RespiratóriaSíndromes de apneia/hipopneia do sonoPublicado (Premium)

Síndromes de apneia/hipopneia do sono

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 13 perguntas neste tema

Fazer perguntas deste tema
Em resumo

As síndromes de apneia/hipopneia do sono agrupam distúrbios respiratórios do sono que partilham a fragmentação do sono e a hipoxemia intermitente, mas divergem no mecanismo: colapso obstrutivo da via aérea superior (SAOS), perda do estímulo ventilatório central (apneia central) ou hipoventilação sustentada (síndrome de hipoventilação-obesidade). Este capítulo assume o ângulo pneumológico e de medicina do sono, centrado na fisiopatologia, no rastreio e diagnóstico por estudo do sono e na pressão positiva contínua (CPAP) como pilar terapêutico, sem repetir a abordagem cirúrgica/ORL já coberta noutro capítulo.

Na SAOS, o evento primário é o colapso da faringe durante o sono, quando o tónus dos músculos dilatadores (sobretudo o genioglosso) diminui. A via aérea superior é um tubo colapsável sem suporte ósseo; a sua permeabilidade depende do equilíbrio entre a pressão intraluminal negativa gerada na inspiração e a força dilatadora muscular. Quando a pressão crítica de colapso (Pcrit) se torna menos negativa (obesidade com deposição de gordura peri-faríngea, retrognatia, edema), a via aérea fecha. O colapso completo gera apneia obstrutiva; o parcial gera hipopneia ou limitação de fluxo.

Cada evento termina com um microdespertar (arousal) que restaura o tónus muscular e a permeabilidade, à custa de fragmentação do sono. Este ciclo repete-se centenas de vezes por noite, produzindo dois insultos fisiopatológicos centrais:

  • Hipoxemia intermitente seguida de reoxigenação, um padrão de hipoxia-reoxigenação que gera stress oxidativo, disfunção endotelial e inflamação sistémica de baixo grau.
  • Fragmentação do sono e supressão do sono profundo/REM, com sonolência diurna e ativação simpática.

A hiperativação simpática repetida, com surtos pressóricos ao fim de cada apneia, contribui para hipertensão arterial e ausência da descida tensional noturna (padrão non-dipper). Traços fisiológicos (endotypes) além da anatomia modulam a doença: baixo limiar de despertar, elevado loop gain (resposta ventilatória instável) e má resposta muscular dilatadora.

Na apneia central, o mecanismo é instabilidade do controlo ventilatório. Na respiração de Cheyne-Stokes da insuficiência cardíaca, o tempo circulatório prolongado e o loop gain aumentado geram um padrão crescendo-decrescendo com apneias centrais. Na SHO, soma-se hipoventilação por carga mecânica da obesidade e resposta central deprimida ao CO2, culminando em hipercapnia diurna.

A avaliação começa por história dirigida (roncopatia, apneias presenciadas, sonolência, sono não reparador, nictúria, cefaleia matinal) e exame objetivo (IMC, perímetro cervical, orofaringe segundo Mallampati modificado, retrognatia, permeabilidade nasal). A sonolência diurna quantifica-se pela Escala de Sonolência de Epworth (0 a 24; valores >10 sugerem sonolência patológica), que mede propensão para adormecer, não gravidade do IAH.

O rastreio de risco pré-teste usa o questionário STOP-BANG (Snoring, Tiredness, Observed apnea, Pressure/HTA, BMI >35, Age >50, Neck >40 cm, Gender masculino): 0 a 2 baixo risco, 3 a 4 intermédio, >= 5 alto risco. É sensível e útil para priorizar estudos.

O diagnóstico confirma-se por estudo do sono. A polissonografia (PSG) laboratorial vigiada é o exame de referência: regista EEG, EOG, EMG (estadiamento do sono e arousals), fluxo aéreo, esforço tóraco-abdominal, oximetria, posição e ECG, permitindo calcular o IAH sobre o tempo real de sono e distinguir eventos obstrutivos de centrais. O estudo domiciliar do sono (poligrafia cardiorrespiratória / HSAT) mede fluxo, esforço e oximetria sem EEG; é adequado em adultos com alta probabilidade pré-teste de SAOS moderada a grave, sem comorbilidades relevantes (Kapur et al., AASM 2017).

  • Preferir PSG a HSAT quando há doença cardiorrespiratória significativa, doença neuromuscular, suspeita de hipoventilação, uso crónico de opióides ou AVC prévio.
  • Um HSAT negativo, inconclusivo ou tecnicamente inadequado exige PSG subsequente (o estudo domiciliar tende a subestimar o IAH por usar tempo de registo, não tempo de sono).

Perante hipercapnia ou dessaturação sustentada, a gasometria arterial documenta hipoventilação (essencial para SHO). Distinguir eventos obstrutivos de centrais é decisivo: eventos sem esforço tóraco-abdominal apontam ACS/Cheyne-Stokes e reorientam a etiologia para a insuficiência cardíaca.

SAOS e síndromes de apneia do sono — ângulo pneumológico 1 · Rastreio pré-teste — quem enviar para estudo do sono STOP-BANG (risco de SAOS) S Ressonar · T Cansaço · O Apneias observadas P Pressão arterial (HTA) · B IMC > 35 A Idade > 50 · N Perímetro cervical > 40 cm G Género masculino ≥ 5 alto risco · 3–4 intermédio · 0–2 baixo Sensível; prioriza os estudos do sono. Escala de Epworth (0–24) Mede a propensão para adormecer, não a gravidade do IAH. > 10 = sonolência diurna patológica Sintomas típicos: roncopatia, apneias presenciadas, sono não reparador, nictúria, cefaleia matinal. 2 · Diagnóstico — estudo do sono confirma; classificar por IAH Polissonografia (PSG) laboratorial Exame de referência EEG + fluxo + esforço tóraco-abdominal + oximetria. Calcula o IAH sobre o tempo real de sono; distingue obstrutivo/central. Preferir se doença CV, neuromuscular, opióides, AVC. Estudo domiciliar (HSAT / poligrafia) Fluxo + esforço + oximetria, sem EEG. Válido em alta probabilidade de SAOS moderada/grave SEM comorbilidades. Negativo/inconclusivo → obriga a PSG (subestima o IAH: usa tempo de registo). Diagnóstico de SAOS: IAH ≥ 5 com sintomas/comorbilidades OU IAH ≥ 15 isolado (ICSD-3-TR, AASM 2023). Ligeira IAH 5 a < 15 /h Moderada IAH 15 a < 30 /h Grave IAH ≥ 30 /h 3 · Obstrutiva vs central — a chave é o esforço respiratório Apneia OBSTRUTIVA (SAOS) Colapso da via aérea superior. Esforço tóraco-abdominal MANTÉM-SE (luta contra a via aérea fechada). Termina em microdespertar → fragmentação do sono + hipoxemia intermitente → surtos simpáticos. Apneia CENTRAL (ACS) Falha do comando ventilatório. SEM esforço respiratório. Cheyne-Stokes na insuficiência cardíaca: padrão crescendo- -decrescendo (loop gain alto). Também induzida por opióides. Síndrome de hipoventilação-obesidade (SHO / antiga síndrome de Pickwick) Obesidade (IMC ≥ 30) + hipercapnia diurna (PaCO₂ > 45 mmHg) sem outra causa. Bicarbonato elevado é pista de rastreio. Coexiste habitualmente com SAOS grave. Tratamento: ventilação não invasiva noturna (VNI/BiPAP) + perda ponderal. 4 · Tratamento — CPAP é o pilar; a adesão decide o benefício CPAP — 1.ª linha (SAOS moderada/grave) Tala pneumática: mantém a via aérea aberta; abole apneias e dessaturações. Adesão ≥ 4 h/noite em ≥ 70% das noites Benefício dose-dependente. APAP titula a pressão no domicílio; humidificação ajuda. Alternativas e cautelas DAM (avanço mandibular): SAOS ligeira- -moderada e intolerância à CPAP. SHO → VNI/BiPAP + perda de peso. ! ASV CONTRAINDICADA na apneia central com IC e FEVE ≤ 45%. 5 · Consequências cardiovasculares e de saúde pública HTA resistente: a SAOS é uma causa secundária frequente a investigar. Fibrilhação auricular: maior recorrência pós-cardioversão/ablação se não tratada. Doença coronária · insuficiência cardíaca · AVC · hipertensão pulmonar. Sonolência → acidentes de viação e laborais: rastrear condutores profissionais. SAVE (2016): CPAP não reduziu eventos CV em pouco sintomáticos, largamente por baixa adesão.

A prevenção atua sobre os fatores de risco modificáveis e sobre a deteção precoce em populações vulneráveis. A obesidade é o alvo dominante: a redução ponderal diminui a deposição de gordura peri-faríngea e o IAH, sendo recomendada em todos os doentes com excesso de peso, isolada ou combinada com CPAP. A cirurgia bariátrica pode reduzir substancialmente o IAH na obesidade grave, embora raramente o normalize por completo.

Medidas comportamentais complementares:

  • Evicção de álcool e sedativos/hipnóticos, sobretudo à noite, porque deprimem o tónus dos músculos dilatadores e prolongam os eventos.
  • Higiene de sono adequada e tratamento da privação de sono, que agrava a instabilidade ventilatória.
  • Terapia posicional quando há SAOS predominantemente em decúbito dorsal (SAOS posicional).
  • Cessação tabágica e tratamento da congestão nasal, que melhoram a permeabilidade da via aérea.

O rastreio dirigido justifica-se em grupos de alto risco e de elevado impacto: hipertensão arterial resistente, fibrilhação auricular, insuficiência cardíaca, diabetes tipo 2, AVC e obesidade mórbida. Nestes contextos, aplicar STOP-BANG e Epworth e referenciar para estudo do sono quando o risco é intermédio-alto.

Um eixo preventivo de saúde pública é o rastreio de segurança rodoviária e ocupacional: a sonolência diurna da SAOS aumenta o risco de acidentes de viação e de trabalho. Condutores profissionais e trabalhadores com funções de segurança crítica devem ser avaliados e, quando diagnosticados, tratados e documentada a adesão antes de retomar a atividade. Não há evidência que sustente o rastreio populacional universal de adultos assintomáticos.

A pressão positiva contínua na via aérea (CPAP) é o pilar do tratamento da SAOS moderada a grave (Patil et al., AASM 2019). Atua como tala pneumática, mantendo a via aérea aberta e abolindo apneias, hipopneias, dessaturações e microdespertares. Melhora a sonolência, a qualidade de vida e a tensão arterial. A pressão terapêutica obtém-se por titulação em PSG laboratorial ou, mais frequentemente, por APAP (auto-CPAP) que ajusta a pressão automaticamente no domicílio.

O fator determinante da eficácia é a adesão. Considera-se adequada >= 4 horas por noite em >= 70% das noites, mas o benefício é dose-dependente e maior com uso prolongado. A adesão melhora com:

  • Interface bem ajustada (máscara nasal preferencial; oronasal se obstrução nasal ou fuga oral) e correção de fugas.
  • Humidificação aquecida para queixas de secura/congestão.
  • Educação, acompanhamento estruturado e telemonitorização dos dados de utilização.

Alternativas quando há intolerância ou doença ligeira:

  • Dispositivo de avanço mandibular (DAM): opção de primeira linha na SAOS ligeira a moderada e na intolerância à CPAP.
  • Medidas comportamentais (perda de peso, posicional) como adjuvantes.
  • Cirurgia da via aérea superior e neuroestimulação do hipoglosso em casos selecionados (abordagem cirúrgica detalhada noutro capítulo).

Na apneia central com Cheyne-Stokes da insuficiência cardíaca, a prioridade é otimizar o tratamento da IC; a servoventilação adaptativa (ASV) está contraindicada na IC com fração de ejeção reduzida (FEVE <= 45%) por aumento da mortalidade. Na SHO, o tratamento de eleição é a ventilação não invasiva noturna (VNI/BiPAP) associada a perda ponderal; considerar CPAP se coexistir SAOS grave sem hipoventilação significativa residual.

Referências

  1. Kapur VK, Auckley DH, Chowdhuri S, et al. Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. J Clin Sleep Med. 2017;13(3):479-504.
  2. Patil SP, Ayappa IA, Caples SM, et al. Treatment of Adult Obstructive Sleep Apnea With Positive Airway Pressure: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. J Clin Sleep Med. 2019;15(2):335-343.
  3. American Academy of Sleep Medicine. International Classification of Sleep Disorders, 3rd edition, Text Revision (ICSD-3-TR). Darien, IL: AASM; 2023.
  4. Mokhlesi B, Masa JF, Brozek JL, et al. Evaluation and Management of Obesity Hypoventilation Syndrome. An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(3):e6-e24.
  5. Chung F, Abdullah HR, Liao P. STOP-Bang Questionnaire: A Practical Approach to Screen for Obstructive Sleep Apnea. Chest. 2016;149(3):631-638.
  6. Johns MW. A new method for measuring daytime sleepiness: the Epworth sleepiness scale. Sleep. 1991;14(6):540-545.
  7. McEvoy RD, Antic NA, Heeley E, et al. CPAP for Prevention of Cardiovascular Events in Obstructive Sleep Apnea (SAVE). N Engl J Med. 2016;375(10):919-931.
  8. Cowie MR, Woehrle H, Wegscheider K, et al. Adaptive Servo-Ventilation for Central Sleep Apnea in Systolic Heart Failure (SERVE-HF). N Engl J Med. 2015;373(12):1095-1105.

13 perguntas sobre Síndromes de apneia/hipopneia do sono

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar
Síndromes de apneia/hipopneia do sono — Respiratória · InovaQB