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Excesso de peso, obesidade e síndrome metabólico na criança

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema

Em resumo

O excesso de peso e a obesidade da criança são excesso de gordura corporal com risco de comorbilidade, e medem-se pelo índice de massa corporal (IMC) lido em percentis ou desvios-padrão para a idade e o sexo, nunca pelos 25 e 30 kg/m² do adulto. Em Portugal, perto de uma em cada três crianças dos 6 aos 8 anos tem excesso de peso e 13,5% têm obesidade.

Em cerca de 95% dos casos a obesidade é exógena, de genes poligénicos num ambiente de bebidas açucaradas, ecrãs e pouco sono, e a criança cresce bem ou até acima da média. A curva de estatura é o que separa as poucas causas endógenas: baixa estatura ou velocidade de crescimento lenta aponta para hipotiroidismo, síndrome de Cushing ou défice de hormona de crescimento; início antes dos 5 anos com hiperfagia intensa, dismorfias ou atraso do desenvolvimento aponta para as formas monogénicas e sindrómicas, como a síndrome de Prader-Willi ou a deficiência do recetor 4 da melanocortina.

A insulinorresistência liga a gordura às complicações, e é por isso que a obesidade se estuda sempre com a pressão arterial e, a partir dos 10 anos, com perfil lipídico, glicemia ou hemoglobina glicada e transaminase. A síndrome metabólica pediátrica só se define a partir dos 10 anos e exige perímetro abdominal no percentil 90 ou acima.

O tratamento é uma escada em que nenhum degrau substitui o anterior: intervenção comportamental intensiva com toda a família, de 26 horas ou mais; fármacos a partir dos 12 anos, com o semaglutido e o liraglutido aprovados na Europa; e cirurgia metabólica a partir dos 13 anos na obesidade grave. Na criança pré-púbere com obesidade ligeira a moderada, manter o peso enquanto a estatura cresce chega para baixar o IMC.

O que não se pode falhar é a criança obesa que deixou de crescer, a dor no joelho do adolescente obeso que é uma epifisiólise da anca e a hipertensão medida com braçadeira pequena.

Obesidade exógena, cerca de 95%

  • Excesso de ingestão: bebidas açucaradas (incluindo sumos), alimentos de índice glicémico alto, comida rápida e porções maiores.
  • Pouco gasto: horas de ecrã, pouco espaço e tempo para brincar e pouca atividade física escolar.
  • Sono curto, nível socioeconómico baixo e fármacos: corticoides, antidepressivos, antiepiléticos, antipsicóticos atípicos, propranolol, anti-histamínicos.
  • Carga hereditária poligénica: explica 30 a 50% do tecido adiposo.
  • Antecedentes perinatais: pequeno para a idade gestacional ou peso ao nascer acima de 3500 g associam-se a insulinorresistência e obesidade; o aleitamento materno protege.

Porque o peso sobe e não desce

  • A leptina, produzida pelo adipócito, informa o hipotálamo da reserva de gordura e reduz o apetite. Na obesidade comum está alta, com resistência central à sua ação.
  • A leptina atua nos neurónios de pró-opiomelanocortina (POMC), cujo produto ativa o recetor 4 da melanocortina (MC4R): é esta via que se parte nas formas monogénicas.
  • Insulinorresistência: o excesso de ácidos gordos livres e as citocinas do tecido adiposo visceral reduzem a ação da insulina no músculo e no fígado. O pâncreas compensa com hiperinsulinemia, que mantém a glicemia durante anos até as células beta falharem. A puberdade soma uma insulinorresistência fisiológica.
  • A acantose nigricante (pele espessada e escura, aveludada, no pescoço, axilas e virilhas) é o sinal cutâneo da insulinorresistência.

Obesidade endógena, cerca de 5%

causapistasconfirmação
Hipotiroidismovelocidade de crescimento baixa, idade óssea atrasadaTSH e tiroxina livre
Síndrome de Cushingobesidade central, face em lua, estrias violáceas, hipertensão, crescimento paradocortisol livre urinário de 24 horas; prova de supressão noturna com dexametasona
Défice de hormona de crescimentocrescimento lento, idade óssea atrasada, obesidade centrípetaIGF-1 e IGFBP-3 baixos, prova de estimulação
Pseudo-hipoparatiroidismo tipo 1Abaixa estatura, braquidactilia, calcificações subcutâneas, défice intelectualPTH alta, hipocalcemia, hiperfosfatemia
Lesão hipotalâmicacraniofaringioma, cirurgia ou radioterapia da região; obesidade grave e refratáriaressonância selar; outros défices hipofisários

Formas monogénicas e sindrómicas

causapistas
MC4R, a causa monogénica mais frequentehiperfagia desde cedo, estatura normal ou alta; 2 a 6% da obesidade grave
Deficiência de POMChiperfagia precoce, cabelo ruivo, insuficiência suprarrenal
Deficiência de leptina ou do seu recetorobesidade grave desde os primeiros meses, hiperfagia
Síndrome de Prader-Willifalta de expressão dos genes paternos em 15q11-q13; hipotonia do recém-nascido, baixa estatura, mãos e pés pequenos, hipogonadismo, défice intelectual, hiperfagia
Síndrome de Bardet-Biedlretinopatia pigmentar, polidactilia, hipogonadismo, défice intelectual, anomalias renais

Exógena ou endógena

  • Estatura normal ou alta, velocidade de crescimento normal e idade óssea normal ou adiantada: obesidade exógena muito provável.
  • Baixa estatura, velocidade de crescimento lenta ou idade óssea atrasada: estudo endócrino com TSH e tiroxina livre, IGF-1 e IGFBP-3, cálcio, fósforo e PTH, e cortisol livre urinário de 24 horas. A baixa estatura associada investiga-se com idade óssea, eixo tiroideu e eixo do crescimento, os mesmos exames já pedidos para excluir causa endógena.
  • Dismorfias ou início precoce (antes dos 5 anos): estudo genético dirigido e fundo do olho.
  • Ressonância selar quando a obesidade central é de evolução rápida ou há sintomas neurológicos.
  • Prova de supressão noturna para o Cushing: dexametasona 20 µg/kg (máximo 1 mg) às 23 horas e cortisol às 8 horas, normal abaixo de 1,8 µg/dL.

Rastreio de comorbilidades

o quêa quemexame
Hipertensãoexcesso de peso ou obesidade, em cada consulta desde os 3 anospressão arterial por percentil de idade, sexo e altura
Dislipidemia10 anos ou mais com excesso de peso ou obesidade; pode fazer-se dos 2 aos 9 anos com obesidadeperfil lipídico em jejum
Pré-diabetes e diabetes10 anos ou mais com obesidade; excesso de peso com fatores de riscoglicemia em jejum, prova de tolerância oral ou hemoglobina glicada
NAFLD (doença hepática gordurosa não alcoólica)10 anos ou mais com obesidade; excesso de peso com fatores de riscoALT (alanina-aminotransferase)
Apneia obstrutiva do sonoobesidade com pelo menos um sintoma (ressonar, pausas, sonolência, enurese, cefaleias matinais)polissonografia
Síndrome do ovário poliquísticoadolescente com hiperandrogenismo e ciclos irregularesavaliação só 2 anos depois da menarca
Depressãoadolescentes com 12 anos ou mais, anualmentequestionário padronizado (PHQ-9)
  • Fatores de risco para diabetes: diabetes materna ou gestacional, diabetes na família em primeiro ou segundo grau, sinais de insulinorresistência (acantose, hipertensão, dislipidemia, síndrome do ovário poliquístico, pequeno para a idade gestacional) e psicofármacos que engordam.
  • A insulinemia em jejum não serve para diagnosticar pré-diabetes nem diabetes: varia muito e não traduz bem a insulinorresistência.

Limiares de glicose

pré-diabetesdiabetes
Glicemia em jejum100 a 125 mg/dL126 mg/dL ou mais
Glicemia 2 horas após 1,75 g/kg (máximo 75 g)140 a 199 mg/dL200 mg/dL ou mais
Hemoglobina glicada5,7 a 6,4%6,5% ou mais
  • Sem hiperglicemia inequívoca, a diabetes confirma-se com dois testes acima do limiar ou um teste repetido.

Síndrome metabólica pediátrica

A definição da IDF (federação internacional da diabetes) muda com a idade.

idadecritérios
6 a 9 anosnão se diagnostica; vigiar se perímetro abdominal no percentil 90 ou acima e história familiar
10 a 15 anosperímetro abdominal no percentil 90 ou acima (ou o corte do adulto, se for mais baixo), obrigatório, e dois de: triglicéridos 150 mg/dL ou mais; colesterol HDL abaixo de 40 mg/dL; pressão sistólica 130 ou diastólica 85 mm Hg ou mais; glicemia em jejum 100 mg/dL ou mais
16 anos ou maiscritérios do adulto: cintura de 94 cm ou mais no rapaz e 80 cm ou mais na rapariga, e dois de: triglicéridos 150 mg/dL ou mais; HDL abaixo de 40 mg/dL no rapaz e de 50 mg/dL na rapariga; pressão 130/85 mm Hg ou mais; glicemia em jejum alterada
  • A pressão arterial classifica-se por percentis de idade, sexo e altura, mede-se com braçadeira do tamanho certo e só se confirma hipertensão depois de valores elevados em consultas repetidas.
Obesidade pediátrica: classificar, procurar e tratar 1. Classificar o IMC por idade e sexo nas curvas da OMS, dos 5 aos 19 anos Excesso de peso IMC acima de +1 DP (cerca do P85) Rastreio lipídico a partir dos 10 anos Obesidade IMC acima de +2 DP (cerca do P97) Rastreio metabólico completo Obesidade grave IMC ≥ 120% do P95, ou ≥ 35 kg/m² Fármacos e avaliação para cirurgia Abaixo dos 5 anos: excesso de peso acima de +2 DP e obesidade acima de +3 DP. A gravidade mede-se em percentagem do P95 das curvas do CDC, como na AAP 2023 e nas indicações dos fármacos. 2. Procurar causa secundária e comorbilidades Sinais que apontam para causa secundária Baixa estatura ou velocidade de crescimento lenta Início antes dos 5 anos com hiperfagia intensa Dismorfias, hipotonia ou défice intelectual Hipogonadismo, retinopatia pigmentar, polidactilia Estrias violáceas, hipertensão desproporcionada Rastreio de comorbilidades Pressão arterial em cada consulta, desde os 3 anos 10 anos ou mais: perfil lipídico em jejum e, na obesidade, glicemia ou HbA1c e ALT 2 a 9 anos com obesidade: pode pedir-se lipídico Sono, humor, dor na anca ou joelho, ciclos 3. Tratar: cada degrau soma-se ao anterior e nenhum o substitui Em todos Intervenção comportamental intensiva, com a família 26 horas ou mais, em 3 a 12 meses Pré-púbere: manter o peso enquanto a estatura cresce Fármacos, 12 anos ou mais Obesidade e peso acima de 60 kg Semaglutido 2,4 mg semanal Liraglutido 3,0 mg diário (liraglutido também dos 6 aos 11 anos, com 45 kg ou mais) Cirurgia, 13 anos ou mais IMC ≥ 120% do P95 ou ≥ 35 kg/m² com comorbilidade significativa ou IMC ≥ 140% do P95 ou ≥ 40 kg/m² Centro pediátrico multidisciplinar Manga gástrica ou bypass em Y IMC: índice de massa corporal; DP: desvio-padrão; P: percentil; HbA1c: hemoglobina glicada; ALT: alanina-aminotransferase CDC: centros de controlo e prevenção de doenças dos Estados Unidos; AAP: academia americana de pediatria Em ambos os limiares da gravidade conta o que for mais baixo. Esquema original InovaQB.
Esquema original InovaQB.

Desde o início

  • Aleitamento materno e diversificação sem açúcar nem sal adicionados; respeitar os sinais de saciedade do lactente.
  • Registar o IMC em todas as consultas de vigilância e ler a trajetória, não o valor isolado: o ressalto adiposo antes dos 5 anos identifica cedo quem está em risco.

Hábitos

alvorecomendação
Bebidaságua em vez de sumos, incluindo os naturais, e de refrigerantes
Alimentaçãopadrão mediterrânico, fruta, hortícolas e leguminosas; poucos ultraprocessados; pequeno-almoço; refeições em família e sem ecrãs
Atividade física, 5 aos 17 anosem média 60 minutos por dia de atividade moderada a vigorosa
Ecrã, abaixo dos 2 anosnenhum ecrã sedentário
Ecrã, 2 a 4 anos1 hora por dia no máximo; menos é melhor
Ecrã, idade escolarlimitar o recreativo, idealmente abaixo de 2 horas por dia; sem ecrãs no quarto
Sono10 a 13 horas dos 3 aos 5 anos, 9 a 12 dos 6 aos 12 e 8 a 10 dos 13 aos 18
  • Em Portugal, entre 2019 e 2022, a proporção de crianças dos 6 aos 8 anos a jogar em computador pelo menos 2 horas por dia passou de 18,1% para 27,4%.

Na comunidade

  • O que muda a curva da população é estrutural: tributação das bebidas açucaradas (em Portugal desde 2017), oferta alimentar escolar, restrição da publicidade dirigida a crianças, espaços para brincar e deslocações a pé ou de bicicleta.

Objetivos

  • Na criança pré-púbere com obesidade ligeira a moderada, o objetivo é manter o peso enquanto a estatura cresce: o IMC baixa sozinho.
  • No adolescente, ou com obesidade mais grave, o objetivo é perder peso.
  • A obesidade e as comorbilidades tratam-se ao mesmo tempo, sem esperar pela perda de peso.

Intervenção comportamental intensiva

  • É a base em todos, e continua quando se juntam fármacos ou cirurgia.
  • Presencial, com toda a família, com alimentação, atividade física e mudança de comportamento: 26 horas ou mais em 3 a 12 meses. Mais horas de contacto dão mais efeito.
  • A partir dos 6 anos deve oferecer-se ou referenciar-se; dos 2 aos 5 anos pode fazer-se.
  • Entrevista motivacional, objetivos curtos e combinados com a família, linguagem sem estigma («criança com obesidade»).
  • Dieta equilibrada, de tipo mediterrânico, com a ingestão a decrescer ao longo do dia; as dietas restritivas, cetogénicas ou de exclusão não estão indicadas.

Fármacos

  • A AAP recomenda oferecê-los a partir dos 12 anos com obesidade, sempre juntos à intervenção comportamental; dos 8 aos 11 anos podem considerar-se.
  • Aprovados na União Europeia:
fármacoindicação pediátricaquando parar
Semaglutido 2,4 mg subcutâneo semanal12 anos ou mais, com obesidade (IMC no percentil 95 ou acima) e peso acima de 60 kgse o IMC não descer pelo menos 5% após 12 semanas na dose máxima tolerada
Liraglutido 3,0 mg subcutâneo diário12 anos ou mais, com obesidade e peso acima de 60 kg; dos 6 aos 11 anos, com IMC no percentil 95 ou acima e peso de 45 kg ou maisse o IMC ou o seu desvio-padrão não descer pelo menos 4% após 12 semanas
Setmelanotidodeficiências de POMC, de PCSK1 ou do recetor da leptina e síndrome de Bardet-Biedl, a partir dos 2 anos; obesidade hipotalâmica adquirida, a partir dos 4 anossó com diagnóstico genético ou lesão hipotalâmica
  • Com semaglutido, o IMC desceu 16,1% em 68 semanas contra uma subida de 0,6% com placebo; a litíase biliar foi o efeito a vigiar (3,8% contra nenhum caso). Sem efeito no crescimento nem na puberdade nesse período.
  • Com liraglutido o efeito é menor, e o IMC volta a subir quando se suspende.
  • A metformina não é fármaco de emagrecimento: baixa o IMC cerca de 1 kg/m² e reserva-se para quem tem outra indicação, como pré-diabetes, diabetes tipo 2 (a partir dos 10 anos) ou síndrome do ovário poliquístico.
  • O orlistato não tem indicação pediátrica na União Europeia, e o tirzepatido está aprovado a partir dos 10 anos só para a diabetes tipo 2, não para a obesidade.

Cirurgia metabólica

  • Oferecer referenciação, a partir dos 13 anos, a um centro pediátrico multidisciplinar de cirurgia metabólica, a quem tem obesidade grave.
  • Critérios: IMC de 120% do percentil 95 ou 35 kg/m² (o que for mais baixo) com comorbilidade significativa, ou 140% do percentil 95 ou 40 kg/m² mesmo sem ela.
  • Comorbilidades que contam: diabetes tipo 2, apneia do sono, NASH (esteato-hepatite não alcoólica), hipertensão intracraniana idiopática, doença de Blount, epifisiólise, refluxo gastroesofágico, hipertensão e dislipidemia, e qualidade de vida muito diminuída.
  • Contraindicações a excluir: causa corrigível da obesidade, consumo ativo de substâncias e gravidez; a família tem de perceber e aguentar o seguimento.
  • Técnicas: gastrectomia vertical em manga e bypass gástrico em Y de Roux. Complicações menores em até 15% e maiores em até 8% nos primeiros 30 dias; nova intervenção em 13 a 25% nos 5 anos seguintes; défices de vitaminas e micronutrientes frequentes, com vigilância de longo prazo.

Comorbilidades

  • Tratam-se desde logo. A hipertensão trata-se com restrição de sódio e, se não controlar, iECA ou ARA; a diabetes tipo 2 começa com metformina; a apneia do sono com hipertrofia amigdalina opera-se.

Referências

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