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Enurese na criança

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 13 perguntas neste tema

Em resumo

Enurese é a perda de urina intermitente durante o sono numa criança com 5 ou mais anos de idade, cronológica ou de desenvolvimento. É frequente, atinge cerca de uma em cada seis crianças aos 5 anos, mais os rapazes e mais os filhos de pais que também a tiveram, e resolve-se sozinha a um ritmo de cerca de 15% ao ano.

Classifica-se em dois eixos que decidem tudo o resto: monossintomática ou não-monossintomática, conforme haja ou não sintomas urinários diurnos, e primária ou secundária, conforme a criança nunca tenha estado seca ou tenha recaído depois de mais de 6 meses sem perdas. Na forma monossintomática primária o mecanismo é a soma de três fatores: produção noturna de urina que excede a capacidade da bexiga, bexiga pequena ou hiperativa durante a noite e, sempre, um limiar de despertar elevado.

O diagnóstico é clínico. Pergunta-se por sintomas diurnos e pelo hábito intestinal, examina-se a região lombossagrada e os genitais, e o diário miccional mede a capacidade vesical e o volume noturno, comparando-os com a capacidade esperada para a idade, 30 mL multiplicados pela soma da idade com um. A obstipação é a comorbilidade mais frequente e trata-se antes de tudo; a enurese secundária obriga a procurar diabetes, infeção urinária, apneia obstrutiva do sono e stresse psicossocial.

O tratamento começa por explicar que a perda é involuntária e que o castigo piora. Depois há duas opções de primeira linha: o alarme, que exige semanas de empenho da família mas dá menos recaídas, e a desmopressina, que atua na mesma noite e serve melhor a criança com poliúria noturna e bexiga de capacidade normal. Na forma não-monossintomática tratam-se primeiro os sintomas diurnos. O que não se pode falhar é a regra da desmopressina: nada de líquidos desde 1 hora antes da toma até 8 horas depois, pelo risco de hiponatremia com convulsões.

A enurese monossintomática primária é um atraso de maturação, não uma doença estrutural nem um problema de comportamento. Resulta da combinação de três mecanismos, e o terceiro está sempre presente.

Poliúria noturna

  • Na criança saudável a secreção de vasopressina aumenta à noite e o volume de urina noturno baixa.
  • Em muitas crianças com enurese este pico noturno falta, e produzem à noite grandes volumes de urina diluída.
  • Define-se como volume noturno acima de 130% da capacidade vesical esperada para a idade.
  • A falta de vasopressina manifesta-se sobretudo nas noites molhadas; por isso a poliúria procura-se nas noites com enurese.
  • A dieta rica em sal ou proteínas ao fim do dia aumenta a diurese osmótica noturna.
  • É o subgrupo que responde à desmopressina.

Bexiga pequena ou hiperativa durante a noite

  • Contrações não inibidas do detrusor durante o sono, com volumes pequenos.
  • Suspeita-se quando o volume miccional máximo diurno é inferior a 65% da capacidade esperada e quando há vários episódios na mesma noite.
  • Responde pior à desmopressina e melhor ao alarme.

Limiar de despertar elevado

  • É o mecanismo comum a todos: uma criança com poliúria ou bexiga pequena que acorda com a bexiga cheia tem noctúria, não enurese.
  • Estas crianças não têm necessariamente um sono mais profundo no eletroencefalograma, mas acordam mal perante o estímulo da bexiga cheia ou da contração do detrusor.
  • Os três mecanismos poderão ter origem comum no tronco cerebral.
  • É o alvo do alarme, que condiciona o despertar.

Capacidade vesical esperada

  • Fórmula: 30 mL multiplicados pela soma da idade em anos com 1, aplicável entre os 4 e os 12 anos.
  • Atinge 390 mL aos 12 anos e mantém-se nesse valor daí para a frente.
idadecapacidade esperadabexiga pequena, volume máximo abaixo de 65%poliúria noturna, volume noturno acima de 130%
6 anos210 mL137 mL273 mL
8 anos270 mL176 mL351 mL
10 anos330 mL215 mL429 mL
12 anos ou mais390 mL254 mL507 mL

Genética

  • Transmissão hereditária marcada mas heterogénea; foram descritos vários loci, sem teste genético com utilidade clínica.
  • Explicar aos pais que há base biológica e familiar ajuda a desculpabilizar a criança.

Comorbilidades que contribuem

  • Obstipação: o reto cheio comprime a bexiga e provoca hiperatividade do detrusor. É causa frequente de enurese resistente, sobretudo da não-monossintomática.
  • Apneia obstrutiva do sono por hipertrofia adenoamigdalina: os despertares constantes pela obstrução sobem paradoxalmente o limiar de despertar, e a pressão intratorácica negativa aumenta a secreção de peptídeo natriurético auricular, com poliúria noturna.
  • Perturbações do comportamento: 20 a 40% das crianças com enurese têm uma perturbação comportamental; cerca de 15% têm perturbação de hiperatividade com défice de atenção.

Causas de enurese secundária

  • Diabetes mellitus tipo 1 e, mais raramente, diabetes insípida ou defeito de concentração urinária.
  • Infeção urinária.
  • Obstipação de novo.
  • Apneia obstrutiva do sono.
  • Stresse psicossocial: nascimento de um irmão, separação dos pais, luto, mudança de escola, bullying, maus-tratos.

O diagnóstico é clínico. A avaliação inicial tem três objetivos: separar a forma monossintomática da não-monossintomática, encontrar as comorbilidades tratáveis e excluir as poucas causas orgânicas.

História

  • Padrão da enurese: primária ou secundária, noites molhadas por semana, episódios por noite, hora, volume, se acorda depois.
  • Sintomas diurnos, perguntados um a um: a maioria das crianças com falência do tratamento tem sintomas diurnos subtis que não foram procurados.
  • Hábito intestinal: frequência, consistência, dor, sujidade das cuecas.
  • Ingestão de líquidos ao longo do dia, cafeína, refeições salgadas ao jantar.
  • Sono: ressonar, pausas, sonolência diurna, dificuldade em acordar.
  • Sede e poliúria de novo, perda de peso, infeções urinárias febris.
  • Desenvolvimento, atenção, aprendizagem e comportamento.
  • Como a família reage aos episódios, o que já tentou e se tem disponibilidade para um tratamento exigente.

Exame objetivo

  • Peso, estatura e pressão arterial.
  • Abdómen: fecalomas, globo vesical.
  • Genitais: fimose, sinéquia dos pequenos lábios, hipospádias, sinais de sujidade fecal na roupa interior.
  • Região lombossagrada: fosseta, lipoma, hipertricose, agenesia sagrada, sinais de disrafismo oculto.
  • Membros inferiores: marcha, reflexos, tendões de Aquiles curtos, dedos em martelo ou em garra.

Diário miccional

  • Diurno de 48 horas, que não precisa de ser em dias seguidos (fim de semana): hora e volume de cada micção e dos líquidos ingeridos. Dá o volume miccional máximo, excluindo a primeira micção da manhã, e a frequência.
  • Noturno de 7 noites seguidas: noites secas e molhadas e volume noturno, que é o aumento de peso da fralda (1 g corresponde a 1 mL) somado à primeira micção da manhã e a qualquer micção noturna.
  • Serve também de registo de base para medir a resposta ao tratamento.
resultado do diáriosignificadoorientação
volume noturno acima de 130% da capacidade esperada, com volume máximo normalpoliúria noturnadesmopressina
volume máximo abaixo de 65% da capacidade esperada, volume noturno normalbexiga pequenaalarme
ambosmistoalarme e desmopressina associados
nenhumsó défice de despertaralarme ou desmopressina, conforme a família
volume máximo acima de 150% da esperadabexiga grandepensar em adiamento das micções ou bexiga hipoativa; referenciar

Exames

  • Tira-teste urinária: é o único exame na avaliação básica, à procura de glicosúria, leucócitos e nitritos, hematúria e proteinúria. A glicosúria obriga a glicemia e, se houver suspeita de diabetes tipo 1, a referenciação no próprio dia.
  • Urocultura só com suspeita de infeção urinária.
  • Na poliúria com polidipsia, osmolalidade da primeira urina da manhã, ionograma e função renal, para excluir diabetes insípida e tubulopatia.
  • Ecografia renovesical com resíduo pós-miccional e urofluxometria: não se pedem na forma monossintomática típica; indicam-se na forma não-monossintomática, na infeção urinária recorrente e na enurese resistente.
  • Ressonância magnética lombossagrada e estudo urodinâmico: sinais cutâneos lombossagrados, alterações neurológicas ou sintomas diurnos graves que não melhoram.

Obstipação

Critérios de Roma IV, a partir de uma idade de desenvolvimento de 4 anos: pelo menos 2 dos seguintes, pelo menos 1 vez por semana durante pelo menos 1 mês:

  • 2 ou menos dejeções por semana;
  • pelo menos 1 episódio de incontinência fecal por semana;
  • postura de retenção ou retenção voluntária excessiva;
  • dejeções dolorosas ou fezes duras;
  • grande massa fecal no reto;
  • fezes de grande calibre, que podem entupir a sanita.

Diagnóstico diferencial

entidadepista
ureter ectópicoperda contínua de urina, de dia e de noite
válvulas da uretra posteriorrapaz com jato fraco, esforço miccional, infeções
disrafismo oculto, bexiga neurogénicaestigmas lombossagrados, alterações da marcha, obstipação grave
diabetes mellituspoliúria, polidipsia, perda de peso, glicosúria
diabetes insípidapoliúria com urina persistentemente diluída e sede noturna
infeção urináriadisúria, urgência, febre, enurese secundária de início recente

O tratamento ativo oferece-se a partir dos 5 a 6 anos, quando a enurese incomoda a criança ou a família; a idade isolada não exclui uma criança abaixo dos 7 anos. A decisão pesa a frequência dos episódios, o impacto e a motivação. A forma não-monossintomática trata primeiro os sintomas diurnos e a obstipação.

Medidas gerais, para todos

  • Explicar que a enurese é involuntária, frequente e tratável, e que castigos e humilhação estão proibidos: agravam e são fator de risco de maus-tratos.
  • Tratar a obstipação antes de qualquer outra coisa.
  • Beber o suficiente, sobretudo de manhã e à tarde, e evitar grandes volumes ao serão; a restrição hídrica severa não é tratamento.
  • Evitar bebidas com cafeína; evitar jantar muito salgado ou proteico.
  • Urinar a intervalos regulares, 4 a 7 vezes por dia, e sempre antes de deitar.
  • Recompensar comportamentos, como beber durante o dia, urinar antes de deitar ou ajudar a mudar a cama, e nunca noites secas, que a criança não controla.
  • Acordar ou levantar a criança durante a noite não leva a secura duradoura; serve apenas como medida prática de curto prazo.
  • Tentar deixar a fralda noturna na criança que já é continente de dia.

Ingestão diária de bebidas sugerida:

idaderaparigasrapazes
4 a 8 anos1000 a 1400 mL1000 a 1400 mL
9 a 13 anos1200 a 2100 mL1400 a 2300 mL
14 a 18 anos1400 a 2500 mL2100 a 3200 mL

Alarme

  • Sensor de humidade na cama ou na roupa interior que dispara com as primeiras gotas; condiciona o despertar perante a bexiga cheia.
  • Primeira linha quando a família está disponível, e primeira escolha na bexiga pequena com volume noturno normal.
  • Usa-se todas as noites. Os pais têm de acordar a criança quando dispara, sobretudo no início: sozinha, desliga-o e volta a dormir.
  • Avaliar às 4 semanas: os primeiros sinais são manchas menores, acordar com o alarme e alarme mais tarde e menos vezes. Se não houver nenhum sinal, parar.
  • Continuar até 14 noites secas seguidas. Se ao fim de 3 meses não estiver seca, só continuar se ainda estiver a melhorar e a família quiser.
  • Eficácia de cerca de 50 a 70%, com menos recaídas depois de parar do que a desmopressina; a cura duradoura fica abaixo de 50%.
  • Pouco adequado com menos de 1 a 2 noites molhadas por semana, quando os pais têm dificuldade em lidar com a enurese ou reagem com raiva e culpabilização.
  • O abandono precoce é o principal motivo de falência.

Desmopressina

  • Análogo sintético da vasopressina: reduz o volume de urina noturno por ação no recetor V2 do túbulo coletor.
  • Primeira escolha na poliúria noturna com capacidade vesical normal, quando se pretende efeito rápido (campos de férias, dormidas fora) ou quando o alarme é recusado ou inadequado.
  • Dose: 120 µg de liofilizado oral ao deitar, equivalente a 0,2 mg em comprimido. O liofilizado dissolve-se sob a língua e dispensa água, o que o torna preferível.
  • Se não estiver seca ao fim de 1 a 2 semanas, subir para 240 µg.
  • Avaliar às 4 semanas; havendo resposta, manter 3 meses.
  • Retirada estruturada, baixando a dose progressivamente, porque a paragem brusca aumenta as recaídas. No uso prolongado, interrupção de 1 semana a cada 3 meses para ver se ainda é precisa.
  • Atua só na noite em que é tomada: exige toma diária e rigorosa. Cerca de 30% das aparentes faltas de resposta são falhas de adesão.

Regras de segurança:

  • Nada de líquidos desde 1 hora antes da toma até 8 horas depois. Beber sob efeito antidiurético causa retenção de água e hiponatremia, com cefaleia, náuseas, vómitos, aumento de peso e, nos casos graves, convulsões.
  • Suspender em vómitos, diarreia, febre ou infeção sistémica, até recuperar.
  • A via nasal deixou de estar indicada na enurese, pelo risco de hiponatremia grave com convulsões.
  • Não é preciso medir o sódio, o peso ou a pressão arterial por rotina.
  • Não subir a dose se a criança não urinar de manhã: sugere ação prolongada.

Sem resposta ou recaída

  • Sem resposta a um tratamento bem feito: rever a adesão e o diário, confirmar que não há sintomas diurnos nem obstipação escondidos, e depois trocar para a outra opção ou associar alarme e desmopressina.
  • Recaída após o alarme: voltar a usá-lo; se houver mais do que uma recaída, alarme e desmopressina associados.
  • Recaída após a desmopressina: novo curso, com retirada gradual no fim.
  • Sem resposta ao alarme e à desmopressina: referenciar para avaliação especializada.

Segunda e terceira linhas, em consulta especializada

  • Anticolinérgico, como a oxibutinina, associado à desmopressina, quando há sintomas diurnos ou hiperatividade do detrusor, ou resposta parcial à desmopressina. Nunca sozinho na forma monossintomática. Vigiar a obstipação e o resíduo pós-miccional, que ele próprio agrava.
  • Imipramina: terceira linha, só quando tudo o resto falhou. Resposta de cerca de 50%, mas mais de 2 em cada 3 crianças recaem depois de um curso de 3 meses. Eletrocardiograma prévio pela cardiotoxicidade, subida e retirada graduais, e guarda segura em casa pelo perigo da sobredosagem acidental. Não se associa a anticolinérgico.
  • Não se usam programas que interrompam o jato ou atrasem as micções.

Definições de resposta

termodefinição
sem respostaredução de menos de 50% das noites molhadas
resposta parcialredução de 50 a 99%
resposta completaredução de 100%
recaídamais de 1 noite molhada por mês depois de parar
sucesso continuadosem recaída 6 meses depois de parar
sucesso completosem recaída 2 anos depois de parar
Tratamento da enurese monossintomática primária Sem sintomas diurnos, obstipação tratada, causa orgânica excluída Medidas gerais e diário miccional • Beber sobretudo de manhã e à tarde; evitar cafeína e grandes volumes ao serão • Urinar 4 a 7 vezes por dia e sempre antes de deitar; sem castigos • Recompensar comportamentos, não noites secas; diário de 48 horas e 7 noites Poliúria noturna, bexiga normal? Não Sim Primeira linha Alarme primeira escolha se a bexiga é pequena Primeira linha Desmopressina 120 µg liofilizado ao deitar sem líquidos 1 h antes a 8 h depois Sem resposta Sem resposta Rever adesão, sintomas diurnos e obstipação trocar para a outra opção ou associar alarme e desmopressina Resposta completa Alarme: parar após 14 noites secas seguidas Desmopressina: manter 3 meses e retirar de forma gradual Primeira avaliação de ambos às 4 semanas Recaída mais de 1 noite molhada por mês depois de parar retomar o tratamento que resultou ou associar alarme e desmopressina Sem resposta a ambos: referenciar Elaboração própria
Elaboração própria

Referências

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  9. U.S. Food and Drug Administration. Information for healthcare professionals: desmopressin acetate (marketed as DDAVP nasal spray, DDAVP rhinal tube, DDAVP, DDVP, Minirin, and Stimate nasal spray). Silver Spring: FDA; 2007.
  10. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil. Norma n.º 010/2013. Lisboa: DGS; 2013.
  11. Guerrero-Fernández J, Cartón Sánchez AJ, Barreda Bonis AC, Menéndez Suso JJ, Ruiz Domínguez JA, editores. Manual de diagnóstico y terapéutica en pediatría (Hospital Universitario La Paz). 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. Capítulos de nefrologia pediátrica e de paidopsiquiatria.

13 perguntas sobre Enurese

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