Abordagem à criança com proteinúria e síndrome nefrótico
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 15 perguntas neste tema
A proteinúria da criança chega quase sempre pela tira-teste, e na maioria das vezes é benigna: transitória, com a febre, o exercício ou uma convulsão, ou ortostática, que é a causa mais frequente de proteinúria na criança e no adolescente. O trabalho é confirmar que existe, quantificá-la pelo rácio proteína/creatinina na primeira urina da manhã, e separar esta maioria da proteinúria persistente, que traduz doença glomerular ou tubular e pede estudo e nefrologia pediátrica.
O síndrome nefrótico é a glomerulopatia mais frequente da infância: proteinúria no intervalo nefrótico, albumina abaixo de 30 g/L e edema, com pico entre os 3 e os 5 anos e predomínio nos rapazes. Entre o primeiro ano e a adolescência é quase sempre idiopático, uma podocitopatia em que a doença de lesões mínimas domina e em que se identificaram autoanticorpos contra a nefrina na grande maioria das crianças com doença ativa. Com apresentação típica trata-se com prednisolona sem biópsia, e a resposta às 4 semanas classifica a doença e prevê o futuro melhor do que a histologia: 85 a 90% ficam em remissão, e cerca de metade destes vem a ter recidivas frequentes ou corticodependência, que se tratam com poupadores de corticoide.
Hematúria macroscópica, hipertensão sustentada, C3 baixo, lesão renal que a hipovolemia não explica, sinais sistémicos, idade abaixo de 1 ano ou acima dos 12 e corticorresistência quebram esse padrão e mandam biopsar, fazer estudo genético ou ambos. Abaixo dos 3 meses o síndrome nefrótico é congénito, quase sempre genético, e não responde ao corticoide.
O que não se pode falhar são as complicações da fase ativa: a criança edemaciada que está em hipovolemia e a quem o diurético precipita choque ou trombose, a dor abdominal com febre que é peritonite até prova em contrário e se trata com ceftriaxona endovenosa, e a trombose venosa, rara na criança mas grave.
Passo 1: confirmar que a proteinúria existe
- Falsos positivos da tira-teste: urina muito concentrada ou muito alcalina (pH acima de 8), hematúria macroscópica, piúria, bacteriúria, secreções vaginais, antissépticos como a clorexidina, contraste iodado, tira mergulhada demasiado tempo ou lida tarde.
- Excluídas estas e as causas transitórias, repete-se a tira-teste quando tiverem desaparecido, sem exercício prévio. A proteinúria confirma-se em pelo menos 3 amostras isoladas.
Passo 2: quantificar e ver o sedimento
RPC e sedimento na primeira urina da manhã.
- RPC normal e sedimento normal: proteinúria benigna, transitória ou ortostática. Não precisa de mais estudo; vigiam-se a tensão arterial e a urina uma vez por ano.
- RPC elevado ou sedimento alterado na primeira urina: proteinúria persistente, patológica.
A prova ortostática
- A criança esvazia a bexiga imediatamente antes de se deitar. Colhe-se a primeira urina da manhã depois de pelo menos 8 horas em decúbito, que é normal, e uma amostra ao fim da tarde, depois de horas em pé, que está elevada.
- Repete-se 3 a 5 vezes para confirmar.
- Proteinúria postural com hematúria ou dor no flanco esquerdo pede ecografia com Doppler renal, para excluir compressão da veia renal esquerda entre a aorta e a artéria mesentérica superior (síndrome do quebra-nozes).
Passo 3: estudar a proteinúria persistente
| Área | Exames |
|---|---|
| Urina | proteinúria fracionada, glomerular e tubular (rácio albumina/creatinina, beta-2-microglobulina) |
| Sangue | hemograma e velocidade de sedimentação; creatinina com taxa de filtração glomerular estimada, ureia, ionograma; albumina, proteinograma, colesterol e triglicéridos |
| Imunologia | C3, C4, imunoglobulinas, anticorpos antinucleares, anticorpos anticitoplasma do neutrófilo, anticorpos anti-membrana basal glomerular, título de antiestreptolisina O |
| Serologias | vírus da hepatite B, vírus da hepatite C, vírus da imunodeficiência humana; outras conforme a clínica |
| Imagem | ecografia renal |
- A taxa de filtração estima-se pela fórmula de Schwartz: acima de 1 ano, estatura em cm × 0,413 / creatinina em mg/dL.
- Considera-se biopsar a proteinúria isolada com RPC de 0,5 a 1 mg/mg que se associa a micro-hematúria, que aumenta, ou que persiste 6 a 12 meses. A glomerulopatia mais encontrada nesse contexto é a nefropatia IgA.
Nefrótico ou nefrítico
| Nefrótico idiopático | Nefrítico | |
|---|---|---|
| Proteinúria | maciça, RPC 2 mg/mg ou mais | ligeira a moderada |
| Hematúria | micro-hematúria ocasional, nunca macroscópica | macroscópica, cor de coca-cola, com cilindros eritrocitários |
| Tensão arterial | normal ou baixa; hipertensão transitória em cerca de 25% das lesões mínimas | hipertensão frequente |
| Função renal | normal ou aumentada; baixa só por hipovolemia | pode haver lesão renal aguda |
| Albumina | abaixo de 30 g/L | normal ou pouco baixa |
| Complemento | normal | C3 baixo na pós-estreptocócica, na membranoproliferativa e no lúpus |
As entidades nefríticas estão em hematúria e glomerulonefrites.
Proteinúria benigna
- Transitória: não se trata nem se estuda.
- Ortostática: não se trata nem se restringe a atividade. Vigiam-se a tensão arterial e a urina uma vez por ano, e reavalia-se se aparecer hematúria, hipertensão, edema ou proteinúria na primeira urina da manhã.
Proteinúria persistente
- Segue em nefrologia pediátrica, mesmo com estudo inicial normal.
- O tratamento é o da causa, e o da proteinúria e da hipertensão com inibidor da enzima de conversão da angiotensina ou antagonista dos recetores da angiotensina.
Suspeita de síndrome nefrótico
- Internar no primeiro episódio: para vigiar o volume e a resposta, e para educar a família (tira-teste diária em casa, peso, sinais de alarme, nunca suspender o corticoide sem indicação).
- Nas recidivas só se interna com edema grave, hipovolemia sintomática, lesão renal aguda, trombose, infeção grave, intolerância oral ou alteração eletrolítica que precise de correção endovenosa.
- Antes do corticoide: avaliar o volume, rastrear tuberculose (prova tuberculínica), pedir as serologias e registar a imunidade para a varicela.
- Evitar fluidos endovenosos que não sejam indispensáveis e não dar diurético sem avaliar o volume.
Referências
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15 perguntas sobre Abordagem à criança com proteinúria e síndrome nefrótico
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