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Abordagem ao doente com tosse

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 19 perguntas neste tema

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Em resumo

A tosse é um dos motivos de consulta mais frequentes e a sua abordagem racional assenta na duração dos sintomas, que orienta o diagnóstico diferencial e a investigação. Na tosse crónica do não fumador com radiografia de tórax normal, a tríade clássica (síndrome de tosse das vias aéreas superiores, asma e doença de refluxo gastroesofágico) explica a esmagadora maioria dos casos, mas o reconhecimento de sinais de alarme é o passo que não pode falhar.

O reflexo da tosse inicia-se na estimulação de recetores sensoriais das vias aéreas inervados por fibras do nervo vago, sobretudo fibras C amielínicas e recetores de adaptação rápida da laringe, traqueia e brônquios. Os estímulos (mecânicos, químicos, inflamatórios, térmicos) ativam canais iónicos como o TRPV1, TRPA1 e os recetores P2X3 (sensíveis ao ATP extracelular), gerando aferências que convergem no núcleo do trato solitário no tronco cerebral. A resposta motora eferente produz a sequência inspiração, encerramento glótico com contração expiratória e abertura súbita da glote.

A hipersensibilidade do reflexo da tosse é o mecanismo unificador da tosse crónica: uma neuroplasticidade sensorial (à semelhança da dor neuropática) reduz o limiar do reflexo, com hipertússia (tosse exagerada a estímulos habituais) e alotússia (tosse a estímulos normalmente inócuos, como falar, rir ou ar frio). Isto explica por que a tosse persiste mesmo após controlo da causa periférica.

Por causa, os mecanismos diferem:

  • Síndrome de tosse das vias aéreas superiores: secreções e inflamação rinossinusal estimulam mecânica e quimicamente os recetores da faringe e laringe.
  • Asma e variante-tosse: a inflamação eosinofílica e a hiper-reatividade brônquica sensibilizam as vias aéreas; na variante-tosse a tosse é o único sintoma, sem sibilância nem dispneia.
  • Bronquite eosinofílica não asmática: inflamação eosinofílica das vias aéreas sem hiper-reatividade brônquica nem obstrução variável (espirometria e provas de provocação normais).
  • DRGE: refluxo ácido e não ácido estimula recetores esofágicos e laríngeos, com componente de reflexo esofago-brônquico e microaspiração.
  • IECA: acumulam bradicinina e substância P (normalmente degradadas pela enzima de conversão), que sensibilizam os recetores da tosse; efeito de classe, independente da dose.

A avaliação começa pela anamnese e exame objetivo dirigidos e por duas ações de alto rendimento: rever a medicação (suspender IECA) e verificar hábitos tabágicos. A radiografia de tórax é o exame de primeira linha em praticamente toda a tosse crónica, para excluir doença estrutural.

Passos essenciais:

  • Suspender o IECA: a tosse pode resolver em dias a semanas, mas a resolução completa pode demorar até 4 semanas ou mais; a alternativa é um antagonista dos recetores da angiotensina (ARA), que raramente causa tosse.
  • Rastrear sinais de alarme (ver secção seguinte): hemoptise, emagrecimento, disfonia persistente, disfagia, febre, adenopatias, hipocratismo digital ou alterações imagiológicas obrigam a investigação de neoplasia ou tuberculose antes de assumir causas benignas.

Se radiografia normal, não fumador e sem IECA, investigar a tríade de forma sequencial ou empírica:

  • Síndrome de tosse das vias aéreas superiores: diagnóstico clínico (pigarro, sensação de secreção retronasal, mucosa em pedra de calçada); frequentemente confirma-se pela resposta ao tratamento.
  • Asma / variante-tosse: espirometria com prova de broncodilatação; se normal, prova de provocação brônquica (metacolina) pela sua elevada sensibilidade (uma prova negativa torna a asma improvável). A fração exalada de óxido nítrico (FeNO) apoia inflamação eosinofílica.
  • Bronquite eosinofílica não asmática: eosinófilos na expetoração induzida (ou FeNO elevada) com espirometria e provocação normais; responde a corticosteroide inalado.
  • DRGE: valorizar pirose e regurgitação; muitos casos são de refluxo silencioso. Ensaio empírico com medidas antirrefluxo e, quando indicado, inibidor da bomba de protões; a pHmetria/impedanciometria reserva-se para casos selecionados.

Quando a investigação é negativa ou a tosse persiste apesar de tratamento adequado das causas, classifica-se como tosse crónica refratária (causa tratada mas tosse mantida) ou inexplicada (sem causa identificável), traduzindo hipersensibilidade do reflexo (ERS 2020).

Abordagem à tosse: classificar pela duração O tempo de evolução reorganiza o diagnóstico diferencial (CHEST 2018) Tosse aguda menos de 3 semanas Causa predominante: infeção viral das vias aéreas superiores. Ponderar pneumonia, TEP, IC. Tosse subaguda 3 a 8 semanas Domina a tosse pós-infecciosa (autolimitada). Ponderar tosse convulsa. Tosse crónica mais de 8 semanas Exige abordagem estruturada. Primeiros passos: suspender IECA, tabagismo e radiografia. Crónica no NÃO fumador, sem IECA e com radiografia de tórax normal TRÍADE CLÁSSICA (explica a maioria dos casos) Iatrogénica Vias aéreas sup. Síndrome de tosse das VAS (gotejamento pós-nasal); pigarro, secreção retronasal. Diagnóstico clínico. Anti-histamínico/nasal. Asma / var.-tosse Hiper-reatividade brônquica; tosse pode ser o único sintoma. Espirometria; metacolina. Corticosteroide inalado. Metacolina neg. exclui. DRGE Refluxo ácido e não ácido. Muitas vezes silencioso (sem pirose). Valorizar regurgitação. Medidas + IBP. 4.ª causa: bronq. eosinof. Tosse por IECA Acumulação de bradicinina e subst. P. Efeito de classe. Resolução pode demorar até 4 semanas ou mais. Suspender; trocar por ARA. ! Sinais de alarme Obrigam a investigar neoplasia pulmonar e tuberculose antes de assumir causa benigna. Hemoptise Emagrecimento, febre, sudorese noturna Disfonia persistente e disfagia Alteração da radiografia de tórax Hipocratismo digital Adenopatias Fumador com mais de 45 anos e tosse nova Pneumonia recorrente ou expetoração purulenta

O princípio-chave é tratar a causa, com ensaios terapêuticos dirigidos e reavaliação da resposta; muitos doentes têm mais do que uma causa, pelo que uma resposta parcial deve motivar a investigação de causa adicional em vez de abandono da primeira.

Medidas transversais e etiológicas:

  • Cessação tabágica e suspensão do IECA em todos os casos aplicáveis.
  • Síndrome de tosse das vias aéreas superiores: anti-histamínico de primeira geração com efeito anticolinérgico e/ou corticosteroide nasal; tratar rinite alérgica ou rinossinusite subjacente.
  • Asma / variante-tosse: corticosteroide inalado como base do tratamento, associado a broncodilatador de longa ação conforme controlo (GINA 2025); a GINA desaconselha o SABA isolado como tratamento de fundo. A variante-tosse responde bem ao corticosteroide inalado e previne a progressão para asma clássica.
  • Bronquite eosinofílica não asmática: corticosteroide inalado, com boa resposta.
  • DRGE: medidas dietéticas e posturais, redução ponderal; inibidor da bomba de protões nos casos com refluxo ácido; a evidência do supressor ácido na tosse sem sintomas típicos é limitada.

Tosse crónica refratária ou inexplicada (ERS 2020):

  • Terapêutica não farmacológica da tosse (fisioterapia/fonoterapia com técnicas de supressão do reflexo) como opção de primeira linha.
  • Neuromoduladores: ensaio de gabapentina ou pregabalina; morfina em baixa dose como alternativa. Recomendações condicionais, com monitorização de efeitos adversos.
  • Antagonistas dos recetores P2X3 (ex.: gefapixant): classe recente dirigida à hipersensibilidade do reflexo, com disgeusia como efeito adverso característico; disponibilidade variável.

Em tosse aguda a abordagem é sobretudo sintomática e de suporte, pois a maioria é viral e autolimitada; antibióticos não estão indicados na infeção viral das vias aéreas superiores nem, em regra, na bronquite aguda.

Referências

  1. Irwin RS, French CL, Chang AB, Altman KW; CHEST Expert Cough Panel. Classification of Cough as a Symptom in Adults and Management Algorithms: CHEST Guideline and Expert Panel Report. Chest. 2018;153(1):196-209.
  2. Morice AH, Millqvist E, Bieksiene K, et al. ERS guidelines on the diagnosis and treatment of chronic cough in adults and children. Eur Respir J. 2020;55(1):1901136.
  3. Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2025 update. Disponível em: https://ginasthma.org
  4. Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease. Global Strategy for the Prevention, Diagnosis and Management of COPD: 2026 Report. Disponível em: https://goldcopd.org

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