Anemia na criança
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 27 perguntas neste tema
A anemia na criança define-se contra o valor de referência da idade, e não contra um número único. A hemoglobina é alta ao nascer, desce nos primeiros meses até um nadir fisiológico que não é doença, e volta a subir; na adolescência separa-se por sexo, porque no rapaz acompanha os androgénios e o estádio pubertário. O mesmo valor pode ser normal aos 2 meses e anemia aos 2 anos.
A idade é também a primeira pista para a causa. Nas primeiras horas de vida pensa-se em hemorragia e em hemólise isoimune; entre os 3 e os 6 meses a ferropenia é pouco provável e uma anemia microcítica obriga a pensar em hemoglobinopatia; dos 6 meses aos 2 anos e na adolescência, os períodos de crescimento rápido, domina a ferropenia, que é de longe a causa mais frequente.
O estudo começa por três exames: hemograma, contagem de reticulócitos e esfregaço de sangue periférico. O volume globular médio, lido para a idade, e os reticulócitos arrumam quase todos os casos: microcitose sem resposta medular é ferropenia até prova em contrário, e o traço talassémico é o diagnóstico diferencial que custa meses de ferro inútil; reticulocitose com icterícia é hemólise, que se estuda com o teste de antiglobulina direta; reticulócitos baixos com hemoglobina normocítica apontam para falência de produção.
A ferropenia previne-se com clampagem tardia do cordão, ferro profilático no pré-termo e no baixo peso, e sem leite de vaca antes dos 12 meses. Trata-se com ferro oral em ferro elementar, dose única diária, mantido durante meses depois de a hemoglobina normalizar. A transfusão é rara fora do pré-termo, da hemólise aguda e da drepanocitose, e prescreve-se em mililitros por quilograma com limiares restritivos.
O que não se pode falhar é a leucemia por trás de uma anemia com outras citopenias, dor óssea ou organomegalias, o sequestro esplénico e a sépsis na criança com drepanocitose, e o traço talassémico tratado como ferropenia.
Anemia é a hemoglobina abaixo do limite inferior da referência para a idade e o sexo, habitualmente dois desvios-padrão abaixo da média. Nos primeiros meses a referência muda de semana para semana; a partir dos 6 meses usam-se os cortes da Organização Mundial da Saúde (OMS), revistos em 2024, que para diagnóstico individual e populacional correspondem ao percentil 5 de populações saudáveis.
Limite inferior da hemoglobina por idade
| idade | limite inferior (g/dL) | anemia grave |
|---|---|---|
| 1 a 3 dias | 14,5 | |
| 1 mês | 10,0 | |
| 2 meses | 9,0 | |
| 3 a 5 meses | 9,5 | |
| 6 a 23 meses (OMS) | 10,5 | abaixo de 7,0 |
| 24 a 59 meses (OMS) | 11,0 | abaixo de 7,0 |
| 5 a 11 anos (OMS) | 11,5 | abaixo de 8,0 |
| 12 a 14 anos, ambos os sexos (OMS) | 12,0 | abaixo de 8,0 |
| a partir dos 15 anos, rapariga não grávida (OMS) | 12,0 | abaixo de 8,0 |
| a partir dos 15 anos, rapaz (OMS) | 13,0 | abaixo de 8,0 |
Os valores até aos 5 meses são os limites de dois desvios-padrão do manual de pediatria de referência; os restantes são os cortes da OMS de 2024. A OMS separou em 2024 os 6 a 23 meses dos 24 a 59 meses, e baixou o corte do primeiro grupo de 11,0 para 10,5 g/dL.
Na adolescente grávida valem os cortes da gravidez e não os da idade: 11,0 g/dL no primeiro e no terceiro trimestres e 10,5 g/dL no segundo, com anemia grave abaixo de 7,0 g/dL.
Correções e enganos
- A OMS manda ajustar a hemoglobina à altitude de residência e ao tabagismo, que a sobem, e não a ajustar à etnia nem à inflamação.
- No rapaz a hemoglobina sobe com a testosterona, e por isso interpreta-se pelo estádio pubertário: dois rapazes de 13 anos em fases diferentes da puberdade têm valores normais diferentes. Na rapariga não há variação apreciável com a puberdade.
- A amostra capilar dá valores que variam em relação à venosa, e a diferença não se corrige por fórmula; um valor capilar alterado confirma-se em sangue venoso.
- A hemodiluição baixa a hemoglobina sem baixar a massa eritrocitária, e a desidratação esconde uma anemia verdadeira.
Classificação
Classifica-se por dois eixos. O volume globular médio (VGM), sempre ajustado à idade, separa a anemia microcítica, a normocítica e a macrocítica; como orientação na criança, microcitose abaixo de 70 fL e macrocitose acima de 90 a 95 fL. Os reticulócitos separam a anemia regenerativa, por perda ou destruição, da arregenerativa, por falta de produção; o normal é 0,2 a 2% na criança e 2 a 6% no recém-nascido. A amplitude de distribuição eritrocitária (RDW), normal em 13 ± 1%, sobe quando convivem eritrócitos de tamanhos diferentes, como na ferropenia.
Não se podem falhar
- Leucemia e infiltração medular: anemia com trombocitopenia ou neutropenia, blastos, dor óssea, adenopatias ou hepatoesplenomegalia.
- Hemólise aguda grave: anemia hemolítica autoimune, crise do défice de glucose-6-fosfato desidrogenase (G6PD), microangiopatia como a síndrome hemolítico-urémica.
- Sequestro esplénico na criança com drepanocitose, que se reconhece pelo baço a crescer depressa e pela hemoglobina a cair mais de 2 g/dL.
- Crise aplástica por parvovírus B19 numa criança com hemólise crónica.
- Hemorragia, aguda ou oculta, incluindo a perda feto-materna no recém-nascido.
Causas por idade
| idade | causas mais prováveis |
|---|---|
| Primeiras horas e dias | hemorragia (feto-materna, entre gémeos, obstétrica), hemólise isoimune |
| 2 a 3 meses | nadir fisiológico; no pré-termo, anemia da prematuridade |
| 3 a 6 meses | hemoglobinopatias a revelar-se; a ferropenia é pouco provável no termo |
| 6 meses a 2 anos | ferropenia, sobretudo com excesso de leite de vaca |
| Idade escolar | anemia da inflamação, hemólise crónica, eritroblastopenia transitória, leucemia |
| Adolescência | ferropenia por menstruação abundante, dieta restritiva ou crescimento; doença inflamatória intestinal; doença celíaca |
Causas pelo par volume globular e reticulócitos
| reticulócitos baixos ou normais | reticulócitos altos | |
|---|---|---|
| Microcítica | ferropenia, anemia da inflamação, intoxicação por chumbo, anemia sideroblástica | talassemias, ferropenia em tratamento |
| Normocítica | anemia da inflamação, doença renal crónica, eritroblastopenia transitória, infiltração medular, aplasia | hemorragia aguda, hemólises (esferocitose, G6PD, autoimune, microangiopatia, hiperesplenismo) |
| Macrocítica | défice de vitamina B12 ou de folato, hipotiroidismo, doença hepática, anemia de Fanconi, Diamond-Blackfan, mielodisplasia | crise hemolítica com reticulocitose marcada |
A anemia de instalação lenta pode não dar sintomas nem sinais, e é por isso que tantas se descobrem numa análise pedida por outro motivo. A primeira pergunta é se a anemia é aguda ou crónica, e a segunda se há sinais de hemólise, de perda ou de doença medular.
História
- Período neonatal: idade gestacional, anemia ou icterícia neonatal, internamento, resultado do rastreio neonatal.
- Alimentação, de forma quantitativa: que leite e quanto por dia, idade de introdução do leite de vaca, carne e peixe, dieta vegetariana ou vegana, pica.
- Perdas: padrão menstrual na adolescente, sangue nas fezes, epistaxes, antecedentes de doença hemorrágica.
- Hemólise: icterícia, urina escura, episódios depois de infeções, favas ou fármacos.
- Família: anemia, icterícia, litíase biliar precoce, esplenectomia ou transfusões em familiares; origem geográfica, porque as hemoglobinopatias e o défice de G6PD se concentram em populações de origem mediterrânica, africana e asiática.
Exame
- Palidez procurada nas conjuntivas, nas palmas, nas plantas e nas unhas.
- Icterícia das conjuntivas e hepatoesplenomegalia sugerem hemólise.
- Taquicardia, sopro, letargia ou sinais de instabilidade hemodinâmica medem a repercussão.
- Adenopatias, hematomas, petéquias e dor óssea sugerem doença medular.
- Dismorfias (polegares, face, orelhas) sugerem falência medular congénita.
Sinais de alarme
- Citopenia em mais de uma linha, ou blastos no esfregaço.
- Dor óssea, sobretudo noturna, adenopatias ou hepatoesplenomegalia.
- Reticulocitopenia numa criança com hemólise conhecida.
- Instabilidade hemodinâmica, insuficiência cardíaca, hemoglobinúria.
- Na drepanocitose: febre, dor torácica, baço a aumentar, sinais neurológicos, palidez ou prostração de novo, priapismo que se prolonga.
Primeiro nível
Hemograma com reticulócitos e esfregaço de sangue periférico, bioquímica com desidrogenase láctica e bilirrubina fracionada, cinética do ferro (ferro sérico, capacidade total de fixação, saturação da transferrina e ferritina, e, na dúvida, recetor solúvel da transferrina) e doseamento de vitamina B12 e de folato quando o volume globular está alto.
Os reticulócitos em percentagem corrigem-se para o hematócrito, porque se referem a um número normal de eritrócitos: reticulócitos corrigidos são a percentagem medida multiplicada pelo hematócrito do doente e dividida pelo hematócrito normal para a idade.
Anemia microcítica
A ferritina decide. Baixa, é ferropenia. Normal ou alta com saturação baixa e proteína C reativa elevada, é anemia da inflamação. Normal com ferro normal, pede-se o estudo das hemoglobinas; se também for normal, pensa-se em chumbo e em anemia sideroblástica.
| ferropenia | anemia da inflamação | traço talassémico | |
|---|---|---|---|
| Número de eritrócitos | baixo | normal ou baixo | normal ou alto |
| RDW | alta | normal | normal |
| Ferritina | baixa | normal ou alta | normal |
| Saturação da transferrina | baixa | baixa ou normal | normal |
| Capacidade total de fixação | alta | normal ou baixa | normal |
| Índice de Mentzer | acima de 13 | variável | abaixo de 13 |
| Resposta ao ferro | sim | não | não |
O índice de Mentzer é o VGM (fL) dividido pelo número de eritrócitos (milhões por µL). No traço talassémico os eritrócitos são pequenos mas numerosos e a anemia é ligeira para a microcitose; na ferropenia os eritrócitos são poucos e a anisocitose é marcada.
A ferritina é reagente de fase aguda e lê-se sempre com a proteína C reativa. A OMS aceita ferropenia com ferritina abaixo de 12 µg/L até aos 5 anos e abaixo de 15 µg/L a partir dessa idade; com infeção ou inflamação, abaixo de 30 µg/L até aos 5 anos e abaixo de 70 µg/L depois. A Academia Americana de Pediatria propôs em 2026 limiares mais altos, 20 µg/L na criança e 30 µg/L na adolescente, para não deixar escapar a ferropenia inicial.
Anemia normocítica ou macrocítica com reticulócitos altos
Procura-se hemólise: desidrogenase láctica e bilirrubina indireta altas e haptoglobina baixa. O teste de antiglobulina direta (Coombs direto) separa as imunes, autoimune ou aloimune, das não imunes, que se estudam pelo esfregaço (esferócitos, esquizócitos, drepanócitos, células mordidas), pelo estudo das hemoglobinas, pelos testes de membrana e pelas enzimas. Sem hemólise, os reticulócitos altos apontam para hemorragia, visível ou oculta.
Anemia normocítica ou macrocítica com reticulócitos baixos
Doseiam-se vitamina B12, folato e função tiroideia na macrocítica. Com reticulocitopenia isolada numa criança saudável pensa-se em eritroblastopenia transitória e em parvovírus B19; excluídos estes, ou havendo outra citopenia, faz-se mielograma e biópsia óssea.
O esfregaço
| achado | sugere |
|---|---|
| Esferócitos | esferocitose hereditária, anemia hemolítica autoimune |
| Esquizócitos | síndrome hemolítico-urémica, coagulação intravascular disseminada, válvula protésica |
| Drepanócitos | drepanocitose |
| Células em alvo | hemoglobinopatias, doença hepática, pós-esplenectomia |
| Corpos de Heinz, células mordidas | défice de G6PD, hemoglobinas instáveis |
| Ponteado basófilo | intoxicação por chumbo, talassemias |
| Corpos de Howell-Jolly | asplenia, incluindo a funcional da drepanocitose |
| Blastos | leucemia |
A maioria das anemias da criança trata-se tratando a causa, e o que exige decisão imediata é a transfusão. Decide-se pela clínica e pela hemoglobina em conjunto, e numa anemia crónica bem tolerada uma hemoglobina baixa não obriga a transfundir.
Limiares de transfusão
| situação | limiar de hemoglobina |
|---|---|
| Criança crítica hemodinamicamente estável | não transfundir com 7 g/dL ou mais |
| Doença oncológica, estável | 7 a 8 g/dL |
| Lesão cerebral aguda | considerar entre 7 e 10 g/dL |
| Pós-operatório estável, sem cardiopatia cianótica | 7 g/dL |
| Pré-termo com menos de 30 semanas | depende da semana de vida e do suporte respiratório |
Na drepanocitose não se usa o limiar de 7 g/dL: decide-se pela queda em relação à hemoglobina habitual da criança e pela complicação.
Volume
- Prescreve-se em mililitros por quilograma, nunca em unidades, abaixo dos 50 kg.
- Volume em mililitros: hemoglobina desejada menos hemoglobina atual (g/dL), vezes o peso, vezes 4. Cerca de 4 mL/kg sobem a hemoglobina 1 g/dL.
- Visa-se ficar até 2 g/dL acima do limiar, e confirma-se que o volume calculado não passa de 20 mL/kg numa transfusão simples.
- No recém-nascido a transfusão habitual é de 15 mL/kg em cerca de 4 horas.
- Na anemia hemolítica autoimune e na microangiopatia a transfusão evita-se; quando é inevitável, dá-se em pequenas alíquotas, de 5 mL/kg, lentas, em 2 a 3 horas.
Os componentes, a compatibilidade e as reações transfusionais são os do adulto.
- Urgente para hemato-oncologia pediátrica: anemia com outra citopenia ou blastos, dor óssea, adenopatias ou organomegalias sem explicação.
- Urgência hospitalar: instabilidade hemodinâmica, insuficiência cardíaca, hemólise aguda, e, na criança com drepanocitose, febre de 38,5 °C ou mais, dor moderada a grave, sintomas respiratórios, baço a aumentar, qualquer sinal neurológico ou priapismo de mais de 2 a 3 horas.
- Consulta de hematologia pediátrica: suspeita de hemólise congénita, hemoglobinopatia a confirmar, reticulocitopenia persistente, macrocitose sem carência, ferropenia que não responde depois de verificada a adesão e excluídas as causas digestivas.
- Aconselhamento genético: portadores de hemoglobinopatia e os seus pais, e adolescentes portadores quando chegam à idade reprodutiva.
A hemoglobina desce em todos os lactentes nos primeiros meses. No recém-nascido de termo essa descida atinge um nadir de 9 a 11 g/dL entre as 8 e as 12 semanas, com a criança assintomática, e chama-se anemia fisiológica do lactente; não é doença e não se trata.
No pré-termo a descida é mais precoce e mais profunda, entre as 4 e as 12 semanas, com hemoglobina a chegar a 8 a 10 g/dL, e soma-se a perda pelas colheitas: é a anemia da prematuridade, que atinge sobretudo os nascidos abaixo das 32 semanas e que muitas vezes precisa de transfusão.
Ao nascer, a respiração faz subir bruscamente a oxigenação dos tecidos. A produção de eritropoietina cai, a eritropoiese quase para, e os eritrócitos fetais, que vivem cerca de 90 dias no termo contra 120 no adulto, vão sendo removidos. Ao mesmo tempo o volume sanguíneo cresce com o peso. Quando a hemoglobina desce o suficiente, a eritropoietina volta a subir e a medula retoma a produção.
No pré-termo tudo se acentua: os eritrócitos vivem 35 a 50 dias, a eritropoietina responde mal à hipoxia, o crescimento é mais rápido e as colheitas de sangue pesam muito num volume sanguíneo pequeno.
A hemoglobina fetal predomina ao nascer e é substituída pela hemoglobina A ao longo do primeiro ano. É isto que marca o calendário das hemoglobinopatias: as doenças da cadeia beta, como a drepanocitose e a beta-talassemia, só se revelam a partir dos 3 a 6 meses, quando a cadeia beta passa a ser necessária, enquanto as alfa-talassemias graves já se manifestam in utero, porque a cadeia alfa entra também na hemoglobina fetal.
O diagnóstico de anemia fisiológica é de exclusão e só se faz quando tudo encaixa: idade certa, hemoglobina dentro do intervalo esperado, volume globular normal, criança assintomática, a crescer, sem icterícia nem esplenomegalia e sem outra citopenia. Não se pede hemograma de rotina ao lactente saudável para a procurar.
Deixa de ser fisiológica, e obriga a reticulócitos, esfregaço e teste de antiglobulina direta, quando a hemoglobina está abaixo do esperado para a idade, quando aparece fora do calendário, ou quando há sintomas, icterícia, esplenomegalia, microcitose ou outra citopenia.
No recém-nascido com anemia organiza-se o diferencial em três eixos: perda (hemorragia feto-materna, transfusão entre gémeos, hemorragia obstétrica ou interna), hemólise (isoimune, defeitos da membrana, das enzimas ou da hemoglobina, infeção) e produção (infeção congénita, Diamond-Blackfan). Uma perda aguda de 15 a 20 mL já pode dar anemia no recém-nascido. A anemia com icterícia nas primeiras 24 horas é hemólise até prova em contrário e segue o caminho da icterícia neonatal.
- Clampagem tardia do cordão, de pelo menos 1 minuto, no termo e no pré-termo que não precisam de reanimação: sobe a hemoglobina ao nascer e reduz a ferropenia aos 2 a 6 meses; no pré-termo reduz também as transfusões. O custo é mais policitemia assintomática.
- Menos colheitas: microcolheitas e só as análises que mudam a decisão.
- Ferro profilático no pré-termo, 2 a 3 mg/kg/dia de ferro elementar a partir das primeiras 2 semanas, com alimentação entérica completa.
- A eritropoietina reduz pouco as transfusões e associa-se a retinopatia da prematuridade; fica para situações particulares, como a recusa de transfusão pela família.
A anemia fisiológica do termo não se trata. Na anemia da prematuridade transfunde-se com limiares restritivos, que nos ensaios aleatorizados não pioraram a mortalidade nem o neurodesenvolvimento em relação aos liberais, e reduzem as transfusões.
Limiares no pré-termo com menos de 30 semanas de gestação
| semana de vida | com suporte respiratório | sem suporte ou com suporte mínimo |
|---|---|---|
| 1.ª | 11 g/dL | 10 g/dL |
| 2.ª | 10 g/dL | 8,5 g/dL |
| 3.ª e seguintes | 9 g/dL | 7 g/dL |
Suporte respiratório significa qualquer pressão positiva, invasiva ou não, ou cânula nasal com fluxo de 1 L/min ou mais. Para os pré-termo mais maduros e para o termo há pouca evidência, e a sociedade britânica de hematologia sugere usar como referência os limiares do pré-termo sem oxigénio.
- Volume habitual: 15 mL/kg em cerca de 4 horas.
- Não se transfunde só porque a criança vai ter alta.
A ferropenia é a carência nutricional mais frequente do mundo, e a anemia ferropénica é a anemia mais frequente da criança. Distingue-se o défice de ferro sem anemia, em que as reservas estão esgotadas mas a hemoglobina ainda é normal, da anemia ferropénica, em que a hemoglobina já desceu.
Concentra-se nos dois períodos de crescimento rápido, dos 6 meses aos 2 anos e na adolescência. Os fatores de risco na criança pequena são o baixo peso ao nascer, o excesso de leite de vaca, a pouca ingestão de alimentos ricos em ferro, o nível socioeconómico baixo e a migração; na adolescente somam-se a menstruação abundante e as dietas restritivas.
O ferro do recém-nascido acumula-se sobretudo no terceiro trimestre, e é por isso que o pré-termo nasce com reservas menores. No termo, as reservas chegam para os primeiros meses; esgotam-se à medida que o volume sanguíneo cresce, e a partir dos 6 meses o ferro tem de vir da alimentação. O leite materno tem pouco ferro, embora bem absorvido, e é por isso que a diversificação alimentar com carne, peixe e cereais enriquecidos importa tanto.
O leite de vaca é a causa clássica na criança pequena, por três vias: tem pouco ferro, o cálcio e a caseína inibem a absorção, e no lactente pode causar perda de sangue oculta pelo intestino. Em excesso ocupa ainda o apetite e desloca os alimentos com ferro.
Outras causas: perdas (menstruação abundante, perdas digestivas por divertículo de Meckel, pólipos ou doença inflamatória intestinal), má absorção (doença celíaca, infeção por Helicobacter pylori, cirurgia intestinal) e, raramente, ferropenia refratária de causa genética.
A hepcidina é o regulador central: degrada a ferroportina, que exporta o ferro do enterócito e do macrófago. Sobe com a inflamação, o que explica a anemia da inflamação e a má resposta ao ferro oral quando há inflamação ativa; e sobe também depois de uma dose grande de ferro oral, reduzindo a absorção da dose seguinte até 48 horas depois, o que fundamenta os esquemas em dias alternados.
A depleção segue sempre a mesma ordem: primeiro esgotam-se as reservas e cai a ferritina, depois cai a saturação da transferrina e sobe a RDW, e só no fim cai a hemoglobina e aparece a microcitose.
A maioria das crianças não tem sintomas e o diagnóstico chega por uma análise. Quando há clínica, é a da anemia (palidez, cansaço, irritabilidade, taquicardia, sopro sistólico funcional) e a própria da carência de ferro: pica, que é a vontade de comer terra, gelo ou outras substâncias sem valor alimentar, e, na carência avançada, queilite angular e coiloníquia (unhas em colher).
O défice de ferro sem anemia já tem consequências: associa-se de forma consistente a pior desenvolvimento cognitivo, motor e comportamental no lactente, e parte desse atraso pode não reverter depois de reposto o ferro.
Na ferropenia é frequente a trombocitose reativa, que não assusta. Uma trombocitopenia com anemia, pelo contrário, manda pensar na medula.
A anemia microcítica com RDW alta, ferritina baixa e saturação da transferrina baixa faz o diagnóstico. A ferritina abaixo de 12 µg/L até aos 5 anos e de 15 µg/L depois confirma as reservas esgotadas; com a proteína C reativa elevada a ferritina sobe e pode parecer normal numa criança com reservas esgotadas.
Uma prova terapêutica com ferro é aceitável na criança pequena com anemia ligeira, microcitose, história alimentar compatível e sem sinais de alarme: se a hemoglobina subir, confirma o diagnóstico. Se não subir, estuda-se.
A cinética do ferro não se pede depois de iniciado o ferro, porque normaliza antes de as reservas estarem repostas.
Diagnóstico diferencial
- Traço talassémico: microcitose marcada com anemia ligeira ou nenhuma, eritrócitos numerosos, RDW normal, ferritina normal e HbA2 elevada no traço beta.
- Anemia da inflamação: ferritina normal ou alta, capacidade de fixação baixa, proteína C reativa elevada.
- Intoxicação por chumbo: ponteado basófilo; pensa-se nela em crianças com pica e casas antigas ou exposição ocupacional dos pais.
Quando investigar a causa
Na criança pequena com excesso de leite de vaca e boa resposta ao ferro, a causa está encontrada. Investiga-se quando a resposta falha, quando a anemia volta e quando a dieta não a explica: doença celíaca (anticorpos antitransglutaminase com imunoglobulina A total), sangue oculto nas fezes, doença inflamatória intestinal, Helicobacter pylori e, na adolescente, menstruação abundante e doenças hemorrágicas.
Profilaxia com ferro, sempre em ferro elementar
| grupo | recomendação |
|---|---|
| Pré-termo (menos de 37 semanas) | 2 a 3 mg/kg/dia, por suplemento ou fórmula, a partir das primeiras 2 semanas, com alimentação entérica completa |
| Baixo peso ligeiro (2000 a 2500 g) | 1 a 2 mg/kg/dia |
| Termo em aleitamento materno exclusivo | 1 mg/kg/dia a partir dos 4 meses, segundo a Academia Americana de Pediatria; a sociedade europeia de gastrenterologia, hepatologia e nutrição pediátricas (ESPGHAN) considera não haver evidência para suplementar por rotina o lactente europeu saudável de peso normal |
| Termo com fórmula | fórmula enriquecida em ferro, sem suplemento |
A divergência sobre o lactente de termo amamentado é real e é entre as duas sociedades; em Portugal não há norma que mande suplementar com ferro todos os lactentes.
Alimentação
- A partir dos 6 meses, alimentos ricos em ferro: carne, peixe, ovo, leguminosas e cereais enriquecidos. O ferro da carne e do peixe absorve-se melhor; a vitamina C na mesma refeição aumenta a absorção do ferro vegetal, e o chá e o cálcio reduzem-na.
- Sem leite de vaca não modificado como bebida principal antes dos 12 meses, e menos de 500 mL por dia depois.
Rastreio
O Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil (PNSIJ), da Direção-Geral da Saúde, não prevê hemograma de rotina no lactente nem na criança saudável. Prevê o rastreio de anemia e ferropenia na adolescência, orientado pelos hábitos alimentares e pelo padrão menstrual. No primeiro ano o suplemento de rotina é a vitamina D, 400 UI por dia, e não o ferro.
A Academia Americana de Pediatria recomenda desde 2026 rastreio universal com hemograma e ferritina aos 9 a 12 meses no lactente alimentado sobretudo com leite materno, aos 15 a 18 meses no alimentado com fórmula, e na adolescente um ano depois da menarca e nunca depois dos 14 anos.
Ferro oral
- Dose: 3 mg/kg/dia de ferro elementar na criança, em toma única diária; os manuais de pediatria usam até 4 a 6 mg/kg/dia. No adolescente, 65 mg de ferro elementar uma vez por dia. As tomas repartidas ao longo do dia não se recomendam, porque cada dose faz subir a hepcidina e reduz a absorção da seguinte.
- Forma: sal ferroso (sulfato ferroso), em gotas ou solução na criança pequena. Conta-se sempre o ferro elementar e nunca o peso do sal.
- Toma: em jejum, 30 a 60 minutos antes de comer, longe do leite, do chá e dos antiácidos. Os sais férricos podem tomar-se com a comida.
- Dias alternados são opção quando há intolerância digestiva ou má adesão.
- Duração: pelo menos 3 meses, e sempre para além da normalização da hemoglobina, para repor as reservas; os manuais indicam 3 a 6 meses no total.
- Corrigir ao mesmo tempo a causa, quase sempre a alimentação: reduzir o leite de vaca e introduzir alimentos com ferro.
Resposta esperada
- Os reticulócitos sobem em 4 a 7 dias e fazem pico em 1 a 1,5 semanas.
- Na anemia ligeira, a hemoglobina normaliza em cerca de 1 mês; na moderada ou grave, sobe pelo menos 2 g/dL ao fim de 1 mês.
- Reavalia-se ao fim de 4 semanas, e não se para o ferro quando a hemoglobina normaliza.
Se não responde
Procura-se, por esta ordem: adesão, que é a causa mais frequente; dose errada, prescrita em sal e não em ferro elementar, ou tomada com leite; perda que continua; má absorção, por doença celíaca ou Helicobacter pylori; diagnóstico errado, sendo talassemia, inflamação ou chumbo; e, raramente, ferropenia refratária genética.
Ferro endovenoso
Na intolerância ou na falência do ferro oral bem tomado, na má absorção e na doença inflamatória intestinal ativa. A dose total calcula-se pelo défice: peso (kg) vezes (15 menos a hemoglobina, em g/dL) vezes 2,4, mais 500 mg para as reservas.
Transfusão
Excecional na ferropenia, mesmo com hemoglobina muito baixa, porque a anemia é crónica e compensada. Reserva-se para a instabilidade ou a insuficiência cardíaca, em pequenas alíquotas e devagar.
- Adolescente com menstruação abundante desde a menarca: além de repor o ferro, excluir doença de von Willebrand e outras doenças hemorrágicas. O estudo da hemostase colhe-se antes de iniciar um contracetivo com estrogénio, que sobe o fator de von Willebrand e pode normalizar o resultado.
- Adolescente com anemia sem explicação alimentar: doença inflamatória intestinal e doença celíaca, em que a anemia pode ser a única manifestação; dietas restritivas e perturbações do comportamento alimentar; gravidez.
- Criança migrante: hemoglobinopatias, parasitoses intestinais (ancilostomíase, esquistossomíase), malária, tuberculose e chumbo; pede-se hemograma com esfregaço, ferritina com proteína C reativa, exame parasitológico das fezes e estudo das hemoglobinas.
- Criança com doença neurológica grave e dependência: disfagia, esofagite com perda oculta e inibidores da bomba de protões que reduzem a absorção.
- Doença renal crónica: anemia normocítica por falta de eritropoietina; garante-se o ferro antes de iniciar agentes estimuladores da eritropoiese.
Hemólise é a destruição precoce dos eritrócitos. Na criança dividem-se em congénitas, por defeito do próprio eritrócito (membrana, enzima ou hemoglobina), e adquiridas, imunes (autoimune, aloimune do recém-nascido, pós-transfusional) ou não imunes (microangiopatia, infeção, fármacos, hiperesplenismo).
As três congénitas que mais importam na criança portuguesa são a esferocitose hereditária, frequente em pessoas de origem europeia; o défice de G6PD, ligado ao X e mais frequente em populações mediterrânicas e africanas; e a drepanocitose. A anemia hemolítica autoimune da criança é em regra aguda, pós-infeciosa e transitória.
- Esferocitose hereditária: defeito das proteínas que prendem a membrana ao citoesqueleto (anquirina, banda 3, espectrina). O eritrócito perde membrana, fica esférico e rígido e é destruído no baço. A maioria das formas é autossómica dominante, e uma história familiar negativa não a exclui, por mutação nova ou forma recessiva.
- Défice de G6PD: sem a enzima o eritrócito não se defende do stress oxidativo; a hemoglobina precipita em corpos de Heinz, que o baço retira deixando células mordidas. A hemólise é episódica e aparece com infeções, favas e fármacos oxidantes (primaquina, sulfonamidas, nitrofurantoína, azul de metileno, rasburicase).
- Anemia hemolítica autoimune: anticorpos quentes, habitualmente imunoglobulina G, com hemólise sobretudo extravascular; anticorpos frios, imunoglobulina M fixadora de complemento, depois de Mycoplasma pneumoniae ou de vírus; e o anticorpo bifásico de Donath-Landsteiner, que se fixa ao frio e lisa a 37 °C, na hemoglobinúria paroxística a frigore, que surge depois de infeções.
- Parvovírus B19: infeta os precursores eritroides e interrompe a produção durante alguns dias. Na criança saudável não se nota; em quem tem hemólise crónica, que depende de produção acelerada, provoca uma crise aplástica, com queda brusca da hemoglobina e reticulócitos quase ausentes.
A tríade da hemólise crónica é anemia, icterícia e esplenomegalia, com litíase biliar de pigmento que pode surgir já na infância. Na esferocitose a gravidade varia muito: as formas graves dão anemia e icterícia no recém-nascido e transfusões no primeiro ano; as ligeiras só se descobrem por uma litíase ou por uma crise aplástica.
No défice de G6PD a criança está bem entre crises, e a crise surge depois do desencadeante, com palidez, icterícia e urina escura por hemoglobinúria. No recém-nascido pode apresentar-se como icterícia grave.
A anemia hemolítica autoimune instala-se em dias, com palidez, icterícia, urina escura e, quando é grave, taquicardia e insuficiência cardíaca.
A hemólise confirma-se por reticulocitose, desidrogenase láctica alta, bilirrubina indireta alta e haptoglobina baixa; na intravascular há hemoglobinúria. O teste de antiglobulina direta separa os dois caminhos.
| entidade | chave diagnóstica |
|---|---|
| Anemia hemolítica autoimune | teste de antiglobulina direta positivo, esferócitos; cerca de 2% têm teste negativo |
| Esferocitose hereditária | antiglobulina negativa, esferócitos, concentração de hemoglobina corpuscular média alta, história familiar; confirma-se pela fragilidade osmótica ou pela citometria de fluxo com eosina-5-maleimida |
| Défice de G6PD | células mordidas e corpos de Heinz na crise; doseamento da enzima |
| Drepanocitose e talassemias | estudo das hemoglobinas |
| Microangiopatia (síndrome hemolítico-urémica) | esquizócitos, trombocitopenia, lesão renal |
Medidas comuns
Ácido fólico nas hemólises crónicas, e transfusão quando a anemia não é tolerada. Na hemólise ativa e na autoimune transfunde-se só o necessário, lentamente e em pequenas alíquotas.
Anemia hemolítica autoimune a quente
- Depois de excluída a leucemia, corticoide: metilprednisolona endovenosa 2 a 4 mg/kg/dia nas primeiras 48 a 72 horas nos casos graves, e depois prednisona oral 2 mg/kg/dia, com redução ao longo de 1 a 4 meses. Respondem 50 a 80%, e a resposta pode demorar 7 a 10 dias.
- Segunda linha: rituximab; as imunoglobulinas respondem em cerca de 30%, com efeito transitório; nos refratários, imunossupressores e, na criança mais velha, esplenectomia.
Anemia hemolítica por anticorpos frios
Evitar o frio e aquecer o concentrado a 37 °C se for preciso transfundir. Os corticoides não resultam. A forma pós-infeciosa é em regra autolimitada.
Esferocitose hereditária
- Ácido fólico e transfusões quando necessárias, sobretudo no primeiro ano.
- Ecografia abdominal periódica a partir dos 5 anos, pela litíase.
- Esplenectomia nas formas graves, com muitas transfusões ou esplenomegalia importante, não antes dos 5 a 6 anos; nas moderadas adia-se, nas ligeiras não se faz. Vacinação contra pneumococo e meningococo antes da cirurgia.
Défice de G6PD
Entregar à família a lista escrita de fármacos e alimentos a evitar, começando pelas favas. A crise é em regra autolimitada; transfunde-se se houver instabilidade ou anemia mal tolerada.
- Crise aplástica por parvovírus B19, que pode exigir transfusão urgente até a medula recuperar.
- Litíase biliar de pigmento, às vezes já na idade escolar.
- Sobrecarga de ferro nos politransfundidos.
- Sépsis fulminante depois da esplenectomia, por pneumococo, meningococo e Haemophilus; é a razão para adiar a cirurgia até aos 5 a 6 anos, vacinar antes e ensinar a família a procurar ajuda perante febre.
As hemoglobinopatias são as doenças monogénicas mais frequentes do mundo. Dividem-se em alterações qualitativas, com hemoglobina estruturalmente anómala, das quais a mais importante é a hemoglobina S da drepanocitose, e quantitativas, as talassemias, em que uma das cadeias da globina se produz em quantidade insuficiente.
Em Portugal são mais frequentes nas populações de origem africana, mediterrânica e asiática. A doença no adulto, com as complicações crónicas, trata-se nas anemias do adulto.
- Drepanocitose: a hemoglobina S resulta da troca de ácido glutâmico por valina na cadeia beta e polimeriza quando desoxigenada. Os eritrócitos deformados ocluem a microcirculação e são destruídos. Os enfartes repetidos do baço levam à asplenia funcional na primeira infância, e daí a suscetibilidade às bactérias encapsuladas, sobretudo o pneumococo, e à Salmonella no osso.
- Beta-talassemia: produção reduzida (beta mais) ou ausente (beta zero) da cadeia beta; as cadeias alfa em excesso precipitam e destroem os precursores na medula, o que dá eritropoiese ineficaz e expansão medular.
- Alfa-talassemia: habitualmente por deleção de genes alfa, que são quatro. Com um gene a menos o portador é silencioso; com dois, é traço, com microcitose; com três, é doença da hemoglobina H, com anemia hemolítica moderada; sem nenhum, a hemoglobina de Bart leva a hidropsia fetal.
A hemoglobina fetal protege: enquanto é alta, a doença da cadeia beta fica escondida, e é esta proteção que a hidroxiureia procura recuperar na drepanocitose.
Drepanocitose
A doença aparece a partir dos 3 a 6 meses, com a queda da hemoglobina fetal. A primeira manifestação é muitas vezes a dactilite (síndrome mão-pé), inflamação dolorosa do dorso das mãos e dos pés.
| complicação | o que a reconhece |
|---|---|
| Sequestro esplénico | sobretudo abaixo dos 2 anos, antes da autoesplenectomia; baço a crescer depressa, queda da hemoglobina de mais de 2 g/dL com reticulocitose, às vezes trombocitopenia; choque em horas |
| Infeção grave | sépsis e meningite por pneumococo, Haemophilus e meningococo; osteomielite por Salmonella e Staphylococcus aureus |
| Síndrome torácica aguda | febre, sintomas respiratórios, dor torácica e infiltrado novo no radiograma; pode evoluir para insuficiência respiratória |
| Crise vaso-oclusiva | dor aguda nos ossos, no abdómen ou no tórax |
| Acidente vascular cerebral | défice neurológico agudo; a tomografia pode ser normal nos primeiros 2 a 4 dias |
| Crise aplástica | palidez intensa com reticulócitos baixos, por parvovírus B19 |
| Priapismo | ereção dolorosa prolongada |
Talassemias
O traço talassémico é assintomático, com microcitose e anemia ligeira ou nenhuma. A beta-talassemia major dá anemia grave a partir dos primeiros meses, hepatoesplenomegalia e atraso de crescimento, e, sem transfusões, deformações ósseas da face por expansão medular.
Rastreio neonatal da drepanocitose
A drepanocitose entrou no rastreio neonatal português depois de um estudo piloto iniciado em maio de 2021 nas áreas de Lisboa e de Setúbal, alargado a todo o país em fevereiro de 2022; em 2023 já fazia parte do painel do teste do pezinho. As talassemias não estão no rastreio neonatal: descobrem-se pelo hemograma. Ver os rastreios neonatais.
Confirmação
- Estudo das hemoglobinas por cromatografia líquida de alta resolução ou eletroforese: na drepanocitose homozigótica há hemoglobina S sem hemoglobina A; no traço beta-talassémico a HbA2 está elevada, habitualmente entre 4 e 6%.
- O traço alfa-talassémico tem estudo das hemoglobinas normal e confirma-se pelo estudo molecular.
- Esfregaço com drepanócitos e células em alvo na drepanocitose.
Na criança com drepanocitose e febre ou dor
Hemograma com reticulócitos, bioquímica com desidrogenase láctica, proteína C reativa, hemoculturas, urina e urocultura, gasometria, radiograma do tórax, e prova cruzada se houver palidez. Punção lombar no lactente com menos de 1 ano ou com qualquer sinal meníngeo; aspiração da lesão para cultura se houver suspeita de osteomielite.
Fora do período neonatal
A Circular Normativa n.º 18/DSMIA de 2004, da Direção-Geral da Saúde, orienta o estudo dos portadores na idade reprodutiva, antes e durante a gravidez: estudam-se as pessoas com VGM abaixo de 80 fL ou hemoglobina globular média abaixo de 27 pg, e as com história familiar, para identificar os casais em risco e oferecer diagnóstico pré-natal.
Na criança com drepanocitose, a prevenção é o que mudou a mortalidade:
- Penicilina oral profilática desde o diagnóstico: 125 mg duas vezes por dia abaixo dos 3 anos e 250 mg duas vezes por dia a partir dos 3, até pelo menos aos 5 anos.
- Vacinação completa, com as vacinas contra pneumococo, meningococo e Haemophilus influenzae tipo b em dia, e a vacina da gripe.
- Doppler transcraniano anual dos 2 aos 16 anos, para identificar as crianças com alto risco de acidente vascular cerebral e as iniciar em transfusões regulares.
- Hidroxiureia oferecida a todas as crianças com anemia de células falciformes a partir dos 9 meses, mesmo sem sintomas: reduz as crises dolorosas e a síndrome torácica aguda.
- Ensinar a família a palpar o baço, a medir a temperatura e a vir ao hospital sem demora perante febre de 38,5 °C ou mais, dor, dificuldade respiratória, baço a crescer, palidez ou sinais neurológicos.
- Ácido fólico e vitamina D como suporte.
Na talassemia, a prevenção das formas graves faz-se pelo estudo dos portadores e pelo aconselhamento genético dos casais.
Drepanocitose: o que se faz no hospital
- Febre: antibiótico empírico endovenoso logo que colhidas as hemoculturas, sem esperar pelos resultados.
- Dor: analgesia rápida e suficiente, com opioide quando a dor é moderada ou grave, hidratação e oxigénio se houver hipoxemia.
- Sequestro esplénico: repor a volemia e transfundir com urgência, sem ultrapassar o limite abaixo.
- Síndrome torácica aguda: antibiótico, oxigénio, analgesia e transfusão; transfusão de permuta se a criança piora.
- Acidente vascular cerebral: transfusão de permuta urgente.
- Transfusão: não se ultrapassa 10 g/dL de hemoglobina depois da transfusão, pelo risco de hiperviscosidade; antes de cirurgia com anestesia geral o alvo é cerca de 10 g/dL. Usa-se sangue com fenótipo alargado, para evitar a aloimunização.
O tratamento de fundo é a hidroxiureia e, em casos selecionados, o transplante de progenitores hematopoiéticos, como no adulto.
Talassemias
- Traço: não precisa de tratamento. Não se dá ferro a quem não tem ferropenia.
- Beta-talassemia major: transfusões regulares, quelação do ferro, e transplante de progenitores hematopoiéticos em casos selecionados, no centro de referência.
São as anemias com reticulócitos baixos que não se explicam por carência. Na criança, as que importam são:
- Eritroblastopenia transitória da infância: aplasia pura e adquirida da série vermelha, frequente, que surge depois de infeções virais numa criança até então saudável e recupera sozinha em semanas a meses.
- Anemia de Diamond-Blackfan: aplasia pura congénita da série vermelha, rara, por defeito dos ribossomas (o gene RPS19 é o mais frequente), que se apresenta nos primeiros meses de vida.
- Anemia de Fanconi, mielodisplasia e infiltração medular (leucemia, neuroblastoma), que atingem em regra mais de uma linha.
- Défice de vitamina B12 no lactente amamentado por mãe vegana sem suplemento, ou com anemia perniciosa não tratada.
A eritroblastopenia transitória e a Diamond-Blackfan apresentam-se da mesma maneira, com palidez progressiva sem icterícia nem organomegalias, e é o contexto que as separa. O lactente com défice de vitamina B12 tem anemia macrocítica com hipotonia, recusa alimentar, regressão do desenvolvimento e movimentos anormais, e a sequela neurológica é tanto maior quanto mais tarde se trata. A infiltração medular acompanha-se de outras citopenias, dor óssea, febre, adenopatias ou organomegalias.
| eritroblastopenia transitória | anemia de Diamond-Blackfan | |
|---|---|---|
| Frequência | frequente | rara |
| Causa | adquirida, pós-viral | genética, ribossomopatia |
| História familiar | ausente | pode estar presente |
| Anomalias congénitas | ausentes | presentes em muitos (face, polegares, coração, rins) |
| VGM | normal | aumentado |
| Hemoglobina fetal | normal para a idade | elevada |
| Adenosina desaminase eritrocitária | normal | elevada |
| Evolução | recupera sozinha em semanas a meses | prolongada; cerca de 25% remitem espontaneamente |
Na reticulocitopenia sem explicação pede-se a serologia ou a pesquisa do parvovírus B19. Se a criança tem outra citopenia, ou se a anemia não recupera, faz-se mielograma e biópsia óssea. A macrocitose do lactente estuda-se com vitamina B12, folato, homocisteína e ácido metilmalónico, e com o doseamento da B12 na mãe.
- Eritroblastopenia transitória: vigilância; transfusão só se houver instabilidade ou má tolerância.
- Diamond-Blackfan: prednisona 2 mg/kg/dia, reduzida até à dose mínima eficaz; cerca de 40% ficam dependentes de corticoide e outros de transfusões regulares, e o transplante de progenitores hematopoiéticos fica para casos selecionados.
- Défice de vitamina B12: vitamina B12 intramuscular ou subcutânea, 1 mg por dia durante 7 dias e depois 1 mg por mês até repor as reservas; tratar e suplementar também a mãe.
- Défice de folato: ácido fólico 1 a 5 mg por dia, durante 1 a 4 meses.
- Suspeita de leucemia: referenciação urgente, sem corticoide antes do diagnóstico.
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