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Abordagem à criança com cefaleias

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema

Em resumo

A cefaleia é das queixas mais frequentes da idade pediátrica, e na grande maioria das crianças é primária. A enxaqueca atinge 1 a 3% das crianças entre os 3 e os 7 anos, 4 a 11% entre os 7 e os 11 e 8 a 23% aos 15 anos; a cefaleia de tensão é a outra cefaleia primária comum e coexiste muitas vezes com ela. Na criança pequena, a enxaqueca pode ainda apresentar-se sem dor de cabeça, como vómitos cíclicos, dor abdominal recorrente, vertigem ou torcicolo paroxísticos.

A enxaqueca da criança é diferente da do adulto: as crises são mais curtas (2 a 72 horas), a dor é mais vezes bilateral e frontotemporal, e a fotofobia e a fonofobia leem-se no comportamento, porque a criança pequena não as descreve. Nasce de um cérebro com sensibilidade sensorial aumentada, em que o hipotálamo e o tronco cerebral desencadeiam a ativação do sistema trigeminovascular; daí o pródromo com bocejos e desejo de comer, e a eficácia do tratamento tomado cedo.

A tarefa clínica é separar a primária da secundária. Faz-se com uma anamnese cuidada, a pressão arterial e um exame neurológico completo com fundoscopia, que é a parte mais importante do exame. Com exame normal e sem sinais de alarme, não se pede imagem. Papiledema, agravamento com a manobra de Valsalva, défice neurológico, queda do rendimento escolar ou sinais endócrinos obrigam a investigar, em regra com ressonância magnética. A hipertensão intracraniana idiopática merece atenção própria, porque sem fundoscopia passa por enxaqueca crónica e custa a visão.

A crise trata-se cedo, com ibuprofeno 10 mg/kg; no adolescente, o sumatriptano ou o zolmitriptano nasais são a opção seguinte. A prevenção assenta no sono regular, na hidratação, nas refeições, no exercício, no diário de cefaleias e no controlo do uso de analgésicos. Os fármacos preventivos têm evidência fraca contra placebo, que na criança responde muito, e só a terapia cognitivo-comportamental somada à amitriptilina mostrou benefício com confiança alta.

O que não se pode falhar é o papiledema que ninguém procurou, a cefaleia progressiva com vómitos matinais e ataxia de um tumor da fossa posterior, e a cefaleia crónica alimentada pelo próprio analgésico.

Primária e secundária

  • Primária: a cefaleia é a doença (enxaqueca, cefaleia de tensão, e mais raramente outras). É a esmagadora maioria.
  • Secundária: a cefaleia é sintoma de outra coisa. A causa mais frequente é banal (infeção viral, sinusite, febre); as graves (meningite, tumor, hidrocefalia, hemorragia, hipertensão intracraniana) são raras, e quase sempre deixam marca na história ou no exame.

Pelo padrão temporal

PadrãoO que sugere
Agudo, episódio únicoinfeção viral ou sinusite na maioria; primeira crise de enxaqueca; meningite, hemorragia ou hipertensão arterial quando há alarmes
Agudo recorrente, com intervalos livresenxaqueca, cefaleia de tensão episódica
Crónico não progressivoenxaqueca crónica, cefaleia de tensão crónica, cefaleia por uso excessivo de medicação, cefaleia persistente diária de novo
Crónico progressivolesão ocupante de espaço, hidrocefalia, hipertensão intracraniana
Subagudo, dias a semanasestado de mal de enxaqueca, sinusite, uso excessivo de analgésicos, hipertensão intracraniana idiopática

Enxaqueca na criança (classificação internacional das cefaleias, 3.ª edição)

CritérioAdultoMenos de 18 anos
Número de crisespelo menos 5pelo menos 5
Duração sem tratamento4 a 72 horas2 a 72 horas; se adormece e acorda sem dor, conta até acordar
Localizaçãotipicamente unilateralmais vezes bilateral e frontotemporal; a unilateralidade surge no fim da adolescência
Características (2 de 4)unilateral, pulsátil, moderada ou intensa, agravada pela atividade ou que a impedeas mesmas
Sintomas associados (1)náuseas ou vómitos; ou fotofobia e fonofobiaos mesmos, que na criança pequena se inferem do comportamento: procura o quarto escuro, desliga a televisão, tapa-se
  • A aura existe em cerca de um terço das crianças mais velhas e dos adolescentes: cada sintoma dura 5 a 60 minutos, é totalmente reversível, e a cefaleia surge durante a aura ou nos 60 minutos seguintes. A visual é a mais frequente.
  • A dor occipital é rara na enxaqueca da criança e pede cautela diagnóstica.
  • Formas com aura atípica: a enxaqueca hemiplégica, com défice motor reversível, e a enxaqueca com aura do tronco cerebral, com pelo menos dois de disartria, vertigem, acufeno, hipoacusia, diplopia, ataxia ou diminuição da consciência, sem défice motor. Na primeira apresentação excluem-se acidente vascular cerebral e crise epilética.
  • Enxaqueca crónica: cefaleia em 15 ou mais dias por mês durante mais de 3 meses, com características de enxaqueca em pelo menos 8.
  • Estado de mal de enxaqueca: crise incapacitante com mais de 72 horas. É a complicação mais frequente na criança, sobretudo nas primeiras crises, quando o tratamento não é tomado a tempo.

Cefaleia de tensão

  • Pelo menos 10 episódios de 30 minutos a 7 dias, com pelo menos dois de: bilateral, em pressão ou aperto (não pulsátil), ligeira a moderada, não agravada pela atividade física. Sem náuseas nem vómitos, e no máximo fotofobia ou fonofobia, não as duas.
  • Pela frequência: episódica infrequente (menos de 1 dia por mês), episódica frequente (1 a 14 dias por mês) e crónica (15 ou mais dias por mês durante mais de 3 meses).
  • Coexiste muitas vezes com a enxaqueca, e na criança os critérios são tão estritos que muitas cefaleias não cumprem os de nenhuma das duas; o diário de cefaleias ajuda a separar os dois tipos, que se tratam de forma diferente.

Síndromes episódicos associados à enxaqueca

São crises recorrentes sem cefaleia, com normalidade completa entre elas e exclusão de outra causa. Muitas crianças desenvolvem mais tarde enxaqueca típica.

SíndromeCritérios essenciaisO que excluir
Vómitos cíclicospelo menos 5 crises de náuseas e vómitos intensos, estereotipadas e periódicas; vómitos pelo menos 4 vezes por hora durante pelo menos 1 hora; crises de 1 hora a 10 dias, separadas por pelo menos 1 semanadoença gastrointestinal, renal, metabólica ou do sistema nervoso central
Enxaqueca abdominalpelo menos 5 crises de 2 a 72 horas de dor abdominal moderada a intensa, mediana ou periumbilical, surda; pelo menos dois de anorexia, náuseas, vómitos ou palidezdoença gastrointestinal ou renal
Vertigem paroxística benignapelo menos 5 crises de vertigem sem aviso, máxima no início, que resolve em minutos a horas sem perda de consciência; pelo menos um de nistagmo, ataxia, vómitos, palidez ou medo; exame neurológico, audição e função vestibular normais entre crisestumor da fossa posterior, crises epiléticas, doença vestibular
Torcicolo paroxístico benignocrises recorrentes de inclinação da cabeça para um dos lados, que remitem em minutos a dias, com início no primeiro ano de vida; pelo menos um de palidez, irritabilidade, mal-estar, vómitos ou ataxia; exame normal entre crisesrefluxo gastroesofágico (síndrome de Sandifer), distonia, crise focal, lesão da fossa posterior ou da charneira craniocervical

Mecanismos

  • Um cérebro que não se habitua. Na enxaqueca há disfunção dos sistemas de controlo sensorial do tronco cerebral e do hipotálamo, e o cérebro não se habitua aos estímulos. Por isso os desencadeantes são desequilíbrios: dormir de menos ou de mais, jejum, desidratação, luz, ruído, stresse.
  • O pródromo nasce no hipotálamo. A ativação hipotalâmica precede a dor e dá bocejos, cansaço, alteração do humor e desejo de certos alimentos. Muitos «desencadeantes» alimentares são na verdade o pródromo: a criança pede chocolate porque a crise já começou.
  • A dor vem do sistema trigeminovascular. As aferências trigeminais dos vasos meníngeos fazem sinapse no complexo trigeminocervical, que projeta para o tálamo; a ativação liberta o peptídeo relacionado com o gene da calcitonina (CGRP) nas terminações vasculares e no núcleo trigeminal. É o alvo dos triptanos, agonistas dos recetores 5-HT1B e 5-HT1D, que bloqueiam a transmissão nociceptiva.
  • A dopamina explica náuseas, vómitos e bocejos, e a eficácia dos antagonistas dopaminérgicos por via parentérica.
  • A aura é a depressão alastrante cortical, uma onda de despolarização que avança lentamente pelo córtex; explica a progressão do sintoma durante minutos.
  • A sensibilização central dá alodinia do couro cabeludo durante a crise e reduz a resposta a tratamentos tardios. É a razão fisiológica para tratar cedo, quando a dor ainda é ligeira.
  • Os sintomas autonómicos cranianos (lacrimejo, congestão nasal, edema palpebral) podem acompanhar a enxaqueca e não fazem, por si, cefaleia em salvas nem sinusite. As cefaleias trigémino-autonómicas são raras na criança.
  • Genética: a enxaqueca hemiplégica familiar resulta de mutações de canais iónicos, CACNA1A (canal de cálcio, cerca de metade dos casos), ATP1A2 (bomba de sódio e potássio, cerca de um quinto) e SCN1A (canal de sódio), o que aponta para uma excitabilidade membranar aumentada.
  • Cefaleia de tensão: o mecanismo é mal conhecido. Parece ser uma perturbação da modulação central da dor; a contração muscular não a distingue da enxaqueca.
  • Uso excessivo de medicação: o analgésico tomado com demasiada frequência perpetua a cefaleia e transforma uma enxaqueca episódica em crónica.

Anamnese

É a parte mais importante do ato clínico, e faz-se com a criança e com os pais.

  • Episódio único ou mais um de uma cefaleia crónica? Se crónica: início, frequência, mudança das características, acumulação de episódios, repercussão na vida diária e presença de mais do que um tipo de crise (as cefaleias mistas são frequentes).
  • A crise: como começa (brusca ou progressiva), onde dói, como é a dor, quanto dura, a que horas surge, se há aura, náuseas, vómitos, foto, fono ou osmofobia, sintomas autonómicos, agravamento com a manobra de Valsalva ou com o exercício, e como termina (o sono que resolve é típico de enxaqueca).
  • O contexto: stresse, sono (apneia, bruxismo), infeções, ciclo menstrual, problemas dentários, traumatismo.
  • A repercussão: faltas à escola, desistência de atividades. Na criança pequena, parar de brincar é um bom marcador de gravidade.
  • Os fármacos: quantos dias por mês toma analgésicos, cafeína, e medicamentos que causam hipertensão intracraniana.
  • A família: enxaqueca nos pais é a regra na criança com enxaqueca; a sua ausência pesa a favor de causa secundária.
  • O humor: ansiedade, depressão e agressão entre pares. Associam-se a maior incapacidade e a persistência da cefaleia.

Exame físico

  • Sinais vitais, com pressão arterial.
  • Cabeça e pescoço: dentes, orofaringe (hipertrofia amigdalina), contraturas cervicais, couro cabeludo; perímetro cefálico no lactente.
  • Pele: manchas café com leite, neurofibromas, angiofibromas (síndromes neurocutâneos).
  • Exame neurológico: pares cranianos com motilidade ocular (sexto par), campos visuais, força, reflexos, provas cerebelosas e marcha, incluindo em tandem.
  • Fundoscopia: é a parte essencial do exame. A presença de papiledema muda toda a abordagem.

Sinais de alarme

Os critérios de alarme interpretam-se em conjunto. Uns bastam por si para investigar; outros aumentam a suspeita.

Por si sós obrigam a investigarAumentam a suspeita
PapiledemaInício súbito
Agravamento com a manobra de Valsalva, em especial a defecaçãoLocalização occipital sem contratura cervical
Evolução desfavorável apesar do tratamentoInício noturno ou matinal, sem apneia do sono que o explique
Queda do rendimento escolar ou mudança de comportamento para lá do que a cefaleia explicaMuda com a postura
Alterações do exame neurológico que não se explicam por auraTratamento anticoagulante
Puberdade precoce ou clínica de diabetes insípidaCefaleia depois de punção lombar que não melhora
Antecedentes de neoplasia, neurocirurgia, síndrome neurocutâneo, hipercoagulabilidade ou doença metabólica
Criança que não colabora, pela idade ou por défice cognitivo

Na criança com cefaleias recorrentes, os fatores que previram uma lesão ocupante de espaço foram a cefaleia com menos de um mês de evolução, a ausência de história familiar de enxaqueca, o exame neurológico anormal, a alteração da marcha e as convulsões.

⚠ Sinais de alarme na cefaleia da criançaApontam para cefaleia secundária · ressonância na maioria, TC na urgência aguda, punção lombar com pressão de aberturaCritérios que por si só obrigam a investigarPapiledemafundoscopia em todasAgrava com Valsalvatosse, defecaçãoDéfice neurológicoque não se explica por auraQueda escolarou mudança de condutaSinais endócrinospuberdade precoce, poliúria!Início súbitoIntensidade máxima em menos de um minutoA pior dor que a criança já teveHemorragia, trombose venosa, disseção · TC urgente↑ProgressivaAgrava ao longo de semanas ou mesesAcorda a criança; vómitos matinais que aliviam a dorTumor, hidrocefalia, hipertensão intracraniana↕Muda com a posturaPior deitada e de manhã: hipertensão intracranianaPior de pé, alivia deitada: hipotensão intracranianaFundoscopia · ressonânciaT°Febre e sinais sistémicosFebre com rigidez da nuca: meningitePressão arterial elevada: crise hipertensivaHemoculturas e punção lombar · medir a pressão arterial◎Exame neurológico alteradoAtaxia, alteração da marcha, diplopia, sexto parTorcicolo, convulsões, alteração da consciênciaLesão estrutural · ressonância urgente?História curta ou pouco fiávelMenos de um mês de evolução, sem enxaqueca na famíliaCriança que não consegue descrever a dorLimiar mais baixo para a imagemTCEDepois de traumatismo cranianoA cefaleia pós-traumática ligeira é frequente, surge na primeira semana e vai melhorandoCefaleia que agrava, vómitos repetidos, sonolência ou intervalo lúcido: hematoma epidural ou subduralTC urgente se agrava ou surgem sinais neurológicosUrgente: imagem ou punção no próprio diaInvestigar com prioridadeContexto traumáticoSem sinais de alarme e com exame neurológico normal, a imagem de rotina não está indicadaElaboração própria, a partir do Manual La Paz e das recomendações pediátricas da Academia Americana de Neurologia
Elaboração própria

Três perguntas

  1. Qual é o padrão temporal? O crónico progressivo é o que se associa a lesão.
  2. Há sinais de alarme na história?
  3. O exame, com fundoscopia, é normal?

Com padrão de cefaleia primária, sem alarmes e com exame normal, o diagnóstico é clínico e não se pedem exames. Se os critérios não fecham, um diário de cefaleias durante algumas semanas esclarece o padrão.

Imagem

SituaçãoExame
Cefaleias recorrentes, exame neurológico normal, sem alarmesnenhum; a imagem de rotina não está indicada
Sinais de alarme, fora da urgênciaressonância magnética, sem radiação e melhor para a fossa posterior, a sela e os seios venosos; com venografia se há papiledema
Deterioração aguda, traumatismo, suspeita de hemorragia, ou ressonância indisponível a tempoTC crânio-encefálica, pela rapidez
Suspeita de hipertensão intracraniana idiopáticaressonância com venografia antes da punção lombar
Enxaqueca hemiplégica na primeira criseressonância com angiografia e eletroencefalograma com privação de sono

Na prática, a indicação mais frequente de imagem é tranquilizar a família; os achados incidentais, porém, geram mais ansiedade e mais exames.

Punção lombar

  • Na suspeita de meningite; na suspeita de hipertensão intracraniana idiopática, sempre depois da imagem.
  • Com papiledema, défice focal ou alteração da consciência, a imagem vem antes da punção.
  • Mede-se sempre a pressão de abertura, em decúbito lateral e com a criança calma ou sedada; a sedação e a agitação alteram o valor.

O que não se pede por rotina

  • Eletroencefalograma: não define a causa nem distingue a enxaqueca de outras cefaleias. Um traçado paroxístico numa criança com cefaleias recorrentes não aumenta o risco de epilepsia e não pede mais investigação.
  • Análises: não têm indicação de rotina; pedem-se se a história o sugerir (anemia, tiroide, perturbações do metabolismo do cálcio e do fósforo na hipertensão intracraniana).
  • Radiografia dos seios perinasais, estudo de alergias alimentares.

Na criança, a prevenção das crises começa pelos hábitos. Negociam-se duas ou três mudanças concretas com a família e reavaliam-se com o diário.

Hábitos

  • Sono: 8 a 10 horas por noite, com horários regulares também ao fim de semana, sem ecrãs antes de dormir. Tratar a apneia do sono quando existe.
  • Hidratação abundante (urinar mais de 5 vezes por dia) e cinco refeições diárias, sem saltar o pequeno-almoço.
  • Cafeína reduzida ou eliminada, e sem álcool.
  • Exercício aeróbio mais de 3 vezes por semana durante mais de 30 minutos; dispensar a criança da educação física reforça o comportamento de doença.
  • Peso: a perda de peso reduz as cefaleias na criança com excesso de peso.
  • Stresse: reduzir o excesso de atividades extracurriculares e a pressão desportiva; procurar a agressão entre pares.
  • Sem dietas de exclusão, a menos que um alimento esteja claramente identificado como desencadeante.

Diário de cefaleias

Mostra o padrão real, separa enxaqueca de cefaleia de tensão, mede a resposta aos tratamentos e deteta o uso excessivo de analgésicos.

Evitar o uso excessivo de medicação

  • Limites a combinar com a família: ibuprofeno ou paracetamol em no máximo 14 dias por mês; triptanos, e qualquer combinação de fármacos para a crise, em no máximo 9 dias por mês.
  • Os critérios diagnósticos correspondem: cefaleia em 15 ou mais dias por mês, com analgésico simples em 15 ou mais dias, ou triptano ou combinação em 10 ou mais, durante mais de 3 meses.
  • É pouco reconhecida na criança: pensar nela em qualquer cefaleia prolongada com analgésico tomado em mais de 15 dias por mês.

Intervenções psicológicas

  • Técnicas de relaxamento, biofeedback e terapia cognitivo-comportamental reduzem a frequência das cefaleias.
  • Rastrear perturbações do humor e de ansiedade em todas as crianças e adolescentes com enxaqueca, e tratá-las: aumentam o risco de a cefaleia persistir.
  • Plano para a escola, para tomar o analgésico cedo, e regresso rápido às aulas: ficar em casa aumenta a incapacidade.

A crise de enxaqueca em casa

  • Tratar cedo, quando a dor ainda é ligeira, com a dose completa; deitar num quarto escuro e silencioso e tentar dormir.
  • Ibuprofeno 10 mg/kg por via oral é a primeira opção: nos ensaios aumentou a resposta da dor às 2 horas e foi o único analgésico simples com mais crianças sem dor às 2 horas do que o placebo.
  • Paracetamol 15 mg/kg aumentou a resposta da dor às 2 horas, mas não mostrou mais crianças sem dor às 2 horas do que o placebo. É a alternativa quando o anti-inflamatório não pode ser usado.
  • Se a dor recorre nas 24 horas depois de uma resposta, uma segunda dose trata a recorrência.
  • Nenhum tratamento da crise mostrou efeito sobre as náuseas e os vómitos. Quando são proeminentes, junta-se um antiemético (ondansetrom) e prefere-se a via nasal.

Triptanos no adolescente

  • Nos resumos das características do medicamento europeus, têm indicação a partir dos 12 anos o sumatriptano nasal 10 mg (uma aplicação numa narina) e o zolmitriptano nasal 5 mg. Abaixo dos 12 anos não estão recomendados.
  • Nos ensaios em adolescentes, o zolmitriptano nasal 5 mg, o sumatriptano nasal 20 mg e a associação sumatriptano com naproxeno deixaram mais adolescentes sem dor às 2 horas do que o placebo; o rizatriptano e o almotriptano também têm estudos favoráveis. O sumatriptano oral não se distinguiu do placebo.
  • A via nasal é preferível quando a dor atinge o pico depressa ou há vómitos.
  • Se a resposta é incompleta, junta-se ibuprofeno ou naproxeno ao triptano; se um triptano falha, tenta-se outro.
  • Tomar o triptano durante uma aura visual típica é seguro, mas é mais eficaz no início da dor.
  • Contraindicações: doença vascular isquémica e vias acessórias de condução (síndrome de Wolff-Parkinson-White); por precaução, também na aura hemiplégica e na aura do tronco cerebral.

A crise no serviço de urgência

Algoritmo do hospital pediátrico La Paz, baseado em recomendações de peritos e nos poucos ensaios existentes:

PassoO que se faz
Medidas geraisquarto escuro e silencioso, avaliação horária da dor
Com náuseas ou vómitoshidratação endovenosa, 10 a 20 mL/kg/h durante no máximo 4 horas; ondansetrom endovenoso; sumatriptano nasal ou metamizol endovenoso
Sem náuseashidratação oral com solução de reidratação, 10 mL/kg/h; ibuprofeno 10 mg/kg se não o tomou, ou paracetamol ou metamizol orais
Náuseas que persistemmetoclopramida endovenosa, com eletrocardiograma prévio
Dor moderada que persistesumatriptano nasal; depois, segunda linha: outros anti-inflamatórios (cetorolac, dexcetoprofeno, diclofenac), outros triptanos, valproato endovenoso no adolescente
Respostaalta com ibuprofeno 10 mg/kg de 8 em 8 horas se necessário, recomendações e controlo em 48 horas
Sem respostaobservação ou internamento e reconsiderar o diagnóstico

Reduzir o tempo na urgência e evitar internamentos desnecessários faz parte do tratamento. Os opioides não têm lugar na enxaqueca da criança.

Estado de mal de enxaqueca

Anti-inflamatório de potência média a alta (dexcetoprofeno ou diclofenac) associado a uma benzodiazepina em dose baixa (por exemplo, clorazepato dipotássico 2,5 mg de 8 em 8 horas). Os corticoides reservam-se para a ausência de resposta em 48 horas. A resolução é lenta, com reavaliação a cada 2 a 3 dias.

Profilaxia farmacológica da enxaqueca

Quando considerar: cefaleias frequentes, incapacidade relevante (faltas à escola), falência do tratamento da crise, uso excessivo de medicação, crises muito graves ou prolongadas. Os ensaios pediátricos incluíram em geral crianças com pelo menos 4 dias de cefaleia por mês.

O que a evidência mostra contra placebo: a maioria dos ensaios não demonstrou superioridade sobre o placebo, que na criança responde muito: 30 a 61% das crianças com placebo reduziram as cefaleias para metade.

  • No maior ensaio pediátrico (8 a 17 anos, 24 semanas), a redução de pelo menos 50% dos dias de cefaleia ocorreu em 52% com amitriptilina 1 mg/kg/dia, 55% com topiramato 2 mg/kg/dia e 61% com placebo, sem diferença entre grupos; o ensaio parou por futilidade, e os fármacos ativos tiveram mais efeitos adversos (fadiga e boca seca com a amitriptilina, parestesias e perda de peso com o topiramato).
  • Topiramato: provavelmente reduz a frequência das cefaleias, mas a evidência é insuficiente para a redução de 50%.
  • Propranolol: possivelmente aumenta a proporção com redução de 50% (confiança baixa).
  • Cinarizina: provavelmente reduz a frequência e a intensidade (um ensaio).
  • Amitriptilina isolada, flunarizina, valproato, nimodipina e toxina botulínica: evidência insuficiente.
  • Amitriptilina com terapia cognitivo-comportamental, no adolescente com enxaqueca crónica (10 a 17 anos): reduziu os dias de cefaleia e a incapacidade mais do que a amitriptilina com educação; 66% contra 36% tiveram redução de pelo menos 50% (confiança alta).
FármacoEsquema habitualCuidados
Propranolol1 mg/kg/dia dos 2 aos 12 anos, subindo até à dose máxima toleradacontraindicado na asma e nos bloqueios de condução; hipotensão, broncospasmo
Flunarizina5 mg à noite abaixo de 40 kg; 10 mg acimaaumento de apetite e de peso, sonolência, tonturas; útil na criança mais nova
Topiramatoinício 0,5 mg/kg/dia, até 1 a 2 mg/kg/diaalterações cognitivas, parestesias, anorexia e perda de peso, acidose metabólica; interessante na obesidade
Amitriptilina0,2 a 0,5 mg/kg à noite, até 1 mg/kg/diasedação, obstipação, aumento de peso; alerta sobre ideação suicida em crianças e adolescentes
  • Ensaio mínimo de 2 meses antes de julgar o efeito, com decisão partilhada com a família sobre os limites da evidência.
  • Vigiar periodicamente a eficácia e os efeitos adversos; discutir a suspensão quando a enxaqueca estiver controlada (retirar o propranolol 2 a 3 meses depois do controlo).
  • Na rapariga com potencial para engravidar, o topiramato e o valproato são teratogénicos: aconselhar contraceção eficaz e ácido fólico diário, e lembrar que o topiramato acima de 200 mg por dia reduz a eficácia dos contracetivos orais combinados.
  • Os anticorpos anti-CGRP não têm aprovação abaixo dos 18 anos.

Cefaleia de tensão

  • Procurar e corrigir os desencadeantes (sono, stresse, agressão entre pares).
  • Crise: relaxamento, e paracetamol ou ibuprofeno quando a dor é moderada. Os triptanos não servem na cefaleia de tensão pura.
  • Prevenção: relaxamento, biofeedback e terapia cognitivo-comportamental; na criança mais velha que não responde, amitriptilina 1 mg/kg/dia, com pouca evidência.

Uso excessivo de medicação

Suspender o fármaco em excesso (ou trocá-lo se não controla a dor), avisar do agravamento transitório, reforçar as medidas de prevenção e considerar profilaxia.

Síndromes episódicos

  • Vómitos cíclicos: na crise, quarto escuro, hidratação endovenosa com potássio e ondansetrom 0,15 a 0,4 mg/kg por dose (máximo 8 mg); ibuprofeno se há dor. Profilaxia, se mais de uma crise por mês: abaixo dos 5 anos, cipro-heptadina 0,25 a 0,5 mg/kg/dia; acima dos 5, amitriptilina; propranolol como segunda opção.
  • Vertigem e torcicolo paroxísticos benignos: explicar a benignidade e vigiar; investigar se o exame entre crises não é normal ou a evolução é progressiva.

Hipertensão intracraniana idiopática

  • A orientação depende da visão, avaliada por oftalmologista com fundoscopia e campimetria.
  • Sem perda de visão: perda de peso quando há excesso, suspensão do fármaco causal, e acetazolamida ou topiramato, com redução progressiva conforme o papiledema e a cefaleia; o tratamento dura habitualmente 4 a 6 meses.
  • Com perda de visão ou evolução fulminante: tratamento urgente, com drenagem lombar temporária, derivação do líquido cefalorraquidiano, fenestração da bainha do nervo ótico ou tratamento da estenose venosa.
  • A cefaleia é o primeiro sintoma a melhorar; o papiledema resolve em 5 a 6 meses. Recorre em 28,5 a 36,4%, mais depois da puberdade.

Adolescente com enxaqueca com aura

Os contracetivos hormonais combinados estão contraindicados em qualquer idade, porque a enxaqueca com aura e os estrogénios aumentam, cada um, o risco de acidente vascular cerebral isquémico: usar progestativo isolado ou método não hormonal.

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11 perguntas sobre Abordagem à criança com cefaleias

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

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