Fibrose quística
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema
A fibrose quística é a doença autossómica recessiva letal mais frequente na população caucasiana e resulta de variantes patogénicas no gene CFTR, que codifica um canal de cloreto epitelial. O defeito origina secreções espessas e desidratadas com atingimento multissistémico (respiratório, pancreático, intestinal, hepatobiliar e reprodutor). Para o PNA, o eixo examinável deste tema é o diagnóstico: articular rastreio neonatal, prova do suor e confirmação genética, com noção da terapêutica atual centrada nos moduladores do CFTR.
O diagnóstico assenta em três pilares: rastreio neonatal, prova do suor e estudo genético do CFTR, integrados com a clínica.
Rastreio neonatal. O rastreio integrou o Programa Nacional de Rastreio Neonatal em Portugal desde dezembro de 2018 (cartão do pezinho). O primeiro passo é o doseamento da tripsina imunorreativa (TIR) no sangue seco: está elevada quando há lesão pancreática precoce. Um valor alto desencadeia um algoritmo sequencial (por exemplo TIR/DNA/TIR ou TIR/DNA) que combina repetição da TIR com pesquisa de variantes CFTR. O rastreio positivo não é diagnóstico: obriga sempre a confirmação por prova do suor.
Prova do suor. É o exame de referência. Faz-se por estimulação com pilocarpina por iontoforese e quantificação do cloreto no suor. Interpretação (consenso da Cystic Fibrosis Foundation, Farrell 2017):
- Cloreto ≥ 60 mmol/L: apoia fortemente o diagnóstico (necessita confirmação, habitualmente em duas ocasiões).
- 30 a 59 mmol/L: valor intermédio, exige repetição e estudo genético alargado.
- < 30 mmol/L: torna a fibrose quística improvável em qualquer idade. Erros pré-analíticos (amostra insuficiente, edema, desnutrição, corticoterapia) podem falsear o resultado.
Estudo genético. A identificação de duas variantes patogénicas do CFTR, uma em cada alelo, confirma o diagnóstico e caracteriza a variante para efeitos terapêuticos. Painéis dirigidos a variantes prevalentes podem não captar variantes raras, pelo que a sua negatividade não afasta a doença quando a clínica e a prova do suor são sugestivas.
Critérios diagnósticos. Exige-se evidência de disfunção do CFTR (prova do suor ≥ 60 mmol/L, ou duas variantes patogénicas, ou diferença de potencial nasal alterada) associada a pelo menos um de: quadro clínico compatível, rastreio neonatal positivo, ou irmão afetado.
Em crianças com rastreio positivo mas critérios incompletos, usa-se a designação CRMS/CFSPID (síndrome metabólica relacionada com CFTR / diagnóstico indeterminado), que impõe vigilância. Nos adultos, formas ligeiras podem apresentar-se como bronquiectasias difusas, pancreatite recorrente ou azoospermia obstrutiva isolada, entrando no espetro das doenças relacionadas com o CFTR.
Referências
- Farrell PM, White TB, Ren CL, et al. Diagnosis of Cystic Fibrosis: Consensus Guidelines from the Cystic Fibrosis Foundation. J Pediatr. 2017;181S:S4-S15.e1.
- Castellani C, Duff AJA, Bell SC, et al. ECFS best practice guidelines: the 2018 revision. J Cyst Fibros. 2018;17(2):153-178.
- Middleton PG, Mall MA, Dřevínek P, et al. Elexacaftor-Tezacaftor-Ivacaftor for Cystic Fibrosis with a Single Phe508del Allele. N Engl J Med. 2019;381(19):1809-1819.
- Shteinberg M, Haq IJ, Polineni D, Davies JC. Cystic fibrosis. Lancet. 2021;397(10290):2195-2211.
- European Medicines Agency. Kaftrio (elexacaftor/tezacaftor/ivacaftor): EPAR e informação do produto. Amsterdão: EMA; atualização de 2024.
- Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Programa Nacional de Rastreio Neonatal: relatório 2024. Lisboa: INSA; 2024.
8 perguntas sobre Fibrose quística
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