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Doença celíaca na criança

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 13 perguntas neste tema

Em resumo

A doença celíaca é uma enteropatia crónica imunomediada, desencadeada pelo glúten do trigo, da cevada e do centeio em pessoas com HLA-DQ2 ou HLA-DQ8. Atinge cerca de 1% da população europeia, é mais frequente no sexo feminino e continua subdiagnosticada, porque na criança de hoje as formas não clássicas (anemia ferropénica, baixa estatura, obstipação, aftas, defeitos do esmalte, transaminases elevadas) são mais frequentes do que o quadro clássico de diarreia, distensão e má progressão ponderal.

O mecanismo junta três peças: um péptido do glúten que resiste à digestão, a transglutaminase de tipo 2, que o deamida e o torna mais afim do HLA, e as próprias moléculas HLA-DQ2 ou DQ8. Daí resultam linfocitose intraepitelial, hiperplasia das criptas e atrofia das vilosidades do intestino proximal, e anticorpos contra a própria enzima, que são a base do diagnóstico.

A investigação faz-se sempre com a criança a comer glúten. O primeiro teste é o anticorpo antitransglutaminase de classe A com a imunoglobulina A total, em qualquer idade. Com título de 10 ou mais vezes o limite superior e antiendomísio positivo numa segunda amostra, o diagnóstico dispensa a biópsia; abaixo disso, a endoscopia com biópsias decide, e o diagnóstico exige lesão Marsh 2 ou 3. Testam-se as crianças com sintomas compatíveis e os grupos de risco: familiares em primeiro grau, diabetes de tipo 1, tiroidite autoimune, síndromes de Down, Turner e Williams e défice de imunoglobulina A.

O tratamento é a dieta isenta de glúten, rigorosa e vitalícia, com seguimento que confirma a adesão e a normalização dos anticorpos. O que não se pode falhar é retirar o glúten antes de fechar o diagnóstico, esquecer a imunoglobulina A total e ler um antitransglutaminase negativo no défice de imunoglobulina A como exclusão.

O antigénio

  • O glúten é a fração proteica de armazenamento do trigo (onde se chama gliadina), da cevada e do centeio.
  • Os seus péptidos resistem à digestão e chegam intactos à lâmina própria.

A transglutaminase de tipo 2

  • Na lâmina própria, a TG2 deamida resíduos de glutamina dos péptidos do glúten, convertendo-os em ácido glutâmico.
  • Os péptidos deamidados ligam-se com muito maior afinidade às moléculas HLA-DQ2 e DQ8 das células apresentadoras de antigénio. É este o passo que torna o glúten imunogénico.
  • O doente produz também anticorpos contra a própria TG2, e são esses que se medem no diagnóstico.

A predisposição genética

  • A maioria dos doentes (90 a 95% em algumas populações) tem HLA-DQ2.5 (alelos DQA105 e DQB102); quase todos os restantes têm HLA-DQ8.
  • O HLA é necessário mas não suficiente: 25 a 35% da população geral tem um dos dois e nunca terá a doença. O valor preditivo positivo é baixo e o negativo é superior a 99%.
  • A homozigotia para DQ2.5 dá o risco mais alto.
  • Concordância de cerca de 80% nos gémeos monozigóticos e inferior a 20% nos dizigóticos: a genética não chega, mas pesa muito.

Duas vias de lesão

viacélulaso que fazem
Adaptativalinfócitos T CD4 específicos do glúten, perfil Th1reconhecem o péptido deamidado apresentado pelo HLA-DQ2 ou DQ8 e libertam interferão gama
Inataenterócitos e linfócitos intraepiteliais CD8o glúten induz a produção de interleucina 15 pelos enterócitos e pelas células da lâmina própria; a interleucina 15 ativa os linfócitos intraepiteliais CD8, que matam o epitélio através do recetor NKG2D

As duas vias cooperam: a ativação completa dos linfócitos citotóxicos exige a interleucina 15 e os linfócitos T CD4 específicos do glúten.

Da inflamação à má absorção

  • O resultado é linfocitose intraepitelial, hiperplasia das criptas e atrofia das vilosidades, que predomina no duodeno e no jejuno proximal.
  • A diarreia tem duas componentes: esteatorreia, pela perda de superfície de absorção, e secreção de fluido pelas criptas hiperplásicas. Pode juntar-se défice secundário de lactase.
  • Como o ferro, o folato e o cálcio se absorvem no intestino proximal, a doença limitada ao duodeno pode dar só anemia ferropénica, sem diarreia.
Fisiopatologia da doença celíacaVia adaptativa (HLA-DQ2 ou DQ8, linfócitos T CD4) e via inata (interleucina 15)Gliadinaresiste àdigestãoDeamidaçãopela TG2maior afinidade HLAHLA-DQ2 ou DQ8apresenta o péptidoa linfócitos T CD4Linfócito T CD4perfil Th1liberta IFN-γAtrofia vilositária (Marsh 3)mais de 25 LIE por 100 · criptas hiperplásicasmalabsorção · diarreia · anemiaAnticorpos (linfócitos B)anti-TG2 IgA: sensível e específico a 95%EMA IgA: especificidade próxima de 100%IgA total sempre: o défice dá falso negativoVia inatao glúten induz IL-15 nos enterócitosa IL-15 ativa os LIE CD8 (recetor NKG2D)citotoxicidade contra o epitélioManifestações clínicasferro · folato · cálcio · vitamina Danemia ferropénica · baixa estaturapredominam as formas não clássicasClassificação de MarshMarsh 0: mucosa normalMarsh 1: mais de 25 LIE por 100 · vilosidades normaisMarsh 2: LIE aumentados e hiperplasia das criptasMarsh 3: atrofia vilositária3a parcial · 3b subtotal · 3c totalDiagnóstico: Marsh 2 ou 3; Marsh 1 isolado é inespecíficoSem HLA-DQ2 nem DQ8: valor preditivo negativo acima de 99%Biópsia: pelo menos 4 do duodeno distal e 1 do bulboSempre com glúten na dietaProva de provocação: se a dieta começou antes do diagnósticoDiagnóstico e tratamentoSerologia, primeira linha· anti-TG2 IgA com IgA total, em qualquer idade· IgA baixa: teste de classe G (TG2, EMA ou DGP)Com ou sem biópsia· anti-TG2 10 ou mais vezes o limite e EMA positivo noutra amostra dispensam a biópsia; abaixo de 10 vezes, biopsarTratamento: dieta isenta de glúten· Excluir trigo · centeio · cevada· Anti-TG2 normaliza até 18 a 24 meses· Vilosidades: recuperação em cerca de 2 anosSem resposta: rever a dieta; a forma refratária é do adulto
InovaQB / elaboração própria

Condição prévia

  • Toda a investigação faz-se com glúten na dieta em quantidade normal. Uma dieta pobre em glúten dá falsos negativos na serologia e na histologia.
  • Outros falsos negativos: imunossupressores e corticoides. Falsos positivos de baixo título: infeções (incluindo parasitas intestinais), outras doenças autoimunes e hepatopatia.

Quem testar

  • Crianças com os sinais e sintomas da tabela da clínica.
  • Grupos de risco, mesmo assintomáticos: familiares em primeiro grau, diabetes de tipo 1, doença tiroideia autoimune, doença hepática autoimune, síndromes de Down, Turner e Williams-Beuren, e défice de imunoglobulina A.
  • O rastreio da população geral não está recomendado.

Serologia

testepapel
Antitransglutaminase (anti-TG2) de classe Ateste inicial em qualquer idade, incluindo abaixo dos 2 anos; sensibilidade e especificidade de cerca de 95%
Imunoglobulina A totalpede-se sempre em simultâneo, para detetar o défice
Antiendomísio (EMA) de classe Aconfirmação, com especificidade próxima de 100%; técnica cara e dependente do observador
Péptidos deamidados de gliadina (DGP), anti-TG2 ou EMA de classe Gsó quando a imunoglobulina A total está baixa
Antigliadina nativa, DGP como teste inicial, testes rápidosnão se usam para rastrear
  • A imunoglobulina A total é baixa quando está abaixo do normal para a idade ou abaixo de 0,2 g/L depois dos 3 anos.
  • Juntar DGP ou antigliadina ao anti-TG2 raramente acrescenta sensibilidade e baixa muito a especificidade, sobretudo abaixo dos 4 anos, onde a positividade isolada destes anticorpos é muitas vezes transitória.

Algoritmo

resultadoconduta
Anti-TG2 negativo, imunoglobulina A total normaldoença improvável; se a suspeita for forte, rever a ingestão de glúten e a medicação
Anti-TG2 positivo, 10 ou mais vezes o limite superiorcom o acordo da família, EMA numa segunda amostra de sangue; se positivo, diagnóstico sem biópsia
Anti-TG2 positivo, abaixo de 10 vezesendoscopia alta com biópsias
Imunoglobulina A total baixateste de classe G; se positivo, biópsia sempre
  • A via sem biópsia só vale com testes calibrados que meçam o valor de 10 vezes dentro da sua gama, e nunca com testes de classe G.
  • A segunda amostra existe para eliminar trocas de amostras e erros técnicos.
  • Desde 2020 a via sem biópsia não exige genotipagem HLA nem sintomas: aplica-se também a crianças assintomáticas, decidida com a família.
  • Omitir a endoscopia não faz perder outros diagnósticos relevantes.
  • A criança com suspeita deve ser orientada para gastrenterologia pediátrica antes de qualquer decisão sobre a dieta.

Histologia

  • Pelo menos 4 biópsias do duodeno distal e 1 do bulbo, com glúten na dieta, porque a lesão pode ser em manchas e às vezes só existe no bulbo.
  • Leem-se em fragmentos bem orientados. Uma relação vilosidade para cripta inferior a 2 indica lesão; mais de 25 linfócitos intraepiteliais por 100 enterócitos é linfocitose.
grauachado
Marsh 0mucosa normal
Marsh 1linfocitose intraepitelial, vilosidades e criptas normais
Marsh 2linfocitose com hiperplasia das criptas
Marsh 3atrofia vilositária: 3a parcial, 3b subtotal, 3c total
  • O diagnóstico exige Marsh 2 ou 3.
  • O Marsh 1 isolado é inespecífico: existe em 3,8% das pessoas com serologia negativa e aparece na infeção por Helicobacter pylori, nos anti-inflamatórios não esteroides, nas infeções intestinais, na alergia às proteínas do leite de vaca e na doença inflamatória intestinal.
  • Serologia e histologia discordantes: pedir novos cortes ou a opinião de um patologista experiente antes de concluir.

Genotipagem HLA

Não confirma. Serve para excluir, quando é negativa, em situações selecionadas: dieta iniciada sem diagnóstico, serologia e histologia discordantes, e para decidir quem precisa de continuar a ser testado entre os familiares.

Prova de provocação com glúten

  • Indicada quando a dieta foi iniciada sem diagnóstico seguro. Pede-se primeiro o HLA: se for negativo, a prova não é necessária.
  • Glúten diário de 10 a 15 g durante 12 meses (uma fatia de pão tem cerca de 3 a 5 g), com anti-TG2 ao fim de 1 mês e depois de 3 em 3 meses, ou antes se houver sintomas.
  • Evita-se nos períodos de crescimento acelerado (a criança pequena e o adolescente) e faz-se com gastrenterologista pediátrico.

Diagnóstico diferencial da atrofia vilositária

Giardíase e outras infeções, doença de Crohn, enteropatia autoimune, imunodeficiência comum variável, sobrecrescimento bacteriano e fármacos.

Dieta isenta de glúten

  • É o único tratamento eficaz, estrita e para toda a vida. Não há fármaco aprovado.
  • Só se inicia depois de o diagnóstico estar confirmado.
  • Excluem-se o trigo e as suas variedades (trigo duro, espelta, kamut, cuscuz), a cevada, o centeio e o triticale, que é um híbrido de trigo e centeio.
  • Farinhas permitidas: arroz, milho, milho-miúdo, sorgo, tapioca e quinoa, entre outras.
  • Na rotulagem europeia, «sem glúten» quer dizer 20 mg/kg (20 partes por milhão) ou menos, um nível considerado seguro.
  • A aveia não contaminada é tolerada pela grande maioria; o problema é a contaminação com trigo no cultivo e no processamento. Usa-se aveia rotulada sem glúten, introduz-se com cautela e vigia-se a resposta.
  • Ensino por dietista com experiência na doença, contacto com a associação de doentes e informação escrita.

Resposta esperada

  • Os sintomas melhoram a partir das primeiras semanas, por vezes em cerca de 15 dias.
  • O anti-TG2 desce de forma significativa aos 3 meses e deve normalizar até aos 18 a 24 meses, conforme o teste.
  • A recuperação completa das vilosidades pode levar cerca de 2 anos.

Défices e complicações ao diagnóstico

  • Ao diagnóstico: hemograma, ferro, vitamina B12, vitamina D e transaminases. O que estiver alterado segue-se até normalizar.
  • Anemia por falta de ferro, folato ou vitamina B12 na criança pequena: suplementar, além da dieta, porque a recuperação só com dieta é lenta numa fase de crescimento e desenvolvimento cerebral. Ferropenia sem anemia pode aguardar o efeito da dieta.
  • Lactose: o défice secundário é comum, mas a maioria tolera; restringe-se só se houver sintomas de intolerância apesar da dieta.
  • Osso: na maioria, um ano de dieta estrita repõe a massa óssea; a densitometria não se faz por rotina.
  • Na criança pequena com má nutrição grave, pode ser preciso uma dieta hipercalórica no início.

Seguimento

momentoo que se faz
3 a 6 meses depois do diagnósticoprimeira consulta: sintomas, peso, estatura, adesão, anti-TG2
De 6 em 6 mesesaté o anti-TG2 normalizar
De 12 em 12 a 24 mesesdepois de normalizado: crescimento, adesão, anti-TG2
  • O anti-TG2 mede-se sempre com o mesmo teste usado no diagnóstico; no défice de imunoglobulina A seguem-se os testes de classe G.
  • A adesão avalia-se pelo conjunto: sintomas, entrevista dietética e serologia.
  • Tiroide (hormona tiroestimulante e tiroxina) quando o clínico o entender. Nos vacinados contra a hepatite B, pode medir-se o anticorpo e dar reforço se for insuficiente.
  • Não se repete a biópsia por rotina; só quando há dúvida sobre o diagnóstico ou suspeita de outra doença.
  • Sem recuperação da estatura ao fim de 1 ano de dieta estrita: investigar outras causas com endocrinologia pediátrica.

Resposta insuficiente

  • Anti-TG2 que não desce ao fim de 6 a 12 meses, ou que continua positivo: rever a adesão com a família e repetir com o mesmo teste. A causa mais frequente é a ingestão continuada de glúten, quase sempre inadvertida.
  • Depois: diagnóstico errado ou outra doença, como doença de Crohn, enteropatia autoimune, sobrecrescimento bacteriano, alergia às proteínas do leite de vaca, insuficiência pancreática ou intolerância à lactose.
  • A doença celíaca refratária é do adulto; na criança a evidência da sua existência é muito escassa.

Referências

  1. Husby S, Koletzko S, Korponay-Szabó I, Kurppa K, Mearin ML, Ribes-Koninckx C, et al. European Society Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition guidelines for diagnosing coeliac disease 2020. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2020;70(1):141-56.
  2. Mearin ML, Agardh D, Antunes H, Al-Toma A, Auricchio R, Castillejo G, et al. ESPGHAN position paper on management and follow-up of children and adolescents with celiac disease. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2022;75(3):369-86.
  3. Szajewska H, Shamir R, Mearin L, Ribes-Koninckx C, Catassi C, Domellöf M, et al. Gluten introduction and the risk of coeliac disease: a position paper by the European Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2016;62(3):507-13.
  4. Szajewska H, Shamir R, Auricchio R, Chmielewska A, Dolinsek J, Kivelä L, et al. Early diet and the risk of coeliac disease. An update 2024 position paper by the ESPGHAN special interest group on coeliac disease. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2024;79(2):438-45.
  5. Al-Toma A, Volta U, Auricchio R, Castillejo G, Sanders DS, Cellier C, et al. European Society for the Study of Coeliac Disease (ESsCD) guideline for coeliac disease and other gluten-related disorders. United European Gastroenterol J. 2019;7(5):583-613.
  6. Abadie V, Jabri B. IL-15: a central regulator of celiac disease immunopathology. Immunol Rev. 2014;260(1):221-34.
  7. Lázaro de Lucas C, Martínez-Ojinaga Nodal E. Enfermedad celíaca. In: Guerrero-Fernández J, et al., editores. Manual de diagnóstico y terapéutica en pediatría. 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. p. 1069-76.
  8. Disorders of absorption. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. p. 2463-4.
  9. Common clinical manifestations of gastrointestinal disease: malabsorption. In: Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. p. 356-7.
  10. Comissão Europeia. Regulamento de Execução (UE) n.º 828/2014, de 30 de julho de 2014, sobre a informação aos consumidores relativa à ausência ou presença reduzida de glúten nos géneros alimentícios. Jornal Oficial da União Europeia; 2014.

13 perguntas sobre Doença celíaca

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