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Bronquiolite aguda

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 17 perguntas neste tema

Em resumo

A bronquiolite aguda é a infeção vírica dos bronquíolos do lactente, reconhecida clinicamente como o primeiro episódio de dificuldade respiratória com sibilos ou fervores, depois de um a três dias de coriza. O diagnóstico é mais seguro no primeiro ano de vida, com pico entre os 3 e os 6 meses, e o vírus sincicial respiratório causa a maioria dos casos, em epidemias de outono e inverno.

A lesão é necrose e descamação do epitélio bronquiolar, com edema e rolhões de muco, e não broncospasmo: por isso os broncodilatadores não funcionam. O quadro agrava entre o terceiro e o quinto dia e depois melhora. A gravidade mede-se pela frequência respiratória, pela tiragem, pela saturação, pela capacidade de comer e pela apneia, que no lactente com menos de 6 semanas pode ser a primeira manifestação.

O diagnóstico é clínico, sem radiografia, análises nem pesquisa viral por rotina. O tratamento é de suporte: desobstrução nasal, hidratação, oxigénio quando a saturação fica persistentemente baixa e, nos casos graves, alto fluxo ou pressão positiva. Broncodilatadores, corticoides, antibióticos, soro hipertónico e cinesiterapia não têm lugar na bronquiolite típica.

A mudança maior está na prevenção, com o anticorpo monoclonal nirsevimab dado aos lactentes antes ou no início da época. O que não se pode falhar é o lactente pequeno com apneia ou exaustão, a hiponatremia com soros hipotónicos e o antibiótico dado por uma radiografia mal lida.

Agentes

agentefrequência
Vírus sincicial respiratório50 a 70%
Rinovírus10 a 30%
Metapneumovírus humano3,5 a 21%
Adenovírus2 a 14%
Bocavírus7 a 10%
Influenza2 a 10%
Parainfluenza0,5 a 7%
  • As coinfeções víricas são comuns, até um terço dos internados.
  • O vírus sincicial respiratório tem só o ser humano como reservatório. Transmite-se por gotículas e por contacto com secreções e superfícies, onde sobrevive horas. Incubação de 2 a 8 dias; transmite desde 2 dias antes até 10 dias depois do início dos sintomas.
  • A glicoproteína F, de fusão, permite a entrada do vírus e funde células vizinhas em sincícios multinucleados, que dão nome ao agente; é o alvo do nirsevimab e da vacina materna.

Da infeção à obstrução

  • O vírus replica-se no epitélio do nariz e desce por contiguidade até aos bronquíolos.
  • Segue-se inflamação aguda, edema e necrose do epitélio ciliado, com aumento da produção de muco: o lúmen fica ocupado por rolhões de células descamadas, muco e fibrina.
  • A obstrução é mecânica, e não por contração do músculo liso: é esta a razão por que os broncodilatadores falham.

Porque é que o lactente descompensa

  • A resistência ao fluxo varia com o inverso da quarta potência do raio: um pouco de edema num bronquíolo já estreito multiplica a resistência.
  • A obstrução é pior na expiração e funciona como válvula: o ar fica aprisionado e o pulmão hiperinsuflado.
  • Onde a obstrução é completa, o alvéolo colapsa (atelectasia); a ventilação colateral do lactente é pouco desenvolvida e não compensa.
  • O desequilíbrio entre ventilação e perfusão causa a hipoxemia. O trabalho respiratório cresce e, na exaustão, surgem hipercapnia e apneia.
  • O lactente respira sobretudo pelo nariz: a obstrução nasal pesa muito, sobretudo nas primeiras 6 semanas e no prematuro.

Imunidade

  • A infeção natural deixa imunidade incompleta e curta: há reinfeções ao longo da vida, e até na mesma época.
  • Por isso uma infeção recente não retira a indicação para imunização, e a prevenção do lactente faz-se com anticorpos dados de fora, monoclonais ou maternos.

O diagnóstico é clínico

  • Faz-se pela história e pelo exame, e a gravidade avalia-se da mesma forma.
  • Avalia-se sempre depois de desobstruir o nariz, registando o dia de doença, porque o pico é ao terceiro a quinto dia.
  • A frequência respiratória conta-se durante um minuto, com a criança calma e sem febre.
  • A oximetria de pulso mede-se em todos os lactentes com suspeita de bronquiolite.

Gravidade, segundo a norma da DGS

ligeiramoderadagrave
Frequência respiratória abaixo de 6 mesesaté 5050 a 70acima de 70
Frequência respiratória a partir de 6 mesesaté 4040 a 50acima de 50
Tiragemligeiraligeira a moderadaglobal
Outros sinaisapneia, adejo nasal ou gemidoapneia, adejo nasal ou gemido, letargia, má perfusão periférica
SpO294% ou mais89 a 92%88% ou menos
Alimentaçãosem dificuldade, bem hidratadocom dificuldadedesidratação

O que não se pede

  • Radiografia de tórax: não altera a conduta e aumenta o uso de antibióticos, porque as atelectasias, presentes em cerca de 25% dos internados, parecem infiltrados. Só na dúvida diagnóstica, na evolução atípica ou quando se propõem cuidados intensivos.
  • Hemograma, proteína C reativa, hemoculturas e uroculturas: não por rotina, sem critérios de gravidade nem suspeita de complicação.
  • Gasometria: só com critérios de cuidados intensivos ou quando a necessidade de oxigénio passa de 50%.
  • Pesquisa viral: não muda o tratamento; serve para isolar e agrupar os internados e para a vigilância epidemiológica.

O lactente febril com menos de 3 meses

  • Entre os 30 e os 90 dias, com bronquiolite e febre, a bacteriemia e a meningite são excecionais e a infeção urinária anda por 1%: não se rastreia infeção bacteriana grave por rotina.

Referenciar ao hospital (norma DGS)

  • Ingestão abaixo de 50% nas 24 horas anteriores, letargia, apneia.
  • Frequência respiratória em valores críticos para a idade, dificuldade moderada a grave, adejo nasal ou gemido.
  • SpO2 de 94% ou menos, ou dúvida diagnóstica.

Internar

  • Norma DGS: idade abaixo de 6 semanas, SpO2 de 92% ou menos, incapacidade de comer, dificuldade moderada a grave ou em agravamento com hipoxemia, fatores de risco, família sem condições de vigiar ou longe dos cuidados.
  • NICE 2021: apneia; saturação persistente abaixo de 90% a partir das 6 semanas, ou abaixo de 92% antes das 6 semanas ou com doença de base; ingestão de 50 a 75% do habitual; dificuldade grave persistente.

Diagnóstico diferencial

entidadeo que a distingue
Pneumoniafebre acima de 39 °C, fervores focais persistentes
Sibilância associada a vírus, asma de início precoceepisódios anteriores, sibilos sem fervores, atopia pessoal ou familiar; mais acima dos 12 meses
Corpo estranhoinício súbito, sem pródromo
Cardiopatia com insuficiência cardíacasopro, hepatomegalia, má progressão ponderal
Tosse convulsaacessos de tosse com apneia ou cianose
Fibrose quística, aspiração por refluxo, malformações pulmonaressintomas recorrentes, má progressão ponderal

Medidas gerais

  • Higiene das mãos antes e depois de tocar no lactente, com solução alcoólica ou água e sabão; etiqueta respiratória.
  • Evitar o fumo do tabaco, também na gravidez, e os locais com muita gente; quem tem sintomas respiratórios afasta-se dos lactentes de risco.
  • Aleitamento materno, exclusivo durante 6 meses.
  • No hospital: precauções básicas de controlo de infeção, isolamento e coorte dos doentes, limpeza das superfícies.

Nirsevimab

  • Anticorpo monoclonal humano IgG1 dirigido a um local muito conservado da proteína F na forma pré-fusão, ativo contra os subtipos A e B. É imunização passiva e imediata, não uma vacina.
  • Dose única intramuscular, na coxa antes dos 12 meses; protege durante pelo menos 5 a 6 meses, o que cobre uma época.
indicaçãodose
Peso abaixo de 5 kg50 mg
Peso de 5 kg ou mais100 mg
Criança de risco na segunda época200 mg, em duas injeções de 100 mg
  • Não há indicação para terceira dose. Abaixo de 1 kg, só excecionalmente.
  • Pode dar-se no mesmo dia que as vacinas do calendário, em seringa e local diferentes.
  • Vigilância de 30 minutos depois da administração. A reação mais frequente é exantema, em 0,7%.
  • Uma infeção recente pelo vírus não retira a indicação.
  • Depois de cirurgia cardíaca com circulação extracorporal pode ser precisa uma dose adicional, logo que o lactente estabilize.
  • Em Portugal reduziu em 78,5% o risco de internamento por vírus sincicial respiratório na primeira época em que foi usado.

Como a estratégia portuguesa cresceu

Desde a primeira campanha, todos os recém-nascidos da época são imunizados na maternidade, de preferência nas primeiras 24 a 48 horas. O que foi crescendo de época para época foi a repescagem dos nascidos antes do início da época:

épocanorma DGScoorte abrangidacobertura estimada
2024-2025005/2024nascidos de 1 de agosto de 2024 a 31 de março de 202586%
2025-2026008/2025nascidos de 1 de junho de 2025 a 31 de março de 202691,1%
2026-2027004/2026nascidos de 1 de abril de 2026 a 31 de março de 2027por medir

Em 2026 a estratégia passou a universal: todas as crianças saudáveis que entram na primeira época. A campanha decorre de 16 de setembro a 31 de março; os nascidos antes de 16 de setembro são imunizados nos cuidados de saúde primários, na repescagem até 30 de outubro ou na primeira oportunidade depois disso.

A estes juntam-se dois grupos:

  • Pré-termo até às 33 semanas e 6 dias nascidos entre 1 de janeiro e 31 de março de 2026, se ainda não imunizados.
  • Crianças com fator de risco a entrar na segunda época, com menos de 24 meses a 30 de setembro: cardiopatia hemodinamicamente significativa, hipertensão pulmonar moderada ou grave, displasia broncopulmonar moderada ou grave, doença pulmonar crónica sob oxigénio, diuréticos ou corticoides nos 6 meses anteriores, doença neuromuscular com compromisso respiratório, sequelas graves de hérnia diafragmática congénita, imunodeficiência grave, anomalias cromossómicas ou doenças hereditárias do metabolismo com compromisso imunitário ou respiratório, fibrose quística. A sibilância recorrente ou a asma sob corticoide inalado, sem outro critério, não conta.

Vacina materna

  • Vacina bivalente de proteína F pré-fusão, dose única entre as 24 e as 36 semanas, por prescrição médica e comprada na farmácia. Protege o lactente do nascimento até aos 6 meses.
  • Dispensa o nirsevimab se foi dada 14 dias ou mais antes do parto.
  • O nirsevimab deve ser considerado se o parto ocorreu menos de 14 dias depois da vacina. Pode sê-lo quando a proteção materna pode ter falhado: mãe imunodeprimida ou com infeção por VIH; perda de anticorpos por circulação extracorporal, oxigenação por membrana extracorporal ou exsanguinotransfusão; e crianças dos grupos de risco que completam 6 meses durante a época, imunizadas logo depois dos 6 meses.

Palivizumab

  • Também anticorpo contra a proteína F, mas de semivida curta: 15 mg/kg por mês, até 5 doses, e só em grupos de risco. Já não faz parte da campanha sazonal, onde o anticorpo disponível é o nirsevimab.

Em casa, a maioria

  • Desobstrução nasal com soro fisiológico, sobretudo antes das refeições; sem descongestionantes.
  • Refeições mais pequenas e mais frequentes, cabeceira elevada.
  • Ensino aos pais: os sinais de alarme (esforço respiratório crescente, ingestão de 50 a 75% do habitual ou nenhuma fralda molhada em 12 horas, apneia ou cianose, exaustão), que o pico é ao terceiro a quinto dia, e que não se fuma em casa.

No hospital

  • Oxigénio por óculos nasais ou máscara:
    • norma da DGS: com SpO2 de 92% ou menos;
    • NICE 2021: saturação persistente abaixo de 90% a partir das 6 semanas, ou abaixo de 92% antes das 6 semanas ou com doença de base.
  • Oximetria contínua só no início, nos graves, com comorbilidades, em alto fluxo ou ventilados; pára-se quando o lactente melhora, porque as dessaturações transitórias no sono prolongam o internamento.
  • Hidratação por sonda nasogástrica quando não come o suficiente; por via endovenosa se não tolera a sonda ou está grave, com soros isotónicos.
  • Aspiração das vias aéreas superiores não por rotina: quando as secreções causam dificuldade respiratória ou alimentar, e sempre perante apneia.

Suporte ventilatório

  • Oxigénio de alto fluxo aquecido e humidificado e pressão positiva contínua (CPAP) nos casos graves ou em agravamento e na insuficiência respiratória iminente; o alto fluxo reduz o trabalho respiratório.
  • Cuidados intensivos (norma DGS) perante: necessidade crescente de oxigénio ou mais de 3 L/min mantidos, incapacidade de manter SpO2 acima de 90% ou pH de 7,3 ou menos; deterioração do estado geral ou da consciência, exaustão; apneias recorrentes ou bradicardia.

O que não se faz

intervençãoporquê
Salbutamol, brometo de ipratrópioa obstrução não é broncospasmo; sem benefício
Adrenalina nebulizadaefeito transitório; a DGS só a admite no internamento, como exceção, em SOS e com avaliação objetiva
Soro hipertónico nebulizadonunca em ambulatório; no internamento a evidência é contraditória e só se mantém com melhoria objetiva
Corticoides, inalados ou sistémicossem benefício, nem na fase aguda nem depois
Antibióticossó com infeção bacteriana documentada, como otite média aguda ou infeção urinária
Cinesiterapia respiratóriasem benefício, salvo comorbilidade que dificulte a tosse
Antitússicos, descongestionantes, anti-histamínicos, antileucotrienos, humidificadores, helioxsem benefício
  • A ribavirina não entra na bronquiolite comum; pondera-se só em alguns imunodeprimidos.

Alta

  • Clinicamente estável, a comer o suficiente, com a família capaz de vigiar.
  • Saturação em ar ambiente: norma da DGS, 92% ou mais; NICE 2021, acima de 90% (acima de 92% antes das 6 semanas ou com doença de base) durante 4 horas, incluindo um período de sono.
Bronquiolite: o que fazer e o que evitar Bronquiolite típica: o tratamento é de suporte Fazer (suporte) Não fazer por rotina Oxigénio suplementar se SpO₂ persistente abaixo de 90 a 92% Hidratação oral fracionada; se não chega, por sonda Desobstrução nasal soro fisiológico, sobretudo antes de comer Vigilância de apneia abaixo das 6 semanas ou ex-prematuro Broncodilatador (salbutamol) obstrução por edema e muco, não broncospasmo Corticoides sem eficácia na bronquiolite aguda Antibióticos só com infeção bacteriana documentada Adrenalina nebulizada sem benefício sustentado Soro hipertónico nebulizado evidência inconsistente Fisioterapia respiratória só se a comorbilidade dificulta a tosse Prevenção: imunização passiva Nirsevimab, anticorpo monoclonal contra o VSR: dose única intramuscular Portugal: todos os nascidos durante a época desde 2024-2025; desde 2026-2027, todas as crianças a entrar na primeira época. Vacina materna, às 24 a 36 semanas Dispensa o nirsevimab só se dada 14 dias ou mais antes do parto. Palivizumab: mensal e só em grupos de risco; já não entra na campanha sazonal.
Esquema original InovaQB, baseado na Norma DGS 016/2012, na NICE NG9 (2021), na AAP 2014 e nas normas DGS de imunização contra o VSR (005/2024, 008/2025, 004/2026).

Referências

  1. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 016/2012, de 19/12/2012, atualizada a 23/02/2015: Diagnóstico e tratamento da bronquiolite aguda em idade pediátrica. Lisboa: DGS; 2015.
  2. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 004/2026, de 02/09/2026: Imunização sazonal contra o vírus sincicial respiratório em idade pediátrica, outono-inverno 2026-2027. Lisboa: DGS; 2026.
  3. Direção-Geral da Saúde. Livro Azul de Vacinas. Capítulo 43: Vírus sincicial respiratório. Lisboa: DGS; 2026.
  4. National Institute for Health and Care Excellence. Bronchiolitis in children: diagnosis and management. NICE guideline NG9. Londres: NICE; 2015, atualizada em 2021.
  5. Ralston SL, Lieberthal AS, Meissner HC, et al. Clinical practice guideline: the diagnosis, management, and prevention of bronchiolitis. Pediatrics. 2014;134(5):e1474-e1502.
  6. Sánchez Martín M, Calvo Rey C. Bronquiolitis aguda. In: Guerrero-Fernández J, et al., editores. Manual de diagnóstico y terapéutica en pediatría. Hospital Infantil La Paz. 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. p. 1379-85.
  7. Gaio V, et al. Nirsevimab effectiveness against RSV-related hospitalisations in children under 24 months: a test-negative case-control study in Portugal, 2024-2025. Influenza Other Respir Viruses. 2025. doi:10.1111/irv.70186.

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