RespiratóriaPneumonites de hipersensibilidade e infiltrados pulmonares com eosinofiliaPublicado (Premium)

Pneumonites de hipersensibilidade e infiltrados pulmonares com eosinofilia

Matriz PNA:D · Diagnóstico

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema

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Em resumo

As pneumonites de hipersensibilidade e os infiltrados pulmonares com eosinofilia partilham um mesmo eixo fisiopatológico: uma resposta imune desregulada a um estímulo inalado, medicamentoso ou infecioso, que se traduz em infiltrados parenquimatosos. Para o PNA interessa sobretudo reconhecer o padrão clínico-imagiológico, ancorar o diagnóstico na exposição e nos exames-chave (TCAR, lavado broncoalveolar, eosinofilia, IgE) e saber que a base terapêutica é quase sempre a mesma: remover a causa e corrigir a inflamação com corticoide. Este capítulo (relevância C) foca a avaliação diagnóstica, com a terapêutica sintetizada em situações especiais.

O diagnóstico assenta na integração de exposição, imagem e lavado broncoalveolar (LBA), idealmente em discussão multidisciplinar.

Pneumonite de hipersensibilidade. A anamnese de exposição é o passo inicial e mais rentável: aves domésticas, penas de edredões, feno, cogumelos, humidificadores, ambiente ocupacional. A TCAR é central (guideline ATS/JRS/ALAT 2020):

  • PH não fibrótica: vidro despolido difuso, nódulos centrilobulares mal definidos e atenuação em mosaico com air-trapping, gerando o padrão de três densidades ("head-cheese").
  • PH fibrótica: reticulação e bronquiectasias de tração com distribuição não típica de fibrose pulmonar idiopática, mantendo mosaico/air-trapping.

O LBA revela linfocitose (muitas vezes marcada), achado que apoia fortemente o diagnóstico. As IgG específicas / precipitinas documentam exposição (não são, isoladamente, diagnóstico). A biópsia (quando necessária) mostra bronquiolite, infiltrado linfocítico e granulomas mal formados. A guideline combina estes elementos em níveis de confiança diagnóstica.

Infiltrados com eosinofilia. O hemograma com eosinofilia e o LBA orientam:

  • Pneumonia eosinofílica aguda: adulto jovem, frequentemente com início recente de tabagismo, dispneia aguda e insuficiência respiratória; infiltrados difusos; eosinofilia no LBA (>25%), por vezes sem eosinofilia periférica inicial.
  • Pneumonia eosinofílica crónica: mulher com asma, semanas de tosse, dispneia e perda ponderal; infiltrados periféricos (imagem em "negativo do edema pulmonar"); eosinofilia periférica e no LBA marcadas.
  • ABPA: asma ou fibrose quística, IgE total muito elevada, IgE e IgG específicas para Aspergillus fumigatus, eosinofilia, bronquiectasias centrais e impactação mucoide ("finger-in-glove"); critérios ISHAM-ABPA 2024.
  • Síndrome de Löffler: infiltrados migratórios transitórios com eosinofilia; investigar parasitas (exame parasitológico de fezes; Ascaris, Strongyloides, ancilostomídeos).
  • GEPA (Churg-Strauss): asma + eosinofilia + vasculite; ANCA (anti-MPO) positivo em cerca de 40%, mononeurite múltipla, envolvimento cardíaco/renal (critérios de classificação ACR/EULAR 2022).
  • Fármacos: nitrofurantoína, sulfassalazina, minociclina, daptomicina, AINEs; a relação temporal é a chave.
Pneumonites de hipersensibilidade vs infiltrados com eosinofilia Resposta imune desregulada a estímulo inalado, medicamentoso ou infecioso → infiltrados parenquimatosos Regra separadora (lavado broncoalveolar): PH → linfocitose · infiltrados eosinofílicos → eosinofilia PNEUMONITE DE HIPERSENSIBILIDADE (alveolite alérgica extrínseca) Mecanismo: hipersensibilidade tipo III (imunocomplexos, IgG) + tipo IV (linfócitos T, granulomas). Antigénio orgânico inalado (âncora): • Proteínas de aves — pulmão do criador de aves/pombos • Fungos e actinomicetos termofílicos do feno mofado — pulmão do agricultor • Humidificadores e sistemas de ar condicionado contaminados Classificação ATS/JRS/ALAT 2020 Não fibrótica — inflamatória, reversível com evicção Fibrótica — fibrose estabelecida, substituiu aguda/subaguda/crónica TCAR e lavado broncoalveolar Nódulos centrilobulares, atenuação em mosaico e air-trapping → padrão de três densidades (“head-cheese”) Lavado: linfocitose (apoia dx) INFILTRADOS PULMONARES COM EOSINOFILIA Infiltrados radiológicos + eosinofilia (sangue e/ou lavado). Grupo etiologicamente heterogéneo: Pneumonia eosinofílica aguda Jovem, início recente de tabagismo; dispneia aguda, insuficiência respiratória Eosinofilia no lavado >25% (pode faltar no sangue) Pneumonia eosinofílica crónica Mulher com asma; semanas de tosse, dispneia, perda ponderal Infiltrados periféricos (“negativo do edema”) ABPA (aspergilose broncopulmonar alérgica) Asma ou fibrose quística; IgE total muito elevada, sensibilização a Aspergillus fumigatus Bronquiectasias centrais; critérios ISHAM 2024 Síndrome de Löffler Eosinofilia pulmonar transitória por parasitas em migração (Ascaris, Strongyloides) Infiltrados migratórios; autolimitada GEPA / Churg-Strauss (vasculite) Asma + eosinofilia + vasculite ANCA anti-MPO positivo em cerca de 40% Critérios ACR/EULAR 2022; risco cardíaco/renal Reações a fármacos Nitrofurantoína, sulfassalazina, minociclina, daptomicina, AINEs Relação temporal é a chave; causa reversível Exames-chave orientadores Hemograma com eosinofilia + lavado broncoalveolar (eosinófilos) IgE total e IgE/IgG específicas para Aspergillus → ABPA ANCA anti-MPO → GEPA; exame parasitológico de fezes → Löffler Base terapêutica transversal: evicção da causa + corticoide PH: evicção do antigénio (essencial); corticoide nas formas sintomáticas; nintedanib na PH fibrótica progressiva. Eosinofílica: aguda → corticoide + cessação tabágica; crónica → corticoide prolongado com desmame lento. ABPA: corticoide oral + azol (itraconazol/voriconazol). GEPA: corticoide, imunossupressor se grave, mepolizumab. Löffler: anti-helmíntico dirigido. Fármacos: suspender o agente responsável.

Referências

  1. Raghu G, Remy-Jardin M, Ryerson CJ, et al. Diagnosis of Hypersensitivity Pneumonitis in Adults. An Official ATS/JRS/ALAT Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2020;202(3):e36-e69.
  2. Agarwal R, Sehgal IS, Muthu V, et al. Revised ISHAM-ABPA working group clinical practice guidelines for diagnosing, classifying and treating allergic bronchopulmonary aspergillosis/mycoses. Eur Respir J. 2024.
  3. Global Initiative for Asthma (GINA). Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2025.
  4. Grayson PC, Ponte C, Suppiah R, et al. 2022 American College of Rheumatology/European Alliance of Associations for Rheumatology Classification Criteria for Eosinophilic Granulomatosis with Polyangiitis. Ann Rheum Dis. 2022.
  5. Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., eds. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022.

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