Perturbações da puberdade
Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 19 perguntas neste tema
As perturbações da puberdade organizam-se por dois eixos: a idade e as gonadotrofinas. A puberdade é precoce quando começa antes dos 8 anos na rapariga e antes dos 9 no rapaz, e atrasada quando não há telarca aos 13 anos ou aumento testicular aos 14.
Na puberdade precoce, a pergunta é se o eixo hipotálamo-hipófise-gónada acordou cedo (forma central, dependente da hormona libertadora de gonadotrofinas, GnRH) ou se os esteroides vêm de fora dele (forma periférica, com gonadotrofinas suprimidas). A central é muito mais frequente na rapariga e quase sempre idiopática; no rapaz, pequeno, a lesão cerebral é frequente. A periférica traz os nomes próprios do tema: hiperplasia congénita da suprarrenal, McCune-Albright, testotoxicose, tumores e esteroides exógenos. Entre as duas estão as variantes benignas, a telarca e a adrenarca prematuras isoladas, que não aceleram o crescimento nem a idade óssea e só se vigiam.
A idade óssea e a hormona luteinizante (LH) basal ultrassensível separam os casos. A ressonância cranioencefálica é para a rapariga com menos de 6 anos, o rapaz com menos de 8 e qualquer criança com sinais neurológicos. A forma central trata-se com análogos de GnRH, que suprimem por estimulação contínua e por isso nada fazem na periférica, onde se trata a causa.
No atraso pubertário, a LH e a hormona foliculoestimulante (FSH) decidem: baixas apontam para o atraso constitucional, de longe a causa mais comum no rapaz, para doença crónica ou para défice de GnRH, como na síndrome de Kallmann com anosmia; altas apontam para falência gonadal e mandam pedir cariótipo, à procura de Turner ou Klinefelter. O que não se pode falhar é a lesão cerebral na criança pequena, o cariótipo na rapariga baixa, e a regra de dar glucocorticoide antes da levotiroxina no hipopituitarismo.
Puberdade precoce é o aparecimento de caracteres sexuais secundários antes dos 8 anos na rapariga (telarca) e antes dos 9 anos no rapaz (volume testicular de 4 mL ou mais). A forma central, também chamada dependente de gonadotrofinas, resulta da ativação precoce do eixo hipotálamo-hipófise-gónada: a hormona libertadora de gonadotrofinas (GnRH) passa a ser segregada em pulsos, a hormona luteinizante (LH) e a hormona foliculoestimulante (FSH) sobem, e a gónada responde. Por isso a puberdade é isossexual, segue a sequência habitual e, no rapaz, os dois testículos aumentam.
É até dez vezes mais frequente na rapariga, com uma prevalência de perto de 20 casos por 10 000 raparigas, contra menos de 5 por 10 000 rapazes. A assimetria entre sexos estende-se à causa: na rapariga a forma é idiopática em mais de 80%, no rapaz só em cerca de 20%, e é essa diferença que orienta toda a investigação.
Há um intervalo que não é doença: o início entre os 8 e os 9 anos na rapariga, e entre os 9 e os 10 no rapaz, corresponde à cauda da distribuição normal (puberdade adiantada) e não precisa de tratamento.
A infância não é ausência de eixo: o neurónio que produz GnRH está ativamente travado, e a puberdade começa quando esse travão se levanta. O estímulo proximal é a kisspeptina, que atua no seu recetor (KISS1R) sobre o neurónio da GnRH. O travão mais bem conhecido é a proteína codificada pelo gene MKRN3, que sofre imprinting e só se expressa a partir do alelo paterno: mutações de perda de função retiram o freio à GnRH pulsátil. É a causa genética mais frequente de puberdade precoce central familiar, e só a mutação herdada do pai causa doença, com rapazes e raparigas atingidos por igual.
A pulsatilidade é a chave de todo o eixo. GnRH em pulsos estimula o gonadotrofo; GnRH contínuo dessensibiliza-o e suprime a LH e a FSH. É este o mecanismo dos análogos de GnRH usados no tratamento, e é também a razão de não servirem para nada quando os esteroides vêm de fora do eixo.
Causas
| grupo | exemplos |
|---|---|
| Idiopática | a maioria das raparigas; formas familiares por MKRN3, DLK1, KISS1 ou KISS1R |
| Lesão do sistema nervoso central | hamartoma hipotalâmico, glioma ótico e hipotalâmico, astrocitoma, ependimoma, quisto aracnoideu, hidrocefalia, neurofibromatose tipo 1 |
| Agressão do sistema nervoso central | radioterapia craniana, traumatismo craniano, abcesso ou encefalite |
| Secundária | exposição prolongada a esteroides sexuais (por exemplo, hiperplasia congénita da suprarrenal mal controlada) que amadurece o eixo |
- O hamartoma hipotalâmico é a lesão típica: produz GnRH de forma autónoma, é isointenso em T1 no túber cinéreo e acompanha-se muitas vezes de crises gelásticas (episódios de riso imotivado).
- Uma puberdade periférica prolongada pode ativar o eixo e passar a central: o caso muda de categoria a meio do seguimento.
- Na rapariga, a telarca é o sinal mais visível, e a aceleração do crescimento costuma ser o primeiro. Seguem-se pubarca e, mais tarde, menarca, pela ordem habitual.
- No rapaz, aumento bilateral dos testículos (4 mL ou mais no orquidómetro de Prader), crescimento do pénis, pubarca e aceleração da velocidade de crescimento.
- A criança é alta para a idade e cruza percentis para cima, com idade óssea avançada.
- A história procura a causa orgânica: cefaleia, alterações visuais, crises gelásticas, traumatismo craniano, doença ou radioterapia do sistema nervoso central, manchas café com leite e casos familiares.
Estadios de Tanner
| estadio | mama (M) | genitais no rapaz (G) | pilosidade púbica (P) |
|---|---|---|---|
| 1 | pré-púbere | pré-púbere, testículos com cerca de 2,5 mL | ausente |
| 2 | botão mamário | testículos de 4 mL ou mais, pigmentação do escroto | alguns pelos longos e pigmentados |
| 3 | mama e aréola maiores | alongamento do pénis, testículos maiores | pelos escuros e encaracolados, em maior quantidade |
| 4 | aréola e mamilo destacam-se do contorno da mama | alargamento do pénis, pregueamento do escroto | tipo adulto, sem atingir a face interna das coxas |
| 5 | morfologia adulta | adulto, testículos de 15 a 25 mL | distribuição adulta |
A menarca surge na maioria no estadio M4.
- Conta a velocidade: sem mudança de estadio de Tanner em 6 meses ou mais, fala-se de puberdade lentamente progressiva, que muitas vezes não precisa de tratamento.
Exame e curva
- Estadio de Tanner, orquidómetro no rapaz, curva de crescimento com velocidade calculada sobre pelo menos 6 meses, e exame neurológico.
- Idade óssea (radiografia da mão e do punho esquerdos): avançada na exposição a esteroides sexuais, seja central ou periférica; concordante com a idade na telarca prematura isolada; atrasada no hipotiroidismo grave.
Quando investigar
A diretriz de 2026 da Endocrine Society (sociedade americana de endocrinologia) recomenda vigiar com exames periódicos, sem análises nem imagem, a rapariga com telarca entre os 7 e os 8 anos. Abaixo dos 7 anos, sugere observar 4 a 6 meses para separar a puberdade lentamente progressiva da rapidamente progressiva antes de investigar.
Laboratório
- LH basal por método ultrassensível é o primeiro exame, preferido à prova de estimulação. Na rapariga em estadio B2, uma LH basal acima de 0,2 UI/L prevê um pico estimulado acima de 5 UI/L, e acima de 0,3 UI/L é muito específica de puberdade central e torna improvável uma telarca prematura isolada.
- Se a LH basal for inconclusiva, prova de estimulação com GnRH (gonadorrelina 100 µg/m², máximo 100 µg, endovenosa): um pico de LH acima de 5 UI/L e uma razão LH/FSH estimulada acima de 0,6 a 1 indicam puberdade central. Resposta plana aponta para causa periférica.
- Estradiol na rapariga (pouco sensível) e testosterona no rapaz; tiroxina livre e tirotropina (TSH), porque o hipotiroidismo primário grave também causa puberdade precoce.
- Na rapariga, ecografia pélvica: comprimento do corpo uterino acima de 3 a 4 cm, relação corpo/colo de 2 para 1, volume uterino acima de 2 mL ou linha endometrial visível indicam impregnação estrogénica.
- O estudo genético (MKRN3, DLK1) não é de rotina; discute-se nas formas familiares.
Ressonância cranioencefálica
A diretriz de 2026 da Endocrine Society deixou de a pedir a toda a criança com puberdade precoce central. O que a decide é a idade, o sexo e a clínica, e os números da revisão sistemática que a sustenta explicam porquê:
| grupo | lesões patológicas | ressonância |
|---|---|---|
| Rapariga com menos de 6 anos | cerca de 11% | sim |
| Rapariga dos 6 aos 8 anos, sem sinais neurológicos | cerca de 1% | não de rotina |
| Rapaz com menos de 8 anos | cerca de 28% | sim |
| Rapaz dos 8 aos 9 anos, sem sinais neurológicos | nenhuma nas séries | não de rotina |
| Qualquer idade com cefaleia, convulsões ou defeito de campo visual | sim |
As recomendações anteriores (o consenso de 2009 sobre análogos de GnRH, e o manual do Hospital La Paz) pediam ressonância a todos os rapazes e às raparigas abaixo dos 6 ou 7 anos. A mudança no rapaz de 8 a 9 anos é recente.
Diagnóstico diferencial
- Telarca prematura isolada, adrenarca prematura, puberdade adiantada.
- Puberdade precoce periférica: gonadotrofinas suprimidas, e no rapaz testículos pequenos ou assimétricos.
- Hipotiroidismo primário grave: a única puberdade precoce com idade óssea atrasada.
Quando tratar
O objetivo é travar a maturação até uma idade adequada, preservar a estatura final e evitar o sofrimento psicossocial. Trata-se quando a puberdade progride depressa, com idade óssea avançada, e não pela idade isolada: a rapariga mais velha com progressão lenta atinge muitas vezes estatura adulta normal sem tratamento, e a puberdade adiantada não se trata.
Análogos de GnRH
- Triptorrelina ou leuprorrelina de depósito, intramusculares: por exemplo triptorrelina 3,75 mg a cada 28 dias ou 11,25 mg a cada 3 meses. Para tratamento prolongado, a diretriz de 2026 prefere começar logo pela formulação de longa duração em vez da mensal.
- O ganho em estatura adulta é modesto, em média cerca de 2,7 cm face a não tratar, perto de 4 cm com 3 ou mais anos de tratamento, e é maior quando se começa antes dos 6 anos.
- A estimulação inicial pode causar uma hemorragia vaginal nas primeiras semanas. Avisar a família evita uma ida desnecessária à urgência.
- Não se doseiam por rotina LH e esteroides para vigiar a supressão; segue-se a clínica e o crescimento. Não se junta hormona de crescimento por rotina.
- Quando parar: por volta dos 10 a 11 anos de idade cronológica na rapariga e dos 11 a 12 no rapaz, ou idade óssea de 11 a 12 e de 12 a 13 anos, respetivamente. A menarca surge, em média, cerca de 1 ano depois de parar.
Causa orgânica
- Trata-se a lesão quando tem tratamento próprio; a puberdade trata-se com o análogo.
- No hamartoma hipotalâmico, a puberdade precoce responde ao análogo de GnRH.
- Criança alta, adulto baixo: os esteroides sexuais aceleram o crescimento e, ao mesmo tempo, fecham as cartilagens de conjugação. O mediador do encerramento é o estrogénio nos dois sexos; no rapaz resulta da aromatização da testosterona.
- Impacto psicossocial de um corpo que amadurece antes dos pares.
- Na forma idiopática tratada, o eixo reativa-se depois de suspender o análogo e a função reprodutiva recupera.
- Na forma orgânica, o prognóstico é o da lesão de base.
Na forma periférica, ou independente de gonadotrofinas, os esteroides sexuais vêm da gónada, da suprarrenal ou de fora, sem ativação do eixo. A LH e a FSH ficam suprimidas pelo próprio excesso de esteroides. A puberdade pode ser isossexual (concordante com o sexo) ou contrassexual (virilização da rapariga, feminização do rapaz), e a sequência habitual pode não se cumprir.
| origem | causas | o que a distingue |
|---|---|---|
| Ovário | quistos ováricos (a causa ovárica mais frequente), tumor da granulosa | estradiol muito elevado, massa na ecografia |
| Testículo | tumor de células de Leydig; testotoxicose | testículo assimétrico no tumor; história familiar masculina na testotoxicose |
| Suprarrenal | hiperplasia congénita da suprarrenal; tumores produtores de androgénios ou estrogénios | 17-hidroxiprogesterona elevada; sulfato de desidroepiandrosterona muito elevado no tumor |
| Tumor produtor de gonadotrofina coriónica humana (hCG) | tumores de células germinativas do sistema nervoso central, fígado, mediastino ou testículo | só causa puberdade no rapaz, porque a hCG estimula a célula de Leydig |
| McCune-Albright | mutação ativadora do gene GNAS | manchas café com leite e displasia fibrosa poliostótica |
| Exógena | géis de testosterona, contracetivos orais, cremes, óleo de lavanda e de árvore do chá | história de exposição |
| Tiroide | hipotiroidismo primário grave | idade óssea atrasada, TSH muito elevada |
- McCune-Albright: mutação somática, pós-zigótica, na subunidade alfa da proteína G estimuladora, que deixa a adenilciclase permanentemente ativa. A gónada funciona de forma autónoma; na rapariga, a hemorragia vaginal pode ser o primeiro sinal. Pode haver hiperfunção da suprarrenal, da hipófise e da tiroide.
- Testotoxicose (puberdade precoce familiar limitada ao sexo masculino): mutação ativadora do recetor da LH, de transmissão autossómica dominante, que produz testosterona sem LH.
- Na hiperplasia congénita da suprarrenal por défice de 21-hidroxilase, o bloqueio desvia os precursores para os androgénios: virilização na rapariga e puberdade isossexual precoce com testículos pequenos no rapaz.
- Rapaz com virilização e testículos pequenos: a testosterona vem da suprarrenal ou de fora. Com um testículo maior do que o outro, pensar em tumor de células de Leydig.
- Rapariga virilizada (clitoromegalia, pubarca, acne, voz grave): hiperplasia congénita da suprarrenal ou tumor produtor de androgénios.
- Rapariga com hemorragia vaginal e pouca telarca: quisto ovárico ou McCune-Albright.
- Manchas café com leite de bordos irregulares e fraturas ou deformidades ósseas sugerem McCune-Albright.
- Aréolas e mamilos muito pigmentados sugerem ingestão de estrogénios.
- LH basal suprimida e resposta plana na prova com GnRH confirmam a origem periférica.
- Testosterona no rapaz: abaixo de 10 ng/dL é pré-pubertária, acima de 50 ng/dL está em faixa pubertária.
- 17-hidroxiprogesterona acima de 2 ng/mL sugere hiperplasia congénita da suprarrenal por défice de 21-hidroxilase.
- Sulfato de desidroepiandrosterona acima de 700 µg/dL sugere tumor da suprarrenal, que se procura em tomografia computorizada.
- Beta-hCG e alfa-fetoproteína no rapaz: se elevadas, procurar tumor de células germinativas no cérebro, fígado, mediastino ou testículo.
- Ecografia testicular (testículo pequeno ou assimétrico), abdominal e pélvica (quistos, tumores do ovário e da suprarrenal).
- Suspeita de McCune-Albright: radiografias do esqueleto para a displasia fibrosa e estudo do gene GNAS. Testotoxicose com história familiar: estudo do gene do recetor da LH.
- Tiroxina livre e TSH: o hipotiroidismo grave dá TSH muito elevada e idade óssea atrasada.
- Perguntar sempre por medicamentos e cosméticos da casa. Os géis de testosterona de um adulto virilizam a criança por contacto com a pele; contracetivos orais, cremes com hormonas e óleos de lavanda e de árvore do chá causam telarca.
- Suspender a exposição costuma bastar, e a regressão confirma a causa.
- Na hiperplasia congénita da suprarrenal, o bom controlo com glucocorticoide evita a virilização e a puberdade central secundária.
O análogo de GnRH não funciona, porque a fonte de esteroides está fora do eixo. Trata-se a causa:
| causa | tratamento |
|---|---|
| Tumor do ovário, testículo ou suprarrenal | cirurgia |
| Tumor produtor de hCG | tratamento do tumor |
| Hiperplasia congénita da suprarrenal | hidrocortisona, 10 a 15 mg/m² por dia na criança em crescimento, sem tentar normalizar a 17-hidroxiprogesterona, porque isso leva a sobretratamento |
| McCune-Albright | inibidor da aromatase (letrozol, anastrozol) ou modulador do recetor de estrogénio (tamoxifeno) |
| Testotoxicose | antiandrogénio associado a inibidor da aromatase |
| Hipotiroidismo | levotiroxina |
| Exposição exógena | suspender |
- Uma exposição prolongada a esteroides pode amadurecer o eixo. Depois de controlar a causa, vigiar a puberdade central secundária, que passa a precisar de análogo.
São achados isolados, sem aceleração do crescimento nem avanço da idade óssea, que regridem ou ficam estáveis.
| variante | definição | o que a caracteriza |
|---|---|---|
| Telarca prematura | desenvolvimento mamário isolado antes dos 8 anos | uni ou bilateral, sem outros caracteres sexuais; até aos 2 anos é a minipuberdade e não se estuda |
| Adrenarca prematura | pubarca ou axilarca antes dos 8 anos na rapariga e dos 9 no rapaz | ativação precoce do córtex da suprarrenal; odor apocrino e acne; mais frequente na obesidade e na insulinorresistência |
| Menarca prematura isolada | hemorragia vaginal periódica entre 1 e 9 anos sem outros sinais | ativação parcial e transitória do eixo; diagnóstico de exclusão |
| Puberdade adiantada | início entre os 8 e os 9 anos na rapariga e entre os 9 e os 10 no rapaz | extremo da distribuição normal, evolução normal |
| Ginecomastia pubertária | tecido mamário glandular no rapaz em puberdade, menos de 4 cm | estadios de Tanner III e IV, por aromatização periférica dos androgénios |
A adrenarca e a gonadarca são eixos separados: a pubarca isolada não é puberdade precoce.
A pergunta é sempre a mesma: é um sinal isolado, ou o início de uma puberdade precoce?
- Telarca prematura: crescimento normal, idade óssea concordante com a idade, estradiol normal ou pouco elevado, ecografia pélvica com útero e ovários pré-pubertários e LH basal pré-pubertária. Na rapariga de 7 a 8 anos basta vigiar.
- Adrenarca prematura: sulfato de desidroepiandrosterona adequado ao estadio da pilosidade, 17-hidroxiprogesterona e testosterona normais. Se houver aceleração do crescimento, idade óssea avançada ou clitoromegalia, pedir 17-hidroxiprogesterona matinal para a hiperplasia congénita da suprarrenal não clássica e pensar em tumor virilizante.
- Menarca isolada: afastar primeiro corpo estranho vaginal, traumatismo, abuso sexual, tumor e puberdade periférica. Na prova com GnRH, as gonadotrofinas são pré-pubertárias.
- Ginecomastia pubertária: palpar sempre os testículos. Investigar quando surge antes da puberdade, é volumosa, cresce depressa, não regride ou os testículos são muito pequenos: fármacos, hepatopatia, tumor testicular ou produtor de hCG e síndrome de Klinefelter (cariótipo).
- Não se tratam. Explica-se à família que são benignas e reavalia-se ao fim de alguns meses; o que faz mudar de ideias é a progressão (novos sinais, aceleração do crescimento, avanço da idade óssea).
- A puberdade adiantada não precisa de análogo de GnRH, porque não há ganho demonstrado na estatura final; só se discute perante sofrimento psicossocial marcado.
- Na ginecomastia pubertária, até 90% regridem sem tratamento; revê-se a cada 6 meses.
- A adrenarca prematura associa-se a insulinorresistência: vigiar o peso e o metabolismo.
Há atraso pubertário quando não há telarca aos 13 anos na rapariga ou o volume testicular é inferior a 4 mL aos 14 anos no rapaz. Conta também a puberdade que parou, sem progressão em 2 anos, e a amenorreia primária: avalia-se a rapariga sem menarca aos 15 anos ou 3 anos depois da telarca, e o Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil (PNSIJ) manda referenciar a que continua amenorreica aos 16.
Atinge cerca de 3% dos adolescentes e é mais frequente no rapaz. As causas repartem-se de forma diferente entre sexos:
| causa | rapazes | raparigas |
|---|---|---|
| Atraso constitucional do crescimento e da puberdade | cerca de 65% | cerca de 30% |
| Hipogonadismo hipogonadotrófico funcional (doença crónica, desnutrição, exercício) | cerca de 20% | cerca de 20% |
| Hipogonadismo hipogonadotrófico permanente | cerca de 10% | cerca de 20% |
| Hipogonadismo hipergonadotrófico | cerca de 5% | cerca de 25% |
A divisão é pelas gonadotrofinas. Baixas querem dizer que o problema está acima da gónada, ou que o eixo ainda não arrancou; altas querem dizer que a gónada falhou e deixou de travar a hipófise.
Atraso constitucional do crescimento e da puberdade
É um atraso transitório do arranque do eixo, com agregação familiar (história de puberdade tardia num dos pais em 50 a 75%). O crescimento desacelera nos primeiros anos, segue depois paralelo ao percentil, e a puberdade e o surto de crescimento chegam tarde. A idade óssea está atrasada 2 ou mais anos, de forma concordante com a estatura, e cerca de 80% atingem a estatura-alvo familiar.
Hipogonadismo hipogonadotrófico
- Funcional, e reversível: doença crónica (doença inflamatória intestinal, doença celíaca, insuficiência renal, fibrose quística, cardiopatia), desnutrição, anorexia nervosa, exercício excessivo, hipotiroidismo, hiperprolactinemia, fármacos psicotrópicos.
- Permanente: défice congénito de GnRH, hipopituitarismo, tumores da região selar e supraselar, radioterapia craniana, síndromes (Prader-Willi, Bardet-Biedl, CHARGE).
- Síndrome de Kallmann: défice de GnRH com anosmia ou hiposmia, porque os neurónios da GnRH nascem no placódio olfativo e migram com os nervos olfativos até ao hipotálamo. A forma ligada ao X (gene KAL1, que codifica a anosmina) pode trazer defeitos renais e sincinesias (movimentos em espelho). Criptorquidia e micropénis ao nascer são pistas.
Hipogonadismo hipergonadotrófico
- Síndrome de Turner (45,X em cerca de metade, o resto mosaicos ou anomalias estruturais do X): gónadas em fita e falência ovárica. Afeta cerca de 1 em 2500 raparigas.
- Síndrome de Klinefelter (47,XXY): hialinização dos túbulos seminíferos e falência de Leydig. Afeta cerca de 1 em 600 rapazes nados-vivos, e a maioria nunca é diagnosticada.
- Adquiridas: quimioterapia, radioterapia pélvica ou gonadal, torção, orquite da papeira, criptorquidia bilateral, ooforite autoimune.
- Atraso constitucional: adolescente baixo mas com velocidade de crescimento normal para a idade óssea, sem outros sinais, e com pai ou mãe que também começaram tarde.
- Kallmann: não sente cheiros (perguntar e testar o olfato), criptorquidia ou micropénis, e por vezes movimentos em espelho.
- Turner: baixa estatura, que pode ser o único sinal durante anos; pescoço alado, implantação baixa do cabelo, tórax largo, cúbito valgo, linfedema no recém-nascido.
- Klinefelter: a puberdade começa e depois não progride, com testículos pequenos e firmes (volume mediano de 4 mL) que destoam da virilização, ginecomastia, membros inferiores longos e dificuldades de linguagem e aprendizagem.
- Hipogonadismo de longa duração: proporções eunucoides, com envergadura maior do que a estatura.
- Lesão selar: cefaleia, alterações visuais, outros défices hormonais.
Primeira linha
- Curva de crescimento, estatura-alvo familiar, estadio de Tanner, olfato e exame neurológico.
- Idade óssea: atrasada 2 ou mais anos no atraso constitucional; se for concordante com a idade, esse diagnóstico é pouco provável.
- LH, FSH e testosterona ou estradiol: é esta bifurcação que decide o resto.
- Hemograma, velocidade de sedimentação, função renal e hepática, anticorpos antitransglutaminase IgA com IgA total, TSH e tiroxina livre, prolactina.
- Na rapariga, ecografia pélvica para confirmar útero e ovários.
Gonadotrofinas altas
Na rapariga, LH e FSH acima de 15 UI/L; no rapaz, LH acima de 7,5 e FSH acima de 15 UI/L, com esteroides baixos. O exame seguinte é o cariótipo, à procura de Turner ou Klinefelter.
Gonadotrofinas baixas
- O problema é separar o atraso constitucional do hipogonadismo hipogonadotrófico permanente. Nenhum exame o faz com certeza: a prova com GnRH não os distingue, e a inibina B (acima de 35 pg/mL) e a hormona antimülleriana (acima de 110 pmol/L) apenas favorecem o atraso constitucional.
- Ressonância hipotálamo-hipofisária, com os bolbos olfativos, no hipogonadismo hipogonadotrófico; pode adiar-se no rapaz com clínica típica de atraso constitucional.
- O atraso constitucional é um diagnóstico de exclusão e confirma-se pela evolução: a puberdade acaba por arrancar.
- O rastreio é a curva de crescimento e o estadio pubertário registados nas consultas de vigilância do PNSIJ. Uma rapariga sem sinais aos 13 anos ou um rapaz sem aumento testicular aos 14 são referenciados à consulta hospitalar.
- Rapariga baixa sem causa aparente: cariótipo. A síndrome de Turner pode passar anos com a baixa estatura como único sinal, e diagnosticá-la cedo permite começar a hormona de crescimento a tempo.
- Na criança que vai fazer quimioterapia ou radioterapia gonadotóxicas, discutir a preservação da fertilidade antes do tratamento.
- Na síndrome de Turner diagnosticada, avaliar logo coração, aorta e rins, e vigiar audição, tiroide, doença celíaca, tensão arterial e peso ao longo da vida.
- Na síndrome de Klinefelter, o diagnóstico cedo importa também para a fertilidade: a extração testicular de espermatozoides tem melhores resultados em homens mais novos.
Atraso constitucional
- Tranquilizar e vigiar é o suficiente na maioria.
- Com sofrimento real, um curso curto arranca a puberdade: no rapaz a partir dos 14 anos (idade óssea de 12 a 13), testosterona intramuscular em dose baixa (50 a 100 mg por mês) durante 4 a 6 meses; na rapariga a partir dos 13 anos (idade óssea de 11 a 12), estradiol em dose baixa. Depois interrompe-se para ver se o eixo arrancou.
- Usada assim, a testosterona não compromete a estatura final. Não se usa hormona de crescimento.
Hipogonadismo permanente
- Indução pubertária com dose baixa a subir ao longo de 2 a 3 anos, a imitar a fisiologia.
- Rapaz: testosterona intramuscular a partir de idade óssea de 12 a 13 anos, começando em 50 mg por mês, até à dose de adulto.
- Rapariga: estradiol, de preferência transdérmico, a partir de idade óssea de 11 a 12 anos (na síndrome de Turner, por volta dos 11 a 12 anos). O progestativo só entra quando a mama está em estadio 4, o útero cresceu, ou surge a primeira hemorragia, habitualmente ao fim de cerca de 18 a 24 meses: introduzido cedo, compromete o desenvolvimento mamário; nunca introduzido, deixa o endométrio desprotegido.
- Fertilidade: os esteroides sexuais dão caracteres sexuais mas não gametogénese. No hipogonadismo hipogonadotrófico, a espermatogénese e a ovulação obtêm-se com gonadotrofinas (hCG associada a FSH) ou com GnRH pulsátil. Na síndrome de Klinefelter, a extração testicular de espermatozoides tem êxito em mais de metade.
Causa de base
- Tratar a doença crónica, a desnutrição ou a hiperprolactinemia; no exercício excessivo, repor o aporte energético.
- Perante hipopituitarismo, glucocorticoide antes da levotiroxina: a tiroxina acelera o metabolismo do cortisol e pode precipitar uma crise suprarrenal.
- Hipogonadismo não tratado: proporções eunucoides, porque as cartilagens ficam abertas mais tempo, e pico de massa óssea reduzido.
- Atraso constitucional: a maioria atinge a estatura-alvo, mas a massa óssea do adulto pode ficar mais baixa.
- Turner: estatura final sem tratamento raramente acima de 150 cm (a hormona de crescimento acrescenta muitas vezes 5 a 10 cm); cardiopatia congénita em cerca de 30% (válvula aórtica bicúspide, coartação), com risco de dilatação e disseção da aorta, que a gravidez agrava; malformações renais em cerca de 30%; surdez neurossensorial e hipotiroidismo autoimune frequentes. Com material do cromossoma Y, risco de gonadoblastoma e gonadectomia.
- Klinefelter: azoospermia, risco aumentado de cancro da mama, doenças autoimunes, síndrome metabólica e osteoporose.
- Hipogonadismo hipogonadotrófico congénito: cerca de 10% dos homens recuperam a secreção de gonadotrofinas na idade adulta, depois de tratamento com esteroides sexuais.
- Síndrome de Turner: hormona de crescimento cedo, por volta dos 4 a 6 anos quando já há falha de crescimento, e indução com estradiol transdérmico aos 11 a 12 anos. Até 30% iniciam puberdade espontânea (sobretudo os mosaicos), mas quase todas evoluem para falência ovárica. A gravidez, possível com doação de ovócitos, tem risco cardiovascular elevado e exige avaliação especializada.
- Atleta ou bailarina com atraso ou amenorreia: hipogonadismo funcional por baixa disponibilidade energética; o tratamento é repor o aporte.
- Sobrevivente de cancro na infância: a radioterapia craniana pode causar hipogonadismo hipogonadotrófico e a quimioterapia ou radioterapia pélvica falência gonadal.
Referências
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- Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 20.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2018. Capítulos 383 e 384.
- Casanova R, Chuang A, Goepfert AR, Hueppchen NA, Weiss PM, editores. Beckmann and Ling's Obstetrics and Gynecology. 8.ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2019. Capítulo 38.
- Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil. Lisboa: DGS; 2013.
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19 perguntas sobre Perturbações da puberdade
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