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Asma

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 15 perguntas neste tema

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Em resumo

A asma é uma doença inflamatória crónica das vias aéreas, heterogénea nos seus fenótipos, definida por sintomas respiratórios variáveis (pieira, dispneia, aperto torácico, tosse) associados a limitação variável do fluxo expiratório. A mudança de paradigma da GINA 2025 é central para o PNA: nenhum adulto ou adolescente deve ser tratado apenas com beta-2 agonista de curta ação (SABA) isolado, porque todos beneficiam de corticosteroide inalado (ICS), de preferência sob a forma de ICS-formoterol como alívio e manutenção. Este capítulo cobre a fisiopatologia examinável, o diagnóstico funcional, a estratégia terapêutica por degraus e os biológicos dirigidos ao fenótipo.

A base da asma é a inflamação crónica das vias aéreas, que a GINA 2025 divide em dois grandes eixos endotípicos.

Inflamação tipo 2 (T2-alta): é o mecanismo predominante. As células epiteliais, quando lesadas por alergénios, vírus ou poluentes, libertam alarminas (TSLP, IL-33, IL-25) que ativam linfócitos Th2 e células linfoides inatas do grupo 2 (ILC2). Estas produzem as citocinas nucleares da asma T2:

  • IL-4 e IL-13: promovem a comutação de classe para IgE nos linfócitos B, a hipersecreção de muco e a hiper-reatividade;
  • IL-5: essencial para a maturação, recrutamento e sobrevivência dos eosinófilos.

A IgE liga-se aos mastócitos; a reexposição ao alergénio provoca degranulação com libertação de histamina, leucotrienos e prostaglandinas, gerando broncoconstrição imediata. Os eosinófilos infiltram a parede e perpetuam a lesão epitelial. Biomarcadores T2: eosinófilos no sangue e FeNO (fração exalada de óxido nítrico, refletindo a via IL-13).

Inflamação não-T2 (T2-baixa): predomínio neutrofílico ou paucigranulocítico, com envolvimento de IL-17, associada a obesidade, tabagismo e início tardio. É tipicamente menos responsiva ao ICS, o que explica muitos casos de asma difícil de tratar.

As consequências funcionais convergem na limitação variável do fluxo expiratório, produto de quatro processos:

  • Broncoconstrição por contração do músculo liso (componente rapidamente reversível);
  • Edema e infiltrado inflamatório da parede;
  • Hipersecreção de muco com formação de rolhões;
  • Remodelação das vias aéreas: fibrose subepitelial, hipertrofia/hiperplasia do músculo liso, angiogénese e hiperplasia das células caliciformes.

A hiper-reatividade brônquica (resposta broncoconstritora exagerada a estímulos inespecíficos) é o correlato fisiopatológico da variabilidade. A remodelação, quando estabelecida, pode originar limitação fixa do fluxo aéreo, sobreponível à da DPOC, e é um dos argumentos para o tratamento anti-inflamatório precoce e não apenas broncodilatador.

O diagnóstico de asma exige história de sintomas respiratórios variáveis MAIS demonstração objetiva de limitação variável do fluxo expiratório. O erro clássico avaliado no PNA é diagnosticar asma apenas pela clínica, sem confirmação funcional.

Espirometria com prova de broncodilatação (primeira linha):

  • Documentar obstrução: FEV1/FVC reduzido (abaixo do limite inferior de normalidade).
  • Reversibilidade positiva: aumento do FEV1 ≥ 12% E ≥ 200 mL face ao basal, 10 a 15 minutos após 200 a 400 µg de salbutamol. Este critério, mantido na GINA 2025, sugere fortemente asma.

Uma espirometria normal ou sem reversibilidade não exclui asma (a doença é variável e pode estar controlada no momento). Nesse caso, recorrer a testes alternativos:

  • Variabilidade do débito expiratório máximo (DEP/PEF): variabilidade diurna média superior a 10% no adulto (superior a 13% na criança), registada durante 1 a 2 semanas.
  • Prova de provocação brônquica (metacolina/exercício): útil quando a espirometria é normal mas a suspeita é alta; a queda do FEV1 confirma hiper-reatividade. Tem elevada sensibilidade (um resultado negativo torna a asma improvável).
  • Melhoria com tratamento: aumento do FEV1 após 4 semanas de anti-inflamatório.
  • FeNO e eosinófilos: apoiam o fenótipo T2 e orientam o biológico, mas isoladamente não estabelecem nem excluem o diagnóstico.

Sempre que possível, confirmar objetivamente ANTES de iniciar tratamento de manutenção, porque a terapêutica atenua os achados. Na dúvida com doente já medicado, pode ser necessário protocolo de redução supervisionada para documentar.

Diagnóstico diferencial: DPOC e sobreposição asma-DPOC, disfunção das cordas vocais, insuficiência cardíaca, bronquiectasias, corpo estranho, tosse por IECA, hiperventilação. A história ocupacional é obrigatória: melhoria consistente em períodos de férias sugere asma ocupacional.

Não existe rastreio populacional de asma. A deteção é oportunista (case finding): investigar objetivamente quem apresenta sintomas respiratórios recorrentes ou fatores de risco. A prevenção organiza-se em três níveis.

Prevenção primária (evitar o desenvolvimento da doença), sobretudo na criança:

  • Evitar a exposição ao fumo do tabaco no período pré-natal e na infância (medida com maior evidência).
  • Favorecer o parto vaginal quando possível e o aleitamento materno pelos seus benefícios globais.
  • Evitar o uso desnecessário de antibióticos de largo espectro e de paracetamol no primeiro ano de vida.
  • Não há evidência que sustente dietas de evicção de alergénios na gravidez para prevenir asma.

Prevenção secundária/terciária (evitar exacerbações e progressão), o foco no adulto já diagnosticado:

  • Cessação tabágica e evicção de fumo passivo (o tabagismo reduz a resposta ao ICS).
  • Identificação e remoção de exposições, com destaque para a asma ocupacional: o afastamento precoce do agente sensibilizante é determinante para o prognóstico.
  • Controlo de desencadeantes ambientais e de comorbilidades: rinossinusite/pólipos nasais, refluxo gastroesofágico, obesidade (a redução ponderal melhora o controlo), apneia do sono e ansiedade.
  • Vacinação anti-influenza anual e antipneumocócica conforme indicação.
  • Cautela com fármacos desencadeantes: AINE na doença respiratória exacerbada por aspirina e beta-bloqueantes não seletivos.
  • Atividade física regular, incentivada (com pré-tratamento se broncoconstrição induzida pelo exercício).

Duas intervenções transversais reduzem exacerbações mais do que qualquer escalonamento farmacológico: otimizar a técnica inalatória e reforçar a adesão, e fornecer um plano de ação escrito personalizado que ensine a reconhecer o agravamento e a intensificar a terapêutica precocemente. Estas devem ser revistas em todas as consultas antes de considerar subir de degrau.

A GINA 2025 organiza o tratamento em duas vias (tracks), e o ponto mais examinável é que o SABA isolado deixou de ser aceitável: todo o adulto e adolescente faz ICS.

Via 1 (preferida): ICS-formoterol como alívio e manutenção (estratégia AIR/MART). O formoterol é um LABA de início rápido, o que permite usar a mesma associação para alívio e para manutenção:

  • Degraus 1-2: ICS-formoterol em dose baixa apenas em SOS (estratégia AIR, anti-inflammatory reliever). Cada resgate entrega simultaneamente broncodilatador e anti-inflamatório.
  • Degrau 3: MART (maintenance and reliever therapy), ICS-formoterol dose baixa de manutenção + o mesmo inalador em SOS.
  • Degrau 4: MART com ICS-formoterol em dose média.
  • Degrau 5: referenciar para avaliação de fenótipo e biológicos; considerar tiotrópio (LAMA) e dose alta de ICS.

O benefício-chave: comparado com o SABA isolado, o ICS-formoterol em SOS reduz as exacerbações graves em cerca de 60%, com menor carga total de corticosteroide.

Via 2 (alternativa): SABA como alívio + ICS de manutenção separado. Usar quando a Via 1 não é viável (custo, disponibilidade, preferência ou adesão à manutenção diária): ICS dose baixa (degrau 2), ICS-LABA dose baixa (degrau 3), dose média/alta (degrau 4). Exige adesão diária e tem maior risco se o doente sobreutilizar o SABA.

Doses de referência de ICS (budesonida, adulto): baixa 200 a 400 µg/dia; média superior a 400 até 800 µg/dia; alta superior a 800 µg/dia.

Asma grave (degrau 5) e biológicos, dirigidos ao fenótipo:

  • Anti-IgE (omalizumab): asma alérgica com IgE elevada e sensibilização perene.
  • Anti-IL5/IL5R (mepolizumab, reslizumab; benralizumab): fenótipo eosinofílico com exacerbações.
  • Anti-IL4R (dupilumab): asma T2 (eosinófilos/FeNO elevados), corticodependência e pólipos nasais.
  • Anti-TSLP (tezepelumab): atua a montante, eficaz independentemente dos biomarcadores (inclui T2-baixa).

Antes de escalar: confirmar diagnóstico, adesão, técnica inalatória e comorbilidades. Ajustes por avaliação em ciclo (rever, ajustar, monitorizar).

Asma — tratamento por degraus (GINA 2025) Via 1 (preferida): ICS-formoterol como alívio e manutenção — MART / AIR ! SABA isolado abolido: todo o adulto e adolescente deve fazer ICS (nunca broncodilatador isolado). Escada Track 1 (a mesma associação alivia e mantém). ↑ escalar se não controlado · ↓ desescalar se controlado. aumentar intensidade 5 Degrau 5 · asma grave Referenciar p/ fenotipagem + biológicos; ± LAMA, ICS dose alta 4 Degrau 4 MART: ICS-formoterol dose média + SOS 3 Degrau 3 MART: ICS-formoterol dose baixa (manutenção) + SOS 2 Degrau 2 ICS-formoterol dose baixa em SOS (AIR) 1 Degrau 1 ICS-formoterol dose baixa em SOS (AIR) Vantagem-chave: ICS-formoterol em SOS reduz exacerbações graves ~60% vs SABA isolado. Budesonida (adulto): dose baixa 200–400 · média >400–800 · alta >800 µg/dia. Biológicos por fenótipo T2 — asma grave (degrau 5) Alvo Fármaco Indicação / fenótipo Anti-IgE omalizumab Asma alérgica; IgE elevada e sensibilização perene Anti-IL5 / IL5R mepolizumab, benralizumab Fenótipo eosinofílico com exacerbações Anti-IL4R dupilumab Asma T2 (eosinófilos/FeNO); corticodependência e pólipos Anti-TSLP tezepelumab Independente de biomarcadores (inclui T2-baixa) Via 2 (só se a Via 1 não for viável): SABA + ICS de manutenção separado — exige adesão diária.

Referências

  1. Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention (2025 update). Disponível em: https://ginasthma.org
  2. Global Initiative for Asthma. Difficult-to-treat & Severe Asthma in adolescent and adult patients: Diagnosis and Management. GINA, 2025.
  3. Holguin F, Cardet JC, Chung KF, et al. Management of severe asthma: a European Respiratory Society/American Thoracic Society guideline. Eur Respir J. 2020;55(1):1900588.
  4. O'Byrne PM, FitzGerald JM, Bateman ED, et al. Inhaled Combined Budesonide-Formoterol as Needed in Mild Asthma (SYGMA 1). N Engl J Med. 2018;378(20):1865-1876.
  5. Menzies-Gow A, Corren J, Bourdin A, et al. Tezepelumab in Adults and Adolescents with Severe, Uncontrolled Asthma (NAVIGATOR). N Engl J Med. 2021;384(19):1800-1809.

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