leitura no fim de uma inspiração.

A descontinuidade dos 2 anos

O comprimento em decúbito é, em média, cerca de 0,7 cm maior do que a estatura em pé (0,73 cm no estudo multicêntrico da OMS). Por isso as curvas da OMS têm um degrau visível aos 24 meses. Duas consequências:

  • se medires uma criança com menos de 2 anos em pé, soma 0,7 cm antes de marcar na curva de comprimento;
  • se medires uma criança com 2 anos ou mais em decúbito, subtrai 0,7 cm.

Uma "perda de altura" entre os 23 e os 25 meses é quase sempre a mudança de técnica, não doença. Regista sempre qual a técnica usada.

Exceção que não pode ficar para outra secção: a criança que não fica em pé (paralisia cerebral, doença neuromuscular, prematuro com atraso motor) mantém-se em comprimento em decúbito para além dos 2 anos, ou usam-se medidas segmentares (comprimento da tíbia, do braço, altura do joelho), sempre com registo explícito do método.

Perímetro cefálico

Fita métrica inextensível, no maior perímetro occipitofrontal (glabela à protuberância occipital externa), repetindo até obter o valor máximo, com aproximação a 0,1 cm. Mede-se por rotina até aos 2 anos, porque é nessa janela que o crescimento cerebral é mais rápido e mais informativo. Continua-se a medir para além dos 2 anos em criança com macrocefalia ou microcefalia, derivação ventricular, atraso do neurodesenvolvimento, síndrome conhecida ou traumatismo craniano relevante.

Peso

Lactente: despido, em balança de bebé com aproximação a 10 g. Criança maior: roupa mínima, balança calibrada, de preferência sempre a mesma. A fralda molhada e o casaco explicam muito "aumento de peso" inexistente.

As curvas usadas em Portugal

O PNSIJ adotou as curvas da OMS, mas elas não têm todas a mesma natureza. As dos 0 aos 5 anos vêm do Multicentre Growth Reference Study (1997 a 2003, 8440 lactentes e crianças de Davis, Muscat, Oslo, Pelotas, Accra e sul de Deli) e são prescritivas: dizem como as crianças devem crescer em condições ótimas (termo, aleitamento materno, cuidados adequados), e não apenas como cresceram. As dos 5 aos 19 anos (WHO Reference, 2007) não saíram do MGRS nem são prescritivas: resultam da reanálise dos dados do NCHS de 1977 realinhados com os padrões de 2006, e continuam a ser uma referência descritiva. A distinção entre standard e reference é matéria de exame.

CurvaIdadeFonte
Comprimento/altura0 a 5 anosWHO Child Growth Standards, 2006
Peso0 a 5 anosWHO Child Growth Standards, 2006
IMC0 a 5 anosWHO Child Growth Standards, 2006
Perímetro cefálico0 a 2 anosWHO Child Growth Standards, 2006
Altura5 a 19 anosWHO Reference, 2007
Peso5 a 10 anos apenasWHO Reference, 2007
IMC5 a 19 anosWHO Reference, 2007

As curvas do Boletim marcam os percentis 3, 15, 50, 85 e 97.

Dois pontos de exame. Primeiro: não existe curva de peso-para-idade acima dos 10 anos, porque na puberdade o peso isolado é ininterpretável sem estatura; usa-se o IMC. Segundo: o que mudou em 2013 e porquê. As curvas NCHS e CDC tinham sido construídas em populações maioritariamente alimentadas com fórmula, pelo que o lactente amamentado parecia "desacelerar" aos 3 a 4 meses, gerando suplementação desnecessária e abandono do aleitamento. Com as curvas da OMS essa desaceleração é a norma. Em contrapartida, as curvas da OMS detetam mais cedo o excesso de peso.

Canal, velocidade, estatura-alvo e idade óssea

Canal. O percentil isolado responde a "onde está"; o canal responde a "para onde vai", que é a pergunta clinicamente útil. Dos 0 aos 2 a 3 anos, uma proporção elevada de crianças cruza canais de forma fisiológica (catch-up no filho pequeno de pais altos, catch-down no filho grande de pais baixos), até assentar no canal genético. Atenção aos limites desta regra: só se chama catch-down a uma descida lenta, com peso-para-comprimento mantido, velocidade adequada e canal de chegada coerente com a estatura-alvo. Descida de canal com peso-para-comprimento a cair, com velocidade reduzida ou que ultrapasse o canal esperado pela família investiga-se em qualquer idade, incluindo no 2.º e no 3.º ano de vida, onde o rótulo de catch-down é uma das formas mais comuns de atrasar o diagnóstico de doença celíaca, fibrose quística ou negligência. Depois dos 3 anos e antes da puberdade, o canal é estável e cruzar dois canais major é sempre para investigar.

Velocidade de crescimento. É o parâmetro mais sensível, porque cai antes de a estatura sair do percentil. Exige duas medições separadas por pelo menos 6 meses, idealmente 12: com intervalos curtos, o erro de medição (0,3 a 0,5 cm por medição, que anualizado num intervalo de 2 meses vira vários cm/ano) e a variação sazonal dominam o sinal. Ordens de grandeza: cerca de 25 cm no 1.º ano, 12 cm no 2.º, 8 cm no 3.º, depois 5 a 7 cm/ano até ao nadir pré-pubertário de 4 a 5 cm/ano. Velocidade abaixo do P25 mantida não chega para manter o canal.

Exceção: no lactente e sempre que há suspeita de má progressão ponderal, o intervalo de reavaliação conta-se em dias a semanas, não em meses. Esperar 6 meses para "ver a velocidade" num bebé de 2 meses que não ganha peso é um erro grave.

Marcos de ordem de grandeza no primeiro ano. Peso: perda fisiológica de até cerca de 7% nos primeiros dias, recuperada aos 10 a 14 dias. Perda acima de 7% obriga a observar uma mamada e a repetir o peso em 24 a 48 horas; perda igual ou superior a 10%, ou qualquer perda que continue depois do 5.º dia de vida, nunca é fisiológica e exige avaliação imediata (ingestão insuficiente, desidratação, hipernatrémia, hiperbilirrubinémia); duplica o peso de nascimento por volta dos 4 a 6 meses e triplica por volta dos 12 meses. Comprimento: cerca de +25 cm no 1.º ano (dos ~50 cm de nascimento para ~75 cm), +12 cm no 2.º ano, +8 cm no 3.º; a estatura de nascimento duplica por volta dos 4 anos. Perímetro cefálico: cerca de 35 cm ao nascer, com ganho aproximado de 12 cm no 1.º ano (mais rápido nos primeiros meses).

Estatura-alvo familiar (fórmula de Tanner, com as alturas dos pais em cm):

  • Rapaz: (altura do pai + altura da mãe + 13) / 2
  • Rapariga: (altura do pai + altura da mãe − 13) / 2

Equivale à média das alturas parentais ± 6,5 cm. O intervalo-alvo é de cerca de ± 8,5 cm (aproximadamente 2 DP). Marca-se o valor no eixo dos 18 a 19 anos da curva e compara-se com o canal atual: se a criança está mais de 2 DP abaixo da sua estatura-alvo, o percentil baixo deixa de se explicar pela família. Mede as alturas dos pais, não as aceites por relato. Limitação: a fórmula sofre regressão à média e subestima o potencial em filhos de pais muito baixos.

Idade óssea. Radiografia da mão e punho esquerdos, lida por comparação com o atlas de Greulich e Pyle (ou pelo método de Tanner-Whitehouse). Não faz diagnóstico: acrescenta duas coisas, o potencial de crescimento residual e a direção do diagnóstico diferencial. Atrasada: atraso constitucional, hipotiroidismo, défice de GH, doença crónica, desnutrição. Avançada: puberdade precoce, hiperplasia congénita da suprarrenal, obesidade, hipertiroidismo. Concordante com a idade cronológica numa criança baixa: aponta para baixa estatura familiar ou displasia esquelética. Pede-se quando há baixa estatura, velocidade reduzida, puberdade fora do tempo ou necessidade de estimar a estatura adulta.

Exceção: abaixo do primeiro ano de vida a radiografia da mão tem poucos núcleos de ossificação e é pouco informativa; usa-se o joelho ou o hemiesqueleto.

Ler uma curva de crescimento: o canal importa mais que o percentil Gráfico esquemático com as linhas de percentil P3, P15, P50, P85 e P97 e três trajetórias: uma verde estável num percentil baixo, uma vermelha que atravessa canais para baixo e uma azul de migração fisiológica nos primeiros anos. Em baixo, blocos sobre como medir, estatura-alvo familiar e as curvas da Organização Mundial da Saúde usadas em Portugal. Ler uma curva: o canal importa mais que o percentil Crescimento em Pediatria: avalia-se a trajetória ao longo do tempo, não um ponto isolado. 0 6 meses 2 anos 5 anos 10 anos 18 anos Idade Comprimento / estatura P97 P85 P50 P15 P3 1 2 3 1 Percentil baixo mas ESTÁVEL. Segue o seu canal. Habitualmente normal. 2 MUDANÇA DE CANAL. É isto que preocupa, mesmo que o percentil final ainda esteja dentro do normal. 3 Nos primeiros 2 a 3 anos a migração é FISIOLÓGICA: a criança procura o canal determinado geneticamente (catch-up e catch-down). O que preocupa não é o percentil. É a mudança de canal. COMO MEDIR Até aos 2 anos: comprimento em decúbito (deitado). Depois: estatura em pé. A mudança de método cria um degrau na curva, não doença. Perímetro cefálico até aos 2 anos de idade. ESTATURA-ALVO FAMILIAR Somar as estaturas do pai e da mãe, em cm. Somar 13 cm se rapaz; subtrair 13 cm se rapariga. Dividir o total por 2. É o canal esperado pela genética da família. CURVAS EM PORTUGAL Curvas da Organização Mundial da Saúde (OMS). 0 aos 5 anos: PADRÃO, como se deve crescer. 5 aos 19 anos: REFERÊNCIA, descritiva de como cresce. Esta distinção sai em exame.

O que se previne aqui

Nesta secção "prevenção" tem dois sentidos, ambos de exame: prevenir a falência de crescimento (agindo sobre nutrição, doença e contexto) e prevenir o falso alarme (agindo sobre a qualidade da medição e do registo). O segundo é subestimado e é responsável por grande parte das referenciações desnecessárias.

Prevenir o erro de medição

Fonte de erroComo se previne
Craveira ou estadiómetro descalibradosVerificação periódica com barra de comprimento conhecido
Balança descalibrada ou com tara erradaCalibração regular; zerar antes de cada pesagem
Medir o lactente sozinhoDuas pessoas obrigatórias para o comprimento em decúbito
Joelhos fletidos, cabeça fora do plano de FrankfurtTécnica padronizada e formação da equipa
Criança calçada, com fralda molhada ou casacoDespir o lactente; roupa mínima na criança maior
Trocar comprimento por estatura aos 2 anos sem ajusteCorreção de 0,7 cm e registo do método usado
Medição únicaDuas medições e usar a média; repetir sempre que a diferença exceder a tolerância de referência do estudo da OMS, cerca de 0,7 cm para comprimento ou estatura e 0,5 cm para perímetro cefálico. Muitos serviços trabalham com margens mais apertadas

Prevenir o erro de registo

  • Idade em decimais, não arredondada. Aos 3 meses, marcar "4 meses" desloca visivelmente o ponto.
  • Curva certa: sexo correto, faixa etária correta (0-5 ou 5-19 anos), comprimento na curva de comprimento.
  • Prematuro: idade corrigida (regra prática, até aos 2 anos) para o crescimento e para a avaliação do desenvolvimento. Marcar um prematuro de 30 semanas em idade cronológica fabrica uma restrição de crescimento inexistente. ⚠️ A vacinação é o inverso: cumpre-se pela idade cronológica do PNV, nas mesmas idades e doses da criança de termo.
  • Unidades e casas decimais coerentes.
  • Nunca marcar um ponto isolado. O gráfico só informa quando os pontos anteriores estão lá. Recuperar o histórico do Boletim é parte do exame.

Prevenir a falha de vigilância

O PNSIJ estrutura-se em idades-chave harmonizadas com o Programa Nacional de Vacinação, precisamente para reduzir o número de deslocações e aumentar a adesão. Duas ferramentas práticas: os exames oportunistas (aproveitar qualquer contacto próximo de uma idade-chave para fazer o exame dessa idade) e a flexibilidade da periodicidade, que o próprio PNSIJ prevê, permitindo acrescentar ou eliminar consultas em momentos especiais do ciclo de vida das famílias (doença grave, luto, separações, aumento da fratria). A norma diz mesmo "podendo ser introduzidas, ou eliminadas", e é a parte de eliminar que costuma passar despercebida.

A criança que falta sistematicamente às consultas de vigilância é, por si, um sinal a valorizar: falta de vigilância e estagnação ponderal coexistem com frequência em contextos de negligência (ver o capítulo de maus-tratos em crianças e jovens).

Prevenir a falência de crescimento por causa nutricional

Os cuidados antecipatórios do PNSIJ no primeiro ano incluem:

  • promoção do aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses, complementado a partir daí;
  • diversificação alimentar entre os 4 e os 6 meses nas crianças alimentadas com fórmula (nunca antes das 17 semanas nem para além das 26);
  • não adiar a introdução de alimentos alergénicos (ovo, peixe, amendoim, glúten). Atenção à origem deste ponto, porque a PNA pode testá-la: não consta do PNSIJ, que é de 2013 e anterior à evidência que virou a prática; vem das orientações alimentares posteriores da DGS e da Sociedade Portuguesa de Pediatria. A recomendação antiga de retardar estes alimentos foi abandonada: adiar não previne alergia alimentar e pode aumentar o risco. Exceção que confirma a regra: no lactente com eczema moderado a grave ou alergia ao ovo, a introdução do amendoim entre os 4 e os 11 meses deve ser precedida de avaliação especializada, sem que a espera pela consulta sirva para adiar indefinidamente a introdução;
  • suplementação com vitamina D, 400 UI uma vez por dia, durante todo o primeiro ano de vida, tal como está previsto no PNSIJ e confirmado pela Norma DGS n.º 004/2019, de 14/08/2019 (Prevenção e Tratamento da Deficiência de Vitamina D), que é o documento em vigor sobre este ponto, e independentemente do tipo de alimentação: vale para o lactente amamentado e para o alimentado com fórmula. A partir do primeiro ano não há indicação para manter a suplementação por rotina na criança saudável, mas mantém-se nos grupos de risco de raquitismo: pele muito pigmentada, exposição solar escassa ou pele habitualmente coberta, aleitamento materno prolongado com diversificação pobre, má absorção, doença hepática ou renal crónica e terapêutica antiepiléptica ou corticoterapia prolongada;
  • prevenção da carência de ferro através da alimentação: a partir dos 6 meses a diversificação tem de incluir alimentos ricos em ferro (carne, peixe, gema, leguminosas) e o leite de vaca não deve ser usado como bebida láctea principal antes dos 12 meses, por ter pouco ferro, pouco biodisponível, e provocar microhemorragias intestinais.

Ressalva que pertence a esta frase e não a outra secção: no prematuro e no recém-nascido de baixo peso, as necessidades de energia, proteína, ferro e vitamina D são superiores às do recém-nascido de termo e são definidas em protocolo próprio de seguimento; não se aplica aqui o regime padrão do lactente de termo.

Prevenir a obesidade, que é o outro extremo

A adoção das curvas da OMS foi justificada, em parte, por permitirem detetar mais cedo o excesso de peso, problema de elevada prevalência em Portugal. Pontos operacionais:

  • calcular e marcar o IMC em todas as consultas, desde a primeira, e não apenas o peso;
  • valorizar o cruzamento ascendente de canais de IMC, mesmo dentro do intervalo normal, que precede a obesidade estabelecida;
  • conhecer o ressalto adipositário (rebote do IMC): o IMC desce fisiologicamente após o 1.º ano e volta a subir por volta dos 5 a 6 anos; um ressalto precoce, antes dos 5 anos, associa-se a maior risco de obesidade futura;
  • limiares da OMS: dos 5 aos 19 anos, excesso de peso acima de +1 DP (aproximadamente P85) e obesidade acima de +2 DP (aproximadamente P97); dos 0 aos 5 anos os limiares são mais altos, +2 DP e +3 DP.

Ressalva: uma criança com doença crónica (fibrose quística, doença renal crónica, cardiopatia, doença inflamatória intestinal) ou um prematuro em recuperação não deve ser abordada com a lógica de restrição que se aplica à obesidade comum. Nesses contextos, um IMC a subir pode ser precisamente o objetivo terapêutico.

Prevenir a iatrogenia da sobre-investigação

A análise de sangue pedida a uma criança saudável no P5 estável, com estatura-alvo baixa e velocidade normal, não beneficia ninguém e transmite à família a ideia de que há doença. A prevenção aqui chama-se repetir a medição e olhar para o histórico antes de pedir seja o que for.

O que fazer, por ordem, quando o ponto sai do sítio

A gestão do crescimento na consulta de vigilância é um algoritmo curto e quase sempre resolve-se sem análises.

Passo 1: repetir a medição

Antes de qualquer outra coisa. Nova medição, com técnica correta e por outra pessoa se possível. Uma proporção elevada de "quedas de canal" desaparece aqui. Confirmar também a idade em decimais, o sexo e a curva utilizada.

Passo 2: reconstruir a trajetória

Recuperar todos os pontos anteriores do Boletim e do processo. As perguntas são: houve mudança de canal ou é um percentil sempre baixo? A mudança começou quando? Coincide com algum acontecimento (introdução do glúten, infeção prolongada, início de corticoide inalado ou sistémico, mudança de contexto familiar)? Houve mudança de técnica de medição a meio?

Passo 3: calcular

  • Velocidade de crescimento em cm/ano, usando duas medições fiáveis com pelo menos 6 meses de intervalo.
  • Estatura-alvo familiar, com as alturas dos pais medidas e não relatadas.
  • IMC e respetivo percentil ou z-score.
  • Distância, em DP, entre a estatura atual e a estatura-alvo.

A combinação destes números resolve a maioria dos casos. O padrão mais frequente é estatura baixa + velocidade normal + estatura-alvo baixa, que é baixa estatura familiar e não precisa de mais nada.

Passo 4: história e exame dirigidos

O que procurarPorquê
Peso ao nascer, idade gestacional, intercorrências perinataisRestrição de crescimento fetal, prematuridade
Alturas e cronologia pubertária dos pais (idade da menarca da mãe, do estirão do pai)Distingue atraso constitucional de baixa estatura familiar
Alimentação, apetite, trânsito intestinal, sintomas digestivosCelíaca, doença inflamatória intestinal, má absorção
Infeções respiratórias de repetição, esteatorreiaFibrose quística
Medicação, sobretudo corticoides (incluindo inalados e tópicos em uso prolongado)Causa iatrogénica frequente e reversível
Contexto psicossocial, negligência, insegurança alimentarPrivação psicossocial
Cefaleias matinais, vómitos, alterações visuais, poliúria e polidipsiaTumor da região hipotálamo-hipofisária ou da fossa posterior
Proporções corporais: segmento superior/inferior, envergadura, cifoescolioseDisplasia esquelética, raquitismo
Estádio pubertário (Tanner)Ver o capítulo de perturbações da puberdade
Dismorfias, pescoço alado, cúbito valgo, nevos múltiplosSíndrome de Turner

Proporções corporais, com valores. O segmento inferior mede-se da sínfise púbica ao chão e o segmento superior é a estatura menos o segmento inferior. A relação segmento superior/segmento inferior ronda 1,7 ao nascimento, 1,3 aos 3 anos e cerca de 1,0 a partir dos 10 anos, idade a partir da qual a envergadura é aproximadamente igual à estatura. São ordens de grandeza e não limiares rígidos: o que interessa é o desvio marcado, não a segunda casa decimal. Relação alta com envergadura curta aponta para encurtamento dos membros (acondroplasia, hipocondroplasia, raquitismo); relação baixa com envergadura que excede a estatura aponta para hábito marfanoide ou para hipogonadismo com fusão epifisária atrasada.

Passo 5: decidir

Não investigar, reavaliar em 3 a 6 meses, quando o percentil é baixo mas estável, a velocidade é normal, a estatura-alvo explica a posição, o exame é normal e, quando a criança tem menos de 3 anos, a migração é compatível com catch-down. Este intervalo é para a criança maior: no recém-nascido e no lactente com má progressão ponderal a reavaliação conta-se em dias a semanas, e no prematuro toda a leitura se faz em idade corrigida antes de se decidir seja o que for.

Investigar em cuidados de saúde primários com uma primeira linha razoável: hemograma, velocidade de sedimentação ou proteína C reativa, função renal e ionograma, cálcio e fósforo, transaminases, TSH e T4 livre, serologia de doença celíaca (IgA anti-transglutaminase com IgA total), sumária de urina; cariótipo em toda a rapariga com baixa estatura inexplicada, mesmo sem estigmas de Turner; idade óssea.

Referenciar a consulta hospitalar de pediatria ou endocrinologia pediátrica quando:

CritérioNota
Estatura abaixo do P3 ou abaixo de −2 DPSobretudo se inexplicada pela estatura-alvo
Estatura mais de 2 DP abaixo da estatura-alvo familiarO percentil deixou de se explicar pela família
Cruzamento descendente de 2 canais depois dos 3 anosSinal mais importante do que o percentil absoluto
Velocidade de crescimento persistentemente baixaConfirmada em 6 meses ou mais
Estatura desproporcionadaDisplasia esquelética
Estatura acima do P97 com velocidade acelerada ou dismorfiasExcesso de estatura patológico
Microcefalia (PC abaixo do P3) ou macrocefalia (PC acima do P97), ou cruzamento de canais no PCVer abaixo a exceção urgente
Má progressão ponderal sem causa evidente ou com repercussão no comprimentoNo lactente, a referenciação é precoce
Sinais de alarme neurológicos, oftalmológicos ou endócrinosReferenciação urgente

⚠️ Exceção que não pode esperar: no lactente, o cruzamento ascendente rápido do perímetro cefálico com fontanela anterior tensa, sutura diastasada, irritabilidade, vómitos ou olhar em sol-poente é suspeita de hidrocefalia e é uma urgência, não um motivo para reavaliar daqui a três meses. Do mesmo modo, um perímetro cefálico que cruza canais para baixo no primeiro ano indica falência do crescimento cerebral e obriga a avaliação célere.

⚠️ Segunda exceção: no recém-nascido e no lactente pequeno, a má progressão ponderal com sinais de desidratação, letargia, recusa alimentar ou icterícia prolongada não entra neste algoritmo de vigilância; avalia-se de imediato (ver os capítulos de desidratação e de sépsis).

Comunicar com a família

Mostra o gráfico. Explica que o percentil é uma posição relativa e não uma nota, que ser pequeno não é ser doente e que a informação relevante é a linha, não o ponto. Quando decides reavaliar em vez de investigar, diz porquê e marca a data: "vamos voltar a medir daqui a seis meses, porque a informação que falta é a velocidade e ela só se mede com tempo". Isto reduz muito a ansiedade e a procura de segunda opinião.

O tratamento das perturbações do crescimento propriamente ditas (défice de GH, baixa estatura idiopática, criança pequena para a idade gestacional sem recuperação, síndrome de Turner) pertence ao tema das perturbações do crescimento e à consulta especializada.

Referências

  1. Portugal. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 010/2013, de 31/05/2013: Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2013.
  2. Portugal. Direção-Geral da Saúde. Saúde Infantil e Juvenil: Programa Nacional. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2013. Anexo 1: Curvas de crescimento.
  3. WHO Multicentre Growth Reference Study Group. WHO Child Growth Standards: length/height-for-age, weight-for-age, weight-for-length, weight-for-height and body mass index-for-age: methods and development. Geneva: World Health Organization; 2006.
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8 perguntas sobre Crescimento normal

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

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