RespiratóriaDistúrbios da pleura e do mediastinoPublicado (Premium)

Distúrbios da pleura e do mediastino

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 14 perguntas neste tema

Fazer perguntas deste tema
Em resumo

O espaço pleural e o mediastino são compartimentos torácicos cuja patologia se traduz sobretudo por dispneia, dor torácica e achados imagiológicos que exigem raciocínio estruturado. Este capítulo cobre o derrame pleural (com os critérios de Light e a análise do líquido), o pneumotórax (incluindo a emergência do pneumotórax hipertensivo) e as massas do mediastino abordadas por compartimento. O objetivo é fornecer os pontos de decisão de alto rendimento para o PNA, alinhados com as guidelines atuais.

Formação do derrame. O líquido pleural é produzido pela pleura parietal e reabsorvido pelos linfáticos parietais (estomas). O transudato surge quando a pressão hidrostática aumenta (insuficiência cardíaca) ou a pressão oncótica diminui (hipoalbuminemia da cirrose ou síndrome nefrótica), mantendo-se a pleura normal. O exsudato surge quando há aumento da permeabilidade capilar (inflamação, infeção) ou compromisso da drenagem linfática (invasão neoplásica, fibrose), extravasando proteínas e lactato desidrogenase (LDH) para o espaço pleural.

Derrame parapneumónico e empiema. Uma pneumonia bacteriana adjacente evolui em três fases: exsudativa (líquido estéril, fluido), fibrinopurulenta (invasão bacteriana, deposição de fibrina, septação, consumo de glicose e queda do pH por metabolismo anaeróbio bacteriano e leucocitário) e organizativa (formação de pleura espessada, encarceramento). A acidez e o baixo teor de glicose do líquido refletem a atividade metabólica local e são marcadores de derrame parapneumónico complicado.

Pneumotórax. A pressão intrapleural é normalmente subatmosférica (negativa), o que mantém o pulmão expandido. Qualquer comunicação (rutura de bolha, lesão da parede) permite entrada de ar, iguala as pressões e provoca colapso pulmonar parcial ou total. No pneumotórax hipertensivo cria-se um mecanismo valvular: o ar entra na inspiração mas não sai na expiração, acumula-se progressivamente, eleva a pressão intrapleural acima da atmosférica, desvia o mediastino para o lado contralateral e comprime o retorno venoso e o pulmão sadio. O resultado é hipotensão, taquicardia e hipoxemia, uma emergência médica que não deve aguardar confirmação radiológica.

Massas do mediastino. A localização reflete a origem tecidular: o compartimento anterior contém o timo, resíduos de células germinativas e a extensão da tiroide, gerando timomas, tumores germinativos, bócios e linfomas; o médio alberga estruturas vasculares, ganglionares e brônquicas, dando adenopatias, quistos broncogénicos e lesões vasculares; o posterior corresponde às goteiras paravertebrais com estruturas nervosas, sendo os tumores neurogénicos (schwannoma, neurofibroma, ganglioneuroma, neuroblastoma na criança) as lesões dominantes. A compressão de estruturas adjacentes (veia cava superior, traqueia, esófago, nervo laríngeo recorrente) explica muitos dos sintomas.

Abordagem imagiológica. A radiografia de tórax deteta derrames a partir de 200 a 300 mL (apagamento do seio costofrénico), enquanto a ecografia torácica é mais sensível, distingue líquido de sólido, identifica septações e guia a toracocentese com maior segurança. A tomografia computorizada (TC) com contraste caracteriza massas mediastínicas, espessamento pleural e derrames complexos.

Toracocentese e critérios de Light. Perante um derrame não explicado, a toracocentese diagnóstica distingue transudato de exsudato através dos critérios de Light. É exsudato se qualquer um dos seguintes se verificar:

  • Proteína pleural / proteína sérica > 0,5.
  • LDH pleural / LDH sérica > 0,6.
  • LDH pleural > 2/3 do limite superior do normal da LDH sérica.

Os critérios de Light são muito sensíveis para exsudato, podendo classificar erradamente alguns transudatos (por exemplo, na insuficiência cardíaca sob diuréticos); nesses casos, um gradiente de albumina soro-líquido > 1,2 g/dL sugere transudato.

Análise do líquido pleural (orientação etiológica):

  • Aspeto: seroso (transudato), turvo/purulento (empiema), hemático (neoplasia, trauma, tromboembolismo), leitoso (quilotórax).
  • pH < 7,20 e glicose < 60 mg/dL: derrame parapneumónico complicado que exige drenagem; também na artrite reumatoide e neoplasia avançada.
  • ADA (adenosina desaminase) elevada (limiar habitual > 40 U/L): sugere fortemente tuberculose pleural, sobretudo com predomínio linfocitário.
  • Citologia: essencial na suspeita de derrame maligno; a sensibilidade aumenta com amostras repetidas.
  • Predomínio celular: neutrófilos (processo agudo, parapneumónico), linfócitos (tuberculose, neoplasia), eosinófilos (ar ou sangue na pleura).

Pneumotórax. O diagnóstico é habitualmente radiográfico (linha da pleura visceral com ausência de trama vascular periférica). No pneumotórax hipertensivo, o diagnóstico é clínico (dispneia grave, hipotensão, desvio traqueal, timpanismo, ingurgitamento jugular) e a descompressão não deve ser adiada para obter imagem.

Massas do mediastino. A TC define compartimento e características. Marcadores séricos ajudam: alfa-fetoproteína e beta-hCG nos tumores de células germinativas não seminomatosos; a associação a miastenia gravis aponta para timoma.

Doenças da pleura e do mediastino Pontos de decisão de alto rendimento: derrame, pneumotórax e massas do mediastino anterior 1. Derrame pleural — critérios de Light É exsudato se pelo menos UM critério se verificar (muito sensível): Proteína pleural / sérica > 0,5 LDH pleural / sérica > 0,6 LDH pleural > 2/3 do LSN sérico Transudato (nenhum critério): pressões alteradas com pleura íntegra — insuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica. Exsudato: lesão/permeabilidade da pleura — infeção, neoplasia, tromboembolismo, doença do tecido conjuntivo. Se transudato mal classificado (p. ex. IC sob diuréticos): gradiente de albumina soro-líquido > 1,2 g/dL sugere transudato. 2. Análise do líquido pleural — orientação etiológica Parâmetro Valor-chave Significado pH < 7,20 Parapneumónico complicado → drenagem Glicose < 60 mg/dL Complicado; artrite reumatoide, neoplasia ADA > 40 U/L Tuberculose pleural (predomínio linfocitário) Aspeto Turvo / hemático / leitoso Empiema / neoplasia / quilotórax ! 3. Pneumotórax hipertensivo — EMERGÊNCIA Mecanismo valvular: o ar entra na inspiração e não sai na expiração; a pressão intrapleural sobe acima da atmosférica, desvia o mediastino e compromete o retorno venoso. Diagnóstico CLÍNICO Dispneia grave, hipotensão, desvio traqueal, timpanismo, ingurgitamento jugular. Não aguardar radiografia. Descompressão IMEDIATA Agulha: 2.º espaço intercostal, linha médio-clavicular (ou 4.º/5.º axilar média). Depois, drenagem torácica definitiva. 4. Massas do mediastino anterior — os 4 T Compartimento anterior: à frente do pericárdio e dos grandes vasos (os mais examinados). Timoma Associa-se a miastenia gravis. Todo o doente com miastenia deve fazer imagem do timo. Tratamento: exérese cirúrgica. Teratoma / células germinativas Marcadores: alfa-fetoproteína e beta-hCG nos não seminomatosos. Seminoma: radiossensível. Não seminoma: quimioterapia com cisplatina. Tiroide (bócio retroesternal) Extensão retroesternal da tiroide. Pode causar sintomas compressivos (traqueia, esófago). Terrível linfoma Exige histologia (biópsia), não basta citologia, para tratamento dirigido. Tratamento: quimioterapia. Massa anterior volumosa: risco de colapso da via aérea e dos grandes vasos sob sedação/decúbito — avaliar antes de biópsia. InovaQB · Distúrbios da pleura e do mediastino · guidelines BTS 2023

Derrame pleural. O tratamento visa a causa. O transudato responde à terapêutica da doença de base (diuréticos na insuficiência cardíaca). No derrame parapneumónico, a decisão de drenar assenta na análise do líquido: derrame não complicado (fluido, pH e glicose normais) pode resolver com antibiótico dirigido; derrame complicado (pH < 7,20, glicose baixa, loculação) ou empiema (pus franco) exige drenagem torácica associada a antibioterapia prolongada. Segundo a guideline de doença pleural da British Thoracic Society (BTS) 2023, a estratificação de risco pelo score RAPID (função renal/ureia, idade, purulência, origem da infeção comunitária vs hospitalar, albumina) ajuda a identificar doentes de alto risco de mortalidade. Nos derrames loculados que não drenam adequadamente, a instilação intrapleural de ativador do plasminogénio tecidual (tPA) associado a DNase melhora a drenagem (base no ensaio MIST2); a falência da abordagem médica pode exigir referenciação cirúrgica (toracoscopia/decorticação).

Derrame pleural maligno. As opções incluem toracocentese de repetição, pleurodese (talco) para prevenir recidiva e cateter pleural de longa duração para drenagem ambulatória, escolhidos segundo os sintomas e a reexpansão pulmonar.

Pneumotórax (BTS 2023). A abordagem passou de uma lógica centrada apenas no tamanho para uma decisão orientada pelos sintomas:

  • Pneumotórax espontâneo primário pouco sintomático, independentemente do tamanho, pode ser gerido de forma conservadora (vigilância), com alta e reavaliação.
  • Em doentes sintomáticos com bom suporte, considerar gestão ambulatória com dispositivo unidirecional.
  • Se não elegível para conservador/ambulatório: aspiração por agulha ou drenagem torácica.
  • Pneumotórax secundário: limiar mais baixo para internamento e drenagem, dada a pior reserva.

Pneumotórax hipertensivo (emergência). Descompressão imediata com agulha/cateter (tradicionalmente 2.º espaço intercostal na linha médio-clavicular ou 4.º/5.º espaço na linha axilar média), seguida de drenagem torácica definitiva. Não aguardar imagem.

Massas do mediastino. O tratamento depende da etiologia: timoma (exérese cirúrgica, com atenção à miastenia perioperatória), linfoma (quimioterapia, após diagnóstico histológico e não apenas citológico), tumores de células germinativas (quimioterapia baseada em cisplatina no não seminomatoso; radiossensível no seminoma) e tumores neurogénicos (exérese). Antes de qualquer sedação, avaliar risco de compressão da via aérea e dos grandes vasos.

Referências

  1. Roberts ME, Rahman NM, Maskell NA, et al. British Thoracic Society Guideline for pleural disease. Thorax. 2023.
  2. Light RW, Macgregor MI, Luchsinger PC, Ball WC Jr. Pleural effusions: the diagnostic separation of transudates and exudates. Ann Intern Med. 1972;77(4):507-513.
  3. Corcoran JP, Psallidas I, Gerry S, et al. Prospective validation of the RAPID clinical risk prediction score in adult patients with pleural infection: the PILOT study. Eur Respir J. 2020;56(5):2000130.
  4. Rahman NM, Maskell NA, West A, et al. Intrapleural use of tissue plasminogen activator and DNase in pleural infection. N Engl J Med. 2011;365(6):518-526.
  5. Feller-Kopman D, Light R. Pleural Disease. N Engl J Med. 2018;378(8):740-751.
  6. Carter BW, Benveniste MF, Madan R, et al. ITMIG Classification of Mediastinal Compartments and Multidisciplinary Approach to Mediastinal Masses. RadioGraphics. 2017;37(2):413-436.

14 perguntas sobre Distúrbios da pleura e do mediastino

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar