Bronquiectasias
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema
As bronquiectasias são a dilatação brônquica permanente e irreversível, via final comum de múltiplas agressões das vias aéreas e não uma doença única. Manifestam-se por tosse produtiva crónica, expetoração muco-purulenta e exacerbações recorrentes, com a tomografia computorizada de alta resolução (TCAR) como exame confirmatório. O eixo conceptual do tema é o círculo vicioso de Cole (infeção, inflamação, lesão estrutural e alteração da depuração), que explica quer a fisiopatologia quer a lógica terapêutica.
A fisiopatologia é sintetizada pelo círculo vicioso de Cole (1986), reformulado como "vórtice vicioso" por integrar quatro componentes que se alimentam mutuamente, sem uma ordem obrigatória:
- Alteração da depuração mucociliar e estase de secreções.
- Infeção/colonização bacteriana das vias aéreas.
- Inflamação das vias aéreas, predominantemente neutrofílica.
- Lesão estrutural da parede brônquica.
Um insulto inicial (infeção respiratória grave, aspiração, obstrução, defeito ciliar ou imunológico) compromete a depuração mucociliar. A estase de muco cria um nicho para colonização bacteriana. A presença bacteriana persistente recruta neutrófilos, cuja desgranulação liberta elastase neutrofílica e outras proteases (metaloproteinases), que degradam a elastina e o colagénio da parede, além de agravarem elas próprias a disfunção ciliar. A lesão estrutural gera dilatação e perda de tónus, que perpetuam a estase, fechando o ciclo e tornando-o auto-sustentado.
Pontos com valor examinável:
- A elastase neutrofílica livre na expetoração é o principal mediador de lesão e um biomarcador de gravidade e de risco de exacerbação; é o alvo dos novos inibidores da dipeptidil-peptidase 1 (DPP-1), como o brensocatib, que bloqueiam a ativação de proteases neutrofílicas.
- A colonização crónica por Pseudomonas aeruginosa associa-se a maior carga inflamatória, mais exacerbações e pior prognóstico.
- A inflamação é sobretudo neutrofílica, o que ajuda a explicar por que os corticoides inalados não estão indicados de rotina (reservam-se para asma/DPOC concomitantes) e por que o soro hipertónico e a higiene brônquica (que atacam a estase) são pilares.
- A dilatação por tração (retração por fibrose do parênquima adjacente, como na fibrose pulmonar) tem mecanismo distinto e não segue este círculo infecioso-inflamatório.
Compreender o círculo torna intuitiva a estratégia: intervir em cada componente (limpar secreções, controlar a infeção, reduzir a inflamação) para quebrar o ciclo.
A confirmação faz-se por TCAR do tórax, exame de eleição. Os critérios radiológicos assentam na relação broncoarterial: o diâmetro interno do brônquio excede o da artéria pulmonar acompanhante, produzindo o sinal do anel de sinete ("signet ring", brônquio dilatado adjacente à artéria mais pequena, em corte transversal). Outros achados-chave:
- Ausência de afilamento (tapering) distal dos brônquios (perda da progressiva redução de calibre).
- Visualização de brônquios a menos de 1 cm da pleura ou a contactarem-na.
- Espessamento da parede brônquica, impactação mucosa ("árvore em botão"), padrão em mosaico por doença das pequenas vias.
A morfologia classifica-se em cilíndrica (tubular), varicosa (contornos irregulares em rosário) e quística/sacular (a mais avançada). A distribuição topográfica orienta a etiologia (predomínio dos lobos superiores na fibrose quística e na ABPA; lobo médio e língula na infeção por micobactérias não-tuberculosas).
Confirmadas as bronquiectasias, é obrigatória a investigação etiológica dirigida, porque identifica causas tratáveis:
- Hemograma e doseamento de imunoglobulinas (IgG, IgA, IgM) para imunodeficiências; se suspeita, resposta a vacinas de polissacáridos.
- IgE total, IgE específica e precipitinas para Aspergillus (ABPA).
- Teste do suor e/ou estudo genético CFTR quando há suspeita de fibrose quística (ver capítulo próprio).
- Estudo de discinesia ciliar primária (óxido nítrico nasal baixo, videomicroscopia/genética) em quadros com contexto sugestivo.
- Autoimunidade (fator reumatoide, anti-CCP, ANA/ANCA) por associação a doenças reumatológicas e inflamatórias intestinais.
- Exame microbiológico da expetoração (bacteriológico, incluindo pesquisa de Pseudomonas, e culturas para micobactérias).
- Espirometria, tipicamente com padrão obstrutivo, para avaliação funcional e seguimento.
A gravidade estratifica-se por índices validados como o Bronchiectasis Severity Index (BSI) e o FACED, que integram função respiratória, extensão, dispneia, idade, IMC e colonização por Pseudomonas.
A prevenção atua em dois planos: evitar a progressão do círculo vicioso e antecipar as complicações infeciosas.
Tratar a causa subjacente é a medida preventiva mais eficaz, porque pode interromper a lesão contínua:
- Imunodeficiência (ex.: imunodeficiência comum variável): terapêutica de substituição com imunoglobulina reduz infeções e progressão.
- ABPA: corticoterapia sistémica e, em casos selecionados, antifúngico azólico (itraconazol) para controlar a resposta imunoalérgica.
- Fibrose quística: moduladores da CFTR e programa dedicado (capítulo próprio).
- Refluxo/aspiração, obstrução brônquica e défices tratáveis devem ser corrigidos.
Prevenção de exacerbações e infeções:
- Vacinação antigripal anual e antipneumocócica, e atualização das restantes vacinas do adulto.
- Cessação tabágica e evicção de irritantes inalatórios.
- Erradicação do primeiro isolamento de Pseudomonas aeruginosa: a guideline ERS 2025 sugere oferecer um curso planeado de erradicação no novo isolamento, procurando evitar a instalação da colonização crónica (associada a pior prognóstico). Os esquemas combinam habitualmente antibiótico sistémico e/ou inalado (ex.: colistina ou tobramicina inalada).
- Otimização nutricional e manutenção da atividade física.
Rastreio e monitorização: vigilância microbiológica periódica da expetoração (deteção precoce de novos agentes, incluindo Pseudomonas e micobactérias não-tuberculosas antes de iniciar macrólido), avaliação funcional e reavaliação da causa quando o curso clínico muda. Não há rastreio populacional de bronquiectasias; o "rastreio" pertinente é o rastreio etiológico de cada doente e a deteção precoce de colonização, que muda a atitude terapêutica.
A abordagem terapêutica atua sobre cada componente do círculo vicioso; a mensagem da ERS 2025 é fazer bem o simples.
Higiene brônquica (pedra angular). As técnicas de depuração das vias aéreas, ensinadas por fisioterapia respiratória, são recomendadas para a maioria dos doentes com tosse produtiva. Incluem ciclo ativo da respiração, drenagem autogénica e dispositivos de pressão expiratória positiva. A reabilitação respiratória está indicada quando há limitação da capacidade de exercício.
Mucoativos. O soro hipertónico inalado pode facilitar a depuração. Ao contrário da fibrose quística, a dornase alfa (DNase recombinante) não deve ser usada nas bronquiectasias não-FQ, por ausência de benefício e sinal de dano.
Exacerbações. Tratam-se com antibiótico dirigido à cultura mais recente da expetoração, tipicamente por cerca de 14 dias. Se o doente está colonizado por Pseudomonas, o esquema deve cobri-la (ex.: fluoroquinolona com atividade antipseudomonas ou betalactâmico endovenoso conforme gravidade e sensibilidade).
Terapêutica de manutenção nos exacerbadores frequentes (habitualmente três ou mais exacerbações por ano):
- Macrólido de longa duração (azitromicina): recomendação forte da ERS 2025, com efeito antimicrobiano e imunomodulador. Antes de iniciar, excluir micobactérias não-tuberculosas (risco de resistência) e ponderar o prolongamento do intervalo QT e o estado auditivo.
- Antibiótico inalado (colistina, gentamicina ou tobramicina) nos doentes colonizados por Pseudomonas com exacerbações frequentes.
- Corticoides inalados apenas quando coexiste asma ou DPOC, não como tratamento das bronquiectasias em si.
Medidas de exceção. A cirurgia (ressecção) pode considerar-se em doença localizada e refratária ou com hemoptise incontrolável. A embolização de artérias brônquicas trata a hemoptise significativa. A oxigenoterapia e a ponderação de transplante aplicam-se à doença avançada. Os inibidores da DPP-1 (brensocatib) são a primeira classe anti-inflamatória com redução demonstrada de exacerbações: o brensocatib foi aprovado pela FDA em agosto de 2025 como primeiro fármaco especificamente indicado para as bronquiectasias não-FQ (ensaio ASPEN), com aprovação e adoção europeias ainda por consolidar.
Referências
- Chalmers JD, Haworth CS, Flume P, et al. European Respiratory Society clinical practice guideline for the management of adult bronchiectasis. Eur Respir J. 2025;66(6):2501126.
- Polverino E, Goeminne PC, McDonnell MJ, et al. European Respiratory Society guidelines for the management of adult bronchiectasis. Eur Respir J. 2017;50(3):1700629.
- Hill AT, Sullivan AL, Chalmers JD, et al. British Thoracic Society Guideline for bronchiectasis in adults. Thorax. 2019;74(Suppl 1):1-69.
- Cole PJ. Inflammation: a two-edged sword, the model of bronchiectasis. Eur J Respir Dis Suppl. 1986;147:6-15.
- Chalmers JD, Goeminne P, Aliberti S, et al. The bronchiectasis severity index: an international derivation and validation study. Am J Respir Crit Care Med. 2014;189(5):576-585.
- Martínez-García MÁ, de Gracia J, Vendrell Relat M, et al. Multidimensional approach to non-cystic fibrosis bronchiectasis: the FACED score. Eur Respir J. 2014;43(5):1357-1367.
10 perguntas sobre Bronquiectasias
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