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Fibrose quística

Matriz PNA:D · Diagnóstico

Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema

Em resumo

A fibrose quística é uma doença autossómica recessiva causada por variantes patogénicas nos dois alelos do gene CFTR, que codifica um canal de cloreto e bicarbonato da membrana apical dos epitélios. Sem ele, as secreções ficam desidratadas e espessas e obstruem as vias aéreas, os ductos pancreáticos, as vias biliares, o intestino e os canais deferentes. Em Portugal nasce cerca de uma criança afetada em cada 9200.

A doença pulmonar, com infeção crónica, inflamação neutrofílica e bronquiectasias, é a principal causa de morbilidade e de morte. A insuficiência pancreática exócrina atinge cerca de 90% dos doentes e dá má absorção e má progressão ponderal; o íleo meconial é a apresentação de 10 a 20% dos recém-nascidos, e quase todos os homens são inférteis por ausência dos canais deferentes.

Hoje a maioria dos casos chega pelo rastreio neonatal, que em Portugal usa a tripsina imunorreativa e a proteína associada à pancreatite. O rastreio positivo nunca é diagnóstico: a confirmação faz-se com a prova do suor, em que um cloreto de 60 mmol/L ou mais confirma, ou com o estudo genético, em que duas variantes causadoras em alelos diferentes também confirmam. O genótipo é sempre caracterizado, porque decide quem recebe os moduladores do CFTR.

O tratamento é feito em centro especializado e junta a desobstrução brônquica diária, os mucolíticos inalados, o controlo da Pseudomonas aeruginosa, as enzimas pancreáticas e, quando o genótipo o permite, os moduladores, que mudaram a história de uma doença mortal na infância. O que não se pode falhar é tomar um rastreio negativo por exclusão perante clínica sugestiva, e esquecer a doença no adulto com bronquiectasias, pancreatite recorrente ou azoospermia obstrutiva.

Quem se estuda

  • Rastreio neonatal positivo, irmão afetado, ou clínica compatível em qualquer idade.
  • Clínica muito sugestiva: bronquiectasias difusas, expetoração com Pseudomonas aeruginosa, insuficiência pancreática exócrina, azoospermia obstrutiva.
  • Clínica menos específica, que também pede estudo: tosse húmida persistente, má progressão ponderal, pancreatite aguda recorrente ou crónica, rinossinusite crónica, pólipos nasais, aspergilose broncopulmonar alérgica, perda de sal.

Critério de diagnóstico

  • Confirma-se com cloreto no suor de 60 mmol/L ou mais, ou com duas variantes causadoras em trans (uma em cada alelo).
  • Mesmo com o diagnóstico feito pela prova do suor, o genótipo caracteriza-se sempre, para decidir a terapêutica dirigida à variante.

Rastreio neonatal em Portugal

  • Estudo piloto desde outubro de 2013; integrado no Programa Nacional de Rastreio Neonatal (teste do pezinho) em dezembro de 2018.
  • Primeira amostra entre o 3.º e o 6.º dia: tripsina imunorreativa; se elevada, doseia-se a proteína associada à pancreatite na mesma amostra.
  • Se esta também estiver elevada, pede-se uma segunda amostra na 3.ª ou 4.ª semana. Nova tripsina imunorreativa elevada leva o recém-nascido a um centro de tratamento de fibrose quística, onde faz a prova do suor; o estudo genético faz-se com consentimento.
  • No estudo piloto, o algoritmo identificou cerca de 93% dos doentes: um rastreio negativo não exclui a doença.

Prova do suor

  • É o exame de referência, em qualquer idade: estimulação por pilocarpina por iontoforese e doseamento quantitativo do cloreto.
  • Só depois das 48 horas de vida. No recém-nascido rastreado faz-se logo que possível depois dos 10 dias, com mais de 2 kg e pelo menos 36 semanas de idade gestacional corrigida, idealmente ainda no período neonatal.
  • Um resultado positivo confirma-se noutro dia ou por outro método, como o estudo genético. Amostras insuficientes não se analisam. A condutividade do suor não chega para diagnosticar.
cloreto no suorleituraconduta
60 mmol/L ou maiscompatível com fibrose quísticaconfirmar e caracterizar o genótipo
30 a 59 mmol/Lintermédiorepetir em 1 a 2 meses, estudo genético alargado, provas funcionais
Menos de 30 mmol/Lfibrose quística improvável, em qualquer idade

Estudo genético

  • Painéis das variantes mais frequentes; se inconclusivos, sequenciação completa do gene com pesquisa de deleções e duplicações.
  • Um painel negativo não exclui: variantes raras escapam.

Provas funcionais do CFTR

  • Quando a prova do suor e a genética não esclarecem: diferença de potencial nasal e medição da corrente intestinal em biópsia retal, só em centros especializados.

Situações inconclusivas

designaçãodefinição
CRMS/CFSPID (síndrome metabólica relacionada com o CFTR, ou rastreio positivo com diagnóstico inconclusivo)lactente com rastreio positivo, sem clínica, e cloreto abaixo de 30 mmol/L com duas variantes, pelo menos uma de consequência incerta, ou cloreto de 30 a 59 mmol/L com uma ou nenhuma variante causadora
Doença relacionada com o CFTRquadro com características da doença e disfunção do CFTR, sem critérios de fibrose quística; tipicamente monossintomático: ausência dos canais deferentes, pancreatite ou bronquiectasias
  • O lactente com CRMS/CFSPID está bem, mas pode vir a ter a doença: é seguido no centro, com nova prova do suor e estudo genético alargado, e reavaliado aos 6 anos.

Avaliação depois do diagnóstico

  • Cultura de expetoração (ou zaragatoa orofaríngea) para agentes da fibrose quística, provas de função respiratória adequadas à idade, imagem pulmonar, avaliação indireta da função pancreática exócrina (elastase fecal) e, no homem, espermograma.
  • Espirometria com padrão obstrutivo e hiperinsuflação; na imagem, espessamento da parede brônquica e bronquiectasias.

Diagnóstico diferencial

apresentaçãopensar também em
Bronquiectasias e infeções respiratórias de repetiçãodiscinesia ciliar primária (com rinossinusite e otite média recorrente), hipogamaglobulinemia, aspergilose broncopulmonar alérgica
Tosse e sibilância no lactenteasma, bronquiolite; a fibrose quística distingue-se pela cronicidade e pela falta de resposta
Má absorção e má progressão ponderaldoença celíaca, alergia às proteínas do leite de vaca
Pancreatite recorrente no jovemdoença relacionada com o CFTR
Fibrose quística Doença autossómica recessiva do gene CFTR: diagnóstico e atingimento multissistémico Base genética Herança autossómica recessiva do gene CFTR (cromossoma 7), que codifica um canal de cloreto apical. Variante mais frequente: F508del; o genótipo determina a elegibilidade para moduladores do CFTR. Sequência diagnóstica 1 Rastreio neonatal (teste do pezinho): tripsina imunorreativa, proteína associada à pancreatite e 2.ª amostra. O rastreio positivo não é diagnóstico: obriga sempre à prova do suor. 2 Prova do suor (exame de referência): pilocarpina por iontoforese, cloreto no suor. 60 mmol/L ou mais apoia fortemente o diagnóstico 30 a 59 mmol/L intermédio: repetir e genética Menos de 30 mmol/L torna a doença improvável 3 Estudo genético do CFTR: duas variantes patogénicas (uma em cada alelo) confirmam. Painel negativo não afasta a doença se a clínica e a prova do suor forem sugestivas. Atingimento multissistémico Recém-nascido e intestino Íleo meconial; esteatorreia; má progressão ponderal. Pâncreas Insuficiência pancreática exócrina (défice de vitaminas A, D, E, K). Pulmão Bronquiectasias com infeção crónica por Pseudomonas aeruginosa e Burkholderia. Aparelho reprodutor Ausência bilateral congénita dos canais deferentes (azoospermia obstrutiva). Terapêutica dirigida ao defeito: moduladores do CFTR, conforme o genótipo.

Referências

  1. Sorscher EJ. Cystic fibrosis. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. p. 2176-80.
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  4. Benito Sánchez AV, Ruiz de Valbuena Maiz M. Fibrosis quística: afectación respiratoria. In: Guerrero-Fernández J, et al., editores. Manual de diagnóstico y terapéutica en pediatría. 6.ª ed. Madrid: Editorial Médica Panamericana; 2017. p. 1949-51.
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  7. Farrell PM, White TB, Ren CL, Hempstead SE, Accurso F, Derichs N, et al. Diagnosis of cystic fibrosis: consensus guidelines from the Cystic Fibrosis Foundation. J Pediatr. 2017;181S:S4-S15.e1.
  8. Cystic Fibrosis Foundation. Sweat test clinical care guidelines. Bethesda: CFF; consultado em setembro de 2026.
  9. Marcão A, Lopes L, Rodrigues D, Rocha H, Vilarinho L. Rastreio neonatal da fibrose quística em Portugal. Lisboa: Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge; 2019.
  10. Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Programa Nacional de Rastreio Neonatal: relatório 2019. Porto: INSA; 2020.
  11. European Medicines Agency. Kaftrio (ivacaftor, tezacaftor, elexacaftor): EPAR, informação do produto. Amsterdão: EMA; consultado em setembro de 2026.
  12. European Medicines Agency. Alyftrek (deutivacaftor, tezacaftor, vanzacaftor): EPAR. Amsterdão: EMA; 2025.
  13. European Medicines Agency. Kalydeco (ivacaftor): EPAR, informação do produto. Amsterdão: EMA; consultado em setembro de 2026.

14 perguntas sobre Fibrose quística

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

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