Abordagem à criança com cefaleias
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema
A cefaleia é das queixas mais frequentes da idade pediátrica, e na grande maioria das crianças é primária. A enxaqueca atinge 1 a 3% das crianças entre os 3 e os 7 anos, 4 a 11% entre os 7 e os 11 e 8 a 23% aos 15 anos; a cefaleia de tensão é a outra cefaleia primária comum e coexiste muitas vezes com ela. Na criança pequena, a enxaqueca pode ainda apresentar-se sem dor de cabeça, como vómitos cíclicos, dor abdominal recorrente, vertigem ou torcicolo paroxísticos.
A enxaqueca da criança é diferente da do adulto: as crises são mais curtas (2 a 72 horas), a dor é mais vezes bilateral e frontotemporal, e a fotofobia e a fonofobia leem-se no comportamento, porque a criança pequena não as descreve. Nasce de um cérebro com sensibilidade sensorial aumentada, em que o hipotálamo e o tronco cerebral desencadeiam a ativação do sistema trigeminovascular; daí o pródromo com bocejos e desejo de comer, e a eficácia do tratamento tomado cedo.
A tarefa clínica é separar a primária da secundária. Faz-se com uma anamnese cuidada, a pressão arterial e um exame neurológico completo com fundoscopia, que é a parte mais importante do exame. Com exame normal e sem sinais de alarme, não se pede imagem. Papiledema, agravamento com a manobra de Valsalva, défice neurológico, queda do rendimento escolar ou sinais endócrinos obrigam a investigar, em regra com ressonância magnética. A hipertensão intracraniana idiopática merece atenção própria, porque sem fundoscopia passa por enxaqueca crónica e custa a visão.
A crise trata-se cedo, com ibuprofeno 10 mg/kg; no adolescente, o sumatriptano ou o zolmitriptano nasais são a opção seguinte. A prevenção assenta no sono regular, na hidratação, nas refeições, no exercício, no diário de cefaleias e no controlo do uso de analgésicos. Os fármacos preventivos têm evidência fraca contra placebo, que na criança responde muito, e só a terapia cognitivo-comportamental somada à amitriptilina mostrou benefício com confiança alta.
O que não se pode falhar é o papiledema que ninguém procurou, a cefaleia progressiva com vómitos matinais e ataxia de um tumor da fossa posterior, e a cefaleia crónica alimentada pelo próprio analgésico.
Primária e secundária
- Primária: a cefaleia é a doença (enxaqueca, cefaleia de tensão, e mais raramente outras). É a esmagadora maioria.
- Secundária: a cefaleia é sintoma de outra coisa. A causa mais frequente é banal (infeção viral, sinusite, febre); as graves (meningite, tumor, hidrocefalia, hemorragia, hipertensão intracraniana) são raras, e quase sempre deixam marca na história ou no exame.
Pelo padrão temporal
| Padrão | O que sugere |
|---|---|
| Agudo, episódio único | infeção viral ou sinusite na maioria; primeira crise de enxaqueca; meningite, hemorragia ou hipertensão arterial quando há alarmes |
| Agudo recorrente, com intervalos livres | enxaqueca, cefaleia de tensão episódica |
| Crónico não progressivo | enxaqueca crónica, cefaleia de tensão crónica, cefaleia por uso excessivo de medicação, cefaleia persistente diária de novo |
| Crónico progressivo | lesão ocupante de espaço, hidrocefalia, hipertensão intracraniana |
| Subagudo, dias a semanas | estado de mal de enxaqueca, sinusite, uso excessivo de analgésicos, hipertensão intracraniana idiopática |
Enxaqueca na criança (classificação internacional das cefaleias, 3.ª edição)
| Critério | Adulto | Menos de 18 anos |
|---|---|---|
| Número de crises | pelo menos 5 | pelo menos 5 |
| Duração sem tratamento | 4 a 72 horas | 2 a 72 horas; se adormece e acorda sem dor, conta até acordar |
| Localização | tipicamente unilateral | mais vezes bilateral e frontotemporal; a unilateralidade surge no fim da adolescência |
| Características (2 de 4) | unilateral, pulsátil, moderada ou intensa, agravada pela atividade ou que a impede | as mesmas |
| Sintomas associados (1) | náuseas ou vómitos; ou fotofobia e fonofobia | os mesmos, que na criança pequena se inferem do comportamento: procura o quarto escuro, desliga a televisão, tapa-se |
- A aura existe em cerca de um terço das crianças mais velhas e dos adolescentes: cada sintoma dura 5 a 60 minutos, é totalmente reversível, e a cefaleia surge durante a aura ou nos 60 minutos seguintes. A visual é a mais frequente.
- A dor occipital é rara na enxaqueca da criança e pede cautela diagnóstica.
- Formas com aura atípica: a enxaqueca hemiplégica, com défice motor reversível, e a enxaqueca com aura do tronco cerebral, com pelo menos dois de disartria, vertigem, acufeno, hipoacusia, diplopia, ataxia ou diminuição da consciência, sem défice motor. Na primeira apresentação excluem-se acidente vascular cerebral e crise epilética.
- Enxaqueca crónica: cefaleia em 15 ou mais dias por mês durante mais de 3 meses, com características de enxaqueca em pelo menos 8.
- Estado de mal de enxaqueca: crise incapacitante com mais de 72 horas. É a complicação mais frequente na criança, sobretudo nas primeiras crises, quando o tratamento não é tomado a tempo.
Cefaleia de tensão
- Pelo menos 10 episódios de 30 minutos a 7 dias, com pelo menos dois de: bilateral, em pressão ou aperto (não pulsátil), ligeira a moderada, não agravada pela atividade física. Sem náuseas nem vómitos, e no máximo fotofobia ou fonofobia, não as duas.
- Pela frequência: episódica infrequente (menos de 1 dia por mês), episódica frequente (1 a 14 dias por mês) e crónica (15 ou mais dias por mês durante mais de 3 meses).
- Coexiste muitas vezes com a enxaqueca, e na criança os critérios são tão estritos que muitas cefaleias não cumprem os de nenhuma das duas; o diário de cefaleias ajuda a separar os dois tipos, que se tratam de forma diferente.
Síndromes episódicos associados à enxaqueca
São crises recorrentes sem cefaleia, com normalidade completa entre elas e exclusão de outra causa. Muitas crianças desenvolvem mais tarde enxaqueca típica.
| Síndrome | Critérios essenciais | O que excluir |
|---|---|---|
| Vómitos cíclicos | pelo menos 5 crises de náuseas e vómitos intensos, estereotipadas e periódicas; vómitos pelo menos 4 vezes por hora durante pelo menos 1 hora; crises de 1 hora a 10 dias, separadas por pelo menos 1 semana | doença gastrointestinal, renal, metabólica ou do sistema nervoso central |
| Enxaqueca abdominal | pelo menos 5 crises de 2 a 72 horas de dor abdominal moderada a intensa, mediana ou periumbilical, surda; pelo menos dois de anorexia, náuseas, vómitos ou palidez | doença gastrointestinal ou renal |
| Vertigem paroxística benigna | pelo menos 5 crises de vertigem sem aviso, máxima no início, que resolve em minutos a horas sem perda de consciência; pelo menos um de nistagmo, ataxia, vómitos, palidez ou medo; exame neurológico, audição e função vestibular normais entre crises | tumor da fossa posterior, crises epiléticas, doença vestibular |
| Torcicolo paroxístico benigno | crises recorrentes de inclinação da cabeça para um dos lados, que remitem em minutos a dias, com início no primeiro ano de vida; pelo menos um de palidez, irritabilidade, mal-estar, vómitos ou ataxia; exame normal entre crises | refluxo gastroesofágico (síndrome de Sandifer), distonia, crise focal, lesão da fossa posterior ou da charneira craniocervical |
Mecanismos
- Um cérebro que não se habitua. Na enxaqueca há disfunção dos sistemas de controlo sensorial do tronco cerebral e do hipotálamo, e o cérebro não se habitua aos estímulos. Por isso os desencadeantes são desequilíbrios: dormir de menos ou de mais, jejum, desidratação, luz, ruído, stresse.
- O pródromo nasce no hipotálamo. A ativação hipotalâmica precede a dor e dá bocejos, cansaço, alteração do humor e desejo de certos alimentos. Muitos «desencadeantes» alimentares são na verdade o pródromo: a criança pede chocolate porque a crise já começou.
- A dor vem do sistema trigeminovascular. As aferências trigeminais dos vasos meníngeos fazem sinapse no complexo trigeminocervical, que projeta para o tálamo; a ativação liberta o peptídeo relacionado com o gene da calcitonina (CGRP) nas terminações vasculares e no núcleo trigeminal. É o alvo dos triptanos, agonistas dos recetores 5-HT1B e 5-HT1D, que bloqueiam a transmissão nociceptiva.
- A dopamina explica náuseas, vómitos e bocejos, e a eficácia dos antagonistas dopaminérgicos por via parentérica.
- A aura é a depressão alastrante cortical, uma onda de despolarização que avança lentamente pelo córtex; explica a progressão do sintoma durante minutos.
- A sensibilização central dá alodinia do couro cabeludo durante a crise e reduz a resposta a tratamentos tardios. É a razão fisiológica para tratar cedo, quando a dor ainda é ligeira.
- Os sintomas autonómicos cranianos (lacrimejo, congestão nasal, edema palpebral) podem acompanhar a enxaqueca e não fazem, por si, cefaleia em salvas nem sinusite. As cefaleias trigémino-autonómicas são raras na criança.
- Genética: a enxaqueca hemiplégica familiar resulta de mutações de canais iónicos, CACNA1A (canal de cálcio, cerca de metade dos casos), ATP1A2 (bomba de sódio e potássio, cerca de um quinto) e SCN1A (canal de sódio), o que aponta para uma excitabilidade membranar aumentada.
- Cefaleia de tensão: o mecanismo é mal conhecido. Parece ser uma perturbação da modulação central da dor; a contração muscular não a distingue da enxaqueca.
- Uso excessivo de medicação: o analgésico tomado com demasiada frequência perpetua a cefaleia e transforma uma enxaqueca episódica em crónica.
Anamnese
É a parte mais importante do ato clínico, e faz-se com a criança e com os pais.
- Episódio único ou mais um de uma cefaleia crónica? Se crónica: início, frequência, mudança das características, acumulação de episódios, repercussão na vida diária e presença de mais do que um tipo de crise (as cefaleias mistas são frequentes).
- A crise: como começa (brusca ou progressiva), onde dói, como é a dor, quanto dura, a que horas surge, se há aura, náuseas, vómitos, foto, fono ou osmofobia, sintomas autonómicos, agravamento com a manobra de Valsalva ou com o exercício, e como termina (o sono que resolve é típico de enxaqueca).
- O contexto: stresse, sono (apneia, bruxismo), infeções, ciclo menstrual, problemas dentários, traumatismo.
- A repercussão: faltas à escola, desistência de atividades. Na criança pequena, parar de brincar é um bom marcador de gravidade.
- Os fármacos: quantos dias por mês toma analgésicos, cafeína, e medicamentos que causam hipertensão intracraniana.
- A família: enxaqueca nos pais é a regra na criança com enxaqueca; a sua ausência pesa a favor de causa secundária.
- O humor: ansiedade, depressão e agressão entre pares. Associam-se a maior incapacidade e a persistência da cefaleia.
Exame físico
- Sinais vitais, com pressão arterial.
- Cabeça e pescoço: dentes, orofaringe (hipertrofia amigdalina), contraturas cervicais, couro cabeludo; perímetro cefálico no lactente.
- Pele: manchas café com leite, neurofibromas, angiofibromas (síndromes neurocutâneos).
- Exame neurológico: pares cranianos com motilidade ocular (sexto par), campos visuais, força, reflexos, provas cerebelosas e marcha, incluindo em tandem.
- Fundoscopia: é a parte essencial do exame. A presença de papiledema muda toda a abordagem.
Sinais de alarme
Os critérios de alarme interpretam-se em conjunto. Uns bastam por si para investigar; outros aumentam a suspeita.
| Por si sós obrigam a investigar | Aumentam a suspeita |
|---|---|
| Papiledema | Início súbito |
| Agravamento com a manobra de Valsalva, em especial a defecação | Localização occipital sem contratura cervical |
| Evolução desfavorável apesar do tratamento | Início noturno ou matinal, sem apneia do sono que o explique |
| Queda do rendimento escolar ou mudança de comportamento para lá do que a cefaleia explica | Muda com a postura |
| Alterações do exame neurológico que não se explicam por aura | Tratamento anticoagulante |
| Puberdade precoce ou clínica de diabetes insípida | Cefaleia depois de punção lombar que não melhora |
| Antecedentes de neoplasia, neurocirurgia, síndrome neurocutâneo, hipercoagulabilidade ou doença metabólica | |
| Criança que não colabora, pela idade ou por défice cognitivo |
Na criança com cefaleias recorrentes, os fatores que previram uma lesão ocupante de espaço foram a cefaleia com menos de um mês de evolução, a ausência de história familiar de enxaqueca, o exame neurológico anormal, a alteração da marcha e as convulsões.
Três perguntas
- Qual é o padrão temporal? O crónico progressivo é o que se associa a lesão.
- Há sinais de alarme na história?
- O exame, com fundoscopia, é normal?
Com padrão de cefaleia primária, sem alarmes e com exame normal, o diagnóstico é clínico e não se pedem exames. Se os critérios não fecham, um diário de cefaleias durante algumas semanas esclarece o padrão.
Imagem
| Situação | Exame |
|---|---|
| Cefaleias recorrentes, exame neurológico normal, sem alarmes | nenhum; a imagem de rotina não está indicada |
| Sinais de alarme, fora da urgência | ressonância magnética, sem radiação e melhor para a fossa posterior, a sela e os seios venosos; com venografia se há papiledema |
| Deterioração aguda, traumatismo, suspeita de hemorragia, ou ressonância indisponível a tempo | TC crânio-encefálica, pela rapidez |
| Suspeita de hipertensão intracraniana idiopática | ressonância com venografia antes da punção lombar |
| Enxaqueca hemiplégica na primeira crise | ressonância com angiografia e eletroencefalograma com privação de sono |
Na prática, a indicação mais frequente de imagem é tranquilizar a família; os achados incidentais, porém, geram mais ansiedade e mais exames.
Punção lombar
- Na suspeita de meningite; na suspeita de hipertensão intracraniana idiopática, sempre depois da imagem.
- Com papiledema, défice focal ou alteração da consciência, a imagem vem antes da punção.
- Mede-se sempre a pressão de abertura, em decúbito lateral e com a criança calma ou sedada; a sedação e a agitação alteram o valor.
O que não se pede por rotina
- Eletroencefalograma: não define a causa nem distingue a enxaqueca de outras cefaleias. Um traçado paroxístico numa criança com cefaleias recorrentes não aumenta o risco de epilepsia e não pede mais investigação.
- Análises: não têm indicação de rotina; pedem-se se a história o sugerir (anemia, tiroide, perturbações do metabolismo do cálcio e do fósforo na hipertensão intracraniana).
- Radiografia dos seios perinasais, estudo de alergias alimentares.
Na criança, a prevenção das crises começa pelos hábitos. Negociam-se duas ou três mudanças concretas com a família e reavaliam-se com o diário.
Hábitos
- Sono: 8 a 10 horas por noite, com horários regulares também ao fim de semana, sem ecrãs antes de dormir. Tratar a apneia do sono quando existe.
- Hidratação abundante (urinar mais de 5 vezes por dia) e cinco refeições diárias, sem saltar o pequeno-almoço.
- Cafeína reduzida ou eliminada, e sem álcool.
- Exercício aeróbio mais de 3 vezes por semana durante mais de 30 minutos; dispensar a criança da educação física reforça o comportamento de doença.
- Peso: a perda de peso reduz as cefaleias na criança com excesso de peso.
- Stresse: reduzir o excesso de atividades extracurriculares e a pressão desportiva; procurar a agressão entre pares.
- Sem dietas de exclusão, a menos que um alimento esteja claramente identificado como desencadeante.
Diário de cefaleias
Mostra o padrão real, separa enxaqueca de cefaleia de tensão, mede a resposta aos tratamentos e deteta o uso excessivo de analgésicos.
Evitar o uso excessivo de medicação
- Limites a combinar com a família: ibuprofeno ou paracetamol em no máximo 14 dias por mês; triptanos, e qualquer combinação de fármacos para a crise, em no máximo 9 dias por mês.
- Os critérios diagnósticos correspondem: cefaleia em 15 ou mais dias por mês, com analgésico simples em 15 ou mais dias, ou triptano ou combinação em 10 ou mais, durante mais de 3 meses.
- É pouco reconhecida na criança: pensar nela em qualquer cefaleia prolongada com analgésico tomado em mais de 15 dias por mês.
Intervenções psicológicas
- Técnicas de relaxamento, biofeedback e terapia cognitivo-comportamental reduzem a frequência das cefaleias.
- Rastrear perturbações do humor e de ansiedade em todas as crianças e adolescentes com enxaqueca, e tratá-las: aumentam o risco de a cefaleia persistir.
- Plano para a escola, para tomar o analgésico cedo, e regresso rápido às aulas: ficar em casa aumenta a incapacidade.
A crise de enxaqueca em casa
- Tratar cedo, quando a dor ainda é ligeira, com a dose completa; deitar num quarto escuro e silencioso e tentar dormir.
- Ibuprofeno 10 mg/kg por via oral é a primeira opção: nos ensaios aumentou a resposta da dor às 2 horas e foi o único analgésico simples com mais crianças sem dor às 2 horas do que o placebo.
- Paracetamol 15 mg/kg aumentou a resposta da dor às 2 horas, mas não mostrou mais crianças sem dor às 2 horas do que o placebo. É a alternativa quando o anti-inflamatório não pode ser usado.
- Se a dor recorre nas 24 horas depois de uma resposta, uma segunda dose trata a recorrência.
- Nenhum tratamento da crise mostrou efeito sobre as náuseas e os vómitos. Quando são proeminentes, junta-se um antiemético (ondansetrom) e prefere-se a via nasal.
Triptanos no adolescente
- Nos resumos das características do medicamento europeus, têm indicação a partir dos 12 anos o sumatriptano nasal 10 mg (uma aplicação numa narina) e o zolmitriptano nasal 5 mg. Abaixo dos 12 anos não estão recomendados.
- Nos ensaios em adolescentes, o zolmitriptano nasal 5 mg, o sumatriptano nasal 20 mg e a associação sumatriptano com naproxeno deixaram mais adolescentes sem dor às 2 horas do que o placebo; o rizatriptano e o almotriptano também têm estudos favoráveis. O sumatriptano oral não se distinguiu do placebo.
- A via nasal é preferível quando a dor atinge o pico depressa ou há vómitos.
- Se a resposta é incompleta, junta-se ibuprofeno ou naproxeno ao triptano; se um triptano falha, tenta-se outro.
- Tomar o triptano durante uma aura visual típica é seguro, mas é mais eficaz no início da dor.
- Contraindicações: doença vascular isquémica e vias acessórias de condução (síndrome de Wolff-Parkinson-White); por precaução, também na aura hemiplégica e na aura do tronco cerebral.
A crise no serviço de urgência
Algoritmo do hospital pediátrico La Paz, baseado em recomendações de peritos e nos poucos ensaios existentes:
| Passo | O que se faz |
|---|---|
| Medidas gerais | quarto escuro e silencioso, avaliação horária da dor |
| Com náuseas ou vómitos | hidratação endovenosa, 10 a 20 mL/kg/h durante no máximo 4 horas; ondansetrom endovenoso; sumatriptano nasal ou metamizol endovenoso |
| Sem náuseas | hidratação oral com solução de reidratação, 10 mL/kg/h; ibuprofeno 10 mg/kg se não o tomou, ou paracetamol ou metamizol orais |
| Náuseas que persistem | metoclopramida endovenosa, com eletrocardiograma prévio |
| Dor moderada que persiste | sumatriptano nasal; depois, segunda linha: outros anti-inflamatórios (cetorolac, dexcetoprofeno, diclofenac), outros triptanos, valproato endovenoso no adolescente |
| Resposta | alta com ibuprofeno 10 mg/kg de 8 em 8 horas se necessário, recomendações e controlo em 48 horas |
| Sem resposta | observação ou internamento e reconsiderar o diagnóstico |
Reduzir o tempo na urgência e evitar internamentos desnecessários faz parte do tratamento. Os opioides não têm lugar na enxaqueca da criança.
Estado de mal de enxaqueca
Anti-inflamatório de potência média a alta (dexcetoprofeno ou diclofenac) associado a uma benzodiazepina em dose baixa (por exemplo, clorazepato dipotássico 2,5 mg de 8 em 8 horas). Os corticoides reservam-se para a ausência de resposta em 48 horas. A resolução é lenta, com reavaliação a cada 2 a 3 dias.
Profilaxia farmacológica da enxaqueca
Quando considerar: cefaleias frequentes, incapacidade relevante (faltas à escola), falência do tratamento da crise, uso excessivo de medicação, crises muito graves ou prolongadas. Os ensaios pediátricos incluíram em geral crianças com pelo menos 4 dias de cefaleia por mês.
O que a evidência mostra contra placebo: a maioria dos ensaios não demonstrou superioridade sobre o placebo, que na criança responde muito: 30 a 61% das crianças com placebo reduziram as cefaleias para metade.
- No maior ensaio pediátrico (8 a 17 anos, 24 semanas), a redução de pelo menos 50% dos dias de cefaleia ocorreu em 52% com amitriptilina 1 mg/kg/dia, 55% com topiramato 2 mg/kg/dia e 61% com placebo, sem diferença entre grupos; o ensaio parou por futilidade, e os fármacos ativos tiveram mais efeitos adversos (fadiga e boca seca com a amitriptilina, parestesias e perda de peso com o topiramato).
- Topiramato: provavelmente reduz a frequência das cefaleias, mas a evidência é insuficiente para a redução de 50%.
- Propranolol: possivelmente aumenta a proporção com redução de 50% (confiança baixa).
- Cinarizina: provavelmente reduz a frequência e a intensidade (um ensaio).
- Amitriptilina isolada, flunarizina, valproato, nimodipina e toxina botulínica: evidência insuficiente.
- Amitriptilina com terapia cognitivo-comportamental, no adolescente com enxaqueca crónica (10 a 17 anos): reduziu os dias de cefaleia e a incapacidade mais do que a amitriptilina com educação; 66% contra 36% tiveram redução de pelo menos 50% (confiança alta).
| Fármaco | Esquema habitual | Cuidados |
|---|---|---|
| Propranolol | 1 mg/kg/dia dos 2 aos 12 anos, subindo até à dose máxima tolerada | contraindicado na asma e nos bloqueios de condução; hipotensão, broncospasmo |
| Flunarizina | 5 mg à noite abaixo de 40 kg; 10 mg acima | aumento de apetite e de peso, sonolência, tonturas; útil na criança mais nova |
| Topiramato | início 0,5 mg/kg/dia, até 1 a 2 mg/kg/dia | alterações cognitivas, parestesias, anorexia e perda de peso, acidose metabólica; interessante na obesidade |
| Amitriptilina | 0,2 a 0,5 mg/kg à noite, até 1 mg/kg/dia | sedação, obstipação, aumento de peso; alerta sobre ideação suicida em crianças e adolescentes |
- Ensaio mínimo de 2 meses antes de julgar o efeito, com decisão partilhada com a família sobre os limites da evidência.
- Vigiar periodicamente a eficácia e os efeitos adversos; discutir a suspensão quando a enxaqueca estiver controlada (retirar o propranolol 2 a 3 meses depois do controlo).
- Na rapariga com potencial para engravidar, o topiramato e o valproato são teratogénicos: aconselhar contraceção eficaz e ácido fólico diário, e lembrar que o topiramato acima de 200 mg por dia reduz a eficácia dos contracetivos orais combinados.
- Os anticorpos anti-CGRP não têm aprovação abaixo dos 18 anos.
Cefaleia de tensão
- Procurar e corrigir os desencadeantes (sono, stresse, agressão entre pares).
- Crise: relaxamento, e paracetamol ou ibuprofeno quando a dor é moderada. Os triptanos não servem na cefaleia de tensão pura.
- Prevenção: relaxamento, biofeedback e terapia cognitivo-comportamental; na criança mais velha que não responde, amitriptilina 1 mg/kg/dia, com pouca evidência.
Uso excessivo de medicação
Suspender o fármaco em excesso (ou trocá-lo se não controla a dor), avisar do agravamento transitório, reforçar as medidas de prevenção e considerar profilaxia.
Síndromes episódicos
- Vómitos cíclicos: na crise, quarto escuro, hidratação endovenosa com potássio e ondansetrom 0,15 a 0,4 mg/kg por dose (máximo 8 mg); ibuprofeno se há dor. Profilaxia, se mais de uma crise por mês: abaixo dos 5 anos, cipro-heptadina 0,25 a 0,5 mg/kg/dia; acima dos 5, amitriptilina; propranolol como segunda opção.
- Vertigem e torcicolo paroxísticos benignos: explicar a benignidade e vigiar; investigar se o exame entre crises não é normal ou a evolução é progressiva.
Hipertensão intracraniana idiopática
- A orientação depende da visão, avaliada por oftalmologista com fundoscopia e campimetria.
- Sem perda de visão: perda de peso quando há excesso, suspensão do fármaco causal, e acetazolamida ou topiramato, com redução progressiva conforme o papiledema e a cefaleia; o tratamento dura habitualmente 4 a 6 meses.
- Com perda de visão ou evolução fulminante: tratamento urgente, com drenagem lombar temporária, derivação do líquido cefalorraquidiano, fenestração da bainha do nervo ótico ou tratamento da estenose venosa.
- A cefaleia é o primeiro sintoma a melhorar; o papiledema resolve em 5 a 6 meses. Recorre em 28,5 a 36,4%, mais depois da puberdade.
Adolescente com enxaqueca com aura
Os contracetivos hormonais combinados estão contraindicados em qualquer idade, porque a enxaqueca com aura e os estrogénios aumentam, cada um, o risco de acidente vascular cerebral isquémico: usar progestativo isolado ou método não hormonal.
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11 perguntas sobre Abordagem à criança com cefaleias
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar