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Suporte ventilatório não invasivo

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema

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Em resumo

O suporte ventilatório não invasivo (VNI) fornece pressão positiva à via aérea através de uma interface externa (máscara nasal, oronasal, facial total ou capacete), evitando a entubação endotraqueal e as suas complicações. Bem selecionado, reduz a mortalidade e a necessidade de entubação em cenários específicos, sobretudo na exacerbação da DPOC com acidose respiratória e no edema agudo do pulmão cardiogénico. A competência-chave é reconhecer o candidato certo, titular corretamente e, acima de tudo, identificar a falência precoce sem atrasar a via aérea definitiva.

A VNI atua sobre três problemas fisiopatológicos distintos: oxigenação deficiente, ventilação alveolar insuficiente e sobrecarga dos músculos respiratórios.

Recrutamento e oxigenação (efeito da PEEP/EPAP). A pressão positiva expiratória mantém os alvéolos e as pequenas vias aéreas abertas no fim da expiração, revertendo o colapso e o shunt intrapulmonar. Aumenta a capacidade residual funcional, melhora a relação ventilação-perfusão e permite melhor oxigenação com menor FiO2. No edema agudo do pulmão, a pressão intratorácica positiva tem efeito hemodinâmico próprio: reduz o retorno venoso (pré-carga) e diminui a pós-carga do ventrículo esquerdo (ao reduzir a pressão transmural), o que melhora o débito num coração congestionado e desloca líquido do interstício alveolar.

Ventilação alveolar e correção da hipercapnia (efeito do suporte de pressão). Na VNI de dois níveis, a diferença IPAP menos EPAP assiste ativamente cada inspiração, aumentando o volume corrente e, logo, a ventilação alveolar. Como a PaCO2 é inversamente proporcional à ventilação alveolar, mais suporte traduz-se em descida da PaCO2 e correção da acidose respiratória.

Descarga muscular e auto-PEEP na DPOC. Na exacerbação da DPOC há limitação do fluxo expiratório e hiperinsuflação dinâmica, gerando PEEP intrínseca (auto-PEEP, PEEPi): o doente tem de gerar uma pressão negativa considerável só para iniciar o fluxo inspiratório, aumentando o trabalho respiratório até à fadiga. A EPAP externa contrabalança a PEEPi, reduzindo o limiar inspiratório, enquanto a pressão de suporte assume parte do trabalho dos músculos fatigados. O resultado é redução da frequência respiratória, do esforço e da produção de CO2 pelos próprios músculos.

Em síntese: CPAP resolve sobretudo problemas de oxigenação e hemodinâmica (colapso alveolar, congestão), enquanto o bilevel resolve problemas de ventilação e de fadiga muscular (hipercapnia, auto-PEEP). Esta distinção mecanicista explica porque a modalidade se escolhe pelo problema dominante: hipoxémia com congestão versus hipoventilação com acidose.

A decisão de iniciar VNI assenta na gasometria arterial conjugada com a avaliação clínica; a oximetria isolada é insuficiente porque não mede a PaCO2 nem o pH.

Caracterizar o tipo de falência respiratória:

  • Tipo 1 (hipoxémica): PaO2 baixa com PaCO2 normal ou baixa (edema pulmonar, pneumonia). A oxigenação é o problema.
  • Tipo 2 (hipercápnica): PaCO2 elevada (>45 mmHg) frequentemente com acidose (pH<7,35). É o cenário clássico da DPOC, obesidade-hipoventilação e doença neuromuscular.

Gravidade da acidose orienta o local e a urgência. Segundo a BTS/ICS 2016, um pH entre 7,25 e 7,35 com hipercapnia identifica o doente que mais beneficia de VNI e pode ser tratado em ambiente com competência dedicada e monitorização; um pH inferior a 7,25 marca maior risco de falência e exige ambiente de cuidados intensivos, com limiar baixo para entubação. A ERS/ATS 2017 recomenda ponderar bilevel quando pH menor ou igual a 7,35, PaCO2 superior a 45 mmHg e frequência respiratória acima de 20 a 24/min apesar de terapêutica médica otimizada.

Avaliação de candidatura e de segurança, procurando ativamente contraindicações antes de aplicar (ver secção seguinte): estado de consciência, capacidade de proteger a via aérea, estabilidade hemodinâmica, presença de vómito, secreções abundantes ou trauma facial.

Avaliação clínica do esforço e da resposta: frequência respiratória, uso de músculos acessórios, adejo nasal, respiração paradoxal, nível de consciência, sincronia com o ventilador e tolerância à interface.

Reavaliação gasométrica precoce é decisiva. Deve repetir-se a gasometria cerca de 1 a 2 horas após o início (e após qualquer ajuste significativo). A trajetória do pH e da PaCO2 nesta janela é o melhor preditor de sucesso: a melhoria do pH e a descida da PaCO2 anunciam boa resposta; a ausência de melhoria ou o agravamento sinalizam falência e obrigam a reconsiderar entubação. Deve também procurar-se e tratar a causa subjacente (broncospasmo, infeção, descompensação cardíaca) em paralelo, porque a VNI é medida de suporte e não corrige a etiologia.

Indicações com melhor evidência (benefício em mortalidade e/ou entubação):

  • Exacerbação da DPOC com acidose respiratória (pH<7,35, PaCO2 elevada) apesar de terapêutica médica: é a indicação mais robusta; a VNI reduz entubação e mortalidade (GOLD 2026; ERS/ATS 2017; BTS/ICS 2016). Modalidade: bilevel.
  • Edema agudo do pulmão cardiogénico com dificuldade respiratória: CPAP (ou bilevel), associada à terapêutica médica, alivia rapidamente a dispneia e reduz a necessidade de entubação segundo meta-análises e guidelines, embora o maior ensaio isolado (3CPO) não tenha demonstrado benefício em mortalidade nem em entubação.
  • Síndrome obesidade-hipoventilação descompensada com acidose hipercápnica: bilevel.
  • Imunodeprimidos com falência respiratória aguda (evita as infeções associadas à entubação).
  • Desmame e pós-extubação em doentes selecionados de alto risco (nomeadamente hipercápnicos), para facilitar o desmame e prevenir a reentubação; não deve ser usada para resgatar uma falência pós-extubação já instalada, situação em que atrasa a reentubação.

Contraindicações / cenários em que não se deve iniciar ou insistir: paragem cardiorrespiratória ou necessidade de entubação imediata, coma ou agitação incontrolável com incapacidade de cooperar (exceto a encefalopatia hipercápnica que se espera reverter com a própria VNI), vómito ou alto risco de aspiração, secreções copiosas não manejáveis, obstrução fixa da via aérea superior, trauma/queimadura/cirurgia facial que impeça o selo, e instabilidade hemodinâmica grave ou arritmia maligna.

Parâmetros iniciais e titulação:

  • Bilevel: iniciar IPAP ~10-12 cmH2O e EPAP ~4-5 cmH2O, subindo o IPAP progressivamente (frequentemente até 20-30) conforme tolerância, volume corrente e resposta gasométrica.
  • CPAP no edema pulmonar: iniciar ~5-8 cmH2O e titular até 10-12 cmH2O (por vezes 15) conforme tolerância e resposta, subindo a pressão para descarregar mais pré-carga e pós-carga.
  • Titular a FiO2 para uma SpO2-alvo de 88-92% no doente com risco de retenção de CO2, evitando hiperóxia.

Monitorização e critérios de falência que obrigam a entubar (não atrasar): ausência de melhoria ou agravamento do pH/PaCO2 na reavaliação; deterioração do estado de consciência; taquipneia e esforço persistentes ou crescentes; hipoxémia refratária; instabilidade hemodinâmica; intolerância à interface ou incapacidade de manejar secreções. A persistência de acidose apesar de VNI otimizada é indicação de via aérea definitiva.

Ventilação não invasiva (VNI): CPAP vs bilevel CPAP — pressão única (recruta) – Pressão positiva contínua e constante no ciclo – Recruta alvéolos; ↑ capacidade residual funcional – ↑ oxigenação; ↓ pré-carga e pós-carga do VE – Não ventila ativamente: não corrige hipercapnia – Eleição: edema agudo do pulmão cardiogénico – Início 5–8 cmH2O; titular até 10–12 (por vezes 15) – Alvo SpO2 88–92% no retentor de CO2 Bilevel / VNI dois níveis (BiPAP) – IPAP inspiratória alta + EPAP expiratória baixa – Suporte = IPAP − EPAP → ↑ volume corrente – Corrige a hipercapnia e a acidose respiratória – EPAP contrabalança a auto-PEEP na DPOC – Eleição: DPOC agudizada com pH < 7,35 – Início IPAP 10–12 / EPAP 4–5; IPAP até 20–30 – Descarrega músculos fatigados; ↓ trabalho Indicações com melhor evidência – DPOC agudizada, pH < 7,35 (bilevel): reduz entubação e mortalidade – Edema agudo do pulmão cardiogénico (CPAP): alivia a dispneia, menos entubação – Síndrome obesidade-hipoventilação descompensada com acidose hipercápnica (bilevel) – Imunodeprimido com falência respiratória aguda (evita infeções da entubação) Contraindicações – Paragem ou entubação imediata necessária – Coma ou agitação sem cooperação – Vómito ou alto risco de aspiração – Secreções copiosas não manejáveis – Trauma ou cirurgia facial (sem selo) – Instabilidade hemodinâmica grave ! Falência da VNI → entubar (não atrasar) – pH/PaCO2 sem melhoria (reavaliar a 1–2 h) – Deterioração do estado de consciência – Taquipneia e esforço persistentes – Hipoxémia refratária – Instabilidade hemodinâmica Acidose apesar de VNI otimizada = via aérea definitiva

Referências

  1. Rochwerg B, Brochard L, Elliott MW, Hess D, Hill NS, Nava S, et al. Official ERS/ATS clinical practice guidelines: noninvasive ventilation for acute respiratory failure. Eur Respir J. 2017;50(2):1602426.
  2. Davidson AC, Banham S, Elliott M, Kennedy D, Gelder C, Glossop A, et al. BTS/ICS guideline for the ventilatory management of acute hypercapnic respiratory failure in adults. Thorax. 2016;71(Suppl 2):ii1-35.
  3. Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD). Global Strategy for the Diagnosis, Management, and Prevention of Chronic Obstructive Pulmonary Disease: 2026 Report. GOLD; 2025.
  4. Gray A, Goodacre S, Newby DE, Masson M, Sampson F, Nicholl J; 3CPO Trialists. Noninvasive ventilation in acute cardiogenic pulmonary edema. N Engl J Med. 2008;359(2):142-51.
  5. McDonagh TA, Metra M, Adamo M, Gardner RS, Baumbach A, Böhm M, et al. 2021 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure. Eur Heart J. 2021;42(36):3599-3726.

7 perguntas sobre Suporte ventilatório não invasivo

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