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Síndrome de dificuldade respiratória aguda

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema

Em resumo

A síndrome de dificuldade respiratória aguda (SDRA) é uma insuficiência respiratória hipoxémica de instalação rápida, causada por edema pulmonar inflamatório: a barreira alvéolo-capilar lesada deixa passar líquido rico em proteínas, os alvéolos enchem-se e colapsam, e o sangue atravessa zonas que não ventilam. Não é uma doença, é uma via comum de lesão pulmonar difusa, desencadeada por uma agressão direta ao pulmão (pneumonia, aspiração) ou indireta (sépsis, trauma, pancreatite, transfusões). A pneumonia e a sépsis explicam 40 a 60% dos casos, e cerca de 10% dos internamentos em cuidados intensivos têm SDRA.

Apresenta-se horas a poucos dias depois do fator de risco, com dispneia, taquipneia e hipoxemia que responde mal ao oxigénio, e com opacidades bilaterais que na radiografia se confundem com edema cardiogénico. O diagnóstico é sindrómico: início até uma semana depois da agressão, opacidades bilaterais e edema que não se explica principalmente por insuficiência cardíaca ou sobrecarga de volume, com a gravidade medida pela relação entre a pressão arterial de oxigénio e a fração inspirada de oxigénio. A definição global de 2023 alargou os critérios de Berlim à oximetria, ao doente não entubado sob oxigénio nasal de alto fluxo e à ecografia pulmonar.

Nenhum fármaco repara a lesão pulmonar: trata-se a causa e ventila-se sem agravar o pulmão. A ventilação protetora (volume corrente de 6 mL/kg de peso predito, pressão de planalto até 30 cmH2O, pressão de distensão baixa) é a medida com melhor evidência de benefício na mortalidade; quando a relação fica abaixo de 150 junta-se o prono, durante pelo menos 16 horas por dia, e na hipoxemia refratária a oxigenação por membrana extracorporal venovenosa. Os corticoides são hoje sugeridos pelas guidelines americanas; o bloqueio neuromuscular e as manobras de recrutamento não se usam por rotina.

O que não se pode falhar: calcular o volume corrente pelo peso predito a partir da altura, nunca pelo peso real; excluir edema cardiogénico com ecocardiografia quando não há fator de risco evidente; e lembrar que a maioria dos doentes morre de sépsis e da falência de outros órgãos, e não da hipoxemia.

Fatores de risco

Mais de 80% dos casos vêm de poucas causas; a pneumonia e a sépsis explicam 40 a 60%.

agressão direta (pulmonar)agressão indireta (sistémica)
PneumoniaSépsis
Aspiração de conteúdo gástricoTrauma grave, fraturas múltiplas, retalho costal
Contusão pulmonarTransfusões múltiplas
Quase afogamentoPancreatite aguda
Inalação tóxicaSobredosagem de fármacos
Circulação extracorporal em cirurgia cardíaca, queimaduras
  • Aumentam o risco a idade avançada, o consumo crónico de álcool, a gravidade da doença crítica e a presença de mais do que um fator.

Três fases

fasetempoo que acontece
Exsudativaprimeiros 7 diaslesão do endotélio capilar e dos pneumócitos tipo I; edema intersticial e alveolar rico em proteínas; citocinas (interleucina 1, interleucina 8, fator de necrose tumoral alfa) recrutam neutrófilos; proteínas, detritos e surfactante inativado formam membranas hialinas (dano alveolar difuso); microtrombos na circulação pulmonar
Proliferativacerca do dia 7 ao 21organização do exsudado; o infiltrado passa de neutrófilos a linfócitos; os pneumócitos tipo II proliferam, produzem surfactante novo e diferenciam-se em tipo I; a maioria recupera nesta fase
Fibróticadepois das 3 a 4 semanas, só em algunsfibrose intersticial e dos ductos alveolares, bolhas, obliteração vascular com hipertensão pulmonar; ventilação prolongada e maior mortalidade

Da lesão à hipoxemia

  • O edema e o surfactante inativado colapsam as regiões dependentes do pulmão (as posteriores, em decúbito dorsal): a TC mostra um pulmão heterogéneo, com zonas consolidadas ao lado de alvéolos normais.
  • Shunt intrapulmonar: o sangue que passa por alvéolos cheios ou colapsados não é oxigenado. Por isso a hipoxemia responde mal ao aumento da FiO2 e melhora com a PEEP, que reabre alvéolos.
  • Espaço morto aumentado, por oclusão microvascular: zonas ventiladas e não perfundidas. Dá hipercapnia, que pode ser marcada logo na fase inicial.
  • Compliance baixa: o que resta arejado é um pulmão funcional pequeno, e não um pulmão rígido por igual. Um volume corrente normal para o peso do doente distende em excesso essa pequena parte sã.
  • Hipertensão pulmonar por vasoconstrição hipóxica, microtrombos e compressão vascular, que pode sobrecarregar o ventrículo direito (cor pulmonale agudo).

Lesão pulmonar induzida pelo ventilador

mecanismocausa
Volutraumasobredistensão alveolar por volume corrente alto
Barotraumapressões alveolares altas (pneumotórax, pneumomediastino)
Atelectraumaabertura e fecho repetidos de alvéolos instáveis, por PEEP insuficiente
Biotraumalibertação de mediadores inflamatórios que passam à circulação e agravam a falência de outros órgãos

O diagnóstico é clínico, pela aplicação dos critérios; não existe um teste que o confirme.

Oxigenação

  • Gasometria arterial com a FiO2 e a PEEP registadas, para calcular a PaO2/FiO2.
  • Sem gasometria, SpO2/FiO2 com saturação de 97% ou menos.

Imagem

  • Radiografia do tórax: opacidades bilaterais compatíveis com edema, muitas vezes em três quartos ou mais dos campos pulmonares. Não se distinguem com segurança do edema cardiogénico, mas na SDRA faltam em regra a cardiomegalia, os derrames pleurais e a redistribuição vascular.
  • TC do tórax: opacidades bilaterais heterogéneas, com edema e colapso nas zonas dependentes; deteta complicações (pneumotórax, derrame, abcesso).
  • Ecografia pulmonar: linhas B e consolidações bilaterais.

Excluir edema cardiogénico

a favor de SDRAa favor de edema cardiogénico
fator de risco presente (pneumonia, sépsis, aspiração, trauma)doença cardíaca conhecida, sobrecarga de fluidos
silhueta cardíaca normal, opacidades periféricascardiomegalia, redistribuição vascular, linhas B de Kerley, derrames
peptídeos natriuréticos pouco elevadospeptídeos natriuréticos muito elevados
função ventricular normal na ecocardiografiadisfunção ventricular ou valvular, pressões de enchimento altas
  • A ecocardiografia transtorácica é o exame de eleição e é obrigatória quando não há fator de risco evidente.
  • O cateter da artéria pulmonar não é necessário: a pressão de encravamento deixou de fazer parte da definição.

Investigação da causa

Em paralelo: hemoculturas, secreções respiratórias, pesquisa de vírus respiratórios (incluindo SARS-CoV-2), antigenúrias, lipase, e procura de aspiração ou de um foco de sépsis. No imunodeprimido, ou quando não há causa aparente, lavado broncoalveolar.

Diagnóstico diferencial

  • Mais frequentes: edema pulmonar cardiogénico, pneumonia bilateral e hemorragia alveolar difusa.
  • Menos frequentes: pneumonia intersticial aguda e outras doenças intersticiais agudas, pneumonite de hipersensibilidade, pneumonite rádica, edema pulmonar neurogénico.
SDRA: definição de Berlim e pilares do tratamento Síndrome de dificuldade respiratória aguda: edema pulmonar inflamatório não cardiogénico Critérios de Berlim (2012): os quatro obrigatórios 1. Início agudo Até 1 semana após agressão clínica ou agravamento respiratório 2. Opacidades bilaterais Radiografia, TC ou ecografia; não explicadas por derrame, colapso ou nódulos 3. Edema não cardiogénico Não explicado por insuficiência cardíaca nem por sobrecarga de volume 4. Oxigenação (PEEP ou CPAP de 5 ou mais) Gravidade pela relação PaO2/FiO2 graduada abaixo Gravidade pela relação PaO2/FiO2 (sempre com PEEP ou CPAP de 5 cmH2O ou mais) Ligeira 200 a 300 mmHg Moderada 100 a 200 mmHg Grave 100 ou menos mmHg Pilares do tratamento (tratar sempre a causa: pneumonia, sépsis, aspiração...) Ventilação protetora Volume corrente 6 mL/kg de peso predito (4 a 8) Pressão de planalto até 30 cmH2O Pressão de distensão abaixo de 15 Posição de prono Na SDRA moderada a grave (PaO2/FiO2 abaixo de 150) 16 horas ou mais por dia Reduz a mortalidade Balanço hídrico conservador Restrição e diuréticos, balanço tendencialmente negativo se estável Mais dias sem ventilador ! O volume corrente calcula-se pelo peso predito (altura e sexo), nunca pelo peso real.

Tratar a causa e cuidados gerais

  • Antibioterapia precoce e controlo do foco na pneumonia e na sépsis; tratar a pancreatite, o trauma, a aspiração.
  • Cuidados gerais do doente crítico: profilaxia do tromboembolismo venoso e da hemorragia digestiva, prevenção da aspiração, sedação mínima necessária, prevenção das infeções de cateter venoso central, nutrição entérica.

Antes da entubação

  • Oxigénio nasal de alto fluxo em vez de oxigénio convencional na insuficiência respiratória hipoxémica que não seja edema cardiogénico nem exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crónica: reduz a entubação, sem reduzir a mortalidade (ESICM 2023, sociedade europeia de medicina intensiva).
  • Na COVID-19, a CPAP ou a ventilação não invasiva reduzem a entubação face ao oxigénio convencional; fora da COVID-19 não têm benefício demonstrado.

Ventilação protetora

parâmetroalvo
Volume corrente6 mL/kg de peso predito (intervalo aceite de 4 a 8)
Pressão de planalto30 cmH2O ou menos; se passar, descer o volume em passos de 1 mL/kg até ao mínimo de 4
Pressão de distensão (planalto menos PEEP)tão baixa quanto possível; o risco de morte sobe acima de 15 cmH2O
OxigenaçãoPaO2 de 55 a 80 mmHg ou SpO2 de 88 a 95%
Frequência respiratóriasubir para corrigir a acidose, até 35 por minuto
pHtolera-se a acidose respiratória até cerca de 7,20 (hipercapnia permissiva)
  • Peso predito: homem 50 + 0,91 × (altura em cm − 152,4); mulher 45,5 + 0,91 × (altura em cm − 152,4). Depende só da altura e do sexo.
  • A pressão de planalto mede-se com uma pausa inspiratória de 0,5 segundos.
  • O volume corrente de 6 mL/kg reduziu a mortalidade de 40 para 31% face a 12 mL/kg.
  • A pressão de distensão foi a variável ventilatória mais associada à sobrevida numa análise de nove ensaios; nenhuma guideline lhe fixa ainda um limite formal.
  • A hipercapnia permissiva evita-se na hipertensão intracraniana, porque o CO2 alto aumenta a pressão intracraniana.

PEEP e recrutamento alveolar

  • A PEEP reabre alvéolos, reduz o shunt e o atelectrauma e permite baixar a FiO2; em excesso sobredistende e baixa o débito cardíaco.
  • PEEP mais alta, sem manobras de recrutamento, na SDRA moderada a grave: sugestão da ATS 2024 (sociedade torácica americana). A ESICM 2023 considera a evidência insuficiente para recomendar a favor ou contra. Não há método consensual para a escolher; usa-se muitas vezes uma tabela de combinações de PEEP e FiO2.
  • Manobras de recrutamento prolongadas (PEEP de 35 cmH2O ou mais durante mais de 60 segundos): não se fazem (recomendação forte da ATS 2024 e da ESICM 2023). Associadas a PEEP alta aumentaram a mortalidade, e causam hipotensão, dessaturação e barotrauma. A ESICM também desaconselha as breves de alta pressão.

Prono

  • Indicação: PaO2/FiO2 abaixo de 150 com PEEP de pelo menos 5 cmH2O, apesar de otimizar a ventilação (ESICM 2023).
  • Duração: pelo menos 16 horas por dia (ESICM 2023; a ATS recomenda mais de 12). No ensaio que o estabeleceu, a mortalidade aos 28 dias desceu de 32,8% para 16,0%.
  • Exige equipa treinada: há risco de extubação acidental, perda de cateteres e lesões por pressão.

Bloqueio neuromuscular

  • Não se usa por rotina em perfusão contínua na SDRA moderada a grave (recomendação forte, ESICM 2023).
  • A ATS 2024 sugere-o na SDRA grave precoce (PaO2/FiO2 de 100 ou menos, nas primeiras 48 horas), idealmente por 48 horas no máximo.
  • Na prática, reserva-se para a assincronia com o ventilador que persiste apesar da sedação e impede a ventilação protetora.

Corticoides

  • A ATS 2024 sugere corticoides na SDRA (recomendação condicional, certeza moderada), tal como a atualização de 2024 da sociedade americana de medicina intensiva (SCCM) no doente crítico com SDRA. Nenhuma fixa fármaco, dose nem duração; não se iniciam depois de 2 semanas de evolução; a duração variou muito nos ensaios incluídos, e em vários suspendiam-se na extubação, sem que a guideline fixe essa regra.
  • A ESICM 2023 trata só medidas não farmacológicas e não os aborda.

Fluidos

  • Estratégia conservadora depois de corrigido o choque: restrição de fluidos e diuréticos para manter baixas as pressões de enchimento, até ao limite da hipotensão e da hipoperfusão de órgãos. Melhora a oxigenação e encurta a ventilação e o internamento em cuidados intensivos, sem aumentar o choque nem a necessidade de diálise.

Hipoxemia refratária

  • Oxigenação por membrana extracorporal (ECMO) venovenosa: o sangue é oxigenado e liberto de CO2 num circuito externo. Recomendada pela ESICM 2023 na SDRA grave, em centro de ECMO; a ATS 2024 sugere-a em doentes selecionados, com causa reversível, PaO2/FiO2 abaixo de 80 ou hipercapnia grave (pH abaixo de 7,25 com PaCO2 de 60 mmHg ou mais), nos primeiros 7 dias.
  • A remoção extracorporal de CO2 não se recomenda.
  • Óxido nítrico inalado e epoprostenol inalado melhoram transitoriamente a oxigenação sem reduzir a mortalidade.
  • Sem benefício: ventilação oscilatória de alta frequência, surfactante, outros anti-inflamatórios.

Referências

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