Abordagem à criança com hematúria e glomerulonefrites
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 16 perguntas neste tema
A hematúria na criança é quase sempre benigna: numa amostra isolada, 2 a 5% das crianças em idade escolar têm micro-hematúria, e só 0,5 a 1% a mantêm quando se repete. As causas mais frequentes são a infeção urinária e a hipercalciúria idiopática. O trabalho é separar esta maioria das glomerulonefrites que fazem hipertensão, perdem função renal ou progridem para doença renal crónica, e das poucas causas não glomerulares que não podem esperar, como o tumor de Wilms, a síndrome hemolítico-urémica e o traumatismo.
A tira-teste deteta hemoglobina e mioglobina, pelo que só há hematúria quando o sedimento mostra eritrócitos. A primeira pergunta é se a origem é glomerular: urina castanha sem coágulos, eritrócitos dismórficos, acantócitos acima de 5%, cilindros eritrocitários e proteinúria dizem que sim. A segunda é o doseamento do C3 e do C4, que arruma o diferencial: C3 baixo com C4 normal na pós-estreptocócica, C3 e C4 baixos no lúpus, complemento normal na nefropatia IgA, na vasculite IgA e nas doenças do colagénio IV.
As entidades próprias da idade pediátrica distinguem-se pela história. A glomerulonefrite pós-estreptocócica aparece 1 a 3 semanas depois de uma faringite, com síndrome nefrítica e um C3 que normaliza habitualmente em 6 a 8 semanas, e cura quase sempre só com tratamento de suporte. A nefropatia IgA dá hematúria macroscópica durante a própria infeção respiratória e trata-se conforme a proteinúria. A vasculite IgA junta púrpura palpável, dor abdominal e artralgia, e a nefrite pode surgir semanas depois, pelo que a urina se vigia pelo menos seis meses. A síndrome de Alport é hematúria persistente desde cedo, com história familiar, surdez neurossensorial e falência renal nos rapazes com a forma ligada ao X; a doença da membrana basal fina é a hematúria familiar isolada, de bom prognóstico mas com vigilância para a vida.
A micro-hematúria isolada, sem proteinúria, com tensão arterial e função renal normais, não se biopsa: repete-se e vigia-se. O que não se pode falhar é a síndrome nefrítica com oligúria, edema pulmonar ou encefalopatia hipertensiva, a anemia com trombocitopenia que faz de uma diarreia sanguinolenta uma síndrome hemolítico-urémica, e a massa abdominal, que não se biopsa nem se opera antes de ser orientada pela oncologia pediátrica.
Não se podem falhar
| Causa | Pistas |
|---|---|
| Síndrome nefrítica aguda com complicações | oligúria, edema, hipertensão grave, encefalopatia, edema pulmonar |
| Glomerulonefrite rapidamente progressiva | síndrome nefrítica de instalação brusca com creatinina a subir em dias; sinais pulmonares, neurológicos ou cutâneos |
| Microangiopatia trombótica (síndrome hemolítico-urémica) | anemia hemolítica com esquizócitos, desidrogenase láctica alta e haptoglobina baixa, trombocitopenia e lesão renal aguda; diarreia sanguinolenta prévia na forma pós-gastroenterite |
| Tumor renal (Wilms, nefroma mesoblástico) | massa abdominal ou no flanco, hipertensão, hemi-hipertrofia |
| Traumatismo renal ou das vias urinárias | história de trauma, dor lombar, massa, peritonismo |
| Trombose da veia renal | recém-nascido com cateter umbilical: hematúria, distensão abdominal, massa no flanco, trombocitopenia |
Glomerulares
- Com complemento normal: nefropatia IgA, vasculite IgA, síndrome de Alport, doença da membrana basal fina.
- Com C3 baixo: pós-estreptocócica e outras pós-infeciosas, membranoproliferativa, glomerulopatia C3, nefrite lúpica, nefrite de shunt ventriculoauricular.
- Com proteinúria nefrótica: síndrome nefrótica idiopática, glomeruloesclerose segmentar e focal, membranosa (ver proteinúria e síndrome nefrótica).
Não glomerulares
- Infeção urinária e hipercalciúria idiopática, as mais frequentes de todas.
- Litíase e uropatia obstrutiva.
- Doença quística (poliquistose, nefronoftise).
- Nefrite tubulointersticial por fármacos.
- Coagulopatia, traço ou doença drepanocítica.
- Síndrome do quebra-nozes: compressão da veia renal esquerda entre a aorta e a artéria mesentérica superior, com dor no flanco esquerdo e varicocelo.
- Irritação local do meato ou vulvovaginite, exercício intenso nas 48 horas anteriores, algaliação.
Passo 1: confirmar
- A tira-teste deteta 5 a 10 eritrócitos por microlitro e é muito sensível; positiva, confirma-se sempre com sedimento, de preferência na primeira urina da manhã, sem algaliação nem exercício intenso nas 48 horas anteriores.
- Falsos positivos da tira: hemoglobinúria, mioglobinúria, contaminação com agentes oxidantes (iodopovidona), bacteriúria, pH acima de 9.
- Falsos negativos: ácido ascórbico em doses altas, urina muito concentrada ou ácida.
Passo 2: situar
Morfologia eritrocitária, cilindros e proteinúria dizem se é glomerular. A proteinúria mede-se pela razão proteína/creatinina na primeira urina da manhã: é significativa acima de 0,2 mg/mg a partir dos 2 anos e acima de 0,5 mg/mg abaixo dos 2 anos, e o estudo segue proteinúria e síndrome nefrótica.
Passo 3: exames conforme o quadro
| Quadro | Exames |
|---|---|
| Síndrome miccional | sedimento e urocultura; hemograma, bioquímica e proteína C reativa se febre |
| Dor lombar ou massa | hemograma, bioquímica, coagulação, ecografia renal e vesical |
| Traumatismo | hemograma, bioquímica, coagulação, ecografia |
| Hipertensão, oligúria ou edema | hemograma, creatinina, ureia, ionograma, coagulação, C3 e C4, TASO (antiestreptolisina O) e anti-DNase B, saturação de oxigénio, e radiografia de tórax se hipoxemia |
| Macro-hematúria sem mais nada, exame e tensão normais | hemograma, bioquímica e coagulação |
| Hematúria com sintomas sistémicos | como na síndrome nefrítica, mais ANA, anti-DNA de dupla cadeia e ANCA (anticorpos anticitoplasma do neutrófilo) |
| Surdez, alterações oculares ou família com doença renal | função renal, proteinúria, estudo genético |
O complemento
| C3 | C4 | Hipóteses |
|---|---|---|
| baixo | normal | pós-estreptocócica, glomerulopatia C3, membranoproliferativa |
| baixo | baixo | nefrite lúpica, membranoproliferativa por imunocomplexos (nesta o C4 pode ser normal) |
| normal | normal | nefropatia IgA, vasculite IgA, Alport, membrana basal fina |
Micro-hematúria isolada assintomática
- Repetir tira-teste e sedimento 2 a 3 vezes, com 2 a 4 semanas de intervalo.
- Se persiste, urocultura.
- Afastada a infeção, com história, exame e tensão normais: tensão arterial e sedimento de 3 em 3 a 6 em 6 meses.
- Se persiste 1 ano: razão cálcio/creatinina e proteína/creatinina, ecografia renal, tira-teste aos pais e irmãos, e consulta de nefrologia pediátrica.
Hipercalciúria idiopática
- Causa mais frequente de litíase na criança. Nas crianças com sintomas, apresenta-se sobretudo como hematúria macroscópica indolor ou micro-hematúria persistente, e também com sintomas miccionais, enurese, infeção urinária ou dor abdominal; a maioria não tem sintomas.
- Rastreia-se pela razão cálcio/creatinina na segunda micção da manhã, em jejum, confirmada em duas amostras. O limite depende da idade:
| Idade | Limite superior (mg/mg) | Em mmol/mmol |
|---|---|---|
| 0 a 6 meses | 0,80 | 2,3 |
| 7 a 12 meses | 0,60 | 1,7 |
| 12 a 24 meses | 0,50 | 1,4 |
| Acima dos 2 anos | 0,21 | 0,59 |
- Para passar de mg/mg a mmol/mmol multiplica-se por 2,83.
- Na criança continente, o padrão é a urina de 24 horas: calciúria acima de 4 mg/kg por dia confirma.
- Antes de dizer idiopática, afastar hipercalcemia e as causas secundárias. Uma razão cálcio/citrato acima de 0,33 mg/mg indica risco de cristalização.
Síndrome nefrítica aguda
- Internamento se hipoxemia ou edema pulmonar, hipertensão grave, hipercaliemia ou outra alteração hidroeletrolítica, subida significativa da creatinina, sinais de síndrome hemolítico-urémica ou envolvimento neurológico ou pulmonar.
- Sem critérios de internamento: consulta de nefrologia pediátrica em 24 a 48 horas.
- Dieta hipossódica, restrição hídrica e diurético de ansa (furosemida) para a sobrecarga de volume.
- Emergência hipertensiva, em cuidados intensivos: labetalol, nitroprussiato de sódio ou nicardipina em perfusão intravenosa contínua. A tensão desce em degraus para não causar hipoperfusão de órgãos: um terço da diferença para o percentil 95 nas primeiras 6 horas, outro terço nas 24 horas seguintes, e o percentil 95 atinge-se nas 48 a 72 horas seguintes.
- O resto depende da glomerulonefrite em causa.
Macro-hematúria assintomática
Com exame e tensão arterial normais e análises iniciais normais, o mais provável é uma hematúria autolimitada que cede em horas ou dias sem causa encontrada. Consulta de nefrologia em 24 a 72 horas.
Infeção urinária e irritação local
Tratar e repetir a tira-teste depois de resolvida.
Hipercalciúria idiopática
- Líquidos abundantes, para uma diurese acima de 1,5 mL/kg por hora.
- Sal com moderação, 2 a 3 mEq/kg por dia: é o fator dietético que mais se relaciona com a calciúria.
- Cálcio da dieta normal, nunca restringido: a dieta pobre em cálcio prejudica a densidade mineral óssea e aumenta a absorção e a excreção de oxalato. Sem abuso de laticínios nem de carne.
- Fruta e vegetais ricos em potássio e citrato.
- Fármacos só com sintomas urológicos persistentes, litíase ou osteopenia importante mantida: citrato de potássio 1 a 2 mEq/kg por dia, para manter cálcio/citrato abaixo de 0,33 mg/mg, ou hidroclorotiazida 1,5 a 2,5 mg/kg por dia.
Síndrome hemolítico-urémica
- Internamento, com tratamento de suporte (fluidos, eletrólitos, tensão arterial, diálise quando necessária).
- Na forma por Escherichia coli produtora de toxina Shiga, o antibiótico associa-se a mais síndrome hemolítico-urémica e não se usa.
- A forma atípica, por desregulação do complemento, trata-se com um inibidor do C5 (eculizumab), na nefrologia pediátrica.
Tumor renal
Referenciação imediata à oncologia pediátrica, sem biópsia nem cirurgia prévias.
Referências
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- Guerrero-Fernández J, Cartón Sánchez A, Barreda Bonis A, Menéndez Suso J, Ruiz Domínguez J, editores. Manual de diagnóstico y terapéutica en pediatría. 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. Cap. 74 (Lesiones purpúricas), cap. 126 (Tumores abdómino-pélvicos), cap. 175 (Hipertensión arterial), cap. 176 (Proteinuria).
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16 perguntas sobre Abordagem à criança com hematúria e glomerulonefrites
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar