Abordagem ao doente com dispneia
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 13 perguntas neste tema
A dispneia é a perceção subjetiva de desconforto respiratório e um dos motivos mais frequentes de recurso ao serviço de urgência e à consulta. A abordagem centra-se em duas decisões: distinguir uma causa cardíaca, respiratória ou metabólica/outra, e reconhecer de imediato as causas agudas com risco de vida. Este capítulo organiza o raciocínio por sintoma, do mecanismo à plataforma diagnóstica e à atuação terapêutica.
A dispneia resulta de dissociação neuromecânica: um desajuste entre o comando ventilatório central (drive) e o retorno aferente que informa o cérebro sobre o resultado mecânico da respiração. Quando o esforço eferente exigido é desproporcionado à ventilação obtida, ou quando a informação aferente contradiz a expectativa central, gera-se a sensação de desconforto.
Vias aferentes envolvidas:
- Quimiorrecetores: os periféricos (corpos carotídeos) respondem sobretudo à hipoxemia e à acidemia; os centrais (bulbo) à hipercapnia/acidose do LCR. A hipercapnia é um estímulo dispneizante potente.
- Mecanorrecetores pulmonares: recetores J (justacapilares) estimulados pela congestão e pelo edema intersticial, explicando a dispneia da insuficiência cardíaca e das doenças intersticiais; recetores de estiramento e irritativos das vias aéreas.
- Aferências da parede torácica (fusos musculares, órgãos tendinosos) e ergorrecetores dos músculos respiratórios, que sinalizam esforço e fadiga.
Qualidades sensoriais (úteis na anamnese):
- Esforço/trabalho aumentado: doença neuromuscular, obstrução, fadiga.
- Aperto torácico (chest tightness): broncoconstrição, mediado por recetores de vias aéreas (típico da asma).
- Fome de ar (air hunger): sensação intensa de necessidade de respirar, ligada a drive elevado por hipercapnia, hipoxemia ou acidose.
Mecanismos por grande grupo causal:
- Cardíaca: elevação da pressão capilar pulmonar leva a congestão e estimulação dos recetores J; em decúbito, o retorno venoso aumenta a pré-carga (ortopneia, DPN).
- Respiratória obstrutiva (asma, DPOC): aumento da resistência e hiperinsuflação dinâmica, que desfavorece a mecânica diafragmática.
- Respiratória restritiva (fibrose, derrame, obesidade): redução da compliance e do volume pulmonar, com padrão rápido e superficial.
- Vascular (TEP, hipertensão pulmonar): aumento do espaço morto e estimulação reflexa.
- Metabólica: a acidose metabólica desencadeia hiperpneia compensatória (respiração de Kussmaul) por estímulo quimiorrecetor; anemia e hipoxemia comprometem o transporte/entrega de oxigénio.
- Psicogénica/hiperventilação: perceção amplificada e desregulação do controlo ventilatório, por diagnóstico de exclusão.
A avaliação começa pela estratificação temporal e de gravidade. Numa dispneia aguda, a prioridade é reconhecer instabilidade (SpO₂, frequência respiratória, tiragem, cianose, hipotensão, alteração de consciência) antes de qualquer exame.
Anamnese orientada: velocidade de instalação; ortopneia/DPN (cardíaca); dor pleurítica e hemoptise (TEP, pneumonia, pneumotórax); febre; sibilância; fatores de risco tromboembólico; exposições e ocupação; ortopneia versus dispneia de esforço isolada. A escala mMRC gradua o impacto funcional da dispneia crónica: 0 só com esforço intenso; 1 ao apressar ou em subida ligeira; 2 anda mais devagar que pares ou para para respirar em plano; 3 para após cerca de 100 metros ou poucos minutos; 4 demasiado dispneico para sair de casa ou ao vestir-se.
Plataforma diagnóstica (seletiva, orientada pela clínica):
- Gasometria arterial: define insuficiência respiratória tipo 1 (hipoxémica) vs tipo 2 (hipercápnica), calcula o gradiente alvéolo-arterial de O₂ e deteta acidose (metabólica com hiperpneia sugere causa não pulmonar).
- BNP/NT-proBNP: úteis sobretudo pelo valor preditivo negativo. NT-proBNP < 300 pg/mL (ou BNP < 100 pg/mL) torna a insuficiência cardíaca aguda improvável; os níveis de NT-proBNP sobem com a idade e a disfunção renal, o que exige cautela na interpretação dos valores de rule-in (ESC 2021/2023).
- D-dímeros: teste inicial na probabilidade baixa/intermédia de TEP após aplicar a regra de Wells ou YEARS; usar cut-off ajustado à idade (idade × 10 µg/L acima dos 50 anos) para aumentar a especificidade (ESC 2019). Um D-dímero negativo com baixa probabilidade torna o TEP muito improvável; não pedir se a probabilidade for alta, avançando para angio-TC.
- Radiografia de tórax: congestão, derrame, pneumotórax, consolidação, hiperinsuflação.
- Ecoscopia à cabeceira (POCUS): linhas B (edema/congestão), derrame pleural, deslize pleural ausente (pneumotórax), dilatação do VD (TEP), colapsabilidade da veia cava, derrame pericárdico/tamponamento.
- TC: angio-TC para TEP; TCAR para doença intersticial.
- ECG (isquemia, sobrecarga direita S1Q3T3, arritmia) e espirometria (obstrutivo vs restritivo) completam a avaliação, esta última na dispneia crónica.
A atuação segue dois planos em paralelo: estabilizar e tratar a causa.
Oxigenoterapia titulada: o objetivo é a SpO₂ 94 a 98% na maioria dos doentes agudos, mas 88 a 92% em doentes com risco de hipercapnia (DPOC, obesidade-hipoventilação, doença neuromuscular), para não abolir o estímulo ventilatório nem agravar a retenção de CO₂ (BTS 2017); o alvo 88 a 92% na agudização de DPOC é também endossado pela GOLD 2025. Oxigénio não corrige dispneia sem hipoxemia.
Ventilação não invasiva (VNI): CPAP ou BiPAP no EAP cardiogénico e a BiPAP na agudização hipercápnica de DPOC reduzem o trabalho respiratório e a necessidade de entubação.
Causas agudas com risco de vida a excluir e tratar de imediato:
- Pneumotórax hipertensivo: diagnóstico clínico (hipotensão, desvio traqueal, timpanismo); descompressão imediata com agulha seguida de dreno torácico. Não esperar por imagem.
- TEP com instabilidade hemodinâmica: trombólise sistémica (ou embolectomia); no TEP estável, anticoagulação.
- EAP: oxigénio, VNI, nitratos (se pressão arterial adequada) e diuréticos de ansa; sentar o doente.
- Anafilaxia: adrenalina intramuscular (1:1000, coxa) é a primeira medida; oxigénio, fluidos, e coadjuvantes.
- Tamponamento cardíaco: pericardiocentese.
- Asma/DPOC quase-fatal: broncodilatadores de curta ação (SABA + anticolinérgico) nebulizados, corticoide sistémico, oxigénio controlado, sulfato de magnésio na asma grave, e VNI/entubação conforme evolução (GINA 2025, GOLD 2025).
Tratamento etiológico dirigido após estabilização: antibiótico na pneumonia, otimização da insuficiência cardíaca, corticoide/broncodilatador na doença obstrutiva, correção de anemia grave.
Dispneia crónica refratária (doença avançada, oncológica ou terminal): reabilitação respiratória, ventoinha dirigida à face, e opióides em baixa dose para alívio sintomático quando a causa está otimizada. Nunca substituir a investigação por sintomático se a etiologia for reversível.
Referências
- Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD). Global Strategy for the Prevention, Diagnosis and Management of COPD: 2025 Report. Disponível em: https://goldcopd.org.
- Global Initiative for Asthma (GINA). Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2025. Disponível em: https://ginasthma.org.
- Konstantinides SV, Meyer G, Becattini C, et al. 2019 ESC Guidelines for the diagnosis and management of acute pulmonary embolism developed in collaboration with the European Respiratory Society (ERS). Eur Heart J. 2020;41(4):543-603.
- McDonagh TA, Metra M, Adamo M, et al. 2021 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure. Eur Heart J. 2021;42(36):3599-3726.
- McDonagh TA, Metra M, Adamo M, et al. 2023 Focused Update of the 2021 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure. Eur Heart J. 2023;44(37):3627-3639.
- Parshall MB, Schwartzstein RM, Adams L, et al. An official American Thoracic Society statement: update on the mechanisms, assessment, and management of dyspnea. Am J Respir Crit Care Med. 2012;185(4):435-452.
- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022.
- O'Driscoll BR, Howard LS, Earis J, et al. BTS guideline for oxygen use in adults in healthcare and emergency settings. Thorax. 2017;72(Suppl 1):ii1-ii90.
13 perguntas sobre Abordagem ao doente com dispneia
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