Doença pulmonar obstrutiva crónica
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 19 perguntas neste tema
A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) é uma doença pulmonar heterogénea com sintomas respiratórios crónicos (dispneia, tosse, expetoração e exacerbações) causados por doença das vias aéreas, bronquite e bronquiolite, ou dos alvéolos, o enfisema, que produzem obstrução persistente e muitas vezes progressiva ao fluxo aéreo. Está entre as três primeiras causas de morte no mundo. Resulta sobretudo do tabaco, mas também da poluição, da biomassa, de exposições profissionais, de alterações do desenvolvimento pulmonar e, raramente, do défice de alfa-1 antitripsina.
Suspeita-se no adulto com dispneia de esforço, tosse ou expetoração crónicas, infeções respiratórias de repetição ou exposição a fatores de risco, e confirma-se sempre por espirometria: relação entre o volume expiratório máximo no primeiro segundo (FEV1) e a capacidade vital forçada (FVC) inferior a 0,70 depois do broncodilatador. O FEV1 dá o grau (GOLD 1 a 4); os sintomas e as exacerbações do último ano dão o grupo (A, B ou E), que orienta o tratamento inicial. Desde o relatório GOLD de 2026, basta uma exacerbação moderada para o grupo E.
O tratamento junta a cessação tabágica, as vacinas, a reabilitação respiratória e a broncodilatação de longa ação; o corticoide inalado entra em quem exacerba, guiado pelos eosinófilos no sangue, e nunca sozinho. Quem continua a exacerbar sob tripla terapêutica pode precisar de roflumilaste, azitromicina ou, com eosinófilos de 300 por µL ou mais, de um biológico. Reduzem a mortalidade a cessação tabágica, a oxigenoterapia de longa duração na hipoxemia grave, a ventilação não invasiva domiciliária na hipercapnia marcada, a tripla terapêutica em exacerbadores, a reabilitação logo depois de um internamento, com evidência menos consistente, e a cirurgia de redução de volume em doentes selecionados.
A exacerbação é o acontecimento que mais pesa na história natural: acelera a perda de função, aumenta o risco cardiovascular durante meses e mata. Trata-se com broncodilatadores de curta ação, prednisolona 40 mg durante 5 dias, antibiótico quando a expetoração é purulenta, oxigénio controlado para saturação de 88 a 92% e ventilação não invasiva na acidose respiratória. O que não se pode falhar: diagnosticar sem espirometria, dar oxigénio sem alvo a um doente retentor de CO2, adiar a ventilação não invasiva com pH de 7,35 ou menos, e esquecer a embolia pulmonar, a pneumonia e a insuficiência cardíaca, que imitam a exacerbação.
- Definição (GOLD 2026): doença pulmonar heterogénea, com sintomas respiratórios crónicos (dispneia, tosse, expetoração e exacerbações) por alterações das vias aéreas (bronquite, bronquiolite) e dos alvéolos (enfisema), que causam obstrução ao fluxo aéreo persistente e muitas vezes progressiva.
- Enfisema é um conceito anatómico (destruição dos alvéolos com alargamento dos espaços aéreos); bronquite crónica é clínico (tosse com expetoração crónicas); a doença das pequenas vias aéreas estreita e reduz o número de bronquíolos. Coexistem em proporções diferentes em cada doente.
- Está entre as três primeiras causas de morte no mundo: mais de 3 milhões de mortes em 2021, cerca de 5% de todas, quase 90% em países de rendimento baixo e médio.
- É muito subdiagnosticada, e o subdiagnóstico e o diagnóstico errado deixam doentes sem tratamento ou com o tratamento errado.
Estados precursores
- Pré-DPOC: sintomas, alterações estruturais (enfisema, espessamento brônquico) ou funcionais (FEV1 baixo, hiperinsuflação, difusão reduzida, declínio rápido) com relação FEV1/FVC de 0,70 ou mais.
- PRISm (espirometria alterada com relação preservada): relação normal com FEV1 reduzido.
- Nem todos evoluem para obstrução, mas já são doentes e merecem seguimento; fora da cessação tabágica, não há tratamento provado.
Causas e fatores de risco
A doença nasce da interação entre genes e ambiente ao longo da vida, e o relatório GOLD agrupa as causas em etiotipos:
| etiotipo | o que inclui |
|---|---|
| genética | défice de alfa-1 antitripsina e outras variantes de efeito menor |
| desenvolvimento pulmonar anómalo | prematuridade, baixo peso ao nascer |
| tabaco | fumo ativo e passivo, incluindo in utero; cigarro eletrónico; canábis |
| poluição e biomassa | fumo de combustíveis domésticos, poluição exterior, poeiras e fumos profissionais |
| infeções | infeções da infância, tuberculose, VIH |
| asma | sobretudo a asma da infância |
- O tabaco tem relação dose-resposta com o declínio do FEV1 (unidades maço-ano), mas explica só parte da variação: fumadores com a mesma carga têm funções muito diferentes.
- A função pulmonar cresce até ao início da idade adulta e depois declina. Chega-se à obstrução por crescimento insuficiente com declínio normal, por declínio que começa cedo ou por declínio acelerado; muitos doentes nunca atingiram o pico normal.
- A poluição do ar é a principal causa conhecida em quem nunca fumou.
- A asma e a hiperreatividade brônquica são fatores de risco para DPOC.
Inflamação e destruição
- O fumo ativa macrófagos e células epiteliais, que libertam quimiocinas e proteases e recrutam neutrófilos, macrófagos e linfócitos T CD8; a inflamação persiste depois de parar de fumar.
- Uma minoria tem inflamação tipo 2, com eosinófilos elevados no sangue, que é a que responde ao corticoide inalado e aos biológicos.
- Enfisema: desequilíbrio entre proteases (elastase dos neutrófilos, metaloproteinases dos macrófagos) e antiproteases (alfa-1 antitripsina), stress oxidativo, morte celular e reparação ineficaz da elastina.
- Grandes vias aéreas: hipertrofia das glândulas mucosas e hiperplasia das células caliciformes, que dão a tosse e a expetoração mas pouco contribuem para a obstrução; metaplasia epidermoide.
- Pequenas vias aéreas (menos de 2 mm): principal local da resistência, por metaplasia caliciforme, muco, fibrose e perda de bronquíolos; a doença das pequenas vias precede o enfisema.
Tipos de enfisema
| tipo | distribuição | associação |
|---|---|---|
| centrilobular | lobos superiores, a partir dos bronquíolos respiratórios | tabaco, o mais frequente |
| panlobular | uniforme no ácino, lobos inferiores | défice de alfa-1 antitripsina |
| parasseptal | periferia, junto à pleura (10 a 15% dos casos) | inflamação das vias aéreas e enfisema centrilobular |
Fisiopatologia
- Obstrução: perda do recolhimento elástico e estreitamento das pequenas vias; o FEV1 melhora pouco com broncodilatador (até 15% é comum).
- Hiperinsuflação e aprisionamento aéreo (aumento do volume residual e da capacidade pulmonar total): o diafragma aplana e perde eficácia, e no esforço a hiperinsuflação dinâmica é o mecanismo central da dispneia.
- Trocas gasosas: a hipoxemia deve-se quase toda ao desequilíbrio ventilação-perfusão, com shunt mínimo, e por isso corrige com pequenos aumentos do oxigénio inspirado. A PaO2 mantém-se perto do normal até o FEV1 cair abaixo de 50%, e a hipercapnia não é de esperar antes de um FEV1 abaixo de 25%.
- Circulação pulmonar: a vasoconstrição hipóxica e a perda do leito capilar dão hipertensão pulmonar do grupo 3. O cor pulmonale surge sobretudo com FEV1 abaixo de 25% e PaO2 abaixo de 55 mmHg, e tornou-se raro desde a oxigenoterapia.
- Efeitos sistémicos: inflamação sistémica, disfunção muscular esquelética, caquexia, osteoporose e risco cardiovascular aumentado.
Sintomas
- Tosse, expetoração e dispneia de esforço são os três sintomas mais frequentes, muitas vezes presentes anos antes da consulta.
- A dispneia instala-se de forma insidiosa: pesquisa-se pelas atividades que o doente deixou de fazer. Custam mais as atividades com os braços acima dos ombros; toleram-se melhor as que permitem apoiar os braços e usar os músculos acessórios.
- Muitos doentes datam o início da doença de uma exacerbação, mas a história revela sintomas prévios.
Exame físico
- Na doença ligeira é normal.
- Na doença grave: expiração prolongada, sibilos expiratórios, tórax em barril, hipersonoridade com fraca excursão diafragmática, uso de músculos acessórios, posição de tripé, cianose.
- Doença avançada: caquexia, que é fator de mau prognóstico independente, e sinal de Hoover (retração paradoxal das costelas inferiores na inspiração, pelo diafragma aplanado).
- Sinais de insuficiência cardíaca direita (edemas, turgescência jugular, hepatomegalia) no cor pulmonale.
- A distinção clássica entre o doente magro, não cianosado e com dispneia marcada (enfisema) e o doente pletórico e cianosado (bronquite crónica) não é fiável: a maioria tem as duas componentes.
Sintomas quantificados
- Escala de dispneia modificada do Medical Research Council (mMRC), de 0 a 4: 0 só com esforço intenso; 1 a andar depressa em plano ou a subir uma ligeira inclinação; 2 anda mais devagar do que pessoas da mesma idade ou tem de parar ao seu passo; 3 para ao fim de cerca de 100 metros ou de alguns minutos em plano; 4 não sai de casa ou tem dispneia ao vestir-se.
- Teste de avaliação das vias aéreas crónicas (CAAT), o antigo teste de avaliação da DPOC (CAT), com o mesmo questionário e pontuações equivalentes: 8 itens, de 0 a 40 (tosse, expetoração, aperto torácico, dispneia a subir escadas, limitação em casa, confiança para sair, sono, energia).
- O limiar para sintomas relevantes é CAAT de 10 ou mais ou mMRC de 2 ou mais; o CAAT, mais abrangente, é o preferido.
Quando pensar em DPOC
Qualquer adulto com dispneia, tosse ou expetoração crónicas, infeções respiratórias baixas de repetição ou história de exposição a fatores de risco.
Espirometria
- É obrigatória: relação FEV1/FVC inferior a 0,70 depois do broncodilatador confirma o diagnóstico no contexto clínico certo.
- Uma espirometria antes do broncodilatador com relação de 0,70 ou mais exclui DPOC; se for inferior a 0,70, repete-se depois do broncodilatador.
- Obstrução que desaparece depois do broncodilatador não é DPOC, mas o doente fica em risco e deve ser seguido.
- O grau mede a obstrução pelo FEV1 pós-broncodilatador:
| grau GOLD | obstrução | FEV1 (% do previsto) |
|---|---|---|
| 1 | ligeira | 80 ou mais |
| 2 | moderada | 50 a 79 |
| 3 | grave | 30 a 49 |
| 4 | muito grave | menos de 30 |
- Os volumes pulmonares mostram aprisionamento aéreo e hiperinsuflação; a difusão do monóxido de carbono está reduzida no enfisema.
Avaliação inicial em cinco eixos
Gravidade da obstrução, sintomas, exacerbações moderadas e graves no último ano, eosinófilos no sangue e multimorbilidade. Os sintomas e as exacerbações formam os grupos que orientam o tratamento inicial:
| grupo | exacerbações moderadas ou graves no último ano | sintomas |
|---|---|---|
| A | nenhuma | mMRC 0 a 1 e CAAT abaixo de 10 |
| B | nenhuma | mMRC 2 ou mais ou CAAT de 10 ou mais |
| E | uma ou mais | quaisquer |
- Exacerbação moderada é a que se trata com corticoide sistémico ou antibiótico; grave é a que leva à urgência ou ao internamento.
- O relatório de 2026 baixou o limiar do grupo E de duas exacerbações moderadas (ou um internamento) para uma moderada, porque mesmo um único episódio antes de iniciar manutenção aumenta o risco dos seguintes.
- O grau e o grupo são independentes: um doente pode ser grau 4 e grupo B.
Eosinófilos no sangue
- Contam-se em fase estável (duas a três vezes, porque flutuam) e preveem o benefício do corticoide inalado; não servem para prever exacerbações no doente individual.
Outros exames
- Doseamento de alfa-1 antitripsina em todos os doentes com DPOC, uma vez.
- Oximetria em repouso; gasometria arterial se há sinais de insuficiência respiratória ou cardíaca direita, ou para decidir oxigenoterapia.
- Hematócrito elevado sugere hipoxemia crónica.
- Radiografia do tórax: hiperinsuflação, diafragmas aplanados, hipertransparência e bolhas; sobretudo exclui outras causas.
- Tomografia computorizada: define presença, tipo e distribuição do enfisema, mostra bronquiectasias e doença intersticial coexistentes, e decide a candidatura a redução de volume.
- Pesquisa ativa de comorbilidades: doença cardiovascular, síndrome metabólica, osteoporose, ansiedade e depressão, disfunção muscular e cancro do pulmão.
Procura de casos
- Não há rastreio populacional de assintomáticos. Faz-se procura ativa em quem tem 35 anos ou mais com fatores de risco ou sintomas, com questionário e depois espirometria.
- Aproveita-se quem faz tomografia de baixa dose para rastreio de cancro do pulmão ou tem enfisema ou alterações brônquicas em imagem feita por outro motivo.
Diagnóstico diferencial
| doença | o que a distingue |
|---|---|
| asma | obstrução variável, sintomas que mudam de dia para dia e à noite, atopia, início na infância |
| insuficiência cardíaca | cardiomegalia e edema na radiografia; restrição, não obstrução |
| bronquiectasias | expetoração purulenta abundante, infeções, dilatação brônquica na tomografia |
| tuberculose | qualquer idade, infiltrado na radiografia, confirmação microbiológica |
| bronquiolite obliterante | jovem, depois de transplante ou fumos; tomografia expiratória com áreas hipodensas |
| panbronquiolite difusa | ascendência asiática, sinusite crónica, nódulos centrilobulares |
A tosse crónica tem também causas fora do pulmão: gotejamento pós-nasal, refluxo gastroesofágico e inibidores da enzima de conversão da angiotensina.
Cessação tabágica
- É a intervenção com maior impacto: o ex-fumador muitas vezes volta a perder função ao ritmo do não fumador, e a cessação aumenta a sobrevida. Quanto mais cedo, maior o ganho.
- Em cada consulta, o método dos 5 A: perguntar, aconselhar, avaliar a vontade, ajudar, marcar seguimento.
- A farmacoterapia aumenta a abstinência a longo prazo: substitutos de nicotina (adesivo, pastilha, comprimido, inalador, spray nasal), vareniclina e bupropiom, combinados com aconselhamento.
- Não há evidência de eficácia e segurança do cigarro eletrónico como ajuda para deixar de fumar.
Outras exposições
Ventilação eficaz e combustíveis limpos em casa, redução da poluição exterior e proteção contra poeiras, fumos e gases no trabalho.
Vacinação
| vacina | recomendação (GOLD 2026) |
|---|---|
| gripe | anual |
| SARS-CoV-2 | segundo as recomendações em vigor |
| pneumocócica | uma dose de conjugada de 20 ou de 21 valências |
| vírus sincicial respiratório | 50 anos ou mais, ou com doença cardíaca ou pulmonar crónica |
| tosse convulsa, tétano e difteria (Tdpa) | se não vacinado na adolescência |
| herpes zóster | acima dos 50 anos |
- A gripe, o pneumococo e o vírus sincicial respiratório reduzem as infeções respiratórias baixas; a pneumocócica reduz pneumonia e exacerbações.
- Em Portugal aplica-se o esquema das normas da DGS em vigor para cada vacina.
Prevenção das exacerbações
- Broncodilatadores de longa ação, com corticoide inalado nos eosinofílicos, roflumilaste, azitromicina, biológicos, vacinas, reabilitação, cessação tabágica e plano de ação escrito. A prevenção farmacológica está no tratamento.
Cancro do pulmão
- A DPOC é fator de risco independente de cancro do pulmão. Nos fumadores e ex-fumadores faz-se tomografia de baixa dose anual nos mesmos critérios da população geral; não se recomenda na DPOC sem tabaco.
Objetivos
- Reduzir os sintomas, melhorar a tolerância ao esforço e o estado de saúde, e reduzir o risco futuro: progressão, exacerbações e morte.
- O relatório de 2026 fixa como alvo a baixa atividade da doença: nenhuma exacerbação, nenhum agravamento dos sintomas e nenhuma perda acelerada de função. Chama estabilidade a esse estado mantido e controlo à estabilidade com sintomas abaixo do limiar.
- Todos os doentes têm um broncodilatador de curta ação para alívio.
Fármacos
| classe | exemplos | notas |
|---|---|---|
| agonista beta-2 de longa ação (LABA) | formoterol, salmeterol, indacaterol, olodaterol, vilanterol | tremor, taquicardia |
| antimuscarínico de longa ação (LAMA) | tiotrópio, glicopirrónio, umeclidínio, aclidínio | reduz mais as exacerbações do que o LABA; boca seca |
| corticoide inalado (CI) | budesonida, beclometasona, fluticasona | só associado a broncodilatadores de longa ação; candidíase oral, pneumonia, perda de massa óssea, cataratas |
| inibidor da fosfodiesterase 4 | roflumilaste, oral | náuseas, diarreia, perda de peso |
| macrólido | azitromicina | resistências, QT longo, hipoacusia |
- A associação LABA com LAMA melhora mais a função e reduz mais as exacerbações do que cada um isolado; prefere-se um só inalador.
- LABA com CI sem LAMA não se recomenda: havendo indicação para CI, a tripla (LABA, LAMA e CI) é superior.
- O corticoide oral de manutenção não se recomenda, e a teofilina não é de primeira linha pelos efeitos adversos e interações.
Tratamento inicial (doente sem manutenção)
| grupo | tratamento |
|---|---|
| A | um broncodilatador; de preferência de longa ação, salvo se a dispneia for muito ocasional |
| B | LABA com LAMA |
| E | LABA com LAMA; considerar tripla se eosinófilos de 300 por µL ou mais |
- Se houver asma concomitante, trata-se como asma, e o CI é obrigatório.
Seguimento: rever, avaliar, ajustar
- Se o tratamento inicial resultou, mantém-se. Antes de mudar, confirma-se a técnica inalatória, a adesão e as comorbilidades que interferem.
- Decide-se pelo traço dominante, dispneia ou exacerbações; se houver os dois, segue-se o caminho das exacerbações. O grupo inicial já não conta.
| traço | sob o que está | passo seguinte |
|---|---|---|
| dispneia | um broncodilatador | LABA com LAMA |
| dispneia | LABA com LAMA | mudar de inalador ou de molécula, reabilitação, procurar outras causas de dispneia |
| exacerbações | um broncodilatador | LABA com LAMA; tripla direta se eosinófilos de 300 ou mais |
| exacerbações | LABA com LAMA | tripla se eosinófilos de 100 ou mais |
| exacerbações | LABA com LAMA e eosinófilos abaixo de 100, ou tripla | azitromicina, roflumilaste ou biológico, conforme o doente |
Quando juntar CI
| a favor, fortemente | a favor | contra |
|---|---|---|
| internamento por exacerbação | uma exacerbação moderada por ano | pneumonias de repetição |
| duas ou mais exacerbações moderadas por ano | eosinófilos de 100 a menos de 300 por µL | eosinófilos abaixo de 100 por µL |
| eosinófilos de 300 por µL ou mais | infeção micobacteriana prévia | |
| asma atual ou prévia |
- Pondera-se retirar o CI se houver pneumonia, efeitos adversos ou indicação inicial errada; com eosinófilos de 300 ou mais, retirá-lo aumenta o risco de exacerbação.
Quem continua a exacerbar
- Azitromicina (250 mg por dia ou 500 mg três vezes por semana, estudada durante um ano), de preferência no ex-fumador, pesando resistências, QT longo e audição.
- Roflumilaste com FEV1 abaixo de 50%, bronquite crónica e exacerbação grave prévia.
- Biológico sob tripla, com eosinófilos de 300 por µL ou mais e duas exacerbações moderadas ou uma grave no último ano:
- dupilumab (anticorpo contra o recetor da interleucina 4, que bloqueia as interleucinas 4 e 13), nos doentes com bronquite crónica; reduz as exacerbações em cerca de 30% e melhora o FEV1;
- mepolizumab (anticorpo contra a interleucina 5), com ou sem bronquite crónica; reduz as exacerbações em cerca de 20%.
- Ambos estão aprovados na União Europeia para DPOC com eosinófilos elevados (o dupilumab desde 2024, o mepolizumab desde 2026).
Não farmacológico
- Reabilitação respiratória (treino de exercício com educação): melhora a dispneia, a capacidade de esforço e a qualidade de vida em todos os graus, e reduz internamentos; indicada a quem tem dispneia de esforço, descondicionamento ou exacerbação recente.
- Autogestão com plano de ação escrito, atividade física e nutrição.
Oxigenoterapia de longa duração
- Indicada na hipoxemia crónica grave em repouso, medida em fase estável:
- PaO2 de 55 mmHg ou menos; ou
- PaO2 entre 56 e 59 mmHg com hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca ou poliglobulia (hematócrito acima de 55%).
- Titula-se para saturação de 90% ou mais e usa-se pelo menos 15 horas por dia, porque o benefício na sobrevida depende das horas de uso; usar 24 horas não se mostrou melhor do que 15.
- Reavalia-se entre 60 e 90 dias depois.
- Na dessaturação moderada em repouso ou só no esforço não prolonga a vida.
Ventilação não invasiva (VNI) domiciliária
- Na hipercapnia diurna persistente (PaCO2 acima de 53 mmHg duas a quatro semanas depois da alta), sobretudo depois de internamento por insuficiência respiratória aguda: prolonga o tempo até nova readmissão ou morte.
- Com apneia obstrutiva do sono associada, a pressão positiva contínua reduz o risco de morte.
Intervenções que reduzem a mortalidade
| intervenção | em quem |
|---|---|
| cessação tabágica | todos os fumadores |
| oxigenoterapia de longa duração | hipoxemia grave em repouso, pelo menos 15 horas por dia |
| ventilação não invasiva domiciliária | hipercapnia crónica marcada, sobretudo depois de um internamento |
| tripla terapêutica num só inalador | doentes sintomáticos com exacerbações frequentes ou graves |
| reabilitação respiratória | depois de internamento por exacerbação, iniciada até 4 semanas após a alta (evidência inconsistente) |
| cirurgia de redução de volume | enfisema de predomínio superior e baixa capacidade de esforço |
Cirurgia e intervenções
- Redução de volume pulmonar: melhora a capacidade de esforço, a função e a sobrevida no enfisema de predomínio superior com baixa capacidade de esforço após reabilitação. Contraindicada com FEV1 abaixo de 20% e enfisema homogéneo ou difusão abaixo de 20%, pelo aumento da mortalidade.
- Válvulas endobrônquicas em doentes com hiperinsuflação, enfisema heterogéneo e sem ventilação colateral; bulectomia em bolhas gigantes.
- Transplante pulmonar na doença muito grave e progressiva, sem comorbilidades significativas.
Cuidados paliativos
- Opioides, estimulação elétrica neuromuscular, oxigénio e ventoinha dirigida à face aliviam a dispneia refratária.
- A conversa sobre preferências de fim de vida, reanimação e ventilação faz-se em fase estável.
Complicações e multimorbilidade
- Insuficiência respiratória crónica, primeiro hipoxémica e depois hipercápnica.
- Hipertensão pulmonar do grupo 3 e cor pulmonale: trata-se a doença pulmonar e a hipoxemia, com oxigenoterapia quando há critérios; a hipertensão pulmonar grave associada à DPOC é orientada num centro de hipertensão pulmonar.
- Doença cardiovascular (hipertensão, doença coronária, insuficiência cardíaca, fibrilhação auricular): frequente, subdiagnosticada e causa importante de morte. O beta-bloqueante não se recusa a quem tem indicação cardiovascular.
- Cancro do pulmão, causa importante de morte.
- Bronquiectasias, que com infeção agravam a progressão, as exacerbações e o risco de morte.
- Ansiedade e depressão, subdiagnosticadas e ligadas a pior estado de saúde e maior mortalidade.
- Perda de tecido em vários órgãos: osteoporose, sarcopenia, anemia e enfisema, com pior prognóstico.
- Refluxo gastroesofágico (mais exacerbações), síndrome metabólica e apneia do sono (com obesidade).
Prognóstico
- O FEV1 prediz a mortalidade, mas os índices multidimensionais que juntam índice de massa corporal, obstrução, dispneia e distância percorrida predizem melhor.
- Pesam também a frequência de exacerbações, sobretudo as que levam ao internamento, a hipoxemia, a hipercapnia, a hipertensão pulmonar e as comorbilidades.
- Índice de massa corporal abaixo de 21 kg/m2 associa-se a maior mortalidade.
Défice de alfa-1 antitripsina
- Doença autossómica codominante do gene SERPINA1. O alelo M é normal; o S baixa ligeiramente os níveis e o Z baixa-os muito. O genótipo ZZ é a forma grave mais frequente; o Z forma polímeros que ficam retidos no hepatócito e podem causar doença hepática.
- Causa cerca de 1% dos casos de DPOC, mas o tabaco multiplica o risco e antecipa a doença.
- Pensar nele no enfisema de doente jovem (abaixo de 45 anos), panlobular e basal, no não fumador, na história familiar, nas bronquiectasias sem causa e na doença hepática inexplicada; mas doseia-se em todos os doentes com DPOC.
- Diagnóstico: nível sérico baixo (abaixo de 20% do normal sugere homozigotia), confirmado pelo fenótipo ou genótipo. Os familiares também são testados, e o doente é referenciado a centro especializado.
- Tratamento de substituição com alfa-1 antitripsina endovenosa semanal na deficiência grave com enfisema; o benefício é maior com FEV1 de 35 a 60% em ex-fumadores ou não fumadores. Não se dá com função e tomografia normais, nem no heterozigoto MZ.
Asma e DPOC
- Doentes com as duas doenças tratam-se como asmáticos: o CI é obrigatório e nunca se deixa só a broncodilatação.
Viagem aérea
- Uma oxigenação suficiente ao nível do mar não exclui hipoxemia grave em voo; o doente com hipoxemia limite deve ser avaliado antes de viajar.
- Acontecimento agudo em que os sintomas agravam em poucos dias, até 14, com mais dispneia, tosse e expetoração, às vezes com taquipneia e taquicardia, e com aumento da inflamação local e sistémica.
- O melhor preditor de exacerbação é uma exacerbação prévia; o risco de internamento é maior em quem já foi internado. A frequência aumenta com a gravidade da obstrução, mas há doentes muito graves que raramente exacerbam.
- Cerca de 80% tratam-se em ambulatório; muitas nunca chegam a ser comunicadas ao médico.
- Gravidade pelo tratamento (é a que conta para o grupo E): ligeira, só com mais broncodilatador de curta ação; moderada, com corticoide sistémico ou antibiótico; grave, com urgência ou internamento.
- Infeções: víricas em cerca de um terço; bacterianas envolvidas em mais de metade, sobretudo Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae e Moraxella catarrhalis; a aquisição de uma estirpe bacteriana nova aumenta o risco.
- Poluição e outras agressões às vias aéreas.
- Em 20 a 35% não se encontra causa.
- A inflamação aumenta o muco, o estreitamento das vias e o aprisionamento aéreo; a hiperinsuflação agrava-se e é ela que dá a dispneia. A fadiga muscular leva à hipercapnia e à acidose respiratória.
- O risco de enfarte, arritmia e AVC sobe durante a exacerbação, sobretudo na que leva ao internamento, e mantém-se elevado nas semanas seguintes e até um ano depois, também após exacerbações moderadas.
Avaliação
- História: grau e mudança da dispneia, alteração da expetoração (volume e purulência), febre, exacerbações e internamentos anteriores, tratamento de base.
- Exame: frequência respiratória e cardíaca, uso de músculos acessórios, respiração paradoxal abdominal, capacidade de falar, cianose, estado de consciência, sinais focais ou assimetria.
Gravidade do episódio (proposta de Roma)
| gravidade | critérios |
|---|---|
| ligeira | dispneia abaixo de 5 numa escala visual de 0 a 10, frequência respiratória abaixo de 24, frequência cardíaca abaixo de 95, saturação em repouso de 92% ou mais com variação de 3% ou menos, proteína C reativa abaixo de 10 mg/L |
| moderada | pelo menos três de cinco: dispneia de 5 ou mais, frequência respiratória de 24 ou mais, frequência cardíaca de 95 ou mais, saturação abaixo de 92% ou queda de mais de 3%, proteína C reativa de 10 mg/L ou mais |
| grave | os mesmos critérios da moderada, com PaO2 de 60 mmHg ou menos ou hipercapnia com acidose (PaCO2 acima de 45 mmHg e pH abaixo de 7,35) |
Exames
- Gasometria arterial na DPOC avançada, com hipercapnia prévia, alteração do estado de consciência ou dificuldade respiratória importante: a acidose distingue a insuficiência respiratória aguda (ou agudizada) da crónica compensada.
- Radiografia do tórax nos doentes graves ou com sinais focais: pneumonia e insuficiência cardíaca são os achados mais frequentes.
- Hemograma, proteína C reativa, função renal e eletrólitos; troponina e peptídeo natriurético, porque a doença cardíaca acompanha e imita a exacerbação; eletrocardiograma.
- Exame microbiológico da expetoração em quem exacerba muito, tem obstrução grave ou precisa de ventilação, pelo risco de Pseudomonas e de agentes resistentes.
- A espirometria não ajuda durante a exacerbação.
O que imita a exacerbação
| entidade | como se procura |
|---|---|
| pneumonia | radiografia ou tomografia do tórax, microbiologia |
| embolia pulmonar | probabilidade clínica, D-dímeros, angiotomografia; o risco está aumentado na exacerbação |
| insuficiência cardíaca aguda | radiografia, peptídeo natriurético, ecocardiograma |
| síndrome coronária aguda e arritmias | eletrocardiograma, troponina |
| pneumotórax | radiografia ou ecografia torácica |
Onde tratar
| local | quem |
|---|---|
| ambulatório | exacerbação ligeira, poucas comorbilidades, doente colaborante e com bom apoio em casa |
| internamento | sinais de insuficiência respiratória (taquipneia, músculos acessórios, hipoxemia ou hipercapnia a agravar, alteração do estado de consciência), falta de resposta ao tratamento inicial, comorbilidades graves, apoio insuficiente em casa |
| cuidados intensivos | hipoxemia ou hipercapnia persistente ou a agravar apesar do suporte ventilatório, confusão, letargia ou coma, necessidade de ventilação invasiva, instabilidade hemodinâmica |
Fármacos
- Broncodilatadores de curta ação: agonista beta-2 com ou sem antimuscarínico, em câmara expansora ou nebulizados a ar comprimido; retomam-se os de longa ação logo que possível. As metilxantinas não se recomendam.
- Corticoide sistémico nas exacerbações moderadas e graves: 40 mg de prednisolona por dia durante 5 dias; a via oral é tão eficaz como a endovenosa. Encurta a recuperação, melhora o FEV1 e a oxigenação e reduz a recaída; cursos mais longos aumentam pneumonia e mortalidade. Com eosinófilos baixos o benefício é menor.
- Antibiótico quando:
- há pelo menos dois de: aumento da dispneia, febre, aumento do volume e aumento da purulência da expetoração, desde que um deles seja a purulência;
- há cultura positiva numa exacerbação anterior; ou
- o doente precisa de ventilação, invasiva ou não invasiva.
- A escolha segue as resistências locais: habitualmente amoxicilina com ácido clavulânico, um macrólido ou uma tetraciclina, e uma quinolona em casos selecionados; duração de 5 dias em ambulatório.
- Profilaxia do tromboembolismo com heparina no internado; balanço hídrico; tratar a insuficiência cardíaca, as arritmias e a embolia que coexistam.
Oxigénio
- Oxigénio controlado com alvo de saturação de 88 a 92%, por máscara de Venturi a 24 ou 28% ou cânula nasal a 1 a 2 L/min, e gasometria para confirmar.
- Oxigénio em excesso sobe a PaCO2, sobretudo pelo agravamento do desequilíbrio ventilação-perfusão, e pode precipitar acidose; mas a hipoxemia corrige-se sempre.
- Oxigénio de alto fluxo por cânula nasal na hipoxemia persistente, quando não se tolera ou há contraindicação para a ventilação não invasiva, ou no desmame.
Ventilação não invasiva
- É a primeira forma de ventilação na insuficiência respiratória aguda da DPOC, com sucesso de 80 a 85%: reduz a mortalidade, a entubação, as complicações e o internamento.
- Indicada com pelo menos um de:
- acidose respiratória: PaCO2 de 45 mmHg ou mais com pH de 7,35 ou menos;
- dispneia grave com sinais de fadiga muscular (músculos acessórios, respiração paradoxal abdominal, tiragem intercostal);
- hipoxemia persistente apesar do oxigénio.
- Contraindicações: instabilidade cardiovascular, alteração do estado de consciência, não colaboração, secreções abundantes que não consegue eliminar, alterações craniofaciais, obesidade extrema, queimaduras.
- Retira-se sem desmame quando o doente tolera pelo menos 4 horas sem apoio.
Ventilação invasiva
- Hipoxemia com risco de vida apesar de alto fluxo ou ventilação não invasiva, intolerância a ambas, paragem respiratória ou cardíaca, depressão da consciência ou agitação não controlada, aspiração maciça ou vómitos persistentes, incapacidade de eliminar secreções, instabilidade hemodinâmica grave, arritmias graves.
- Pede tempo expiratório suficiente pelo risco de pressão positiva no fim da expiração intrínseca. A decisão pesa a reversibilidade do episódio e as vontades do doente, idealmente conhecidas antes.
Alta e seguimento
- Rever o tratamento de manutenção (os de longa ação começam o mais cedo possível; com uma ou mais exacerbações moderadas ou graves e eosinófilos elevados, junta-se CI à dupla broncodilatação) e a técnica inalatória.
- Referenciar para reabilitação respiratória até 4 semanas depois da alta.
- Reavaliar entre 1 e 4 semanas e entre 12 e 16 semanas; reavaliar a necessidade de oxigénio.
- Rever as comorbilidades, sobretudo as cardiovasculares.
- A recuperação pode levar 4 a 6 semanas, e alguns doentes nunca voltam ao estado anterior.
- Cada exacerbação moderada ou grave piora o estado de saúde, acelera o declínio da função e agrava o prognóstico, e o risco de enfarte, arritmia e AVC mantém-se elevado nas semanas seguintes.
- Depois de um internamento, cerca de 20% são reinternados em 30 dias e 45% no ano seguinte, e a mortalidade no ano seguinte à alta ronda 20%.
- A mortalidade intra-hospitalar dos doentes ventilados é de 17 a 30%, e maior no doente com FEV1 abaixo de 30%, doença cardiovascular ou confinado ao domicílio.
Referências
- Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease. Global strategy for the diagnosis, management, and prevention of chronic obstructive pulmonary disease: 2026 report. Versão 1.3. Fontana (WI): GOLD; 2025.
- Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease. Pocket guide to COPD diagnosis, management, and prevention: 2026 edition. Versão 1.1. Fontana (WI): GOLD; 2025.
- Silverman EK, Crapo JD, Make BJ. Chronic obstructive pulmonary disease. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. p. 2180-90.
- Vazquez ZGS, Jankowich MD, Banerjee D. Obstructive lung diseases. In: Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. p. 185-94.
- O'Driscoll BR, Howard LS, Earis J, Mak V; British Thoracic Society Emergency Oxygen Guideline Group. BTS guideline for oxygen use in adults in healthcare and emergency settings. Thorax. 2017;72(Suppl 1):ii1-ii90.
- European Medicines Agency. Dupixent (dupilumab): resumo das características do medicamento, extensão de indicação para a doença pulmonar obstrutiva crónica. Amesterdão: EMA; 2024.
- European Medicines Agency. Nucala (mepolizumab): resumo das características do medicamento, extensão de indicação para a doença pulmonar obstrutiva crónica. Amesterdão: EMA; 2026.
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