Síndrome de dificuldade respiratória aguda
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema
A síndrome de dificuldade respiratória aguda (SDRA) é uma forma de insuficiência respiratória hipoxémica de instalação aguda, causada por edema pulmonar inflamatório rico em proteínas e não explicado por insuficiência cardíaca. É uma entidade sindrómica (não uma doença única) desencadeada por múltiplas agressões pulmonares e sistémicas, cujo pilar terapêutico é a ventilação mecânica protetora. Distingui-la do edema cardiogénico e aplicar corretamente os critérios de Berlim são competências nucleares para o PNA.
A lesão histopatológica clássica da SDRA é o dano alveolar difuso (DAD), que evolui em fases sobreponíveis:
- Fase exsudativa (primeiros dias): lesão da barreira alvéolo-capilar (endotélio e epitélio alveolar), com aumento da permeabilidade e edema alveolar rico em proteínas. Forma-se material hialino (membranas hialinas) e há afluxo de neutrófilos, com libertação de citocinas pró-inflamatórias, proteases e espécies reativas de oxigénio.
- Fase proliferativa: proliferação de pneumócitos tipo II, organização do exsudado e início de reparação.
- Fase fibrótica (nem sempre presente): deposição de colagénio e fibrose, associada a pior prognóstico e a dependência ventilatória prolongada.
A lesão do pneumócito tipo II é central: reduz a produção e reciclagem de surfactante, elevando a tensão superficial e favorecendo o colapso alveolar (atelectasia). O edema e o colapso geram um pulmão heterogéneo, com zonas consolidadas justapostas a alvéolos arejados: o conceito de baby lung traduz o volume pulmonar funcionalmente disponível, muito reduzido.
Os mecanismos de hipoxemia dominantes são o shunt intrapulmonar (perfusão de unidades não ventiladas, pouco responsivo ao aumento da FiO2) e o desequilíbrio ventilação/perfusão. Há também compliance pulmonar diminuída e aumento do espaço morto, que se correlaciona com mortalidade.
Um eixo fisiopatológico crítico é a lesão pulmonar induzida pelo ventilador (VILI). Num pulmão pequeno e heterogéneo, volumes correntes elevados causam volutrauma (sobredistensão), pressões elevadas causam barotrauma, e a abertura e fecho cíclicos de alvéolos instáveis causam atelectrauma. Estes estímulos amplificam a inflamação local e sistémica (biotrauma), podendo perpetuar a disfunção de órgãos. Toda a estratégia ventilatória protetora deriva diretamente da compreensão da VILI. O aumento da resistência vascular pulmonar e a hipertensão pulmonar com sobrecarga do ventrículo direito (cor pulmonale agudo) constituem uma via de agravamento hemodinâmico.
O diagnóstico de SDRA é clínico-sindrómico, por aplicação dos critérios de Berlim (ou da Definição Global 2023), e não depende de um teste isolado. A avaliação segue três eixos:
- Quantificar a hipoxemia: calcular PaO2/FiO2 por gasometria arterial com a FiO2 e a PEEP/CPAP documentadas; na indisponibilidade de gasometria, usar SpO2/FiO2 (SpO2 ≤ 97%).
- Documentar as opacidades bilaterais: radiografia ou TC de tórax; a ecografia pulmonar é agora alternativa aceite. A TC ajuda a caracterizar a heterogeneidade e a detetar complicações (pneumotórax, derrame, consolidações abcedadas).
- Estabelecer a origem não cardiogénica do edema: é o passo diagnóstico mais examinável.
Distinção do edema cardiogénico (ponto de alto rendimento):
- A favor de SDRA: ausência de sinais de sobrecarga esquerda, silhueta cardíaca normal, opacidades periféricas e difusas, BNP/NT-proBNP tipicamente pouco elevados.
- A favor de edema cardiogénico: cardiomegalia, redistribuição vascular, linhas B de Kerley, derrames, BNP/NT-proBNP francamente elevados, disfunção sistólica/diastólica na ecocardiografia.
- A ecocardiografia transtorácica é o exame de eleição para avaliar função ventricular e pressões de enchimento; o cateter da artéria pulmonar não é rotineiro. Um valor histórico é a pressão de encravamento (PCWP) ≤ 18 mmHg, mas já não faz parte dos critérios.
A investigação etiológica corre em paralelo: hemoculturas e culturas de secreções respiratórias, painel de vírus respiratórios (incluindo SARS-CoV-2 e influenza), avaliação de sépsis, pesquisa de aspiração e, quando há dúvida (padrão atípico, ausência de fator de risco, não resposta), ponderar lavado broncoalveolar e causas mimetizadoras (hemorragia alveolar, pneumonia em organização, pneumonite de hipersensibilidade aguda, doença intersticial aguda). A procalcitonina pode apoiar a decisão antibiótica, mas não confirma nem afasta SDRA.
A abordagem assenta em tratar a causa (por exemplo, antibioterapia dirigida na pneumonia/sépsis, controlo do foco) e em suporte ventilatório protetor que minimize a VILI.
Ventilação protetora (pilar central):
- Volume corrente baixo: 6 mL/kg de peso corporal predito (intervalo 4 a 8 mL/kg), calculado pela altura e sexo, não pelo peso real. Base de evidência: ensaio ARDSNet/ARMA (NEJM 2000), que reduziu a mortalidade.
- Pressão de plateau < 30 cmH2O, para limitar a sobredistensão.
- Driving pressure (plateau menos PEEP) tão baixa quanto possível, idealmente < 15 cmH2O: é a variável mais associada à sobrevida (análise de Amato, NEJM 2015).
- PEEP para recrutar alvéolos e evitar atelectrauma: níveis mais altos são sugeridos na SDRA moderada a grave (guidelines ATS/ESICM/SCCM 2017; ESICM 2023).
- Hipercapnia permissiva: tolerar subida da PaCO2 (com pH em geral > 7,20) para manter volumes e pressões seguras.
- Alvos de oxigenação razoáveis: SpO2 ~ 88 a 95% ou PaO2 ~ 55 a 80 mmHg, evitando hiperóxia.
Medidas na forma grave (PaO2/FiO2 < 150 apesar de otimização):
- Posição de prono ≥ 12 a 16 horas por dia: melhora a oxigenação e reduz a mortalidade (ensaio PROSEVA, NEJM 2013); recomendada na SDRA grave.
- Bloqueio neuromuscular por curto período pode ser ponderado em hipoxemia grave/assincronia refratária.
- Vasodilatadores inalados (óxido nítrico) apenas como resgate transitório da oxigenação, sem benefício de mortalidade.
- ECMO veno-venosa em centros diferenciados na hipoxemia refratária (referência ao ensaio EOLIA e guidelines).
Medidas de suporte:
- Estratégia hídrica conservadora/restritiva (balanço tendencialmente negativo) melhora dias sem ventilador, se hemodinâmica estável.
- Sedação orientada por objetivos, profilaxia de tromboembolismo e de úlcera de stress, nutrição e prevenção de infeções associadas.
- Corticoides podem ser considerados em fenótipos selecionados (por exemplo, SDRA por COVID-19, onde a dexametasona tem benefício); a decisão é individualizada e depende da causa.
Referências
- Matthay MA, Arabi Y, Arroliga AC, et al. A New Global Definition of Acute Respiratory Distress Syndrome. Am J Respir Crit Care Med. 2024;209(1):37-47.
- ARDS Definition Task Force; Ranieri VM, Rubenfeld GD, Thompson BT, et al. Acute respiratory distress syndrome: the Berlin Definition. JAMA. 2012;307(23):2526-2533.
- Fan E, Del Sorbo L, Goligher EC, et al. An Official ATS/ESICM/SCCM Clinical Practice Guideline: Mechanical Ventilation in Adult Patients with Acute Respiratory Distress Syndrome. Am J Respir Crit Care Med. 2017;195(9):1253-1263.
- Grasselli G, Calfee CS, Camporota L, et al. ESICM guidelines on acute respiratory distress syndrome: definition, phenotyping and respiratory support strategies. Intensive Care Med. 2023;49(7):727-759.
- The Acute Respiratory Distress Syndrome Network; Brower RG, Matthay MA, Morris A, et al. Ventilation with lower tidal volumes as compared with traditional tidal volumes for acute lung injury and the acute respiratory distress syndrome. N Engl J Med. 2000;342(18):1301-1308.
- Guerin C, Reignier J, Richard JC, et al. Prone positioning in severe acute respiratory distress syndrome. N Engl J Med. 2013;368(23):2159-2168.
- Amato MB, Meade MO, Slutsky AS, et al. Driving pressure and survival in the acute respiratory distress syndrome. N Engl J Med. 2015;372(8):747-755.
- Papazian L, Aubron C, Brochard L, et al. Formal guidelines: management of acute respiratory distress syndrome. Ann Intensive Care. 2019;9(1):69.
9 perguntas sobre Síndrome de dificuldade respiratória aguda
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar