Desenvolvimento psicomotor normal
Atualizado em 26 de julho de 2026 · 11 perguntas neste tema
O desenvolvimento psicomotor é o que se avalia em todas as consultas de vigilância, ao lado do crescimento, da alimentação e da vacinação, e por isso é terreno fértil para a PNA. As vinhetas são quase sempre a mesma coisa: uma idade, um marco em falta e cinco alíneas onde uma é "tranquilizar e reavaliar", outra é "referenciar", outra é "pedir cariótipo" e outra é "pedir RM cerebral". Ganha-se ou perde-se em três decisões: reconhecer o que é sinal de alarme e o que é variação normal, corrigir (ou não corrigir) a idade do prematuro, e perceber que o rastreio sensorial vem antes de tudo o resto. A armadilha clássica é o prematuro: o desenvolvimento avalia-se pela idade corrigida, a vacinação segue a idade cronológica, e a prova gosta de misturar as duas na mesma vinheta. A segunda armadilha é esperar pela consulta de subespecialidade para começar a intervir. Este capítulo trata da parte prática: o que dizer aos pais, quando e para onde referenciar, e o que fazer nas situações em que a regra geral não se aplica.
Da neurogénese à poda: o que está a acontecer por baixo dos marcos
| Processo | Janela temporal | Tradução clínica |
|---|---|---|
| Neurogénese e migração neuronal | Sobretudo 8 a 24 semanas de gestação | Erros aqui dão malformações corticais (lisencefalia, heterotopias, polimicrogiria) e apresentam-se com atraso global fixo e epilepsia, não com atraso que "recupera" |
| Organização cortical e sinaptogénese | Terceiro trimestre e primeiros 2 anos | Explosão de sinapses no primeiro ano, com pico de aquisições. Período de maior sensibilidade ao ambiente |
| Mielinização | Do terceiro trimestre até à adolescência, com pico nos 2 primeiros anos | Sentido céfalo-caudal e proximal-distal: dita a ordem dos marcos motores |
| Poda sináptica | Do fim do primeiro ano à adolescência | Elimina sinapses pouco usadas e torna as redes eficientes. Explica que a competência não usada se perca (audição, visão, língua) |
| Períodos críticos e plasticidade | Máximos nos primeiros anos, decrescentes | Base racional da intervenção precoce e da urgência em corrigir défices sensoriais |
Mielinização: porque é que a cabeça vem antes das pernas
A mielinização progride no sentido céfalo-caudal (primeiro o controlo da cabeça e do pescoço, depois tronco, depois membros inferiores) e proximal-distal (primeiro o ombro e a anca, depois a mão e o pé). É isto, e não uma convenção pedagógica, que impõe a sequência: controlo cefálico aos 3 meses, sentar sem apoio aos 6, ficar de pé com apoio aos 9, marcha autónoma por volta dos 12 a 15 meses. A criança precisa de estabilidade axial antes de poder mobilizar o segmento distal contra a gravidade.
O mesmo eixo explica o motor fino. A preensão começa cubital e palmar (varre o objeto com a mão inteira contra a palma, por volta dos 5 a 6 meses), migra para radial, passa a pinça inferior polegar contra o lado do indicador (cerca de 9 meses) e só depois se torna pinça fina polegar-indicador, por volta dos 10 a 12 meses. O grafismo segue a mesma lógica: rabisco em preensão palmar aos 15 a 18 meses, traço controlado com preensão tripé aos 3 a 4 anos.
Sinaptogénese, poda e períodos críticos
O córtex produz sinapses em excesso e depois elimina as que não são usadas. Daí a assimetria terapêutica: estimular cedo tem um retorno que estimular tarde já não tem. Três exemplos concretos e testáveis:
- Surdez congénita: o córtex auditivo privado de estímulo é recrutado por outras modalidades. Por isso o rastreio auditivo neonatal universal existe e por isso o atraso na amplificação ou no implante custa linguagem de forma proporcional ao tempo perdido.
- Catarata congénita e ambliopia: a via visual monocular privada perde-se; a janela útil é curta e a cirurgia é urgente, não eletiva.
- Intervenção precoce (SNIPI, 0 aos 6 anos): o benefício é maior quanto mais cedo se sinaliza, o que justifica sinalizar com base em risco, sem esperar por diagnóstico etiológico.
Nota de segurança: plasticidade não é sinónimo de recuperação. Numa lesão estruturada (leucomalácia periventricular, malformação cortical), a plasticidade reorganiza função em torno da lesão mas não a apaga; prometer normalização aos pais é erro clínico e de comunicação.
Reflexos primitivos: para que servem e porque é que a persistência é alarme
Os reflexos primitivos são respostas motoras estereotipadas de origem subcortical (tronco cerebral e medula), presentes no recém-nascido de termo. Servem a sobrevivência imediata (procurar e sugar a mama, agarrar, reagir à queda) e servem ao clínico como janela para a integridade neurológica. Com a mielinização e a maturação cortical, o córtex inibe estes automatismos e liberta o movimento voluntário. É por isso que o seu desaparecimento é um marco tão fiável como o aparecimento de uma competência.
| Reflexo | Presente desde | Desaparece por volta de | Função e leitura da persistência |
|---|---|---|---|
| Moro | Nascimento | 3 a 6 meses | Resposta global à sensação de queda. Ausente ou assimétrico no RN: lesão do plexo braquial, fratura da clavícula, depressão do SNC. Persistente depois dos 6 meses: disfunção cortical |
| Preensão palmar | Nascimento | 4 a 6 meses | Tem de se apagar para permitir a preensão voluntária e a transferência de objetos. Persistência bloqueia o motor fino |
| Procura e sucção (pontos cardeais) | Nascimento | 3 a 4 meses (a sucção voluntária mantém-se) | Alimentação. Ausência no RN sugere prematuridade, depressão do SNC ou doença neuromuscular |
| Marcha automática | Nascimento | 4 a 8 semanas | Não é precursor da marcha real. Persistência sugere falha de inibição cortical |
| Tónico assimétrico do pescoço | 1 mês (pode esboçar-se no RN) | 4 a 6 meses | Postura do esgrimista. Enquanto persiste, a criança não junta as mãos na linha média nem rola; persistência obrigatória e forçada é sinal de paralisia cerebral |
| Preensão plantar | Nascimento | 9 a 12 meses | Tem de se apagar antes da carga em pé e da marcha |
| Incurvação do tronco (Galant) | Nascimento | 2 a 6 meses | Persistência associada a disfunção do neuro-eixo |
| Landau | 3 a 4 meses | 12 a 24 meses | Extensão axial em suspensão ventral. Ausência precoce sugere hipotonia |
| Paraquedista | 6 a 9 meses | Não desaparece | Reação postural de proteção, de aparecimento e não de desaparecimento. Ausência aos 10 a 12 meses ou assimetria é sinal de alarme |
Como usar isto na prática
- Persistência para além do prazo significa inibição cortical deficiente. Persistência associada a hipertonia, hiperreflexia e postura assimétrica é a apresentação típica da paralisia cerebral no lactente. A persistência de reflexos primitivos para além do prazo é sinal de alarme clássico do primeiro semestre, embora não seja item dos quadros de sinais de alarme do PNSIJ.
- Ausência precoce ou assimetria é tão significativa como a persistência: aponta para lesão periférica (plexo braquial), fratura, hipotonia central ou depressão farmacológica.
- No prematuro, os reflexos aparecem e desaparecem segundo a idade corrigida. Um lactente de 4 meses cronológicos nascido às 28 semanas tem 1 mês corrigido e é normal que tenha ainda Moro exuberante e nenhum controlo cefálico sustentado.
- Reação de paraquedas e reações posturais informam melhor sobre a iminência da marcha do que qualquer reflexo primitivo.
Nota de segurança: perante hipotonia com reflexos osteotendinosos abolidos e reflexos primitivos ausentes, pensar em causa periférica (atrofia muscular espinhal, miopatia congénita) e não em atraso simples: é urgência de referenciação, não matéria de vigilância.
Tabela de marcos por idade e domínio
Idades médias, com uma ressalva: alguns itens seguem a coluna de idade-chave da escala de Sheridan Modificada e já correspondem ao limite e não à média. Sentar sem apoio é o exemplo a fixar, e a lógica é a inversa da que se supõe: "mantém-se sentado sem apoio" é item do quadro dos 6 meses da escala, com a nota de que o sentar independente se alcança entre os 5 e os 9 meses; o quadro dos 9 meses já pede "senta-se sozinho e fica sentado 10 a 15 minutos", pelo que os 9 meses funcionam como limite superior e não como idade de aquisição. Os marcos assinalados com âncora são os de maior rendimento clínico e de prova. No prematuro, ler tudo por idade corrigida.
| Idade | Motor grosseiro | Motor fino e visão | Audição e linguagem | Social e jogo |
|---|---|---|---|---|
| RN | Postura em flexão, simétrica; queda da cabeça à tração | Fixa a face a 20 a 30 cm | Sobressalta ou pisca a som forte | Acalma ao colo |
| 6 semanas | Em decúbito ventral levanta a cabeça | Segue objeto até à linha média (quarto de círculo) | Pára a atividade ao som de sineta ou voz | Sorriso social (âncora) |
| 3 meses | Controlo cefálico (âncora); apoia-se nos antebraços | Mãos abertas, junta-as na linha média; segue 180 graus | Volta-se para o som; vocaliza (arrulho) | Boa resposta social à face familiar |
| 6 meses | Rola; faz força para se sentar à tração; mantém-se sentado sem apoio, por breves momentos (âncora); de pé faz apoio plantar | Preensão palmar e transfere objetos (âncora) | Lalação com sílabas repetidas; localiza sons | Ativo, atento, curioso; leva tudo à boca |
| 9 meses | Senta-se sozinho e fica sentado 10 a 15 minutos (âncora, limite superior do sentar sem apoio); gatinha ou arrasta-se; põe-se de pé com apoio mas não consegue baixar-se | Pinça inferior; aponta com o indicador; procura objeto escondido | Repete sílabas do adulto; atenção rápida ao som | Distingue familiares de estranhos; angústia do estranho |
| 12 meses | Marcha lateral com apoio ou primeiros passos | Pinça fina (âncora); atira objetos deliberadamente | Primeira palavra com significado (âncora); compreende ordens simples com gesto | Dá pelo nome; segue o apontar; bebe pelo copo com ajuda |
| 15 meses | Marcha autónoma (âncora); explora o ambiente | Rabisca; usa funcionalmente os objetos | Algumas palavras; usa o gesto para comunicar | Cumpre ordens simples; imita tarefas |
| 18 meses | Anda bem, apanha brinquedos do chão | Torre de 3 cubos; rabisco com preferência por uma mão | 6 a 26 palavras (PNSIJ); mostra partes do corpo | Jogo simbólico inicial (âncora); come com colher; aponta para mostrar |
| 2 anos | Corre; sobe e desce escadas com os dois pés no mesmo degrau | Torre de 6 cubos; imita rabisco circular; vira uma página de cada vez | Junta duas palavras (âncora); cerca de 50 palavras; 50% inteligível para estranhos | Jogo paralelo; usa bem a colher; despe peças simples |
| 3 anos | Sobe escadas alternando os pés; equilíbrio momentâneo num pé | Torre de 9 cubos; copia o círculo | Frases de 3 palavras; diz nome completo e sexo; 75% inteligível | Jogo de faz de conta elaborado; vai à casa de banho sozinho |
| 4 anos | Salta num pé; fica num pé 3 a 5 segundos; desce escadas alternando | Copia a cruz; escada de 6 cubos | Linguagem compreensível, poucas substituições; conta acontecimentos | Brinca com pares, partilha, espera pela vez |
| 5 anos | Salta alternadamente num pé e no outro; fica num pé, com os braços cruzados, 8 a 10 segundos | Copia o quadrado e o triângulo; conta os dedos de uma mão | Vocabulário fluente, articulação globalmente correta; sabe morada e data de nascimento | Veste-se e lava-se sozinho; escolhe amigos; compreende regras do jogo |
Tabela de sinais de alarme por idade
Esta é a tabela a saber. Os itens seguem os quadros de sinais de alarme do PNSIJ (Texto de apoio 1, Quadros 2 e 4), completados com marcos de linguagem de uso corrente e com sinais clássicos que os quadros não incluem, assinalados como tal.
| Idade | Sinal de alarme | Porque preocupa |
|---|---|---|
| 1 mês | Sem tentativa de controlo cefálico; hiper ou hipotonia; nunca segue a face humana; não reage a som forte; não se mantém alerta | Depressão do SNC, défice sensorial, doença neuromuscular |
| 3 meses | Não fixa nem segue; não sorri; sem qualquer controlo cefálico; mãos sempre fechadas; membros rígidos; sobressalto ao menor ruído | Défice visual, disfunção cortical, paralisia cerebral em construção |
| 6 meses | Ausência de controlo cefálico; membros inferiores rígidos com passagem direta à posição de pé; não pega em objetos; assimetrias (usar só uma mão); não reage aos sons; não vocaliza; estrabismo manifesto e constante; persistência de reflexos primitivos (sinal clássico, não é item do quadro do PNSIJ) | Espasticidade, hemiparesia, surdez |
| 9 meses | Não senta; permanece imóvel e não muda de posição; assimetrias posturais ou de movimento; sem preensão palmar; não reage aos sons; deixa de vocalizar; apático | Atraso motor significativo, surdez, regressão incipiente |
| 12 meses | Não sustém o peso nas pernas; assimetrias; não pega nos brinquedos ou fá-lo só com uma mão; sem pinça fina; não responde à voz, não emite polissílabos; não brinca, não reage ao nome, não segue o apontar; não mastiga; estrabismo | Hemiparesia, surdez, sinais precoces de PEA |
| 15 a 18 meses | Não anda; anda sempre em pontas; assimetrias; nenhuma palavra; não aponta nem usa gestos para comunicar; não cumpre ordens simples; exploração exclusivamente oral dos objetos; não estabelece contacto | Limite superior da marcha e da primeira palavra ultrapassado; bandeira vermelha para PEA e para surdez |
| 2 anos | Não anda sozinho; marcha sistemática em pontas; não junta duas palavras; não parece compreender o que se lhe diz; não constrói nada, atira tudo; não imita, não mostra, não partilha | Atraso global, perturbação da linguagem, PEA |
| 3 anos | Anda sistematicamente em pontas; mantém movimentos estereotipados dos braços; não junta duas palavras; não usa os objetos de forma funcional ou criativa; não socializa | Espasticidade, PEA, atraso global |
| 4 a 5 anos | Linguagem incompreensível para estranhos; gaguez com esforço; hiperatividade e desatenção marcadas; oposição não controlável; estrabismo ou suspeita de défice visual; dificuldades de aprendizagem | Perturbação da linguagem, perturbações do neurodesenvolvimento (capítulo próprio) |
| Qualquer idade | Regressão de aquisições; assimetria persistente; preferência manual firme antes dos 18 meses (nota do PNSIJ), francamente alarmante antes dos 12 meses e com recusa de usar a outra mão (a lateralidade só se estabelece entre os 2 e os 4 anos); perímetro cefálico a cruzar percentis (em qualquer sentido); reflexo vermelho ausente, esbranquiçado (leucocória) ou assimétrico, que é referenciação urgente a oftalmologia no próprio dia; preocupação persistente dos pais | Ver abaixo |
Assimetria e preferência manual precoce
A lateralidade só se estabelece habitualmente entre os 2 e os 4 anos. Aos 18 meses aceita-se que a criança mostre preferência por uma mão ao rabiscar (é item da escala de Sheridan Modificada, que lhe junta a nota expressa de que lateralidade ou preferência por uma mão é anormal antes dos 18 meses). Uma preferência manual firme antes dos 18 meses não é talento nem precocidade: é sinal de alarme de défice contralateral, tipicamente hemiparesia por lesão perinatal, ou de causa ortopédica ou do plexo braquial, e antes dos 12 meses, com recusa de usar a outra mão, é francamente alarmante. Confirma-se pedindo à criança que use as duas mãos e comparando tónus, força, preensão e reação de paraquedas de cada lado. Assimetria de movimento, de postura ou de reflexos em qualquer idade tem a mesma leitura.
A regra absoluta: a regressão é sempre patológica
Perder aquisições já consolidadas é sempre patológico, em qualquer idade e em qualquer domínio, e obriga a investigação. Não se reavalia em três meses: referência-se. O leque etiológico inclui doenças neurodegenerativas e metabólicas hereditárias, encefalopatias epiléticas (incluindo a regressão de linguagem com afasia adquirida), lesões estruturais e processos expansivos, infeção do SNC (ver capítulo de meningite), intoxicações e maus-tratos (ver capítulo próprio). A regressão social e de linguagem entre os 15 e os 24 meses é também apresentação reconhecida de PEA.
⚠️ No lactente, a causa de regressão (ou de simples estagnação de aquisições) que não pode escapar são os espasmos epiléticos, síndrome de West: salvas de flexão ou de extensão breves e repetidas, tipicamente ao acordar ou ao adormecer, muitas vezes desvalorizadas como cólicas ou como reflexo de Moro, acompanhadas de perda do sorriso social, do contacto ocular e do interesse pelo ambiente. O pico de início é entre os 3 e os 7 meses. É emergência neurológica, não matéria de vigilância: eletroencefalograma e observação por neuropediatria sem demora, porque o resultado cognitivo depende do tempo até ao tratamento. Perante a descrição de movimentos em salva num lactente que perdeu aquisições, não se marca reavaliação, envia-se.
Distinguir da pausa ou abrandamento transitório, que é benigno e tem sempre explicação e recuperação:
| Regressão verdadeira | Pausa ou abrandamento transitório | |
|---|---|---|
| O que acontece | Perde competências consolidadas | Deixa de progredir por algumas semanas, ou regride comportamentalmente (voltar a pedir colo, à chucha, a molhar a cama) |
| Contexto | Habitualmente nenhum, ou doença de base | Doença aguda, internamento, cirurgia, nascimento de irmão, mudança de casa ou de ama, separação |
| Domínios | Pode atingir vários; frequente perda de linguagem e de contacto | Sobretudo comportamento e autonomia; competências instrumentais mantêm-se |
| Evolução | Progressiva ou em degraus, sem retorno espontâneo | Recupera em semanas, com retorno ao patamar anterior |
| Conduta | Investigar, referenciar | Explicar aos pais, reavaliar em consulta próxima, com data marcada em semanas e não em meses. Se não recuperar, tratar como regressão. ⚠️ Abaixo do ano, a estagnação de aquisições não se vigia à espera: se houver perda do sorriso social, do contacto ocular ou do interesse pelo ambiente, ou descrição de movimentos em salva, exclui-se primeiro espasmos epiléticos, mesmo que exista um contexto que pareça explicar tudo |
Idade corrigida no prematuro
Cálculo: idade corrigida = idade cronológica menos as semanas que faltavam para as 40 semanas. Exemplo: lactente com 8 meses de idade cronológica, nascido às 28 semanas. Faltavam 12 semanas, ou seja 3 meses. Idade corrigida = 5 meses. Avalia-se como um lactente de 5 meses: espera-se que já role e que esteja a caminho da preensão palmar, da transferência de objetos e de se manter sentado sem apoio, que são marcos dos 6 meses, e não que gatinhe, se ponha de pé com apoio ou fique sentado sozinho 10 a 15 minutos, que são os 9 meses.
Para que serve: para não rotular como atrasado um prematuro que está a desenvolver-se normalmente para a sua maturação, e ao mesmo tempo para não mascarar atraso real. Serve também para as curvas de crescimento nos primeiros anos.
Até quando: convencionalmente até aos 24 meses de idade corrigida. O PNSIJ diz, nas recomendações práticas do texto de apoio da avaliação do desenvolvimento, que nos dois primeiros anos de vida há que atender à idade gestacional da criança. Muitos protocolos de seguimento de grandes prematuros (abaixo das 28 semanas ou de 1000 g) mantêm a correção até aos 3 anos; verificar o protocolo da unidade de seguimento. Depois disso usa-se a idade cronológica, e um défice que persista deixa de se atribuir à prematuridade e passa a ser investigado.
A armadilha, ao contrário: o desenvolvimento avalia-se por idade corrigida, mas a vacinação segue a idade cronológica. O prematuro vacina-se à idade de calendário, com as doses completas, sem adiar e sem fracionar, incluindo o que ainda está internado. A exceção são as vacinas vivas. A BCG deixou de ser universal em Portugal e está reservada aos grupos de risco definidos na Norma DGS n.º 006/2016, não se administrando na unidade neonatal. A vacina contra o rotavírus, ao contrário do que muitos assumem, está no PNV precisamente para grupos de risco, entre os quais o prematuro e o recém-nascido de baixo peso (Norma DGS n.º 007/2021), mas exige idade gestacional mínima ao nascer, tem idade máxima para a primeira dose e só se administra depois da alta, nunca com a criança internada. As particularidades do prematuro (esquema da hepatite B no filho de mãe AgHBs positivo, vigilância de apneia após as primeiras vacinas no muito prematuro internado, imunização sazonal contra o vírus sincicial respiratório) constam do referencial técnico da vacinação em vigor, que desde 2026 é o Livro Azul de Vacinas (adotado pelo Despacho n.º 2794/2026, de 4 de março, e que integra num só documento o PNV, as estratégias para grupos de risco e as outras estratégias de imunização), e do capítulo do PNV. Uma ressalva de rigor: a imunização com nirsevimab não é uma vacina do calendário do PNV, ainda que o Livro Azul a trate no capítulo do vírus sincicial respiratório. É uma campanha sazonal de outono-inverno com norma própria da DGS, revista em cada época, pelo que se confirma a norma da época em curso e não o calendário vacinal. Regra prática: corrige-se o que é maturação, não se corrige o que é imunidade.
Instrumentos usados na consulta de vigilância em Portugal
O PNSIJ (Norma DGS n.º 010/2013, a versão em vigor à data deste capítulo) tem 18 consultas de idade-chave: primeira semana, 1, 2, 4, 6, 9, 12, 15 e 18 meses, 2, 3, 4, 5, 6 ou 7, 8, 10, 12 ou 13 e 15 ou 18 anos. A avaliação do desenvolvimento por escala faz-se em todas as consultas até aos 5 anos; a partir daí o programa mantém a avaliação da linguagem e das dificuldades específicas de aprendizagem até aos 8 anos e do desenvolvimento psicoafetivo e social aos 10, 12 ou 13 e 15 ou 18 anos (ver o capítulo do PNSIJ para o calendário completo).
| Instrumento | Natureza | Onde e quando | Notas |
|---|---|---|---|
| Escala de Avaliação do Desenvolvimento de Mary Sheridan Modificada | Rastreio, por observação dirigida e entrevista aos pais | Cuidados de saúde primários, integrada nos sistemas informáticos; quadros para 1 a 12 meses e 18 meses a 5 anos | Instrumento de referência do PNSIJ, com quadros próprios de sinais de alarme e lista de material (bola pendente, roca, cubos, livro) |
| M-CHAT (rastreio de PEA) | Rastreio por questionário aos pais | Crianças dos 16 aos 30 meses; aplicação proposta aos 18 e 24 meses | Anexo do PNSIJ e integrado na Norma DGS n.º 002/2019 sobre PEA. Confirmar sempre a versão e o ponto de corte em vigor antes de valorizar uma pontuação; positivo obriga a entrevista de seguimento e ou referenciação, não a diagnóstico |
| Rastreio auditivo neonatal universal e recomendações do GRISI | Rastreio sensorial | Maternidade e primeiras consultas | Um rastreio auditivo neonatal normal não dispensa reavaliar a audição perante atraso de linguagem posterior |
| Rastreio visual (reflexo do fundo ocular, avaliação da acuidade por idade) | Rastreio sensorial | Idades-chave, segundo o PNSIJ | Estrabismo constante em qualquer idade e estrabismo depois dos 6 meses são para referenciar |
| Schedule of Growing Skills II, versão portuguesa | Rastreio estruturado de segundo nível | Equipas de intervenção precoce e consultas de desenvolvimento | Não é instrumento obrigatório do PNSIJ; usa-se onde há formação para o aplicar |
| Griffiths, Bayley, escalas de inteligência, ADOS e ADI-R | Diagnóstico | Unidades e centros de desenvolvimento, pedopsiquiatria, neuropediatria | Aplicação por profissional treinado, demorada, com resultado quantificado |
| Sinalização ao SNIPI | Encaminhamento | Crianças dos 0 aos 6 anos com alterações ou risco grave de atraso | Não exige diagnóstico etiológico prévio |
Rastreio não é diagnóstico
- Rastreio aplica-se a toda a população assintomática, é rápido, tem sensibilidade e especificidade da ordem dos 70 a 90% e produz apenas duas saídas: tranquilizar com vigilância continuada, ou aprofundar. Um rastreio positivo não é um diagnóstico e não deve ser comunicado como tal aos pais.
- Diagnóstico aplica-se a quem falhou o rastreio ou tem sinais de alarme, é demorado, exige treino e produz um perfil por domínio e uma etiologia a investigar.
- Um rastreio negativo não encerra o assunto: a vigilância do desenvolvimento é contínua e faz-se em todos os contactos, não só nas idades-chave. O PNSIJ nota que a avaliação clínica informal isolada deteta menos de 30% das crianças com problemas de desenvolvimento, o que é precisamente o argumento para usar a escala e não confiar na impressão geral.
Como se observa na prática
- A observação começa quando a criança entra na sala e acaba quando sai. O PNSIJ é explícito: muito do que interessa vê-se enquanto se fala com os pais, com a criança ao colo ou a brincar, sem se sentir alvo de atenção. A parte formal do exame, com a criança despida e contrariada, é a pior janela para avaliar desenvolvimento.
- Ter brinquedos ao alcance e usar o material da escala (cubos, bola, roca, livro de imagens, lápis e papel). Observar o jogo é observar cognição, motricidade fina, atenção conjunta e simbolização ao mesmo tempo: como pega, se olha para o adulto a procurar partilha, se dá função aos objetos, se imita, se aceita a vez.
- A informação dos pais é fiável e deve ser valorizada até prova em contrário, tal como o PNSIJ determina. Convivem com a criança em ambiente natural e detetam antes do que qualquer consulta. Perguntar de forma dirigida ("o que é que ele diz?", "como é que pede o que quer?", "brinca a quê?") em vez de perguntar se está tudo bem. A ausência de preocupações não é fator preditivo de desenvolvimento normal.
- Registar no Boletim de Saúde Infantil e Juvenil e no processo, por domínio, o que se observou e não apenas "desenvolvimento adequado". A trajetória entre consultas é o dado com mais valor.
- Perante dúvida: reavaliar a curto prazo, com a criança em melhores condições, e verificar audição e visão antes de assumir atraso central. Perante sinal de alarme claro, desvio qualitativo ou regressão: referenciar.
- Em qualquer consulta, integrar o exame do desenvolvimento com o crescimento (incluindo perímetro cefálico) e com o estado vacinal, que são os outros eixos da mesma consulta de vigilância.
O que fazer com o que se encontra
A avaliação do desenvolvimento numa consulta de vigilância termina sempre numa de três decisões: (1) desenvolvimento adequado, faz-se promoção e cuidados antecipatórios; (2) preocupação sem sinal de alarme franco, reforça-se a estimulação e marca-se reavaliação curta (4 a 8 semanas, nunca "volte daqui a um ano"); (3) sinal de alarme, sinaliza-se para intervenção e investiga-se em paralelo. A terceira decisão é a que muda prognósticos e a que mais se erra.
Promoção do desenvolvimento na criança sem problema
Os cuidados antecipatórios são intervenção, não conversa de circunstância. O que se pede ao médico é traduzir a fase de desenvolvimento em comportamento concreto dos pais.
| Fase | O que promover | Frase para dar aos pais |
|---|---|---|
| 0 a 3 meses | Contacto visual, resposta contingente ao choro e ao som, colo, canto e fala em "parentês" (voz melódica, frases curtas). Tempo de barriga para baixo (tempo de chão) desde as primeiras semanas, acordado e vigiado | "Fale com ele mesmo antes de ele responder. E ponha-o de barriga para baixo quando está acordado e a olhar para si, todos os dias, um pouco de cada vez" |
| 3 a 6 meses | Objetos ao alcance, alternância de decúbitos, imitação de sons e de caretas, rotina de sono previsível | "Quando ele faz um som, responda como se fosse conversa. É assim que se aprende a falar" |
| 6 a 12 meses | Chão livre e seguro para rolar, sentar e gatinhar, jogo do cu-cu e do dar e receber, nomear objetos e ações do dia a dia, livros de cartão. Nada de andarilho (não acelera a marcha e associa-se a traumatismo) | "Menos cadeirinha e mais chão. E leiam juntos, mesmo que ele só queira comer o livro" |
| 12 a 24 meses | Leitura partilhada diária, nomear e esperar pela resposta, jogo simbólico (dar de comer ao boneco), limites poucos, claros e consistentes, previsibilidade nas rotinas | "Descreva o que ele está a fazer em vez de o testar. Falar com ele vale mais do que perguntar-lhe coisas" |
| 2 a 3 anos | Expansão de frases (ele diz "papa", responde-se "queres mais papa?"), brincadeira com pares, autonomia nas rotinas, gestão da birra sem ecrã e sem comida | "A birra é desenvolvimento, não é má educação. Nomeie a emoção e mantenha o limite" |
| 3 a 6 anos | Jogo de faz-de-conta elaborado, desenho e tesoura, histórias com princípio, meio e fim, atividade física diária, sono suficiente e horário estável, preparação para a escola | "Uma história por dia antes de dormir faz mais pela leitura do que qualquer aplicação" |
A leitura partilhada não espera pela linguagem: começa no primeiro ano, com o adulto a apontar, a nomear e a deixar a criança manipular o livro. Duas exceções a lembrar na mesma frase em que se fala de tempo de chão: o sono do lactente é sempre em decúbito dorsal, e o tempo de barriga para baixo é exclusivamente com a criança acordada e sob vigilância; no lactente com hipotonia significativa ou com dispositivos médicos, a posição e a progressão devem ser combinadas com fisioterapia.
Ecrãs
As recomendações portuguesas em vigor são as da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria (setembro de 2024), e não coincidem ponto por ponto com as da OMS (2019) nem com as da Academia Americana de Pediatria: a OMS não recomenda qualquer tempo de ecrã abaixo dos 2 anos e admite até 1 hora dos 2 aos 4, enquanto a SPNP tolera 30 minutos de televisão acompanhada abaixo dos 3 anos e é mais restritiva dos 4 aos 6. Numa prova portuguesa vale a recomendação nacional.
| Idade | Recomendação |
|---|---|
| 0 a 3 anos | Evitar ecrãs, com exceção das videochamadas. A televisão, se usada, até 30 minutos por dia, sempre acompanhada por adulto e com conteúdo adequado |
| 4 a 6 anos | Máximo 30 minutos por dia, programação de qualidade, com adulto a contextualizar; a criança não deve poder mudar de canal ou de vídeo sozinha |
| 7 a 11 anos | Limites consistentes, até 1 hora por dia |
| 12 a 15 anos | Até 2 horas por dia |
| 16 a 18 anos | Até 3 horas por dia; redes sociais só a partir dos 16 anos, embora o mínimo legal seja os 13 |
| Todas as idades | Nunca ecrãs às refeições, nunca para controlar birras ou preencher esperas, nunca no quarto, evitar após o fim da tarde pelo impacto no sono |
O conteúdo e o contexto pesam tanto como o cronómetro: pior do que 30 minutos de televisão com o pai ao lado são 30 minutos de vídeos escolhidos pelo algoritmo, sozinha e sem filtros.
Quando referenciar e para onde
Há dois circuitos distintos e não são alternativos, são complementares.
| Circuito | O que é | Para quem | Quem sinaliza |
|---|---|---|---|
| SNIPI, através da Equipa Local de Intervenção (ELI) | Intervenção precoce na infância: apoio à criança e à família no contexto natural (casa, creche, jardim de infância), com componente de saúde, educação e segurança social | Crianças dos 0 aos 6 anos | Qualquer pessoa: médico, enfermeiro, educador, técnico ou a própria família, através da ficha de referenciação, entregue ou enviada à ELI da área de residência |
| Consulta de desenvolvimento, neurodesenvolvimento ou neuropediatria | Caracterização do perfil de desenvolvimento, investigação etiológica, diagnóstico de perturbação do neurodesenvolvimento, comorbilidades e terapêutica | Sem limite etário rígido; depende da suspeita | Referenciação médica |
O SNIPI foi criado pelo Decreto-Lei n.º 281/2009, de 6 de outubro, e articula os ministérios com tutela na saúde, educação e segurança social. São elegíveis as crianças com alterações nas funções ou estruturas do corpo que limitam a participação nas atividades típicas para a idade, e as crianças em risco grave de atraso de desenvolvimento (aqui os critérios aprovados pela comissão de coordenação, em 2010, exigem a acumulação de quatro ou mais fatores de risco biológico ou ambiental). Confirmar sempre a ficha e os critérios em vigor na ELI local, porque a operacionalização tem variações regionais.
Critérios que obrigam a agir e não a esperar:
- Regressão de aquisições, em qualquer idade e em qualquer domínio. É o sinal de alarme mais grave e é sempre referenciação urgente.
- Ausência de marcos com limite superior ultrapassado (por exemplo, não anda sozinho aos 18 meses, nenhuma palavra aos 18 meses, não junta duas palavras aos 24 meses, não se senta sem apoio aos 9 meses).
- Preferência manual firme antes dos 18 meses (nota do PNSIJ), francamente alarmante antes dos 12 meses; assimetria de movimento ou de tónus; hipertonia ou hipotonia persistentes.
- Perímetro cefálico a cruzar percentis para cima ou para baixo, microcefalia ou macrocefalia.
- Preocupação persistente dos pais ou do educador. A preocupação parental tem valor preditivo e não se desvaloriza.
- Suspeita de défice auditivo ou visual.
- Sinais de alarme de perturbação do espetro do autismo (ver situações especiais e o capítulo próprio de perturbações do neurodesenvolvimento).
A regra que muda o prognóstico: a intervenção não espera pelo diagnóstico
Perante um sinal de alarme, sinaliza-se ao SNIPI e inicia-se estimulação no mesmo dia da consulta, em paralelo com a investigação e com a espera pela consulta hospitalar. O erro comum, e caro, é aguardar pela consulta de subespecialidade "para saber o que é" antes de começar. A intervenção precoce não é dirigida à etiologia, é dirigida à função e ao contexto, e por isso não precisa do diagnóstico para começar a funcionar. Numa criança de 20 meses, seis meses de espera são 30% da vida dela. O que se faz na consulta é: preencher a ficha de referenciação para a ELI, referenciar a consulta de desenvolvimento, pedir avaliação auditiva e visual, dar orientações concretas de estimulação aos pais e marcar reavaliação própria em 4 a 8 semanas.
Investigação inicial razoável
Não há protocolo obrigatório perante atraso do desenvolvimento. Há uma sequência sensata.
História. Gravidez (vigilância, ecografias, infeções, diabetes, hipertensão, exposição a álcool, tabaco, drogas e fármacos, restrição de crescimento), parto (idade gestacional, peso, índice de Apgar, necessidade de reanimação), período neonatal (encefalopatia hipóxico-isquémica, convulsões, hipoglicémia, hiperbilirrubinémia grave, sépsis, internamento e sua duração), rastreio auditivo neonatal e diagnóstico precoce (teste do pézinho) realizados e com que resultado, história familiar em três gerações (atrasos, dificuldades de aprendizagem, epilepsia, surdez, doença neuromuscular, perturbações psiquiátricas), consanguinidade, abortos de repetição e mortes precoces, e contexto psicossocial (privação, violência, doença mental do cuidador, língua falada em casa).
Exame. Perímetro cefálico medido e colocado em percentil, comparado com medições anteriores e com o dos pais. Dismorfias (face, mãos, pregas, orelhas, palato). Pele examinada em todo o corpo, incluindo com lâmpada de Wood, à procura de manchas hipocrómicas, manchas café com leite e angioma facial. Organomegalias. Exame neurológico com tónus axial e apendicular, reflexos osteotendinosos, persistência de reflexos primitivos para além da idade, assimetrias e movimentos anómalos. E observar a criança a brincar, que é onde se vê a atenção conjunta, o jogo simbólico e a interação.
Rastreio sensorial antes de tudo. Um défice sensorial não detetado imita atraso global e é a causa reversível mais frequentemente esquecida. A audição segue a lógica 1-3-6 do rastreio auditivo neonatal universal (rastreio até 1 mês, diagnóstico até aos 3 meses, intervenção até aos 6 meses), mas atenção à exceção: um rastreio neonatal normal não exclui surdez de início tardio ou progressiva (citomegalovírus congénito, causas genéticas, meningite bacteriana, ototóxicos), pelo que perante atraso de linguagem se pede avaliação audiológica formal atualizada e não se aceita o resultado das otoemissões da maternidade. A visão avalia-se com reflexo vermelho, reflexo corneano de Hirschberg, cover test, motilidade ocular e fixação e seguimento. Um reflexo vermelho ausente, esbranquiçado (leucocória) ou assimétrico é referenciação urgente a oftalmologia, e não vigilância: as causas a excluir são a catarata congénita (em que o atraso custa ambliopia irreversível) e o retinoblastoma (em que custa a visão e a vida); em Portugal existe ainda o Rastreio de Saúde Visual Infantil de base populacional por foto-rastreio (Norma DGS n.º 015/2018), aplicado no semestre em que a criança completa 2 anos e num segundo momento aos 4 anos. Confirmar a versão em vigor e a operacionalização local.
Exames complementares. No atraso global do desenvolvimento sem sinais focais, a neuroimagem não é exame de rotina e o rendimento é maior quando há microcefalia, macrocefalia, dismorfias, sinais neurológicos focais, regressão ou padrão de paralisia cerebral. A avaliação genética é a que tem maior rendimento diagnóstico no atraso global e na perturbação do desenvolvimento intelectual, mas a estratégia mudou e não convém decorar o algoritmo antigo: a sequenciação de exoma ou de genoma é hoje teste de primeira linha, a par do array-CGH, por ter cerca do dobro do rendimento diagnóstico deste (diretriz da ACMG de 2021 e relatório clínico da Academia Americana de Pediatria de 2025, que substituiu o de 2014). O estudo do X frágil deixou de ser primeira linha e passou a segunda linha, com o rastreio metabólico, reservado a fenótipo ou história familiar sugestivos, a sinais de alarme como a regressão, ou a primeira linha negativa. Em Portugal o acesso ao exoma ainda depende da disponibilidade local, mas o estudo pede-se sempre em articulação com a consulta de desenvolvimento ou de genética, e nunca em avulso. Rastreio metabólico dirigido se houver regressão, consanguinidade, episódios de descompensação ou rastreio neonatal não realizado. Doseamento de creatina-cinase se atraso motor, marcha tardia ou dificuldade em levantar-se do chão, sobretudo no rapaz, para não deixar escapar uma distrofinopatia. Função tiroideia e ferro conforme o contexto. O eletroencefalograma reserva-se para suspeita de crises ou regressão da linguagem, não é rastreio de atraso.
O tema das perturbações do neurodesenvolvimento propriamente ditas (perturbação do espetro do autismo, perturbação de hiperatividade e défice de atenção, perturbação do desenvolvimento intelectual, perturbações da linguagem e da aprendizagem) tem capítulo próprio e é aí que se desenvolve.
Referências
- Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil. Norma n.º 010/2013, de 31/05/2013. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2013.
- Direção-Geral da Saúde. Rastreio de Saúde Visual Infantil. Norma n.º 015/2018, de 05/09/2018. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2018.
- Decreto-Lei n.º 281/2009, de 6 de outubro. Cria o Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância. Diário da República, 1.ª série, n.º 193, de 6 de outubro de 2009.
- Comissão de Coordenação do Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância. Critérios de elegibilidade. Lisboa: SNIPI; 2010.
- Proença dos Santos T, Sampaio M. Recomendações da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria para a utilização de ecrãs e tecnologia digital em idade pediátrica. Lisboa: Sociedade Portuguesa de Neuropediatria; setembro de 2024.
- World Health Organization. Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Genebra: World Health Organization; 2019.
- Lipkin PH, Macias MM; Council on Children with Disabilities, Section on Developmental and Behavioral Pediatrics. Promoting optimal development: identifying infants and young children with developmental disorders through developmental surveillance and screening. Pediatrics. 2020;145(1):e20193449.
- Hyman SL, Levy SE, Myers SM; Council on Children with Disabilities, Section on Developmental and Behavioral Pediatrics. Identification, evaluation, and management of children with autism spectrum disorder. Pediatrics. 2020;145(1):e20193447.
- Moeschler JB, Shevell M; Committee on Genetics. Comprehensive evaluation of the child with intellectual disability or global developmental delays. Pediatrics. 2014;134(3):e903-18.
- Joint Committee on Infant Hearing. Year 2019 Position Statement: principles and guidelines for early hearing detection and intervention programs. J Early Hear Detect Interv. 2019;4(2):1-44.
- Oliveira G. Autismo: diagnóstico e orientação. Parte I: vigilância, rastreio e orientação nos cuidados primários de saúde. Acta Pediatr Port. 2009;40(6).
- Kliegman RM, St Geme JW, Blum NJ, Shah SS, Tasker RC, Wilson KM, editores. Nelson Textbook of Pediatrics. 22.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2024.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 010/2013, de 31/05/2013. Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil (documento em vigor, consultado em julho de 2026). https://www.dgs.pt/directrizes-da-dgs/normas-e-circulares-normativas/norma-n-0102013-de-31052013.aspx
- PNSIJ, Texto de apoio 1: Avaliação do desenvolvimento. Escala de Avaliação do Desenvolvimento de Mary Sheridan Modificada (Quadros 1 a 5) e quadros de sinais de alarme 1-12 M e 18 M-5 A. https://www.spp.pt/UserFiles/file/Protocolos_Manuais_DGS/Programa_Nacional_Saude_Infantil_Juvenil.pdf
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 002/2019, de 23/04/2019. Abordagem Diagnóstica e Intervenção na Perturbação do Espetro do Autismo em Idade Pediátrica e no Adulto. https://normas.dgs.min-saude.pt/2019/04/23/abordagem-diagnostica-e-intervencao-na-perturbacao-do-espectro-do-autismo-em-idade-pediatrica-e-no-adulto/
- Sinais de Alarme do Desenvolvimento Psicomotor (folheto de apoio, itens coincidentes com os quadros do PNSIJ). https://www02.madeira-edu.pt/Portals/5/Sinais%20de%20Alarme.pdf
- Propriedades psicométricas da Schedule of Growing Skills II, versão portuguesa. Psychologica 2017;60(1). https://impactum-journals.uc.pt/psychologica/article/view/1647-8606_60-1_1
- Programa Nacional de Vacinação, normas e orientações da DGS (para o calendário do prematuro, consultar a versão em vigor). https://www.dgs.pt/paginas-de-sistema/saude-de-a-a-z/programa-nacional-de-vacinacao/normas-e-orientacoes.aspx
11 perguntas sobre Desenvolvimento psicomotor normal
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar