Osteomielite e artrite infeciosa
Atualizado em 16 de julho de 2026 · 6 perguntas neste tema
A osteomielite e a artrite infeciosa (sética) são infeções osteoarticulares que na criança se distinguem do adulto sobretudo pela via de disseminação: aqui domina a via hematogénea, num esqueleto em crescimento e ricamente vascularizado. A artrite sética é uma emergência: o pus intra-articular destrói a cartilagem em poucos dias e um atraso na drenagem deixa sequelas permanentes. Este capítulo cobre a etiologia por faixa etária, a fisiopatologia que explica a localização metafisária e a co-existência de osteoartrite no lactente, e a abordagem diagnóstica, com destaque para a distinção entre sinovite transitória e artrite sética da anca.
Porque é que a osteomielite se localiza na metáfise
A explicação está na anatomia vascular do osso em crescimento. Na metáfise, adjacente à placa de crescimento (fise), as artérias nutritivas formam ansas que desembocam em sinusoides venosos largos, onde o fluxo sanguíneo abranda e se torna turbulento. Esse abrandamento favorece a deposição e a proliferação bacteriana durante um episódio de bacteriémia. Somam-se dois fatores locais: os capilares metafisários têm fenestrações que facilitam a saída de bactérias, e a região é relativamente pobre em células fagocitárias eficazes. O resultado é que a metáfise dos ossos longos de crescimento rápido (fémur distal, tíbia proximal, úmero) é o local preferencial da osteomielite hematogénea aguda na criança.
Da inoculação metafisária ao abcesso e à disseminação
Instalada a infeção, forma-se um foco inflamatório com edema, exsudado e pus. A pressão dentro do compartimento ósseo rígido aumenta rapidamente, comprime os vasos e gera isquémia local. O pus procura vias de menor resistência: atravessa os canais de Havers e de Volkmann e descola o periósteo, que na criança está frouxamente aderente à diáfise (ao contrário do adulto). Esse descolamento origina um abcesso subperiosteal, achado mais próprio da idade pediátrica. Se o aporte vascular for interrompido, um fragmento ósseo pode necrosar e formar um sequestro (osso morto), envolvido por osso neoformado (invólucro), característico das formas subagudas ou crónicas quando o tratamento é tardio ou incompleto.
Porque é que o lactente faz osteoartrite combinada
A relação entre a metáfise e a articulação muda com a idade e explica um dos pontos mais testados. No recém-nascido e no lactente pequeno existem vasos transfisários que atravessam a placa de crescimento e ligam a metáfise à epífise, permitindo a passagem da infeção para a articulação. Além disso, em algumas articulações a metáfise é intra-articular, ou seja, está dentro da cápsula. O exemplo clássico é a anca: a metáfise proximal do fémur situa-se dentro da cápsula articular, pelo que uma osteomielite do fémur proximal drena diretamente para a articulação coxofemoral. Por estas duas razões, o lactente com osteomielite tem risco elevado de artrite sética associada (osteoartrite), ao passo que na criança mais velha a placa de crescimento funciona como barreira e as duas entidades tendem a manter-se separadas.
Como o pus destrói a cartilagem na artrite sética
Na artrite sética, as bactérias chegam à sinovial por via hematogénea (mecanismo dominante na criança), por extensão de uma osteomielite metafisária adjacente ou, mais raramente, por inoculação direta. A resposta inflamatória enche a articulação de neutrófilos e forma pus. A destruição articular resulta de dois processos que atuam em conjunto e em poucos dias:
- Enzimas proteolíticas libertadas pelos neutrófilos e pelas próprias bactérias degradam a matriz de proteoglicanos e colagénio da cartilagem, que não se regenera.
- O aumento de pressão intra-articular pelo derrame purulento compromete a perfusão da cabeça femoral e da cartilagem, agravando a lesão isquémica.
Esta é a razão pela qual a artrite sética é uma emergência: a janela para preservar a articulação é curta. Um derrame purulento sob tensão na anca pode ainda causar necrose avascular da cabeça do fémur, com consequências funcionais graves e permanentes.
Tradução clínica dos mecanismos
A fisiopatologia explica a apresentação. A dor resulta do aumento de pressão e da inflamação; a criança recusa usar o membro e, no lactente, isto manifesta-se como pseudoparalisia (o membro fica imóvel, não por lesão neurológica mas porque o movimento dói). Na artrite sética da anca, a articulação assume a posição que maximiza o volume capsular e alivia a pressão: flexão, abdução e rotação externa. Qualquer tentativa de mobilizar a anca desencadeia dor intensa, sinal de grande valor à observação. A febre e o mal-estar traduzem a resposta sistémica à bacteriémia e à libertação de mediadores inflamatórios.
Nota clínica. Erro frequente é assumir que a radiografia inicial normal exclui osteomielite. As alterações ósseas (reação periosteal, lise) surgem tardiamente, tipicamente só ao fim de uma a duas semanas, porque exigem já uma perda de matriz óssea significativa. O mecanismo é lento em imagem, mas a lesão biológica está a decorrer desde o início.
O diagnóstico assenta na integração de clínica, laboratório, microbiologia e imagem. A prioridade prática é reconhecer depressa a artrite sética, porque o atraso na drenagem custa cartilagem.
Apresentação clínica
Os sinais orientadores são febre, dor e recusa em usar o membro. Na osteomielite dos membros inferiores a criança coxeia ou deixa de andar; no lactente surge pseudoparalisia (membro imóvel porque o movimento dói). Na artrite sética há dor à mobilização passiva, derrame e, nas articulações superficiais como o joelho, calor e tumefação visíveis. A anca e o joelho são as articulações mais atingidas. Na anca sética o membro fica em flexão, abdução e rotação externa e qualquer mobilização é muito dolorosa. Sinais locais podem ser subtis no recém-nascido e no lactente, em que a irritabilidade, a recusa alimentar e a febre isolada obrigam a um exame osteoarticular cuidadoso de todos os segmentos.
Laboratório
Pedir hemograma, velocidade de sedimentação (VS) e proteína C reativa (PCR). A leucocitose pode faltar, sobretudo em infeções por Kingella e no lactente. A VS eleva-se e desce lentamente. A PCR sobe e normaliza mais rapidamente, o que a torna o parâmetro mais útil no seguimento: a queda progressiva da PCR é um dos critérios para passar a antibiótico oral e para encurtar a duração total. Uma PCR persistentemente elevada ou em nova subida deve fazer suspeitar de complicação (abcesso, foco não drenado).
Microbiologia (obrigatória antes do antibiótico, sempre que possível)
O isolamento do agente orienta a terapêutica dirigida e a duração:
- Hemoculturas em toda a suspeita. São positivas em cerca de 30 a 50% dos casos, pelo que uma hemocultura negativa não exclui o diagnóstico.
- Artrocentese (aspiração do líquido articular): é obrigatória perante suspeita de artrite sética e tem valor diagnóstico e terapêutico. Enviar para contagem de leucócitos, coloração de Gram e cultura. O líquido sético é turvo, com contagem de leucócitos muito elevada e predomínio de neutrófilos. Um Gram e uma cultura negativos não excluem artrite sética, sobretudo com Kingella.
- PCR de Kingella kingae: pedir no líquido articular ou ósseo nas crianças dos 6 meses aos 4 anos, porque este agente cresce mal em cultura. A deteção molecular aumenta muito o rendimento; a inoculação do líquido em frasco de hemocultura melhora também o crescimento.
Nota clínica. Erro frequente é iniciar antibiótico antes de colher líquido articular e hemoculturas numa criança estável. Sempre que a colheita não atrase perigosamente o tratamento de um doente séptico, obter as amostras primeiro aumenta muito a probabilidade de identificar o agente.
Imagem
- Radiografia: primeira linha, mas frequentemente normal na fase inicial. As alterações (edema de partes moles, reação periosteal, lise óssea) surgem só ao fim de uma a duas semanas. Serve sobretudo para excluir fratura, tumor ou outra causa. A radiografia inicial normal não exclui infeção.
- Ecografia: exame de eleição para detetar derrame articular e guiar a artrocentese, em particular na anca, onde a articulação é profunda. Rápida, sem radiação, disponível.
- Ressonância magnética (RM): é o exame mais sensível para osteomielite precoce, delimita o edema medular, os abcessos (incluindo o subperiosteal) e a extensão de partes moles. É o exame de escolha quando se procura confirmar osteomielite ou planear drenagem.
- A cintigrafia óssea tem utilidade quando o foco é incerto ou se suspeita de doença multifocal, sobretudo quando a RM não é acessível de imediato.
O ponto crítico: anca dolorosa e febril
O grande diagnóstico diferencial da anca dolorosa na criança é entre sinovite transitória (benigna, pós-viral, autolimitada) e artrite sética. A sinovite transitória ocorre tipicamente numa criança com bom estado geral, afebril ou apenas com febrícula, capaz de alguma marcha, e com parâmetros inflamatórios normais ou pouco alterados. A artrite sética é a doente com aspeto doente, febre alta e incapacidade de apoiar o peso.
Os critérios de Kocher ajudam a estimar a probabilidade de artrite sética da anca. São quatro:
- Febre > 38,5 ºC
- Recusa de carga (não apoia o peso)
- VS > 40 mm/h
- Leucócitos > 12 000/mm³
A probabilidade de artrite sética sobe com o número de critérios presentes: é muito baixa com zero critérios e muito alta com os quatro presentes. A PCR elevada (validada como preditor adicional, com limiar próximo de 20 mg/L) reforça a suspeita e é hoje usada como quinto elemento de apoio.
Nota clínica. Os critérios de Kocher apoiam a decisão, não a substituem. Foram derivados antes de a Kingella ser reconhecida e têm menor desempenho nas infeções por este agente, que cursam com parâmetros inflamatórios mais modestos. Perante dúvida clínica, mesmo com poucos critérios, uma criança com derrame e aspeto doente justifica artrocentese; não se deve esperar por todos os critérios para agir.
Referências
- Woods CR, Bradley JS, Chatterjee A, et al. Clinical Practice Guideline by the Pediatric Infectious Diseases Society and the Infectious Diseases Society of America (PIDS/IDSA): Diagnosis and Management of Acute Bacterial Arthritis in Pediatrics. J Pediatric Infect Dis Soc. 2023.
- Woods CR, Bradley JS, Chatterjee A, et al. Clinical Practice Guideline by PIDS/IDSA: Diagnosis and Management of Acute Hematogenous Osteomyelitis in Pediatrics. J Pediatric Infect Dis Soc. 2021.
- Kocher MS, Zurakowski D, Kasser JR. Differentiating between septic arthritis and transient synovitis of the hip in children: an evidence-based clinical prediction algorithm. J Bone Joint Surg Am. 1999;81(12):1662-1670.
- Caird MS, Flynn JM, Leung YL, et al. Factors distinguishing septic arthritis from transient synovitis of the hip in children: a prospective study. J Bone Joint Surg Am. 2006;88(6):1251-1257.
- Ceroni D, Cherkaoui A, Ferey S, et al. Kingella kingae osteoarticular infections in young children: contribution of specific real-time PCR to the diagnosis. J Pediatr Orthop. 2010;30(3):301-304.
- Cohen R, Gillet Y, Faye A, et al. Antibiotic therapy for osteoarticular infections in 2023: Proposals from the French Pediatric Infectious Pathology Group (GPIP). Infect Dis Now. 2023.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 013/2024 - Atualização da estratégia de vacinação antipneumocócica (PCV20), Programa Nacional de Vacinação. DGS; 2024.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 005/2025 - Alteração da estratégia de vacinação contra a doença invasiva meningocócica (MenACWY) no Programa Nacional de Vacinação. DGS; 2025.
- Kliegman RM, St Geme JW, et al. Nelson Textbook of Pediatrics. 22nd ed. Elsevier; 2024. Osteomyelitis and Septic Arthritis chapters.
6 perguntas sobre Osteomielite e artrite infeciosa
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