Pneumonia adquirida na comunidade
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 19 perguntas neste tema
A pneumonia adquirida na comunidade é a infeção aguda do parênquima pulmonar numa criança que a adquiriu fora do hospital, ou que a manifesta nas primeiras 48 horas de internamento. É uma das principais causas de morte abaixo dos 5 anos no mundo, e em Portugal é sobretudo uma causa frequente de consulta e de internamento no lactente e no pré-escolar.
A idade é o melhor preditor do agente. Abaixo dos 5 anos predominam os vírus, com o vírus sincicial respiratório à cabeça, e o pneumococo é o agente bacteriano principal; a partir dos 5 anos o Mycoplasma pneumoniae passa a ser o mais frequente. O recém-nascido tem os agentes da sépsis neonatal, e o lactente de 1 a 3 meses pode fazer a pneumonia afebril por Chlamydia trachomatis.
Suspeita-se perante febre, tosse e dificuldade respiratória, e a taquipneia para a idade é o sinal isolado mais útil. O diagnóstico é clínico: a criança que vai ser tratada em casa não precisa de radiografia nem de análises, mas a saturação periférica mede-se sempre, porque a hipoxemia é o que mais pesa na decisão de internar.
A primeira escolha é a amoxicilina oral em dose alta, dirigida ao pneumococo, em cursos curtos; o macrólido fica para o quadro atípico do escolar. No internamento, a criança vacinada com pneumonia não complicada faz ampicilina endovenosa. A reavaliação às 48 a 72 horas é obrigatória.
O que não se pode falhar é a criança hipoxémica ou com gemido tratada em casa, a febre que persiste ao terceiro dia sem se procurar o derrame parapneumónico, e o antibiótico dado a uma bronquiolite por causa de uma radiografia mal lida.
Agente por idade
| idade | agentes, por ordem de frequência |
|---|---|
| Recém-nascido (menos de 1 mês) | Streptococcus agalactiae, bacilos Gram-negativos (Escherichia coli), Listeria monocytogenes, citomegalovírus e vírus herpes simples |
| 1 a 3 meses | vírus respiratórios, pneumococo, Chlamydia trachomatis, Staphylococcus aureus, agentes do período neonatal |
| 4 meses a 4 anos | vírus respiratórios, pneumococo, Streptococcus pyogenes, S. aureus, Mycoplasma pneumoniae, M. tuberculosis |
| 5 a 15 anos | Mycoplasma pneumoniae, pneumococo, vírus respiratórios, Chlamydia pneumoniae, Mycobacterium tuberculosis |
- Os vírus causam 14 a 62% das pneumonias da criança, muito mais abaixo dos 2 anos: vírus sincicial respiratório, rinovírus, parainfluenza, influenza, adenovírus, metapneumovírus e bocavírus.
- O pneumococo continua a ser o principal agente da pneumonia bacteriana típica em todas as idades a partir do primeiro mês.
- Até 30% são infeções mistas de vírus e bactéria, e a bactéria mais frequente nessa associação é também o pneumococo.
- A vacinação conjugada reduziu muito a doença pneumocócica invasiva e tornou rara a pneumonia por Haemophilus influenzae tipo b.
Contextos que mudam o agente
| contexto | agentes a acrescentar |
|---|---|
| Gripe | pneumococo e, menos vezes, S. aureus, S. pyogenes e H. influenzae |
| Suspeita de aspiração | S. aureus, H. influenzae, anaeróbios e Gram-negativos |
| Doença crónica | bacilos Gram-negativos, S. aureus, H. influenzae não tipável |
| Imunodepressão grave | Pneumocystis jirovecii, Legionella, citomegalovírus, fungos |
Porque é que a criança pequena é vulnerável
- A maioria das pneumonias nasce de microaspiração de secreções da nasofaringe, que no pré-escolar está muitas vezes colonizada pelo pneumococo.
- A resposta de anticorpos aos polissacáridos capsulares só amadurece ao longo dos primeiros anos de vida, o que explica a suscetibilidade às bactérias capsuladas e a razão de ser das vacinas conjugadas.
- A virose lesa o epitélio ciliado, compromete a depuração mucociliar e expõe recetores de adesão: é o substrato da sobreinfeção bacteriana depois da gripe.
- O preenchimento alveolar deixa zonas perfundidas e mal ventiladas: a hipoxemia resulta do desequilíbrio entre ventilação e perfusão e é compensada por taquipneia e pelos músculos acessórios.
- O gemido expiratório é o encerramento parcial da glote no fim da expiração, uma pressão positiva gerada pela própria criança para manter os alvéolos abertos: é sinal de gravidade.
O diagnóstico é clínico
- Febre com taquipneia ou dificuldade respiratória, numa criança sem outra explicação, basta para tratar.
- A oximetria de pulso faz-se a todas as crianças com suspeita de pneumonia: a hipoxemia decide o internamento e o oxigénio.
- Na criança que vai para casa não se pedem exames.
Radiografia de tórax
- Não é rotina na criança tratada em ambulatório: não muda a conduta e não distingue vírus de bactéria.
- Pede-se na hipoxemia ou dificuldade respiratória importante, na criança que vai ser internada, na dúvida diagnóstica, na suspeita de complicação e na falência ao fim de 48 a 72 horas.
- Consolidação lobar ou segmentar sugere bacteriana; infiltrados intersticiais bilaterais com hiperinsuflação sugerem vírus ou atípicos; a pneumonia redonda é uma forma de consolidação do mais velho que não se deve confundir com massa.
- Não se repete na pneumonia não complicada que evolui bem; considera-se na pneumonia redonda, na atelectasia e na pneumonia complicada.
Laboratório e microbiologia
- Hemograma, proteína C reativa e procalcitonina não são de rotina na pneumonia não complicada; no internado servem sobretudo para acompanhar a evolução. Valores altos tornam a etiologia bacteriana mais provável, mas nenhum a confirma.
- Hemoculturas quando se suspeita de etiologia bacteriana grave ou de sépsis; o rendimento na pneumonia não complicada é baixo.
- Pesquisa de vírus respiratórios (vírus sincicial e gripe conforme a época), sobretudo para decidir isolamento e antiviral.
- Pesquisa de Bordetella pertussis por amplificação de ácidos nucleicos no lactente com tosse em acessos.
- Antigénio urinário pneumocócico: não se usa na criança, porque a colonização da nasofaringe dá falsos positivos.
- Prova tuberculínica ou teste de libertação de interferão gama perante suspeita clínica ou epidemiológica de tuberculose.
- Havendo derrame: bioquímica, Gram, cultura, antigénio pneumocócico e amplificação de ácidos nucleicos no líquido pleural.
Diagnóstico diferencial
| entidade | pista |
|---|---|
| Bronquiolite | lactente, pródromo de coriza, sibilos e fervores difusos |
| Crise de asma ou sibilância vírica | episódios repetidos, resposta ao broncodilatador |
| Aspiração de corpo estranho | início súbito, assimetria, hiperinsuflação localizada |
| Tuberculose | evolução arrastada, contacto conhecido, adenopatias hilares |
| Insuficiência cardíaca | sopro, hepatomegalia, má progressão ponderal |
| Acidose metabólica (cetoacidose, desidratação grave) | taquipneia sem sinais respiratórios |
Vacina pneumocócica conjugada
- No Programa Nacional de Vacinação, a vacina conjugada de 20 serótipos (Pn20) substituiu a de 13 (Norma 013/2024), aos 2, 4 e 12 meses.
- A criança que começou o esquema com a Pn13 completa-o com a Pn20.
- Crianças com risco acrescido de doença invasiva (asplenia, drepanocitose, imunodeficiência, infeção por VIH, doença crónica, implante coclear, entre outras) fazem Pn20 e depois a polissacárida de 23 serótipos (Pn23), a partir dos 24 meses e 6 a 12 meses depois da última Pn20.
Haemophilus influenzae tipo b
- Quatro doses: hexavalente aos 2 e aos 6 meses e pentavalente aos 4 e aos 18 meses.
- A hexavalente inclui a hepatite B; a pentavalente não. As duas trazem difteria, tétano, tosse convulsa, Haemophilus influenzae tipo b e poliomielite.
- Com a cobertura atual, a pneumonia por este agente é rara e pensa-se nela na criança não vacinada.
Vírus sincicial respiratório
- Nirsevimab, anticorpo monoclonal de ação prolongada, em dose única intramuscular por época (Norma 004/2026): 50 mg abaixo de 5 kg, 100 mg a partir de 5 kg.
- Desde 2026 a estratégia é universal: todas as crianças saudáveis a entrar na primeira época, dadas na maternidade, de preferência nas primeiras 24 a 48 horas, entre 16 de setembro e 31 de março; os nascidos antes fazem-no na repescagem nos cuidados de saúde primários.
- Crianças com fatores de risco a entrar na segunda época, com menos de 24 meses: 200 mg, em duas injeções de 100 mg.
- A vacinação da grávida contra este vírus dispensa o nirsevimab se foi feita 14 dias ou mais antes do parto; abaixo disso, o anticorpo deve ser considerado.
- O detalhe da estratégia está no capítulo da bronquiolite aguda.
Outras medidas
- Tosse convulsa: vacina Tdpa na grávida, em cada gravidez, entre as 20 e as 36 semanas, que protege o lactente antes da primovacinação.
- Gripe: vacina anual a partir dos 6 meses; é gratuita dos 6 aos 23 meses e recomendada a todas as crianças saudáveis dos 6 aos 59 meses, além dos grupos de risco. Previne também a pneumonia bacteriana secundária.
- Aleitamento materno, evicção do fumo do tabaco e higiene das mãos.
- Cotrimoxazol profilático na criança imunodeprimida em risco de pneumocistose.
Onde tratar
A maioria trata-se em casa, por via oral. Interna-se perante:
- Hipoxemia: saturação periférica abaixo de 92% em ar ambiente segundo a BTS (sociedade britânica do tórax); abaixo de 90% mantida segundo a IDSA (sociedade americana de doenças infeciosas).
- Dificuldade respiratória marcada: tiragem acentuada, adejo nasal, gemido, apneia.
- Idade abaixo de 3 a 6 meses com suspeita de pneumonia bacteriana.
- Aspeto séptico, desidratação, vómitos ou intolerância oral.
- Falência ou agravamento depois de 48 a 72 horas de antibiótico oral.
- Derrame significativo, envolvimento multifocal, doença de base relevante, agente suspeito pouco habitual ou agressivo, contexto social que não garanta vigilância.
Cuidados intensivos perante choque, alteração da consciência, dificuldade respiratória grave ou apneias frequentes apesar do oxigénio, saturação de 90% ou menos com FiO2 de 0,5, hipercapnia progressiva ou pneumotórax.
Quem não precisa de antibiótico
- Abaixo dos 2 anos, com clínica ligeira e vacinação completa contra o pneumococo e o Haemophilus, a etiologia bacteriana é pouco provável: pode vigiar-se sem antibiótico, com reavaliação.
Antibiótico em ambulatório
| situação | escolha |
|---|---|
| Primeira linha, em qualquer idade a partir dos 3 meses | amoxicilina oral 90 mg/kg por dia, em 2 a 3 tomas (máximo 4 g por dia) |
| Quadro atípico no escolar | azitromicina 10 mg/kg no primeiro dia (máximo 500 mg) e 5 mg/kg por dia do segundo ao quinto (máximo 250 mg); ou claritromicina 15 mg/kg por dia em 2 tomas |
| Alergia à penicilina sem anafilaxia | cefuroxima-axetil oral |
| Anafilaxia à penicilina | levofloxacina, ou macrólido se o quadro for atípico |
- Não se junta ácido clavulânico na criança vacinada e sem doença de base: o pneumococo não resiste por beta-lactamase. A amoxicilina com clavulanato fica para o lactente de 3 a 6 meses, a criança não vacinada contra o Haemophilus, a suspeita de aspiração e a pneumonia depois da gripe.
- A resistência do Mycoplasma aos macrólidos é baixa na Europa, cerca de 2% na vigilância europeia e abaixo de 10% na maioria dos países, e superior a 90% na China: perante falência, pondera-se a doxiciclina no mais velho.
Duração
- Norma DGS 006/2014, atualizada em 2022: 3 a 7 dias, mantendo o antibiótico pelo menos até 48 horas depois de a febre ceder; na criança, os esquemas de 3 a 5 dias não foram inferiores aos de 7 a 10.
- NICE (instituto britânico de excelência clínica) 2025: amoxicilina durante 3 dias dos 3 meses aos 11 anos na pneumonia não grave e sem doença de base; 5 dias entre 1 e 3 meses, a partir dos 12 anos e na pneumonia grave; abaixo de 1 mês, a decisão é do pediatra.
Criança internada
| situação | escolha |
|---|---|
| Menos de 3 meses, fora do período neonatal | ampicilina EV com ceftriaxona; macrólido se Chlamydia trachomatis |
| Vacinada, mais de 6 meses, não complicada | ampicilina EV 150 a 200 mg/kg por dia, de 6 em 6 horas, ou penicilina G |
| 3 a 6 meses, não vacinada, aspiração ou gripe | amoxicilina com clavulanato EV |
| Doença grave, cuidados intensivos | ceftriaxona EV 50 a 100 mg/kg por dia; azitromicina se o quadro for atípico |
| Suspeita de S. aureus (pneumonia necrosante, pneumatocelos, infeção cutânea prévia, hemocultura positiva) | juntar flucloxacilina, clindamicina ou vancomicina, conforme a gravidade e o risco de estirpe resistente à meticilina |
| Suspeita de S. pyogenes (varicela, exantema escarlatiniforme, aspeto séptico) | penicilina G com clindamicina |
| Gripe associada | oseltamivir |
- A cefotaxima usa-se no recém-nascido; fora do período neonatal, a cefalosporina de terceira geração é a ceftriaxona.
- Passa-se à via oral quando a criança está apirética, a melhorar e tolera a via oral, habitualmente ao fim de 48 horas; a NICE pede revisão da via endovenosa às 48 horas.
Suporte
- Oxigénio com saturação de 92% ou menos, por óculos nasais ou máscara, para a manter acima de 92%.
- Hidratação e alimentação, de preferência orais; antipirético e analgesia para conforto.
- Cinesiterapia respiratória não está indicada. Antitússicos e mucolíticos também não.
Reavaliar
- Febre e dificuldade respiratória devem ceder em 3 a 4 dias; a tosse pode durar até 4 semanas.
- Sem melhoria ou com agravamento às 48 a 72 horas: confirmar que o antibiótico está a ser tomado, fazer radiografia e procurar derrame, empiema ou abcesso.
Referências
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 006/2014 de 08/05/2014, atualizada a 17/11/2022: Duração de Terapêutica Antibiótica em Patologia Infeciosa. Lisboa: DGS; 2022.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 013/2024 de 19/12/2024: Atualização da Estratégia de Vacinação Pneumocócica. Programa Nacional de Vacinação e Grupos de Risco. Lisboa: DGS; 2024.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 004/2026 de 02/09/2026: Imunização Sazonal contra o Vírus Sincicial Respiratório em Idade Pediátrica: Outono-Inverno 2026-2027. Lisboa: DGS; 2026.
- Direção-Geral da Saúde. Livro Azul de Vacinas: esquema geral recomendado, doença pneumocócica, tosse convulsa e gripe sazonal. Lisboa: DGS; 2025.
- García-Mauriño C, Calvo Rey C, Laplaza González M. Neumonía de origen comunitario. Neumonía nosocomial. Complicaciones. In: Guerrero-Fernández J, et al., editores. Manual de Diagnóstico y Terapéutica en Pediatría (Hospital Infantil La Paz). 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. p. 1387-98.
- Barcia Aguilar C, González Bertolín I, Morillo Carnero P. Neumonías de repetición. In: Guerrero-Fernández J, et al., editores. Manual de Diagnóstico y Terapéutica en Pediatría (Hospital Infantil La Paz). 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. p. 1959-62.
- Bradley JS, Byington CL, Shah SS, et al. The management of community-acquired pneumonia in infants and children older than 3 months of age: clinical practice guidelines by the Pediatric Infectious Diseases Society and the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2011;53(7):e25-76.
- Harris M, Clark J, Coote N, et al. British Thoracic Society guidelines for the management of community acquired pneumonia in children: update 2011. Thorax. 2011;66(Suppl 2):ii1-23.
- National Institute for Health and Care Excellence. Pneumonia: diagnosis and management (NG250). Londres: NICE; 2025.
- Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. Sexually transmitted infections treatment guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187.
- Dumke R, et al. The high-incidence period of Mycoplasma pneumoniae infections 2023/2024 in southeast Germany was associated with a low level of macrolide resistance. Infection. 2024.
- Streptococcus pneumoniae associated hemolytic uremic syndrome in children. Front Pediatr. 2023;11:1268971.
19 perguntas sobre Pneumonia adquirida na comunidade
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar