RespiratóriaDoença pulmonar obstrutiva crónicaPublicado (Premium)

Doença pulmonar obstrutiva crónica

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 17 perguntas neste tema

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Em resumo

A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) é uma doença respiratória heterogénea, prevenível e tratável, caracterizada por sintomas respiratórios persistentes e limitação crónica do débito aéreo por anomalia das vias aéreas (bronquite/bronquiolite) e/ou dos alvéolos (enfisema). O diagnóstico exige confirmação espirométrica de obstrução fixa. A abordagem atual, sintetizada na GOLD 2025, assenta na classificação ABE, na terapêutica inalada broncodilatadora de base e no uso criterioso dos corticosteroides inalados guiado pelos eosinófilos.

A DPOC resulta de uma resposta inflamatória crónica anómala e amplificada das vias aéreas e do parênquima à inalação de partículas e gases nocivos, sobretudo o fumo do tabaco. O infiltrado é predominantemente de neutrófilos, macrófagos e linfócitos T CD8+, distinto do padrão eosinofílico/Th2 típico da asma, embora um subgrupo tenha inflamação eosinofílica com relevância terapêutica.

Dois processos coexistem em proporções variáveis:

  • Doença das pequenas vias aéreas (bronquiolite obstrutiva): inflamação, fibrose peribronquiolar, hiperplasia de células caliciformes e hipersecreção de muco, com estreitamento e aumento da resistência.
  • Enfisema: destruição das paredes alveolares por desequilíbrio protease-antiprotease (elastases neutrofílicas versus alfa-1-antitripsina) e stress oxidativo, com perda de recolhimento elástico e do suporte radial das vias aéreas.

A destruição do leito capilar e a perda de tração elástica geram colapso expiratório dinâmico e limitação do débito aéreo. O esvaziamento incompleto durante a expiração provoca hiperinsuflação e aprisionamento aéreo (air trapping), com aumento do volume residual. Durante o esforço surge hiperinsuflação dinâmica, mecanismo central da dispneia e da intolerância ao exercício.

As consequências nas trocas gasosas decorrem do desequilíbrio ventilação-perfusão (V/Q): zonas com V/Q baixo causam hipoxemia; a progressão e a fadiga dos músculos respiratórios levam a hipercapnia. A vasoconstrição pulmonar hipóxica crónica, somada à destruição do leito vascular, conduz a hipertensão pulmonar e, em fases avançadas, a cor pulmonale (disfunção do ventrículo direito).

A inflamação tem também uma componente sistémica (marcadores inflamatórios circulantes) que ajuda a explicar as manifestações extrapulmonares: disfunção músculo-esquelética, caquexia, osteoporose e a elevada carga cardiovascular. As exacerbações, frequentemente desencadeadas por infeções víricas ou bacterianas e por poluentes, amplificam agudamente a inflamação e a hiperinsuflação, acelerando o declínio funcional.

O diagnóstico de DPOC deve ser considerado em qualquer adulto com dispneia, tosse crónica ou expetoração persistentes e/ou exposição a fatores de risco (tabaco, biomassa, exposições ocupacionais). A confirmação é obrigatoriamente espirométrica.

Espirometria com prova de broncodilatação

  • Diagnóstico: FEV1/FVC pós-broncodilatador < 0,70.
  • Graduação da gravidade da obstrução pelo FEV1 (% do previsto): GOLD 1 >=80%, GOLD 2 50-79%, GOLD 3 30-49%, GOLD 4 <30%.

Avaliação de sintomas

  • mMRC (limiar >=2) ou, preferencialmente, o CAT (limiar >=10), mais abrangente.

Historial de exacerbações (último ano)

  • Define o risco futuro: >=2 exacerbações moderadas ou >=1 com internamento identifica alto risco.

Classificação por grupos (GOLD ABE):

  • Grupo A: poucos sintomas (CAT <10 / mMRC <2) e baixo risco (0-1 exacerbação sem internamento).
  • Grupo B: muitos sintomas (CAT >=10 / mMRC >=2) e baixo risco.
  • Grupo E: alto risco de exacerbações, independentemente da carga sintomática (fusão dos antigos grupos C e D na GOLD 2023, mantida em 2025).

Nota importante: o grau espirométrico e o grupo são eixos independentes; um doente pode ser GOLD 4 grupo B ou GOLD 2 grupo E.

Exames complementares

  • Gasometria arterial: em FEV1 baixo, dessaturação (SpO2 <92%) ou suspeita de insuficiência respiratória, para avaliar hipoxemia/hipercapnia e necessidade de oxigenoterapia.
  • Radiografia/TC de tórax: exclusão de diagnósticos alternativos, avaliação de enfisema, rastreio de cancro do pulmão e de bronquiectasias.
  • Doseamento de alfa-1-antitripsina: recomendado pelo menos uma vez, sobretudo em DPOC precoce, não fumadores ou enfisema predominante.
  • Hemograma com contagem de eosinófilos: biomarcador que orienta a decisão sobre corticosteroide inalado.

O diagnóstico diferencial inclui asma (obstrução variável/reversível, início precoce, atopia), insuficiência cardíaca, bronquiectasias, tuberculose e bronquiolite. A sobreposição asma-DPOC deve ser reconhecida pela relevância terapêutica.

A prevenção é o eixo com maior impacto na história natural da DPOC.

Cessação tabágica

  • É a intervenção mais eficaz para travar a progressão da doença, sendo a única (a par da oxigenoterapia em doentes hipoxémicos selecionados) demonstradamente capaz de reduzir o declínio acelerado do FEV1 e a mortalidade.
  • Deve ser oferecida em todas as consultas, combinando aconselhamento estruturado e farmacoterapia (terapêutica de substituição de nicotina, vareniclina, bupropiom). A abordagem breve repetida aumenta as taxas de sucesso.

Redução de outras exposições

  • Minimizar exposição a fumo de biomassa, poluição do ar interior/exterior e agentes ocupacionais.

Vacinação (reduz exacerbações e infeções respiratórias graves; recomendações GOLD 2025):

  • Influenza anual.
  • Pneumocócica conjugada (dose única de PCV20 ou PCV21).
  • SARS-CoV-2, conforme esquema atualizado.
  • Tosse convulsa (vacina Tdap, se não vacinado na adolescência).
  • Vírus sincicial respiratório (VSR) em doentes mais velhos (habitualmente >=60 anos) ou com comorbilidade cardiopulmonar.
  • Herpes zoster (proteção contra a zona).

Rastreio e deteção precoce

  • Não se recomenda rastreio espirométrico populacional em assintomáticos, mas sim procura ativa de casos (case-finding) em indivíduos com sintomas e/ou exposição de risco, com confirmação espirométrica.
  • A GOLD 2025 valoriza a identificação de fases precoces e de indivíduos em risco (por exemplo, com sintomas e espirometria ainda preservada), embora a intervenção farmacológica nesse estádio permaneça em investigação.
  • Aproveitar o rastreio de cancro do pulmão por TC de baixa dose nos fumadores elegíveis, população que se sobrepõe à da DPOC.

Prevenção de exacerbações integra ainda a otimização terapêutica inalada, a reabilitação respiratória e planos de autogestão.

A terapêutica combina medidas não farmacológicas (cessação tabágica, vacinação, reabilitação respiratória, atividade física) com terapêutica inalada, sempre com verificação da técnica inalatória e da adesão.

Terapêutica inicial por grupo (GOLD 2025)

  • Grupo A: um broncodilatador (de preferência de longa ação, LABA ou LAMA).
  • Grupo B: LABA + LAMA (dupla broncodilatação de longa ação).
  • Grupo E: LABA + LAMA; considerar tripla terapêutica (LABA + LAMA + ICS) de início se eosinófilos >=300 células/microL.

Papel do corticosteroide inalado (ICS) e dos eosinófilos

  • O ICS usa-se sempre associado a broncodilatadores de longa ação, nunca em monoterapia.
  • Adicionar ICS: considerar se eosinófilos >=100/microL; a evidência favorece fortemente o benefício com eosinófilos >=300/microL ou historial de asma.
  • Evitar/ponderar suspensão de ICS se eosinófilos <100/microL e sem exacerbações, pelo baixo benefício e risco acrescido de pneumonia.

Seguimento (ciclo rever-avaliar-ajustar)

  • Guiado pelo fenotipo dominante: dispneia persistente com dupla broncodilatação otimizada obriga a rever técnica/adesão e comorbilidades; exacerbações persistentes sob LABA+LAMA levam a escalar para tripla se eosinófilos >=100/microL, ou a considerar roflumilaste (bronquite crónica, FEV1 <50%) ou azitromicina (sobretudo ex-fumadores) quando os eosinófilos são baixos.

Exacerbações agudas

  • Definição funcional: agravamento agudo dos sintomas respiratórios. Os critérios de Anthonisen classificam pela presença de aumento da dispneia, do volume da expetoração e da purulência.
  • Broncodilatadores de curta ação (SABA +/- SAMA) são a base do alívio.
  • Corticosteroide sistémico em ciclo curto (tipicamente prednisolona 40 mg/dia durante 5 dias).
  • Antibiótico quando há purulência da expetoração associada a pelo menos mais um critério, ou necessidade de ventilação (invasiva ou não invasiva).
  • Ventilação não invasiva (VNI) na exacerbação com acidose respiratória hipercápnica (pH <7,35 com hipercapnia), reduzindo intubação e mortalidade.

Oxigenoterapia de longa duração (OLD)

  • Indicada na hipoxemia crónica grave em repouso: PaO2 <=55 mmHg (ou SaO2 <=88%), confirmada em duas ocasiões separadas por >=3 semanas; ou PaO2 55-60 mmHg com hipertensão pulmonar, cor pulmonale/edema periférico ou policitemia (hematocrito >55%).
  • Usar >=15 horas/dia, único tratamento (com a cessação tabágica) que melhora a sobrevida nesta população.
DPOC — GOLD 2025: diagnóstico, grupos ABE e terapêutica inalada Eixo sintomas × exacerbações e o papel dos eosinófilos na decisão sobre corticosteroide inalado Diagnóstico (confirmação obrigatória) Relação FEV1/FVC pós-broncodilatador < 0,70 → obstrução fixa (não totalmente reversível) Classificação por grupos ABE (eixo independente do grau GOLD 1-4 pelo FEV1) Exacerbações / ano Sintomas (mMRC / CAT) → E — alto risco de exacerbações (qualquer nível de sintomas) ≥2 moderadas OU ≥1 com internamento no último ano A — poucos sintomas CAT < 10 / mMRC < 2 0-1 exacerbação/ano B — muitos sintomas CAT ≥ 10 / mMRC ≥ 2 baixo risco de exacerbações Grau GOLD (FEV1 % previsto) 1 · ≥80% 2 · 50-79% 3 · 30-49% 4 · <30% Terapêutica inalada inicial por grupo Grupo A 1 broncodilatador de longa ação (LABA ou LAMA) Grupo B LABA + LAMA dupla broncodilatação de longa ação Grupo E LABA + LAMA + ICS de início se eosinófilos ≥ 300 células/µL Papel dos eosinófilos sanguíneos na decisão sobre ICS Evitar / ponderar suspender risco acrescido de pneumonia Considerar adicionar ICS associado a LABA/LAMA Benefício forte a favor do ICS (ou historial de asma) 100 300 eosinófilos (células/µL) → ! O ICS nunca se usa em monoterapia — sempre associado a broncodilatadores de longa ação.

Referências

  1. Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD). Global Strategy for the Prevention, Diagnosis and Management of COPD: 2025 Report. Disponível em: https://goldcopd.org
  2. Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD). Pocket Guide to COPD Diagnosis, Management, and Prevention: 2025 Edition. goldcopd.org; 2024.
  3. Agustí A, Celli BR, Criner GJ, et al. Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease 2023 Report: GOLD Executive Summary. Eur Respir J. 2023;61(4):2300239.
  4. Anthonisen NR, Manfreda J, Warren CP, Hershfield ES, Harding GK, Nelson NA. Antibiotic therapy in exacerbations of chronic obstructive pulmonary disease. Ann Intern Med. 1987;106(2):196-204.
  5. Medical Research Council Working Party. Long term domiciliary oxygen therapy in chronic hypoxic cor pulmonale complicating chronic bronchitis and emphysema. Lancet. 1981;1(8222):681-686.
  6. Celli BR, Cote CG, Marin JM, et al. The body-mass index, airflow obstruction, dyspnea, and exercise capacity index (BODE) in chronic obstructive pulmonary disease. N Engl J Med. 2004;350(10):1005-1012.

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