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Abordagem ao doente com distúrbios da ventilação

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 9 perguntas neste tema

Em resumo

A ventilação alveolar é o que fixa a PaCO2: quando cai em relação à produção de dióxido de carbono, a PaCO2 sobe e há hipoventilação; quando excede as necessidades, a PaCO2 desce e há hiperventilação. Os distúrbios da ventilação são, por isso, distúrbios da PaCO2, e só a gasometria arterial os documenta. A oximetria não vê a PaCO2, e um doente hipercápnico pode ter uma saturação ótima se estiver a respirar oxigénio.

A insuficiência respiratória divide-se pela gasometria. A do tipo 1, ou hipoxémica, tem PaO2 abaixo de 60 mmHg com PaCO2 normal ou baixa e nasce no parênquima: desequilíbrio entre ventilação e perfusão, shunt ou, raramente, difusão. A do tipo 2, ou hipercápnica, tem PaCO2 acima de 45 mmHg e nasce na bomba ventilatória, que vai do centro respiratório no tronco cerebral ao nervo, ao músculo e à parede torácica, ou numa obstrução tão grave que esgota essa bomba.

O gradiente alvéolo-arterial de oxigénio é o que separa as duas. Na hipoventilação pura o pulmão está são, a hipoxemia é só a consequência de haver mais dióxido de carbono no alvéolo, e o gradiente é normal; um gradiente alargado quer dizer que há doença do parênquima, sozinha ou por cima da falência da bomba. O bicarbonato diz há quanto tempo: sobe pouco na hipercapnia aguda e muito na crónica, e um bicarbonato sérico abaixo de 27 mmol/L torna a hipoventilação crónica muito improvável.

As causas crónicas mais frequentes são a doença pulmonar obstrutiva crónica avançada, a síndrome de obesidade-hipoventilação, as doenças neuromusculares e as deformidades da parede torácica, como a cifoscoliose. Estas duas últimas seguem uma sequência previsível: primeiro hipoventilação no sono, depois hipercapnia diurna, com ortopneia, cefaleia matinal, sonolência e tosse ineficaz. As provas de função respiratória mostram um padrão restritivo com difusão preservada, e as pressões respiratórias máximas medem a força.

O tratamento da hipoventilação crónica é a ventilação não invasiva, com critérios de início fixados em norma nacional, e o oxigénio sozinho não a trata. A oxigenoterapia de longa duração tem critérios próprios, pela PaO2 e não pela PaCO2: 55 mmHg ou menos, ou entre 56 e 59 mmHg com cor pulmonale, hipertensão pulmonar ou hematócrito acima de 55%, mais de 15 horas por dia. O que não se pode falhar é dar oxigénio sem alvo a um retentor de dióxido de carbono, adiar a ventilação na acidose respiratória e tomar uma saturação normal sob oxigénio como prova de que o doente ventila bem.

Os cinco mecanismos de hipoxemia

mecanismogradiente alvéolo-arterialPaCO2responde ao oxigénioexemplos
Hipoventilaçãonormalaltasim, mas a PaCO2 não baixaopioides, doença neuromuscular, cifoscoliose
Oxigénio inspirado baixonormalhabitualmente baixasimaltitude
Desequilíbrio ventilação-perfusãoalargadonormal, sobe só nos extremossimdoença pulmonar obstrutiva crónica, asma, pneumonia
Shuntalargadonormal ou baixapouco ou nadaatelectasia, edema pulmonar, síndrome de dificuldade respiratória aguda, malformação arteriovenosa
Alteração da difusãoalargado, muitas vezes só no esforçonormalsimdoença do interstício
  • O desequilíbrio ventilação-perfusão é a causa mais comum de hipoxemia na doença.
  • O shunt não corrige com oxigénio porque o sangue que o atravessa nunca contacta com o alvéolo.
  • A hipoventilação, sozinha e ao nível do mar em ar ambiente, raramente causa hipoxemia grave: se a hipoxemia é grave, procura-se doença do parênquima associada.

Causas de hipoventilação, por nível

nívelcausaspista
Comando centralopioides, benzodiazepinas e outros sedativos, álcool, anestésicos; acidente vascular, tumor ou traumatismo do tronco cerebral; hipotiroidismo grave; hipoventilação central congénitapulmão, força e gradiente normais; agrava no sono
Medula e nervolesão medular cervical alta, paralisia do frénico, síndrome de Guillain-Barré, poliomielitefraqueza, ortopneia
Junção e músculomiastenia gravis, esclerose lateral amiotrófica, distrofias musculares, miopatiasfraqueza dos membros ou bulbar antes da hipercapnia
Parede torácicacifoscoliose, obesidade, tórax instável, sequelas de toracoplastiapadrão restritivo com difusão normal
Obesidade com distúrbio do sonosíndrome de obesidade-hipoventilaçãoíndice de massa corporal de 30 ou mais, apneia do sono, bicarbonato alto
Carga excessivadoença pulmonar obstrutiva crónica avançada, asma grave, obstrução da via aérea superiorhiperinsuflação, fadiga muscular

Como cada grupo hipoventila

  • Comando: o estímulo está reduzido, e a resposta ao dióxido de carbono e à hipoxemia é fraca. Na hipoventilação central congénita, ligada a mutações do gene PHOX2B, não há resposta à hipercapnia nem à hipoxemia: a PaCO2 está ligeiramente alta em vigília e muito alta no sono não REM, e normaliza no esforço e no sono REM.
  • Doença neuromuscular: o comando está intacto, muitas vezes aumentado, mas falta força. A fraqueza tem de ser grande antes de reduzir os volumes e causar hipercapnia. A sequência é hipoventilação no sono REM, depois no sono não REM, e por fim hipercapnia diurna, à medida que a capacidade vital cai. Em decúbito, o conteúdo abdominal empurra o diafragma e põe-no em desvantagem mecânica, daí a ortopneia.
  • Parede torácica: a parede rígida aumenta a carga elástica e o trabalho respiratório. A cifoscoliose é a deformidade que dá a restrição mais grave; quanto maior a curvatura, maior a restrição e o risco de insuficiência respiratória, e a de origem neuromuscular compromete mais do que a idiopática para a mesma curvatura.
  • Síndrome de obesidade-hipoventilação: soma-se a apneia obstrutiva do sono, o maior trabalho respiratório, a fraqueza relativa dos músculos perante a carga da obesidade, o desequilíbrio ventilação-perfusão e uma resposta central atenuada ao dióxido de carbono e à hipoxemia. Essa resposta melhora com pressão positiva sem perda de peso, o que mostra que é consequência e não causa. O bicarbonato retido pelo rim para compensar a hipercapnia noturna atenua ainda mais o estímulo e perpetua o quadro.
  • Doença obstrutiva avançada: a hiperinsuflação encurta o diafragma e aumenta o espaço morto; quando o custo de ventilar se torna excessivo, os músculos cansam e os quimiorrecetores reajustam-se a uma PaCO2 mais alta.

Causas de hiperventilação

grupoexemplos
Estímulo centraldor, ansiedade, febre, acidente vascular, meningite
Hipoxemiaaltitude, pneumonia, edema pulmonar, anemia grave
Fármacos e hormonassalicilatos, progesterona na gravidez
Estímulo de recetores torácicosembolia pulmonar, insuficiência cardíaca, tórax instável
Outrassépsis, insuficiência hepática, ventilação mecânica excessiva, compensação de acidose metabólica
  • A hiperventilação crónica sem causa orgânica é diagnóstico de exclusão. A ansiedade pode iniciá-la e mantê-la, mas perturbação de pânico e hiperventilação não são sinónimos.
  • Basta um aumento mantido de cerca de 10% da ventilação alveolar, com suspiros ou bocejos frequentes, para manter a hipocapnia.

Rastreio: o bicarbonato sérico

  • Um bicarbonato sérico abaixo de 27 mmol/L, com função renal normal, torna a hipoventilação crónica muito improvável.
  • Com 27 mmol/L ou mais, sem depleção de volume, mede-se a PaCO2.
  • É um teste para excluir, não para confirmar: a alcalose metabólica também sobe o bicarbonato.

Leitura da gasometria arterial, por ordem

  1. PaCO2: acima de 45 mmHg é hipoventilação; abaixo do normal é hiperventilação.
  2. pH e bicarbonato: separam o agudo do crónico.
  3. Gradiente alvéolo-arterial: separa a bomba do pulmão.

Compensação esperada

distúrbiovariação do bicarbonato por cada 10 mmHg de PaCO2
Acidose respiratória agudasobe cerca de 1 mmol/L
Acidose respiratória crónicasobe cerca de 4 mmol/L
Alcalose respiratória agudadesce cerca de 2 mmol/L
Alcalose respiratória crónicadesce cerca de 4 mmol/L
  • Uma PaCO2 alta com pH normal confirma a hipoventilação crónica.
  • Um bicarbonato mais alto do que a compensação explica aponta para alcalose metabólica associada, que por si agrava a hipoventilação e deve corrigir-se.
  • A hiperventilação crónica confirma-se por alcalose respiratória compensada: pH quase normal, PaCO2 baixa e bicarbonato baixo.

Como se calcula o gradiente alvéolo-arterial

Primeiro calcula-se a pressão alveolar de oxigénio pela equação do gás alveolar. Multiplica-se a fração de oxigénio inspirado pela pressão atmosférica menos a pressão do vapor de água, e subtrai-se a PaCO2 dividida pelo quociente respiratório. Ao nível do mar, em ar ambiente, a fração é 0,21, a pressão atmosférica 760 mmHg, o vapor de água 47 mmHg e o quociente respiratório cerca de 0,8. O primeiro termo dá cerca de 150 mmHg, e a pressão alveolar de oxigénio fica em 150 menos 1,25 vezes a PaCO2. O gradiente é essa pressão alveolar menos a PaO2 medida.

  • Num adulto jovem saudável, com PaCO2 de 40 e PaO2 de 90 mmHg: a pressão alveolar é 150 menos 50, ou seja 100 mmHg, e o gradiente é de 10 mmHg.
  • O gradiente normal sobe com a idade: 2,5 mais 0,21 vezes a idade, o que dá cerca de 17 mmHg aos 70 anos.
  • Intoxicação por opioides, com PaCO2 de 80 e PaO2 de 45 mmHg: a pressão alveolar é 150 menos 100, ou seja 50 mmHg, e o gradiente é de 5 mmHg. É normal: a hipoxemia explica-se toda pela hipoventilação.
  • Agudização de doença obstrutiva, com PaCO2 de 60 e PaO2 de 50 mmHg: a pressão alveolar é 150 menos 75, ou seja 75 mmHg, e o gradiente é de 25 mmHg. Está alargado: há doença do parênquima para além da hipoventilação.

Provas de função respiratória

  • FVC (capacidade vital forçada): o volume total expirado de forma rápida e forçada a partir de uma inspiração máxima.
  • FEV1 (volume expiratório máximo no primeiro segundo): o volume expirado no primeiro segundo dessa manobra; é um débito.
  • Relação FEV1/FVC: baixa na obstrução.
  • TLC (capacidade pulmonar total): o volume de ar nos pulmões depois de uma inspiração máxima; mede-se por pletismografia ou diluição de gás inerte, não por espirometria.
  • RV (volume residual): o que fica depois de uma expiração máxima.
  • DLCO (capacidade de difusão do monóxido de carbono): mede a transferência de gás através da membrana alvéolo-capilar numa apneia de 10 segundos; baixa quando a membrana está espessada ou destruída, quando a vasculatura pulmonar está reduzida e na anemia.
padrãodefiniçãoexemplos
ObstrutivoFEV1/FVC abaixo de 0,70 depois de broncodilatador, ou abaixo do limite inferior do normalasma, doença pulmonar obstrutiva crónica, bronquiectasias
RestritivoFEV1 e FVC reduzidos com relação normal; confirma-se com TLC abaixo de 80% do previstodoença do interstício, parede, músculo
doençaTLCRVDLCO
Fibrose pulmonarbaixabaixobaixa
Obesidade moderadanormal (baixa na obesidade maciça)normalnormal
Fraqueza muscular, como a miasteniabaixaaltonormal
Asmanormalaltonormal ou alta
Enfisemaaltamuito altobaixa
  • Na restrição extrapulmonar (parede ou músculo) a DLCO está normal, porque a membrana alvéolo-capilar é sã; na doença do interstício está baixa.
  • Na fraqueza muscular o doente não consegue encher nem esvaziar os pulmões até ao fim: a TLC desce e o RV sobe, e a FVC e o FEV1 caem por arrasto.
  • Na obesidade a primeira alteração é a descida da capacidade residual funcional e do volume de reserva expiratória.

Força dos músculos respiratórios

  • Pressões inspiratória e expiratória máximas na boca: valores de 60 cmH2O ou mais (em valor absoluto) tornam improvável que a fraqueza explique a disfunção.
  • Pressão inspiratória nasal no fungar (sniff): abaixo de 40 cmH2O é um dos critérios de ventilação na esclerose lateral amiotrófica.
  • Capacidade vital sentado e deitado: no normal cai 5 a 10% em decúbito; uma queda acima de 15% é anormal e sugere fraqueza diafragmática, e uma queda de 30% ou mais aponta para fraqueza bilateral grave. Uma capacidade vital normal em decúbito torna improvável uma fraqueza diafragmática significativa.
  • Paralisia diafragmática: a ecografia do diafragma, que mostra a falta de espessamento na inspiração, é uma alternativa não invasiva à fluoroscopia no fungar.

Estudos do sono e imagem

  • Oximetria noturna e capnografia: detetam dessaturação e retenção noturna de dióxido de carbono; o limiar operacional é saturação abaixo de 88% durante 5 minutos seguidos.
  • Polissonografia ou estudo cardiorrespiratório do sono: obrigatórios antes de iniciar CPAP (pressão positiva contínua) ou pressão binível na apneia do sono e na obesidade-hipoventilação.
  • Radiografia e tomografia do tórax: deformidade da parede, elevação do diafragma, doença do parênquima.
  • Tomografia ou ressonância cerebral: quando se suspeita de lesão do tronco cerebral.

Sequência diagnóstica da hipercapnia crónica

passoperguntacomo se responde
1Há hipercapnia crónica?bicarbonato de 27 ou mais, depois PaCO2 acima de 45 com pH quase normal
2É do pulmão ou da parede?exame, radiografia ou tomografia, provas de função com volumes e DLCO, gradiente
3É obesidade-hipoventilação?índice de massa corporal de 30 ou mais, estudo do sono, exclusão de outras causas
4É do nervo ou do músculo?força dos membros e bulbar, pressões máximas, capacidade vital deitado
5É do comando?força, provas de função e gradiente normais; fármacos, hipotiroidismo, imagem do tronco
Distúrbios da ventilação: hipoventilação e hiperventilação Na hipoventilação falha a bomba ventilatória, não o parênquima; a gasometria arterial decide Hipoventilação alveolar PaCO₂ >45 mmHg (elevada, em vigília) pH baixo: acidose respiratória HCO₃⁻ elevado se crónica (compensação renal) Gradiente A-a normal se causa extrapulmonar Hiperventilação PaCO₂ <36 mmHg (abaixo do normal) pH alto: alcalose respiratória Gravidez, altitude, dor, febre, ansiedade Gradiente A-a tipicamente normal ! Discriminador-chave: gradiente alvéolo-arterial de O₂ Normal com hipercapnia: falha a bomba e o pulmão está são (a hipoxemia vem só da PaCO₂) Alargado: há doença do parênquima (desequilíbrio V/Q, shunt ou difusão), só ou associada Causas de hipoventilação Depressão do comando central Opioides, sedativos, álcool. hipoventilação central (PHOX2B), lesões do tronco cerebral. Doença neuromuscular ELA, miastenia, Guillain-Barré, distrofias. O comando está intacto; falha a força, não o comando. Cifoscoliose e parede torácica Restrição da parede torácica. Complacência reduzida aumenta o trabalho respiratório. Síndrome de obesidade-hipoventilação (SOH) Carga mecânica da obesidade e comando atenuado; apneia obstrutiva do sono em cerca de 90%; retenção renal de bicarbonato perpetua o quadro. DPOC avançada (obstrução) Hiperinsuflação encurta o diafragma e aumenta o espaço morto; sobrecarga e fadiga da bomba traduzem-se em hipercapnia crónica. Eixo de decisão: gasometria arterial em ar ambiente 1. PaCO₂ acima de 45: hipoventilação abaixo de 36: hiperventilação Confirma o distúrbio. 2. pH e HCO₃⁻ Agudo: sobe 1 por 10 mmHg Crónico: sobe cerca de 4 Separa agudo de crónico. 3. Gradiente A-a Normal: bomba ou comando Alargado: parênquima Separa bomba de pulmão. Papel da ventilação não invasiva (VNI) VNI de dois níveis é a base do tratamento da hipoventilação crónica (descarrega os músculos). SOH: CPAP se apneia obstrutiva grave; VNI se a hipercapnia persiste ou não há apneia grave. DPOC hipercápnica estável: VNI domiciliária dirigida a baixar a PaCO₂, se esta persiste. Oxigénio com alvo de SpO₂ de 88 a 92% no hipercápnico: não trata a hipoventilação e pode agravá-la.

Princípios

  • Tratar a causa e suportar a ventilação; corrigir só a hipoxemia não trata a hipoventilação.
  • Evitar sedativos e opioides, e corrigir a alcalose metabólica associada.
  • Os estimulantes respiratórios, como a medroxiprogesterona e a acetazolamida, estão mal estudados e não substituem o tratamento da causa.

Oxigénio na urgência

  • Alvo de 94 a 98% no doente sem risco de hipercapnia.
  • Alvo de 88 a 92% na doença pulmonar obstrutiva crónica e noutros doentes em risco de insuficiência hipercápnica (obesidade mórbida, doença neuromuscular, deformidade torácica), até haver gasometria.
  • Repetir a gasometria 30 a 60 minutos depois de iniciar ou mudar o oxigénio.
  • No retentor crónico o oxigénio em excesso sobe a PaCO2: agrava o desequilíbrio ventilação-perfusão ao abolir a vasoconstrição hipóxica, desloca o dióxido de carbono da hemoglobina (efeito Haldane) e, em menor grau, reduz o comando.

Insuficiência respiratória hipercápnica aguda

  • Na agudização da doença pulmonar obstrutiva crónica com pH de 7,35 ou menos e PaCO2 acima de 45 mmHg, a ventilação não invasiva com dois níveis de pressão é a primeira linha e evita entubações.
  • Entubação e ventilação invasiva quando há depressão grave da consciência, incapacidade de proteger a via aérea, falência da ventilação não invasiva ou paragem iminente.
  • Na hipercapnia crónica, a PaCO2 baixa-se devagar: uma descida rápida provoca alcalose pós-hipercápnica, com arritmias e convulsões.
  • Intoxicação por opioides: naloxona e suporte ventilatório até ao efeito.

Oxigenoterapia de longa duração (Norma DGS 018/2011)

critériovalor
Gasometriaem repouso, em ar ambiente, em fase estável, pelo menos 3 meses depois de agudização
PaO255 mmHg ou menos
ou PaO2 entre 56 e 59 mmHgcom cor pulmonale crónico, hipertensão pulmonar ou poliglobulia (hematócrito acima de 55%)
Duraçãomais de 15 horas por dia, incluindo a noite
Débitoo que mantém a saturação em 90% ou mais, aferido por oximetria em repouso, no sono e no esforço
Não indicadadispneia em doente normoxémico, regime de SOS, dessaturação apenas no sono (salvo como suplemento de ventilação não invasiva que não a corrija)
  • Oxigénio de deambulação: os mesmos critérios de PaO2, ou doente normoxémico em repouso que na prova de marcha de 6 minutos desce abaixo de 88% ou cai 4% para menos de 90%, corrigido pelo oxigénio.
  • Recomenda-se confirmar a cessação tabágica.

Ventilação não invasiva domiciliária (Norma DGS 022/2011)

situaçãoquando se inicia
Doenças restritivas sem doença do parênquima (neuromusculares, lesões vertebromedulares, deformações da caixa torácica)sintomas de hipoventilação e PaCO2 acima de 45 mmHg ou saturação abaixo de 88% durante 5 minutos seguidos à noite
Lesões vertebromedularestambém com saturação abaixo de 90% em mais de 10% do tempo de sono
Doenças neuromusculares rapidamente progressivasFVC abaixo de 50% do previsto ou pressão inspiratória máxima abaixo de 60 cmH2O, independentemente dos outros critérios
Esclerose lateral amiotróficaponderar com FVC de 70% ou menos
Doença pulmonar obstrutiva crónica, apesar de oxigenoterapia bem conduzida, sem tabaco, com terapêutica inalada e reabilitaçãoPaCO2 acima de 55 mmHg; ou 50 a 54 mmHg com dessaturação noturna não corrigida por oxigénio a 2 L/min, ou mais de duas agudizações por ano com acidose que precisou de ventilação
Obesidade-hipoventilação e síndrome de sobreposição (apneia do sono com doença obstrutiva)pressão binível, depois do diagnóstico por estudo do sono
Fibrose quística e bronquiectasiasbronquiectasias difusas em mais de 3 lobos, PaCO2 acima de 50 mmHg, FEV1 abaixo de 50%, FEV1/FVC abaixo de 70% e saturação abaixo de 88% durante 5 minutos com oxigénio a 2 L/min
  • A ventilação noturna melhora a hipercapnia diurna, prolonga a sobrevida e melhora a qualidade de vida na doença neuromuscular e da parede com hipercapnia diurna.
  • Na doença pulmonar obstrutiva crónica não se inicia a ventilação domiciliária durante o internamento por agudização: reavalia-se a hipercapnia 2 a 4 semanas depois, e o objetivo é baixar a PaCO2 para o normal. Antes de começar, procura-se apneia obstrutiva do sono.
  • Na doença neuromuscular progressiva acaba por ser precisa ventilação contínua; a falência ventilatória e as infeções por tosse ineficaz são os gatilhos habituais.
  • No doente restritivo sob ventilação pode ser preciso oxigénio suplementar para a hipoxemia residual, mas nunca isolado, pelo risco de deprimir o centro respiratório.

Tosse ineficaz

débito de pico da tosse assistidoconduta
abaixo de 160 L/minin-exsuflação mecânica obrigatória
abaixo de 270 L/minin-exsuflação mecânica ponderada
  • Completa-se com manobras de tosse assistida manuais, de preferência com oximetria.

Síndrome de obesidade-hipoventilação

  • Pressão positiva no sono logo que confirmado o diagnóstico, sem esperar pela perda de peso.
  • Com apneia obstrutiva grave (índice de apneia-hipopneia de 30 ou mais por hora), a guideline americana de 2019 aceita CPAP como primeira linha; a norma nacional prevê pressão binível. A pressão binível com frequência de segurança é a escolha quando não há apneia significativa, quando a hipercapnia persiste depois de semanas de CPAP bem cumprido e na descompensação aguda.
  • O doente internado por insuficiência respiratória sai com ventilação não invasiva até ao estudo do sono, feito nos 2 a 3 meses seguintes.
  • Perda de peso de 25 a 30% do peso corporal é o que resolve a hipoventilação; na prática exige muitas vezes cirurgia bariátrica.
  • Tratar a doença pulmonar obstrutiva crónica associada.

Outras medidas

  • Estimulação do nervo frénico ou do diafragma nas lesões medulares cervicais altas (acima de C3) e na hipoventilação central, com nervos frénicos funcionantes.
  • Vacinação contra a gripe e o pneumococo, cessação tabágica e tratamento precoce das infeções na doença da parede e neuromuscular.
  • Hiperventilação crónica: excluir causas orgânicas, explicar o mecanismo, eliminar os hábitos que a mantêm (suspiros, bocejos) e exercícios respiratórios; os beta-bloqueantes podem ajudar quando predominam palpitações e tremor.

Referências

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  6. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 022/2011, de 28/09/2011, atualizada a 11/09/2015: Cuidados respiratórios domiciliários: prescrição de ventiloterapia e outros equipamentos. Lisboa: DGS; 2015.
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