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Gastrenterite aguda

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema

Em resumo

A gastrenterite aguda é a diminuição da consistência das fezes ou o aumento do número de dejeções, com ou sem febre e vómitos, que dura em regra menos de 7 dias e nunca mais de 14. Na criança europeia é sobretudo vírica: o rotavírus é o agente que dá a doença mais grave e mais desidratação, e o norovírus passou a ser a primeira causa de gastrenterite com recurso a cuidados de saúde onde se vacina contra o rotavírus. Campylobacter e Salmonella são as bactérias mais frequentes, e a Escherichia coli produtora de toxina Shiga é a que mais importa reconhecer, porque pode levar à síndrome hemolítica urémica.

O que decide a conduta é o grau de desidratação, e não o agente. O padrão de referência é a percentagem de peso perdido, e na prática estima-se pelos sinais: sem desidratação ou mínima abaixo de 3%, ligeira a moderada entre 3 e 9%, grave acima de 9%. Os três sinais isolados mais úteis são o tempo de preenchimento capilar, a prega cutânea e o padrão respiratório. Na gastrenterite típica não se pede nenhum exame.

O tratamento é a reidratação oral com solução de osmolaridade reduzida, que funciona porque o cotransporte de sódio e glicose do enterócito se mantém intacto, e a realimentação precoce com a dieta habitual, sem interromper o aleitamento materno. A sonda nasogástrica vem antes da via endovenosa, que fica para o choque e a desidratação grave. O antibiótico é a exceção: trata-se a shigelose, a salmonelose em crianças de risco, a cólera e algumas formas de Campylobacter, e não se trata a Escherichia coli produtora de toxina Shiga.

O que não se pode falhar é o choque, a hipernatremia corrigida depressa, a invaginação, a apendicite ou a cetoacidose tomadas por gastrenterite, e a diarreia com sangue que evolui para palidez e oligúria.

Agentes

agenteo que o distingue
Rotavíruso mais grave e o que mais desidrata; pico entre os 4 e os 23 meses; inverno; vómitos antes da diarreia
Norovírusprimeira causa de gastrenterite com recurso a cuidados onde se vacina contra o rotavírus; vómitos proeminentes; surtos; infeta com muito poucas partículas
Adenovírus 40 e 41, astrovírus, sapovíruscrianças pequenas, creche; doença menos grave
Campylobacterdas bactérias mais frequentes; carne de aves, água; disenteria; pode simular apendicite
Salmonella não tifoideovos, aves, leite; verão e outono; incubação de 12 a 72 horas
Shigellapré-escolar e escolar; infeta com 10 a 100 bactérias; surtos
Yersinia enterocoliticacarne de porco; adenite mesentérica e ileíte terminal que simulam apendicite
Escherichia coli produtora de toxina Shigacarne picada mal cozinhada, vegetais crus; diarreia com sangue e pouca ou nenhuma febre
Escherichia coli enterotoxigénicaprincipal causa de diarreia do viajante
Clostridioides difficileantibiótico de largo espetro, internamento, doença inflamatória intestinal ou oncológica; papel duvidoso abaixo dos 3 anos
Giardia, Cryptosporidiumraros na gastrenterite aguda do imunocompetente; surtos em creche

Três mecanismos de diarreia

  • Osmótica: solutos não absorvidos retêm água no lúmen. Cede com o jejum, porque desaparece o substrato.
  • Secretora: a mucosa está íntegra e o enterócito secreta cloro e água. Não cede com o jejum. O protótipo é a toxina colérica, que ativa de forma irreversível a adenilciclase; o monofosfato cíclico de adenosina inibe a absorção de sódio nas vilosidades e ativa a secreção de cloro nas criptas. A Escherichia coli enterotoxigénica atua da mesma forma.
  • Inflamatória ou invasiva: Shigella, Campylobacter, Salmonella e Entamoeba invadem e destroem a mucosa do cólon; dá disenteria, com sangue, muco e leucócitos nas fezes, e febre.

Rotavírus: os dois mecanismos ao mesmo tempo

  • Infeta e destrói os enterócitos maduros das vilosidades do intestino delgado proximal.
  • A perda do epitélio absortivo, com proliferação das células secretoras das criptas, dá diarreia secretora.
  • A perda das enzimas da bordadura em escova, sobretudo a lactase, deixa dissacarídeos por digerir e dá diarreia osmótica; daí a intolerância transitória à lactose depois de alguns episódios.
  • A proteína não estrutural NSP4 atua como enterotoxina e o vírus ativa o sistema nervoso entérico, somando secreção.

Escherichia coli produtora de toxina Shiga

  • A toxina inibe a síntese proteica e passa à circulação, lesando o endotélio dos pequenos vasos do rim e do cérebro: é a microangiopatia trombótica da síndrome hemolítica urémica.
  • Vários antibióticos induzem os bacteriófagos que codificam a toxina e aumentam a sua produção.

Porque é que a reidratação oral funciona

  • O cotransporte de sódio e glicose do enterócito mantém-se intacto mesmo na diarreia secretora da cólera; a glicose arrasta o sódio e a água segue-o. A glicose está lá como veículo do sódio, não como alimento.
  • Por isso a solução tem glicose e sódio em concentrações próximas, e as bebidas comuns não servem: sumo de maçã e refrigerantes de cola têm menos de 2 mmol/L de sódio e 650 a 730 mOsm/L.
soluçãosódio (mmol/L)osmolaridade (mOsm/L)
Organização Mundial da Saúde, 1975 (clássica)90311
Organização Mundial da Saúde, 2002 (osmolaridade reduzida)75245
ESPGHAN60240
  • As soluções de osmolaridade reduzida diminuem o débito fecal, os vómitos e a necessidade de fluidos endovenosos em relação à fórmula clássica.

Natremia

tiposódioo que se perde maiso que domina
Isonatrémica, a mais frequente130 a 150 mEq/Lágua e sódio em proporçãohipovolemia
Hiponatrémicamenos de 130 mEq/Lmais sódio do que águahipovolemia precoce, risco de choque
Hipernatrémicamais de 150 mEq/Lmais água do que sódiosinais neurológicos; a hipovolemia é subestimada
  • Na hipernatremia a água sai das células, o volume intravascular preserva-se à custa delas e os sinais de desidratação ficam mascarados. Os neurónios adaptam-se; se o sódio desce depressa, a água volta a entrar e dá edema cerebral.

O diagnóstico é clínico. A pergunta que decide a conduta é o grau de desidratação.

Grau de desidratação

  • O padrão de referência é a percentagem de peso perdido, comparando com um peso recente. Pesar sempre.
  • Sem esse peso, estima-se pelos sinais. A classificação em três grupos (sem desidratação ou mínima, ligeira a moderada, grave) é a base do tratamento.
sinalsem desidratação ou mínima (menos de 3%)ligeira a moderada (3 a 9%)grave (mais de 9%)
Estado mentalbem, alertanormal, cansada ou inquieta, irritávelapática, letárgica, inconsciente
Sedebebe normalmente, pode recusar líquidoscom sede, ávidabebe mal ou não consegue
Frequência cardíacanormalnormal a aumentadataquicardia, com bradicardia nos casos mais graves
Pulsosnormaisnormais a diminuídosfracos, filiformes ou impalpáveis
Respiraçãonormalnormal ou rápidaprofunda
Olhosnormaisligeiramente encovadosmuito encovados
Lágrimaspresentesdiminuídasausentes
Boca e línguahúmidassecasmuito secas
Prega cutânearetorno imediatoretorno em menos de 2 segundosretorno em mais de 2 segundos
Preenchimento capilarnormalprolongadoprolongado
Extremidadesquentesfrescasfrias, marmoreadas, cianosadas
Diuresenormal a diminuídadiminuídamínima
  • Os três sinais isolados mais úteis são o tempo de preenchimento capilar prolongado, a prega cutânea e o padrão respiratório anormal, com respiração profunda da acidose.
  • Os sinais clínicos têm concordância apenas razoável a moderada entre observadores. Os primeiros só aparecem aos 3 a 4% de perda, e os de desidratação grave só aos 9 a 10%.
  • Os relatos dos pais têm pouca especificidade, mas uma diurese normal relatada torna a desidratação menos provável.
  • Na hipernatremia a desidratação é subestimada: pele pastosa, taquipneia, hipertonia, hiperreflexia, convulsões, sonolência ou coma, sobretudo abaixo dos 6 meses.

Exames

  • Na gastrenterite típica não se pede nenhum exame; a identificação do agente raramente muda a conduta. Proteína C reativa e procalcitonina não se pedem por rotina para distinguir vírus de bactéria.
  • Ionograma, função renal, glicemia e gasometria: em todas as desidratações graves, em todas as crianças que vão fazer fluidos endovenosos, e na desidratação moderada em que a história e o exame não batem certo. Um bicarbonato normal torna menos provável uma desidratação acima de 5%.
  • Estudo das fezes (coprocultura, parasitas, antigénios víricos): imunodeprimido, doença crónica de base, lactente pequeno com doença grave, regresso de zona endémica, diarreia prolongada em que se pondera tratamento dirigido, e surtos.
  • Toxina de Clostridioides difficile: criança mais velha com diarreia moderada ou grave depois de antibiótico de largo espetro ou internamento.
  • Se há síndrome hemolítica urémica, avisa-se o laboratório para procurar Escherichia coli produtora de toxina Shiga, que exige técnica própria.

Diagnóstico diferencial

entidadeo que a distingue
Invaginação intestinallactente, crises de choro com pernas fletidas, palidez e prostração; fezes com sangue sem febre
Apendicitea dor domina sobre a diarreia, com sinais de irritação peritoneal
Síndrome hemolítica urémicapalidez, oligúria e petéquias depois de diarreia com sangue
Cetoacidose diabéticavómitos, dor abdominal e respiração profunda, com poliúria prévia
Infeção urinária, meningite, sépsisfebre com vómitos e prostração desproporcionada
Alergia alimentarvómitos e diarreia bruscos depois de um alimento, por vezes com urticária ou broncospasmo, sem febre
Intolerância à lactosediarreia aquosa explosiva que irrita o períneo, depois de uma diarreia infeciosa prolongada
Doença inflamatória intestinalcriança mais velha, diarreia crónica com sangue, perda de peso

Sinais de alarme

  • Vómitos biliosos, distensão abdominal marcada, dor localizada ou com defesa: excluir causa cirúrgica.
  • Alteração do estado de consciência desproporcionada à desidratação.
  • Hepatomegalia, icterícia e dor no hipocôndrio direito: pensar em hepatite A.

Higiene

  • A lavagem das mãos das crianças e de quem cuida delas, antes e depois de preparar e comer alimentos, depois da casa de banho e da muda de fralda, é a medida mais eficaz.
  • Os vírus sem invólucro, como o norovírus, resistem às soluções alcoólicas mais do que os vírus com invólucro; contra o norovírus prefere-se água e sabão, e a solução alcoólica não a substitui.
  • Afastamento da creche até 48 horas depois do fim dos sintomas.
  • No hospital, precauções de contacto além das padrão: quarto individual para a criança que não controla os esfíncteres, luvas, higiene das mãos depois de as tirar, bata nos cuidados. Não se juntam doentes em coorte, nem pelo agente, pelo risco de somar outros.
  • O risco de gastrenterite nosocomial aumenta com a duração do internamento e pode chegar aos 70% nas crianças pequenas internadas 6 dias.

Aleitamento materno

  • O aleitamento materno predominante pode reduzir o risco de gastrenterite no lactente pequeno europeu.

Vacinas contra o rotavírus

monovalente (estirpe humana)pentavalente (estirpe bovina recombinada com humanas)
Doses2, aos 2 e 4 meses3, aos 2, 4 e 6 meses
Primeira dosea partir das 6 semanas e antes das 16entre as 6 e as 12 semanas
Última doseantes das 24 semanasantes das 33, de preferência às 20 a 22
Intervalo mínimo4 semanas4 semanas
No pré-termonascido com mais de 27 semanasnascido com 25 semanas ou mais
  • Vivas, atenuadas e orais; podem dar-se no mesmo dia das outras vacinas do programa. Termina-se o esquema com a mesma vacina.
  • Eficácia de 85 a 98% contra a doença grave nos ensaios europeus e americanos; onde a vacinação é universal há também proteção de grupo.
  • Associam-se a um risco baixo de invaginação, e o benefício supera-o.
  • Contraindicações: imunodeficiência combinada grave, suspeita ou confirmada; antecedentes de invaginação; malformações intestinais; mãe tratada com imunossupressores biológicos durante a gravidez.
  • Pode vacinar-se o lactente que vive com uma pessoa imunodeprimida, mas essa pessoa não lhe presta cuidados de higiene nas 4 semanas seguintes, e quem muda a fralda desinfeta as mãos.

Em Portugal

  • A vacina contra o rotavírus está no Programa Nacional de Vacinação só para grupos de risco, e não se dá durante o internamento. Os grupos incluem:
    • grandes pré-termo (idade gestacional inferior a 32 semanas) e baixo peso ao nascer (menos de 2500 g), desde que não internados;
    • cardiopatia grave, doença hereditária do metabolismo, doença hepática crónica (incluindo atresia das vias biliares), doença renal com risco de insuficiência avançada;
    • doença neurológica grave de início nos primeiros 3 meses, fibrose quística, hiperplasia suprarrenal congénita, insuficiência respiratória crónica do lactente.
  • Para as restantes crianças a vacina existe no mercado, mas fora do programa.

Probióticos

  • Para prevenir a diarreia associada a antibióticos, quando há fatores de risco, podem usar-se doses altas de Saccharomyces boulardii ou Lactobacillus rhamnosus GG, começadas com o antibiótico.
  • O Lactobacillus rhamnosus GG pode usar-se durante o internamento para prevenir a diarreia nosocomial.

Reidratar, realimentar cedo e usar fármacos com parcimónia.

Reidratação conforme o grau

graureidrataçãoperdas mantidas
Sem desidratação ou mínimanão há défice a repor; manter a alimentaçãosolução de reidratação oral depois de cada dejeção ou vómito
Ligeira a moderadasolução de reidratação oral, 50 a 100 mL/kg em 3 a 4 horasidem
Gravebólus endovenoso de 10 mL/kg de lactato de Ringer ou soro fisiológico, repetido com reavaliação, até a perfusão e o estado de consciência melhorarem; depois, reidratação oralidem; por sonda nasogástrica se não conseguir beber
  • Perdas mantidas, quando não se medem: cerca de 10 mL/kg por dejeção líquida e 2 mL/kg por vómito.
  • Técnica: pequenos volumes, 5 mL de cada vez com colher ou seringa, aumentando conforme a tolerância. O vómito não contraindica a via oral.
  • Solução de osmolaridade reduzida como primeira linha. Não se usam sumos, refrigerantes, bebidas desportivas nem soluções caseiras.

Sonda nasogástrica

  • Quando a via oral não é possível, a via entérica por sonda nasogástrica é a preferida e propõe-se antes da endovenosa: tem menos efeitos adversos graves e internamentos mais curtos.
  • Esquema rápido, 40 a 50 mL/kg em 3 a 6 horas, ou padrão em 24 horas; são igualmente eficazes.

Via endovenosa

  • Indicações: choque; desidratação com alteração da consciência ou acidose grave; agravamento ou ausência de melhoria apesar da via oral ou nasogástrica; vómitos persistentes apesar de técnica correta; distensão abdominal grave e íleo.
  • Choque: bólus de 10 mL/kg de cristaloide isotónico, com reavaliação depois de cada bólus (recomendações europeias de reanimação de 2025; as orientações de gastrenterite de 2014 davam 20 mL/kg) (soro fisiológico ou lactato de Ringer); se a tensão arterial não melhora, segundo ou terceiro bólus em 10 a 15 minutos, e pensar noutras causas de choque.
  • Desidratação grave sem choque: soro fisiológico a 20 mL/kg por hora durante 2 a 4 horas, e depois via oral ou solução com glicose. Esquemas ultrarrápidos não trazem vantagem.
  • Nas primeiras 24 horas não se usa solução com menos de 0,45% de cloreto de sódio, para não provocar hiponatremia. Quando a criança urina e os iões são conhecidos, junta-se 20 mEq/L de cloreto de potássio.
  • Hipernatremia: a reidratação oral ou por sonda com solução hipo-osmolar é eficaz e segura. Se for precisa a endovenosa, soro fisiológico, défice reposto devagar, tipicamente em 48 horas, com descida do sódio abaixo de 0,5 mmol/L por hora e sódio medido com frequência.

Internamento

  • Choque; desidratação grave (mais de 9% do peso); alterações neurológicas (letargia, convulsões); vómitos incoercíveis ou biliosos; falência da reidratação oral; suspeita de doença cirúrgica; condições de vigilância em casa não asseguradas.
  • Merecem observação médica, mesmo sem estes critérios, a criança com menos de 2 meses, com doença de base grave, com vómitos persistentes, com mais de 8 dejeções por dia ou com sinais de desidratação grave referidos pela família.
  • Alta quando a reidratação está conseguida, já não são precisos fluidos endovenosos, a ingestão iguala ou supera as perdas e há seguimento assegurado.

Alimentação

  • O aleitamento materno nunca se interrompe, nem durante a reidratação.
  • A dieta habitual para a idade retoma-se durante ou logo depois da reidratação inicial, nas primeiras 4 a 6 horas. O jejum não ajuda.
  • Não se dilui o leite nem se muda para fórmula sem lactose por rotina em ambulatório; na criança internada e não amamentada com menos de 5 anos a fórmula sem lactose pode considerar-se.
  • Não se recomendam dietas restritivas nem bebidas muito açucaradas.

Fármacos

fármacolugar
Ondansetronvómitos que impedem a reidratação oral, acima dos 6 meses e 8 kg: dose oral única antes de começar, 2 mg abaixo de 15 kg, 4 mg entre 15 e 30 kg, 8 mg acima de 30 kg; reduz a necessidade de fluidos endovenosos e o internamento, mas pode aumentar a diarreia
Metoclopramidanão se usa; contraindicada abaixo de 1 ano pelos efeitos extrapiramidais
Loperamidanão se recomenda; contraindicada abaixo dos 3 anos e na diarreia com febre ou sangue
Racecadotrilpode considerar-se; 1,5 mg/kg de 8 em 8 horas, não abaixo dos 3 meses, até 7 dias
Diosmectitepode considerar-se
Probióticospodem considerar-se, só com estirpes estudadas, porque encurtam a diarreia: Lactobacillus rhamnosus GG (10¹⁰ unidades formadoras de colónias por dia) ou Saccharomyces boulardii (250 a 750 mg por dia), 5 a 7 dias, com recomendação fraca e evidência de baixa certeza; Lactobacillus reuteri DSM 17938 (1 a 4 × 10⁸ unidades formadoras de colónias por dia, 5 dias), com evidência muito baixa. A associação de Lactobacillus helveticus R0052 com Lactobacillus rhamnosus R0011 não se recomenda, por falta de eficácia
Zincosem benefício onde a carência é rara, como na Europa; útil na criança desnutrida e nos países de baixo rendimento
Subsalicilato de bismutonão se recomenda
  • Dois grandes ensaios norte-americanos não mostraram benefício dos probióticos, e o efeito é específico de cada estirpe: o que se prova para uma não se transpõe para outra.

Antibiótico: a exceção

A grande maioria das crianças saudáveis com gastrenterite não precisa de antibiótico, seja qual for o agente.

agentequando tratarescolha
Shigellasempre, confirmada ou suspeitaazitromicina oral, 12 mg/kg no 1.º dia e 6 mg/kg nos 4 seguintes; ceftriaxona se for precisa a via parentérica, 50 mg/kg por dia, 2 a 5 dias
Salmonella não tifoidesó em crianças de alto risco: recém-nascido e lactente com menos de 3 meses, imunodeficiência, asplenia anatómica ou funcional, corticoides ou imunossupressores, doença inflamatória intestinal, acloridriaceftriaxona, 50 a 100 mg/kg por dia; no recém-nascido, cefotaxima
Campylobacterforma disentérica, de preferência nos primeiros 3 dias; também para travar a transmissão em crecheazitromicina, 10 mg/kg por dia 3 dias ou dose única de 30 mg/kg
Vibrio choleraeconfirmada ou suspeita pela viagemazitromicina, dose única de 20 mg/kg
Escherichia coli enterotoxigénicasobretudo na diarreia do viajanteazitromicina, 10 mg/kg por dia 3 dias
Escherichia coli produtora de toxina Shiganão se trata
Clostridioides difficilesuspender o antibiótico causal; tratar as formas moderadas e gravesmetronidazol oral, 30 mg/kg por dia 10 dias, ou vancomicina oral; nas formas graves e nas recorrências, vancomicina oral
Giardiasó com papel ativo nos sintomasmetronidazol, 10 mg/kg 3 vezes por dia, 7 a 10 dias
Entamoeba histolyticasempre, depois de a distinguir da Entamoeba dispar, que não é patogénicametronidazol
  • Na Salmonella de uma criança saudável o antibiótico não encurta os sintomas, não previne complicações e prolonga a excreção.
  • Na Escherichia coli produtora de toxina Shiga os antibióticos podem aumentar o risco de síndrome hemolítica urémica.
  • Via parentérica em vez de oral: criança que não consegue tomar a medicação, imunodeprimido com febre, toxemia ou bacteriemia, recém-nascido e lactente com menos de 3 meses com febre.
  • Diarreia aquosa: sem antibiótico, salvo viagem recente ou exposição a cólera. Diarreia com sangue e pouca febre: sem antibiótico, salvo se a epidemiologia sugerir shigelose.
Gastrenterite: grau de desidratação e reidratação Estimar a perda de peso pelos sinais e escolher a via de reidratação Grau (perda de peso) Sinais clínicos Reidratação Sem desidrataçãoou mínima(menos de 3%) Alerta, bebe normalmente,mucosas húmidas, lágrimaspresentes Manter a alimentação; soluçãode reidratação oral depoisde cada dejeção ou vómito Ligeira a moderada(3 a 9%) Sede, irritabilidade, olhosligeiramente encovados, mucosassecas, lágrimas diminuídas,prega que volta em menos de 2 s Solução de reidratação oral,50 a 100 mL/kg em 3 a 4 h;sonda nasogástrica se a viaoral falhar Grave(mais de 9%) Letargia, bebe mal, olhos muitoencovados, prega mais de 2 s, pulsofraco, extremidades frias,diurese mínima Bólus endovenoso de 10 mL/kgde soro fisiológico ou lactatode Ringer, a repetir até aperfusão melhorar Pontos-chave Manter a alimentação habitual e o aleitamento materno, sem dietas restritivas. Ondansetron em dose oral única quando os vómitos impedem a reidratação oral. Sem antibiótico por rotina, e contraindicado na E. coli produtora de toxina Shiga. Prevenção: higiene das mãos e vacina oral contra o rotavírus. A hipotensão é um sinal tardio de choque.
Esquema original InovaQB, baseado na classificação dos Centers for Disease Control and Prevention (2003) e nas recomendações ESPGHAN/ESPID de 2014.

Referências

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  13. Centers for Disease Control and Prevention. Preventing norovirus. Atlanta: CDC; 2024.

14 perguntas sobre Gastrenterite aguda

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar
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