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Laringotraqueobronquite (crupe)

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 12 perguntas neste tema

Em resumo

O crupe, ou laringotraqueobronquite aguda, é a causa mais frequente de obstrução aguda da via aérea superior na criança. É uma infeção viral, sobretudo pelo vírus parainfluenza tipo 1, que provoca edema da região subglótica, ao nível da cartilagem cricoide, o ponto mais estreito da via aérea da criança pequena. Atinge sobretudo crianças dos 6 meses aos 3 anos, mais os rapazes, no outono e no início do inverno.

Apresenta-se, depois de dois a três dias de catarro, com tosse ladrante, rouquidão e estridor inspiratório, que agravam à noite, com o choro e em decúbito, numa criança sem aspeto tóxico. O diagnóstico é clínico, sem exames. A gravidade gradua-se pelo estridor em repouso, pela tiragem, pela entrada de ar, pela cianose e pelo estado de consciência, que são os cinco itens do score de Westley.

Todas as crianças, mesmo com crupe ligeiro, recebem uma dose única de dexametasona. A adrenalina nebulizada junta-se no crupe moderado e grave; atua em minutos e dura cerca de duas horas, e por isso a criança fica em observação antes da alta. Vapor, antibiótico e broncodilatadores não têm lugar. Quase todas as crianças curam em poucos dias, e menos de 5% são internadas.

O que não se pode falhar é a epiglotite, súbita e tóxica, com sialorreia e sem tosse, em que não se examina a garganta; a traqueíte bacteriana, que é o crupe que piora e não responde à adrenalina; o corpo estranho; e a criança cujo estridor se atenua porque está a esgotar-se.

Agentes

agentenota
Vírus parainfluenza tipo 1o mais frequente; os tipos 1 a 3 causam cerca de 75% dos casos
Parainfluenza tipos 2 e 3menos frequentes
Vírus sincicial respiratório, adenovírustambém causam crupe
Influenza A e Bcrupe mais grave
Coronavírus humano NL63, rinovírus, enterovírus, metapneumovírusmenos frequentes
Vírus do sarampoem zonas com circulação
Mycoplasma pneumoniaeraro
  • Transmite-se por gotículas e por contacto com secreções.
  • Favorecem o crupe o estreitamento prévio da via aérea, congénito ou adquirido (como a estenose subglótica depois de intubação), a resposta imunitária individual e a atopia.

Porque é que a subglote obstrui

  • Na criança pequena o ponto mais estreito da via aérea é a região subglótica, rodeada pela cartilagem cricoide, que é um anel completo e rígido: o edema não tem para onde crescer senão para dentro do lúmen.
  • Em fluxo laminar, a resistência varia com o inverso da quarta potência do raio: pouco edema numa via aérea de poucos milímetros multiplica a resistência. É por isso que a mesma infeção dá crupe no lactente e uma laringite banal na criança mais velha.

De onde vêm os sinais

  • Estridor inspiratório: fluxo turbulento no segmento estreitado. A obstrução é extratorácica, e a pressão negativa da inspiração colapsa-a ainda mais; torna-se bifásico quando a obstrução é grave.
  • Tosse ladrante e rouquidão: edema da laringe e das cordas vocais.
  • Tiragem: retração dos tecidos moles quando o esforço inspiratório cresce para vencer a resistência.
  • Com o agravamento, o fluxo cai e o estridor pode atenuar-se: é sinal de exaustão, não de melhoria.

Onde atuam os fármacos

  • Dexametasona: reduz a inflamação e o edema; começa a atuar em 2 a 3 horas e tem semivida de 36 a 72 horas, o que cobre a duração habitual da doença com uma só dose.
  • Adrenalina: estimula os recetores alfa e contrai as arteríolas pré-capilares, baixando a pressão hidrostática e o edema da mucosa; atua em 10 minutos, com máximo aos 30 minutos, e dura cerca de 2 horas.

O diagnóstico é clínico

  • Faz-se pela história e pelo exame; na maioria dos casos não é preciso nenhum exame.
  • Observar a criança calma, ao colo de quem a acompanha, sem manobras que a façam chorar: a agitação agrava a obstrução.
  • Registar idade, estado vacinal, início e evolução, estado geral, frequência respiratória, estridor (com a agitação ou em repouso), tiragem, entrada de ar, cor, posição, voz e saturação.
  • A oximetria é útil, mas a saturação só desce tarde: uma saturação normal não exclui obstrução importante.

Score de Westley

item012345
Estridor inspiratórioausentecom a agitaçãoem repouso
Tiragemausenteligeiramoderadagrave
Entrada de arnormaldiminuídamuito diminuída
Cianoseausentecom a agitaçãoem repouso
Estado de consciêncianormaldesorientado ou deprimido
pontuaçãogravidade
2 ou menosligeiro
3 a 7moderado
8 a 11grave
12 ou maisfalência respiratória iminente
  • A pontuação vai de 0 a 17. A cianose e a alteração da consciência pesam 4 ou 5 pontos cada, quase tanto como os outros três itens juntos, que somam no máximo 7.
  • Serve para decidir o tratamento e para reavaliar depois dele.

Exames, só com dúvida

  • Radiografia do pescoço: o afilamento subglótico simétrico («sinal da torre») não é sensível nem específico, e aparece também na epiglotite, na traqueíte bacteriana e noutras causas. Pede-se só quando se suspeita de outra doença (corpo estranho, pneumonia, traqueíte) e nunca antes de estabilizar a via aérea, nem sem acompanhamento médico.
  • Gasometria: só nos casos graves.
  • Laringoscopia ou broncoscopia: evolução arrastada ou diagnóstico incerto.
  • A pesquisa viral não muda a conduta.

Diagnóstico diferencial

entidadeo que a distingue
Epiglotite2 a 6 anos; início súbito, febre alta, aspeto tóxico, disfagia, sialorreia, voz abafada, sem tosse; sentada em tripé, pescoço em extensão, boca aberta
Traqueíte bacterianacrupe que agrava, com febre alta, aspeto tóxico e sem resposta à adrenalina; por vezes expetoração de pseudomembranas
Corpo estranhoinício súbito com engasgamento, sem pródromo nem febre
Abcesso retrofaríngeo ou periamigdalinocausa supraglótica: febre e dificuldade em engolir, sem tosse ladrante
Angioedema, ingestão de cáusticos, traumatismocontexto; sem pródromo infecioso
Laringomalácia, estenose subglótica, anéis vasculares, hemangiomalactente pequeno, estridor persistente ou recorrente
Crupe e epiglotite, e tratamento do crupe Como distinguir o crupe da epiglotite Crupe (laringotraqueobronquite) Epiglotite Agente Vírus, sobretudo parainfluenza (o tipo 1 é o mais frequente) Haemophilus influenzae tipo b hoje rara, graças à vacina Início Gradual, depois de 2 a 3 dias de coriza Súbito, em horas Aspeto Não tóxico, criança ativa Tóxico, ansiosa e imóvel Tosse e voz Tosse ladrante, rouquidão Sem tosse, voz abafada sialorreia (babar), disfagia Posição Qualquer Em tripé, pescoço em extensão Febre Ausente ou baixa a moderada Alta Na epiglotite: não examinar a garganta, não deitar nem agitar a criança. A via aérea assegura-se no bloco operatório, por equipa experiente. Tratamento do crupe, por gravidade Ligeiro: sem estridor em repouso (Westley 2 ou menos) Dexametasona oral em dose única, 0,15 a 0,6 mg/kg (máximo 10 mg). Alta com ensino dos sinais de alarme aos cuidadores. Moderado a grave: estridor em repouso e tiragem (Westley 3 ou mais) Dexametasona e adrenalina nebulizada; oxigénio se houver hipoxemia. Vigiar 2 a 4 horas depois da adrenalina: o efeito desaparece em cerca de 2 horas. Notas A dexametasona dá-se em todas as gravidades, incluindo o crupe ligeiro. Vapor e ar humidificado sem benefício demonstrado. Antibiótico sem indicação: o crupe é viral.
Esquema original InovaQB, síntese da abordagem ao crupe (dexametasona, adrenalina) e do diagnóstico diferencial com a epiglotite.

Crupe viral

  • Não há vacina contra o vírus parainfluenza. A prevenção faz-se com higiene das mãos, etiqueta respiratória e afastamento de quem tem sintomas.
  • A vacina da gripe, nos grupos em que está recomendada, evita os episódios por influenza, que são os mais graves.
  • A vacina contra o sarampo, parotidite e rubéola (VASPR), aos 12 meses e aos 5 anos, evita o crupe do sarampo.

Epiglotite: a vacina mudou a doença

  • O Haemophilus influenzae tipo b era o agente clássico da epiglotite; a vacinação sistemática tornou-a rara.
  • No Programa Nacional de Vacinação a vacina contra este agente vem nas combinadas: hexavalente aos 2 e aos 6 meses, pentavalente aos 4 e aos 18 meses.
  • Numa criança bem vacinada a epiglotite não desaparece: é causada por Staphylococcus aureus, Streptococcus pyogenes e Streptococcus pneumoniae, e continua a haver crianças não vacinadas.

Educação dos cuidadores

  • Explicar que a doença é benigna e dura poucos dias, que agrava à noite, e quais os sinais que obrigam a voltar: estridor em repouso, tiragem, dificuldade em beber, sonolência, palidez ou cianose.
  • Manter a criança calma e ao colo; não usar vapor quente.

Princípios

  • Criança calma, ao colo, na posição que escolher; evitar manobras desnecessárias, incluindo acessos venosos que não façam falta.
  • Oxigénio se a saturação estiver abaixo de 92% em ar ambiente ou houver dificuldade respiratória marcada, da forma menos incómoda possível.
  • Hidratação oral; antipirético se houver febre.

Corticoide, em todas as gravidades

  • Dexametasona oral, dose única. A dose mais estudada é 0,6 mg/kg; a de 0,15 mg/kg parece tão eficaz na melhoria às 2 horas e nas novas consultas, com dados mais fracos. Máximo 10 mg.
  • Reduz a gravidade, as novas idas à urgência, os internamentos e a necessidade de adrenalina, e cerca de metade das crianças com crupe ligeiro tratadas com corticoide não volta a precisar de cuidados médicos.
  • Se vomita ou não tolera a via oral: dexametasona intramuscular, ou budesonida nebulizada 2 mg, seja qual for o peso.
  • Sem dexametasona disponível: prednisolona oral 1 mg/kg/dia durante 3 dias.
  • Não se juntam budesonida e dexametasona, porque a associação não acrescenta benefício. Uma dose chega; não há desmame.

Adrenalina nebulizada, no moderado e grave

formulaçãodose
Adrenalina 1:1000 (1 mg/mL)0,5 mL/kg, máximo 5 mL (0,5 mg/kg, máximo 5 mg)
Adrenalina racémica a 2,25%0,05 mL/kg, máximo 0,5 mL
  • Dá-se sempre com o corticoide, que é o que muda a evolução.
  • Efeito em 10 minutos, que desaparece ao fim de cerca de 2 horas: a criança fica em observação 2 a 4 horas depois da última dose antes de ter alta.
  • Sem melhoria, pode repetir-se, até três doses com pelo menos 30 minutos de intervalo; necessidade de doses frequentes pede cuidados intensivos.

Conduta por gravidade (Westley)

gravidadeconduta
Ligeiro, 2 ou menosdexametasona oral em dose única; alta com sinais de alarme
Moderado, 3 a 7dexametasona e adrenalina nebulizada; observação e reavaliação
Grave, 8 a 11adrenalina nebulizada com oxigénio e corticoide sistémico; monitorização contínua; repetir a adrenalina e chamar cuidados intensivos se não melhorar
Falência iminente, 12 ou maisvia aérea por equipa experiente, com tubo 0,5 a 1 mm mais fino do que o previsto para a idade

O que não se faz

  • Vapor ou ar humidificado: sem benefício demonstrado.
  • Antibiótico: só perante infeção bacteriana (traqueíte, pneumonia).
  • Broncodilatadores e antitússicos: sem indicação. Heliox: não é de rotina.

Internar

  • Aspeto doente ou agravamento progressivo; hipoxemia; tiragem intensa; cianose ou palidez extrema; depressão da consciência.
  • Crupe moderado a grave sem melhoria depois do tratamento.
  • Idade abaixo dos 6 meses, obstrução grave anterior ou anomalia conhecida da via aérea.
  • Diagnóstico incerto, idas repetidas à urgência, família sem condições de vigiar ou longe do hospital.

Alta

  • Sem estridor em repouso nem dificuldade respiratória, saturação normal em ar ambiente, boa cor e estado geral, a beber bem, e família capaz de voltar se piorar.

Referências

  1. Sánchez Martín M, Calvo Rey C. Laringitis, epiglotitis y traqueobronquitis. In: Guerrero-Fernández J, Cartón Sánchez AJ, Barreda Bonis AC, Menéndez Suso JJ, Ruiz Domínguez JA, editores. Manual de diagnóstico y terapéutica en pediatría. Hospital Infantil La Paz. 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. p. 1365-72.
  2. Guirado Rivas C, Luaces Cubells C. Diagnóstico y tratamiento de la laringitis en Urgencias. In: Protocolos diagnósticos y terapéuticos en Urgencias de Pediatría. 4.ª ed. Madrid: Sociedad Española de Urgencias de Pediatría; 2024.
  3. Ortiz-Alvarez O. Acute management of croup in the emergency department. Paediatr Child Health. 2017;22(3):166-73. Atualizado em março de 2026. Canadian Paediatric Society.
  4. Smith DK, McDermott AJ, Sullivan JF. Croup: diagnosis and management. Am Fam Physician. 2018;97(9):575-80.
  5. Aregbesola A, Tam CM, Kothari A, Le ML, Ragheb M, Klassen TP. Glucocorticoids for croup in children. Cochrane Database Syst Rev. 2023;1:CD001955.
  6. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Vacinação 2020. Norma n.º 018/2020, de 27/09/2020. Lisboa: DGS; 2020.

12 perguntas sobre Laringotraqueobronquite

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